Capitulo 38 – O Pomar das Confissões
Narrado por Seraphina
A noite mal havia terminado, mas eu já estava desperta. Meu coração, inquieto, havia passado cada minuto em guerra com minha razão. Quando vesti meu manto escuro, cobrindo os cabelos e as formas, não era para me esconder — era para proteger o que ainda existia de nós.
O antigo pomar ficava atrás dos jardins centrais. Era um lugar esquecido, onde o perfume das macieiras selvagens ainda persistia no ar, mesmo com o tempo inclemente. Os primeiros raios do sol mal rasgavam o horizonte quando a vi ali.
Elara estava de pé, encostada no tronco de uma árvore torta. O vestido simples, o cabelo solto dançando com o vento, os olhos vermelhos. Ela havia chorado. E quando me viu, um soluço preso em sua garganta escapou. Eu senti a dor dela como se fosse minha.
— Pensei que talvez não viesse… — ela sussurrou, a voz trêmula.
— Eu viria mesmo que tivesse que atravessar os sete reinos… — respondi, me aproximando devagar, como se qualquer passo em falso pudesse quebrá-la.
Havia silêncio entre nós, mas não era vazio. Era carregado. Um silêncio que grita, que clama por palavras que temos medo de dizer.
— Eu sonhei tantas vezes com isso… — ela disse, os olhos marejados. — Que você viria. Que me tomaria nos braços. Que me diria para fugir contigo.
— E por que não me pede?
— Porque eu sou covarde — ela confessou, uma lágrima escorrendo. — Porque sei o que o mundo faria com duas mulheres. Porque tenho medo de arrastar você para um escândalo que destruiria tudo. Porque sei que meu nome será apagado da história e o seu manchado.
— Que valor tem um nome sem você ao meu lado? — caminhei até ela, toquei seu rosto com cuidado. — Elara, o que vivemos foi real. O que sentimos é amor. Eu sei disso. E você também.
Ela encostou a testa na minha, nossas respirações entrelaçadas.
— Quando me deito à noite… — ela sussurrou. — Eu sinto seu corpo como se ainda estivesse ao meu lado. Sinto suas mãos, sua boca… e isso me mata. Porque agora tudo isso será de outro homem. Porque vou entregar meu corpo a ele, e o meu coração vai estar contigo.
— Então não faça isso… — implorei. — Foge comigo. Vamos para o Norte. Lá ninguém nos conhece. Construímos nossa vida, mesmo que simples. Mesmo que escondidas. Mas será nossa.
Ela sorriu com os lábios, mas a dor estava nos olhos.
— Você ainda é uma princesa. E eu… eu sou só uma mulher. Uma mulher que ama você mais do que ama a si mesma. E é por isso que vou embora.
— Não! — a puxei para os meus braços, e ela desabou. Chorou no meu peito como se fosse a última vez. Eu a beijei, e o gosto era de lágrimas. De amor e de fim.
Nossos corpos se tocaram como tantas outras vezes, mas havia algo diferente. Havia desespero, havia urgência. Ela tirou o manto que me cobria e me tocou como quem diz adeus com os dedos. Me despiu como se decorasse cada centímetro da minha pele, como se tatuasse a memória do meu corpo dentro dela.
Nos deitamos sobre as folhas secas, e fizemos amor como quem se despede do mundo.
Ela gem*u meu nome com a voz quebrada. E quando terminou, ficou em silêncio, os olhos fixos no céu que clareava.
— Quando me levanto daqui, eu deixo você — ela disse.
— E eu espero que um dia volte pra mim — sussurrei, acariciando seu rosto. — Porque mesmo que você se vá… eu continuarei sendo sua.
Ela se levantou, ajustou o vestido, e foi embora sem olhar para trás.
E eu fiquei ali. No chão. No pomar onde um dia amei.
No lugar onde perdi o que mais importava para mim.
Fim do capítulo
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