Capítulo 37 – O Reencontro no Palácio D’Armont
Narrado por Seraphina
O palácio da família D’Armont não era tão grandioso quanto o de Valtoria, mas havia um charme antigo, quase intimidador. Era construído em pedra clara, envolto por jardins simétricos e fontes suaves. Tudo parecia tão perfeitamente planejado, tão frio.
O convite havia sido formal, protocolar — como manda a etiqueta. Mas o recado escondido… aquele bilhete sussurrado no verso era como um pedido mudo, uma brecha entre as regras do mundo.
Por isso fui. Por ela.
Minha carruagem foi recebida com todas as honras que uma princesa merece. Tambores tocaram, empregados se curvaram. Mas nada disso me importava. Eu só procurava um rosto.
E então, eu a vi.
No alto da escadaria, usando um vestido de tom marfim, bordado com pequenas pérolas nas mangas, os cabelos trançados de maneira simples. Elara.
Ela não sorria. Não como antes.
Seus olhos encontraram os meus e, por um segundo, o tempo parou.
O mundo inteiro poderia ruir naquele instante, e eu ainda assim teria voltado só para sentir aquele olhar novamente.
Ela desceu as escadas com a delicadeza de uma mulher prestes a viver um destino que não escolheu. E eu fiquei ali, imóvel, sufocada entre o orgulho e o desespero.
Lorde Renard veio recebê-la. Ele beijou sua mão, apresentou-a com reverência. Seus gestos eram educados, mas eu via — ele não a conhecia. Não como eu. Não sabia o som da sua risada contida, nem como ela mordia o lábio quando ficava nervosa, nem como estremecia ao toque nos ombros.
— Alteza — Elara curvou-se diante de mim, com um tom cerimonioso.
Mas seus olhos… aqueles olhos gritavam meu nome.
— Senhorita de Velliar — respondi com a mesma formalidade, lutando contra o tremor na minha voz.
Nossos dedos se tocaram por um breve momento quando trocamos os cumprimentos. O calor dela. Ainda era o mesmo. Ainda queimava.
Durante o jantar, ela sentou-se distante. Me olhava quando achava que ninguém via. Eu, por minha vez, mal conseguia levar a taça aos lábios.
O rei, meu pai, sentado ao meu lado, observava tudo em silêncio. Sentia a tensão. Sabia que havia algo oculto ali.
E como eu temia o que ele poderia descobrir.
Quando a dança começou, recusei todos os convites. Me retirei para os jardins. Precisava respirar, fugir.
Mas ela veio.
Elara saiu em silêncio, os pés leves sobre o mármore. Quando a vi, senti o peito apertar.
— Você veio — ela sussurrou.
— Como não viria, depois do que escreveu? — minha voz falhou.
— Eu precisava que soubesse… que ainda é você. Sempre foi.
— E você vai casar com ele?
— Eu… — ela hesitou. — Eu tenho medo. De te perder. De causar escândalo. De ver você se afastar.
— Elara, você nunca foi só minha dama. Nunca foi apenas uma companhia — respirei fundo, os olhos marejados. — Você é a minha vida.
Nos encaramos como duas mulheres em ruínas, tentando salvar uma à outra. Eu queria beijá-la. Gritar. Levá-la embora.
Mas a realidade nos cercava. O palácio, os convidados, o rei.
As paredes ouvem, e os segredos se tornam sentenças.
— Me encontra no antigo pomar ao nascer do sol — ela sussurrou. — Só me encontra, Seraphina.
E então foi embora, antes que eu pudesse tocá-la.
Mas era tudo o que eu precisava.
Um fio de esperança. Um amanhecer entre as sombras.
Fim do capítulo
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