Capitulo 36 – O Convite e o Recado Escondido
Narrado por Seraphina
O sol mal havia se erguido quando a governanta adentrou meus aposentos com uma pilha de envelopes e recados formais. Meu nome, sempre cercado por anúncios e obrigações. Ordens, pedidos de audiência, avisos sobre o baile da primavera, e por fim, o envelope que fez meu coração parar.
Era delicado. Com bordas douradas, um brasão modesto, mas firme — o brasão da casa do conde.
Meus dedos tremeram. Não era o brasão do conde, mas do primo dele.
O nome em destaque:
“Elara de Velliar e Lorde Renard D’Armont”
Por um momento, não compreendi. Apenas encarei aquelas palavras como se estivessem em uma língua antiga, perdida.
Meu nome, Seraphina de Valtoria, era uma prisão dourada.
O dela… agora estava entrelaçado ao de outro.
Abri o convite. As palavras formais dançavam diante dos meus olhos embaçados. A celebração do noivado. A confirmação do juramento. A união das famílias.
Mas foi ao virar o convite que o mundo realmente desabou.
Na parte de trás, quase escondida entre os arabescos do papel caro, havia uma caligrafia pequena, apressada, mas inconfundível. Era dela. Minha Elara.
“Se meu olhar não puder te alcançar nesse dia, que ao menos minhas palavras cheguem até você. Eu nunca deixei de te amar. Nunca fui capaz de esquecer. Você foi e sempre será o amor da minha vida.”
A carta caiu das minhas mãos.
Não, não uma carta. Um recado. Um grito contido em tinta e saudade.
Meus olhos se encheram de lágrimas que eu não pude conter. Desceram como se cada uma carregasse o peso da escolha errada, do silêncio imposto, do amor proibido.
Como poderia sorrir enquanto a mulher que eu amava se entregaria a outro?
Como suportar vê-la com o primo do homem a quem fui prometida, fingindo diante do reino que tudo estava certo, que tudo era justo?
Minha mente vagava. Imaginei Elara em seu vestido claro de noiva, os olhos baixos, os lábios tremendo ao dizer "sim" a um homem que não era eu.
Imaginei-o tocando sua cintura, conduzindo-a pelo salão, como eu a conduzia nos corredores escuros do palácio.
E pior... imaginei-a se entregando a ele. Não como minha dama, mas como esposa.
O pensamento me rasgava por dentro.
A princesa de um reino apaixonada por uma camponesa.
A princesa de um reino, condenada ao silêncio.
Eu a tive nos braços. Tive seu riso, seu corpo, sua alma.
E a perdi.
Agora, todos os sinos soariam por ela. Mas não por nós.
E ainda assim, no fundo do meu peito, um sopro de esperança nascia com aquele recado escondido:
“Eu nunca deixei de te amar.”
Fim do capítulo
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