Capitulo 33 – Os Dias Que Mataram o Sol
Narrado por Elara
Os dias seguintes foram os mais longos da minha vida. Era como se o tempo tivesse parado em agonia — as horas arrastavam correntes nos corredores do palácio. A música dos salões era ruído, o perfume das flores enjoativo. Tudo perdeu a cor desde que deixei Seraphina naquela madrugada.
No espelho, meu reflexo parecia um retrato de luto. Os olhos cansados, as olheiras profundas, e a boca que já sorriu por ela… agora só sabia guardar silêncio.
Fingir. Esse virou meu ofício.
Fingir que dormi bem.
Fingir que o conde, seu primo, me agradava.
Fingir que meu coração não gritava o nome dela a cada passo.
Seraphina... minha princesa, minha ruína.
A governanta me seguia por todos os lados. Era claro que estávamos sendo vigiadas. Eu sabia, ela sabia. O rei tinha olhos em todo canto. A corte murmurava em silêncio. E ainda assim, havia momentos em que nossos olhares se cruzavam — e era ali, naquele segundo de silêncio, que tudo desmoronava por dentro.
Ela fingia. Eu fingia.
Mas nossos olhos nunca aprenderam a mentir.
No jantar, eu sentava ao lado do homem com quem o rei me prometeu. Ele me falava de viagens, de posses, de castelos distantes. Eu apenas sorria, mas nunca o via de verdade. Meus olhos buscavam apenas uma pessoa naquela mesa.
Seraphina.
Ela estava sempre à cabeceira, vestida em tecidos nobres, mas o rosto sem brilho. Seus olhos me evitavam, mas às vezes, nos espelhos do salão, eu a pegava me observando. Quando notava que eu via, ela desviava o olhar e enchia a taça de vinho. Ela não sorria mais como antes.
As noites se tornaram meu maior castigo. A cama era fria, e o lençol nunca tinha o cheiro dela. Meus dedos tremiam, lembrando do calor de sua pele, do modo como dizia meu nome baixinho… da forma como nossos corpos se encaixaram como prece e resposta.
Seraphina não era só um amor proibido. Ela era meu lar.
E agora, eu vagava sem teto, me escondendo dentro de mim.
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Narrado por Seraphina
As paredes do meu quarto pareciam apertar mais a cada noite. O silêncio gritava. Eu deitava e fechava os olhos, tentando apagar a lembrança dela naquela madrugada, mas tudo ainda estava aqui — o cheiro do cabelo dela, o gosto da pele, os suspiros entre as sombras.
Eu a deixei ir. E ela foi.
Troquei os lençóis, mandei queimarem a camisola que ela esqueceu — mas nada apagava Elara de mim.
No salão do trono, eu escutava os planos de casamento com o conde, mas minhas mãos suavam, e minha garganta travava. Quando ele sorria para mim, tudo que eu queria era gritar.
Meu pai achava que estava controlando tudo. Mas ele não sabia o quanto o coração de uma filha pode se rebelar, mesmo em silêncio.
E então, certa tarde, no jardim, vi Elara caminhando com o primo do conde. Ele a elogiava. Oferecia flores. Tentava fazer graça.
Ela sorria…
Mas não era o sorriso que ela me dava.
Era vazio, educado.
Era de mentira.
Naquela noite, bebi vinho demais.
E chorei como nunca.
Porque não existe guerra pior do que amar alguém e ter que fingir que não.
Fim do capítulo
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