Capitulo 32 – Onde Enterrei Meu Amor
Narrado por Elara
O céu ainda estava escuro quando deixei os aposentos dela. O corpo latej*v*, mas não de dor. Era a ausência. O vazio brutal que começou assim que meus pés tocaram o chão frio. A camisola amarrotada pendia por meus braços, minha alma em pedaços espalhados no tapete onde deixei a última parte de mim.
Fechei a porta sem fazer barulho. Meus olhos se encheram de lágrimas assim que a madeira me separou dela.
Seraphina. Minha princesa. Meu amor.
Eu não devia ter ido. Mas também… eu não consegui ficar longe.
Durante dias eu suportei o silêncio dela, a dor dos olhares desviados, o castigo de ser substituída. O palácio inteiro cochichava, as paredes sabiam mais do que podiam falar, e mesmo assim eu me obrigava a sorrir em banquetes e sentar ao lado do homem com quem o rei decidiu que eu me casaria.
O primo do conde. Ele era gentil. Bonito, até. Mas não era ela. Nunca seria.
E naquela noite, eu quebrei.
Esperei o momento exato entre a troca da guarda. Cruzei os corredores com o coração saltando no peito, as mãos suadas, o corpo ardendo de saudade. Ela me olhou como se tivesse esquecido de respirar. Eu deixei a camisola cair e disse o que meu coração escondia havia tempo demais. Me entreguei a ela como se o mundo fosse acabar com o nascer do sol.
E acabou.
Eu a beijei como quem se despede. A toquei como quem se despe da alma. A fiz minha. E me deixei ser dela. Pela última vez.
Agora, enquanto caminho pelos jardins em direção aos meus aposentos, minhas mãos ainda tremem. O corpo ainda sente a dela, o calor, a força, o desejo. Mas o coração? Ele grita.
Como eu posso me casar com outro homem depois de pertencer àquela mulher? Como posso sorrir diante do rei, sabendo que a filha dele, sua herdeira, é o amor da minha vida?
Parei à beira da fonte, o véu da madrugada ainda tocando as pedras. Me ajoelhei. Chorei. Baixinho. Com o rosto entre as mãos.
Eu me odeio por ter ido embora.
Mas me odiaria mais se ficasse.
Não quero ser o escândalo que mancha a honra dela. Nem o motivo de sua ruína.
O rei nunca nos permitiria.
A corte nos destruiria.
Ela perderia o trono.
E então eu fiz a única coisa que achei certa:
Enterrei meu amor.
Dentro de mim.
Com flores imaginárias e um epitáfio silencioso:
“Aqui jaz o amor que não pôde viver.”
Fim do capítulo
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