A Trégua das Almas em Silêncio
Uma semana havia se passado desde que Lia tivera sua magia drenada. Sete dias em que seu corpo, antes vibrante com energia mística, agora parecia um recipiente vazio. Ela permanecera no quarto de hotel a pedido de Elisa, como se o ambiente neutro pudesse abafar os ecos do trauma. A conversa sobre a maternidade de Enzo já havia ocorrido, e, com alívio, não se tornara uma rachadura na relação entre elas. Mas o silêncio crescente entre Lia e o resto do mundo dizia mais do que qualquer discussão poderia.
Os ferimentos de Elisa, que ainda marcavam sua pele com tons arroxeados e cicatrizes em fase final de cura, contrastavam com as feridas internas de Lia, que pareciam infeccionar a cada noite. A ausência da magia criava nela uma sensação de descompasso vital. Seu corpo, acostumado a fluir com energia constante, agora parecia se arrastar. Mais do que a falta de poderes, era a falta de pertencimento à sua própria essência que a consumia.
Desde a última vez, Lia não comentava mais sobre as alucinações que vinham em ondas: visões do mundo-prisão, gritos sufocados, o cheiro adocicado e pútrido da morte pairando no ar mesmo quando não havia cadáver algum. Ela não ousava dividir isso, achava que Elisa já tinha preocupações demais.
Era uma manhã de segunda-feira, e o sol já tentava se infiltrar pelas frestas da janela do hotel. Elisa estava ali, arrumando-se. Usava uma blusa de tecido leve que colocava cuidadosamente por dentro da calça de alfaiataria preta. O rosto sereno, ainda mais iluminado pela luz que entrava, tornava-se uma visão divina aos olhos de Lia.
— Bom dia, você tem mesmo uma beleza divina… — murmurou ela, a voz ainda rouca de sono, um sorriso cansado nos lábios.
Elisa virou-se com ternura, aproximando-se e oferecendo-lhe um selinho.
— Bom dia! São seus olhos. Eu poderia dizer o mesmo de você… Sempre acorda linda. — Deu mais um beijo, dessa vez na curva do pescoço. — Como está se sentindo hoje?
Lia ficou em silêncio por alguns segundos, mas deu apenas um leve sorriso em resposta. Não queria pesar o clima logo cedo falando que estava se sentindo acabada e que foi mais uma noite que passou em claro lutando contra a própria mente.
— Eu entendo… — Elisa parecia saber mais do que Lia tinha dito até aquele momento. — Vamos resolver isso também. — Levou uma mão até o rosto de Lia e afagou com delicadeza. — Eu já pedi o café da manhã pra você, tudo bem? Vou comer algo no caminho. — disse, a voz suave, mas objetiva.
— Não… Tinha esquecido disso. — Lia resmungou. — Você tem mesmo que trabalhar hoje? Não pode tirar mais tempo de folga? — Lia perguntou, com uma manha quase infantil que tentava esconder o cansaço emocional.
— Eu tiraria mais dias, mas… hoje é o primeiro dia da minha nova assistente. Tô um pouco insegura com essa contratação… Eu não costumo contratar por favor, mas eu devia isso à mãe dela. Então, preciso ser ainda mais rigorosa na minha avaliação. — Elisa respondeu, enquanto verificava a bolsa e organizava a agenda. — Preciso estar lá para ver se ela é realmente qualificada. Não posso deixar qualquer pessoa na função que ela vai ocupar. Tenho que ver com meus próprios olhos.
— Ei, relaxa. Você mesma disse que ela era qualificada, só não tem experiência. E, além disso, a Marcela tá lá. Ela vai dar o suporte. Só… não seja muito carrasca com a garota no primeiro dia, tá? — Lia disse, se organizando na cama, sentindo o peso do próprio corpo.
— Vou tentar… — Elisa respondeu, sorrindo de leve. — Mas se você me falar que não está se sentindo bem para ficar sozinha, posso abrir uma exceção e ficar.
— Vou sentir sua falta, isso é um fato, mas não quero prender você. Sei que é importante. Desculpa ter feito manha como uma criança birrenta há alguns minutos… É que estou ainda mais acostumada a ter você por perto.
— Eu sei. Juro que vou recompensar essa distância quando eu voltar. — Elisa deu um sorriso travesso, que Lia conhecia bem. — Mas e você, o que vai fazer hoje? Sem mim?
— Não sei… talvez caminhar um pouco no mundo lá fora, ir numa feira… tentar respirar ar de verdade. Já me sinto quase parte desse hotel. Não estou precisando de ajuda para enlouquecer no momento.
— Você deveria ficar por aqui, é mais seguro. — Elisa disse, com cautela no tom.
— Ai, Elisa… se eu ficar mais tempo enfurnada aqui, eu vou surtar. Literalmente.
A hesitação de Elisa era visível. Ela queria protegê-la, mas conhecia bem aquela necessidade de Lia de se reconectar com o mundo, ela não conseguia ficar isolada por muito tempo, mas Elisa temia que ela estivesse vulnerável demais nesse momento sem magia.
Porém, após dar de ombros, ela depositou um beijo na testa da bruxa, selando o consentimento silencioso.
— Eu só me preocupo com você. Principalmente nesse momento. Não vou estar por perto para te proteger. E você sem magia…
— Eu prometo que vou tomar cuidado e vai ser só uma voltinha. Só preciso sair daqui um pouco. Não vou muito longe.
— Ok… Por favor, não se afaste. Lembre que a barreira geográfica não é um obstáculo difícil para os nossos inimigos. — Elisa não estava muito satisfeita, mas sabia que era inútil tentar convencer Lia do contrário. — Me mantenha atualizada. Estarei com o celular o tempo todo.
— Eu sei, vou estar bem atenta, não se preocupe. Pode ficar tranquila, tudo bem? Esse hotel é bem remoto. Vou te manter atualizada.
Lia levantou da cama, sem se importar de se cobrir com o lençol, só para ficar na altura de Elisa.
A nefilin a observou se aproximar, pousando os olhos no corpo nu e em todas as tatuagens que percorria as curvas e a pele.
Deixou apenas poucos centímetros de espaço entre elas.
— Pode trabalhar tranquila. Vai ser uma tortura te aguardar voltar, mas eu consigo passar por isso. — Lia segurou o rosto de Elisa com as mãos e depositou um beijo lento e úmido. — É melhor você ir… Antes que eu faça você atrasar.
Elisa sorriu contra o beijo e depois se afastou alguns passos.
— Certo, é melhor que eu vá embora logo. Lembra que pedi café da manhã para você.
— Tô lembrada, inclusive, estou morta de fome.
Lia se jogou novamente na cama, só para tomar coragem de iniciar o dia.
Logo depois de Elisa ir ao trabalho e de tomar o café da manhã, Lia fez o que prometera. Caminhou por ruas movimentadas não muito longe do hotel onde estavam. Encontrou uma feira próxima que estava cheia de cores, cheiros e sons. O aroma doce de frutas maduras e o barulho das vozes comuns quase afastaram os pesadelos.
No meio do vai e vem de pessoas, os flashes voltaram. O mundo se embaralhou com o mundo-prisão, corpos pendurados, gritos que só ela ouvia, sombras onde não havia ninguém. Seu peito se apertou, ela mal conseguia respirar.
De volta ao hotel, tirou as roupas às pressas, entrando embaixo do chuveiro como se a água pudesse lavar sua mente. Mas as visões continuaram. O cheiro pútrido, agora mais forte, parecia emanar de dentro de si. Os grunhidos vinham de todos os cantos.
Acendeu incensos, colocou uma música de meditação antiga, com cânticos harmônicos tibetanos, e sentou-se em posição de lótus. Seus dedos tremiam, a mente, ao invés de acalmar, girava como uma espiral de loucura, mas algo mudou, um novo som surgiu, distinto, o som inconfundível de um portal sendo aberto.
E junto dele, um cheiro, um perfume amadeirado e intenso. Familiar. Confortável.
— Lia, você tá bem? — a voz de Ísis rasgou o véu da confusão mental.
Lia abriu os olhos, viu Ísis parada ali, mas por um segundo, duvidou da realidade.
— Ísis…? — sussurrou, com a voz embargada, olhando-a com suspeita. — Como você me achou?
— Você não pode desaparecer assim. — Ísis sentou-se de frente para ela, no chão. — Você não responde, e a Elisa só dizia que estava tudo bem… então fui obrigada a invadir sua privacidade.
— Desculpa, Ísis… eu não tô bem. Eu não queria… Não quero ser um peso pra mais ninguém. — Lia murmurou, tentando abafar os sons dentro da própria cabeça.
— Ei… você sabe melhor do que ninguém que eu entendo o que se passa aí dentro. Não precisa ter vergonha de mim. — Ísis tocou as mãos dela, num gesto calmo e firme, mas Lia ainda a olhava com receio.
— Se você for uma alucinação, isso vai me quebrar de vez… Nas últimas horas as alucinações estão descontroladas.
— Eu não sou. Tô aqui de verdade. As lembranças do mundo prisão não são reais. Elas não podem te machucar.
— Como você sabe disso? — Lia questionou, ainda mais confusa.
— Eu consigo ler mentes, lembra? Você tá sem magia, sem escudo mental. Sua mente tá escancarada, Lia. — Ísis disse com um sorriso gentil.
— Você tá na minha mente, então?
— Não exatamente, mas seus pensamentos estão bem altos, sim. Vejo o que está passando com as visões do mundo prisão.
Lia tentou conter, mas desmoronou com a iminência da fragilidade em que se encontrava. Caiu em prantos. Ísis a envolveu num abraço acolhedor, permitindo que a cabeça de Lia repousasse sobre seu peito.
— Você não tá sozinha, Lia. A gente tá preocupada com você. Eu tô. — Ísis disse, acariciando seus cabelos. — Você não é um peso, você é nossa família. Ainda que sejamos uma família um pouco disfuncional, família fica junto e se ajuda, tá bem? Não sei como Elisa aceitou se isolar com você.
— Não, a Elisa está ajudando, Ísis. A culpa foi minha em decidir me isolar.
Ísis sentiu compaixão pela amiga. Não era momento de julgamentos.
— Você não tem culpa, Lia. Vem, vou te dar dois comprimidos dos que eu tomo… vão te ajudar a desacelerar a mente.
Lia segurou os comprimidos, sentindo as dúvidas virem a tona.
— Mas… eu tô grávida. Será que posso tomar? — Lia recuou.
— Pode, sim. Não há contraindicação. Numa situação como essa, você pode tomar.
Lia segurou os comprimidos com dedos trêmulos e os engoliu. Elas foram até a cama do quarto, sentaram e permaneceram ali, em silêncio, até que a medicação começasse a surtir efeito. Lia se encolheu com medo de não funcionar, as mãos abraçando os joelhos.
Mas gradualmente, o som ensurdecedor em sua cabeça foi se acalmando.
Ísis a observava, em silêncio.
— Em todos esses anos, você nunca tinha entrado na minha mente. — Lia comentou.
— Você nunca tinha desaparecido grávida e sem magia. — Ísis retrucou, com um sorriso triste. — Por favor, nunca mais faça isso.
— Desculpa… — Lia deu de ombros. — E a Ariel? Como ela tá?
— O poder dela tá completamente instável. Qualquer pico emocional e ela perde o controle. Eu tentei manter o feitiço que você usava, mas eu não sou estável o suficiente. Tô praticamente apagando ela três vezes por dia ou então medicando, pra ela se manter calma. Mas com a Eduarda ali, é impossível.
— Como assim a Eduarda tá lá?! — Lia se levantou ligeiramente, irritada. — Ela me mandou um áudio, mas eu não entendi muito bem e ela não me respondeu de volta até agora.
— É uma história longa. Quase matei ela. Literalmente. Tá toda queimada e minúscula. Você sabe, ela tem aquele poder irritante de mudar de tamanho e agora tá assim o tempo todo. A gente tá cuidando dela, afinal, foi culpa minha. Eu me descontrolei.
— Tenho certeza que fez o que era necessário. — Lia preferiu ficar do lado da amiga, talvez, influenciada pela raiva que tem de Eduarda. — Sobre a Ariel, talvez a Zina consiga replicar o feitiço que eu uso. Além disso, ela é empata, pode conter as emoções da Ariel como fazia antes.
— Pode ser uma alternativa, sim. Mas a Ariel talvez não aceite.
— Melhor do que você se esgotar ou ela perder o controle. Tenta falar com ela sobre isso quanto puder. — Lia sentiu um olhar diferente vindo de Ísis ao falar de Ariel. — Mas mudando de assunto… você e a Ariel…?
— A gente se beijou. Mas é só isso. Ela gosta da Ana. E eu... sou complicada demais. Não quero me envolver de verdade com ninguém agora. E ela, bom, vai acabar ficando com a Ana.
Lia pensou silenciosamente: "Não seria um problema para Ariel ficar com as duas."
— Eu não sou poligâmica, Lia, você sabe que eu não curto dividir. — Ísis respondeu automaticamente, ouvindo os pensamentos da outra.
— Sai da minha cabeça, Ísis. — Lia falou séria, mas com um tom bem-humorado.
— Desculpa. Mas sua mente tá completamente aberta. Inclusive, a Elisa já deve ter percebido também. Vocês precisam conversar.
— Eu não queria trazer mais um problema pra ela. Mas tudo bem… só me promete que vai parar de me invadir.
— Prometo. Posso fazer um amuleto para evitar isso. Quer ir pra casa? Lá eu faço.
— Você acha que devo voltar?
— Se se sentir confortável, sim.
— Certo. Eu quero. Já não aguento mais esse hotel. Você me leva? A Elisa foi trabalhar, em casa eu aviso a ela.
— Sim, vamos.
Ísis abriu um portal, as duas atravessaram. Lá, reforçou os encantos da casa, fez o amuleto, e enquanto fazia, Lia a aguardava deitada no sofá.
Ao chegar mais perto, percebeu que a amiga dormia, envolvida por um silêncio finalmente suportável. Não quis atrapalhar. Aproveitou para trabalhar no amuleto que protegeria os pensamentos de Lia enquanto ela estava vulnerável.
****
Enquanto isso, do outro lado da cidade, o clima era outro. Elisa, no ambiente da Wicca Enterprise, era uma figura quase irreconhecível para quem a conhecia intimamente. No trabalho, ela se transformava em uma entidade firme, estratégica e, para muitos, intimidadora. Não sorria e quando sorria, geralmente era um mau presságio.
Mas naquela manhã, as palavras de Lia ainda ressoavam em sua cabeça. "Tenta não ser tão carrasca." Ela havia prometido tentar, embora mudar décadas de hábito não fosse uma tarefa simples.
A nova secretária, Siena, tinha apenas 24 anos, cabelos ruivos vibrantes que combinavam com sua personalidade ousada, pele clara salpicada de sardas e olhos verdes que pareciam não temer nada, nem mesmo Elisa. Era filha de um ex-vereador envolvido em escândalos de corrupção e de uma socialite com quem Elisa já havia trabalhado em projetos beneficentes. Quando o pai foi preso e os bens congelados, Siena e sua mãe tiveram que recomeçar do zero. Contratá-la foi mais um favor político que uma escolha empresarial. Elisa sabia disso e também sabia que teria que controlar seus impulsos naturais de cobrança.
No momento em que Elisa listava, com rapidez e precisão, uma longa sequência de tarefas, Siena, a nova funcionaria de Elisa, estava de pé, equilibrando uma xícara vazia e uma pilha de documentos.
— Dona Elisa, um momento, por favor. — Siena interrompeu, fazendo Elisa levantar os olhos da tela com uma expressão gélida. — Foram tantas coisas e tão rapidamente, que não absorvi tudo que você falou. Vou deixar essas coisas na minha mesa e volto já para anotar tudo certinho. Com licença.
Sem esperar resposta, Siena saiu da sala, deixando Elisa atônita. Interrupções não eram comuns. Insolência, menos ainda. Mas por algum motivo, aquilo não a irritou. Apenas a surpreendeu.
Minutos depois, Siena retornou com um tablet em mãos e uma caneca de café recém-passado, que entregou calmamente à chefe.
— Agora sim. — Disse, sentando-se com naturalidade diante de Elisa. — Pode me dizer tudo. Vou fazer um checklist. — Balançou o tablet com leveza.
Elisa inspirou fundo, controlando o impulso de lembrá-la do organograma hierárquico.
— Até onde você ouviu antes?
— Parei de absorver quando percebi que era minha função te trazer café. — respondeu Siena, com um sorriso provocador. — Não lembrava disso fazer parte das atribuições do cargo.
Elisa sorriu de volta. Um sorriso fino, perigoso. Siena não sabia, mas aquele sorriso era um aviso disfarçado.
— Pois, comece adicionando ao seu checklist: "reler o meu contrato de trabalho". — Elisa a encarou por alguns segundos, esperando que tivesse ficado claro. Siena apenas balançou a cabeça em afirmativa. — Mas vamos lá. Do começo…
As horas seguintes transcorreram de forma produtiva. Siena se mostrava atenta, rápida para aprender, mesmo com sua informalidade e ousadia. Ousadia essa que facilmente seria motivo de não manter o contrato, mas não era o caso, no momento.
Marcela, secretária da Ariel, ajudava nos bastidores com orientações práticas. Elisa seguiu sua agenda com precisão cirúrgica.
Antes do almoço, havia uma reunião com um fornecedor que precisava ser presencial. Elisa decidiu levar Siena para observar.
A reunião, no entanto, rapidamente azedou. O homem que representava o fornecedor era grosseiro, impaciente, e logo fez um comentário misógino.
— É por isso que esse tipo de coisa não devia ser tratado com mulher. Vocês ficam afetadas e levam tudo pro pessoal...
O sorriso que se formou nos lábios de Elisa era pura ameaça envolta em cetim.
— Veja bem, você é o único afetado aqui. Mas vou facilitar para você com duas opções. — Ela recolheu seus documentos com calma glacial. — Você pode assinar o contrato nos termos que acordamos, ou não renovamos. Tem até às 17h para decidir. — E saiu da sala, sem olhar para trás, deixando Siena ali.
O homem riu, presunçoso.
— Então, garota. Você é auxiliar dela, né?
— Sim. — respondeu Siena com firmeza.
— Quais são minhas opções, então? Aquela maluca não vai perder o contrato por uns reais a mais…
— A Dra. Elisa está perfeitamente sã. E sendo sincera, acho que ela deveria mesmo reincidir o contrato. Mas ela foi clara. Ou você assina até às 17h, ou estamos fora. — Siena o encarou sem medo.
Ele bufou, assinou o papel com raiva, e Siena ainda indicou a linha correta com a tranquilidade de quem sabia seu lugar. Saiu da sala com os documentos e encontrou Marcela para o almoço.
Durante a refeição, Marcela puxou assunto.
— E aí, como tá sendo trabalhar com a temida Elisa Del'mar?
— Ai... ela é exigente demais. Passa dos limites às vezes. Mas não vou deixar ela me pisar. — respondeu Siena entre garfadas.
— Cuidado, viu. A única que peitava ela era a Galenia, mas veja só, ela não trabalha mais aqui e olha que ela também é dona da empresa... — Marcela brincou.
— Bom, eu tô precisando do emprego, mas se ela me demitir, minha mãe arruma outro pra mim. — Siena respondeu com um riso leve, alheia ao próprio privilégio.
Mais tarde, Elisa a convocou para substituir uma reunião remota enquanto ela resolvia um assunto urgente, Siena assumiu com segurança. Ao final do dia, retornou à sala da chefe.
— Ele assinou. — disse, colocando os papéis sobre a mesa.
— Eu não achei que ele cederia. — Elisa murmurou.
— Eu precisei reter ele um pouco, mas deu certo. Tenho mais habilidades do que você imagina, Dona Elisa. — Siena piscou com certa altivez.
— Agradeço. Mas da próxima vez, pode sair junto comigo. — Elisa respondeu. — E a reunião?
— Como você previu. Te mandei a ata por e-mail.
Elisa assentiu.
— Primeiro dia produtivo. Confesso que tinha um pé atrás com você, mesmo com sua formação. Mas me surpreendeu positivamente. Você tem potencial. Vamos trabalhar bem juntas.
— Uau... obrigada. Mas você é muito estranha, sabia? — Siena disse, incrédula com o elogio inesperado.
Elisa soltou uma risada genuína.
— O que foi agora?
— Você passou o dia me tratando como qualquer coisa e agora me elogia? Isso é estranho.
— Sinto que tenha se sentido assim. Aqui, prezo pela interação profissional. Não é pessoal. — A voz de Elisa voltou a ser firme. — Dito isso, obrigada pelo seu trabalho hoje. Vá descansar.
Ela mal terminou de falar quando o celular tocou.
— Oi, amor. — disse assumindo um tom meloso completamente oposto ao que usava com Siena segundos antes e sinalizando para Siena sair.
— Oi. Só liguei para avisar que tô em casa. — A voz de Lia do outro lado da linha soava mais leve do que nos dias anteriores.
— Certo. Tô indo praí.
— Traz alguma coisa para comer.
— Tá bom. Não demoro. Te amo.
Elisa chegou em casa pouco tempo depois, trazendo comida do restaurante favorito de Lia. A mesa foi posta sem cerimônia, pratos simples e guardanapos dobrados com cuidado.
Enquanto comiam, Lia quebrou o silêncio.
— Eu tomei um remédio hoje. Ísis me deu. Daqueles que ela toma.
Elisa levantou os olhos do prato com atenção imediata.
— Eu imaginei. Na verdade... eu já sabia sobre as alucinações. Que elas continuaram, mas você não queria me contar, então tentei respeitar seu tempo. Não quis forçar.
Lia pareceu surpresa.
— Você sabia?
— Sua mente... mesmo antes, ela vibrava diferente. E agora, sem magia, você tá… Estava exposta. Eu consigo sentir.
— Desculpa por esconder. Eu só não queria te sobrecarregar.
— Lia... você carrega o mundo nos ombros. Eu só quero carregar um pedaço com você. Mas esse remédio... você tá grávida. Mesmo que a Ísis tenha dito que não há problema, eu quero que a gente veja isso juntas, com uma médica da nossa confiança.
— Tá bom. A gente faz isso. Mas hoje... só hoje... eu queria uma noite de paz.
Elisa sorriu, se aproximou, segurou as mãos da Fênix, e beijou seus dedos um a um.
Mais tarde, com a luz baixa, lençóis perfumados e a brisa noturna circulando pelo quarto, elas se deitaram juntas. Elisa envolveu Lia pelos ombros, acariciando sua nuca com ternura.
Lia dormiu primeiro, respirando compassadamente. Elisa permaneceu acordada por al
guns minutos, observando o rosto adormecido da mulher que amava. Havia tanta dor ali, mas também havia esperança.
A noite passou em silêncio. Pela primeira vez em dias, sem alucinações. Apenas um breve sussurro de sonho, o som do coração de Elisa batendo firme contra suas costas e a certeza de que, mesmo em ruínas, pareciam estar se reconstruindo.
Fim do capítulo
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