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Entre nos - Sussurros de magia por anifahell e Yennxplict

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Palavras: 3097
Acessos: 58   |  Postado em: 20/01/2026

Frestas no silêncio

Fazia dois dias que Lia estava no hotel com Elisa.

Dois dias em que o Lia parecia existir fora do mundo, em um espaço suspenso onde o tempo parecia que não avançava, apenas se arrastava. Lia havia silenciado o celular logo na primeira noite, quando percebeu que não teria forças para lidar com nada além de Elisa e da criança que carregava.

Antes de propositalmente desaparecer, enviou um único áudio para Ariel. A voz saía rouca, controlada, ensaiada para parecer natural:

“Ari… eu vou ficar um tempo fora. Minha magia não está funcionando… Nada está funcionando. Eu não consigo ser útil agora. Fica bem, me perdoa. Te amo!”

E então desligou tudo.

Estar sem magia para ela era antinatural. O vazio, a ausência, a sensação de que algo vital havia sido arrancado, aquilo a deixava tensa, irritada, vulnerável de um jeito que nunca havia se sentido antes. Soava falso até dentro dela própria dizer que estava “bem”.

Nos dois dias que se seguiram, Lia não conseguiu dormir. Nem por minutos.
O corpo estava exausto, mas a mente permanecia em alerta contínuo, um estado quase febril entre medo, autoproteção e desconfiança.

As alucinações, quando vinham, sempre surgiam no momento em que ela finalmente se permitia relaxar. Sempre entre a respiração solta e o primeiro afrouxar da consciência. Agora, sem magia, sem equilíbrio e sem controle, Lia temia o que a própria mente poderia fazer nesse espaço vulnerável.

Por isso, mantinha os olhos abertos. E assim foi.


A madrugada dera lugar a um céu opaco e frio, de nuvens pesadas. Lia estava sentada à beira da cama do hotel, coberta apenas por um dos lençóis de algodão e observa através da janela o tempo mudar. A pouca claridade do dia tentava iluminar o quarto, sem muito sucesso. Ao seu lado, Elisa ainda dormia, os cabelos espalhados sobre o travesseiro, o rosto relaxado em uma expressão tranquila.

Lia sentiu uma pontada de inveja, afinal, ela não pregara os olhos até então, mas se consolou ao perceber que Elisa, ao menos, desfrutava de um raro momento de calma.


Desde o ritual com Valérie, seu corpo parecia apenas um invólucro, quente, latejante, mas inerte. A ausência de magia dentro de si era como a ausência de oxigênio. Doía. Coçava. Implodia. E se antes o silêncio interno era um refúgio, agora se tornara um vazio ensurdecedor. Cada pequeno som, a respiração de Elisa, o zumbido do frigobar, o rangido leve das tubulações, parecia expandido por dentro dela como uma ameaça.

Tentara se distrair lendo, jogando no celular, roçando os dedos nos contornos da runa em sua nuca que agora parecia morta, como um botão que não ligava mais o sistema. Nada funcionava. Nem mesmo a cama macia e o corpo quente ao lado eram suficientes para aquietar o pânico crescente.


Com cuidado, ela se levantou da cama. O chão estava frio sob os pés. Olhou-se no espelho do banheiro pela segunda vez naquela manhã. A imagem era a mesma: olhos cansados, olheiras profundas, rosto pálido em uma expressão estranha que não era bem dela. Por um instante, apenas um, viu de novo a fenda na cabeça, a gosma negra, os olhos brancos. E fechou os olhos. Respirou fundo.


— Isso não é real. — murmurou para si mesma.


Ao voltar para o quarto, pegou o casaco de Elisa, jogado sobre a poltrona, estava frio, vestiu e foi até a janela. A vista era linda, uma paisagem serena, uma parte da cidade que ela raramente visitava, com árvores, telhados, ruas de paralelepípedo. Parecia outro mundo, um mundo em que talvez, só talvez, ela pudesse estar segura, mas Lia sabia que segurança, para ela, era uma ilusão frágil demais. Especialmente agora.


Atrás dela, Elisa se moveu na cama, um som leve de quem despertava. Lia não se virou, permaneceu parada, olhando a cidade e pensando que se jogasse tudo para o alto e desaparecesse de vez, talvez fosse o melhor, então pensou em Ariel, em Hope, em Elisa, na criança que agora crescia dentro de si, e cuja existência ela ainda nem sabia como processar.


— Você tá bem? — Elisa falou com a voz ainda rouca de sono.

Lia hesitou. Depois respondeu, dando de ombros. 

— Na verdade, não. — Deu um sorriso fraco. 

A honestidade a surpreendeu. Elisa sentou-se devagar, puxando o lençol para cobrir o corpo nu.

— Quer conversar? — Elisa perguntou gentil.

Lia riu sem humor. Um riso pequeno, amargo.

— Eu queria poder… parar. Parar de me preocupar, parar de lembrar, parar de… existir um pouco. — O tom de angústia estava presente na voz baixa.


Elisa se levantou, ainda nua, mas sem pudor. Ela se aproximou de Lia pelas costas, envolvendo-a com os braços, o rosto repousando entre os ombros da outra.


— Você não precisa carregar tudo sozinha.

— Mas eu carrego, Elisa. Sempre carreguei.

— Não mais. — Elisa sussurrou. — Agora eu tô aqui. E quero estar aqui.


O abraço não apagava a dor, mas dava uma borda, uma borda onde Lia poderia respirar, só por alguns instantes.


— Você se arrepende de ontem? E de hoje? — Lia perguntou, ainda sem olhar para trás.

— Do que exatamente? — Elisa questionou, curiosa. 

— Da gente. Do que temos feito dentro desse quarto… Enquanto eu fujo do mundo lá fora e da minha versão fraca, quebrada e sem magia… Eu tô um trapo. — Ela virou o corpo levemente para olhar para a nefilin. — Você não precisava estar passando por nada disso, Elisa. 

— Lia, eu me arrependo apenas de ter sido tão bruta sem perceber que você estava diferente. — Elisa falou baixinho. — Mas não do que aconteceu. Não dá gente. Você é a mesma para mim, só um pouco mais delicada no momento. Eu não tenho motivos para me arrepender de nada relacionado a você. 

— Eu estou… frágil — Lia murmurou. — Mais do que nunca.

— Então eu vou ser suave e vou ter cuidado… — Elisa prometeu, pousando a mão no rosto de Lia, a puxando para um beijo curto.

E aquele momento entre as duas, embora contido, foi cheio de tensão. Não havia sex*, mas havia algo ainda mais íntimo, a vulnerabilidade nua. A escolha de permanecer mesmo assim. Um laço de fios invisíveis se estendia entre elas, e por mais trêmulo que fosse, era real.


****

Naquele dia, demoraram a abandonar a cama. Lia voltou a deitar e deixou que a voz de Elisa preenchesse o ambiente enquanto a nefilin comentava assuntos de trabalho, era quase um monólogo, o cansaço mental deixava Lia sem ânimo para acompanhar. Percebendo isso, Elisa não insistiu, entendia o momento e apenas dizia o que lhe vinha a cabeça, tentando distrair a mente da outra sem a pressionar.

Por volta das onze da manhã, Elisa pediu uma refeição no hotel, as duas comeram calmamente. Elisa, atenta em silêncio, notava como Lia permanecia recolhida em seus próprios pensamentos, ainda assim, oferecia o espaço que julgava necessário, respeitando aquele silêncio denso e íntimo.

Lá fora, a tarde se arrastava em passos lentos e frios, o céu, de um cinza pesado, não chegava a desabar em chuva, havia apenas umidade, como se tudo estivesse em suspensão. 

Lia agora estava deitada no sofá, os olhos fixos em um ponto qualquer do teto, enquanto Elisa se mantinha em silêncio na poltrona, lendo um livro e observando Lia ocasionalmente. Elas não haviam falado muito desde a manhã, a ausência de magia em Lia parecia silenciar também seus impulsos, e a sensação de descompasso criava uma distância invisível entre elas.


— Às vezes eu me pergunto o que sobrou de mim. Quando tira a magia… o que sobra? — Lia quebrou o silêncio. 


Elisa não respondeu de imediato. Ela se aproximou e sentou-se no chão, ao lado do sofá, onde podia ver o rosto da Fênix mais de perto. Afastou uma mecha de cabelo do rosto da outra.


— Sobra você. Com todas as suas camadas. Seu sarcasmo, sua força. Sua resiliência. 

Lia a encarou com um pequeno sorriso.

— Mas será que isso é suficiente? Eu me acostumei a ser muito mais do que isso… 

— Às vezes, ser só você já é demais. — Elisa respondeu com honestidade e suavidade. — Você é tão intensa que, mesmo sem magia, parece ocupar todos os espaços. Principalmente dentro de mim… 


Lia sentiu um arrepio percorrer a espinha, a atração que sentia por Elisa queimava seu íntimo sem muita dificuldade, um alerta claro e pulsante de que estava viva, ainda que sem poder. 


Elas ficaram ali por alguns segundos, só trocando olhares, até que Lia ergueu o braço, puxando Elisa suavemente pela nuca para mais perto. O beijo veio lento, sem urgência, um roçar de lábios que não era exatamente casto, mas também não era luxúria, era busca. 


O beijo cresceu devagar. Elisa subiu no sofá, acomodando-se por cima de Lia, com cuidado. A mão da bruxa subia pelas costas da outra, sentindo as costelas, o calor da pele, Lia se permitiu fechar os olhos, tentando esquecer as dores, a ausência de magia, os delírios que a assombravam nas noites sem sono.


— Vai com calma… — sussurrou com um sorriso de canto. — Hoje eu ainda tô feita de vidro.

— Eu sei. — respondeu Elisa, beijando sua clavícula. — Só quero fazer você relaxar…


A roupa foi sendo retirada devagar, Elisa descobria a pele de Lia como quem abre um livro antigo, com cuidado, mas reverência, passava os dedos pelas tatuagens, beijava cada uma. 


Elisa deitou-se ao lado dela, continuando a tocar apenas com os dedos, desenhando rotas imaginárias nas coxas e nos braços da Fênix, era como se estivesse esculpindo aquela lembrança no corpo da outra, dizendo silenciosamente: “Você ainda está viva.”


Lia virou-se de lado, puxando Elisa mais para perto, a respiração delas já estava descompassada, mas os toques se mantinham lentos, conscientes, respeitosos. Elisa deslizou a mão por entre as pernas de Lia com um cuidado quase cerimonial, nada era urgente, ela tentava com seus toques silenciar um pouco do caos.


Quando os corpos se alinharam por completo, a respiração das duas descompassou mais, Lia soltou gemidos contidos, enquanto as mãos de Elisa mantinham um ritmo firme, mas gentil, sabendo exatamente onde ir, onde parar, onde insistir.

E quando Lia chegou ao clímax, seus suspiros ecoaram pelas paredes do hotel, enquanto um tremor silencioso percorreu seu corpo.

Elisa não disse nada, apenas a abraçou por trás, colando seus corpos e passando os dedos devagar pelo abdômen dela, tentando aquietar as partes internas ainda em torpor.


— Obrigada… — Lia sussurrou, a voz ainda trêmula.

Elisa sorriu contra a pele dela, aquele sorriso cálido que sempre surgia quando Lia tentava agradecer por algo que, para Elisa, era apenas amor. Depositou um beijo lento na nuca da bruxa, como se selasse ali um pequeno pacto de cuidado.

— Eu te amo. — murmurou, quase num sopro. — E quando a sua magia voltar… ela vai encontrar você inteira. Do jeito que eu encontrei agora.

Lia fechou os olhos, sentindo o corpo ainda sensível se aquietar contra o de Elisa, as duas se ajustaram uma à outra instintivamente, como quem busca um lugar exato de descanso, não havia pressa, nem palavras, apenas o calor compartilhado e a respiração sincronizando aos poucos.


****

A noite caiu com um peso esverdeado e silencioso, o céu ainda coberto de nuvens grossas, gotas de chuva começavam a bater no vidro da janela com força, iniciando o que parecia uma tempestade. 


No quarto do hotel, Lia tinha novamente voltado a ficar em silêncio. 


Elisa havia tomado um banho mais longo, respondido algumas mensagens, e depois voltado a se deitar ao lado dela, respeitando o silêncio, mas preocupada com o tipo de pensamento que estava se formando ali dentro.


Lia, por sua vez, sentia que a ausência da magia não apenas reduzia seus poderes, reduzia quem ela era. Era como se a estrutura da sua alma estivesse desabando em camadas invisíveis, e o pior, com a magia, também se esvaiam os recursos que a protegiam da loucura, das lembranças traumáticas, dos gritos que ecoavam nos corredores do mundo prisão no qual ela esteve, dos zumbis deformados, das criaturas que a perseguiam em silêncio, e das mortes sucessivas que a ensinaram a desejar o fim.


Ela não queria dormir, tinha receio do que viria, mas seu corpo não aguentava mais. Quando Elisa pareceu adormecer, Lia tentou fechar os olhos. 


Foi um erro.


Ela se viu ali de novo: a cela escura, as paredes de pedra molhada, o som de dentes rangendo, a primeira vez que gritou por socorro, a centésima vez que mataram ela, o sangue seco nos braços, os olhos mortos de prisioneiros que estiveram lá antes dela, a gargalhada distante, a risada do guardião da prisão, que a chamava de “renascida” com sarcasmo.


Lia acordou com um solavanco, o coração batendo tão rápido que parecia fora do corpo, não sabia quanto tempo tinha adormecido ou quanto tempo estava naquele pesadelo.

Quando olhou em volta, Elisa já estava sentada na cama, a olhando preocupada.


— Lia! Calma, tá tudo bem. Não é real. Você está segura, tá bem? Respira. — Elisa a acalmava, como se entendesse o que acontecia. 

A Fênix colocou a mão na testa. Estava suando.

— Eu vi de novo. Eles voltaram. Eu… eu estava lá.

— Foi só uma lembrança ruim. Eu tô aqui com você. Isso aqui é real. — Elisa falou segurando a mão de Lia e apertando de forma delicada, mas com firmeza. — Você já acordou. 

— Minha mente tá no mundo prisão. As paredes estavam vivas. Eu não consigo… não consigo esquecer aquilo. Eu preciso da minha magia de volta, Elisa…


Elisa passou a mão pelas costas dela. Lia tremia. Os músculos enrijecidos como se ainda estivesse presa ao chão de pedra do outro plano.

— Ei, respira… respira comigo… você tá aqui, comigo. Aqui é seguro. Eu tô aqui.

— Você sabe que não é seguro. — Lia respondeu, rindo de nervoso. — Eu sou um buraco, Elisa. Um poço que suga tudo. Minhas amigas desaparecem, minhas ex enlouquecem, minha magia… Se esvaiu. Meu filho tá dentro de mim e eu não sei se vou conseguir proteger ele. Ariel tá presa no próprio poder e eu não posso ajudar. E você não devia estar aqui, passando por isso. Vendo isso.

— Eu quero estar aqui. Liana, você não está sozinha nisso. — ela respondeu com firmeza. — As coisas vão se ajeitar. Eu prometo. Só respira. 


Lia encarou a outra, retomando o controle do diafragma. Os olhos castanhos, intensos, mergulhados naquela forma rara de afeto que resistia ao tempo e às catástrofes, Elisa se aproximou, acariciando a linha da mandíbula de Lia com a ponta dos dedos.


— Vem cá. — A nefilin a puxou para um abraço, que foi retribuído lentamente. 

— Elisa, eu não sei se consigo… Eu não quero voltar a viver aquele lugar. 

— Não precisa fazer nada agora. Só deixa eu cuidar de você. — murmurou, a voz firme e sutilmente grave.


Lia deixou. E quando deitou ao lado dela, de costas, Elisa a envolveu, os dedos traçavam sua pele como quem costura de volta uma alma em frangalhos, tentava transmitir segurança, mas, no fundo, não tinha como negar que estava se sentindo de mãos atadas. 

Elisa a beijou devagar nas costas, depois nos ombros, depois na nuca. Quando Lia virou-se, elas se encontraram com os olhos, os lábios se uniram, o beijo foi lento, honesto, terno, e então, finalmente, Lia chorou.

Elisa não disse nada, apenas a segurou, beijando o sal que escorria das lágrimas como se cada gota fosse sagrada.


E ficaram ali, unidas, inteiras, ainda que temporariamente e isso era tudo que Lia precisava no momento. 


****

Mais tarde, quando Elisa adormeceu, o quarto mergulhou num silêncio úmido, Lia levantou devagar, o corpo ainda pesado, e caminhou até a pequena bancada onde havia deixado o celular, a curiosidade e a inquietação que vinha crescendo desde cedo, acabou vencendo. Desbloqueou a tela e desativou o modo avião.

Havia algumas mensagens perdidas, mas foram os áudios de Ariel que lhe prenderam a atenção, Lia hesitou, baixou o volume para não acordar Elisa, respirou fundo e deu play.

O que ouviu foi um turbilhão caótico, entre respiração acelerada e frases desconexas:

— Oi, Lia… eu… nossa, ela tá respirando, mas tá gelada e… meu Deus, você já viu uma pessoa respirar e parecer que tá morta? Tipo um peixe fora d’água, só que dormindo? Ela tá assim faz um tempo… eu tentei dar comida líquida com um conta-gotas de essência de hortelã porque achei que talvez as células… ah, não sei! E coloquei ela numa caixa de fósforo forrada com algodão… você acha que ela explode se crescer rápido demais…?

Lia franziu o cenho, tentando acompanhar a lógica, se é que havia lógica, no relato. Repetiu o áudio, ficou ainda mais confusa.

Abriu os outros dois.

— Eu sonhei que ela virava uma flor e eu regava com chá de ayahuasca. Será que é um sinal? Acho que a Eduarda tá se comunicando por sonhos agora.

E o terceiro:

— Agora tô guardando ela num pote de vidro, tipo arte moderna. Depois te mostro, mesmo que você tenha decidido me ignorar. Beijo. Me responde se você ainda existe, ok?

O silêncio que se seguiu pareceu mais denso que o próprio quarto, Lia pousou o celular devagar sobre a pia, assimilando a torrente de palavras que acabara de ouvir, os áudios tinham sido enviados há mais de 24 horas, a preocupação subiu como um arrepio tardio.

Eduarda poderia ser aquilo? Ou Ariel estava simplesmente entrando em mais um dos seus espirais de ansiedade? Ou só muito chapada?

Lia pegou o celular de volta e digitou.

“Ariel, me desculpa o sumiço e a demora. Só consegui ouvir seus áudios agora. O que aconteceu? Você tá bem?”

Enviou. Depois apoiou as mãos na borda da pia e deixou o peso do corpo cair ali, olhou para o próprio reflexo no metal opaco, nenhuma íris branca, nenhuma distorção, nenhuma sombra viva atrás dos olhos, apenas ela.

E um cansaço que parecia ocupar todos os espaços onde antes existia magia.

Ao voltar, na cama, Elisa ainda dormia e por mais que Lia soubesse que poderia deitar ao lado dela, talvez sentir o calor, talvez se distrair com um toque, com uma conversa, algo nela queria apenas suportar em silêncio.

Como no mundo prisão.

Na janela, o dia se arrastava, os carros passavam distantes.

Ela se permitiu um sussurro depressivo:

 

“Eu existo, sim, Ariel. Mas até quando?”

Fim do capítulo


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