Quando as Runas se Partem
O som dos sapatos de Ariel ecoava pelo apartamento, enquanto ela procurava, às pressas, os últimos itens na bolsa. Já estava atrasada para encontrar Lia, como havia prometido mais cedo. Conferiu o celular, bufou impaciente, ajeitou a jaqueta sobre os ombros e caminhou até a porta.
Ao girar a maçaneta e abrir, deu de cara com a última visão que desejava ter.
— Que… merd*… — sussurrou, já recuando alguns passos.
Na porta, um homem alto, forte, de ombros largos e completamente careca, a encarava com uma expressão vazia e predatória. Atrás dele, como se aquilo fosse minimamente aceitável, estava Eduarda, ajeitando o cabelo, segurando a própria bolsa, olhando para o lado como quem finge não fazer parte daquilo.
Instintivamente, Ariel tentou fechar a porta, mas o homem reagiu rápido. Um chute brutal destroçou a fechadura, lançando a porta contra a parede, fazendo o apartamento inteiro estremecer.
— Porr*, Gilmar! — reclamou Eduarda, bufando. — Nem precisava disso. Ela ia deixar a gente entrar! Estragou a porta dela, cara!
O homem ignorou, entrando na casa. Eduarda o seguiu.
O homem sacou uma pistola da cintura, ergueu o braço e apontou direto na testa de Ariel.
— Vai ser bem simples, princesa. A gente sabe o quanto tem na tua conta. Faz a transferência e ninguém se machuca. — falou num tom quase educado, mas com aquela ameaça seca, sufocante.
Ariel cruzou os braços, mantendo-se firme apesar do coração descompassado de raiva. Mas não recuou, dessa vez, encarou o homem nos olhos.
— De que conta você tá falando? Eu não devo nada pra ninguém. Muito menos para vocês. — Terminou de falar, olhando diretamente para Eduarda, que estava alguns passos atrás do homem, covardemente tocando em seu ombro, na inútil tentativa de tentar acalmá-lo.
— Abaixa essa arma, caralh*! Não dificulta as coisas! — Eduarda tentava convencê-lo.
O homem arqueou uma sobrancelha, contrariado, mexeu o próprio ombro com rigidez, se livrando da mão de Eduarda e manteve a arma em riste.
Deu uma risada seca, e se aproximou, segurando o rosto dela com uma mão enquanto a outra mantinha a arma pressionada contra sua testa.
— Não se faz de idiota. Cê sabe do que eu tô falando. Bora, celular na mão. Transferência agora.
— Eu não vou te dar nada. É melhor irem embora antes que as coisas fiquem feias. — respondeu, olhando nos olhos dele, sem piscar e virando o rosto bruscamente, se livrando do toque. Sentindo o corpo arder e a respiração ficar difícil, enquanto lutava contra a onda de poder e descontrole que passava por ela naquele momento.
A vontade que tinha era explodir aquele estúpido, mas seu alto controle falava mais alto e ela tentava manter o controle.
Ao fundo, Eduarda rolava os olhos, impaciente com o bandido que trouxe com ela. Ele parecia descontrolado e fugindo totalmente do que parecia ter sido combinado entre eles anteriormente.
O dedo dele ameaçava tocar no gatilho.
Eduarda, impaciente, sacou uma arma da cintura e encostou na nuca do parceiro, que insistia em apontar a arma para Ariel.
— Gilmar, sério… não era pra ser assim… Eu falei que ela ia colaborar. Larga a merd* dessa arma, porr*! — Gritou, enquanto pressionava a nuca dele com o cano da arma.
Ele vacilou, mas manteve a arma apontada. O maxilar travado, o dedo pressionando o gatilho como quem testa os próprios limites. Ariel respirava ofegante, sentia as paredes vibrando, os vidros das janelas começando a rachar.
A pulseira fina no seu pulso, um dos amuletos mágicos, que Lia lhe dera semanas atrás, vibrava, pulsava, esquentava, tentando conter o poder que já transbordava por cada poro do corpo da bruxa.
Ela não sabia ainda, mas naquele exato momento, Lia não estava mais sustentando suas runas de contenção. A pulseira era tudo que a separava de uma explosão mágica devastadora.
— Você vai transferir esse dinheiro, sim! E vai fazer isso agora! — berrou ele. Nesse momento, Eduarda começou a puxar o homem pelo ombro, vendo que a situação estava saindo do controle.
As rachaduras se intensificaram. A televisão apagou. As luzes começaram a piscar. Ariel começava a achar que não conseguiria segurar mais.
Enquanto isso acontecia, as portas se abriram no térreo.
Era Ísis.
Ao entrar no prédio, ela viu o porteiro amarrado, jogado no chão, um trapo de medo e desespero.
— Quem fez isso? — perguntou, a voz baixa, já com os olhos brilhando em azul elétrico, enquanto desamarrava o homem.
— T-t-tão no a-apartamento… d-da senhorita Ariel… — gaguejou o homem.
Ela sequer esperou que ele terminasse. Subiu escada acima, direto para o apartamento de Ariel. Quando chegou ao andar, a porta do apartamento de Ariel era inexistente, a fechadura destruída, madeira lascada e marcas claras de arrombamento.
Adentrou com urgência, passando pelo corredor e entrando na sala.
A cena diante dela fez o sangue ferver de puro ódio.
Ariel estava no centro do cômodo, tremendo dos pés à cabeça, os dentes cerrados em um esforço quase sobre-humano para conter um colapso mágico. Uma arma estava apontada diretamente para sua testa. A pulseira em seu braço vibrava enlouquecida, faiscando, como se estivesse prestes a se partir.
Perto dela, Eduarda gritava com um homem, o mesmo que segurava Ariel sob ameaça, tentando puxá-lo, nervosa, enquanto apontava outra arma na direção dele, como se tudo tivesse saído grotescamente do controle.
Ísis não ponderou. Nem hesitou.
— Seu desgraçado… — rosnou, enquanto erguia as mãos na direção dele, a magia incandescente, já se mostrando na ponta dos dedos.
O homem foi puxado pelo ar magicamente, como se uma mão invisível tivesse fechado em seu peito e o arremessado. Seu corpo atravessou a sala grande, lançado como um boneco sem peso, até colidir violentamente com a porta de vidro da varanda. O estilhaçar foi ensurdecedor.
O impacto foi tão grande, que ele atravessou a proteção da varanda e desapareceu no vazio, o corpo despencando até atingir o asfalto lá embaixo com um baque seco, definitivo.
Ariel arregalou os olhos, respirava rápido demais. A pulseira vibrava como se fosse explodir, a energia escapando em pequenas descargas no ar.
Mas Ísis ainda não havia terminado.
Virou-se lentamente para Eduarda.
Começou a caminhar até ela, sem pressa. O olhar era letal. As mãos fervilhavam com magia elétrica, pequenas faíscas dançando entre seus dedos.
— Você… O que passa pela sua cabeça de merd*… — rosnou Ísis, avançando sobre ela. Os olhos profundos, fixos em Eduarda como se ela fosse sua caça. E naquele momento, ela era.
Eduarda recuou, tropeçando nos próprios pés, tentou erguer a pistola que antes usou para tentar acalmar o falecido parceiro, e a apontou, de forma trêmula, na direção da bruxa.
— N-n-não se aproxima, Ísis… — tentou, mas suas mãos tremiam tanto que a mira parecia inútil. — Eu não pretendia causar nada disso, ele era um idiota drogado e esse tipo de gente é muito difícil de controlar! O plano era pedir uma ajudinha. Só isso. Mas saiu do controle!
Ísis não parou. Eduarda recuava o quanto podia, enquanto ainda tinha espaço.
— Acha mesmo que consegue me matar com isso? Sua arma é inútil contra mim. — Ísis dizia, a voz carregada de desprezo, se aproximando mais, até que Eduarda deu de encontro com a parede que dividia a sala da cozinha. Não havia mais para onde ela ir.
Então, o primeiro disparo ecoou.
O tiro acertou o ombro. Ísis quase não reagiu. Permaneceu firme, sólida, como se a dor fosse um detalhe irrelevante.
— O que você fez, Eduarda?! — Ariel gritou, a voz quebrada, à beira do colapso. Seu corpo parecia uma usina prestes a explodir. — Ísis, cuidado!
Mais três tiros foram disparados.
Dois no abdômen, um no flanco. Ísis se quer cambaleou.
Eduarda apertou o gatilho novamente. Mas nada aconteceu. As balas haviam acabado.
— Acabou pra você. — rosnou Ísis, agarrando Eduarda pelo braço.
Foi então que o improvável aconteceu.
O corpo de Eduarda brilhou, e em segundos, ela começou a diminuir.
Encolheu. Reduziu-se até ficar do tamanho de uma boneca. Escapou pelos dedos de Ísis e disparou pelo apartamento, minúscula, desesperada.
— Mas que merd*… — Ísis murmurou irritada, fazendo tudo à sua volta flutuar, na tentativa de localizar a invasora que agora estava minúscula.
Cadeiras, mesa, objetos, tudo rodava no ar, enquanto os olhos de Ísis varriam o ambiente.
Viu Eduarda, minúscula, tentar se enfiar numa fresta da parede, mas, naquele instante, ela diminuiu mais. E mais. Até que desapareceu. Pequena demais para ser vista, para ser capturada.
Ísis, agora tomada pela fúria, não se segurou.
Lançou uma rajada mágica que carbonizou tudo a sua frente. Cadeiras, quadros, o sofá, tudo virou cinzas. Se Eduarda ainda estava lá, era impossível saber.
Ofegante, virou-se de volta.
Ariel estava encolhida no chão, abraçando os próprios joelhos. Tremia inteira. O rosto pálido, as veias dos braços começando a brilhar em dourado, sinal claro de que a magia transbordava, escapando do controle.
— Respira, amor… — Ísis se ajoelhou diante dela, segurando seu rosto com cuidado. — Respira comigo, tá? Olha pra mim… A pulseira, Ariel, lembra? A pulseira te segura. Ela tá funcionando. Inspira… Expira…
Mas Ariel não conseguia. A contenção que Lia fazia, não estava mais lá. Só restava a pulseira, e ela estava no limite.
— Eu… não… consigo… — choramingou Ariel, apertando os olhos.
Ísis tentou conter a magia dela, invocou selos, fez círculos no ar, traçou linhas. Nada. Parecia que só Lia tinha as chaves daquela prisão mágica.
O prédio começou a tremer. As luzes estouraram com estalos secos. Uma névoa brilhosa envolveu Ariel, e seus olhos passaram a brilhar como holofotes em um verde intenso.
— Droga, Lia… — resmungou Ísis, observando a mais nova.
Pegou o celular, e digitou rápido. “Ariel tá descompensando. Onde você tá??”
Sem resposta.
Respirou fundo e olhou em volta.
A única coisa sensata era, deixá-la inconsciente. Precisava fazê-la dormir. Precisava desligar Ariel das emoções antes que o poder rompesse de vez.
Tinha receio que ela perdesse o controle, como das últimas vezes.
Principalmente pela própria Ariel. Ela ainda não havia superado as tragédias que aconteceram nas vezes que não conseguiu segurar seu poder e Ísis sabia o quanto aquilo fazia mal a mais nova. Não podia deixar acontecer novamente.
Correu até a cozinha, preparou um calmante mágico em dose bem potente, uma mistura de raiz de mandrágora com pó de flor de papoula e essência de ametista, e fez a garota engolir.
— Vamos… Isso vai te acalmar… — segurou-a, erguendo um pouco seu corpo e apoiando o queixo dela com uma das mãos, enquanto a outra, a forçava a beber o líquido espesso. Ela entre-abriu os lábios, e Ísis conseguiu despejar tudo. Ergueu um pouco a cabeça de Ariel, na intenção de auxiliar o calmante escorrer por sua garganta.
Aos poucos, os olhos de Ariel foram ficando pesados.
Ísis ajudou Ariel a levantar totalmente, seu corpo dando sinais de que estava começando a ficar letárgico, mas o poder em volta dela ainda vibrava. A pulseira no braço parecia estar no seu limite.
Ísis a levou ao banheiro, deixou a água fria cair sobre seu corpo para dispersar o excesso mágico, sempre a segurando. Depois a vestiu com cuidado, levou-a até a cama e ficou sentada na beira, observando. Esperando que a mais nova dormisse. O que não demorou muito para acontecer.
Só então, Ísis parou para observar os danos.
Arrancou a camiseta destruída, o tecido rasgado e encharcado, e a jogou no chão sem cerimônia.
O espelho refletiu marcas profundas. Perfurações abertas, carne rasgada, sangue escorrendo quente. Com movimentos firmes, quase indiferentes, puxou as balas do próprio corpo uma a uma com os dedos. O metal caiu na pia com um som agudo. A dor veio tardia, surda, mas não a fez vacilar. Quando terminou, invocou magia para estancar os ferimentos e também usou magia para restaurar sua roupa.
Voltou para a sala que estava destruída, quando ouviu as sirenes da polícia ecoando distante. O barulho entrava facilmente no apartamento pela ausência da porta de vidro quebrada. Eles deviam estar chegando. Provavelmente, vieram pela confusão. Pelo corpo do bandido, caído lá embaixo. Alguém devia ter ligado.
Rapidamente, começou a ajeitar o que fora destruído. Reconstruiu tudo que pode. A porta de vidro da varanda. A porta da sala. As rachaduras nas paredes. Refez o vidro das lâmpadas. A pintura. Fez móveis novos aparecerem, iguais aos destruídos minutos atrás.
Fez desaparecer também os estilhaços, no lado externo, que também caíram no asfalto junto com o corpo.
Estava tudo limpo. Quase tudo.
Alguns policiais chegaram e se mantiveram no local onde o corpo havia caído e alguns na portaria, tentando entender o que aconteceu.
Ísis, momentos depois, desceu para a portaria, para conversar com os policiais e esclarecer as coisas da forma dela.
— Foi uma tentativa de assalto no apartamento da minha amiga. — disse, tentando parecer frágil. — Ele entrou armado. O porteiro tentou impedir. Eu ouvi a confusão que acontecia na varanda… e depois o disparo.
O policial anotou.
— Alguém mais se feriu?
— Ele deu um tiro, que não pegou em ninguém. — Respondeu ela. — Consegui desarmá-lo e na luta corporal, ele desequilibrou e caiu do apoio da varanda.
— O porteiro relatou que ele estava junto com uma mulher loira. Onde ela está?
— Mulher loira…? Hm… Não. Ele estava completamente sozinho.
Enquanto falava, Ísis deixou a magia escorrer devagar, como um fio invisível, tocando a superfície das mentes dos policiais. Ajustou percepções. Acentuou certezas já existentes. Onde havia dúvida, inseriu cansaço. Onde poderia haver estranhamento, ofereceu lógica.
Os policiais fizeram mais perguntas, quem era a amiga, onde trabalhava. Quem era Ísis. Tudo foi respondido com calculismo.
Os argumentos se fizeram desnecessários. A magia fez o seu trabalho. Forçou que aceitassem as informações, inclusive o porteiro. Empurrou associações conhecidas, reforçou padrões. Prédio de alto padrão. Cobertura. Tentativa de assalto que deu errado. Nada que justificasse subir, interrogar, vasculhar.
— Obrigada pelas informações, senhorita. Estamos à disposição. — Disse um dos policiais. — Vamos providenciar o recolhimento do corpo.
O porteiro não parecia bem, estava abatido.
Ísis colocou uma mão em seu ombro, com empatia.
— Será que ele vai ficar bem? — perguntou, a voz baixa.
A preocupação não era assim tão genuína, mas falar aquilo ajudava.
— Vai sim. — respondeu o policial. — A senhorita fez o que pôde.
Antes de ir embora, fez mais um feitiço silencioso e invisível, para danificar as imagens das câmeras de segurança do prédio. Só depois disso, voltou ao andar de Ariel, pelo elevador.
Sentia o peso do que tinha feito.
Manipular mentes humanas daquele jeito era interferência. Um ajuste fino na realidade. Algo pequeno o suficiente para passar despercebido. Tinha consciência que não era muito correto, mas se fez necessário.
Ao chegar, foi direto para onde tinha deixado a mais nova.
A encontrou dormindo, tranquila. Não brilhava mais e sua magia já deixava de escapar pelos poros. Parecia estável.
Ísis preferiu não ir embora.
Ficou ali, observando e cuidando de Ariel, silenciosamente.
****
No dia seguinte, como previsto, a manchete estampava os jornais sensacionalistas:
“Mais uma funcionária da Wicca Enterprise sobrevive a tentativa de assalto violenta. Bandido morre em confronto. Risco de vida passa a fazer parte da rotina de funcionários.”
Mais uma verdade conveniente aceita.
Mais um passo em falso no equilíbrio frágil entre dois mundos.
E Ísis sabia que quanto mais vezes precisasse fazer aquilo, mais difícil seria continuar chamando de exceção.
Fim do capítulo
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