Capitulo 24
Sentada na cama, Sabrina olhava Fedra dormir enquanto lidava com uma sensação que lhe comprimia o peito. Já estivera na mesma situação outras vezes, mas alguma coisa tinha mudado. Não queria ir embora. Precisava ir, mas não queria, ou então, queria contar com a possibilidade de ficar mais tempo. Mas não seria apenas adiar algo inevitável? Respirou fundo se recriminando pela mania de racionalizar tudo que adquirira com a terapia.
Tinha passado dias incríveis e voltar a lidar com Lúcia e todo o peso que ela carregava parecia-lhe um fardo pesado demais. Tinha que repensar muita coisa, mas só de imaginar já sentia um alvoroço no estomago. O tempo passava e precisava agir ou perderia o voo. Olhou para Fedra mais uma vez e teve pena de acordá-la de um sono profundo. Ela respirava paz...tão linda.
Tocou-lhe o braço de leve, fez uma carícia e ela gem*u. Abriu os olhos devagar e encarou-a ainda sonolenta.
-Ah, não me diga que já amanheceu...- Murmurou se escondendo nas cobertas.
-Hum-hum...e preciso me preparar para sair. - A voz saiu fraca e sem nenhuma convicção.
-Vem cá...- Fedra a puxou para si e encheu-a de beijos.
-Isso não vai prestar...eu perco o avião...- Ela fingia preocupação, mas não se esquivava dos beijos.
***
A despedida foi lenta, parecia que nenhuma delas queria dar o próximo passo que seria sair em direção ao aeroporto. Falaram pouco, demorando na troca de olhares cúmplices, que diziam coisas que as palavras talvez ainda não conseguissem expressar com clareza. Da parte de Sabrina, faltaria coragem, de Fedra, encadeamento. Durante o café, no balcão da cozinha, conversaram entre gestos, abraços demorados e beijos suaves e sem pressa.
No estacionamento do aeroporto, ficaram alguns minutos dentro do carro, mãos entrelaçadas e silêncio confortável.
-Devo parecer uma doida carente, mas estou com saudades de ti e ainda estou aqui...estás aqui, do meu lado. - Sabrina olhou para o lado com medo de que lágrimas pudessem traí-la.
-Meu bem - Fedra virou-lhe o rosto com gentileza. - Vamos fazer isso funcionar, pelo menos uma vez por mês vamos estar juntas. É um compromisso...ora eu vou, ora tu vens...até decidirmos o que fazemos...juntas.
-Se minha ansiedade atacar, posso vir duas vezes no mês?
Riram juntas às gargalhadas.
-Var dar tudo certo! - Disse Fedra segurando-lhe o rosto com as mãos.
-Vai! Temos um combinado. - Sabrina beijou-lhe a boca com toda a paixão que lhe queimava por dentro e em seguida desceu do carro quase a correr. - Ou é isso, ou eu perco o voo. - Gritou correndo para as escadas.
-Maluca! Eu te adoro! - gritou Fedra não se importando com quem pudesse ouvir.
***
Ao entrar em casa, Sabrina deixou a mochila num canto e percorreu cada canto como quem tenta reconhecer um espaço. Não conseguia entender aquela sensação de vazio, ou de algo fora do lugar, justamente ali, onde sempre se sentira tão bem. Passou a ponta dos dedos pela borda do sofá, olhou para o cavalete, desviou o olhar para a janela de vidro e o sol brilhante causou-lhe confusão nos olhos. Tudo estava no mesmo lugar. Sua sala com tons alaranjados pela manhã que sempre fora sinónimo de paz, agora lhe causava um redemoinho no peito. Saudade, era isso. De olhos fechados, ouviu a risada de Fedra, aspirou o cheiro dela, ouviu os gemidos de prazer...respirou fundo várias vezes. De olhos abertos, o corpo tremeu de medo. Estava apegada demais e sabia muito bem onde isso poderia levá-la...
***
No escritório, tudo fluía no ritmo de sempre, ou quase isso. Na plataforma de projetos, seu nome estava destacado para as mesmas demandas de antes da viagem, o que lhe dava uma folga boa para respirar, já que tinha tudo muito bem encaminhado. De Lúcia, nem sinal, o que nem de longe era um problema. Queria ver Catarina, mas ela estava em missão fora do escritório. O telefone vibrou e ela pulou na cadeira. Logo se repreendeu com um risinho nervoso, abrindo imediatamente a mensagem. Era Fedra. Instintivamente, levantou e foi para perto da enorme janela de vidro.
"No escritório?"
"Hum-hum..."
A seguir veio um áudio, com a voz carregada de saudade.
"-Meu bem, estou tentando me concentrar num relatório importante que precisa chegar ainda hoje em Bruxelas, mas pareço uma adolescente de 17 anos, rindo sozinha e sorrindo para tudo...concentração zero. Tu já vieste me ver...agora é a minha vez. Posso ir quando quiser?"
Sabrina sorriu e encostou a cabeça no vidro. Respirou fundo e respondeu, também em áudio.
"-Venha sem me avisar, quando quiser. Concentra aí, meu bem. Faça o teu trabalho e logo mais abusaremos do tempo...saudades que não cabem em palavras."
As duas sorriram. O espaço era diferente, mas não passava de um mero detalhe...
Sabrina retomou o seu trabalho e algum tempo depois foi surpreendida pela presença de Lúcia que chegara sem o alarde habitual.
-Minha consultora super star, tudo bem?
Sabrina sobressaltou-se quase derrubando a garrafa de água sobre os papéis na mesa.
-Meu Deus, estou tão horrorosa assim? -Provocou.
-Até parece...boa tarde. Só estava muito concentrada...
-Ou distraída...e esses olhos de quem dormiu demais, ou seria de menos?
-Precisas de alguma coisa especifica? Tenho prazo até às 17 horas para integrar alguns dados do projeto YW1. - Sabrina assustou-se com sua própria postura, mas já não havia voltas a dar.
Lúcia deslisou o olhar nela como quem amola uma faca e na face um sorriso sarcástico.
-Apesar da língua estar bastante afiada, a pele brilha como um raio de sol...ambiguidades da minha Sabrina. Bom trabalho, meu bem. Não te esqueças de me atualizar.
E saiu, desta vez, arrastando o salto no piso.
***
-Musa, quase que mandei aquele homem calar a boca para poder voltar correndo para cá e saber todas as novidades.
-Que menina mais exagerada!
Riram juntas.
-Odeio as quartas-feiras, aliás, estou chegando à conclusão que odeio quase tudo nesse trabalho. Ainda bem que tem a minha musa, mais dois gatos pingados e meu objetivo bem definido na mente, do contrário...
-Calma, garota. Vida de adulto é isso mesmo.
-Uma chatice! Mas vamos ao que interessa, deu tudo certo com a outra musa? Estava doida para te ligar, mas tenho noção...não parece, mas tenho.
Gargalhadas.
-Ainda bem que os chatos desse lugar já foram todos embora, porque senão, estaríamos no olho da rua.
-E quem liga? Ok, eu ligo, mas vamos aos fatos: fez as pazes com a outra musa? Claro! Muito sex* maravilhoso? Claro...olha essa pele...
-Catarina...JUÍZO!!!
Mais gargalhadas.
-Tudo perfeito...tanto que até assusta...gosto dela, Catarina e isso me causa tanta confusão aqui dentro dessa cabeça doida...
-É por isso que estás na terapia, musa. Nem inventes de sair correndo por medo...olha só como estás inteira, plena...mais confiante e consequentemente mais linda, não sei como é possível, mas estás.
-Ah menina, só tu para mesmo para levantares esse meu astral que anda em zigue-zague.
-Não enrola, Sabrina, quero detalhes.
-A aula correu bem. Dominei bem o monstro, graças à senhora.
-Sabrinaaaaa, quem está interessada em aula on line? Claro que dominaste, o mais importante é conteúdo e nisso és imbatível. Quero saber de beijo na boca, conversas deliciosas, o que decidiram e tudo que quiseres contar.
Gargalhadas.
-Vamos embora daqui que é melhor.
-Uma batida na lajinha?
-Água com gás para mim.
-Aceitaste? Viva as musas da capital!
Risos.
***
Mais um dia no escritório em que Sabrina seguia a sua rotina de sempre, mas que agora tinha um pequeno detalhe que conseguia sempre arrancar-lhe sorrisos, dos tímidos aos escancarados. O dia era sempre preenchido com momentos de troca com Fedra. Na verdade, estavam juntas o dia inteiro, ainda que em ilhas diferentes. Sabrina sempre se deixava encantar, embalar, sentia-se mais apaixonada, mas também havia momentos em que sentia um nó na garganta, um aperto na altura do estomago, como se estivesse à beira do abismo...mais uma vez.
"Almoço de trabalho num restaurante com mais 5 pessoas e eu devaneando que a qualquer hora vou levantar o olhar e vou ver-te entrar por essa porta...linda, altiva e maravilhosa como só tu sabes ser. Peço para me internarem?"
Sabrina abriu um sorriso, mordeu o lábio e se controlou para não responder no mesmo tom apaixonado. Precisava de algum freio, mesmo que tivesse a certeza que era uma luta inglória. Ainda mantinha o mesmo ar sonhador que a acompanhava há alguns dias, quando Lúcia apareceu na porta a chamando para a sua sala. Não era nada usual, mas recompôs-se e foi.
-Lúcia...
-Ah, sim, preciso que melhores estes relatórios, Sabrina. São coisas simples, mas urgentes. - disse ela, entregando um monte de tarefas que estavam muito abaixo da função e da experiência de Sabrina.
-Mas isto... não é exatamente da minha área. - Sabrina franziu o sobrolho, surpresa.
-Eu sei, mas é o que precisamos agora. É temporário! - Disse Lúcia com um sorriso artificial.
Sabrina percebeu o jogo. Não sabia qual era o motivo, mas já não estava inocente diante das atitudes questionáveis de Lúcia. Pegou o calhamaço e deixou a sala garantindo que o trabalho pronto estaria na mesa dela o quanto antes. Não ia discutir com uma pessoa que deslizava e a deixava sempre com uma sensação esquisita no peito. Sua vida, finalmente começava a fazer sentido, e faria de tudo para manter aquele estado de coisas.
Por outro lado, Lúcia sorria de canto de boca, crente que tinha conseguido o seu objetivo, desestabilizar Sabrina e colocá-la na corda bamba.
***
A sala da terapeuta tinha o mesmo aroma discreto de chá de gengibre e a sensação de porto seguro que Sabrina já conhecia. Sentou-se no sofá azul-claro, colocou a mochila ao lado e respirou fundo. A terapeuta, como sempre, esperou alguns segundos antes de começar deixando espaço para Sabrina alinhar o corpo e a mente.
-Então, Sabrina como estás essa semana?
Sabrina passou a mão pelo cabelo, inquieta.
-Estou... bem. Quer dizer, estou feliz, mas... ao mesmo tempo assustada. Cada vez mais. -Olhou para o chão, como se as palavras pesassem. -Eu sei que deveria só aproveitar. Mas é como se... quanto melhor fica, mais eu sinto que a qualquer momento tudo pode ruir.
A terapeuta inclinou-se ligeiramente para a frente.
-Queres falar mais sobre esse medo?
Sabrina inspirou fundo, como se cavasse dentro de si.
-Acho que... é porque eu já perdi muita coisa. - A voz vacilou. -Quando eu era criança, eu e o meu pai vivíamos a mudar de lugar. Eu fazia amigos, depois tinha que os deixar. Criava laços, e eles desapareciam. Depois, já adulta, as relações que tive sempre terminavam quando eu começava a acreditar que eram seguras. Ou porque a pessoa desistia, ou porque eu...fugia. - Deu um sorriso triste. - Então agora, com a Fedra... quanto mais real fica, mais eu entro num estado de alerta. Como se fosse cedo demais para confiar.
A terapeuta fez um gesto afirmativo com a cabeça.
-Isso é muito coerente com o que falaste noutras sessões. Tens um padrão interno que associa ligação emocional à perda. E quando sentes algo forte a crescer, o teu sistema de alarme dispara.
- Exatamente isso. -Sabrina sussurrou. -Eu sinto que estou sempre à espera do momento em que ela vai perceber que isto não faz sentido... ou que vai escolher outra coisa... ou que vai simplesmente... cansar-se de mim.
A terapeuta fez uma pausa, depois perguntou:
- Sabrina, se estivesses a ver esta situação como uma observadora, como descrevias o comportamento que estás a ter?
Sabrina franziu a testa, pensativa.
- Eu... estou a antecipar o pior? A criar cenários que nem sequer têm fundamento?
-Sim. - A terapeuta sorriu ligeiramente. - Isso chama-se catastrofização. É um dos padrões cognitivos mais comuns quando existe trauma de abandono ou perda. O cérebro tenta prever a dor para te "proteger", mas acaba por te fazer sofrer antes de qualquer coisa acontecer de facto.
Sabrina olhou fixamente para ela, parecendo querer absorver.
-E como é que eu...eu paro com isso?
-Primeiro identificando, depois desafiando. Vamos tentar juntas. -A terapeuta cruzou as pernas. - Quando pensas "a qualquer momento o sonho vai acabar", que evidências reais tens disso?
Sabrina ficou alguns segundos em silêncio.
-Nenhuma concreta. - Admitiu. - A Fedra tem sido presente, carinhosa. Tem dito o que sente. Tem feito esforços... muitos.
-Então a conclusão que tiras, de que ela vai desaparecer, é baseada em quê?
Sabrina suspirou.
-Em experiências antigas. Minha vida inteira...
-Certo! - A terapeuta anotou algo - O que significa que não se baseia na Fedra, mas no teu passado. Então diz-me: o que seria uma interpretação mais equilibrada da situação atual?
Sabrina demorou mais tempo a pensar.
-Que... as coisas estão a correr bem. Que ela demonstra querer ficar. Que... é seguro eu acreditar um pouco.
-Excelente! Agora outra parte fundamental da terapia cognitiva comportamental: substituir o pensamento disfuncional por um pensamento alternativo. Algo que tu possas repetir a ti mesma quando o medo vier. O que te faria sentido dizer?
Sabrina fechou os olhos por um instante.
-Talvez... "isto é novo, mas é real; eu posso confiar devagarinho". Pode ser?
-Sim, e mais uma frase: "o medo vem do meu passado, não da pessoa que tenho à frente." - Sugeriu a terapeuta.
Os olhos de Sabrina marejaram.
-Eu queria tanto acreditar... de verdade.
-E podes. Não de uma vez, mas passo a passo. O medo não vai desaparecer agora, mas pode deixar de controlar as tuas ações. E esse é o objetivo.
Sabrina sorriu pela primeira vez na sessão.
-Eu acho que... hoje consigo respirar melhor. Quando cheguei, parecia que o coração não cabia dentro do peito. -Soltou o ar levando a mão ao peito.
-E agora?
-Agora sinto... esperança. Talvez por perceber que o medo não significa que algo vá mesmo correr mal. É só... o meu corpo a lembrar-se de dores antigas.
-Exato. E agora tens ferramentas para lidar com isso. E tens alguém que te faz bem. Permite-te viver isso.
Sabrina levantou-se no fim da sessão com os ombros menos tensos. A mente ainda tinha sombras, mas também tinha luz.
E à saída, antes de entrar no carro, enviou uma mensagem curta para Fedra:
"Hoje a terapeuta disse que eu posso confiar devagarinho. E eu quero."
Depois encostou a cabeça no volante, respirou fundo e sorriu. A resposta de Fedra veio antes de ela dar partida.
"Quem me dera poder te abraçar apertado agora, meu bem, e arrancar qualquer dúvida do teu coração. Subindo para ver a minha mãe. Em meia hora eu te ligo e falámos sobre o que quiseres. Beijo."
***
Fedra lavava a loiça enquanto ouvia as histórias da mãe com atenção. Dona Gracelina reclamava, mas enquanto estava em período de recuperação, a filha não lhe dava qualquer outra possibilidade.
-Minha filha, vieste me ver ou limpar-me a cozinha?
-Oh exagero! A cozinha está limpa...só estou a organizar a loiça para não acordares com bagunça na pia.
-E desde quando tu tens esse esmero todo?
-Mãe?
-Minha filha, tens muitas qualidades, mas desde a adolescência que brigo contigo por deixar coisas sujas na pia...
-Sou uma mulher de 50 anos, devo ter mudado alguma coisa. - Sorriu.
-Está bem...não reclamo, até gosto. Mas não estou invalida.
-Ninguém disse isso, dona Gracelina. Sei que saíste hoje...sabes, nessa família as notícias correm depressa...
-O Djaiss me levou para comprar uma bolsa térmica. Não te pedi porque estavas a trabalhar.
-Ah, peça sim ao Djaiss e a qualquer outro membro da família. A Mália falou contigo?
-Sim. - Abriu um sorriso. -Essa menina está um doce. Ah, e por falar em doce, a tua amiga simpática, como está? Tens falado com ela?
-Ela está bem...falamos sim...sempre. Ficámos ainda mais próximas depois do susto que tu me deste.
-Tão próximas que ela volte logo, espero. Precisas de estar com gente que te deixa feliz, Fedra. Conheces essa moça há tanto tempo...
Fedra levantou o olhar sem entender muito bem o que a mãe queria dizer, mas não perguntou nada. Dona Gracelina continuou a mexer no chá com um sorriso leve no rosto.
-Quando ela voltar, traga-a cá em casa. Ela fica sempre contigo?
-Não...ás vezes sim, mas nem sempre. Ela costuma vir a trabalho e fica em hotéis...mas ela vem sim, te ver...
-Eu gostei dela e sei que tu também gostas, então, almoço ou um lanche caprichado da próxima vez que ela pisar esta cidade.
Fedra bateu a cabeça concordando, mas não abriu mais a boca. Seu coração já estava quente e batendo acelerado, poderia facilmente se trair, ainda mais que a perspicácia era uma das características mais fortes da mãe. No tempo certo, pensou.
***
"Minha mãe já não precisa assim de tantos cuidados, já eu não aguento mais um dia sem te ver. Vou passar algumas horas contigo. Uma noite é tudo que consigo, mas faremos valer cada segundo. Chego por volta das cinco da tarde e regresso amanhã depois do almoço. Até já, meu bem."
O dia de Sabrina fluía com um único foco, a chegada de Fedra. Pedira que fosse surpreendida, mas não estava à espera que fosse tão rápido. O seu coração agradecia, o corpo também. Queria tanto, mas tanto abraçar Fedra que às vezes se perdia em devaneios e esquecia de respirar. Uma loucura sem precedentes que já levara até para a análise, mas segundo a terapeuta era apenas ela se permitindo viver sem monitorar, podar, qualquer tipo de sentimento. O medo ainda vinha, uma leve sensação de estar a dar munição para um tropeço que com certeza seria difícil de se restabelecer, mas esses momentos eram cada vez mais raros.
Pela primeira vez, agradeceu pela loucura mais recente de Lúcia de lhe dar trabalhos de iniciante. Conseguiria concluir as tarefas muito antes das 17 horas e receberia Fedra em grande estilo.
Essa nova artimanha de Lúcia não lhe caíra nada bem e já tinha decidido que confrontaria, mas isso poderia esperar. Nada ia tirar sua paz, muito menos sua felicidade.
Perto das três da tarde, tomava um café na copa, quando Catarina entrou na sua alegria de sempre.
-Musa, fui no teu espaço querendo exatamente tomar um café contigo. Eis que encontro a mulher mais linda desse edifício no nosso recanto favorito.
-Doida! Passei o dia focada e esqueci de tomar um café para energizar...
-Muito trabalho? Já é o projeto novo? A Lúcia está toda empolgada com alguma coisa grande que vai ser lançada, mas não entendi muito bem do que se trata, afinal, sou uma mera estagiária.
-Muito esperta e com grande potencial. - Assegurou Sabrina segurando-lhe o pulso. - Não sei de nada novo...não te contei que a Lúcia tem direcionado a mim apenas projetos menores, coisas de principiante...
-Inveja! Ela está possessa porque estás claramente feliz. - Baixou o tom de voz. - Eu não sei se essa mulher tem um desejo louco por ti, mas que não admite, ou se ela é apenas uma perturbada. Eu acho que nem ela entende ao certo o que sente, mas tem muito sentimento conflituoso...musa, eu sei que és adulta e eu apenas uma doidinha que mal sabe da vida, mas eu acho que podias dar uma bela perdida nessa mulher, nesse lugar e fazer a tua vida longe daqui.
-Não é tão fácil assim...
-Mas também não é impossível. Não estás apaixonada pela musa da Praia? Vá para lá...
A respiração de Sabrina falhou involuntariamente. Sentiu uma pressão no peito e um zumbido no ouvido...ansiedade.
-Catarina, vida de adulto não é assim tão linear...não sou mais tão jovem para...
Alguém entrou na copa e interromperam a conversa. No corredor, Sabrina cochichou no ouvido de Catarina a novidade do dia.
-Ahhhhh...eu sei, eu sei, preciso ser discreta. - Colocou a mão na boca, rindo em seguida.
-Tu não tens remédio, garota. Não sei quem é pior, tu ou eu que não consigo manter minha boca fechada. - Sabrina riu.
-Tu? Sabrina, eu só sei de alguma coisa da tua vida porque sou cara de pau e insisto até não teres mais alternativa. Ah e não reclames de mim, se não eu, quem nesse lugar de gente chata?
-Isso, berra mais alto para que o teu estágio seja renovado sem qualquer ressalva. - Ironizou.
-Muito amor, minha musa. Mereces. Trata a outra musa muito bem e nada de zumbidos nessa cabeça que pensa demais...viva, beije muito na boca...oh delícia...quem me dera...quem me dera...
Sabrina entrou na sua sala rindo e logo olhou para o relógio. Mais 20 minutos no máximo e iria embora.
Estava concentrada na tela do computador quando foi surpreendida pela entrada de Lúcia.
-Assustei-te? Não foi minha intenção...ocupada?
-Estava concentrada...concluí o que tinha para hoje...
-Que bom, preciso de ti...temos que discutir a estratégia para abordar esse novo projeto...o tempo urge e...
-Faremos isso amanhã. - Disse já desligando o computador.
-Estamos atrasados!
-Estamos? Pensei que no momento o escritório não estava a abordar o mercado...no meu painel ultimamente só tenho projetos menores e nada novo...
-Aqui, temos que trabalhar em tudo, e no teu caso, tens viajado muito e...
-Lúcia, minhas viagens não interferem em nada aqui. Agora preciso mesmo ir, já estou atrasada.
-Certo...cada um com suas prioridades. Espero que te divirtas bastante e sem peso na consciência...- Saiu ostentando na face o sorriso frio que Sabrina já aprendera a identificar.
Nada ia roubar sua paz, pensou Sabrina ao desligar o último equipamento.
***
Sabrina dirigia no percurso aeroporto-cidade quando soltou uma risada inclinando a cabeça para fora da janela do veículo.
-O que foi? - Perguntou Fedra sorrindo.
-Estava a pensar que ainda bem que és tão doida quanto eu, bom, no teu caso, não acredito que sejas, mas estás...- Sorriu encarando Fedra com olhos sonhadores.
-E o que isso significa? - Fedra mantinha o mesmo sorriso no rosto.
-Que eu estava doida para voltar para a Praia...que no dia que cheguei aqui, há exatos 5 dias, eu já queria entrar no mesmo avião e fazer o caminho inverso...
Riram alto.
-Eu só não vim antes porque fiquei com receio que minha mãe pudesse aprontar mais alguma coisa...eu devo estar doida mesmo, já que nunca fui desses rompantes...
-Peso na consciência? Culpa?
-Achas mesmo? Ninguém tem nada a ver com a minha vida...isso só interessa a nós duas e queremos a mesma coisa...
-Queremos! Queremos muito! O que queres fazer, minha doida favorita?
Risos.
-Comer alguma coisa com vista para o mar e depois faço tudo o que quiseres...não temos muito tempo...
-Ok, para o teu desejo, e vamos fazer do tempo disponível um banquete de satisfação.
Trocaram olhares, sem pressa. A conexão explicita deixava tudo mais leve.
-Ei, preste atenção na estrada...maluca.
***
Degustaram uma bela refeição no Docas Bar, com vista para a marina do Mindelo. Sorrisos, conversa em tom baixo, encontro, toques leves, risos e muita promessa nos olhares transparentes e sonhadores. Um pouco mais tarde, passearam a pé pela marginal, sendo agraciadas por uma brisa noturna fresca e uma bela lua que deixava o seu rastro de prata sobre o oceano.
-Que noite linda! Acreditas que eu nem tinha notado na Praia que estamos na lua cheia?
-Acredito sim...a correria rouba a nossa atenção...os problemas, mas eu sou tão conectada com a lua, que nunca perco o seu esplendor. - Sabrina sonhava olhando para a imensa bola de prata.
-Linda...
-Ela é...muito.
-Ela e tu.
Olharam-se e tiveram que exercer uma força sobre-humana para aplacar o desejo de se beijarem até não haver mais ar. Sabrina mordeu a boca, respirou fundo. Fedra sorriu e segurou-lhe discretamente a mão. Entrelaçaram os dedos com força. Seguiram assim pelo resto da avenida.
Mais tarde, abraçadas na cama, recuperavam a respiração depois de horas de prazer intenso. Sabrina acariciava a cicatriz de Fedra com a ponta dos dedos enquanto ela tentava segurar as lágrimas. Aquela entrega sem qualquer receio, ou medo de julgamento, ainda lhe parecia surreal. A cada beijinho que recebia na barriga, nos seios, na ponta dos dedos, sentia-se inteira, entregue e muito segura.
-Meu bem...
-Hmmm...
-Acho que a minha mãe desconfia que és bem mais do que minha amiga...- Sussurrou.
Sabrina ergueu a cabeça e encarou-a com olhos quase assustados.
-Será que a tua tia disse alguma coisa?
-Acho que não...segundo ela, devo ficar ao lado de pessoas que me fazem bem e que tu me fazes muito bem...sei lá, pode não ser nada demais, mas a insistência e a forma como ela ficou me olhando de rabo de olho...
-Achas que passa pela cabeça dela que...- Sabrina respirou fundo - que possas desviar do que esperam de ti?
-Não sei se chega a tanto, mas isso de desviar do que esperam de mim, ela me conhece como ninguém e sabe que eu não me frustro para agradar ninguém...desde muito jovem, tanto, que sou considerada uma das subversivas da família de princípios rígidos onde estou inserida. Às vezes demoro a reagir, mas uma vez tomada a decisão...
-E se ela souber...tudo bem? - A voz de Sabrina soou entrecortada e num tom quase inaudível.
-Minha mãe não é de julgar e somos muito amigas...não sei como ela vai reagir ao fato de me relacionar com uma mulher e não mais com um homem. Tendo a acreditar que vai ser um susto, mas que vai entender...o problema são as irmãs dela...a família inteira, o meio ao qual estão inseridas na terra delas...
-Isso te assusta?
-Não...estou em processo de me reconhecer nessa nova Fedra, mas digamos que tenho me adaptado bem e tenho ajuda da melhor namorada que eu poderia sonhar em ter...
Silêncio, contudo, o coração de Sabrina batia dentro dos seus ouvidos.
-Eu sou tua namorada? - Não teve certeza se fez a pergunta em alta voz ou se foi um delírio mental.
-Estou muito adiantada? Ai, meu Deus...é que eu me sinto tua namorada...tua mulher...ah Sabrina, como é funcionam as coisas entre as mulheres?
Sabrina riu enchendo-a de beijos por todos os lados.
-Eu sou tua namorada, tua mulher, amante...amiga, chata favorita...maluca de eleição...sou tudo o que quiseres...essa é a forma mais original que alguém já me pediu em namoro...
Risos.
-Amor, eu não te pedi, eu decretei.
Gargalhadas com amor e muitos beijos.
Na manhã seguinte, acordaram o dia já ia alto. Sem pressa, permaneceram na cama se entregando ao prazer que seus corpos ansiavam. Seguindo no registo de calmaria, deixaram a casa de Sabrina à hora do almoço e comeram uma refeição leve num restaurante simples rodeado de natureza exuberante. Um pouco mais tarde, despediram-se no aeroporto, com o próximo encontro marcado para muito breve.
De volta à cidade, Sabrina ainda pensou em passar no escritório, mas desistiu. Não tinha nada de importante para fazer, ainda mais depois de ser relegada a consultora iniciante. Agradeceu pelas aulas que ministrava em duas instituições diferentes e que puxavam pela sua mente e capacidade de criar. Não queria que nada estragasse seu estado de alma leve. Pensou em Fedra como sua namorada e riu alto dentro do carro. O medo aos poucos cedia lugar a um sentimento que flertava com a coragem, a certeza de estar no caminho certo, no caminho do amor.
Depois de passar rapidamente no supermercado, voltou para casa. Aproveitaria o dia fora do escritório para pesquisar trabalhos freelancer. Precisava se organizar para crescer em outras direções.
No quarto, concentrada em suas pesquisas, ouviu quando Guima entrou, mas preferiu permanecer no que estava a fazer. Guima gostava de conversar e ela não podia perder tempo, precisava aproveitar cada minuto para pesquisar oportunidades.
Quando precisou comer uma fruta, surpreendeu Guima na cozinha falando com as paredes.
-Sabrina, que susto!
-Guilhermina, chegaste há tanto tempo e ainda não conseguiste chegar no meu quarto? - Brincou enquanto pegava um cacho de uvas no frigorifico.
-Ah, sabes como sou...adoro me demorar e hoje é dia de caprichar. Não foste trabalhar?
-Não...
-Ah, mas tu podes trabalhar de casa. Acho essas modernidades tão estranhas, mas que bom para ti. Encontrei um anel na mesa de apoio perto do sofá. Deve ser de alguma amiga tua, porque eu conheço as tuas joias...
Sabrina riu às gargalhas.
-Guima, joia? Eu lá tenho joia?
-Ah, mas aquele anel deve valer um salário meu, ou mais...então é joia.
Sabrina caminhou até à sala para confirmar que Fedra tinha esquecido um anel. Pegou-o e guardou no bolso das calças.
-Vou trabalhar aqui na sala, enquanto arrumas o meu quarto. Aviso que um tsunami passou por lá. - Sorriu, mordendo o lábio enquanto se lembrava dos momentos de prazer vividos há poucas horas.
Pouco tempo depois de ter se sentado, sentiu os olhos de Guima sobre a sua figura.
-O que foi, Guima?
-Posso perguntar uma coisa?
-Claro! - Respondeu serena.
-É sobre a dona Lúcia. - Hesitou. - Sabes se ela está bem?
Sabrina cruzou os braços e respondeu calma, mas firme.
-Guima, já sabes, aqui em casa não se fala da vida dos outros. - Sorriu para suavizar o tom.
-Eu sei, mas é que ela anda muito estranha. - Suspirou secando as mãos no avental. - Antes era mais alegre, conversava, agora, parece outra pessoa. Fala sozinha, anda irritada, e às vezes olha para mim como se eu tivesse feito alguma coisa. - Baixou o tom. - Se continuar assim, não sei se continuo...
Sabrina observou-a por um instante.
-Se está a incomodar-te, fazes bem em pensar nisso. Às vezes as pessoas atravessam fases difíceis. - Fez uma pequena pausa. - Mas olha, não te deixes magoar, está bem? O trabalho é importante, mas a tua paz vem primeiro.
-Por isso que gosto de vir para cá, tu és tranquila, saio leve. De lá tenho saído tonta...
-Analisa bem, e sei que tomarás a melhor decisão e se estiveres muito cansada e quiseres remanejar os horários cá em casa...
-Não! Aqui nem sinto que é trabalho. Eu gosto do meu trabalho, mas não tenho paciência para gente doida. Desculpa, sei que são amigas, mas ela está muito esquisita...
Sabrina sorriu e não disse mais nada. Guima voltou para a sua lida, aparentemente mais aliviada.
Sabrina encarou o laptop, mas os dedos não tocaram o teclado. O nome de Lúcia ecoou na sua mente causando-lhe desconforto.
***
-Musa, sabes o que vai acontecer aqui hoje que parece que a rainha da Inglaterra ressuscitou e vai desfilar por essas escadarias?
Sabrina riu mais alto do que seria seu tom normal.
-Não faço a mínima ideia. Mas fiquei com essa impressão também com o teor do email da Lúcia.
-Musa, por falar nela...me desculpa, mas ontem eu estava na copa, toda empolgada à conversa com a Emma, e sabes que tenho um crush doido por ela...ela perguntou por ti e a desbocada aqui disse que estavas amando e que não aparecerias aqui...justamente no momento que a alma obscura entrava na copa...ela ouviu, mas não disse uma palavra, mas eu sou estagiária e ela faz questão de me colocar no fim da fila...desculpa...
-Ah, deixa isso para lá...estava mesmo muito feliz...estou.
-Que bom, musa. Ai, fiquei mal quando cometi esse deslize...
-Vamos lá saber que novidade é essa?
-Vamos!
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 07/12/2025
Acho que pelo lado da Lúcia vem BOMBA no próximo capítulo...
Amei que elas estão namorando...
Nadine Helgenberger
Em: 08/12/2025
Autora da história
Vamos ver o que ela vai aprontar...rsrsrs
Não é? Se fossemos esperar por Sabrina para chegarmos nesse ponto, talvez a história terminasse e ainda não saberíamos kkkkkkk Mas Fedra é mulher de atitude oh yeah.
Essa semana não haverá atualização porque vou viajar. Até o próximo e muito obrigada por sempre comentar.
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NovaAqui
Em: 07/12/2025
Uma análise completa nesse capítulo
A psicóloga foi direto ao ponto. Deixou Sabrina mais feliz
A Catarina é uma amiga e tanto
É mamis já deve estar desconfiada
Lúcia vai ficaria descontrolada agora que sabe que Sabrina está amando
Eles estão namorando? Que fofo S2
Amei esse capítulo, musa!
Boa semana procê nessa sua Terra Linda
Nadine Helgenberger
Em: 08/12/2025
Autora da história
Hmmm, adoro análises rsrsrs
A terapeuta precisou ser explicita porque ou Sabrina acorda, ou a história termina e ela continua à deriva ;)
Catarina é uma coisinha para guardar no coração.
Mães sempre sabem de tudo…
Lúcia já está descontrolada há muito tempo e a tendência é piorar…
Parece que Fedra a pediu em namoro...brega né? rsrsrsrs mas com Sabrina tem que ser desse jeito, oh bichinha complicada (adooooo)
Muito obrigada e boa semana para ti também.
Essa semana não vou atualizar a história. Viajo amanhã e passo a semana fora. Vamos ver se na outra consigo escrever 2...difícil, mas não impossível ;)
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