Capitulo 31 - Que comece a guerra
Samanta
Deixo o apartamento atordoada, com a cabeça a mil, e sei que a única pessoa que vai conseguir me acalmar é Clara.
Porém, não sei como agir naturalmente na frente de Nico e não quero que ele me veja assim.
A porta bate atrás de mim com um estalo seco, que ecoa como se fosse um tiro. Talvez seja assim que estou me sentindo, como uma arma prestes a disparar.
Sinto o som atravessar o corredor estreito e entrar direto no meu peito. Meus passos são rápidos, quase tropeçados, e parece que a gravidade pesa diferente em cada lado do meu corpo. Aperto as chaves na mão até sentir a ponta de metal arranhar minha pele. É isso ou eu começo a tremer de novo.
O elevador demora uma eternidade, mas quando finalmente saio para a rua, o ar frio da noite corta meu rosto, desperta um pouco da minha consciência, mas não o suficiente para trazer calma.
Zoe.
O nome parece uma lâmina dentro da minha mente. Cada vez que penso, corta mais um pedaço dentro de mim.
Tiro o meu celular do bolso e procuro o contato da Clara, o dedo hesita por um segundo, não quero falar com ela desse jeito, mas não tenho escolha. Se eu guardar isso sozinha por mais um minuto... eu desabo no meio da rua.
Aperto “ligar”.
Ela atende antes do terceiro toque.
— Oi, amor! — Atende animada, mas logo muda o tom ao ouvir somente minha respiração — Está tudo bem?
A voz dela é suave, mas imediatamente alerta. Clara sempre percebe, às vezes antes mesmo de eu perceber.
Engulo o nó que sobe e tento falar.
— Preciso falar com você. Agora. — Minha voz sai rouca, tensa, como se eu tivesse passado horas chorando, embora eu ainda esteja presa naquela fase anterior ao choro, quando o corpo inteiro dói tentando segurar.
Um silêncio do outro lado e depois ouço ao fundo o som de desenhos animados, a risada de Nico.
— O que aconteceu? — Clara pergunta, baixinho, já entendendo que é algo sério. — Você... você quer que eu vá até onde está?
— Não. — Respiro fundo, fecho os olhos por um instante. — Eu estou indo para sua casa, mas… Clara, precisa ser sem o Nico. Não quero que ele veja nada, não quero preocupá-lo.
Ela entende na hora, e isso me faz sentir minimamente melhor.
— Tudo bem! Vou colocá-lo para dormir. — Ela para um instante, como se estivesse pensando em algo. — Só vem. Eu estou aqui te esperando, Sam.
A ligação cai, e eu fico parada na calçada por um instante, tentando lembrar como se respira da maneira certa. Pessoas passam por mim, carros, luzes, mas tudo parece distante, barulhento demais, como se o mundo fosse uma visão paralela.
Só quando entro no meu carro percebo que estou tremendo mais uma vez. Não posso fraquejar agora.
As mãos deslizam pela direção antes de encontrarem firmeza. Ligo o motor, e o ronco familiar me faz voltar à realidade.
Dirigir sempre foi o lugar onde eu me reconectava ao corpo, onde tudo ficava claro, organizado, quase matemático. Depois do acidente, demorei meses para conseguir ficar atrás da direção sem suar frio. Mas agora, pela primeira vez desde então, eu sinto medo. Não de dirigir. De tudo.
Porque agora eu sei, agora eu sei que não foi só um acidente.
Não foi azar.
Não foi descuido.
Não foi destino.
Foi ela.
E isso me engole como um buraco negro. O caminho até a casa da Clara parece mais longo do que nunca. Quando estaciono, minhas pernas já estão dormentes.
Desço e caminho até a porta, coloco a senha que dá acesso ao prédio e subo para seu apartamento e, antes mesmo de tocar a campainha, ela se abre.
Clara está ali, cabelo preso de qualquer jeito, moletom velho azul-marinho, expressão preocupada. O tipo de expressão que faz algo dentro de mim querer desabar imediatamente.
— Oi — Ela diz baixinho, como se avaliasse o quão grave é a situação.
Eu entro, e ela fecha a porta atrás de mim com cuidado. Olho ao redor, conferindo se estamos mesmo sozinhas.
— O Nico? — Pergunto, e minha voz quebra.
— Dormindo. — Ela segura meu rosto com as duas mãos, tão quente contra minha pele fria. — Agora me diz o que houve.
Eu respiro fundo, mas o ar não entra direito. Fico ali, de pé na sala, como se tivesse esquecido como se fala. Clara percebe, então ela faz o que sempre faz: me guia até o sofá, me senta, depois se senta ao meu lado e me puxa para perto.
— Sam... você está me assustando — sussurra.
Não sei por onde começar, tudo parece grande demais, assustador demais, impossível demais.
Mas eu começo, baixinho, aos pedaços. De forma não pensada, as palavras apenas saem, como se eu tivesse perdido a habilidade de contar uma história. Então conto para Clara tudo que ouvi naquela sala.
Seu rosto empalidece enquanto ouve, mas ela não me interrompe, deixa que eu conte todos os detalhes.
— Ela colocou... ela fez... — Minha voz falha, e nem sei se faz sentido o que eu digo — A Zoe... ela...
Clara fecha os olhos como se tivesse levado um soco no estômago, mas segura firme meu braço. Não me solta.
— Sam, meu Deus, meu amor — Ela passa a mão no meu cabelo, na minha nuca, como se estivesse tentando me manter aqui, presente, respirando. — Vem cá.
Eu caio em seu colo. Literalmente. Meu corpo desaba, como se alguém tivesse cortado os fios que me mantinham em pé. E quando o rosto encosta no ombro dela, finalmente choro. Não o choro violento que arranca tudo, que deveria libertar tudo dentro de mim, mas um choro contido, sem som, que só faz o corpo tremer.
Clara me abraça com força. Uma força que não machuca, pelo contrário, me faz entender que ela está ali para me sustentar.
— Ela acabou com a minha carreira, amor. — Minha voz mal sai. — Eu podia ter morrido, eu podia ter matado alguém na rua, eu... eu nunca teria me perdoado. E tudo porque... porque ela queria controlar tudo, queria que eu seguisse o plano dela.
Clara me aperta mais e tenta afagar minhas costas.
— Você não fez nada de errado. Nada. Isso nunca foi culpa sua, não tem pelo que sentir culpada — Tenta me consolar — Você foi vítima, Sam, você foi enganada, manipulada. Você não tem que carregar mais isso sozinha agora que sabe a verdade.
Eu respiro contra o ombro dela, tentando acreditar.
— Eu perdi tudo.
— Você não perdeu tudo. — Ela afasta um pouco meu rosto para olhar nos meus olhos. — Você ainda tem sua vida, sua história, sua força. Você ainda tem a gente. — Ela toca minha bochecha. — Você ainda tem a mim, no meio dessa loucura toda, a vida te trouxe para mim.
O silêncio que segue é pesado, mas não é vazio. É o silêncio das coisas ditas demais para caberem em palavras.
Após alguns minutos, eu me endireito um pouco, limpando o rosto com as costas da mão, como uma criança.
— Eu não posso deixar isso assim, Clara. Não posso deixar a Zoe continuar a vida dela como se nada tivesse acontecido, ela destruiu a minha. E a Sophie... — Meu estômago revira só de lembrar do nome. — Ela sabia, ela acobertou, elas estão juntas, e me deixou acreditar que a culpa era minha.
Clara concorda, sem hesitar, voltando a segurar minhas mãos para me transmitir força.
— Então vamos atrás de justiça. — Fala firme — Do jeito certo, com as pessoas certas.
É nesse momento que me lembro de Anna Florence.
A advogada que conheci nas Olimpíadas, a mãe da garota que foi me conhecer. Conversamos por horas, Cecília me contou que a mãe não aceitou muito bem ela seguir na natação, mas estava tentando compreender. Falamos sobre direito na época, e Anna tinha dito uma frase que agora volta inteira na minha cabeça: “Se algum dia você precisar de alguém que defenda você, me ligue. Eu não aceito caso para perder.”
Pego o celular, as mãos ainda trêmulas.
— A Anna vai saber o que fazer — Digo, quase como um mantra.
— Quem é Anna? — Clara pergunta, confusa.
— Uma das melhores advogadas do Brasil.
Clara faz um aceno com a cabeça e um carinho na minha perna, apoiando.
— Liga para ela — Incentiva ao ver que estou encarando a tela do telefone.
E então eu disco o número que ela me deu um ano atrás, sem saber que um dia eu realmente precisaria.
Ela atende na segunda chamada, voz firme, profissional, mas aquecida por um traço de reconhecimento.
— Samanta? Que surpresa boa. — Posso imaginá-la sorrindo. Tudo bem?
Eu fecho os olhos pela milésima vez.
— Não. Não está tudo bem, e eu preciso da sua ajuda.
Sou direta, pois não sei outra forma de gritar por socorro. Ela não hesita ao ver que o assunto é sério.
— Me conta o que aconteceu. — Seu tom se torna profissional.
Eu conto o essencial, o suficiente para ela entender a gravidade.
Chega um momento em que só ouço silêncio do outro lado. Um silêncio cheio de cálculo, de justiça, de ação mental.
— Samanta — Ela diz, finalmente — Legalmente, eu não posso reabrir um processo nos Estados Unidos. Não daqui. — Lamenta. — Mas eu tenho uma colega excelente lá, vou falar com ela e vamos trabalhar juntas. Vamos encontrar provas, vamos fazer de tudo para responsabilizar as duas pelo que aconteceu.
Meu coração acelera, não mais de medo, mas de algo que parece esperança. Anna continua, firme.
— Não posso prometer que vamos ganhar, mas eu prometo que nós vamos até o fim.
E, pela primeira vez desde que saí do apartamento da Zoe, eu respiro um pouco melhor.
A ligação com a Anna termina, mas eu continuo segurando o celular como se ele fosse a única coisa mantendo meu corpo inteiro. A sala está silenciosa, iluminada apenas pelo abajur perto do sofá, e Clara continua ao meu lado. Presente, constante, como se estivesse me impedindo de despencar num abismo invisível.
Clara me observa por alguns segundos, avaliando cada centímetro da minha expressão, como se estivesse traduzindo meu silêncio para algum idioma só dela.
— O que ela disse? — Pergunta baixinho.
— Que vai me ajudar — Respondo, e minha voz falha no fim. — Que vai trabalhar com uma colega dos Estados Unidos para provar tudo. Que... que não é impossível, só difícil. Mas ela vai até o fim.
Clara solta um suspiro longo, que não é de alívio, mas de força. Como se estivesse puxando coragem por nós duas.
— Então já temos um começo — Soa esperançosa — Isso é mais do que você tinha há minutos atrás.
Eu passo a mão no rosto, sentindo as lágrimas já secas. A dor ainda está aqui, firme, mas algo dentro de mim muda de posição. Não diminui, não suaviza, mas se transforma em outra coisa: determinação, talvez. Raiva, com certeza. Medo, ainda muito. Mas um medo que agora tem direção.
Clara apoia a cabeça no meu ombro, o gesto mais simples do mundo, mas que me tranquiliza de um jeito que eu não esperava.
— Eu estou tão cansada, amor — Admito, quase num sussurro. — Parece que cada vez que eu tento seguir em frente, alguma coisa puxa uma corda e me arrasta de volta para o dia do acidente.
Ela segura minha mão, entrelaça os dedos nos meus e mais uma vez tenta me confortar.
— Você não precisa ser forte agora. — A voz dela é macia, mas profunda. — Você só precisa existir e continuar. E eu fico com a parte difícil por um tempo, se você deixar.
— Essa parte não tem como alguém pegar por mim — Digo, a garganta fechando de novo.
— Não tem como carregar por você. — Ela concorda. — Mas tem como carregar com você.
Essas palavras entram em mim como um remédio que arde, mas cura.
Eu me encosto no sofá, deixando o corpo relaxar pela primeira vez desde que ouvi a verdade da boca da Zoe. A lembrança me atravessa de novo, como um estilhaço: o rosto dela tenso, a culpa mal disfarçada, as palavras saboreadas e a frase que destruiu tudo de vez, como uma sentença fria, vomitada tarde demais.
— Sam — Clara começa, devagar, quase com medo — Por que você foi lá sozinha? No apartamento dela?
— Eu queria respostas — Admito. — Queria entender. Eu precisava ver a cara dela depois de ela ter inventado aquilo para você e o Nico, precisava que ela me dissesse a verdade olhando nos meus olhos. Achava que isso ia aliviar alguma coisa, mas só piorou, porque acabei descobrindo coisas que não queria.
Clara se vira em minha direção e encosta a testa na minha.
— Eu queria tanto ter ido com você, você não precisava passar por isso sozinha.
— Eu sei — Digo, apertando a mão dela. — Mas a Zoe nunca se mostrou alguém perigoso antes, então não achei que fosse um problema. Eu não queria te colocar no meio disso, nem o Nico. Principalmente o Nico.
Só de lembrar do rostinho dele, sorridente, inocente, perguntando sempre se eu posso nadar com ele na piscina “igual nas Olimpíadas”, meu peito aperta. Eu não poderia permitir que aquela criança sentisse um único pedacinho do sentimento que senti hoje.
— Você fez certo — Clara diz. — Não tinha como saber que acabaria nisso.
Minhas lágrimas querem subir de novo. Eu não sei como alguém consegue ser tão gentil em meio a um caos como esse.
Clara desliza a mão pelo meu braço, suavemente, e pela primeira vez na noite meu corpo responde com algo que não é medo ou dor. Um conforto pequeno, frágil, mas real.
— Você quer tomar um chá? — Pergunta, baixinho. — Ou um banho? Ou só ficar aqui comigo?
— Só ficar aqui.
Ela sorri com os olhos, e eu me aninho mais perto, deixando a respiração dela marcar o ritmo que a minha esqueceu.
Passamos alguns minutos assim. Talvez seja meia hora ou sejam cinco minutos, não sei dizer ao certo.
Quando finalmente falo de novo, minha voz está baixa, mas firme:
— Eu quero justiça, Clara. Não vingança. Justiça. Eu quero olhar no espelho e sentir que lutei por mim, que lutei pela verdade.
— E você vai. Nós vamos.
Eu inspiro fundo. E, como se fosse um ritual, deixo a frase que eu estava evitando a noite inteira finalmente sair:
— Eu perdi minha carreira por causa delas.
Clara não tenta negar, não tenta corrigir. Não tenta forçar uma positividade tóxica. Ela apenas segura meu rosto entre as mãos, olha bem dentro dos meus olhos e diz:
— Você perdeu a carreira, mas não perdeu quem você é. — Ela toca meu peito, bem no centro. — Isso aqui ninguém tira, nem a Zoe, nem a Sophie, nem acidente nenhum.
Um soluço escapa de mim, porque dói, e ao mesmo tempo cura.
E então, quando o corpo começa finalmente a ceder ao cansaço, um pensamento bate dentro de mim com força. A partir de agora, eu não estou mais sozinha.
Não importa o tempo que leve.
Não importa o quanto doa.
Eu vou lutar e Zoe vai pagar.
Fim do capítulo
Que comecem os jogos.....
Samanta full pistola é um perigo e com uma advogada ainda mais full pistola que ela, será que vai dar bom?
me conte o que estão achando hahahaha
Espero que a leitura tenha feito uma boa companhia. Até breve.
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HelOliveira
Em: 24/11/2025
Samanta vai ficar muito com bem com o apoio da Clara e muito bem representada por Anna que é top demais...Zoe que se prepare para pagar por tudo...
Socorro
Em: 24/11/2025
Kkkk
Se tem simplesmente ANNA Florence, então o bicho vai pegar kkk Só digo uma coisa acabou pra vcs Zoe e Sophie .... sacada genial autora !!!
A melhor tá vindo aí .....
Quero cadeia e indenização tbm ..
chupaaaaaaa
Paloma Matias
Em: 24/11/2025
Autora da história
Kkkkkkk com certeza o bicho vai pegar
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