Capitulo 30 - A verdade nua e crua
Samanta
O ar some dos meus pulmões, eu fico sem reação, e antes que eu consiga falar qualquer coisa, ela sorri pequeno, torto, perturbador.
E a certeza me atinge com a força de um soco: Zoe não está mentindo, não está fazendo uma brincadeira de mau gosto.
Ela está escondendo algo muito, muito maior. E eu não estou sozinha neste apartamento, e estou a ponto de descobrir algo que tenho certeza de que não vou gostar.
— O que você quer dizer com isso?
Meu tom sai rouco, mais baixo do que eu pretendia. Zoe inclina a cabeça, como se saboreasse cada segundo da minha confusão. Ela dá um passo lento para o lado, abrindo um pequeno corredor de visão entre ela e a porta do quarto. Eu não quero olhar, mas eu olhei. E meu estômago desaba.
Sophie. Encostada na moldura, braços cruzados, o rosto rígido, como se tivesse sido arrancada de um pesadelo e jogada ali. Seus olhos estão surpresos, a meu ver, assim como os meus estão surpresos ao vê-la.
Meu coração para. Literalmente. A sensação é tão forte que eu preciso me sentar no sofá para que minhas pernas não falhem.
— Oi, Sam — Sophie murmura, e o som dela é uma navalha passando no meu peito.
Zoe estende o braço atrás de si e toca o ombro de Sophie com a ponta dos dedos, suave demais para a situação, familiar demais, intencional demais.
Eu sinto o mundo afundar.
— O que está acontecendo? — Minha voz quebra. — O que… vocês…?
Zoe estala a língua, como se estivesse impaciente comigo, com a minha falta de entendimento, com a minha humanidade.
— Está acontecendo, Samanta, que você sempre foi lenta para ligar os pontos — Ela diz, com aquela calma clínica que faz minha pele arrepiar. — E que eu estou cansada de manter segredos para proteger você de você mesma.
Eu abro a boca para responder, mas ela ergue a mão em um gesto de protesto.
— Então vamos fazer assim — Continua, andando até a poltrona ao lado da janela e sentando-se como se fosse a dona do mundo. — Eu conto, você escuta. Vai doer, mas… — Ela sorri, um sorriso que não alcança nenhum músculo real — É necessário.
Eu olho para Sophie, esperando dela o mínimo: um protesto, um pedido para Zoe parar, qualquer coisa.
Mas Sophie apenas olha para mim com culpa. Culpa real. Culpa enorme. Culpa que confirma tudo antes mesmo de ser dito.
Zoe cruza as pernas, como se estivesse em um filme e o grande mistério fosse revelado. Talvez seja isso mesmo que vá acontecer.
— Vamos por partes? — Destila seu veneno.
— Zoe, para — Sophie tenta impedi-la.
— Shhhh, meu amor — Ela a corta — Eu cuido disso, eu sempre cuidei.
Meu coração erra a batida, meu estômago vira ácido, minha cabeça lateja. Sinto que posso me render a qualquer momento.
Meu amor. O apelido carinhoso entra como uma faca em meus ouvidos.
— Você está brincando comigo? — Sussurro. — Vocês…?
— Sim — Zoe responde antes mesmo que Sophie tente falar. — Nós. Eu e ela. Há muito mais tempo do que você imagina.
Sophie fecha os olhos devagar, como se esperasse por um tapa ou uma reação imediata minha, mas eu não consigo nem levantar a mão, e eu jamais a agrediria. Sou só… ruína.
Zoe apoia o cotovelo no braço da poltrona e inclina o rosto, estudando a minha reação como quem observa um animal sendo preparado para o abate.
— Mas, sinceramente, Sam, esse é o menor dos problemas — Confessa. — O mais importante é que você finalmente vai entender por que tudo aconteceu.
Sinto meu corpo inteiro tensionar.
— O antidoping… — Zoe começa, e meu sangue gela imediatamente. — O que você acha que foi aquilo?
— Eu… não sei — Falo, e é verdade. Eu nunca soube. Eu nunca entendi. Eu só virei manchete por algo que nunca usei, nunca tomei, nunca sequer encostei. — Eu passei meses tentando descobrir.
Zoe sorri, satisfeita. Estou cada vez mais confusa, por que ela quer falar disso agora?
— Eu sei, eu vi e foi adorável — Solta uma gargalhada e eu volto a me arrepiar — Mas você não teria chegado a lugar nenhum, porque não havia como você descobrir.
Ela cruza as mãos no colo, como quem vai relatar um experimento. Ou, confessar um crime, calculado friamente.
— Fui eu, Sam! Eu quem coloquei Fenorol nos seus suplementos, no ano das Olimpíadas. Assim, todos acharam que você estava tomando medicamento para melhorar seu desempenho respiratório.
Eu demoro a acreditar no que estou ouvindo, mas foi exatamente isso que acusou no meu exame.
— O Fenorol, para quem não é tão estudado quanto eu… — Ela continua, ignorando meu olhar de puro terror — Fica no corpo por doze a quatorze horas. É rápido, discreto, praticamente indetectável depois desse período. Perfeito para uma atleta que toma tudo sem questionar, porque confia em quem não deveria.
Eu sinto meu rosto perder cor e meu estômago voltar a revirar.
— Você fez isso comigo? — É a única coisa que consigo perguntar, mesmo parecendo uma idiota.
— Fiz — Confirma com tanta simplicidade, como quem conta ter comprado pão ontem — E com muito cuidado, devo dizer. Então, se estiver pensando que vai conseguir me incriminar, saiba que eu não deixo provas.
Sophie começa a chorar em silêncio, eu nem olho para ela, apenas ouço seus resmungos.
— Você estava caindo no esquecimento, Samanta. É triste, mas é verdade. Você sabe, sua carreira estava estável, mas… chata. Sem medalhas novas, sem recordes, sem manchetes. A mídia te ama quando você está brilhando ou quando está caindo. E você… estava morna demais, até o namoro de vocês duas estava calmo demais, sem escândalos.
Minhas mãos tremem, meu corpo não reage aos meus comandos. Estou paralisada.
— Então você destruiu a minha carreira, sem remorso nenhum? — Minha voz não passa de um sussurro.
— Destruí? — Zoe ri com vontade — Não seja dramática, garota. Eu te devolvi aos holofotes. Você virou assunto global por semanas, e isso te abriu portas depois. Se não fosse aquilo, você não seria convidada para tantos eventos, não teria sido chamada para programas, para explicar sua versão.
Eu não acredito no que estou ouvindo, simplesmente não dá para acreditar.
— Eu perdi patrocínios, eu fui humilhada — Grito, sentindo meus olhos marejarem ao lembrar daquele dia.
— Temporariamente, Samanta — Ela rebate impaciente — Isso é cíclico. Escândalo. Queda. Reerguimento. A mídia adora esses ciclos e você precisava passar por isso.
Eu sinto vontade de vomitar, vontade de gritar, vontade de bater nela. Mas meu corpo permanece imóvel.
— Mas o antidoping foi apenas o primeiro passo — ela diz. — O acidente… ah, o acidente… esse sim foi complicado.
Meu coração quase para, o ar não chega aos meus pulmões.
— O acidente de carro? — Questiono, a voz falhando — O que você tem a ver com o acidente que me tirou das piscinas?
— Tudo — Volta a gargalhar — Planejado, arquitetado, perfeito... até você estragar uma parte.
Meu mundo desaba mais uma vez em uma única noite. Tento não desmaiar, porque sinto que isso pode realmente acontecer.
— Você provocou aquele acidente?
— Apenas planejei — Me corrige, erguendo o dedo no ar — Eu coloquei ecstasy na sua bebida aquela noite, só o suficiente para te deixar um pouco alterada, desorientada. O plano era simples: você seria vista, filmada talvez, saindo de uma festa sob efeito. A mídia ia pirar, as manchetes iriam cair em cima de você novamente.
Seus olhos brilham perversamente. Eu não consigo reconhecer essa pessoa que está na minha frente.
— Mas você — Estala a língua, com um leve pesar — Sempre tão impulsiva, sempre tão confiante, achou que podia dirigir. E eu apenas deixei.
— Eu... — Minha voz morre por um segundo. — Eu não sabia que tinha tomado isso, senão jamais iria dirigir e colocar a minha vida em risco, principalmente a vida de outras pessoas.
— Claro que não — Ri — Você nunca percebe nada quando está concentrada em se achar invencível. Foi tão fácil.
Sophie avança um passo, como se quisesse chegar até a mim, mas trava no meio do caminho.
— Ela não ia deixar você morrer, Sam — Ela diz rápido, desesperada para me fazer acreditar — Nunca foi esse o plano.
Zoe ergue a mão de novo, fazendo-a se calar com a mesma facilidade que uma mãe dá ordens a uma criança irritante.
— Não, eu não ia deixá-la morrer — Zoe concorda. — Mas você precisava de um baque. Algo grande o suficiente para te tirar das piscinas. Algo que te forçasse a ver… outras opções. Outras direções. Como, por exemplo, treinar a seleção da Espanha.
Ela volta a me encarar como se estivesse explicando as coisas para uma criança de três anos.
— Você não percebe que eu estava tentando cuidar de você? Não deixando você destruir sua carreira por completo.
Eu não respondo.
Eu realmente fico muda.
Cuidar? CUIDAR?
— Você arruinou minha vida — Eu consigo dizer, cada sílaba sai rasgando minha garganta — Você tirou de mim o que eu mais amava. Você destruiu minha carreira, minha confiança, meus sonhos. Eu quase perdi o movimento do meu braço. Quase perdi minha vida.
— Não seja exagerada — Zoe suspira — Você se recuperou bem e eu precisava cortar sua relação tóxica com a piscina. Não dava mais. Você estava obcecada, esgotada, vivendo para treinar, treinar, treinar...
Eu fecho os olhos com tanta força que um filme se passa por minha mente. Todas as competições, todo meu esforço, todo o medo que senti ao acordar naquele hospital depois do acidente. Tudo por culpa dela.
— Essa decisão não era sua — Falo, firme pela primeira vez.
— Mas eu tomei mesmo assim — Seu tom é maligno.
Sophie começa a chorar mais forte, braços envolvendo o próprio corpo, como se tentasse se encolher até desaparecer. Eu olho para ela, e tudo desaba mais um pouco.
— Você… sabia disso? — Pergunto, incrédula. — Sophie… você sabia?
Ela balança a cabeça, soluçando.
— Eu.. Eu soube depois… — Ela confessa. — Eu tentei… eu juro que tentei fazer ela parar.
— Mentirosa — Zoe canta, quase se divertindo com a situação — Você não tentou nada, você gostava demais dos benefícios. Do meu dinheiro, da minha influência, das festas, dos convites. Vamos, Sophie, não se faça de santa agora.
Sophie cobre o rosto com as mãos, vejo que ela sente vergonha. Eu quase não a reconheço.
— Sophie — A chamo — Vocês estavam juntas quando... quando você e eu ainda...?
Ela demora um segundo, mas acaba confirmando com um aceno de cabeça. Eu sinto meu corpo voltar a tremer. Não só de raiva, porém também sinto vergonha, repulsa, por ser feita de trouxa e nunca ter percebido nada.
Zoe se recosta na poltrona, satisfeita com o caos que plantou e por me ver destruída.
— Você nunca percebeu — Saboreia as palavras — Era quase cômico, Sophie vivia reclamando de como você não prestava atenção em nada, estava sempre focada em treinar que acabou esquecendo das outras partes da sua vida.
Sophie solta um soluço que parece um pedido de desculpas, mas eu não quero ouvir. Não posso ouvir.
Zoe se levanta, como se estivesse em um teatro e quisesse encerrar a peça.
— Agora chega de passado — Diz — Vamos falar do futuro, porque é isso que importa.
Eu me levanto e tento me afastar. Eu não sei se ela vai encostar em mim, mas se isso acontecer, eu não responderei por mim. Eu não a quero perto de mim.
— Não precisa fugir, Sam — Sorri — Eu não vou te machucar, pelo menos, não pretendo.
Sua falsidade pode ser vista a quilômetros de distância agora que ela revelou quem ela verdadeiramente é.
— O que eu quero é simples, quero que você me escute. Quero você treinando a Espanha. Quero você brilhando por minha causa. Sob meu controle, sem fugir, sem questionar, sem esse orgulho irritante.
— Eu não vou fazer isso, eu não quero e não vou.
Ela vem em minha direção e para a poucos centímetros de mim. Ela fala baixo, quase um sussurro íntimo, uma nova confissão.
— Eu te fiz quem você é agora, Samanta. Eu moldei a sua história. Eu te quebrei... para poder te reconstruir do meu jeito.
Ela tenta passar o indicador pelo meu rosto, mas eu afasto sua mão.
— E eu ainda posso fazer muito mais.
Eu sinto o chão se abrir novamente. É uma ameaça. Sinto uma mistura de dor, ódio, desespero e um medo profundo. Algo dentro de mim me avisa que isso não vai acabar bem.
— Você é doente — Consigo dizer, finalmente encontrando força — Doente.
Zoe sorri como quem acaba de receber um elogio.
— E você só percebe isso agora? — Ela questiona, triunfante, vitoriosa.
Então, pela primeira vez desde que entrei nesse apartamento, sinto algo dentro de mim. Algo velho, conhecido. Algo que achei que tinha morrido entre as ferragens do carro naquele dia do acidente: a sede por justiça. A verdadeira.
Ergo meus olhos e a encaro, sem tremer, sem pestanejar.
— Você vai pagar por isso — Aviso.
Zoe não se assusta, não se altera, não recusa. Apenas sorri.
Estou diante de um verdadeiro monstro.
— Já ouvi isso antes — Ela fala, piscando devagar — E até hoje... ninguém conseguiu.
Atrás dela, Sophie ainda não parou de chorar, e eu tento gravar bem essa cena, para ser combustível para os próximos passos.
Agora sei que não estou lidando só com uma pessoa desequilibrada. Zoe é alguém bem pior e sei que isso não vai terminar bem.
Hoje quem ganha é ela, mas eu também sei que algo mudou, porque agora eu sei a verdade. E a verdade corta mais fundo do que qualquer ferida física que Zoe me causou com aquele acidente.
Ergo o queixo e ela percebe, ela me conhece o suficiente para saber que a guerra começa aqui. Agora.
Nesse apartamento.
Nesse silêncio.
Ela sabe que eu não sou como as outras que não conseguiram ferrar com ela, e se depender de mim, vou até o inferno para colocar ela atrás das grades.
Fim do capítulo
Muitas pessoas acertaram em achar que Zoe e Sophie estavam juntas, mas vocês pensavam que a Zoe tinha armado tudo isso contra a Sam? me contem o que acharam dessa revelação.
Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia. Até breve.
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Alice Maria
Em: 24/11/2025
MEU DEUSSSSSSSS! QUE BABADOOOOOOOO! Jamais imaginei isssso, estou chocada com essa revelação
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