Capitulo 29 - Tirando a história a limpo
Samanta
O elevador demora mais que o normal. Ou talvez eu esteja impaciente demais para notar qualquer ritmo além da própria pulsação acelerada que ecoa nos meus ouvidos.
Aperto os dedos contra a parede metálica, sentindo o frio cortante invadir minha pele. Nada disso serve para me acalmar. Nem o barulho mecânico do elevador, nem a música instrumental que toca baixinha e sempre soa como propaganda de banco ou qualquer outro estabelecimento.
Mas nada me acalma.
Nada.
Eu vim aqui para entender, para exigir respostas. E, pela primeira vez em muito tempo, não tenho qualquer intenção de ser paciente. Afinal, Deus não me deu o dom da paciência.
Quando o elevador para no décimo andar, o bip anuncia a abertura das portas como se fosse um aviso de que algo sério está prestes a acontecer.
E está.
Eu caminho pelo corredor acarpetado com passos firmes, quase duros. Conto cada porta automaticamente até alcançar o número 1006.
Da última vez que estive aqui, também era para tratar de um assunto urgente. Parece que nosso contato se resume somente a isso: resolver problemas.
A porta branca ainda tem a guirlanda de flores secas que Zoe insiste em dizer que “traz boas energias”. Hoje, ela só parece deslocada, quase debochada.
Eu levanto a mão para bater, mas a campainha me parece mais rápida. Aperto. Uma vez. Duas. Três.
— Já vai! — A voz abafada de Zoe responde lá de dentro.
Cruzo os braços, tento respirar, porém nada funciona.
A porta se abre, Zoe está de moletom, o cabelo preso num coque bagunçado, óculos no nariz, uma xícara na mão. Tem cheiro de chá e algo cítrico no ar. Normalmente, a visão dela assim me faria sorrir, sempre achei curioso como ela conseguia ser tão organizada e tão caótica ao mesmo tempo. Mas agora, nada disso importa.
— Sam…? — Pergunta, surpresa. — O que houve?
Eu entro sem pedir licença, meu ombro quase esbarrando no dela. Ela fecha a porta devagar, com aquele cuidado irritante que ela tem com tudo.
Zoe gosta de controle. Ordem. Previsão. Mas eu não vim entregar isso a ela hoje.
— A gente precisa conversar — Digo, virando para encará-la.
Ela franze o cenho, talvez ela pense que aprontei mais alguma coisa que ela precise responder.
— Está me assustando, aconteceu alguma coisa para aparecer aqui assim?
Meu estômago revira. Só de ouvir o tom “preocupado” dela, sinto aquela pontada quente no peito.
— Aconteceu, sim. — Apoio as mãos na mesa dela. — E você sabe exatamente o quê.
— Sam… como eu poderia saber o que acontece com você? Se você me deixa longe da sua vida? — Faz drama.
Dou uma risada seca, incrédula.
— Então eu vou refrescar a sua memória. Por que você disse para Clara que eu estava triste por recusar a proposta da seleção espanhola?
O susto não vem no rosto dela. Irritação, sim. Irritação contida, contudo, ela estava esperando que eu viesse tirar satisfação.
— Eu só falei a verdade — Dá de ombros.
— Verdade? — Ergo as sobrancelhas, indignada. — Eu nunca estive triste, e você sabe disso.
Ela revira os olhos e isso me joga gasolina na raiva. Tento me controlar o máximo para não voar no pescoço dela.
— Ah, Samanta, por favor! Você estava, só não quis admitir.
— Eu não estava. — Respondo firme. — E nunca estive.
Ela cruza os braços, espelha minha postura, sempre foi difícil tirar Zoe do eixo, ela sempre manteve a calma e compostura, e parece que isso não está se repetindo hoje.
— Você recusou o convite tão rápido que parecia estar fugindo. — Suspira — Não é a primeira vez que faz isso.
— Eu recusei porque não queria. Ponto final. — Insisto.
— E eu acho que você está cometendo um erro — Zoe rebate, elevando o tom. — Uma oportunidade dessas aparece uma vez na vida. Você vai jogar fora por… um relacionamento que nem completou dois meses?
A facada vem fria. Precisa. Ela mira para machucar e acaba acertando. Não por eu achar que ela está certa, mas por ela levantar essa hipótese.
— Não fale da Clara. — Minha voz sai baixa, firme, mortal.
— Eu não estou falando dela, estou falando de você. — Zoe insiste. — Você sempre quis treinar uma seleção nacional quando se aposentasse, Sam. Sempre. E agora… agora parece que tudo mudou da noite para o dia.
— Mudou. — Digo. — E isso não é problema seu. E isso não tem nada a ver com a Clara, eu já tinha lhe dito que não quero a vaga quando eu morava nos Estados Unidos.
Ela dá um passo, inquieta. Mais uma vez, ela percebe que eu não mudarei de ideia.
— Eu falei com a Clara porque você não me escuta mais. — Esbraveja.
É aí que minha paciência evapora como álcool em fogo.
— Você envolveu a minha namorada. — Digo, com os dentes quase cerrados. — Você colocou inseguranças na cabeça dela.
— Eu estava tentando te ajudar! — Zoe argumenta, a voz quase desesperada. — Você estava se afastando de uma decisão racional, precisava de uma intervenção.
Eu rio, um riso curto, amargo. Minha vontade é xingá-la até sua terceira geração, mas procuro manter o respeito, em consideração à amizade que temos.
— Intervenção? Zoe, você tem noção do que fez?
Ela tenta falar algo, mas eu continuo. É meu momento de falar, não o dela.
— Você questionou minhas escolhas profissionais e colocou a culpa na Clara para manipular minha reação, você inventou um sentimento que eu nunca tive. E sabe o que é pior? — Dou um passo à frente. — Você fez isso pelas costas.
Ela engole seco, o rosto dela endurece. Desde que cheguei, é a primeira vez que vejo sua expressão vacilar, mas logo ela se recompõe.
— Eu fiz porque achei que era certo.
— Certo para quem? — Desafio.
Ela não responde, apenas me encara como se a resposta fosse óbvia.
Eu suspiro, mas é um suspiro carregado de raiva.
— Zoe, você tem ultrapassado limites que não são seus, e eu estou avisando agora: chega.
Ela respira fundo e então diz com a maior convicção do mundo.
— Você está com medo de dar certo, Sam.
É quase engraçado. Quase.
Como alguém pode se achar tão dona da razão? Como eu nunca percebi esse lado dela antes?
— Eu não tenho medo de nada — Respondo — E muito menos de dar certo.
— Então, por que fugiu tão rápido?
— Porque não é o que eu quero. — Respondo sem hesitação. — Porque eu estou feliz aqui. Porque meus objetivos mudaram. Porque eu sou dona da minha vida.
— Ah, claro. — Zoe ironiza. — Dona da vida agora porque está apaixonada.
Eu sinto o sangue ferver, fecho minhas mãos em punho.
— Saia da minha vida pessoal, volte para o lugar que te pertence, o de assessora, nada além disso.
— Alguém precisa entrar nela, já que você não enxerga nada do que está fazendo! — Zoe explode. — Você está jogando fora anos de carreira. Por quê? Por alguém que mal conhece!
— Zoe! — Grito. — Cala a boca sobre a Clara, você sabe que essa decisão não tem nada a ver com ela.
O silêncio que toma o espaço é denso, sufocante. As duas respiram pesadamente, o ar parece ferver entre nós.
— Você acha mesmo que sabe o que é melhor para mim? — Questiono, baixando o tom. Não é calmaria, é um aviso.
— Sim — ela responde, com uma certeza que me arrepia de um jeito ruim. — Olha, Sam! É uma proposta boa, você receberá bastante dinheiro, terá seu nome levado ao topo do esporte. Pense com racionalidade, não há motivos para recusar.
— Claro que há — Rebato — Eu não preciso de mais dinheiro, ganhei suficiente para ter bastante por muito tempo. E eu já tenho meu nome no topo do esporte, ninguém bateu tantos recordes quanto eu, ninguém ganhou tantas medalhas quanto eu
— Isso logo cairá no esquecimento — Bufa — Parece que você não entende.
Eu abro a boca para rebater, então…
Um barulho.
Algo cai no apartamento. Um objeto pequeno, talvez. Uma batida seca, e logo o silêncio volta a reinar no ambiente.
Meu pescoço se vira automaticamente para o corredor que leva aos quartos.
Zoe fica rígida por um segundo, seus olhos desviam. Rápidos. Culpados?
— O que foi isso? — Pergunto, estreitando os olhos.
— O quê? — Ela tenta parecer natural, mas sua voz falha levemente.
— Esse barulho — Insisto.
— Ah… — Ela força um sorriso. — Deve ter sido o gato.
Eu me viro lentamente para ela.
— O gato? — repito, sarcástica.
Ela assente rápido demais, mas o problema é: ela já usou essa desculpa. Em outro dia. Outro barulho. Outro desvio.
E Zoe não tem gato e ela sempre odiou animais de estimação.
— O gato. — Repito novamente, desta vez deixando claro que não acredito.
Ela abre a boca, pronta para inventar mais alguma coisa, quando o barulho se repete. Mais forte, como se algo tivesse sido empurrado contra a parede.
Eu dou um passo em direção ao corredor e Zoe imediatamente anda para o lado, bloqueando a passagem.
— Sam, não precisa ir lá — Diz apressadamente.
— Então me diz o que tem lá. — Minha voz parece gelo.
— Eu… nada. Só bagunça. — Solta um sorriso sem graça.
— A bagunça faz barulho?
Ela engole seco. Outro som, agora como um arrastar lento de porta. Talvez o som nem fosse ouvido se a casa não estivesse em silêncio.
Me dá um arrepio que percorre minha espinha inteira. Algo não está certo.
— Zoe — digo, cada sílaba cortante — Você não está sozinha aqui, está?
Ela não responde, seu olhar vacila. É um vacilo tão pequeno, tão rápido, que talvez outra pessoa não percebesse. Mas eu percebo, eu conheço Zoe demais.
— Eu te fiz uma pergunta — Digo, baixando o rosto para ficar na altura dela — Você está sozinha?
Ela respira fundo, passa a mão no rosto e tenta recuperar a compostura, mas não consegue totalmente.
— Sam, não é nada. Deixa para lá.
— Não. — Minha voz é firme. — Você mentiu para Clara. Você mexeu na minha vida. E agora tem alguém escondido no seu apartamento e você quer que eu finja que não ouvi?
Ela aperta os lábios, os ombros tensos, pouco a pouco ela vai se desesperando.
— Eu não posso explicar — Se mexe inquieta — Não agora.
— Então eu vou ver com meus próprios olhos. — Aviso, dando mais um passo.
Ela coloca a mão no meu ombro, segurando com força. Zoe é menor que eu, e sabe que se eu quiser forçar a passagem, conseguirei facilmente.
— Sam, eu estou pedindo, não entra lá.
Eu tiro a mão dela do meu corpo, olhando dentro dos olhos dela.
— Zoe, o que você está escondendo? — Dou mais uma chance.
Silêncio.
E então, do corredor, vem outro som. Mais rápido. Como passos tentando não fazer barulho.
Meu coração dispara. Meu corpo entra em alerta.
— Zoe… — Meu tom é um aviso final. — Me diga quem está aqui.
Ela fecha os olhos, como se tomasse uma decisão dolorosa. Em seguida, vira-se para mim com um olhar… estranho. Não é medo. Não é arrependimento.
É cansaço.
E algo mais sombrio. Algo que eu nunca vi nela. É como se algo desse muito errado na vida dela e ela estivesse cansada de fingir normalidade.
— Você não devia estar aqui. — Zoe diz, a voz baixa, quase um sopro.
— Por quê?
Ela me encara por longos segundos. E quando finalmente fala, sua voz não tem mais hesitação. Ela parece outra pessoa. Uma versão dela que sempre esteve escondida sob a fachada organizada, meticulosa, prestativa.
— Porque você fez meus planos irem por água abaixo — Grita.
O mundo parece parar, meu corpo fica rígido. Do que ela está falando?
— Que planos? — Questiono, um pouco incerta se quero saber a resposta.
Zoe dá um passo atrás, como se finalmente largasse um peso que estava segurando há muito tempo.
— Tudo que você me fez fazer… — ela balança a cabeça, sorrindo amargo, com uma expressão completamente descontrolada. — Não valeu de nada agora.
Minha respiração trava, é como se ela conversasse com ela mesma, mas eu sou o ponto principal da conversa.
— Zoe… o que você está falando? — Suavizo a voz para tentar acalmá-la.
— Eu sabia — ela continua ignorando minha pergunta — eu sabia que você ia estragar tudo.
— Estragar o quê? — Insisto.
Ela olha para o corredor, depois volta para mim. E então diz, com uma calma que me arrepia até os ossos:
— Aquele acidente era para ter sido mais grave.
Fim do capítulo
Olá pessoal....
Não esqueçam de comentar oq ue estão achando, e quem puder e quiser me seguir no insta paloma.autora ficarei muito grata.
Espero que a leitura tenha te feito uma boa companhia.
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HelOliveira
Em: 20/11/2025
Zoe armou o acidente....curiosa para de toda essa armação....ela junto com a ex?
Autora volta logo ...
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Paloma Matias Em: 21/11/2025 Autora da história
volteiii já hahahaha