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Depois eu te conto... por Nadine Helgenberger

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Palavras: 4778
Acessos: 577   |  Postado em: 23/11/2025

Capitulo 22

 

 

O silêncio e a ausência de Fedra, já não atormentavam Sabrina e ela teve a clareza desse fato, ao sair de mais uma sessão de terapia sem o aperto da incógnita a perturbar-lhe a mente. De repente, era como se a história linda que tinham vivido estivesse em standby e o período sombrio fosse um impulso para uma nova fase. Não entendia muito bem o que sua mente gritava, mas a terapeuta já tinha orientado que ela elaborasse essa perceção através da escrita.

A vida seguia com o trabalho e seus desafios, exercícios físicos que incluíam desde corridas na praia e treino mais intensos de crossfit a sessões de yoga, invenções culinárias. Sim, dera para isso nos últimos tempos, criar pratos novos que só ela comia, mas que na sua opinião, ficavam cada vez mais deliciosos. Percebera-se com necessidade de inventar coisas para não se perder no emaranhado de sentimentos conflituosos.

Vez ou outra, sentava-se numa esplanada à beira mar simplesmente para contemplar o pôr do sol e se embalar pelo barulho das ondas. Esses momentos a deixavam perto de Fedra. Talvez ninguém entendesse, mas era o que acontecia, um céu alaranjado e o barulho das ondas, sempre a lembrariam dela. E era assim que estava, viajando nas suas memórias, quando ouviu uma risada que lhe pareceu familiar. Ao virar-se na direção da risada, viu uma mulher que já vinha em sua direção de braços abertos.

            -Sabrina? Claro que és tu - Gritou a mulher sorrindo e cada vez mais próxima.

            -Vitória...não acredito. Meu Deus...- Sabrina levou a mão à boca enquanto era abraçada com força.

            -Estás igual, não, estás muito melhor. Linda, Sabrina, mas eu te reconheci lá de onde estava sentada e de costas. Que milagre é esse, mulher? Olha essa pele...- Afastou-se um pouco para vê-la melhor.

            -Ah, é o sol do atlântico. - Sabrina sorriu.

            -E eu que não fazia a menor ideia que podia te encontrar aqui. Achava que estavas pelo mundo, assim como eu. Estou aqui com meu marido escocês, eu de férias e ele em negócios. Aquele ali com a cerveja na mão à conversa com mais dois homens. - Ela apontou para um pouco mais além.

            -Vives na Escócia?

            -Sim! Chove demais, é muito frio, mas é uma delícia. E tu? Estás de férias?

            -Não...eu vivo aqui. Já andei um pouco, mas atualmente estou na terra que me viu nascer.

            -Nossa terra! Com todos os seus problemas, mas um sonho. E fazes o quê?

            -Algumas coisas...sou consultora, dou aulas. Ah, trabalho com a Lúcia, lembras dela?

            -Lúcia? Como esquecer? Trabalhas com ela, ou para ela?

            -Bom, a empresa não é dela, mas podemos dizer que ela é minha chefe...

            -Hmmm, então ela conseguiu o que sempre quis. - A expressão dela misturava incredulidade com um quê de eu deveria ter adivinhado.

            -Conseguiu o quê? - Sabrina franziu a testa com um sorriso divertido.

Vitória deu um gole no mojito e encarou Sabrina com uma expressão de quem tinha absoluta certeza do que ia falar.

            -Sentir-se superior a ti.

Fez-se silêncio, não constrangedor, mas de revelação.

Sabrina abriu a boca para brincar com a frase de Vitória, mas não conseguiu. Dentro dela algo se mexeu, acendeu. Algo que se manteve quieto por tempo demais...

Vitória deduziu que talvez tivesse ultrapassado os limites e tentou suavizar, mas sem desdizer uma palavra.

            -Desculpa, Sabrina. Eu falo demais, como sempre...mas em relação à Lúcia, tu sabes como ela era...

            -Como ela era...- Sabrina repete devagar, como se as palavras precisassem ganhar força na sua mente.

            -Tu lembras daquele teste da bolsa? - Vitória apoiou os cotovelos na mesa. - Aquele que tu passaste e ela não?

Sabrina assentiu e a mente voou para longe.

            -Lúcia passou semanas a insinuar que tinha sido injusto, como se tu tivesses roubado. E nem era aquela inveja escancarada. Era pior...silenciosa. Entendes?

Sabrina baixou os olhos reconhecendo o mesmo padrão na Lúcia de agora. Vitória continuou, com o cuidado de escolher as melhores palavras para não parecer muito rude.

            -O tempo em que estudamos juntas, foi sempre assim. Tu brilhavas e ela fingia que suportava. Mas por dentro, devia ferver de raiva...

            -Eu nunca quis brilhar. - Disse Sabrina num fio de voz.

Vitória riu de forma carinhosa.

            -Pois! Esse sempre foi o problema, tu nem tentavas e mesmo assim...e ela simplesmente não suportava.

Sabrina passou a mão pelo rosto enquanto lembranças emergiam do fundo da sua memória.

            -Eu te fiz pensar, não foi? - Perguntou Vitória com uma ternura franca.

            -Sim...coisas que agora fazem sentido...

            -Às vezes eu até admirava a Lúcia, sabias? Ela era focada...ambiciosa. Mesmo muito jovem, ela já sabia o que queria, sabia escolher quem lhe podia ser útil. De professoras a amigos...até causas.

            -E onde eu me enquadrava nessa equação? - Perguntou Sabrina, com curiosidade, sem amargura.

            -Tu eras a medida. - Respondeu Vitória sem hesitar. - Precisava de ti para se comparar. Se conseguisse ficar acima, ela finalmente era válida.

Mais um momento de silêncio. Sabrina encarou Vitória como quem tenta absorver tudo.

            -Lúcia sempre quis duas coisas. - Continuou Vitória. - Ser admirada e nunca ficar atrás de ti. Se não podia ser melhor, ao menos fazia parecer que tu eras menos. O brilho dela só funcionava se apagasse o teu.

Sabrina viajou para Lisboa, quando infelizmente, elas mais uma vez se encontraram na Universidade e quando pela primeira vez ela percebeu que Lúcia não ficava feliz por ela.

            - Há uma coisa que tu tens, Sabrina, que ela nunca teve. Tu nunca precisaste de nada para seres quem és. Ela sempre precisou. Da aprovação, do controle, da ilusão de superioridade.

Sabrina encarou-a com mais atenção.

            -Mas isso foi lá na nossa adolescência, inicio de idade adulta. Com certeza ela é outra pessoa hoje em dia. Mais uma vez me desculpa se minhas lembranças te causaram algum desconforto...

            -Receio que não...a Lúcia só aprimorou o que já era muito bom lá atrás. - Concluiu Sabrina com uma ponta de tristeza na voz. - E agora é minha chefe, imagina.

            -Para ser bem sincera, não me surpreende...e aposto que ela nunca esteve tão feliz. Não pelo trabalho, mas pelo poder que acredita exercer sobre ti...

            -É curioso...durante muito tempo eu pensei que a oportunidade que Lúcia me ofereceu era uma espécie de liberdade...recomeço. Conversando contigo, chego à conclusão, que eu apenas entrei numa prisão diferente...- Sabrina falou mais para si, mas Vitória ouviu.

            -Talvez isso agora comece a acabar.

O marido de Vitória acenou de longe com uma cerveja na mão e um sorriso largo. Parecia entretido numa conversa com mais dois homens.

            - Vês? Mesmo de férias, o homem não desliga. Está com um projeto grande para ser desenvolvido em que Cabo Verde é um dos focos. Ainda está tudo no início, muitos estudos, muita papelada, consultorias, previsões... enfim. Coisas que eu, graças a Deus, não entendo. Mas ele tem estado em reuniões mesmo nas férias. Entre uma cerveja e outra, claro. - Riu.

            -Projeto de quê? - A veia consultora de Sabrina pulsou.

            -Não sei ao certo, mas é algo que envolve várias vertentes. Hoje mais cedo, ele se reuniu com algumas empresas de consultoria, mas por orientação do advogado que o assiste, tudo deverá passar por concurso. Estão a avaliar algumas empresas locais. Diz ele que "precisa de gente que saiba do país de dentro" e eu logo disse: contrate cabo-verdianos. - Riu - Mas sabes como são os homens, se não complicarem não ficam satisfeitos.

Sabrina riu ao mesmo tempo que pensava que a empresa onde trabalhava provavelmente participaria do concurso. Mais um momento de surto de Lúcia...

            -Preciso ir, meu bem. Temos compromisso daqui a pouco e preciso arrancar esse homem da conversa e das cervejas.

Riram.

            -Fiquei tão feliz em te ver, Vitória.

            -Ah, não mais do que eu. Nem passava pela minha cabeça...imaginava-te por esse mundo fora. Olha...- Abraçou-a com força. - Não sei quais os teus planos de vida, nem tivemos tempo para conversar sobre essas coisas, mas não fiques muito tempo perto da Lúcia. Não deixes que te convençam de que precisas diminuir para caber em lugar nenhum. Muito menos num lugar que tu própria ajudaste a construir.

            -Finalmente vou começar a pensar nos meus planos. - Mais uma vez, falou para ela, mas a amiga ouviu e abriu um enorme sorriso.

            -Fico feliz! Vamos nos ver mais vezes? Eu nunca estou em reunião como o Benson. Estou por aqui entre a lajinha e o apartamento logo ali...ah e com minha família, mas sempre sobra tempo para os amigos.

            -Vamos, claro!

Ela foi embora e Sabrina ficou parada a sentir o vento na face. Talvez não fosse tarde para ver, escolher, e finalmente, para ser.

***

A semana fluía num ritmo suave como há muito não acontecia, ou então, Sabrina estava mais desperta e podia entender melhor as nuances. Além do encontro maravilhoso e inesperado com Vitória, fora convidada para ministrar aulas num curso on line de uma respeitada universidade na Praia. Na realidade era uma mentoria em consultoria para estudantes no último ano de gestão. A principio, ficara um bocado reticente, por ser uma abordagem completamente inovadora. Mas, Catarina, muito jovem e com conhecimentos em comunicação, novas tecnologias e ousadia, rapidamente ofereceu-lhe todo o apoio, e a primeira aula tinha sido um sucesso.

***

Sabrina estava a meio de uma manhã, estranhamente muito calma no escritório, quando a vibração do seu telefone levou sua concentração para fora da tela do computador. Era Glória. Estranhou um pouco porque elas se comunicavam mais por mensagens escritas ou áudios. Atendeu com um sorriso feliz:

            -Alô!

A voz do outro lado veio trémula, carregada de urgência.

            -Sabrina, desculpa-me ligar quando estás a trabalhar, mas estou um pouco aflita. Tens falado com a Fedra?

Sabrina endireitou-se na cadeira, o coração já batendo em aceleração.

            -Não...já há algum tempo. Porquê?

            -A mãe dela teve um acidente e pelo que entendi, parece grave.

            -O quê? - Sabrina levantou-se tão depressa que experimentou uma leve tontura. - Como assim? - Perguntou com a voz embargada.

Glória fez uma pausa curta, antes de continuar:

            - Não sei muitos detalhes. Só sei que ela caiu em casa e foi levada para o hospital. Fedra está sozinha a lidar com tudo. Ela não me contou nada, tomei conhecimento por acaso. Tive uma reunião na agência dela, fui procurá-la e recebi essa informação. Liguei e ela não me atendeu...

            -Meu Deus...

            - Ela está... apagada, entendes? Desde antes do acidente. Apática, distante, como se estivesse carregando alguma coisa sozinha. Eu até pensei...que, ah sei lá o que eu pensei...

O silêncio pesou por um segundo, até que Glória voltou, num tom mais baixo, quase suplicante:

            -Eu sei que as coisas não estão bem entre vocês, mas...se há alguém capaz de estar com ela agora, és tu.

            -Glória...não sei se ela quer...- Hesitou Sabrina.

            -Ela pode dizer que não quer ninguém, mas tu e eu sabemos que não é verdade. -Glória suspirou. - Sinceramente, tenho medo que ela tenha recebido algum resultado mau, sabes? Não sei o que pensar com esse sumiço dela...

Sabrina fechou os olhos por um instante. Viu a imagem e Fedra, cansada, a carregar o mundo nas costas, olhar perdido. Antes que a razão a atropelasse, decidiu:

            -Vou para a Praia!

            -Vens? - Glória respirou aliviada.

            -Vou, é só o tempo de encontrar um voo.

***

            -Musa, vá! O mais difícil que era o voo para hoje, conseguiste. Eu vejo no teu olhar a vontade que tens de acudir a outra musa, vá, ou te arrependerás.

Sabrina bufou, nervosa.

            -Não nos falamos há tanto tempo...fui tão rude com ela...

            -Esqueça isso. Ela precisa de ti e tu queres estar ao lado dela.

            -E as aulas? Tenho aula da mentoria amanhã...

            -Depois de amanhã e se ainda não tiveres regressado, eu te darei todo o suporte. Mas tu já dominas a plataforma. Vá, Sabrina.

            -Obrigada, Catarina!

            -E musa, não comenta nada com a tua chefe...nossa, infelizmente. Envie uma mensagem do aeroporto da Praia e não entres em muitos detalhes. Tens o privilégio de poder fazer o teu trabalho remotamente.

            -Nem sequer passou pela minha cabeça comunicar à Lúcia. Muito obrigada, minha adulta favorita.

Riram abraçadas.

***

O voo de 45 minutos parecia interminável. Sabrina olhava pela janela e tentava exercícios de respiração para acalmar o coração que batia num compasso estranho entre medo e certeza. Pensava em tudo o que não dissera, nas vezes em que o orgulho venceu a ternura. Pensava também em como, mesmo magoada, nunca deixou de nutrir bons sentimentos, de pensar na Fedra todos os dias e na maioria das vezes com o coração quente. Havia qualquer coisa de inevitável naquele regresso, como se tudo que vivera até ali, a tivesse preparado para o momento.

Assim que saiu para a gare, enviou uma mensagem neutra para Lúcia e rapidamente resgatou o endereço da clinica que Glória havia enviado mais cedo.

A cidade ainda fervia em pressa e calor àquela hora do dia, assim como o seu coração. Queria chegar logo á clinica e nem pensou em procurar um hotel, onde repousaria mais tarde. Sempre tinha a casa de Glória de portas escancaradas para recebê-la, logo, essa era uma preocupação menor.

O táxi deixou-a à porta da clinica e mesmo com as pernas a quererem fraquejar, tamanho era o nervosismo que a corroía, identificou-se na receção, deu o nome da mãe de Fedra e foi encaminhada para uma sala de espera. O cheiro a desinfetante, as vozes apressadas, o som distante dos monitores, tudo lhe pareceu um cenário fora do tempo.

A sala de espera não tinha muita gente e o único som que se ouvia era de uma televisão com o volume bem baixo. Percorreu a sala com os olhos e viu Fedra sentada num canto, sozinha, com os cotovelos apoiados nas pernas e a cabeça sustentada pelas mãos. O coração de Sabrina pulou, quis correr até ela e abraçá-la, mas as pernas não obedeceram. Caminhou devagar com a sensação que os pés estavam longe do chão. Num movimento que lhe pareceu câmara lenta, Fedra ergueu o tronco e seus olhares se encontraram. Sabrina parou um pouco e Fedra fixou o olhar nela como quem precisa ver para crer. Olhou de um lado para o ouro e voltou a pousar os olhos na figura de Sabrina cada vez mais próxima. O olhar era uma mistura de surpresa, confusão e vulnerabilidade. Sabrina aproximou-se devagar e num sussurro disse:

            -A Gloria me ligou...- Sentou-se ao lado dela que não conseguiu articular qualquer palavra.

Durante algum tempo ficaram assim, lado a lado, no mais absoluto silêncio. Depois de um longo suspiro, Sabrina finalmente conseguiu pousar a sua mão sobre a dela. Fedra fechou os olhos e deixou-se ficar no afeto que já conhecia e que era um dos que mais a acalmava na vida. Aos poucos, as mãos se entrelaçaram e assim permaneceram sem que houvesse a necessidade de qualquer expressão verbal. O gesto simples, espontâneo, devolveu a ambas o fôlego que a vida tinha roubado.

Um pouco mais tarde, já recomposta do impacto da chegada inesperada de Sabrina, Fedra contou o essencial, pelo menos o que sabia até ao momento: a mãe tinha escorregado em casa, estava em observação, mas que em principio não era nada muito grave.

            -Meu desespero é porque ela ficou algum tempo caída sem conseguir pedir ajuda. Escorregou na cozinha e o telefone estava na sala. Quando ela percebeu que ninguém a acudiria, a pobre se arrastou pela casa até alcançar o telefone e pedir ajuda. O susto foi grande. - Suspirou inclinando o corpo para trás e encostando na parede.
Fedra falava devagar, sem defesas e Sabrina ouvia sem interromper, apenas presente.

Quando Fedra finalmente se calou, olhou para Sabrina e disse num fio de voz:

            -Não sei o que teria feito se não te visse entrar por aquela porta...

            - Não podia ficar longe sabendo do que estavas a passar...- Respondeu Sabrina apertando-lhe a mão entre as suas.

As horas passavam, o som dos passos ecoava pelos corredores brancos e a luz fria se misturava com o barulho distantes das máquinas. Fedra já não sabia ao certo há quanto tempo lá estava, Sabrina, por sua vez, apenas se fazia presente. Vez ou outra tentava que Fedra bebesse alguma coisa, mas era inútil, alegava sempre estar nervosa demais para conseguir engolir o que quer que fosse.

Quando finalmente o médico saiu da sala de observação, as duas se levantaram juntas, quase instintivamente, como se formassem uma só frente. O alívio do diagnóstico definitivo veio como uma onda, não era fratura, apenas uma queda sem maiores consequências. Assim que o médico a tranquilizou e deu as costas, respondendo a outro chamado, Fedra desabou num choro convulsivo. Sabrina a acolheu no abraço mais forte que seu corpo pôde dar naquele momento. Já não havia espaço para ressentimentos, orgulho ou resistência. Fedra sentiu todo o seu ser tomado por uma gratidão imensa por não estar sozinha.

            -A senhora já pode ver a sua mãe. Está tudo bem, ela vai passar a noite aqui apenas por segurança.

Avisou uma enfermeira a Fedra que sorriu ainda mais aliviada. Respirou fundo e sentiu os olhos arderem com as lágrimas quentes que derramara. Aprumou-se e num gesto de redenção olhou para Sabrina que assentiu com a cabeça. Ela correu para a ala de quartos.

***

A mãe estava deitada, rosto sereno, cabelos grisalhos espalhados pela almofada.

            -Que susto mãe! -Disse Fedra baixinho aproximando-se do leito dela.

Gracelina abriu os olhos e sorriu aliviada ao ver a filha.

            -Descuido, minha filha. Aquilo que sempre me dizes e eu teimo em não dar ouvidos...mas vou ter mais cuidado.

Fedra chegou mais perto e segurou as mãos da mãe entre as suas e levou ao coração.

            -Minha filha, mas tu é que estás abatida. Ninguém dessa vasta família veio ficar contigo? Teus primos? Adélia? João Pedro?

            -Calma, mãe, não te exaltes. Sabes como eu sou...não quis incomodar ninguém, ainda mais que fiquei desorientada...

            -Fedra...

            -Mas já avisei...e não fiquei sozinha, a Sabrina veio me apoiar...

            -Sabrina? - Gracelina franziu a testa.

            -É uma amiga minha. Uma amiga muito querida, que vive em Mindelo.

            -Chama-a, quero conhecer a tua amiga tão prestativa. - Gracelina sorriu, um sorriso lento, cheio de doçura.

            -Ela já deve ter ido embora, mãe...passou horas comigo. - Hesitou Fedra.

            -Vá lá ver. Gostaria de agradecer. - Insistiu Gracelina.

Fedra saiu do quarto fechando a porta devagar. Do lado de fora, respirou fundo algumas vezes. Sua mãe estava bem, tudo não passara de um susto. Mais uma respiração profunda. Sabrina viera. Sabrina estava ali, sentada na sala de espera. Levou a mão ao peito e de olhos fechados, agradeceu por tudo. Sorriu aliviada e depois de muitas horas de desespero, finalmente teve a certeza de que tudo terminaria bem.

Assim que Sabrina a viu, levantou-se de imediato.

            -Minha mãe quer ver-te. - Fedra sorriu meio tímida.

            -Claro! - Sabrina sorriu de forma leve.

Entraram juntas no quarto. A mãe de Fedra tentou erguer-se na cama e logo foi repreendida pela filha.

            -Mãe, fique quieta, acabaste de me dar um valente susto. - Correu para ajudá-la.

            -Oh filha exagerada e só tenho essa.

Riram. Ela olhou com mais atenção para Sabrina e seus olhos se iluminaram num largo sorriso.

            -Mas eu te conheço. - Disse animada. - Ela já foi contigo lá em casa...não foi?

            -Mãe, isso foi há tanto tempo...ainda lembras? - Fedra sorriu admirada.

            -Claro que sim. Eu não me esqueço de quem faz a minha filha feliz...eu me lembro que quando apareceste com essa nova amizade, passaste a viver mais e melhor e não me esqueço do olhar tímido dela...que ainda é o mesmo. - Sorriu para Sabrina que corou.

            -Mãe...assim deixas a Sabrina envergonhada e eu também. - Instintivamente colocou sua mão no ombro de Sabrina que acolheu o carinho deixando a cabeça descair um pouco.

            -Que bom que a senhora está ótima. - Sabrina finalmente conseguiu falar.

            -Vês? A tua amiga disse que estou ótima. Pare de se preocupar, Fedra.

Durante algum tempo continuaram naquela conversa despretensiosa. Gracelina contou mais uma vez o que lembrava do acidente, pediu desculpas à filha pelo transtorno causado, fez algumas perguntas triviais. Sabrina respondeu a todas com graciosidade, enquanto Fedra observava tudo como se fosse cena de um filme, daqueles para lembrar a vida toda.

O médico entrou, interrompendo a conversa, mas reiterando as boas notícias:

            - A visita terminou, mas a dona Gracelina está ótima. Só por precaução vai pernoitar connosco.

            -Vá descansar, minha filha. Olha só como estás, ah meu Deus...

            -Mãe, eu estou bem...a Lia e a Nádia estão lá fora e vão ficar um bocado para o caso de...

            -Minha filha, eu não vou precisar de nada, estou em excelentes mãos. As coitadas das minhas sobrinhas vão poder me ver, mas não precisam ficar. Tome conta dela, sim? - Virou o olhar para Sabrina. - Certifique-se que ela come alguma coisa, por favor.

            -Ela vai comer! - Assegurou Sabrina com ternura.

            -Muito obrigada, minha querida, pelo cuidado que tens com a minha filha.

Uma enfermeira entrou no quarto e elas tiveram mesmo que sair.

***

Saíram da clinica lado a lado, o ar frio da noite a envolver-lhes a pele. Fedra caminhava devagar, como se tivesse medo que qualquer passo em falso quebrasse o momento. Perto do carro, Fedra parou um pouco e olhou fixamente para Sabrina.

            -Obrigada por teres vindo. - Murmurou.

            -Eu nunca deixaria de vir...

            -Onde estás? - Fedra reparou na mochila que Sabrina carregava nas costas.

            - Vim do aeroporto para cá, agora que vou procurar um lugar para ficar. Já é tarde para pedir guarida em casa da Glória...

            -Vamos lá para a casa! -Interrompeu Fedra. - Estou um caco, mas não vou permitir que saias à procura de um hotel a essa hora. Costumavas gostar do meu apartamento...

Sabrina sorriu, segurando com força as alças da mochila.

            - Não estou em condições de resistir a um convite desses. - Riu.

            - Tens de voltar logo cedo para Mindelo?

            -Não...

Fedra estendeu a chave do Carro a Sabrina e contornou para o lado do passageiro. Mal trocaram palavras no trajeto até ao apartamento. Fedra ia quieta, exausta, com o corpo pesado, como se cada músculo lhe lembrasse o peso dos últimos dias.

Sabrina conduzia concentrada, de vez em quando lançava um olhar discreto, vigiando-lhe a respiração e a postura.

Chegara a casa e Fedra deixou cair a sua bolsa no móvel da entrada e aos tropeços, despencou o corpo no sofá. Sabrina aproximou-se devagar e fez-lhe um carinho na cabeça.

            -Vá tomar banho enquanto vejo o que tens aqui para comer. - Disse suavemente.

            -Não tenho forças para nada...não quero comer. -Fedra olhou-a rendida.

            -Prometi à tua mãe que te faria comer alguma coisa...

            -Eu sei, meu bem...mas ela não está cá. - Sorriu. - Como uma maçã e um copo de leite de amêndoa. Ok?

            -Ok...sua malandra.

 Risos.

Sem lhe dar tempo para protestar, Sabrina dirigiu-se à casa de banho, abriu a torneira e deixou que a água tépida enchesse a banheira. Colocou algumas gotas de óleo essencial que encontrou na estante sobre o lavatório, acendeu velas aromáticas e certificou-se de que o ambiente estava perfeito para o relaxamento.

Preparava-se para chamar Fedra quando foi surpreendida pela presença dela encostada à porta da casa de banho.

            -Espero que gostes de lavanda...-Lançou-lhe um sorriso tímido.

Fedra não disse nada, não conseguiria. Estava tomada por um misto de emoções que a faria chorar ao menor gesto...entrou na casa de banho e deixou-se despir por Sabrina. O toque de carinho dela, o cuidado, o ambiente, a surpresa...a certeza de que não queria outra pessoa ali naquele momento...ah, o choro veio...veio convulsivo...libertador. O abraço forte que recebeu derrubou todos os medos. A delicadeza de Sabrina em retirar-se quando já só tinha no corpo o sutiã, fez Fedra explodir em certezas.

Sozinha e completamente nua, entrou na água que imediatamente abraçou-lhe o corpo como um afago. A alma tão atormentada nos últimos tempos, agradeceu.

Não demorou muito e Sabrina voltou com uma maçã e um copo de leite nas mãos. Fedra sorriu e degustou a pequena refeição mesmo sem fome alguma.

            -Chama-me quando terminares, mas ainda enrolada na toalha. - Disse Sabrina num tom suave e ao mesmo imperativo.

Fedra apenas anuiu. A sensação que tinha era que tudo aquilo fazia parte de um sonho...

Alguns minutos mais tarde entrou no quarto, enrolada na toalha, e com o corpo completamente relaxado. Sabrina estava sentada na beirada da sua cama. A imagem dela contra a luz amarelada do ambiente, mais uma vez fê-la acreditar em sonhos...

            -Senta-te...agora vou cuidar dos teus pés. - Ajoelhou-se no chão ao lado de uma bacia com água.

            -Sabrina...não precisa...- Fedra tentou protestar.

            -Senta-te. - ordenou Sabrina com um meio sorriso. - Eu quero fazer isto. Permita-me.

E permitiu. Um escalda pés com massagens nos dedos, planta dos pés, tornozelos e panturrilha. Não demorou para Fedra desabar na cama, completamente entregue ao relaxamento. Minutos mais tarde, Sabrina pediu que ela ficasse de bruços e proporcionou-lhe uma sessão de massagem nas costas. Toque firme e terno na proporção ideal, respirando paz, Fedra adormeceu profundamente. Sabrina permaneceu por ali, observando-a. O rosto sereno, a respiração regular, uma mecha de cabelo colada à testa. Teve vontade de tocar-lhe, mas conteve-se. Apenas ajeitou-lhe o cobertor e deu-lhe um beijo leve na testa.

Saiu do quarto porque já estava zonza de fome. Mal tinha se alimentado naquele dia e a cabeça já andava ás voltas. Na cozinha, preparou torradas e chá, mas antes de comer, tomou um banho. A água quente a cair-lhe pelos ombros, o vapor a subir, o cheiro de lavanda, tudo misturado deu-lhe uma sensação estranha de pertença...como se tivesse voltado para casa...

Enquanto se deliciava com o chá, o telefone vibrou arrancando-lhe do devaneio. Pelo horário, só podia ser Glória. E era.

"Está tudo bem? Conseguiste falar com ela?"

Sabrina sorriu.

"Sim. Estou com ela."

A resposta veio quase de imediato:

"Fico tão feliz. Estás no teu lugar."

Sabrina pousou o telefone, respirou fundo, e percebeu que, pela primeira vez em semanas, sentia paz. Olhou à volta, o silêncio, cheiro de lavanda no ar, Fedra a dormir em paz no quarto, concluiu que tinha ali tudo o que precisava.

Voltou ao quarto onde Fedra dormia serenamente. Parou algum tempo a observar-lhe a expressão quase infantil de relaxamento. Decidiu não se deitar na mesma cama para não correr o risco de acordá-la. Deu-lhe um beijo leve na têmpora, certificou-se que o cobertor a cobria bem e foi para o quarto de Mália.

Rapidamente foi vencida pelo cansaço e por todas as emoções do dia, rendendo-se ao sono. A meio da madrugada, foi desperta com um leve toque no braço. Ainda sonolenta, tentou abrir os olhos e entender o que se passava. Fedra estava sentada na cama, com uma camisa larga, cabelo solto e olhar meio perdido.

            -Posso ficar aqui contigo? - Perguntou num fio de voz.

Sabrina levantou o cobertor e fez espaço para que ela pudesse se acomodar. Fedra deitou-se, encostando-se devagar, até sentir o calor do corpo dela contra o seu. Sabrina abraçou-a sem dizer uma única palavra.  Depois de um breve silêncio, Fedra murmurou:

            -Pensei que...tive receio que tivesses ido embora.

Sabrina beijou-lhe o topo da cabeça e suspirou.

            -Achas mesmo que eu seria capaz disso?

            -Eu...- Fedra hesitou. - Eu não sei...acho que é medo de acordar e perceber que tudo não passou de um sonho...

            -Fedra...estou aqui....

            -Eu estava tão perdida - Interrompeu com a voz embargada. - Perdida de mim. Ver-te naquele hospital foi como se a minha vida voltasse a entrar nos eixos.

Sabrina apertou-a ainda mais contra o seu corpo. Não havia mais nada a dizer.

Talvez o amor fosse isso, a respiração partilhada no escuro, o reencontro sem perguntas, os corpos a prometerem o que as palavras não conseguiam.

E assim ficaram, em silêncio, até o dia começar a nascer.

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Como prometido, Fedra e Sabrina no mesmo espaço territorial rsrsrs

Boa leitura.

NH


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Comentários para 22 - Capitulo 22:
mtereza
mtereza

Em: 30/11/2025

Como consegues se superar ? Que capítulo encantador e emocionante Nadine não só o nosso casal no mesmo espaço físico mais juntas novamente e se permitindo adorei . E o surgimento desse anjo chamado Vitória abrindo os olhos da Sabrina sobre cobra Lúcia. 

Bjs volte logo 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 30/11/2025 Autora da história
Nossa, muito obrigada. Hoje, particularmente, precisava de um incentivo desses. Valeu!
Eu prometi que elas estariam juntas rsrsrsrs
Muito obrigada por comentar.
Abraço


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brunafinzicontini
brunafinzicontini

Em: 24/11/2025

Lindo capítulo! Momentos de muita ternura... Sabrina e Fedra finalmente se entregando ao verdadeiro amor...

Vitória foi um encontro providencial para iluminar a visão de Sabrina, se é que ainda restavam dúvidas sobre a criatura tóxica que Lúcia representa. 

Catarina e Glória - dois anjos na vida de Sabrina, felizmente!

Ansiosa pelo próximo capitulo - imagino que será muito quente!

Boa semana, Nadine! Grande abraço,

Bruna


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 30/11/2025 Autora da história
Olá,

Sabrina sabe quem é Lúcia, o que ela tem é medo de abalar o que sente que está estruturado. É loucura, mas faz sentido para uma pessoa que já teve tantos atropelos na vida...eu pelo menos entendo muito bem a aparente inércia dela.
Pois é, Sabrina é cercada de gente do bem :)
O capítulo 23 não está como eu gostaria porque estou péssima por esses dias, cólicas horríveis que quase me paralisaram ontem. Não há a mínima condição de escrever nada quente quando meu corpo treme de dor, enfim...ainda nem conclui e hoje supostamente é dia de postar...vamos lá ver se consigo operar um milagre.
Abraço e muito obrigada por comentar.


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HelOliveira
HelOliveira

Em: 23/11/2025

Agora sim as coisas cominhando para o.entendimento, até a mãe da Fedra já sabe o quanto a Sabrina faz bem para a filha...e fiquei aliviada que não aconteceu nada mais grave..

Agora está tudo mais que claro para a Sabrina o quanto a Lúcia é inveja e totalmente tóxica..

 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 30/11/2025 Autora da história
Olá,

Eu acho que Sabrina sabe que Lúcia não vale nada, ou pelo menos ela sente, mas até ela reagir...Sabrina sendo Sabrina rsrs.
Muito obrigada por sempre estar aqui.
Bj


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NovaAqui
NovaAqui

Em: 23/11/2025

E apesar do susto de mamis, ficou tudo bem.

Você respondendo meu questionamento: Lúcia é invejosa mesmo. Como pode isso? Parece que Lúcia continua na adolescência.

Vitória, sua linda, você vai ajudar muito Sabrina! Pode contrata-la para o projeto que ela é a melhor.

Sabrina foi um amorzinho com Fedra.

E D. Gracelina falou como vê a filha quando ela está com Sabrina 

Agora sim! Elas podem tentar se entender 

Boa semana 

 

 


Nadine Helgenberger

Nadine Helgenberger Em: 30/11/2025 Autora da história
Olá,

Sim, o problema de Lúcia é inveja mesmo e falta de caracter também. Olha que tem gente assim, oh se tem.
Sabrina é doida, mas é gente boa. Sou fã dela. Gosto de gente assim, com altos e baixos, nuances, sem ser linear.
Hoje estou péssima, cheia de cólicas, nem sei com que animo vou concluir o capítulo 23, se é que vou conseguir, enfim...há dias assim.
Obrigada por sempre estar aqui. Bj


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