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Segredos por Elliot Hells

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Palavras: 3692
Acessos: 154   |  Postado em: 26/11/2024

Capitulo 56 Hospital Central de Nova Amsterdam

 

Charlotte estava deitada na cama hospitalar, abria seus olhos pouco a pouco para se acostumar com a iluminação do quarto. Recordava que a um tempo atrás estava jogando com seu primo Joseph na reunião dos Heinz quando começava a sentir mal. Observou a sua volta e tentou se recostar, sim, ela agora entendia tudo. Lembrava pouco a pouco sobre as vozes de seu pai, ela havia sido envenenada.

- Maldito Joseph! – levava a mão até a testa, fechando os olhos.

- Olha só quem acordou se não é a minha residente preferida – Camilla Lamartine adentrava aquele ressinto. – Você me deu um enorme susto mocinha. Seu pai entrou aqui dizendo que foi picada por um animal peçonhento, mas que por sorte vocês tinham em casa soros antiofídicos específicos, mas por precaução você ficará em observação hoje aqui, tudo bem?

Charlotte escutava com atenção aquela história, então haviam contado que na verdade ela foi picada por um animal peçonhento. Sim, isso era típico da sua família, afinal ninguém poderia saber que estão em um jogo por sua sobrevivência. Ela poderia ter perdido a sua vida e a história seria apenas um acidente trágico que esbarrou com um animal venenoso.

- É, por sorte minha família sempre tem suprimentos médicos em casa. – seguiu o fluxo daquela história.

- Espero que você não apronte nada perigoso mocinha, ficará uns dias dispensada da residência, eu já cuidei de tudo – dizia Camilla sempre com um ar de mãe cuidadosa e profissional. De fato, aquela era uma das grandes alunas que tinha demasiado carinho. Escutaram batidas na porta, uma cabeleira branca adentrava aquele quarto hospitalar.

- Liz! – dizia Charlotte. – Você por aqui.

- Claro, vim ver como a minha priminha estar, tio Marcos e a tia Beatrix avisaram para nós sobre o incidente do animal peçonhento, enquanto você cuidava do jardim. – Elizabeth mentia e seguia a adaptação da história da família – Não é muito prudente fazer trabalhados de jardinagem a noite prima.

- É, eu me lembrarei disso, mas era meu único horário extra. – falava Charlotte. – Mas deixemos isso para lá. O pior já passou. Liz quero apresentar a minha preceptora da residencia a Doutora Camilla Lamartine.

Camilla abria um sorriso ao rever Elizabeth.

- Já nos conhecemos, Charlotte. Elizabeth é uma amiga das minhas filhas, Vivienne e Catherine. – dizia a doutora.

- Como vai a nossa menina das flores – entrava Holand com um buque de flores amarelas desejando melhoras para a sobrinha e também fazendo parte daquela encenação de que foi um mero acidente doméstico.

- Tio Holand, não precisava se incomodar. – dizia Charlie. – Essa é a doutora Camilla – Charlotte apresentava ambos. – Camilla é minha preceptora e atualmente vejo que estou dando trabalho para ela como paciente. – sorriu.

- Não é para tanto, é minha função como médica e preceptora cuidar muito bem dos meus alunos e pacientes, principalmente quando resolvem assumir ambos os papéis. – brincou Camilla rindo, quando viu a última pessoa da família Heinz entrar. Era Córdelia, com um vestido preto e algumas jóias e pulseiras em ouro adornando os seus pulsos e pescoço. A médica engoliu em seco ao olhar para aquela mulher que a olhava intensamente com seus par de topázios. Por um momento pensou que o tempo não havia passado para ela e estava vendo aquela antiga garota.

A voz de Córdelia soou intensa e harmoniosa.

- Vejo que minha sobrinha está em boas mãos, doutora Lamartine, quanto tempo. – dizia Córdelia estendendo a mão para cumprimenta-la.

Camilla fez o mesmo.

- Olá senhora Heinz. – dizia Camilla ao apertar aquela mão estendida, enquanto os outros as olhavam.

- Ah, é mamãe, você e a senhora Lamartine se conheciam, não é? – Elizabeth falava por sua vez.

- Não posso acreditar, tia Córdelia conhece a dra. Camilla? – Charlotte dizia estampando genuína surpresa.

Holand sentava em uma das poltronas livres.

- Eu vivo dizendo que essas terras são pequenas demais e todos se conhecem. – sorriu o homem.

- Sim, Camilla e eu nos conhecemos de tempos antigos, não é mesmo? – demoraram para perceber que ainda estavam com as mãos dadas, até que Córdelia fez menção de soltar e Camilla fez o mesmo.

- Sim, a muito tempo atrás, vocês duas nem sonhavam em nascer, muito menos as minhas duas filhas. – Córdelia capturou essa informação.

- Então presumo que deve ter se casado com o Jonathan mesmo, fico feliz por você. – Camilla a fitou, embora o sorriso de Córdelia esboçasse alegria, algo em seus olhos prendia a atenção da doutora que tentava decifrar algo sem sucesso.

- Sim, duas lindas garotas, assim como você teve a Elizabeth, uma linda garota. – explicava.

Elizabeth foi a próxima a falar.

- Conheci a senhora Lamartine e o senhor Lamartine devido as duas filhas dela, mamãe, Kitty e Vivienne, eles foram tomar um café lá em casa quando chegaram de viagem recentemente. – Elizabeth explicava calmamente.

- Sim, voltamos a algum tempo de viagem e conhecemos a jovem Elizabeth que por coincidência era a sua filha.

- Confesso que eu também conheci a Kitty. – foi a vez de Charlotte falar. Todos olharam curiosos para ela, inclusive Camilla e Elizabeth.

- Conheceu a Kitty? Fala da minha filha Catherine? – Camilla enfim desviava o olhar de Córdelia e fitou Charlotte, Córdelia fez o mesmo e encarava a sobrinha.

- Sim, no dia que saí do trabalho devido ao falecimento daquele paciente novinho, fiquei um tanto abalada. Era final de expediente e fui para um estabelecimento, coincidentemente a Kitty estava lá e ela me ajudou a ir para casa, pois eu não estava em muitas condições de seguir. Foi assim que nos conhecemos. – relatou sobre o primeiro encontro com a filha da Lamartine e não que havia tido outro e que se beijaram, pois não sabia se a doutora era liberal ou muito menos se sabia da sexualidade da filha.

- Ora, ora, muito a cara da Kitty fazer isso, ela sempre foi assim, um espírito livre e solidário. Bom, quando você estiver melhor, deveríamos marcar todos para jantarmos em minha casa. – sugeriu a doutora.

- Certamente deveremos nos reunir. – concordou Córdelia, pois agora estava curiosa para saber quem eram as filhas da doutora Camilla, na qual ambas as Heinz estavam vinculadas a elas.

- Deixarei vocês ficarem por um tempo em família, enquanto ainda é permitido o horário de visita. – Camilla pediu licença e saiu dali, para ver seus outros pacientes, um deles seria a própria detetive que se encontrava em outra ala ali.

- Quer dizer que a minha sobrinha e a minha filha conhecem as filhas da doutora Camilla Lamartine? – sorria Córdelia achando tudo aquilo muito engraçado. Em sua cabeça o destino não parava de pregar peças.

- Qual a graça mamãe? – Inquiriu Elizabeth sentada em outra poltrona perto de seu pai. Córdelia contou de forma sucinta como ela e Camilla se conheceram desde a infância até a adolescência no colégio interno feminino. Relatou que perderam contato depois que a outra terminou a residência e demais estudos na Alemanha.

Elizabeth e Charlotte ficaram impressionadas.

- Quem diria... – comentou Elizabeth mais para si mesma e com um sorriso pequeno.

Elizabeth e Holand ficaram fazendo companhia, enquanto Córdelia dizia que precisava procurar o banheiro. Ela saiu por aqueles corredores em seus saltos altos, ecoando, olhando furtivamente pelos quartos hospitalares quando uma cabeleira ruiva apareceu e ela não se deu conta de que sorriu.

A pessoa de cabelos ruivos estava de costas e não percebia a presença da outra, enquanto fechava a porta de um quarto de seus pacientes.

- Oi Milla... – disse baixinho.

Camilla segurou o riso por ouvir após tantos anos aquele apelido na boca da loira.

- Delly... – disse de volta ao se virar para olhar aqueles olhos azuis intensos que o tempo não apagou o seu brilho.

- Tem algum lugar mais restrito para conversarmos? – sua pergunta parecia mais uma suplica do que mera pergunta.

Camilla fez um gesto de cabeça indicando para a loira a seguir. Passaram por mais dois corredores até virarem para a sua sala de descanso reservada, na qual somente ela tinha a chave. O local era simples, uma cama para descanso, um pequeno armário cinza para guardar os pertences e banheiro em outra porta. Camilla fechou a porta atrás de si para não serem incomodadas e ofereceu para a outra se sentar.

- Não é um hotel cinco estrelas, mas é o que posso oferecer por agora. – dizia a médica a sua frente.

Córdelia deu dois passos e a abraçou com força. Camilla soltou a prancheta na cama para retribuir aquele abraço apertado. Naquele momento, somente naquele momento, ambas deixaram algumas lagrimas rolarem por seus olhos e faces. O abraço era demorado, apertado e acolhedor.

Ficaram cerca de cinco minutos se abraçando assim apertado até resolverem se soltar aos poucos, porém sem distanciar seus corpos um do outro. Não sabiam por onde começar a falar.

 

Flashback de Córdelia e Camilla

 

Quando eu tinha sete anos, era conhecida por Camilla Vivian Klein. Meus pais eram de uma cidadezinha da Alemanha bem confortável, contudo eram pessoas tradicionais e conservadoras demais. Meus pais sonhavam que eu me casasse com um homem Alemão e continuasse com a família assim.

Meu pai era um renomado médico neurologista, naquele tempo quando a psicanalise estava ganhando corpo. Ele era um devoto e ávido estudante, daí de onde herdei todo o gosto por estudos e pela própria medicina. Papai era frequentemente chamado para dar conferências no Brasil e se esforçou para aprender o português, sempre que se dedicava a algo, fazia com maestria.

Foi durante essas conferências que o convidaram para realizar uma pesquisa no hospital psiquiátrico do Brasil, lá tivemos que nos mudar e ele pessou que eu deveria seguir a tradição alemã e fazer parte de um colégio interno. Assim, não foi difícil achar uma escola feminina.

Nesse tempo, eu era apenas uma menininha ruiva e sardenta de sete anos. Falava um português arranhado, porém compreensível para quem escutava. Não podia imaginar que ali, naquela escola para garotas conheceria alguém tão especial.

Passado alguns semanas da minha instalação na escola para meninas, Córdelia Evelin Müller seu nome de solteira, havia se transferido por razões financeiras. Seus pais estavam fazendo fusões com empresas de negócios, uma parte da sua família lidava com direito empresaria, enquanto a outra era empresaria e investidora. Estavam no Brasil por negócios.

Fizemos amizade rápido demais, boa parte da nossa infância de idades correspondentes passamos juntas. Ela estava sempre ao meu lado e consequentemente eu estava do dela. Quando caía tentar subir nos altos muros da escola feminina para ver o mundo além daquelas paredes, eu cuidava dos seus machucados, pois havia aprendido o básico dos primeiros socorros com meus pais.

- Anda Milla, será divertido, vamos?! – dizia a pequena Cordelia tentando me fazer acordar mais cedo para irmos ao lago depois dos muros.

- Delly são quatro da manhã, vamos dormir mais um pouquinho, as irmãs irão nos matar se perceberem que fugimos. – eu dizia ainda sonolenta.

- Mas assim você perderá a melhor parte, Milla. Vamos!

E assim, com sua lábia irresistível já para mim, pulamos o muro, fomos para o lago e lá esperamos o sol nascer e era lindo! Ela estava certa, eu iria perder a maravilha que era poder apreciar a natureza daquele jeito.

É claro que naquele dia fomos castigadas por fugirmos escondidas das irmãs. Tivemos que ficar depois das aulas para limparmos as salas e as áreas comuns durante uma semana para aprendermos os valores das regras.

Mas nada podia apagar aquele sol nascente constrastando com os fios loiros da Cordelia. Uma imagem que eu carrego sempre comigo em minha memória. Quando crescemos um pouco mais, com treze anos decidimos que devíamos treinas como as pessoas grandes beijavam. Acho que essa foi nossa maior aventura.

Córdelia era inventiva, sagaz, audaciosa e animada. Sendo assim, gostava de por em prática tudo o que queria aprender, sempre falou um perfeito português, nenhuma disciplina era difícil para ela ou era demorada para ela entender. Mas nunca foi fã de ver muito sangue. Isso sempre a deixava enjoada. Eu por outro lado, caminhava cada vez para a área da saúde, trilhando e construindo os caminhos dos meus pais.

É claro que meus pais conheceram a Cordelia e adoravam o fato dela ser Alemã, torcia para que a jovem tivesse um irmão mais velho para que pudessem unir as famílias, mas a jovem era filha única.

Sempre muito educada, Córdelia permitia apenas para mim ver sua real personalidade.

Nossos dormitórios eram compartilhados, assim, ela era a minha colega de quarto desde que cheguei aqui.

- Mila, posso deitar na sua cama? – dizia ela querendo se aproximar.

- Achei que a sua cama fosse mais espaçosa e confortável. – fala, fingindo tentar dormir.

- Não, a sua que é – houve uma pausa. – me deixará ir aí ou não?

Ri.

- O que os Müller dirão se vissem a única filha falar desse jeito sem total cortesia? – achei graça. Ela rapidamente se acomodou ao meu lado e colocou a cabeça em meu peito, eu a abracei.

- Eles não dirão nada, pois você é a única que tem o direito de ver esse meu lado. De me conhecer verdadeiramente. Não preciso ser a mais brilhante, a mais educada, esperta ou sagaz. Você estará comigo. – ela se encolhia e se acomodava mais.

Córdelia sempre me deixava sem palavras, sem reações. Era mais forte do que eu.

- Mila, não está esquecendo de nada hoje? – ela indagava um tanto manhosa, isso me fazia abrir o sorriso.

Levantei seu rosto e a beijei em seus lábios ternamente. Aquele era o nosso segredo, um segredo que utilizávamos como desculpas nosso treino para quando encontrarmos a pessoa certa.

Tudo isso durou até nossos quinze anos, quando finalizávamos a escola. Ali precisamos fazer uma prova para ingressarmos no avançado, seria o correspondente ao curso técnico de hoje em dia. Eu fui para técnico em enfermagem, enquanto Córdelia escolheu o mercado de finanças. Eram cursos de duração de dois anos que possibilitavam o ingresso de imediato no ramo de trabalho para depois fazermos o vestibular para as universidades.

Dos meus quinze aos dezessete via Cordelia com menor grau de intensidade, mas cada visita dela, era inesquecível. Nossos treinos começaram a avançar de beijos para caricias e de caricias para relações ainda sob a faxada de estarmos aprendendo para o nosso par ideal.

Até que tivemos aos meus dezoito anos conseguir passar no vestibular de Medicina, enquanto já trabalhava como auxiliar de enfermagem, limpando curativos, nada muito sério ou difícil por indicação do meu pai.

Córdelia também estava crescendo no mundo dos negócios e passou para direito, sua escolha no mercado de finanças possibilitaram um estágio em um escritório de direito empresarial logo no primeiro período. Os cursos preparatórios para o mercado de trabalho davam essa vantagem naquele tempo.

Claro que passar em medicina me fez conhecer pessoas, sair com outras pessoas, assim como Córdelia, embora pudéssemos sair com outros rapazes, ficarmos com eles, nós sempre voltamos e compartilhávamos dos nossos treinos, daqueles beijos saudosos, das carícias provocativas.

- Quer dizer que estou diante de uma futura médica? – dizia Córdelia em cima de mim, enquanto estávamos deitadas.

- Sim, quando isso ocorrer e me visitar nos hospitais terá que me chamar de doutora Klein. – sorri, enlaçando meus braços ao redor de seu pescoço e a puxando para um beijo. Ela sussurrou entre meus lábios.

- Chamarei do que desejar, desde que após cada plantão você volte para mim. – ela me beijou.

O tempo passava até que conheci Johnathan, no momento não era nada sério, nunca namorei sério com ninguém e nem mesmo a Córdelia, enquanto estávamos separadas por nossas responsabilidades, cursos e traçando nossa trajetória de vida. Ela teve que fazer um intercambio nos Estados Unidos que duraria dois semestres sobre Estado e política. Naquele tempo nos comunicávamos por troca de cartas.

Cada carta demorava tanto para chegar, mas quando chegava era uma alegria saber de tudo o que estava acontecendo, assim eu também fazia. Contudo os primeiros dois meses foram solitários e isso me fez me aproximar cada vez mais de Johnathan. Ele estava cada vez mais perto de se tornar um médico e era apaixonado pela cardiologia.

Sabia que mais cedo do que nunca Córdelia alcançaria seu objetivo, pois além do intercambio, estava cursando disciplinas avançadas. O escritório que a contratou como estagiaria no início, quando terminou seu período de estágio nos dois anos, resolveram contratá-la.

Rapidamente por seu pensamento futurista tornou-se uma das conselheiras para o mercado financeiro. Ela era implacável! E eu não podia ficar para trás, dedicava-me cada vez mais as minhas especializações e isso trilhava cada vez mais caminhos que nos afastávamos, principalmente pela comunicação não ser tão eficiente e rápida como nos dias de hoje.

Eu contei para Córdelia sobre minha aproximação com Johnathan por meio de carta, enquanto ela estava nos E.U.A, aquilo me doía, sentia que estava ferindo-a como a mim.  E não sabia a razão.

A carta de resposta demorou dois meses para chegar. E ela perguntava se eu estava feliz e se ele me fazia feliz. Eu demorei para responder, pois me sentia feliz sim com o John, mas nada se comparava ao que sentia com a Cordelia, quando me sentia desanimada, bastava um abraço dela para que todo sentimento e energia ruim desaparecesse, era mágico como ela me trazia paz, como ela me fazia sentir incrível. Então, eu não sabia como responder a carta dela.

Os dias se passaram e Johnathan me pediu em casamento, antes de aceitar eu enviei, enfim a carta para Cordelia, seu semestre nos E.U.A deveria estar acabando e disse que ele havia me pedido em casamento. Dias se passaram e ele perguntava qual era a minha resposta e eu pedia mais tempo.

Naquela semana eu não havia saído do dormitório do campus. Fiquei para estudar para antecipadamente para as provas. Escutei batidas na porta e abri. Ali estava ela, Córdelia Müller parada na minha porta e parecia está molhada, de fato estava chovendo.

- O que você está fazendo aqui? Quando chegou e está toda molhada. – a puxei para dentro e peguei uma toalha para enxuga-la. – você perdeu o juízo, você pode adoecer assim.

- Não importa, eu quero saber a sua resposta, você se casará? – ela foi direto ao ponto, cortante e afiada como um bisturi. Eu não sabia como responde-la e ela continuou. – Milla eu amo você... amo você mais do que amiga, mais do que qualquer coisa que foi isso durante aquele tempo de infância. Amo muito e a quero comigo.

Ela soltou aquelas palavras tão fortes e afiadas, aqueciam meu coração ao mesmo tempo que me deixavam atônita.

- Meus sentimentos por você são iguais Delly, eu também amo você, mas eu tentei me proibir para além disso. – Eu me lembrei de toda a minha tradição, toda a forma do meu pai. Ele se exaltou só em saber que Jonhathan não era um alemão. Ficou tanto tempo sem falar comigo e ainda estava. Como ele reagiria se eu chegasse com Cordelia como minha noiva? Será que eu seria forte o suficiente para travar essa batalha? – Delly, eu te amo muito, muito mesmo, mas nós duas sabemos que não seria possível. Você conhece o meu pai! Sabe que seria impossível.

Algumas lágrimas brotavam dos seus olhos, deixando aquele rosto alvo vermelho, não percebi até sentir que dos meus olhos escorriam as mesmas lágrimas.

- Não chora Delly, mesmo que eu te ame muito, muito mesmo, eu não posso desapontar a minha família, mais do que já está sendo. Meu pai não fala comigo a um tempo, por um mero detalhe, não sei se suportaria perde-los.

Córdelia me olhava ainda em silêncio, eu limpava seu rosto.

- Apenas por hoje, por essa noite vamos nos permitir sermos livres, promete que será o nosso segredo?

- Prometo, Milla. – ela enfim falou.

Naquela noite, nós nos permitimos sermos amantes, sermos um casal, sermos parceiras, sermos o amor uma da outra. Aquela possivelmente era a nossa última vez e nos amamos ardentemente. Pela manhã Córdelia se despediu de mim com uma carta, na qual guardo até o tempo presente. Ela foi embora e eu nunca a mais a vi. Naquele quartinho no campus, estava selado para todo o sempre o nosso segredo.

 

“Bom dia Milla,

Certamente você, talvez, deva aceitar o pedido do Johnathan,

Ele deve ser um bom homem, espero que ele a faça feliz do jeito   que você merece e da forma que sempre quis fazê-la feliz.

Não poderei comparecer a esse momento, por razões que deve

Saber e estar claro. Contudo, eu desejo sim a sua felicidade!

Te amo sempre,

Delly.”

 

Aquela foi a carta de despedida que recebi de Cordelia, a última!

FIM DO FLASHBACK –     

 

Aquele abraço pouco a pouco foi sendo afastado para que Cordelia pudesse fitar a velha amiga.

- Você continua a mesma, Mila. – sorria gentilmente.

- Você também, ainda consigo te ver do mesmo jeito, parece que o senhor do tempo foi gentil com você.

- Com você também. – Cordelia acariciou o rosto da outra inconscientemente, até que percebeu o que fazia e recolheu a mão. – O tempo foi gentil com nós duas. Foi bom rever você. – dizia por fim se afastando para ir para a porta.

- Foi bom rever você também. – dizia Camilla, enquanto Córdelia começava a abrir a porta. – Me desculpe... por antes.

Córdelia de costas para ela, se preparando para sair, vira o seu corpo na direção da médica. Dizia ela com um sorriso singelo.

- Está tudo bem, são águas passadas. Fico feliz por você. – dizia enfim.

- E eu por você. – Camilla falou por fim, vendo Cordelia acenar e partir para voltar para o quarto de sua paciente e aluna Charlotte Heinz.

 

Fim do capítulo


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