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Segredos por Elliot Hells

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Palavras: 4283
Acessos: 152   |  Postado em: 26/11/2024

Capitulo 53 A recuperação de Valquíria

A doutora Camilla que tinha assumido o caso de recuperação de Valquíria conversava com Sophie de que podia levar algum tempo para ela recuperar as memórias, porém seria interessante poder estimular pouco a pouco esse reavivamento.

Devido as inúmeras visitas de Sophie no hospital e todos saberem o que houve com a detetive, pouco a pouco as jovens visitavam em busca de estimular o cérebro da Van Dahl sem muito resultado. Elizabeth compareceu junto a Sophie, depois o horário de visita alternava para Sophie com Vivienne, Sophie e Kitty, Sophie e Henrique.

Devido a essas visitas Vivienne passou a saber que sua mãe era a encarregada do caso da detetive e Sophie sabia que se tratava da mãe da sua amiga.

Valquíria já estava internada a duas semanas internada no hospital, seu caso foi um verdadeiro milagre e muito se deve a vontade de viver da agente do departamento de homicídios. Já tinha cerca de dez dias que a fisioterapeuta havia começado também e os resultados estavam sendo promissores, lento na perspectiva da detetive, porém rápidos para os médicos.

Muitas vezes quando dava sua hora de dormir, em seu quarto de hospital, sem dividir com ninguém retirava alguns cateteres ligado ao soro e forçava seus membros inferiores a reagirem, precisava estar ativa novamente e toda a sua energia precisava ser implacável como antes. Embora poucos do departamento de polícia soubesse, mas ela já havia passado por danos piores e isso não iria deixa-la inativa. Tentava fazer alguns treinos simples, mas que melhorariam sua recuperação.

Na certa, o que ocorreria com ela depois, que tinha certeza era refazer os exames de aptidões e qualificações para ser considerada apta para voltar ao trabalho e ser detetive novamente, bem como avaliação psicológica para análise de trauma de guerra. Outro ponto que ocorreria seria uma investigação para ela relatar o que havia ocorrido diante da corte. Muitos já haviam passado por isso, ela também, respondeu algumas interrogações, porém passaria por isso de outra forma.

Novas cicatrizes pesadas surgiram em seu corpo, de balas, ferimentos por ter se arrastado naquela terra distante e claro, novos pesadelos. A vinda de Sophie para dormir ali iria demorar, por isso sempre calculava o tempo entre um treino e outro.

Valquíria odiava estar em um ambiente de hospital, porém era necessário e queria se recuperar o mais breve possível. Aceitou o período de terapia oferecida pelo departamento de polícia, a fisioterapia, o nutricionista para recuperar e balancear suas taxas. Solicitou um professor de defesa pessoal, pois precisava manter-se alerta. Muitos protestaram, mas utilizou isso como uma desculpa para estimular sua capacidade cerebral.

A doutora Camilla protestou de forma inicial, pois não achava pronta para ter tais aulas, até que foi explicado que seria levado duas enfermeiras, os movimentos seriam feitos com velocidade totalmente reduzida. Isso ainda não a convenceu até assistir a primeira aula e certa convicção. Era uma atividade que estava em avaliação para ser aceita.

Devido a isso, Valquíria treinava em silêncio no seu quarto para ser capaz de se recuperar, principalmente quando sabia a hora que Sophie chegava para dormir ali. Desde o ocorrido, Sophie vinha diariamente, trazia roupas limpas, cuidava, tentava estimular sua mente.

Valquíria se sentia vulnerável, estava internada a semanas, precisava fazer sempre monitoramento da sua saúde, terapia, perdeu diversos companheiros nessa missão, uma investigação estava por vir e precisava passar no teste de aptidão para mostrar que estava apta para o trabalho como antes, além de ter perdido suas memórias de quatro anos atrás. Sem falar que está ali, significa que suas operações como Yami estavam suspensas, isso ela sabia, pois tudo era antes dos quatro anos. Não poderia entrar em contato com Alvo e o Cobra tão cedo.

- Maldição! – praguejou frustrada com tudo que estava acontecendo. Seu corpo ainda era dolorido, porém bem menos. – Preciso me recuperar, preciso voltar ao trabalho!

Acima de tudo, Valquíria queria estar nas investigações, pois procurar tudo pela internet não era a mesma coisa. Olhou para o relógio na parede e sabia que Sophie estaria chegando. Tratou de tomar um banho e não solicitou a ajuda de ninguém, não estava tão débil que precisava de suporte de alguém. Voltou, se trocou e se vestiu.

Uma enfermeira entrou e a fuzilou com os olhos.

- Fez de novo, não é? – a enfermeira foi avaliar o soro e rolou os olhos. – Os piores pacientes que podemos cuidar são: o pessoal da área da saúde e vocês policiais. Incrível como o nível de teimosia é sem tamanho.

Valquíria continuava calada.

- Vamos, me dá sua mão, preciso recolocar e trocar o soro. – assim foi feito.- Sua acompanhante já está subindo a vi chegando e passando pela recepção. Talvez você queira conversar mais com ela.

Quando a jovem enfermeira, de 1,50 metros saiu do quarto, Sophie entrou e esboçou seu melhor sorriso ao ver a detetive. Seu aspecto estava melhor. Ela adentrava o local passava álcool em gel nas mãos.

- Oi Val. – sorriu gentilmente. A detetive analisava cada parte de Sophie. – Esbarrei com a enfermeira Kelly que disse que você era uma pessoa tremendamente teimosa. – Sophie alocava suas coisas na mesinha que tinha ao fundo do quarto hospitalar.

- Não tão teimosa quanto deveria ser. – falou a detetive.

- Hm, vejo que está de bom humor, está conversando comigo e sem dar de ombros. – Sophie implicou com ela.

A detetive rolou os olhos e se calou.

- Você já se alimentou? – indagou a legista.

- Sim.

- Tomou seu banho? – novamente Sophie a indagava, sem fita-la, pois organizava algumas coisas.

- Sim. – Valquíria fingia assistir a televisão, um jornal aleatório.

- Voltou a ser monossilábica? – Enfim Sophie a encarou e ela nada respondeu. – Bom, como estamos jogando algo sem retorno, não irá se incomodar que eu tome um banho antes de ficar aqui com você, certo?

Valquíria deveria admitir que seja lá que fosse aquela mulher, ela era atraente. Investigou as credenciais da legista e o sistema de veracidades do que falava, de fato aquela mulher trabalhava com ela e falava a verdade. Queria poder lembrar mais, queria poder ir para casa e rever suas coisas, talvez algo a ajudasse, algo vindo dela para ela mesma.

Sophie tomou seu banho rapidamente e vestiu algo mais confortável, o que fez a detetive mexer seus olhos de forma periférica sigilosamente para fita-la.

Assim, Sophie foi para a mesa com seu notebook, enquanto Valquíria fingia assistir o jornal. Durante vinte minutos não houve nenhuma palavra trocada entre ambas, o que a detetive estranhou, pois todos os dias, Sophie fazia o ritual do banho, sentava na cadeira da mesinha e começava uma conversa aleatória sobre elas, sobre casos, qualquer coisa que pudesse fazer a detetive lembrar. Porém, era uma conversa de um lado, Valquíria pouco interagia ou quando assim fazia era monossilábica.

Hoje algo estava diferente, não houve conversa, nem unilateral ou qualquer tipo de história, apenas silêncio. E aquele silêncio a estava irritando. Mas continuou quieta fitando de soslaio a legista. Até que passado uma hora do mais puro silêncio e a detetive falou.

- Por qual razão hoje está em silêncio? – inquiriu fingindo não fitar.

- Vejo que está interessada... – sorriu e olhava para a detetive – mas está certa, estou quieta hoje sim por motivos lógicos e pragmáticos.

- Então está fazendo uma outra tática comigo? – Valquíria a fitou.

- Se deseja nomear dessa forma, talvez. – um sorriso gentil surgiu naqueles lábios que Valquíria acidentalmente analisou. Engoliu em seco e desviou o olhar.

- Sendo assim, doutora desejo-lhe boa sorte com essa tática.

Dez segundos depois o telefone de Sophie toca, Valquíria observou o rolar de olhos da doutora quando visualizou o visor. Antes, alguém ligando-a nessa hora seria Valquíria, porém, a detetive estava bem ali ao seu lado. E agora era outra pessoa, alguém que a irritava grandemente.

- Seyfried – atendeu dizendo já o seu nome. Valquíria prestou atenção naquela ligação. – Não, não. Os resultados da combinação de DNA, certamente sairão amanhã, Woolf. – um silêncio de Sophie, o que significava que Ian Woolf estava falando e dando alguma instrução de alguma coisa. Ela tamborilava os dedos e isso era notado por Valquíria – Como? – o tom de Sophie começou a ficar preocupado. – Certo, certo. Irei consultar e analisar isso.

Sophie desligou e suspirou. Valquíria percebeu isso, e ela sabia que algo estava incomodando a legista.

- O que houve? – inquiriu.

- Não se preocupe, é apenas o Ian precisando de alguns resultados de DNA. – A Valquíria nunca foi muito fã de Ian, ele era das antigas no departamento e essa pessoa ela lembrava bem. Ela e a legista compartilhavam isso. – Ah, esqueci que talvez não lembre do Ian. É um outro detetive que assumiu alguns casos.

- Eu lembro do Ian, quando cheguei no departamento ele também entrou.  - Valquíria não queria mostrar que estava irritada por Ian ter assumido alguns de seus casos, supôs. – Ele deve ter assumido os meus casos... – Valquíria falou e Sophie capturou no ar o rápido raciocínio dela, pois em nenhum momento ela falou de quem ele havia assumido.

- Eu não disse de quem ele assumiu os casos, como sabe disso? Um silêncio pairou até a resposta mais lógica surgir.

 – Apenas correlacionei todos os fatos que você e as outras vem falando sobre mim nos últimos anos que foram apagados da minha mente. E segundo você, eu tinha um apelido ruim entre o departamento de polícia, isso resulta em ego ferido dos outros detetives. – continuou a falar. – Meu momento incapacitante temporário é a chance perfeita para assumirem alguns dos meus casos que estávamos analisando. Você recebeu a ligação dele e falou isso em seguida, apenas conectei os fatos e pistas que você foi deixando no caminho. Além disso, o Woolf sempre foi competitivo comigo anos atrás, duvido que quatro anos depois ele tenha mudado.

Sophie a analisou, era um argumento puramente lógico e a cara da Valquíria. Ela seria sagaz de pensar e conectar os pontos. Porém, algo dentro da doutora sentia que por trás de toda essa lógica irrefutável tinha algo escondido.

- Tudo bem, você está certa e é exatamente assim. – Sophie ficou feliz dela ter falado um pouco mais com ela dessa vez.

- Então, o que de fato ele queria, você irá me dizer? – a detetive estava curiosa.

- Por enquanto você sabe que está como um status de civil, até recuperar sua arma e distintivo. Mas é uma situação que se conecta com um dos seus casos. – Sophie saiu da mesinha e levou o notebook até a cama da detetive.

Mostrou as atualizações e imagens do caso e as questões da autopsia. Inicialmente Sophie tentou contar tudo desde Thomas Segundo, o caso de suicídio envolvendo a esposa dele. O caso que Ian Woolf estava investigando estava vinculado com o namorado da filha do Thomas, Andressa. Aparentemente, o namorado estava se preparando para fazer parte do grupo do Thomas Segundo, estava no que chama de período teste e de mostrar ser leal e que poderia no futuro assumir a posição de chefe da família caso o pior ocorresse.

- Parece que a atividade da família não acabou com o papai – comentava Sophie. – Até agora Andressa não está vinculada em nada, porém a desgraça é algo que persegue a família dela. Primeiro o pai morto, a mãe se matou e o namorado está possivelmente morto.

- Não deve ser nada fácil para ela ver toda a família ser destruída, um após o outro. – Valquíria sentiu um pingo de empatia para com a jovem. – O mais lógico seria buscar vingança.

- Acha mesmo que ela poderá fazer isso? – questionou a outra.

- Não sei, mas poderemos aguardar algo vindo dessa garota em algum momento. – um silêncio forte instalou ali, até Valquíria falar – Quando percebemos que perdemos tudo, a vingança torna-se sua única aliada. Chega a ser um motivo para se continuar vivendo.

Valquíria falava mais como algo para si do que para Sophie.

Sophie não compreendia o que a detetive queria dizer sobre aquilo. Se ela estava falando mesmo de Andressa Segundo ou outro assunto. Ela então resolveu segurar a mão da detetive que se assustou, mas não fez menção de afastar aquele toque.

- Embora a vingança apareça como única aliada e amiga, não estamos sós realmente, pois a estrada sempre coloca alguém na nossa vida. Seja a Andressa ou qualquer outra pessoa, sei que ela fará a coisa certa. Por trás, sempre há os ensinamentos, os amigos que se fez ao longo da vida. – dizia Sophie fitando a detetive. – Não estamos sozinhos nesse mundo.

 

Sophie percebia que não havia tido tanto progresso com o estimulo da memória da detetive, recordava que a amiga de Elizabeth quando foram ficar um tempo na casa de praia da família Heinz, era uma grande psicóloga e talvez pudesse auxiliar ainda mais nesse retorno por lembranças passadas. Por sorte, desde aquele tempo mantiveram contato e trocaram de números como todos ali na casa.

Sendo assim, enquanto tinha que resolver seus assuntos de trabalho, solicitou a presença de Carole para acompanhar a detetive Van Dahl na busca por se encontrar novamente e resgatar suas memórias perdidas. Embora, soubesse que o protocolo dos psicólogos e psicanalistas fossem de não atender amigos, a perda da memória de Van Dahl dos últimos quatro anos tornava um momento de excessão e principalmente de urgência, pois Sophie não desejava pesquisar por outros profissionais. Ela confiava na capacidade de Carole para tentar destravar alguma memória ou simplesmente dar alguma luz para essa escuridão.

O relógio iria bater oito horas, quando Carole adentrava o quarto da detetive. Essa franziu o cenho imaginando que seria mais exames irritantes para serem feitos.

- Olá, Val, como está se sentindo hoje? – perguntava a morena adentrando um pouco o quarto.

- Acho que talvez eu me sentisse melhor se as pessoas parassem tanto de me questionar como eu estou. – dizia sem vontade. – ainda não me lembro de absolutamente nada dos meus últimos quatro anos, alguns anos da minha vida simplesmente sumiram, tudo o que sei são por terceiros. E estou um pouco exausta de perguntarem como estou. – foi franca.

- Imaginei que sim, sua médica responsável por você me deixou te levar para fazer um passeio aqui pelo hospital, o que você acha? – foi sugestiva.

Tudo o que Valquíria queria é sair um pouco.

Havia uma ala no hospital verde, que era permitido para pacientes ficarem junto de seus acompanhantes, la estavam algumas pessoas tomando banho de sol, sentadas em cadeiras de rodas e quando não sentadas nos bancos de madeira próximos dali. Valquíria e Carole estavam sentadas no banco.

- Valquíria, você está familiarizada com o conceito de hipnose? – indagou Carole para outra que a deixou confusa. Aquela expressão foi captada pela mulher.

- Não creio que eu seja muito adepta a hipnotismo, receio que deva ser cética perante a essa técnica, mas por qual razão a pergunta? – quis saber Valquíria, enquanto a fitava.

- Na verdade, apenas queria saber o que pensava sobre, a muitos anos atrás, você deve saber que sintomas eram tratados por um certo tipo de hipnotismo. Visto que todo cerne é captar e trazer para superfície mental o conteúdo obscurecido pelo veu do desconhecimento. – começava a explicar o seu ponto. – O que quero dizer é que muitos tentaram acessar esse conteúdo desconhecido, batizado pelo pai da psicanálise como “inconsciente” através da hipnose. Até mesmo ele tentou fazer dessa forma, contudo ele encontrou um novo método que o batizou por “livre associação”. A livre associação, permitia que nós psicanalistas junto com o paciente conduzíssemos um diálogo que poderíamos acessar esse conteúdo desconhecido.

- Hum... – expressou Valquíria. – Você está dizendo que está aqui para tentar acessar esses conteúdos escondidos na minha mente? – Valquíria dizia incrédula.

- De certa forma, estou aqui para tentar auxiliar você a compreender o que está ocorrendo. – Carole dizia. – isso é claro se você estiver de acordo.

Valquíria ponderou com a cabeça, não gostava de ter pessoas a analisando, porém, sabia que cedo ou tarde os exames psicológicos iriam chegar e talvez essa fosse sua chance. Além é claro de quem saber ter suas memórias de volta.

- Está certo, podemos tentar. – se permitiu o teste.

- Alguns autores chamariam isso de entrevista preliminar, eu, na verdade quero só conversar o mais naturalmente com você, principalmente para analisarmos como você está quanto as informações. Fale um pouco de você. – sugeriu Carole.

- Bom, o que eu posso falar? – tentava buscar as palavras certas.

- Não procure pelo que é certo ou errado, só fale, livremente, ninguém está aqui para julgar, muito menos para dizer o que é certo ou errado, aqui é o momento de você ser só você e ninguém mais, tente revelar o “not-me” desconhecido. – Valquíria fitava Carole e começava a compreender uma abordagem diferente do que estava acostumada com as psicólogas do departamento de polícia. Principalmente que se sentia falando com uma parede, sem muita profundidade. Ali era diferente. Deixou o ar entrar pelos seus pulmões para começar a sua narrativa. Não sabia por onde começar e por aí falou:

- É estranho a sensação de ter quatro anos da sua vida apagado, principalmente quando esse tempo e essas memórias que sumiram da minha cabeça estão vivas na mente de outras pessoas. – Carole não a interrompeu, pois sabia que aquilo era um momento importante para a detetive. – Sinto-me como se estivesse fragmentada, meu eu esteja incompleto e partes de mim estão na mente de outras pessoas. Dia após dia, vi pessoas que falavam animosamente comigo e que são totalmente estranhas para mim. Principalmente que além de vê-las e não reconhecê-las, o olhar exposto para mim por saber que eu não sei é de algo indecifrável para mim. Porém, doloroso e não sei de onde vem isso.

Carole queria que a detetive fosse mais fundo em suas análises, queria fazê-la falar.

- Diga-me um exemplo dessa situação – pediu Carole, embora queria que a própria detetive se ouvisse.

- A doutora Seyfried – Valquíria começou a falar sem se sentir, não recordar de quem é essa mulher a incomodava, a frustrava. – todos os dias ela vem pontualmente às 18h30 após o trabalho no departamento de polícia. Sei que ela não passa em casa, pois toda vez faz o mesmo ritual e vem tomar banho aqui, ela traz novas mudas de roupas para trabalhar no dia seguinte, passa seu tempo no departamento e vem para cá. Suponho que desde que ela soube que eu estava no Hospital Central de Nova Amsterdam ela nunca mais passou em casa para dormir. Suas noites tem sido comigo. Naturalmente isso é um comportamento um tanto estranho, por que alguém faria isso? E principalmente por que ela faz isso para mim? Pessoas do departamento vem e vão, algumas passam dias sem aparecer, mais ela religiosamente vem. Sei seus passos decorados e escuto de longe os “clac clac” do seu salto agulha, posso até dizer que também sinto o perfume adocicado que usa. Porém, eu não faço ideia de quem ela seja, só sei o que ela me fala e já mostrou. Ela tem uma amizade com a Valquíria dos últimos quatro anos, mas eu não sou essa Valquíria. Mas...

Surgiu um silêncio, um silêncio que Carole precisava pisar com calma, há diversos tipos de silêncio no set terapêutico e ela sabia bem disso, o silêncio também é uma forma do paciente também falar. Ela fitou a detetive e o que o seu corpo estava falando. As mãos estavam juntas, porém os dedos mexiam uns com os outros, demonstrando certa ansiedade e relutância, as pernas antes descruzadas passaram a serem cruzadas com o final desse “mas”, será que a detetive estava tendo um momento de resistência? A jovem detetive respirou fundo, descruzou as pernas e voltou a falar.

- Mas toda vez que ela me olha e procura algo em meus olhos como um vestígio de que eu lembre de algo e eu não lembro, parece que estou desapontando ela e me sinto horrível por isso, sinto-me frustrada.

- A aprovação da Seyfried significa algo para você? – falou Carole como uma deixa para analisar a reação da detetive.

- Aprovação? – Valquíria a fitou com um franzir de cenho. – que aprovação? Quem você acha que precisa de aprovação? – ela riu sem vontade. – Eu não preciso da aprovação de uma médica legista, apenas quis dizer que ela está procurando uma pessoa do passado em mim que não existe por enquanto e não entendo a razão dela vir todos os dias para me ver.

Carole ficou em silêncio, percebia a agitação que foi tocar nesse assunto de aprovação, porém, isso era um rico material de análise e queria que Valquíria pudesse avançar mais nas suas falas.

- Quando eu perdi meus pais em um acidente de avião, não me restou quase ninguém. Meu pais foram vítimas do acidente do 11 de setembro, eles não tiveram chance de lutar. – Valquíria aderia outra postura no banco, uma mais retraída e com ombros curvados, numa postura desoladora. – O resto da minha criação ficou para uma tia já idosa que veio a falecer alguns anos depois, fiquei praticamente só no mundo e precisava me virar com o que podia. Batalhei duro para ser o que sou hoje – sua postura se endireitou, recebendo um novo ar, mais confiante ao relembrar esse ponto da história. – me submeti a treinamentos rigorosos em cada unidade que participei e principalmente quando vim para o departamento de homicídios fixei o meu respeito como uma das únicas mulheres detetives naquele departamento. Resolvi inúmeros casos de homicídios e dei paz para muitas famílias que tiveram seus entes queridos tirados de si a força.

Carole a fitava.

- Porém, uma simples missão de repatriação e resgate foram o suficiente para me fazer perder a memória. – revelou.

- Tente fechar seus olhos e falar mais um pouco – sugeriu a psicanalista.

- Isso parece ser uma perda de tempo – retrucou a detetive.

- Não há nada a perder, pois se você não estiver aqui, estaria no seu quarto hospitalar, qual dos dois prefere?

Rapidamente Valquíria fechou seus olhos, permitiu relaxar por um instante e Carole disse:

- Fale o que vier a mente.

Novamente sua mente teimava em voltar e lembrar da legista.

- Por qual razão ela faz o que faz? Eu não consigo encontrar uma lógica ou explicação para seus atos.

A sessão se aproximava do fim e Carole aproveitava esse momento de silêncio e pausa para completar alguns pontos.

- Valquíria, o que farei aqui não é o certo a ser feito, a ideia é que os pacientes eles descubram seus próprios caminhos, reflexões e situações. Contudo, você não se encontra em uma situação típica, sua situação é atípica pelo fato de você ter perdido anos da sua vida. Querer juntar as peças e fazer relações é totalmente normal. – explicava Carole, sendo totalmente observada pela detetive. – Tente perceber que deixei você livre para falar, também estimulei a você falar o que vier a mente quando fechasse os olhos e você voltou para a doutora Seyfried. Ela é o que mais a incomoda, contudo, embora você desconheça essa mulher, no fundo você sente que ela é alguém importante para você, pois como você disse: “me sinto horrível” e “sinto-me frustrada”, por você não lembrar ela. Ao mesmo tempo que sente ciúmes do seu eu de quatro anos ter alguém tão devoto a cuidar de você como uma família cuida dos seus.

Valquíria não entendia por que ela falou cuidar.

- Quando você me apresenta todo o cuidado que a Sophie tem com você e depois você surge com a lembrança da perda dos seus pais, o falecimento deles e por conseguinte da sua tia. Você fala que não tinha ninguém, mas agora você tem alguém que nem se quer volta para casa depois do trabalho, vem de lá para ca pontualmente. A doutora Seyfried é tão importante para você que seu inconsciente a ligou como um lar, uma pessoa que está aí para você. Tanto que você já decorou e aprendeu os passos dela quando escuta o “clac clac” do salto, já decorou o perfume quando ela se ausenta. Porém, você se sente frustrada, por não poder dar a ela a única coisa que ela espera... você lembrar dela. Você lembrar da pessoa que está devotando o tempo dela à você e isso te deixa frustrada.

Valquíria queria dizer que não era isso, que ela estava louca, mas não tinha forças para discordar, no seu íntimo ela não queria discordar.

- Sua frustração advem de tamanha cobrança que você está impondo a si. Quanto mais pressionamos nossa mente para lembrar de algo, mais aquelas memórias se esvaem, exemplo disso é quando esquecemos algo e fazemos de tudo para lembrar algo tão simples, mas por forçarmos, cada vez mais a lembrança torna-se distante. O que quero dizer é, tente não se cobrar muito. Dê um passo de cada vez.

Quando finalizou a sessão de análise com Valquíria, Carole sugeriu que ela trouxesse algo dos pertences da outra. Talvez um notebook que tenha algo escrito por ela mesma para que ela sinta que aquela história está sendo contada por ela mesmo, não por outra pessoa. Podendo ajudar na fragmentação do Ego que ela estava sentindo passar. Essa parecia ser uma boa ideia.

 

Fim do capítulo


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