Capitulo 12
Gunnar
Fiquei algum tempo debaixo do chuveiro, vendo o sangue se misturar com a água e se perder no ralo, depois do banho calmo e demorado, me enxuguei e vesti roupas limpas as quais acreditei serem mais apropriadas para a cerimônia, se é que existia alguma vestimenta apropriada pra se casar com a ex noiva do seu irmão morto, qual você acabou de matar.
Pouco tempo depois, me dirigi até a praça onde o casamento aconteceria, eu não fazia idéia se podia mudar o acordo, mas algo me dizia que eu precisava tomar uma atitude e mudar mesmo assim, mesmo que isso causasse algum atrito entre as famílias.
Meu pai e minha mãe não falaram comigo depois do encerramento do duelo, meu irmão Enok que estava enfurecido, tentou entrar na casa onde eu estava alojada, mas foi impedido por Heimdall e os rapazes, que me contaram sobre o ocorrido pouco depois.
Já na praça enquanto encarava os olhos de Stephanie, tomei a decisão que parecia mais sensata naquele momento, e pedi ao Ivar para falar com Lord Harald sobre a troca de suas filhas, eu não me rebaixaria tanto a ponto de me casar com uma criança da idade da minha irmã caçula. Portanto, pedi que a filha mais velha ocupasse o lugar de Anne, certa de que estava fazendo uma boa escolha, mesmo que aquilo pudesse durar pouco tempo, ao menos eu tentaria amenizar o sofrimento da família.
Meus olhos encontraram com os de Stephanie mais uma vez, assim que ela e a sua família se aproximaram do altar, imediatamente Ivar se dirigiu até eles e pude ver a surpresa de todos, no entanto, sem questionar a mais velha das irmãs cedeu o braço ao Lord Harald, posicionando-se para se dirigir até o altar.
Ignorei totalmente o burburinho da multidão presente, ignorei os olhares sórdidos do meu pai e me concentrei na única pessoa que importava naquele momento.
Nunca tinha imaginado que algum dia me casaria com alguém, jamais me importei com nenhuma das mulheres que me relacionei ao longo da vida, aquele momento com certeza não foi planejado e nunca esteve nos meus planos.
Stephanie usava um vestido longo e todo preto, que definitivamente não era o ideal para um casamento, mas ela era com certeza a mulher mais linda dentre todas naquela colônia.
Enfiei as mãos nos bolsos tentando conter a ansiedade que tomava conta do meu corpo, enquanto os olhos verdes da americana continuavam fixos na minha direção, inquisidores e gélidos, sem demonstrar qualquer emoção.
Seus cabelos negros e ondulados caíam pelos ombros, o vestido cobria os seus pés e tinha um leve decote na parte frontal, quando ela se aproximou e parou na minha frente, desviei finalmente os olhos sem querer parecer uma tola.
Lord Harald aparentava muito mais tranquilidade do que jamais tinha presenciado, com um sorriso no rosto beijou a testa da filha e depois estendeu a mão na minha direção, cumprimentando-me.
– Cuida bem dela Gunnar!
O sorriso do homem parecia sincero, assim como o seu pedido, não consegui responder até porque não fazia idéia do que dizer, apenas aceitei o aperto de mão firme do Lord e apanhei-a pelo braço levando-a até o altar. Voltando-me na direção do homem que eles chamavam de padre, qual celebraria a união.
Não ouvi uma única palavra proferida pelo senhor à minha frente, apenas conseguia sentir o tremor vindo do corpo de Stephenie, sem conseguir entender ao certo a causa. Minha cabeça deu muitas voltas enquanto o homem falava sem parar, diferentemente dos casamentos nórdicos celebrados em meio ao caos e bebidas.
Stephanie tremia sem parar, me levando a crer que estava com medo do que podia vir a seguir e isso me incomodou profundamente, cheguei a imaginar que ela pudesse gostar, mas estava claro que assim como sua irmã e o restante da família, ela nos temia. Afinal, eu era uma mulher, uma bárbara e uma intrusa na sua terra, ela estava ali por obrigação, devia aquilo a sua irmã e a sua família, eu não podia me enganar em nenhum momento com os motivos que realmente nos levaram até aquele altar.
– Gunnar Nordahl?! Você aceita Stephanie Grand como sua legítima esposa!
– Sim! Eu aceito!
Não me dei ao trabalho de encará-la, aquilo era só um acordo e não passaria disso, não precisava de jeito para resolver aquela situação.
– Stephanie Grand?! Você aceita Gunnar Nordahl como sua legítima esposa?
Stephanie demorou alguns segundos para responder, porém quando voltei meu rosto na sua direção, sem encarar seus olhos, ela rapidamente se manifestou.
– Sim! Eu aceito!
Quando o padre nos declarou casadas, voltei-me na sua direção e sem encarar seus olhos, depositei um beijo no topo da sua cabeça, enquanto nossos povos celebravam a união, muito mais contentes que nós duas. Depois da cerimônia fui arrastada por Heimdall e o restante dos meus homens de confiança, todos comemoraram, cantavam e bebiam, alguns felizes por mim, outros felizes pelo acordo, eu bebi pra tentar amenizar o que sentia, que definitivamente não era bom.
O povo americano comemorava um tanto mais tímido que o meu povo, porém todos felizes com o acordo de união que finalmente havia sido concretizado.
Minha mãe e Helga não acompanharam a cerimônia, não as julgava já que a morte de Erling ainda era muito recente, e eu fui à causa. Aquele dia estava ficando cada vez pior e eu sabia bem que era só uma amostra do que eu teria que suportar dali por diante, mesmo que tenha feito as coisas dentro da tradição do nosso povo, eu seria vista como uma traidora por toda a família.
– Vil du ikke gå dit? “(Você não vai até lá?)”
Heimdall me encarava com um sorriso aberto no rosto, estava feliz porque agora era livre para cortejar sua garota.
– Hvor? “(Onde?)”
– Hvordan Hvor? Der med din jævla kone! “(Como, onde? Lá com sua esposa porr*!)”
Meus olhos vagaram na direção que Heimdall apontava, encontrando Stephanie na companhia dos seus pais, muito concentrada na conversa que estava tendo com a mãe.
– Hun ser bra ut i dem! “(Ela parece bem com eles!)”
– Hvem er Gunnar?! Bare en blind person kan ikke se at du har lyst til å være sammen med henne!Bli ferdig med det allerede! “(Qual é Gunnar?! Só um cego não vê que você está louca pra ficar com ela! Acabe logo com isso!)”
– Hun føler ikke det samme! Og jeg ville ikke vært annerledes enn Erling om jeg ikke respekterte det! Jeg vil ikke tvinge deg til noe. Avtalen er forseglet og det er nok, jeg trenger ikke gå lenger. “(Ela não sente o mesmo! E eu não seria diferente do Erling se não respeitasse isso! Não vou forçá-la a nada. O acordo está selado e isso é o suficiente, não preciso ir além.)”
– Jeg er så lei meg for at du måtte gjøre det! “(Sinto muito que tenha precisado fazer isso!)”
– Hun var ikke en god mann! Og du likte ham ikke engang. “(Ele não era um bom homem! E você nem gostava mesmo dele.)”
– Jeg likte ikke! For han var ikke en god mann og ikke en god bror! Men du var nærmere ham, du vokste opp sammen! Jeg vet at du ikke ville at det skulle være slik, og du gjorde det bare for meg! “(Não gostava! Porque ele não era um bom homem e nem um bom irmão! Mas você era mais próxima dele, cresceram juntos! Sei que não queria que fosse desse jeito e só fez isso por mim!)”
– Ikke bare for deg! Men hovedsakelig for deg! “(Não só por você! Mas principalmente por você!)”
– Jeg vet dette, og jeg beklager! Men ta din yngre brors råd! Ta din kone bort herfra! Før folk begynner å snakke! “(Eu sei disso e sinto muito! Mas aceite o conselho do seu irmão mais novo! Leve a sua esposa embora daqui! Antes que as pessoas comecem a falar!)”
Olhei ao meu redor, os homens bebiam, as mulheres dançavam e mais distante as duas famílias reunidas, onde Agnar conversava animadamente com Harald, sem demonstrar que estava louco para cortar o seu pescoço e escravizar a sua mulher e filhas.
Stephanie se encontrava quieta em um canto, aparentemente chateada e aborrecida com a situação, parecia muito incomodada por precisar estar ali, então resolvi dar ouvidos ao meu irmão e terminar logo com o seu sofrimento.
Levantei-me de onde estava sentada, chamando a atenção da própria Stephanie que me avistou de longe, desviei os meus olhos dela e encarei Heimdall que mantinha o mesmo sorriso no rosto.
– Snakk til henne! Noen ganger vil hun det også! “(Conversa com ela! Às vezes ela também quer!)”
Sorri pela ingenuidade do meu irmão, dando um tapa no seu ombro enquanto dava as costas a ele, me afastando do grupo. Ivar correu na minha direção, estendendo as mãos segurando uma garrafa de bebida e duas taças, que eu nunca tinha usado.
– Jeg tviler på at du noen gang har drukket dette! Amerikanerne bruker det til feiringer, i dag fortjener du det! Det er veldig kaldt som det skal være! “(Dúvido que já tenha bebido isso! Os americanos usam em comemorações, hoje você merece! Está bem gelado como deve ser!)”
– Tusen takk Ivar! “(Obrigada Ivar!)”
– Er det å dele med henne, ok? “(É pra dividir com ela ok?)”
Sorri para o homem concordando com um gesto, enquanto me afastava dirigindo-me até onde Stephanie se encontrava e sem direcionar minha atenção aos demais ao nosso redor, me aproximei atraindo seu olhar. Não que eu me importasse com as opiniões alheias, mas eu definitivamente não queria olhos e ouvidos voltados para mim, então fui o mais discreta possível.
Stephanie me encarava com os olhos atentos e brilhantes, esfregando as mãos uma na outra demonstrando ansiedade.
Aproximei-me ficando a poucos centímetros, para que ninguém mais ouvisse o que precisava ser dito, e com a mão estendida na sua direção me manifestei.
– Temos que ir!
Stephanie arregalou os olhos, desviando-os dos meus, encarando minha mão estendida a qual apanhou poucos segundos depois, com a pele trêmula e fria.
Assim que ela se movimentou colocando-se ao meu lado de mãos dadas, cochichei em seu ouvido, tentando tranquilizá-la, pois parecia que estava indo para a forca.
– Eles precisam acreditar nisso! E nós precisamos fingir! Fique tranquila, não vou te fazer mal.
Eu não queria me importar, mas definitivamente eu me importava com ela, me importava com o que pensava e em como se sentia. Saber que ela tinha medo de mim me incomodava, principalmente depois de suspeitar que pudesse nutrir qualquer sentimento positivo.
Andamos até o casarão sob os olhares atentos dos presentes, onde um dos empregados do Lord Harald nos recepcionou.
– Primeiramente, parabéns ao casal!
Livrei-me da mão de Stephanie ignorando completamente o homem, dirigindo-me na direção das escadas, fazendo-o correr pra se colocar a minha frente. Stephanie nos seguiu alguns passos atrás, enquanto o homem desandou a falar.
– Bom! O Lord Harald mandou prepararmos um dos melhores quartos para vocês durante a cerimônia, não se preocupem com nada! Já providenciamos tudo, todas as suas coisas estão no quarto!
O homem se apressou para poder abrir a porta do cômodo que era vigiada por dois guardas.
– Pode dispensar os dois!
Eu não queria ninguém parado na porta, principalmente porque sabia me proteger sozinha.
– Foi uma exigência do Lord!
Assim que adentrei no cômodo e aguardei que Stephanie fizesse o mesmo, me voltei na direção do homem parado na porta.
– Se eu abrir a merd* da porta e eles estiverem aqui, vou atirar nos dois!
Os guardas entreolharam-se e logo depois se afastaram da porta, o empregado permaneceu mais alguns segundos e logo depois, apesar da indecisão, se afastou e seguiu pelo corredor a passos largos.
Fechei os olhos ainda de costas para o interior do aposento, depois tranquei a porta e me virei observando rapidamente ao meu redor.
Stephanie estava parada no interior do cômodo, abraçada ao próprio corpo, demonstrando toda sua fragilidade, seus olhos esbugalhados estavam fixos em mim, enquanto tentava demonstrar naturalidade, para que se sentisse mais confortável e segura.
Andei até o móvel do outro lado do cômodo, onde uma espécie de balde cheio de pedras congeladas, guardava uma garrafa igual a que Ivar havia me presenteado à pouco. Depositei-a sobre o balcão, as taças e a garrafa, me certificando sobre a qual estava mais gelada, abrindo-a primeiro.
Sentei-me na poltrona com a bebida nas mãos, espichando as pernas por sobre a pequena mesa à minha frente, acomodando-me confortavelmente enquanto Stephanie permanecia no centro do quarto, sem saber como agir.
– Ivar tinha razão! Isso aqui é ótimo.
Stephanie pareceu finalmente sair do seu estado letárgico, andando na minha direção, se sentando na poltrona vaga à minha frente.
– Isso é um espumante! Era uma bebida muito famosa no mundo antigo!
Balancei a cabeça em concordância, sorvendo todo o conteúdo de uma só vez.
– Então?
Tentei não encará-la, mas não resisti, seus olhos estavam fixos nos meus, ainda assustados enquanto tentava controlar suas mãos trêmulas sobre suas pernas.
– Então o quê?
– Como vai ser?
– Como vai ser o quê?
Eu sabia a que ela se referia, mas não fazia idéia do que dizer.
– Isso? Como vamos fazer?
– Vai ter que ser mais clara do que isso!
Levantei-me e andei até o balcão, enchendo as taças com a bebida, entregando uma a ela que apanhou e depositou sobre as pernas e entre as mãos, não ingerindo nenhum gole do líquido.
Voltei a me sentar à sua frente, depositando mais uma vez os pés sobre a pequena mesa, tentando disfarçar o meu próprio incômodo com a situação.
– Quero saber… como vamos agir daqui pra frente? Nós acabamos de… de nos casar e eu não sei o que tenho que fazer!
– Não tem que fazer nada! Nada que não queira!
Seus olhos oscilavam entre os meus olhos e suas mãos, ela estava tímida e desconfortável com tudo aquilo, assim como eu também estava, só que eu conseguia disfarçar.
– Isso é ótimo! Mas… eu não sei como tenho que agir com você!
– Já passamos dessa fase! Você sabe bem como me tratar!
– É diferente agora!
– Por quê?
– Eu… eu sou mulher! Sou sua mulher e eu não sei o que tenho que fazer!
– Entendi!
Retirei os pés da mesa, me sentando com os cotovelos apoiados nos joelhos, projetando meu corpo para a frente, encarando os seus olhos, na tentativa de me fazer ser entendida de uma vez por todas, não queria ter que entrar naquele assunto novamente.
– Olha só! Eu escolhi você porque discordava da escolha do Erling, Anne ainda é uma criança, tanto para se casar com ele quanto pra mim. Eu escolhi você porque o Heimdall está apaixonado pela sua irmã caçula e acredito que seja recíproco da parte dela.
Depositei a taça vazia sobre a mesa, entrelacei os dedos das mãos, ainda com os cotovelos sobre os joelhos e prossegui.
– Heimdall é a pessoa mais importante pra mim da minha família e eu acho que isso já ficou claro! Se eu não fizesse tudo isso, ele faria bobagem e arriscaria não só a vida dele, como a da sua irmã e consequentemente de todos da sua família.
Seus olhos se mantinham fixos nos meus e seus ouvidos atentos a cada palavra proferida pela minha boca.
– Eu te escolhi porque dentre as três é a mais velha, mas mesmo assim é muito mais jovem do que eu, mas não acho que isso seja um problema já que isso tudo não passa de uma farsa! Estamos aqui agora porque nós duas queríamos proteger os nossos irmãos e assim o fizemos. Não precisa passar disso! De um acordo que beneficia ambas as partes! Você não precisa se preocupar, eu não exigirei nada! Não precisa ser minha mulher aqui dentro, não precisa cumprir suas obrigações como tal, não precisa se deitar e nem dormir ao meu lado. Aquele sofá ali parece muito confortável pra mim, a cama é toda sua!
Stephanie abriu e fechou a boca inúmeras vezes, parecia aliviada com tudo que acabou de ouvir, mas havia alguma coisa a mais na sua reação, que eu não soube identificar de imediato.
– Eu… eu agradeço! Agradeço pela Anne e agradeço por mim! E sinto muito pelo seu irmão!
– Não sinta! Apesar de não querer que tivesse sido pelas minhas mãos. Ele morreu como um verdadeiro guerreiro nórdico! E isso é o bastante!
– Mesmo assim, eu sinto muito! E agradeço por tudo!
Finalmente seu rosto suavizou as expressões tensas, ela tentou esboçar um leve sorriso depois de saber que não precisaria consumar o casamento. Eu nunca obriguei mulher alguma a se deitar comigo, não seria diferente com ela, não depois de ter matado meu próprio irmão para garantir que isso não acontecesse.
Baixei a cabeça sem querer dar ouvidos às minhas emoções frustradas, sem querer continuar encarando aquele rosto perfeito, tão próximo e ao mesmo tempo tão distante de mim.
– Eu preciso de um banho! Confesso que estou me acostumando com as mordomias que vocês têm por aqui!
Sem observar sua reação ou esperar por resposta, me dirigi até o compartimento onde eles costumavam guardar as roupas, apanhando uma toalha e roupas limpas.
Fiquei muito tempo debaixo da água fria, eu gostava da sensação da água quente, mas precisava colocar minha cabeça em ordem e aquietar o desespero do meu corpo. Eu estava ansiosa, geralmente isso não acontecia comigo, mas não era um dia normal, eu tinha acabado de me casar e logo depois de ter matado o meu irmão e pra piorar, eu estava completamente rendida pela mulher do outro lado da porta e ela definitivamente não sentia o mesmo por mim.
Fim do capítulo
E aí? Quem será que vai se render primeiro nessa história?
Comentar este capítulo:
Marta Andrade dos Santos
Em: 14/03/2024
A Stephanie ela não vai aguentar vai agarrar a Gunnar.
Não gosto do pai da Gunnar só pensa em matar e roubar, não constrói nada é um homem vazio.
Natalia S Silva
Em: 14/03/2024
Autora da história
Agnar realmente é um crápula inútil!
Agora é aguardar as reviravoltas e o início desse romance kkk
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