Segredos por Elliot Hells
Esse é um capítulo um pouco maior do que os outros...
muitas informações importantes.
Capitulo 10 Lembranças
Por volta das quatro horas e vinte e um minutos da madrugada, Vivienne já não conseguia mais fingir que estava dormindo, não havia rugidos da vizinha para atrapalhar seu sono, não havia gemidos de garotas desconhecidas do outro lado, apenas fantasmas do passado invadiam sua mente a impedindo de dormir o sono dos justos. Kitty, estava deitada do seu lado em um sono pesado que não seria despertada fácil. Ela resolveu sair do seu quarto e ir para a varanda da sala. A brisa leve pela madrugada, com pequenas gotas de chuva acalmavam o seu animo. Apertou seu corpo com seus braços, que brisa suave, pensou. Aquela leve borrifada de ar provocavam-lhe arrepios.
- Não consegue dormir pequena? – a voz da sua vizinha a retirou dos seus devaneios, assustando-a.
- O que você é, uma stalker por acaso? Enfim, o que isso teria a ver com você, o fato que eu consiga dormir ou não? E não me chame assim – replicou de forma áspera. – Por acaso, acha que a perdoei?
- Ora, achei que havia sido gentil. Uma parte de mim é bem sensata às vezes, entretanto a outra pode ser... – deu uma pausa que Vivienne passou a fitá-la. – incompreendida, eu diria. Bem, isso não vem ao caso, e claro que não sou stalker, devo ter dito ontem a tarde com um dos meus discursos monótonos que a praia era pública e aquela baboseira toda. - revirou os olhos.
- Você tem uma forma um tanto estranha de falar sobre si. – franziu o cenho a ruiva.
Elizabeth estava com uma bebida desconhecida por Vivienne, que apostou ser algo alcoólico, combinaria mais com a atriz está bebendo a essa hora.
- Devo ter mencionado que possuo lados complicados e blábláblá. Então... – continuou só que dessa vez interessada na ruiva. – O que a faz não dormir? Você disse que não dormia por minha culpa e os... – outra pausa com ar de suspense.
- Gemidos escandalosos produzidos por suas inúmeras amantes descompromissadas? - Vivienne explicava todo o seu tormento sem animo - era isso que iria falar?
Elizabeth sorriu de lado e tomou um gole do que bebia para então falar:
- Exatamente, minhas amantes sonoras. Agora – apontou para o apartamento atrás de si. – não há nenhum ruído. Temo que não sou a responsável por sua insônia, - fingia um falso pesar artístico e rapidamente voltando aos olhos predadores e curiosos de sempre - então... quem é? – fitava a outra com curiosidade.
- Quem é o quê? – replicou a ruiva na defensiva naquela varanda que dava para ambas conversarem.
- O responsável por fazê-la ficar acordada às quase quatro e trinta e cinco da madrugada? – disse ao fitar a hora no relógio do celular.
- Não é nada – disse baixinho.
- Nada... para mulheres, o nada é um oceano turbulento. – Elizabeth a fitou com curiosidade – palavra perigosa.
- Já disse que não era nada. Veja, você mesmo está acordada uma hora dessas também. – Vivienne apontava para o óbvio.
- Touché. – Liz levantou os braços como forma de se render – Perdi o sono, sabe, o tapa que você me deu ainda ficou ardendo por horas. - passou a esfregar o rosto no local da batida.
- E de quem é a culpa por arder tanto? Você só levou o que merecia.
- Ora como você é malcriada pirralha, foi só um beijo. Nunca foi beijada? – lançou seu olhar mais cafajeste que tinha.
- Pirralha? - Sim, Elizabeth sabia que o rosto da ruiva estava mais vermelho do que qualquer pimenta de raiva agora. Provocá-la era um de seus maiores dons, talvez. - Não sei como ainda perco meu tempo com você. Você me deixa com um gosto ruim na boca. – revirava os olhos agora.
- Acho que não fui eu que beijei nessa segunda vez. Nunca deixo com tal gosto. Vai me responder ou não? – voltou a fita-la com ar ainda mais curioso.
- O que quer que eu responda?! – Vivienne começava a perder sua paciência.
- Nunca foi beijada? – insistiu em tom provocativo.
Vivienne fez uma pausa para proferir:
– É lógico que já fui beijada! – disse de forma baixa, porém ainda audível pela outra. – mas não por uma mulher.
- Deveria, é sempre bom experimentar novas sensações. Ajuda a relaxar e parece que precisa disso. Parece que precisa de muitas coisas.
- O que a faz pensar que sabe o que preciso para relaxar? – Vivienne não entendia o motivo de se irritar tão fácil com aquela mulher a sua frente.
- Porque parece que nem você sabe, enfim... não devia ficar remoendo tanto aquele beijo, não foi tão bom assim, já beijei mulheres melhores.- terminou de tomar aquele líquido no copo, soltando um sorriso malandro.
Elizabeth dizia se retirando da varanda e parecia ter conseguido o que queria, uma ruiva furiosa.
- Ora sua, você é realmente uma... uma... uma sucubo! argh! – ao longe podia escutar os risos da outra ecoando pela sua sala.
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Kitty estava semi acordada, sentada no banco atrás da ilha, comendo seu cereal matinal, enquanto Vivienne cortava frutas para seu próprio café da manhã e começava a reclamar da vizinha ao lado. Questionava-se a razão de todos os lugares que poderia ficar, entre tantos atores ou atrizes que poderia morar ao lado ou de todas as praias que poderiam ter ido ontem, porque, justamente, tinha que esbarrar tanto com aquela mulher? Estava sendo insuportável, comentava ela, dizia que aquela mulher deveria ser trancada em casa, pois era um risco para a sociedade feminina. Como aquela súcubo poderia ficar à solta? Comentava com sua irmã que só a escutava silenciosamente.
Após inúmeras queixas, Kitty começava a contar o que havia descoberto sobre a vizinha e um pouco da sua famosa família. Elizabeth não era somente uma simples pessoa, era alguém altamente importante na sociedade.
- Não posso acreditar, aquela súcubo ainda é alguém tremendamente importante e ganhou todos esses prêmios e sabe de tudo isso? E ainda dá aulas? Coitada de todas as mulheres que ficam ao lado dela. – dizia Vivienne. – Talvez eu possa denunciá-la ao conselho de classe dela. A Ordem dos Advogados ficará surpresa em saber dos atos libidinosos de uma de suas integrantes.
- Perdeu o juízo Enne?! Para começo de história ela não cometeu em si nenhum crime. A partir do momento que você deu um tapa nela, automaticamente vocês quitaram a dívida do beijo e etc. – explicava Kitty. – Além disso, H² disse que ela não coloca nenhum processo nem nada disso. Pare de implicar com ela, Enne. É apenas uma pessoa com um estilo de vida despojado.
- Desde quando ficou tão por dentro de assunto assim? – indagou a irmã. - e passou a defender a senhora súcubo despojada?
- Desde que minha irmã caçula resolveu dar um tapa em uma pessoa famosa. – Kitty levantou e disse para outra se arrumar, pois havia conseguido com alguns conhecidos um emprego temporário nos bastidores de um teatro.
Ela logo recusou, não iria trabalhar em um teatro que poderia ser o local onde a súcubo ao lado trabalharia. A Kitty engoliu em seco e tentou negar de forma natural, disse que na época que falou não havia ninguém com esse nome, a peça ainda estava para ser escolhido os próximos atores.
Contou também que falou antes de conhecerem a vizinha, assim que soube que Vivienne regressaria para casa, ela achou que a irmã preferiria ter algo para fazer do que ficar se lamentando sobre o ex-marido. Talvez Kitty tivesse razão, os dias eram longos naquele apartamento, mas o medo também conseguia dominá-la. Por outro lado, a curiosidade de querer fazer algo que jamais fizera despertava um desejo de querer tentar. Como a irmã disse, deveria está no teatro em uma hora. Tanto que Kitty a levaria até lá e que a outra veria uma forma de trazê-la para casa. Ela se arrumou de forma simples, uma sapatilha, uma blusa social por dentro da saia e prendeu seu cabelo com uma trança lateral. Precisava estar um pouco mais descente do que estava andando. Kitty a arrumou para ser mais exata.
Vivienne Lamartine crescera com uma paixão latente por livros, histórias de fantasias, romance, aventura, suspense policial, arriscou-se até no mundo sombrio do terror após o incidente de quando era criança. Pensou que aquele incidente seria o último, mas arriscou-se novamente e viu que terror não era seu gênero preferido. Descobriu-se apaixonada pelos clássicos de época, lindas histórias escritas por Jane Austen, as irmãs Brontës, Shakespeare entre outros. Crescera cercada por eles. A família Lamartine não perdia um edital na escola, uma peça ou um discurso da sua filha caçula. Diferente de Kitty, que preferia mais aventuras e papéis mais exóticos. Vivienne, era calma e delicada, antes de conhecer Alexander, pensava em fazer curso de teatro ou literatura para ser escritora, mas os planos haviam se mostrado distinto. Ela achava que sempre pensaria em si assim, como uma garotinha calma e obediente. Porém, mais uma vez havia se provado equivocada.
A irmã a conduziu até o prédio, onde o secretário do diretor de teatro havia marcado, local que seria realizado os ensaios. Era um prédio cinza com umas iniciais distintas, painéis transparentes e uma escadaria que levava até a porta. Vivienne se identificou na recepção e logo seguiu para onde o porteiro havia indicado, seguiu pelo pátio verdejante até a outra ala, que segundo o porteiro, era onde estava ocorrendo os ensaios e podia ter certeza que ali encontraria o diretor. Ela abriu uma porta enorme de madeira que era o local que os funcionários entravam, conduziu até umas cortinas vermelhas com franjas douradas, lá estava repleto de mulheres que giravam a do meio que estava vendada, ela não deu muita importância para o que estava acontecendo, o lugar parecia estar com uma visibilidade mediana. O cheiro era forte de incenso e outros aromas, talvez fosse a encenação de algum culto do deus Baco na era da Grécia Antiga ou as garotas estavam em seu horário de pausa. Bem, elas devem estar se divertindo, mas como poderei chegar até o diretor? pensou.
Vivienne tentava passar entre aquelas mulheres, quando uma mão a agarra completamente, segurando a sua cintura e a envolvendo, passando seu nariz próximo a sua nuca. Ela ficou paralisada por seu corpo responder de forma distinta da que deveria ser. Os pelos de sua nuca se eriçaram e ela arrepiou, isso a deixou irritada. Ordenou que seja lá quem fosse a soltasse
- Hm...?? – a pessoa vendada não conseguia compreender o que estava ocorrendo, afinal fazia parte da cena.
Vivienne estava petrificada, não podia acreditar que era aquela pessoa. Os braços a apertaram mais contra o corpo da outra pessoa, sentia-se frágil e pequena sendo guardada por tal corpo, ela virou sua cabeça para ver quem era. E a pessoa vendada era Elizabeth que a segurava cada vez mais contra si. "Ah, não! Você não! Você me paga Catherine Lamartine!", pensava bufando de raiva.
- "Você tem um aroma encantador, jovem donzela" – recitava suas falas.
- Já disse para me soltar! – tentava se libertar daqueles braços que a seguravam-na, quase que poderiam ter caído ambas, mas a outra a segurava com firmeza, impedindo que caísse no chão. Ela retirou a fita de Elizabeth e aqueles par de olhos azuis a fitavam intensamente, mas não de forma intimidante ou de forma sensual, apenas de forma mais intensa, sem significados, ou se tivesse, ela não conseguia decifrar.
- Parece que o mundo vive colocando você no meu caminho – afirmou a outra em seu tom diferente e sério, sem nenhuma relação com a voz brincalhona e provocadora da madrugada desse dia. Ela estava mais comportada.
- Me solte, eu não irei mais repetir! – tentava se desfazer daqueles braços que a deixaram arrepiada e se condenou pelo seu corpo ter tal resposta.
- Então é assim? Eu a impeço de cair e você apenas esbraveja? - ainda segurava delicadamente, porém forte para que a jovem não caísse.
- Nunca pedi que me salvasse ou coisa parecida, eu só quero que você me solte e já. – proferiu palavras de ordem, enquanto tentava se afastar dos braços e daquela aproximação.
- Como quiser – Elizabeth a soltou e Vivienne que estava a alguns centímetros do chão caiu, nada tão doloroso, mas surpreendentemente irritante para a outra.
- O que você possuí na cabeça? É do seu agrado que todas as mulheres caíam a seus pés e quando isso não ocorre o seu ego fica ferido a ponto de querer humilhar uma garota desconhecida? - Vivienne se esforçava para levantar e ajeitar os desalinhamentos de sua roupa.
- Espere um pouco, em qual momento eu a humilhei? Só te ajudei, nada além disso. Não sabia que ajudar era sinônimo para humilhar – seu tom de escárnio foi detectado pela outra que se eriçou de raiva, ficando como as brasas do seu cabelo.
- Como você... - Vivienne tinha seus dentes trincados.
- Ei, parou, parou – dizia uma terceira voz – o que está ocorrendo aqui?! Você, quem é? – dizia um homem apontando para Vivienne.
- Eu vim falar com o diretor para a vaga dos bastidores. - tentou se controlar e falar cordialmente.
- Você? – dizia o homem magro, com uma boina francesa preta. Levou a mão até o encontro entre o nariz e os olhos e fechou seus olhos, tentando respirar fundo – Você tem noção que acabou de arruinar uma das minhas gloriosas cenas? Tem noção do quanto isso reflete no meu humor e logo no meu trabalho?
- Pierre, por favor – interveio Elizabeth, colocando a mão no ombro dele – Ela não tem culpa. Na verdade, a culpa é toda minha. Eu que a irritei e acabei atrasando nosso ensaio, se alguém tem culpa e arruinou algo, esse alguém foi eu. – Vivianne a fitou incrédula e Elizabeth continuou - Estava precisando me distrair um pouco, afinal estamos aqui desde às seis horas e não paramos. As figurantes estão esgotadas, vamos parar um pouco e escute o que a moça tem a dizer.
Ele torceu o nariz, sabia que Elizabeth estava com razão, o sucesso de uma peça também dependia da felicidade dos atores. Ele gritou dizendo que teriam uma pausa de uma hora e retornariam naquele ato. Vivienne nada disse até que Pierre dirigiu o olhar para ela novamente, perguntando se ela sabia alguma coisa de bastidores? Vivienne não sabia o motivo, mas respondeu um sim de imediato. Querendo ou não, o teatro parecia um lugar mágico, no qual poderiam se teletransportar para qualquer lugar, era, ou década. Podiam ser quem elas quisessem e no final da tarde aquele papel ou ninguém daqueles personagens poderiam lhe fazer mal. Por isso sempre viu conforto nos livros, lá ela poderia ser quem ela quisesse, morar onde ela quisesse. Por isso teve tanta sede em responder que sim, queria conhecer mais por trás das cortinas.
Mas o erro dela fora dizer que sabia cuidar dos bastidores, pois não sabia e agora estava enrolada em algumas coisas que deveriam ser feitas. A cor, a reposição de incenso tudo isso, a iluminação, sons, cenário. Verificação da roupa, estava atenta quando Elizabeth aproximou-se por trás e disse que não deveria ser nesse tom a luz.
- E em qual tom deveria ser? Acha mesmo que iria confiar em uma palavra vinda de você? - seu tom era desconfiado e afiado.
- Shh, será que dá para você ficar quieta? – tapou a boca de Vivienne com as palmas das mãos a contra gosto da outra – Se souberem que eu estou aqui não poderei ajudá-la a ajeitar o cenário e muito menos terei um pouco de paz.
Algumas vozes das figurantes podiam ser ouvidas distantes, estavam a procura de Elizabeth para conversarem ou qualquer outra coisa do tipo. Elizabeth estava tão próxima de Vivienne que ela não conseguia pensar, ou se livrar das mãos que tapavam sua boca e da outra que segurava sua cintura. Questionava-se mentalmente se era um hábito da outra apertar todas assim pela cintura. A outra estava tão perto que podia sentir o aroma de seu perfume amadeirado. Ela inclinou o rosto para o lado para se distanciar, o mínimo que fosse daquele aroma inebriante, algumas mechas que haviam se desfeito de suas tranças acabaram caindo sobre seu rosto, fazendo uma cortina de fios ruivos. Liz a observou fazer esse gesto, por um momento esqueceu que estava querendo fugir daquelas mulheres, não havia nenhuma que lhe interessasse e mesmo que houvesse ela estava em horário de trabalho e odiava quando misturavam as coisas. Esse era um dos problemas de trabalhar com algumas pessoas. Vivienne lançou um olhar furtivo entre os fios, pois sentia que a maior a estava observando, e estava de fato, olhando para ela com outro olhar diferenciado que não soube interpretar. As vozes pela qual a outra fugia ficaram mais e mais distantes, fazendo com que a ruiva tocasse os dedos longos e afilados da outra para retirar da sua boca.
- Lamento por isso, mas precisava me esconder – confessou – Agora, vamos quitar a dívida que acabei de fazer com você.
Elizabeth começou a explicar todo o procedimento do painel de controles, além de como deveria ser ajustado as luzes, tudo era anotado pela outra com total dedicação. Mesmo as informações mais banais eram escritas em seu bloco de notas. De fato, a outra poderia assumir uma postura mais séria quando tratava-se de trabalho. Assim, ela continuou anotando todas as informações que sua vizinha maníaca sexual lhe passava. As horas naquela manhã foram galopantes e pela primeira vez, Vivienne não achou um martírio as manhãs ou estar do lado de sua vizinha, ela não percebera que já estavam próximos a hora do almoço, o relógio batia 13h e foi algo árduo. Definitivamente ela estava satisfeita consigo mesma hoje.
Havia um compartimento que todos do estúdio se reuniam para comer, alguns nas alas dos diretores, outros dos figurantes, outros reservados para os atores e atrizes, olhou de soslaio para saber se sua vizinha estaria com eles, mas surpreendeu-se, pois ela não estava, deveria está fazendo outro tipo de refeição por essas horas. Não pode deixar de rolar os olhos por ter esse tipo de pensamento e virou-se de repente para uma mesa vaga quase trombando com outra pessoa. Rapidamente, com uma voz polida, pediu desculpas. A outra voz apenas disse "está tudo bem" e ela reconheceu aquele tom, sim, Elizabeth estava ali, soltou mais outro suspiro que não sabia que havia prendido. Um suspiro que não passou despercebido pela outra.
- Será sempre assim comigo? Hostil? – inquiriu fitando-a.
- O que quer dizer com hostilidade? Eu não disse nada. – explicou-se a ruiva, dando um passo para trás, enquanto a outra deu um passo para frente.
- Não é preciso, a sua linguagem corporal fala por você. Será que não pode me dar uma chance para me conhecer melhor? Se vamos trabalhar debaixo do mesmo teto é justo que possamos nos entender um pouco, não acha? – Elizabeth esticou a mão esquerda e completou – trégua?
Vivienne percebeu o movimento de mão, esquerda, "deve ser canhota" pensou.
- Trégua. – apertou.
- Venha, vamos almoçar juntas e conte-me sua experiência nos bastidores.
É claro que o movimento feito por Elizabeth não foi deixado de lado, muitas atrizes que queriam almoçar com ela ficaram chateadas e um tanto invejosas pela "novata" receber a atenção da Heinz. Principalmente uma certa Ruiva de nome Renata que fuzilou Vivienne ali naquele momento.
O dia foi um pouco mais conturbado, Vivienne acabou recebendo uma atenção um pouco negativa pelas atrizes enciumadas devido a atenção depositada para uma ruiva sem sal como ela, como as outras atrizes falavam.
Em especial, Renata Giacomelli, a atriz que atuou ao lado de Elizabeth estava ainda mais raivosa por toda atenção que a outra recebia. Vivienne teve o desprazer de ouvir comentários horríveis sobre si no banheiro.
- Ah, quem essa garota pensa que é? De onde é que ela saiu? - Renata ria enquanto falava. - Toda atrapalhada e que roupinha sem classe, parece que foi comprada em alguma promoção.
- Nem me fale que horror, fico com usticária só de pensar - uma outra começava a se coçar.
- Meninas, meninas, acalmem-se, certamente ela não durará muito por aqui! - retornava a dizer Renata e terminar de retocar a maquiagem. - Vamos, precisamos ir.
Todas elas sairam do banheiro como uma verdadeira manada e Vivienne ficou para trás, elas não sabiam que ela tinha ouvido pela cabine.
Quando deu 22 horas da noite o pessoal começara a se despedir, hoje o dia teria sido intenso. O diretor basicamente fez com que todos trabalhassem mais, pois a estreia estava próxima. Normalmente preenchiam seis à oito horas de trabalho.
Vivienne finalizara tudo e estava digitando seu endereço para solicitar um Uber, quando escutou uma voz: "Vem, eu te darei uma carona. Não faz muito sentido pegar qualquer outra forma de automóvel se vamos para o mesmo destino."
- Está tudo bem, eu estou pedindo um uber, não tem que se incomodar – respondeu rapidamente, não queria ser alvo de mais ódio.
- Vivienne, é só uma carona, eu não mordo agora – sorriu de forma gentil e sem malicia. O que foi detectado pela ruiva sem acreditar que a outra podia não exalar teor sexual ou malicioso. E ali admirou aquele sorriso gentil. Embora tenha piscado algumas vezes sem saber o que estava pensando. Naquele momento, Vivienne pensou "totalmente indecifrável essa mulher.".
A ruiva tentou recusar em vão, subiu no automóvel e apertou o cinto de segurança. A noite apresentava um clima agradável, diferente do calor costumeiro na cidade do sol. Elizabeth costumava colocar uma música baixa quando saía. Deixou tocar os clássicos da bosa nova – barquinho – da cantora Nara Leão. Uma música nostálgica que seu pai costumava escutar e tocar aos fins de semana com todos reunidos cantando.
Vivianne a agradeceu por toda a ajuda mais cedo, Elizabeth apenas pediu que ela deixasse para lá. Ficaram em silencio aproveitando o som. Isso a deixou perdida em seus pensamentos quando o carro começou a parar. Ela não entendia a razão, estavam em uma rua de paralelepípedo e muito longe ainda de casa, qual a razão de Elizabeth parar no meio do nada?
- Eu preciso ver uma coisa, fique no carro está bem? Eu venho logo e não vai demorar. – a loira abriu a porta do motorista, deixando os faróis ligados e se dirigiu para a frente do carro, tudo sendo acompanhado pelos olhos da ruiva. Elizabeth se abaixou.
Vivienne não entendia o que aquela louca estava fazendo em uma rua como aquela. Ela não acreditava que ela tinha ido fazer alguma coisa bizarra ou louca naquela hora. Não se conteve e saiu do carro, contornando o automóvel e seguindo em direção a jovem ajoelhada ao chão. "O que ela está fazendo?" a rua estava quieta e sem sinal de carros passando até então. Ela se aproximou e tocou no ombro da outra que estava desolada.
- O que... – ela se inclinou para ver melhor, era um gatinho preto e branco que fora atropelado. O corpo ainda estava quentinho e um filete de sangue escorria pela boca.
- Ele ainda está quente, mas eu cheguei tarde. Não pude salvá-lo. – Vivienne encarava aquela mulher sem entender muito. – O mínimo que posso fazer por ele é retirá-lo da rua para que nenhum carro o atropele mais uma vez.
A jaqueta jeans que a mulher usava estava sendo retirada aos poucos, as feições dela eram de pura tristeza. Elizabeth tirou sua jaqueta que na cabeça de Vivienne deveria ser absurdamente cara, no mínimo uns R$ 1.000,00 reais. Ela tirou e enrolou o pequenino naquela vestimenta da melhor forma para deixa-lo quentinho. Não tinha nenhum instrumento ou ferramenta para cavar alguma cova para o pequeno, assim, só o conduziu até um terreno que havia ali do lado com algumas plantas. O colocou gentilmente nas plantas e voltou para perto de Vivienne, informando que já poderiam ir.
A outra tentando ajudar nos momentos finais pediu para que ela aguardasse e pegou sua garrafinha com água, lavando e limpando a mão da mulher a sua frente que havia ficado com manchas de sangue pelas mãos e pulsos. Enquanto ajudava Elizabeth a se lavar, percebeu as tatuagens que cotinha em seus braços. Em sua mão esquerda havia uma flor com as pétalas abertas, enquanto o caule, ramos abraçavam e se envolviam pelo antebraço da outra. Em seu braço direito havia outra, uma linda cabeça de um cachorro border Collie, com pelos coloridos em tons de azul, amarelo, verde. Olhos atentos, com um brilho azul no olhar. Descendo um pouco rememorava uma pena de pavão com suas majestosas cores, uma tatuagem forte, que a abraçava até abaixo da clavícula, o movimento dava essa impressão, de um profundo abraço. Enquanto no outro ombro, havia mais uma outra flor conduzida por caule com espinhos, era algo belo de se ver.
Após isso, ambas entraram no carro, Vivienne percebeu que a outra ficou em silêncio, até mesmo a música não tocava mais. O gatinho falecido a deixou um tanto triste pelo que ela percebeu.
- Os animais parecem gostar muito de você e você deles. – iniciou lembrando do fato ocorrido na praia e de como Archie abraçou ela e agora o momento que havia ocorrido.
- Sim, eu adoro muito animais, prefiro mais eles. – falou sem se sentir.
- Aquele cachorro daquele dia parecia vidrado em você. – recordou a ruiva.
- O Archie é um amigo de longa data. Na verdade, eu dei ele para a Melissa. Ele foi fruto de um resgate que fiz em uma ONG de animais do qual faço parte. O pequeno foi abandonado junto com seus irmãos, a mãe não sobreviveu. Assim, cuidamos deles, aplicamos todas as vacinas, vermífugos e começamos a feirinha de adoção. Todos foram adotados com exceção do Archie, ele era o menorzinho e o mais frágil de todos. As pessoas não o achavam "bonito o suficiente". Ninguém o queria e eu fui ficando mais e mais próxima dele. Então, a Melissa escutou muito dele do quanto eu acabei dizendo que ninguém o adotava, ela acabou conhecendo, um amor imediato surgiu entre os dois, diria que a primeira vista. Então, ela o adotou. E como você já sabe, também dei a bandana para ele. A Mel adora aquele pequeno e ambos começaram a participar de concursos Agility e flyball. Melhora todo o condicionamento físico dele. Estão invictos tem uns quatro anos
Aquela história de que a sua vizinha súcubo era uma voluntária em uma ONG de animais a deixou extremamente chocada! Como uma pessoa poderia ter tantos lados diferentes assim? A exatos minutos atrás viu se desfazer de coisas materiais por um pequeno gatinho. Foi a coisa mais bela, gentil e memorável que Vivienne já presenciou em toda sua vida e não imaginava que tal gesto seria da súcubo ao seu lado. Será que a estava julgando tão errado assim?
- Você faz parte de uma ONG? Não acredito nisso! – externou seu pensamento incrédulo sem filtro.
Elizabeth soltou um pequeno riso pela primeira vez.
- Acha que uma maníaca sexual não tem condições de ser voluntária? – utilizou as palavras de Vivienne ao se referir de si própria.
Vivienne ficou constrangida com isso.
- Não estava falando disso, quis dizer.. bom... – ficou sem palavras e tentou encontrar algo para se apoiar. – Por qual motivo não tem seu próprio cachorro então, você parece amar demais.
Novamente a expressão da outra ficou séria e distante.
- Já tem algum tempo que acabamos perdendo o nosso amigo. – Liz disse sem si sentir.
- Acabamos? – Enne franziu o cenho em dúvida pelo uso do verbo no plural.
- Quis dizer, eu acabei perdendo o pequeno Joe.
- Que nome fofo. Você contará a história?
- Bom, se quer saber. Foi como uma noite assim como essa a anos atrás. Não sei bem os meses que ele tinha. Vi uma caixinha mexendo-se na rua para lá e para cá. Desci do carro e havia um filhote lá dentro...
- Não, acredito! - a ruiva arregalou os olhos surpresa.
- Sim, é mais comum do que você pode imaginar. Quando existe períodos festivos costumam dar animais de "presente", acham bonitinhos e fofinhos durante alguns dias. Porém, lutar com xixi, cocô no lugar errado, choros no meio da madrugada, mordidas e outras coisas são motivos para descarta-los ou se apresentarem uma doença. - informava a loira, enquanto dirigia na longa estrada.
- Continue, por favor. - solicitou Vivienne agora intrigada pela primeira vez com a loira.
Flashback – 5 anos atrás.
Elizabeth estava fazendo seu percurso de volta para o seu apartamento, pegando aquela velha estrada após sair de mais um dia de ensaio no estúdio. A rua estava deserta, mas uma movimentação a frente a chamou atenção. Era uma caixa de papelão presa por algo sobre ela.
Ela decidiu parar o carro e investigar o que era. A caixa novamente se mexeu, fazendo-a sobressaltar-se. "o que é isso?" aproximou-se novamente. Retirou o peso e ali continha um pequeno filhote encolhido, havia perdido peso, aparentava inúmeros parasitas percorrendo todo o seu corpo. Aquele filhote precisava de tratamento médico imediatamente! Pegou aquela caixa, conduzindo até o seu Jimny Sierra preto, abriu a porta do passageiro, colocou a caixa ali e se dirigiu o mais rápido para uma clinica 24 horas.
Ali, solicitou todos os exames e deixou o cachorrinho internado. Estava em uma situação crítica de anemia e outras doenças que se passasse mais alguns dias o levaria a óbito. Elizabeth retirou fotos dele de vários ângulos e publicou na sua página oficial de teatro e em outros grupos que fazia parte para que o dono o encontrasse, afinal, havia uma coleira identificando o pequeno "Joe", mas sem o número ou nome dos tutores.
Durante três meses, o pequeno Joe ficou internado e ela o visitava todos os dias, ficando com ele e fazendo carinho. O pessoal da clinica retiraram seus parasitas como carrapatos, pulgas e outros, deixando-o limpinho e a cada dia mais saudável, praticamente já poderia receber alta. Contudo, Elizabeth ainda queria deixa-lo por mais um tempo. A cada dia, "Joe" se mostrava mais esperto, crescendo forte e saudável, além de reconhecer e se animar com a chegada da sua salvadora. Até mesmo já estava reconhecendo sua voz, pois o rabinho balançando entregava sua total felicidade e agradecimento.
Pelo visto, durante esses meses ninguém compareceu, tornando-se Joe, o cachorro de Elizabeth, os veterinários identificaram como sendo um border collie tricolor, com lindos olhos um azul e outro verde, um pouco de heterocromia, uma calda que começava a ficar peluda, orelhas baixas.
Quando recebeu, enfim, alta, Elizabeth levou para o seu apartamento, nesse meio período, o seu novo amigo já tinha tudo pronto para ele. Uma grande caminha, uma enorme caixa de transporte número 7 da Gulliver própria para o seu porte que cresceria em breve.
Quando o pequeno Joe entrou na sua nova residência, correu a casa toda querendo conhecer, além de pegar algumas sandálias da sua nova humana e sair bagunçando. Ela o pegou gentilmente no colo e retirou dos seus dentinhos afiados em construção:
- Pelo visto você é um outro cãozinho agora! Mas terá que tomar seu fortificante, não podemos esquecer.
Elizabeth pegou uma seringa de três ml que tinha, misturou o remédio com patê fazendo uma pasta para que o pequeno engolisse sem problemas ou mesmo cuspi-lo depois. Joe engoliu e parecia querer mais.
- Agora só amanhã, pequeno. Vamos levar você para socializar. - pegou ele nos braços.
Por Joe ainda estar tomando as vacinas recomendadas da V8 ou V10, durante o passeio ficou no colo de Elizabeth, recebendo carinho das crianças do condomínio, vendo outros cachorros passearem, escutando novos sons, cheiros, informações, sabores, pois Elizabeth tinha levado um pouco de ração para que ele comesse enquanto conhecia as coisas fora do apartamento. Não o deixou ter contato com o chão ou outros animais, pois precisava ainda ficar mais e mais forte. Apenas, o mostrou um novo ambiente todo o momento em seu colo.
Quando voltaram, o pequeno estava exausto, aquela descida, embora aparente não ter feito nada, foi demais para ele com inúmeros cheiros, informações. Para um filhote, é uma enxurrada de informações. Assim ele quis adormecer, e Elizabeth colocou-se a trabalhar, deixando uma caminha para ele no escritório também. O pequeno dormia, enquanto ela escrevia um novo conto readaptado que deveria estrear só alguns anos depois.
Às 03h da madrugada, quando parava de escrever o pequeno acordou chorando, Elizabeth o levou para o tapetinho para fazer xixi. Ele queria sair do lugar inúmeras vezes, levando mais de 30 minutos nessa brincadeira de colocar no tapetinho e sair de lá. Foi quando ela pensou que ele não faria, e voltou para o computar que o pequeno se agachou, aliviando-se.
- Ah, Joe! Você me enganou, não é aí! - colocou a mão no rosto e observava a cara do jovem trapaceiro.
O colocou em outro cômodo para que ele não visse que estava limpando e associasse que ali deveria ser feito. Passou um produto que quebra enzimas de urina e depois o deixou entrar. Decidiu que ele deveria ser adestrado o mais rápido possível.
No outro dia, contratou alguém que ensinava para Joe e para ela, as premissas de um bom adestramento, a partir desse dia, ela comprou novos livros sobre educação animal, primeiros socorros caninos e outros assuntos vinculado a temática do animal, em especial, cachorros.
Passando-se mais seis meses, Joe já era um cachorrinho muito educado, crescido e bem forte. Seus pelos cresceram e ficaram longos e fofos. A cauda era volumosa e balançava para la e para ca, toda vez que via a sua tutora e salvadora. Por seu bom comportamento, a meses atrás Elizabeth o levava para os ensaios e algumas vezes participando de cenas contemporâneas.
A história do cachorrinho estava tão ventilada que todos sabiam quem era o "Joe" abandonado por seus antigos tutores e encontrado pela atriz e advogada, Elizabeth Heinz que durante longos meses publicava que o cachorrinho fora encontrado e estava em período de tratamento.
Uma de suas suspeitas e razão de não terem procurado o pequeno Joe após a sua divulgação seria a informação de quanto tempo ele passou internado. Talvez os antigos tutores pensassem que eles seriam os responsáveis por essa hospedagem. Enfim, era uma informação a qual ela nunca saberia.
Todas do estúdio amavam o pequeno e atencioso e inteligente Joe. Nessa época, apenas o Joe participava sozinho dos campeonatos de Agility; flyball e outros torneios. Junto com sua tutora, costumavam fazer trilha, acampar no meio do mato – apenas os dois – andar de bicicleta, entrarem com torneios de canicross e viajarem entre os estados para conhecer o mundo.
Perdeu as contas de quando pegava a mochila e colocava no ombro, chamando seu fiel amigo para irem de carro até o estado vizinho. Joe era conhecido por todos, sempre atendia e obedecia todos os comandos ditos por Elizabeth, não sendo problema descer sem guia. Mas sempre mantinha por perto, sendo segurada por sua mão.
Passaram cerca de 4 anos e Joe era um cãozinho amável, conhecido por todos. Elizabeth entrava no seu prédio com Joe quando o cachorro foi até a recepção ficando em pé, dando um latido para o rapaz do balcão: ao que o rapaz respondeu:
- Sim, Joe.. as correspondências da senhorita Elizabeth estão aqui. Segure. – disse colocando na boca do cão que as pegou e voltou a seguir a dona lado a lado que estava caminhando para pegar o elevador. A porta abriu e ela pediu que Joe fosse o primeiro a entrar.
Elizabeth e Joe, chegaram em seu apartamento guardaram as encomendas e passaram o resto da manhã trabalhando. Foi quando o sol começava a ficar mais aprazível que Elizabeth decidia ir para o novo parque da cidade, localizado na avenida Roberto Freire. Olhando para o seu cachorro, como se ele lesse seu pensamento, Joe foi até a porta do escritório e apertou o botão de gravar, no qual falava uma voz masculina, dizendo "vamos passear no parque". O botão de fala gravável foi graças ao sistema de comunicação desenvolvido por Cristina Hunger, uma fonoaudióloga americana que decidiu usar a técnica com sua cachorra Stella, resultando no maior sucesso. Joe estava a cinco anos sendo treinado pelos botões, então sabia apertar e dizer o que queria e quando queria, onde e com quem.
- Então, você pensou a mesma coisa? - ela sorriu para ele.
Um latido fora ouvido, seguido do aperto de botão "sim" e ela sorriu. O cachorro fora treinado e educado com tanto afinco que conseguia se comunicar perfeitamente com sua tutora, deixando muitos abismados no vínculo de tutora e cão.
Elizabeth reunia os brinquedos preferidos do amigo, água, comida, cata caca, guia, enquanto o rapazinho já estava com o frisbee na boca olhando para a porta. Fizeram todo o percurso de volta, do elevador, para o subsolo, na garagem. Seguiram para o Jimny Sierra, e ela abriu o banco do passageiro para Joe que sentou animado ainda com o frisbee na boca. Jogou tudo que era dele nos bancos de trás. Entrou no carro e ajustou o cinto de segurança no pequeno rapaz próprio para ele e desceu os vidros para ele ficar mais confortável e admirar a vista.
Deu a partida e seguiram para o seu destino, Joe como sempre com a cabeça no lado de fora atento, parecia estar feliz em ir para o parque. Não era muito longe dali, cerca de quinze minutos e já estavam no estacionamento, descendo do carro. Elizabeth pegou a mochila do seu amigo, abriu a porta, colocou o Joe na guia, embora soubesse e confiasse plenamente que o cachorro não fugiria, mas havia muitos cães que não seguiam o mesmo protocolo e ela só gostava de soltá-lo em partes mais calmas e sem tanto barulho. O parque era enorme e fechado, assim, sem problemas de cães fugirem, pois a única entrada possuía travas. Logo, havia a liberdade da mata, alguns locais com trilha um bonito lago, feirinhas, vendedores de balão, pipoca e alguns cachorros também passeando.
Quando entraram, se afastaram do início do parque, onde ficavam uma grande concentração. Elizabeth tirou a guia, pediu para ele ficar e quando Joe ouviu o "ok" começou a correr feliz da vida. Passou 10 minutos correndo para lá e para cá. Ela abriu a mochila e deixava ali para o cãozinho decidir o que queria, após se divertir e correr muito, puxou o frisbee da mochila e colocou no colo dela.
- Sabia que você não iria resistir. – ela se levantou e ele se afastou para trás se inclinando, mostrava que estava pronto – La vai!
Ela arremessou bem alto e longe, só podia ver ele correndo o mais rápido possível e agarrando o frisbee com um mortal no ar. Elizabeth tinha comprado um lançador de bolas, estilo "bazuca" para ir mais rápido e mais longe para o cão. Ela atirou e ele corria em disparada, voltando e deixando nos pés dela para o próximo lançamento. Brincaram de frisbee, bola, graveto, fizeram comandos de: fica, beijo, tchau, saltos, salto de costas, toca aqui, morto, pega, gira, para trás, pulo de arco tudo isso para cansar o rapazinho de 220v. Afinal, todos sabem que o border collie é conhecido por grande atividade mental e física, sendo necessário momentos de cansar a energia como também descansar.
Após notar que o cansaço do rapaz, ela colocou água gelada na garrafa exclusivamente e própria para ele que tomou em grande quantidade, deitando-se ao lado dela. Passaram uns trinta minutos assim, e aos poucos uma menininha de cinco anos se aproximou, ficando a uns 20 passos de distância perguntando se poderia falar e brincar com o cachorro. Ela havia dito que pedira para sua mãe que tinha deixado se aproximar da moça.
- Oi garotinha, qual o seu nome?- inquiriu Elizabeth
- Oi, moça, eu sou Diana. - disse a menininha com sardas salpicadas pelo rosto e olhos verdes brilhantes.
Continuou a Elizabeth - Seus pais estão aqui por perto? – indagou Elizabeth
- Sim, meu papai está ali sentando ao lado da mamãe, estão conversando sobre algo – apontou para o casal não tão distante dela. Um homem loiro, ao lado de uma mulher ruiva, pele clara com um vestido floral, mostrando seus braços desnudos. – Ali é minha mamãe.
- Então tudo bem, pode ir brincar, a proposito eu sou Elizabeth e esse é o Joe. – Joe acabou fazendo automaticamente um "cumprimenta, seguido de tchau e dando" a pata para a pequena mocinha ruiva que achou incrível!
- Nossa ele é tão esperto! Você que treinou? - ela acariciava o cachorro todo feliz.
- Mais ou menos, recebi ajuda no treinamento dele nos primeiros anos. O resto foi só continuidade. Ele é um amigo muito querido. - Elizabeth sorriu e Joe começou a fazer algumas palhaçadas.
- Posso levar o Joe para conhecer minha mamãe? Ela também gosta de animais. - suplicou a menina.
- Pode sim! - Elizabeth sorriu.
Elizabeth sempre foi de deixar Joe brincar a vontade, até porque ele era muito sociável com cães, crianças e outras pessoas. A menina correu em direção aos seus pais e Joe correu junto com ela. Ela parecia dizer algo para seus pais que viraram e acenaram. Ela não conseguia daquela distancia ver tão bem os rostos, muito menos o da mãe da pequena Diana, pois esta usava um chapéu um pouco grande, que cobria metade do seu rosto nas bordas caídas. Apenas podia perceber que sorriu quando acenou.
Eles ficaram um bom tempo com Joe, Elizabeth não ligava, sabia que o cachorro adorava conhecer e brincar com pessoas novas. Ela até começou a ler um de seus livros, pois era costume isso acontecer, uma família "postiça" sempre pedia para brincar com o Joe. Então, nada estava fora da sua rotina.
Porém, latidos foram ouvidos distante, alguns gritos também, algo estava fora da sua rotina. Ela vasculhou com os olhos o casal, mas não estavam ali seguiu com o olhar pelos barulhos de latidos e avistou Joe na frente da menina latindo para um desconhecido armado. Os pais dela estavam atrás. Parecia que o homem pedia para os pais não se aproximarem da menina, apenas Joe estava servindo de barreira para impedir que o desconhecido se aproximasse.
Quando Elizabeth viu essa situação levantou-se em um salto para tentar se aproximar, quando algumas palavras trocadas entre o homem e os pais fizeram o homem atirar em direção da menina, no qual o cachorro interveio, acertando-o. Um grito foi dado pela mãe.
Os seguranças que souberam depois da situação estavam se aproximando para prender o desconhecido que gritava em plenos pulmões: "olho por olho, dente por dente!". Os pais da menina estavam ajoelhados chamando pelo nome da Diana, Elizabeth correu desesperada para ver o Joe, afinal sabia que a menina já estava recebendo a atenção dos pais, porém, o amigo da atriz estava lá caído, sem dar nenhum sinal de vida.
- JOOOOE! – gritou ao se aproximar
- Isso tudo é culpa sua! – a mulher mãe da garota bradou, porém raivosa com o marido. Elizabeth não levantou a cabeça para ver o que estava acontecendo. Apenas tentava checar como o seu cãozinho estava.
- Eu sinto muito senhorita – disse o homem alto e loiro, tentando controlar sua voz. Elizabeth não podia dizer nada, eles também estavam em uma situação difícil, a menina parecia em igual estado que o seu cão. Ambos desacordados.
- Tudo bem, só cuide da garotinha. – disse e tentou sair o mais rápido dali, só ouvindo um distante "seu cachorro foi um herói" da mulher daquele homem. Ela não pode dizer mais nada, correu para levar Joe ao hospital.
A veterinária de Joe, Tess, recebeu desesperadamente o cachorro, Elizabeth estava mais pálida do que o normal, suas roupas estavam ensanguentadas, narrou o que havia acontecido e ficou horas e horas na recepção. Tess a pediu para ela ir para casa e descansar, a cirurgia era delicada, embora a bala não tenha se alojado, ela perfurou muitos órgãos críticos do animal. Resultando em baixa oxigenação.
Elas conseguiram três cães para doarem sangue ao Joe, tudo que a Doutora Tess podia fazer para garantir a sobrevivência do Joe, ela fez. Agora era pedir para São Francisco ajudar o pobrezinho ou qualquer divindade protetora dos animais que podiam existir.
- Liz, você precisa ir descansar, trocar essa roupa. Eu vou cuidar dele – falava a Tess.
- Tudo bem, a gente não sai do lado um do outro, quero estar aqui quando ele acordar. – houve uma pausa. – Tess, não mente para mim, como é o quadro?
- Liz, é muito delicado, Joe perdeu muito sangue, o organismo dele quis rejeitar o dos doadores, O caso não é fácil... - a doutora tentava ser o mais franca e gentil possível.
- Ele tem chance de sobreviver – quis saber de imediato. A doutora queria muito consolar a amiga dizendo "vai ficar tudo bem", porém, as chances não eram boas. Ela não queria mentir, mas também não queria dizer tais palavras. Apenas disse:
- Vamos ter esperanças, Liz, o Joe é um cachorro forte, ele venceu dificuldades na primeira vez que encontrei vocês. No primeiro dia a chance dele ainda estar vivo com toda a anemia e parasitas no corpo dele, a falta de vitaminas, foi um milagre você tê-lo encontrado e dado tempo de salvar ele. Então, vamos ter fé, ele já nos surpreendeu uma vez.
Horas se passaram e nada, o quadro só piorava, Tess sabia o que iria ocorrer, o cachorro não resistiria e antes dela falecer ela explicou para a tutora que caiu em prantos. Liz pediu para vê-lo e assim ela consentiu. Joe estava fraco, pouco levantou a cabeça quando a dona chegou.
- Oi grandão – disse passando a mão no rostinho dele, recebendo um grunhindo em troca, como um "oi" – Que aventura passamos, não é? – ela falava com lágrimas nos olhos. – Você foi forte desde a primeira vez que ti vi. Sempre foi meu herói e foi um até o fim.
O corpo dele era acariciado, ele fechava os olhos e abria lentamente, parecia que estava com sono. Ela deu um abraço forte, deixando cair várias lágrimas por seu rosto até o do seu cão, passado mais alguns minutos ela disse: - você foi o melhor amigo, o melhor cão, o mais incrível de todos, jamais vou esquecer você. Você animou a minha vida e sou grata por isso! Você cumpriu sua missão meu amigo, pode descansar agora.
Esse foi o único momento que o cachorro movimentou a cabeça, a olhou nos olhos, depositou uma suave lambida no nariz da outra, afastou para encostar seu focinho com o nariz dela, durou algo entre um minuto, mas para Liz, aquele momento foi eterno e mágico. Ele afastou e voltou a deitar sua cabeça na maca, fechando os olhos no final, com a respiração curta e lenta, seu coração foi parando de bater, o tórax parando de realizar o movimento de subir e descer, até que parou de vez, e Joe deu seu último suspiro no fim.
Joe, cinco anos.
FIM DO FLASHBACK - Ano de 2013
Elizabeth havia finalizado de contar aquela história emocionante que havia vivido a uns cinco anos atrás e compartilhou com a ruiva algo tão intimo seu. Ela continuava dirigindo e por fim falou:
- Joe foi um amigo incrível, excepcional. Embora tenha vivido por cinco anos, ele foi feliz e um herói. Dois dias depois do acontecido, soube que a menininha também não havia sobrevivido. A bala que acertou o Joe, passou por ele e acertou nela, ficando alojada, mas causando uma grande hemorragia interna. Era uma criança frágil. Os pais não foram identificados ou o nome da menina foi dito todo no jornal, eles fizeram o que podiam para isolar o caso, pois a polícia achou que os pais também eram os alvos do assassino. Assim, era uma forma de tentar protege-los. Eu lamentei pela perda dos pais, naquele dia tanto eu como aquela família perderam alguém importante para eles. - Elizabeth suspirou em pesar por aquelas memórias tão fortes para ela.
Elizabeth percebeu que Vivianne estava chorando silenciosamente de repente. Já haviam parado o carro na garagem do prédio e por reflexo, Elizabeth abraçou a garota apertado e se surpreendeu com a reciprocidade da outra. O choro que estava preso, acabou por se soltar mais. Ela acabou deixando algumas lágrimas cair também ao lembrar dos acontecimentos. Ficaram naquela forma por um tempo, até se desvincularem.
Elizabeth enxugou os olhos da mais nova com um pequeno lenço que tinha no porta luvas. Os olhos verdes possuíam as pupilas dilatadas, estavam escuros naquele momento e algo aqueceu pela primeira vez dentro de si. Ela falou baixinho:
- Está tudo bem. – secou mais algumas lágrimas.
Depois que a ruiva se acalmou elas saíram do carro. Ambas caminharam até a entrada do elevador totalmente em silêncio. Chegaram até seus respectivos andares e Elizabeth foi a primeira a colocar a chave em sua porta e a abriu. Vivienne não pode deixar de perceber que estava tudo escuro, mas pode escutar barulhos vindo de dentro e uma voz feminina xingando, não se conteve e rolou os olhos automaticamente. Parece que aquele momento diferente e único entre elas havia passado. Seja lá que momento tiveram no carro, foi apenas um momento e já passou.
Parece que a outra teria uma noite agitada e sonora como sempre, nada mudou. Elizabeth apressou-se para ficar em frente a porta e acabou fechando-a novamente.
- Bom, você está bem? foi um dia.... intenso, espero que tenha se divertido e gostado do trabalho e lamento pela história. Amanhã terá um dia de folga, não se preocupe. - disse um pouco constrangida pela primeira vez. Sentiu que bombardeou a ruiva demais.
- Estou bem sim, foi só algo... intenso, como você disse. Mas tudo bem, Boa noite. – Vivienne responde. Entrou em casa e encontrou sua irmã sentada na sala, jogando um dos jogos do H² e quatro cachorros muito bem deitados no sofá dele, incluindo o Archie. "Só pode ser a Melissa no apartamento vizinho", pensou e compreendeu o barulho do apartamento de Elizabeth. Olhou para aquela cena da irmã, respirou fundo para se reestabelecer e disse:
- Você deveria estar em casa, não? Aliás, todos deveriam. - se dirigiu para a cozinha.
- Sim, mas hoje é cuidado especial, eu passarei a noite com os pequenos, então como nossos pais odeiam que eu faça esse tipo de serviço pensei em ficar aqui com você e os pequenos. Vamos lá? Como foi o trabalho? - Colocava algumas batatas na boca e continuava jogando, enquanto os cachorros estavam esparramados.
Vivienne tirou a bolsa e depositou na bancada ali perto, seguindo em direção a geladeira para tomar um pouco de água.
- Foi bom! E você sabia que o estúdio faz parceria com a nossa vizinha? Ela está atuando e foi até... gentil em me explicar algumas coisas. - tomou a água.
Rapidamente Kitty deu pausa no jogo de sniper que jogara e engoliu em seco, sua irmã não reclamou com ela pela "coincidencia" delas trabalharem juntas e ainda chamou a Elizabeth Heinz de gentil? Na cabeça de Catherine, algo estava muito estranho
- Como assim??? Conte isso melhor, Enne. – percebeu que as maçãs do rosto da irmã estavam vermelhas e indagou – você está bem? - seu tom mudou para preocupado, dando uma maior atenção para a irmã caçula.
Vivienne começou a tomar água e depois começava a gesticular enquanto falava, algo que sempre fazia quando ficava nervosa. Uma ação inconsciente que desde pequena era percebida pela irmã.
- Foi gentil e sim, estou bem, Kitty, você sabe, gentil. Ela só me contou uma história do cãozinho dela que acabou falecendo e isso me deixou um pouco abalada. - seus olhos lacrimejaram novamente, mas ela tentou segurar e reter aquelas lágrimas.
- Ah, sei, nossa, ela já teve animais? Coitadinha. - Kitty estava chocada com aquela informação.
- Agora eu vou tomar um banho, o dia foi tão diferente para mim hoje. -Vivienne queria ter um momento para si, aquela história da sua vizinha a abalou de forma significativa. Seguiu em direção ao banheiro e passou um tempo ali.
Dois dias se passaram com Vivienne trabalhando no Estúdio, as cenas que estavam sendo apresentadas não precisavam da presença de Elizabeth, dessa forma ela não viu sua vizinha por dois dias inteiros e muito menos escutou barulho no tempo que se seguiu. Mesmo assim, ainda não conseguia dormir direito, a insônia e o medo ainda rondavam-na nas madrugadas. Kitty não apareceu por lá, pois daria plantão em seu outro trabalho, teria uma noite calma ao que ela pensava. Colocou um filme para assistir naquele tempo.
Fim do capítulo
O que acharam?
Longo, mas repleto de informações.
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