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Segredos por Elliot Hells

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Palavras: 7560
Acessos: 424   |  Postado em: 27/10/2023

Notas iniciais:

Esse capítulo se passa na mesma manhã em que Vivienne e Elizabeth iam trabalhar no estúdio, porém, a perspectiva contada e os acontecimentos é de Sophie e Valquíria.

Capitulo 13 Homicídio

 

Eram 7 horas da manhã, Sophie se espreguiçava de uma forma manhosa que ninguém imaginaria que ela teria, desejou ficar um pouco mais na cama, mas seu alarme começou a soar, demonstrando que deveria levantar-se. O desligou e ficou imaginando se a mulher que deveria estar no andar de baixo ainda estaria lá. Um friozinho passou pelo seu abdômen, desejava em seu íntimo que a morena estivesse ali, mas sabia que isso também poderia não acontecer. Suas expectativas estavam meio a meio.

Por via das dúvidas ela queria descer de forma pronta, então tomou uma ducha rápida, vestiu um short jeans na altura de três dedos acima do meio das coxas e colocou outra blusa regata, só que dessa vez preta. Aproveitou para enviar uma mensagem no telegram de Lizz, perguntando se estaria livre hoje. Rapidamente seu aparelho preto vibrou:

Ela leu em voz alta:

- "Oi, Lora! Adoraria te encontrar hoje, mas estarei trabalhando no estúdio. Posso compensar depois? Se está de folga junto com a rainha do gelo, por que não a convida para sair? Não me faça ensinar como se flerta com mulheres. Agora preciso ir, nos falamos depois? Se cuida! COMECE A AGIR!" – aquelas letras garrafais no final da mensagem da amiga fizeram-na revirar os olhos. Ela saía com a detetive, mas de fato, tudo ocorria de forma lenta, uma lentidão que já passava dos quatro anos. Suspirou e decidiu tomar coragem para descer, imaginava que Valquíria não estivesse lá e teria que mandar mensagem com alguma desculpa para saírem, mas faria isso depois, antes precisava comer alguma coisa.

Começou a descer as escadas e percebeu uma movimentação na cozinha, em especial na ilha de mármore que ali possuía. Ela não acreditou quando viu a morena ainda na sua casa. Se aproximou e desejou um bom dia para a outra que terminava de colocar os últimos alimentos ali.

- Bom dia, Sophie. – Valquíria a encarou e estendeu um café da starbucks que havia comprado, era orgânico, um outro tipo de café que sabia que a legista tomava – tomei a liberdade de usar o seu banheiro para tomar um banho e fui comprar nosso café da manhã. Sabia que você não me deixaria fazer nada ou tentaria me impedir de todas as formas. Assim, comprei a comida, depois da noite passada, era o mínimo que eu poderia fazer para me desculpar e agradecer pelo trabalho e por me deixar dormir no seu sofá, vamos nos servir?

- Você lembrou que pela manhã adoro café orgânico, está a um passo de ser perdoada – brincou a loira. – Hm... está com um cheiro ótimo, panquecas e morangos? Definitivamente você sabe como se desculpar com uma mulher.

Sophie colocou uma garfada na boca e soltou novamente sons que demonstravam sua profunda adoração com aquele alimento. Valquíria só conseguia olhar, de fato, um micro sorriso nascera nos lábios da detetive, não sendo capturados pela legista amante de panquecas.

- Fico feliz que esteja aprovando com tamanha devoção. – Valquíria tomou um gole do seu café e tratou de comer, decidiu ficar naquela manhã por ainda se sentir culpada por ter prendido a outra por tanto tempo no departamento de polícia e atrapalhado seu sono na madrugada.

Enquanto ambas comiam seu dejejum, escutavam ao fundo os noticiários, o canal 11 falava da forte tensão que estava ocorrendo entre a Ucrânia e a Rússia, que poderia desencadear em uma futura guerra. Os fatos resumidamente apontavam que a Ucrânia queria se vincular a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), isso acarretaria uma vulnerabilidade no território Russo, além do impacto do poder do presidente. A detetive escutava com muita atenção aquelas notícias, sua mente estava reflexiva com o que ocorria, afinal um cenário de caos e desequilíbrio era o principal tempero para comerciantes de armas, quando Sophie a tirou dos seus devaneios.

- Sabe o que estava pensando... – dizia Sophie. – estamos de folga hoje, por que a gente não sai juntas para aproveitar? – Valquíria demorou para responder, na certa parecia procurar palavras mais adequadas para recusar o pedido da outra de forma educada. – Se estiver ocupada e com planos, tudo bem. Eu só não queria passar o resto do dia sem muito o que fazer, minha amiga, Lizz estará trabalhando, então como somos as únicas pessoas que por certo não trabalham devido ao extra que fizemos, podíamos aproveitar.

 

- Tudo bem, podemos aproveitar esse dia juntas, mas o que deseja fazer e por onde começar? – falava Valquíria surpreendendo Sophie e se surpreendendo também.

- Gosto de dar uma corrida matinal, quer correr comigo?

- Adoraria, mas não estou com roupas adequadas para isso – apontava para o óbvio.

- Eu tenho roupas, pode pegar emprestado. 

Valquíria arqueou uma sobrancelha.

 – O que? Precisa ser assim logo agora Valquíria? Nos conhecemos a quatro anos e não estamos no departamento. – Sophie falava sem formalidades, expondo a aproximação que haviam construído naqueles longos anos.

- Tudo bem, sei que estou te devendo mesmo, faremos do seu jeito hoje. Porém, não se acostume – Sophie estava impressionada, sabia que a outra não gostava de débitos e fazia questão de pagar. Talvez fosse sua chance de investir mais, não era todo dia que você poderia ter a detetive a disposição e muito menos, uma detetive sem ter as rédias de uma situação.

Elas se arrumaram, Sophie usava calças coladas pretas e uma blusa regata colada azul celeste, colocou tênis para correr, enquanto prendia o cabelo em um rabo de cavalo frouxo. Estava quase pronta quando Valquíria entrou, a outra usava um top preto, exibindo seu abdômen definido e braços totalmente fortes. Sophie nunca a tinha a visto com tanta pele a mostra, não podia imaginar que a detetive fosse tão maravilhosa assim, ela quase desejou mudar aquele trajeto de corrida.

Mas claro, a outra nunca aceitaria algo desse tipo, Sophie nem fazia ideia se ela tinha relacionamentos ou algo do tipo e se gostava de pessoas do mesmo sex*. Desviou os olhos daquele tentador abdômen e das coxas torneadas.

- Está pronta? – disse enquanto a morena se alongava.

- S-sim... e-eu estou pronta. – balbuciou nas palavras.

Estavam correndo a cerca de trinta minutos lado a lado, outras pessoas e até o que aparentava ser um casal de amigas com roupa combinando também corriam por ali. Ficando logo atrás um ciclista. 

Era normal fazer uma corrida por aquela avenida, a doutora era resistente, apesar de não frequentar uma academia, se dava bem em exercícios ao ar livre. Decidiram correr por mais vinte minutos até pararem em um trailer que viram para tomar água gelada. Sophie estava reluzente, sua pele brilhava naquela manhã com um sol de 28 graus. Valquíria a olhava de soslaio com muita discrição/comedimento. O celular de ambas tocaram, dizendo simultaneamente:

- Van Dahl.

- Seyfried.

- Precisamos de vocês agora na cena de um crime, caso de assassinato. Sabemos que estão de folga hoje, mas a outra equipe já está com outro caso, então tivemos que chamar vocês – era o que cada uma ouvia no seu telefone. Ambas pegaram o carro e partiram para a cena do crime sem dar tempo de trocarem de roupa.

Um homem com roupas de corrida estava sentado no meio fio do calçadão da via costeira, estava encolhido e um tanto assombrado.Dois policiais que estavam livres chegaram antes ao local e um deles estava pegando mais informações com aquele senhor.

- O nome dele é Jefferson Santos, mora na de Wallen, costuma pegar o carro e vir correr no calçadão da Via Costeira, decidiu dar uma olhada na parte da areia da praia, pois algo estava reluzindo muito forte, o que acabou chamando sua atenção. Quando achou que tivera sorte de encontrar uma pulseira, veio com uma mão e de lá parece ter um corpo de uma mulher.

Os patrulheiros se deparavam com as duas mulheres e seus trajes esportivos, exibindo seus físicos. Eles dois engoliram em seco. Valquíria como sempre passou por eles ignorando totalmente, enquanto a Doutora Seyfried sentiu um pouco de vergonha, mas decidiu ignorar e analisar o caso que se erguia diante delas. Desceram para a área isolada pelos policiais, alguns outros tiravam fotos meticulosamente da vítima ali exibida.

- Por onde ele ligou? – indagou Valquíria aproximando do corpo para observar a pessoa desconhecida.

- Ele ligou de um telefone público, seu aparelho estava descarregado, após sua ligação, estava por perto e cheguei trinta minutos depois, tomei a liberdade para isolar a área e tendo cuidado para não tocar em nada – informou ele para a detetive.

A doutora Seyfried, era uma mulher prevenida, sempre trazia no porta mala de seu carro alguns materiais do seu trabalho e luvas, porém, justamente hoje, esquecera algo principal, algum sobretudo para cobrir seu corpo para poder executar o seu trabalho. Ela estava agachada perto do corpo, sua pele reluzia e seus fios dourados eram iluminados por aquele sol, enquanto Valquíria se aproximava vendo o que ela já estava fazendo. Coletava potássio vítreo para saber um pouco mais da hora da morte, estava aparentando estar claro e limpo aquela substância.

- E então, doutora Seyfried? – Valquíria assumia uma postura mais profissional ao conversar com Sophie nesses momentos, principalmente na frente de pessoas que não tinha intimidade.

- Algo aproximado entre quatro horas atrás, ou seja, umas 5 horas da manhã – Valquíria baixava os olhos para aquele cadáver, estava desenterrado de forma cuidadosa. Era uma mulher, ela jazia de barriga para cima, olhos cinzentos arregalados, garganta estava com hematomas arroxeados.

Valquíria calçava um par de luvas pretas, revistando a roupa da desconhecida. A detetive falou que ela era casada, ao olhar o anel no dedo anelar da moça, escutou alguns dos comentários que na certa deveria ser o marido da vítima. O rádio dos outros patrulheiros estalavam, avisavam que um furgão da unidade criminal acabara de chegar na cena, era alguns de seu pessoal.

- Marido não, vocês querem dizer, esposa. – o celular da desconhecida tinha uma foto de registro de casamento na sua tela de bloqueio. Os homens engoliram em seco. Valquíria entendia que ela havia sido arrastada para aquela praia não sendo ali o local da morte. Vasculhando um outro bolso encontrou a carteira com os documentos da moça – Jéssica Lins, advogada, 34 anos. Todos os pertences dela encontram-se aqui, não foi latrocínio. O que temos sobre a arma do crime que corresponda a uma borda retangular?

- Um dos policiais disse que ainda não encontraram nada. – disse um dos patrulheiros.

- Ao que parece ela sofreu abuso sexual – Valquíria falava para Sophie que observava mais a região da parte interna das coxas.

- Ela possui manchas avermelhadas na parte interna da coxa e virilha. – confirmou por fim.

Valquíria observou ao redor para ver se naquela zona tinha acesso a alguma câmera e não se surpreendeu por não haver. Um ponto cego, ótimo local para descarte de corpos. Sophie falou com ela, mostrou que a advogada tinha uma pulseira de identificação de um estabelecimento, um bar, chamado de "Prik Bar"

- Prik Bar – repetiu a policial.

- É um bar LGBTQI+, fica não muito longe daqui. – respondeu Sophie.

- Achei! – gritou um homem, erguendo um pedaço de madeira ensanguentado. Ali estava mais uma prova e possivelmente a arma do crime.

As mulheres estavam no departamento de polícia devidamente arrumadas e adequadas para aquela situação. Sophie já tinha se retirado para ir para o necrotério analisar o corpo de Jéssica Lins, enquanto Valquíria encontrava-se na sala de interrogações com a esposa identificada de Jéssica, a mulher era uma jovem universitária de 27 anos, estava concluindo o curso de direito para poder trabalhar com sua esposa.

Valquíria estava impassível, não sabia o que fazer com a moça que estava a sua frente chorando, de fato, suas habilidades sociais eram falhas, assim decidiu fazer o que sabia melhor, o seu trabalho.

- Olá senhorita Carmen, meu nome é detetive Van Dahl e eu estou assumindo o caso sobre a sua esposa. – falou enquanto puxava uma cadeira em frente aquela moça, sentando-se. Sobre a mesa de aço colocou uma pasta de tom amarelo claro.

Carmen fez um aceno com a cabeça informando seu gesto de cumprimento, e sentou na cadeira, um silêncio sepulcral se instalou naquela sala quadrada com uma mesa metálica e duas cadeiras. Atrás de Van Dahl um espelho enorme que dava para outra sala. 

- Então, como conheceu Jéssica Lins? – Valquíria a fitava profundamente.

Após um tempo, Carmen falou.

- Estávamos casadas desde os meus 23 anos, nos conhecemos na cadeira da universidade, ela era o ser mais incrível que eu já tinha conhecido. Tivemos alguns problemas devido a sua posição de docente, mas conseguimos superar. – a moça olhava para a foto de Jéssica na mesa, controlando suas lágrimas. - Estávamos felizes, entende?

- Compreendo senhorita, pode me dizer se a Jéssica tinha alguns inimigos? - a detetive analisava a esposa e qualquer fio que pudesse captar.

- Não, a Jéssica era muito querida por todos - coçou a cabeça, tentando lembrar. - No trabalho não havia ninguém que pudesse expor que não gostava dela.

- Entendo seu momento senhorita Carmen - relatava a detetive. - mas qualquer coisa que possa lembrar, uma briga entre vizinhos, um desentendimento entre clientes, alguma desavença é útil. 

- Eu de fato não consigo lembrar. - tentava se esforçar. -Passávamos tempo trabalhando, quando não ficávamos em casa juntas ou quando estamos separadas com cada uma em seu respectivo trabalho.

- Diga-me, onde estava na noite anterior? – a detetive mantinha as mãos fechadas sobre a mesa metálica de interrogação.

- Na noite que isso ocorreu, eu estava no atendimento. Jéssica sempre quis pagar meus estudos, mas eu não recebi esse tipo de criação, estava mais segura em bancar o meu próprio futuro, então trabalha no bar do Jonny's a noite até um pouco mais da madrugada e volto para casa.

- De que horas você costuma pegar no bar do Jonny's? - Valquíria mantinha-se impassível.

- O carregamento de todas as coisas costumam chegar às 18h30. Nessa hora a Angélica que toma conta, depois a Luana e por fim, às 19h30 chego para completar a equipe. Naquela noite teve show ao vivo, costumamos trabalhar até às 03h da manhã. Acho que voltei para casa de aproximadamente 04h30.

- Sabe que precisaremos verificar seu álibi – disse a detetive. – faz parte do procedimento. Agora, às 4h30 quando chegou em casa não encontrou sua esposa, você não estranhou isso?

- Para falar a verdade não. Nas noites que as minhas escalas são assim, Jéssica costuma ficar no seu escritório e preferia dormir por lá. Foi um dos combinados. Então, necessariamente, ela deveria estar no escritório. - explicou a rotina que seguiam.

- Você sabe ou lembra de algum acontecimento estranho, alguém que quisesse machucar a sua esposa? – inquiriu Valquíria.

- Não, não... – tentava se lembrar. – Como eu disse, todos sempre adoravam a Jéssica, ela era uma advogada excelente, uma professora impecável. Não creio que alguém do nosso ciclo poderia fazer tal coisa. – dizia agora a viúva.

- Entendo, nem mesmo um caso jurídico que teve algum desentendimento? – indagou a detetive novamente tentando reativar a memória daquela mulher.

- Não, Jéssica prefere evitar assuntos de natureza penal, justamente para evitar algum problema com criminosos. Lidamos com empresas, casos de família, previdência e trabalhista. São casos mais tranquilos - explicava.

- Iremos fazer uma busca quanto a isso. Por enquanto é só, senhorita, os outros policiais irão solicitar o que iremos precisar e aguarde nossas notícias. – disse por fim a detetive.

Carmen apenas consentiu, a jovem começava a lembrar das aulas de direito e das reportagens, o cônjuge era sempre um dos primeiros suspeitos e isso a magoava saber que poderia estar na lista de suspeitos, mesmo que a detetive não a contasse diretamente.

Valquíria saiu da sala de interrogações e foi direto para os armários com batas, calçou as luvas roxas e adentrou aquele recinto que a Doutora Seyfried estava desde que chegaram realizando a autopsia daquele corpo, agora nu, da Jéssica Lins. Assim que Valquíria entrou percebia Seyfried compenetrada, realizando aquela função com total profissionalismo e o desapego habitual, não tinha novamente assistente, então como algo natural, Valquíria se posicionou ao lado da outra, analisando o corpo. Ambas não precisavam se cumprimentar, aquele silêncio já era intimista o bastante para elas.

Valquíria fez a coleta da virilha para saber maiores detalhes do abuso sexual que a vítima passou. Após um tempo, o resultado saiu, informando que possivelmente poderia ter sido estuprada por alguém que estava usando luvas, não só isso, Sophie informou que segundo suas análises a violência e a agressão podem ter ocorrido post mortem. Aquilo era doentio, as duas pensavam. "Mas qual seria a razão de bater nela e a violentarem após a morte?" , pensava Valquíria e resolveu questionar:

- O que mais você tinha encontrado antes que eu chegasse, Sophie? – dessa vez, Valquíria tinha acabado de quebrar o silêncio.

- Detectei hematomas ao redor dos pulsos e tornozelos, além disso identifiquei fragmentos de fibras naturais – explicava, enquanto organizava o material para acionar a luz negra naquele recinto. Valquíria acabou complementando que aquelas fibras naturais seriam "cordas, então, Jéssica Lins, foi amarrada nos tornozelos e nos pulsos" – exatamente, pela forma das marcações na epiderme, foi quando ainda estava viva, mas post mortem "ele" a retirou.

Entendendo o que a legista iria fazer logo em seguida, Valquíria desligou as luzes, enquanto Sophie passava a aquela luz fluorescente pelo corpo da jovem nua. Pelo corpo detectou sinais de alvejantes e produtos de detergente para roupas, pois fazem aquela promessa de entregar o seu "branco, ainda mais branco". Ambas arquearam a sobrancelha por seu corpo ter sido limpo com tal produto, não agrediu a pele, pois parecia uma forma de limpá-la ainda mais. Atentaram-se ainda mais e conseguiram captar algumas inscrições talhadas no corpo

- Valquíria, veja essas inscrições – a doutora ao levantar o braço da vítima, localizou algumas marcas. Debaixo da lente de aumento ressaltavam frases, ela leu o que estava escrito no antebraço da vítima – "assumetque aquam sactam in vase fictili et pauxillum terrae de pavimento habitaculi mittet in eam"1. está escrito em latim, ao que parece isso é...

- Um dos trechos da bíblia, em especial, números cinco, versículo dezessete, uma passagem que falam da purificação com a água benta – completou a detetive. – Conheço alguém no arquivo que irá adorar ler nosso relatório.

Sophie sabia de quem a detetive falava e não deixou de conter o riso, afinal era verdade. Raphaëlle, a estagiária dos relatórios e perícias criminais adorava lê-los e fornecer informações valiosas para as duas mulheres.

- Não sabia que era religiosa – Sophie a olhava.

- E não sou, quando meus pais eram vivos eles que eram. Será que estavam fazendo alguma espécie de ritual? – perguntava mais para si do que para a legista. – Veja Sophie, há outra inscrição na parte interna do braço: "cumque posuerit sacerdos mulierem in conspectu Domini, discooperiet caput eius et ponet super manus illius sacrificium recordationis, oblationem zelotypiae; ipse autem tenebit aquas amaríssimas, in quibus cum exsecratione maledicta congessit" – terminava de pronunciar aquelas palavras em latim

- "Estando a mulher de pé diante do Senhor, o sacerdote lhe descobrirá a cabeça e porá em suas mãos a oblação de recordação, a oblação de ciúme. O sacerdote terá na mão as águas amargas que trazem a maldição" – traduzia Sophie aquelas palavras. Seguindo aquela autopsia detectaram mais alguns versículos da Bíblia em números, que eram os versículos 19, 20, 21. Mas o versículo 22 e 24 chamaram atenção das duas e retornaram a leitura em voz alta, falando Sophie: versículo 22 "Ingrediantur aquae maledictae in ventrem tuum, et útero tumescente putrescat fêmur et respondebit mulier: amen, amen!"2

Continuou Valquíria a próxima leitura:

- "Et dabit ei bibere aquas amaras, in quas maledicta congessit, et ingredientur in eam aquae maledictionis, quae amarae fient."3 Precisamos saber o que o exame de tóxicos descobrirá na corrente sanguínea dela.

- Já fiz isso e não foi possível encontrar nada. – explicou Sophie.

- Talvez tenham usado alguma substância química que acabou se concentrando em um único lugar. "E essas águas de maldição penetrarão" – repetiu Valquíria – vamos juntar com as informações que obtivemos da coleta de substâncias da virilha, talvez possamos descobrir algo.

- Tudo bem, não é padrão fazermos, mas coletarei algumas amostras. – dizia Sophie.

- Até lá, meu próximo passo é fazer uma visita ao estabelecimento Prik Bar. – Valquíria falava fitando a outra.

- Se me lembro bem – dizia Sophie enquanto coletava mais amostras. – o bar começa a abertura para o público no final da tarde, se for daqui a trinta minutos, encontrará o pessoal fazendo a recarga de bebidas e demais produtos. Essa é a hora perfeita da organização do bar.

Valquíria a fitou com um olhar de "?" e não precisava que a outra proferisse a pergunta: "como você sabe disso?" Sophie já sabia que ela trazia essa frase no olhar e resolveu explicar:

- Quando eu era mais jovem e cursava a universidade de medicina saía com alguns amigos para o "Prik" naquela época era o único bar LGBT da cidade, então era o principal ponto para ter encontros. – Novamente, Valquíria levantou a sua sobrancelha desenhada como quem perguntasse "você é gay?" e com um sorriso gentil, Sophie respondeu. – Eu sou lésbica, Valquíria, espero que isso não tenha problema para você ou afete nossa relação profissional e de amizade.

- Acha que nossa relação estaria definida ou ameaçada por sua preferência sexual? – indagou a morena a fitando mais intensamente do que antes. – Eu não sou esse tipo de pessoa, Sophie. Você trabalha magnificamente melhor do que qualquer um aqui, é inteligente e uma verdadeira caixinha de surpresas. Nossa relação jamais será definida por isso, mas como você é como pessoa. É isso o que me interessa. – dizia Valquíria por fim.

Sophie sabia que a habilidade social da amiga não era muito boa, mas ela conseguiu se expressar perfeitamente, Valquíria não ligava para isso e jamais iria atrapalhar o que elas eram profissionalmente falando. Isso a deixou um pouco tremula. Algo percebido pela outra que retomou a fala.

- Termine a coleta da substância, Sophie, irei esperar você para irmos juntas ao Prik Bar, estamos assumindo o caso, e como sabe, não tenho parceiros, então... o que acha de investigar esse caso comigo?

- Será um prazer. – disse a legista pronta para finalizar suas coisas.

 

                                              --

 

O letreiro estava apagado no " PRIK BAR" na verdade estava tudo fechado ainda, pois todos preparavam o bar que abriria ainda no final daquela tarde, conforme havia dito Sophie. Valquíria estava com Sophie e mostrou para a atendente atrás do balcão de bebidas uma foto de Jéssica Lins.

- Você conhece ou já viu esta mulher? – Valquíria indagou para a atendente do lugar. Uma mulher de rosto anguloso e queixo quadrado. Era baixa do que as duas mulheres a sua frente. Os braços descobertos, tom de pele quase negra e sobrancelhas grossas e bem desenhadas. Muito bonita por sinal. Os cabelos negros, eram ordenados por cachos revoltos. Estava limpando uma sequencia de copos e se inclinou no balcão para observar a foto da mulher.

Jéssica Lins, em vida era extremamente linda, olhos azuis, tez alva, um sorriso brilhante e alegre. Cabelos longos e negros, ligeiramente relembrava a policial ali na frente. A jovem atendente de nome, Raquel, começou a falar:

- Lembro dela, esteve aqui ontem a noite, pediu uma mimosa para a garota com quem estava e tomou um uísque 18 anos. Não demorou muito com essa moça, depois repetiu as rodadas, com... acho que com seis ou sete jovens diferentes. – explicava a mulher.

- E alguma delas era essa pessoa? – Valquíria mostrou a foto de Carmen, a esposa da vítima.

- Não, não! Já a vi com essa mulher algumas vezes, porém, quando estavam a sós, ela nunca encontrava outras mulheres. Ao que parecia, essa aí era a sua esposa. Parecia um casal feliz quando estavam juntas. Mas, quando ela aparecia sozinha, sempre encontrava com várias mulheres. – Explicou a atendente.

- Obrigada. – Dizia Valquíria.

Valquíria, observou que na rua não possuía as câmeras e novamente, seu trabalho estava sendo mais complicado por falta desse acesso, um ponto cego. O segurança disse que a viu entrar no bar, porém, não a viu sair, pois era hora de fazer outra ronda aos arredores. Seu álibi era a confirmação de ponto eletrônico e funções. A cada nova atividade que eles deveriam desempenhar era avisado.

- Quando voltei da ronda, fiquei na porta até fecharmos e ela não saiu. No caso, segundo a minha folha de ponto, ela deve ter saído do bar entre 20 horas e 20h30. – Dizia o segurança, um rapaz musculoso e intimidador.

- Por que você está assumindo outras funções além de tomar conta da porta? – indagou Sophie.

O segurança suspirou e falou em tom baixo.

- Há alguns dias houve uma baixa de pessoal, todos estão ficando com medo. Antigamente, cada pessoa exercia uma função. Porém, ocorreu relatos de espancamento, alguns homofobicos voltaram a atacar as pessoas daqui, tentamos manter a calma, afinal, não passavam de sustos, xingamentos. Agressões verbais, entende?

Ela fez que sim com a cabeça e ele continuou.

- Depois começaram a pegar algum símbolo LGBT e queimar na frente do estabelecimento com dizeres como "morram!". Tomamos uma atitude, e vigiamos ainda mais quem fazia baderna na rua, isso acabou assustando quem quer que fosse. O PRIK BAR sempre foi conhecido por dar emprego para as pessoas LGBTQIA+. Em épocas anteriores, tínhamos dificuldade de encontrar um trabalho que pagasse dignamente. Então, é um trabalho acolhedor. Mas devido as agressões, não só os clientes estão em risco, como os funcionários. Raquel e eu somos os mais antigos daqui e temos uma dívida com esse estabelecimento por trazer nossa dignidade de volta. Então, resolvemos assumir mais algumas funções. Alguns com pouco tempo de empresa pediram demissão após o ocorrido. Todos estão temerosos, mas não fazemos o alarde. - explicava o segurança sempre cauteloso com quem poderia ouvir a história.

- Vocês registraram um Boletim de Ocorrência? – inquiriu Valquíria.

O segurança riu tristemente.

- Fazíamos um boletim de ocorrência a cada ano e ninguém nunca ligou para a gente, somos só ignorados pelas forças policiais. Então, nos últimos oito anos paramos de fazer e tentamos resolver nossos próprios problemas até agora. Então, vocês são as primeiras pessoas que comparecem aqui! - foi sincero. - Normalmente os policiais homens ignoram esse local.

- Entendemos bem como os detetives podem agir, mas Valquíria é diferente e estamos com o caso! – respondeu Sophie tentando dar um apoio para aquele homem.

As mulheres se dirigiram para o carro de Valquíria e ela comentou que a esposa da Carmen a estava traindo. 

- Isso a coloca na linha de novo, uma esposa traída com sede de vingança. - falava a detetive. - ou parceiras aleatórias irritadas.

Van Dahl as conduziam para o departamento de homicídios, primeiro saber os resultados das substâncias coletadas por Sophie e em segundo lugar, iriam receber ainda hoje o notebook da vítima. Valquíria iria tentar vasculhar o histórico de busca para ver o que de fato a outra andava fazendo. Chegando lá cada uma foi para suas respectivas tarefas. Aquele dia de "folga" transformou-se em mais um dia de trabalho para as duas mulheres. O capitão do departamento havia pedido desculpas para ambas, havia dado o dia de folga e tinha que solicitá-las. Ele disse que as compensariam depois e Valquíria sabia exatamente como, porém, deixaria seu pedido para não arquivar o caso do misterioso comerciante de armas para depois. Agora seu foco era saber o assassino da vítima. 

Valquíria estava na sua mesa com um computador da Apple prateado, escutava os "clac clac" dos saltos da doutora Seyfried ao longe, sabia que ela estava se aproximando. Continuava a fazer suas execuções aguardando o aproximar da doutora.

- E então? – disse Valquíria sem a olhá-la ainda, realizando alguns códigos.

- Lamento, Valquíria, apenas vim avisar que os resultados ainda não ficaram prontos, receio que teremos que esperar até no máximo dois dias. Estou fazendo uma varredura minuciosa pelas camadas, pois a primeira vista nada é detectado. – dizia Sophie sentando ao seu lado para ver o que a detetive estava realizando.

- Não tem problema, afinal, só vamos saber o que de fato foi aplicado nela. Não há digitais ou outras informações, então nosso assassino ou assassina está ainda a solta.

- Assassina, tenho informações sobre a arma do crime que encontramos na praia. Extraí DNA, embora não tenha registro no sistema, mas não é um assassino, é uma mulher. Sabe, as fibras que levantamos da arma do crime, as luvas, tivemos a questão de uma costura aberta e o exame mostrou que o suor era de uma mulher. E quanto a violência sexual que discutimos era um objeto fálico não biológico, ou seja, um console, popularmente falando. O que está fazendo? - quis saber a legista de forma curiosa.

- Excelente trabalho Doutora Seyfried, então talvez a assassina possa ser uma das pessoas com quem Jéssica saiu ontem ou a própria esposa. Eu estou com o notebook dela, fiz uma varredura nos seus históricos pesquisados e ela apaga seus registros, o que me deu certo trabalho para decodificar e restaurar seus canais de buscas. O que encontrei foi o acesso constante por mais de cinco meses ao site: "Soparaelas.com". Parece ser um site de encontros para mulheres se encontrarem com outras mulheres. As mensagens deixadas e os perfis são de certa forma codificados para proteger os usuários. – Valquíria rolou os olhos.

- Sabe... – começou Sophie lentamente. – essa foto do perfil da Jéssica Lins, lembra muito você. Vocês são parecidas, porque não vai disfarçada? Talvez essa seja nossa chance de coletar algumas digitais e DNA.

- Será cerca de muitas mulheres, Sophie - Valquíria a olhava franzindo o cenho.

- Pode ser algo clichê, mas podemos repetir as mesmas informações e escolhas da vítima e adicionar a sua foto. A atendente pareceu disposta a nos ajudar, talvez ela reconheça alguma pessoa que paquere com você. – dizia Sophie animada.

- O que a faz pensar que eu irei me passar por isso? - Valquíria cruzava os braços rente ao peito.

- É simples, você se parece mais com a vítima. Não me faça apontar o óbvio para você – sorriu. Valquíria revirou os olhos, sabia que a outra estava usando sua frase de efeito contra ela.

- Vamos criar um perfil – dizia Valquíria. – Mas vamos para a sua casa, está ficando tarde e nosso horário encerrou. Podemos concluir isso lá, tudo bem para você?

- Sim, estou de acordo. Eu só preciso pegar a minha bolsa.

- Certo, estarei esperando você lá fora.

 

                                                   --

 

Valquíria deu carona para Sophie, por estarem desde cedo juntas e a outra voltaria para a casa da legista não viam lógica de ocuparem dois carros para irem aos mesmos lugares.

Pegaram a Br 101 e viraram na rua Maurício de Nassau, aquela rua era conhecida por ser de único sentido, dava certo trabalho para quem não era acostumado a trafegar por ela, pois um único erro, custaria fazer vários retornos indesejáveis. Contudo, aquela rua para as duas mulheres era conhecida como a palma da mão. Lá existia um famoso e maravilhoso bistrô e restaurante de um velho holandês que estava desde 1890 e de lá para cá suas filhas assumiram. Conhecido por " Moeders".

Valquíria sabia que Sophie adorava a comida de lá quando tinha uma autópsia enigmática, então seguindo seu instinto, se dirigiu para lá, pegando alguns croissant, mini tortinhas red Velvet de morango com ninho de sobremesa e pasta para o jantar.

- Acho incrível sua capacidade de saber o que eu quero, além de passar todos os instrumentos corretamente na sala de autopsia antes que eu peça, você ainda sabe o que eu gostaria de comer antes mesmo que eu fale - observou Sophie.

- Os anos ao seu lado me fizeram identificar algumas manias suas, apenas não imaginava a sua preferência sexual - disse sem rodeios a detetive, entregando logo em seguida o jantar delas duas. Entrou no carro e partiram para a casa da legista.

A detetive estacionou o carro na garagem, enquanto Sophie abria a porta e levava a comida para a ilha.

Ambas decidiram tomar um banho para enfim poderem se alimentar. Sophie foi para o seu quarto no andar de cima, enquanto Valquíria tomava um banho no andar de baixo. Novamente, Valquíria praguejou por não ter passado em casa e pego uma roupa. Pensava ela como poderia ser tão profissional, mas esquecia de coisas simples das suas próprias necessidades. Ao entrar no banheiro viu, que já tinha sido tudo separado por Sophie.

Enquanto, Valquíria trabalhava no notebook da Jessica Lins, cedo no escritório, Sophie já havia comprado alguns roupas para a outra. A intensão dela era de em casos assim, ter alguma roupa extra para a morena. Valquíria a achou tremendamente eficiente, não podia negar a harmonia e sincronia que ambas tinham juntas. Gostava de trabalhar com Sophie era uma excelente mulher, pensou por fim e se dirigiu para debaixo do chuveiro.

Ambas se encontraram na cozinha, Sophie com seu habitual short jeans acima do meio das coxas e uma camisa folgada regata verde. Logo atrás, saía Valquíria, com shorts pretos no meio das coxas e uma camisa babylook também preta. Colocava o notebook de Jessica na ilha.

- Obrigada pelas roupas. – apontou para si, precisamente para as peças de roupas.

- Não se preocupe. – Seyfried engoliu em seco ao ver as coxas torneadas da morena e voltou a se concentrar no que estava fazendo.

- Preciso que assuma e crie um perfil para mim, eu termino de por a mesa. - a detetive indicou para Sophie criar o perfil dela. A outra acabou por não protestar.

Sophie sentou no local que a outra estava anteriormente e entrou no site: "Soparaelas.com". Ela começava a cadastrar coisas falsas sobre a detetive, como nome falso, o único nome que Sophie acabou lembrando foi: Safira Padilha, deixou a idade próxima a da vítima e havia algumas questões como: "Qual tipo de estilo você se define? " as opções eram: (a) feminina (b) masculina (c) andrógino (d) esportista (e) dyke (f) caminhoneira e outras". Sophie arqueou uma sobrancelha, o que fez Valquíria questionar: qual era o problema.

- O site quer que eu coloque você em algumas dessas categorias, é como se pudessem classificar as pessoas. Acho isso um pouco desnecessário. – Sophie parecia indignada ao apontar para a tela do notebook.

- Qual foi a opção que Jéssica Lins escolheu? - Valquíria agora estava atrás de Sophie, inclinada com um braço do lado esquerdo da bancada, olhando por sobre o ombro da legista. Tendo seus rostos bem próximos.

Sophie suspirou com essa aproximação, podia sentir o cheiro do perfume da outra. Outra vez engoliu em seco.

- Ela selecionou esportista. – tentou voltar a se concentrar.

- Esportista? Hum... tudo bem, vamos ao estilo à paisana - rio minimamente. O que fez a legista rir com a sua forma descontraída que ninguém via no departamento.

Elas comeram pasta com camarão e molho de queijo branco, algo que ambas amavam e foram para a sala degustar um bom vinho. Sophie levou novamente o notebook, terminava de preencher os últimos detalhes e apertou "cadastrar". Finalizou e colocou o notebook na mesinha da sala.

- Pronto. - disse Sophie - Cadastrada! Agora só precisamos esperar.

Valquíria foi até a cozinha e colocou os dois pedaços de torta para ambas como sobremesa, voltou e entregou para a outra e apenas confirmou que sim com a cabeça.

- Certo. No dia irei querer que se disfarce também, pode ser de funcionária do estabelecimento, a atendente garantiu que se você aceitar estará tudo bem. Você topa? - a detetive sentou no sofa.

- É claro que sim, você sabe que adoro quando me coloca nas missões. Vou poder usar a escuta? – Sophie falava ansiosa, adorava essas boas oportunidades. De fato pareciam como parceiras, pois ambas ajudavam a outra em suas atividades quando cabiam a elas.

- Claro que vai, ainda lembra os funcionamentos como mostrei para você? – questionou Van Dahl.

- Absolutamente, lembro perfeitamente e os melhores locais para colocar. – piscou em forma de cumplicidade.

- Excelente, deixarei duas escutas com você, sabe que uma escuta as pessoas podem encontrar, porém, poucos são aqueles que acham que temos duas. Assim, teremos uma garantia em caso de ocorrências. – bebericou um gole do vinho e depois retornou o olhar para Sophie que falou.

- Praticamente temos tudo sob controle, mas algo ainda me deixa curiosa... – começou a legista.

- O que? – Valquíria arqueou a sobrancelha, pois a expressão de Sophie parecia querer tratar de algo delicado e ao mesmo tempo engraçado.

- Você sabe se passar por lésbica? – Sophie foi direta e objetiva, o que fez a detetive olhar furtivamente para ela pelo canto dos olhos. – Eu questiono isso, porque você odeia dar entrevistas e sabe da sua não habilidade com pessoas. – Valquíria levantava a sobrancelha. – Vamos, Val – a loira a chama pelo apelido que a deu depois de alguns anos. – você praticamente quase deixava a filha do chefe da máfia devastada quando ela questionou se ele havia sofrido muito na hora da morte. Pensei que ela teria uma sincope quando disse que os atiradores foram misericordiosos, apesar do tiro nas costas. – Valquíria rolou os olhos após a fala da legista

- Então, você está dizendo que não acredita no meu disfarce? Mas é um disfarce, eu terei que sair do meu eu e incorporar a... – tentava ver o nome que Sophie escolheu para ela.

- Safira Padilha. – disse a legista prontamente.

- A esportista, Safira Padilha. – Valquíria parecia relaxada com isso.

- Acha mesmo que vai se sentir a vontade e lidar com tudo isso? – Sophie estava preocupada, raramente Valquíria precisou se disfarçar nos últimos anos. Então, não sabia como a outra iria se sair com suas habilidades sociais.

- Bom, se acha que eu não conseguirei devido a minha falta de habilidade em interagir com as pessoas, porque você não simula um encontro comigo, assim tiraremos nossas dúvidas e poderei aprender com você. – Valquíria dizia de forma seria, fazendo dessa vez Sophie engasgar com o vinho, nenhuma expressão foi alterada pela detetive, apenas pegou um guardanapo que estava repousado ali perto de ambas e deu para a amiga que pegou rapidamente e limpou a boca por onde tinha escorrido o vinho.

- Obrigada. – ela se limpou – você quer simular comigo, está falando sério? – Sophie estava totalmente incrédula.

- Não vejo outra pessoa além de nós duas nesse recinto, então... é óbvio Sophie. Não compreendo suas reações, é apenas uma simulação. – continuava a detetive com sua postura séria e imparcial – Sua preocupação é genuína e fazendo uma simulação as chances de que algo saía fora do controle é menor. Sem riscos.

Sophie estava olhando para a detetive, colocaram uma música de fundo para simular o ambiente do bar. Ambas já estavam com seus drinques na mão. Não acreditava que estava fazendo isso com a policial. Decidiu ser a primeira a começar.

- Necessariamente, não precisamos ir tão a fundo, mas se a Raquel irá me deixar trabalhar por lá, sempre ofereça bebidas para elas, assim, poderei coletar as amostras de saliva, assim que cada uma terminar seu drinque irei recolhe-los e colocar atrás do bar com o nome de cada pessoa. Não tenho mais tantos encontros, mas escute-as, mulheres gostam de pessoas que ligam e escutam o que elas dizem. É algo mais de expor seus sentimentos. – gesticulou enquanto falava, estava um pouco nervosa.

- Hum... deixa-las falarem..- disse Valquíria, ficando tranquila nesse quesito. - eu sou boa nisso.

- Exatamente, demonstre certo interesse e pelo amor de Deus, tente não mostrar ou controlar um pouco sua indiferença, precisamos coletar qualquer informação. – a mensagem foi como um alerta. Valquíria ia sempre direto ao ponto, não costumava pegar o caminho mais longo, isso chegava para as outras pessoas como indiferença ou mesmo falta de interesse. Mas era o jeito dela e Sophie já havia aprendido a lidar.

- Que tipo de mulher você gosta, Sophie? – Valquíria foi direto ao ponto, inquiriu de repente e a outra ficou em choque.

- E-eu? Por que essa pergunta tão repentina? – gaguejou, precisava tomar outro gole do vinho e foi o que fez para disfarçar.

- Estamos simulando e você disse que eu deveria demonstrar interesse. Estou fazendo isso – a outra novamente apontava o óbvio. – Vamos, diga-me.

Sophie não acreditava que estaria fazendo isso, ter que dizer as qualidades que gosta em uma mulher, o tipo. Ela estava interessada em Valquíria então como poderia enganar uma detetive treinada? Ela não sabia como, mas iria tentar.

- Bom, gosto de mulheres fortes, não fisicamente, mas a força interior dentro de cada uma. Independente, que tenha sua crítica bem trabalhada e não ligue para o que as pessoas digam dela, apenas seja ela mesma. Mulheres que sejam verdadeiras, sinceras, que além de dizer o que sentem elas possam agir. Eu acredito que as palavras e a ação devem seguir juntas, muito mais as ações, pois palavras repletas de sentimento sem o agir para comprovar aquilo que se ouve, de nada vale. Hum.. – fez uma pausa – não me importo com o que esse site diz sobre: mulheres femininas, masculinas, esportistas, Na verdade são só o que elas carregam por fora, eu não sou de olhar para o que há por fora. Já fiz isso e de nada serve esse tipo de relacionamento, são rasos. Li um artigo a um tempo atrás de um antropólogo e um outro de um sociólogo que acabavam discutindo a mesma questão: a "liquidez das relações amorosas no mundo contemporâneo" e de fato estamos correndo para esse tipo de relacionamento, quando criamos vínculos frágeis e superficiais. – argumentava a doutora. – Mas e quanto a você Valquíria, não sei se gosta ou desgosta de mulheres e qual seria o seu tipo? Isso seria bom para você refletir, afinal, as mulheres que sairá em disfarce podem indagar sobre suas preferencias e a riqueza da mentira está nos detalhes. – Na verdade Sophie aproveitou esse momento para saber o que a outra mulher tinha a dizer sobre mulheres. Todos esses anos, Sophie nunca a viu com ninguém, sempre Valquíria estava atrás da mesa de trabalho, quando não, estava com ela na necropsia ou nos arquivos com Raphaëlle estudando e revisando casos que poderiam ter informações.

- Nunca parei para pensar em qual tipo de mulher me chama mais atenção ou qual eu deveria ter preferencia. É claro que ao me chamar de Valquíria, você saiu um pouco da sua personagem, não sei se devo entender isso como esquecimento ou falta de costume, pois estamos começando ainda nossa simulação ou se de fato foi uma questão para o meu eu verdadeiro. Dessa forma, tomarei a seguinte atitude, responderei das duas formas. Eu Valquíria: não sei se gosto ou desgosto de mulheres, nunca fiquei com uma mulher que eu gostasse verdadeiramente, além de assuntos de trabalho – isso fez Sophie entender que Valquíria já tinha ficado com mulheres, mas por questões profissionais, de fato ela ficou pasma "Quando e onde ocorreu isso?". – Então, acho que só posso responder essa sua pergunta como Valquíria se gosto ou não de mulheres quando não for algo profissional. Já em minha versão disfarce como Safira Padilha, sim, eu gosto de mulheres. Qual meu tipo? Hum, como Valquíria acho que alguém com suas qualidades, Sophie, me chama atenção, suas qualidades, cuidados com o próximo, a eficiência em tudo o que faz. Por outro lado, como Safira eu não sei do que ela gostaria, será que deveria interpretar uma pessoa fútil ou não? Acredito que para a minha personagem, ela se enquadra no que você acabou de argumentar.

Sophie tinha parado de ouvir o resto quando Valquíria revelou que uma mulher com as qualidades que ela tinha a chama atenção. O que isso significava? Valquíria teria uma queda correspondente por ela também? Será que deveria investir mais? Iria perguntar, quando uma notificação sonora subiu no notebook chamando a atenção das duas para a tela.

- Parece que você chamou atenção de algumas mulheres. Mais de dez mulheres curtiram o seu perfil e foto, deixando mensagens para se encontrar com você no bar "PRIK BAR" a partir das 18 horas.

- Pelo visto temos uma missão para amanhã, e certamente poderei estar jantando com o assassino de Jéssica Lins. Vamos descansar, tivemos um dia cansativo nas duas últimas noites.

Fim do capítulo


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