Segredos por Elliot Hells
Capitulo 9 YAMI
As filhas da lua brilhavam alto com todo o seu esplendor, o céu negro límpido trazia uma brisa refrescante. Não estava tão abafado como era de costume. Apesar de que no nordeste do Brasil possuírem temperaturas altas, naquela noite em especial, aproximava-se dos 18º graus. Para uma região, no qual o sol reinava em seu absoluto poder, 18º graus era como abrir a porta do Alasca para dar as boas vindas ao inverno. O plenilúnio estava alto, compartilhando seu brilho esbranquiçado ao lado das constelações de orion e não muito distante dali, seguia a ursa maior. Raramente, uma nano nuvem tentava se meter no cenário limpo. Valquíria podia sentir aquela ótima brisa pela janela aberta do seu carro. Já era hora de uma variação climática pensava ela. Só havia uma vantagem naquela cidade, os ventos.
Apesar de todo o calor, o vento podia apaziguar. Ela sabia que seu corpo estava cansado e pedia por um pouco de descanso, ao menos duas horas seriam o suficiente. Mas ela não podia se dar ao luxo de descansar, havia muito trabalho pela frente. Estava seguindo para a zona mais afastada da cidade, havia pego uma rota alternativa, o qual casas e edifícios eram deixadas para trás, dando lugar a árvores majestosas. A estrada começava a ficar de terra batida, provocando um leve chacoalhar no seu carro. Era uma zona de comunidades carentes, as quais as "casas" eram produzidas de uma forma quase que artesanal. Não entendia como tal estrutura tão frágil poderia durar em uma chuva demasiadamente forte. Nesse momento, todos daquela comunidade deveriam estar repousando, pois as poucas casas que haviam, estavam fechadas. A única coisa que iluminava o caminho eram os faróis de seu carro.
Valquíria fez uma curva fechada para a direita e a estrada começara a ficar mais estreita, a ponto de ser possível a circulação de um único carro. Ao se afastar cada vez mais daquela mini comunidade, cerca de aproximadamente trinta quilômetros, uma estrutura, que aparentava ser abandonada se erguia.
Aos poucos era possível ver a guarita e a cerca elétrica sob o portão de ferro negro. Os homens que ali se encontravam vestidos de negro e armados com rifles e pistolas 9mm em outro compartimento das vestes reconheciam aquele carro e rapidamente a deixaram entrar. Aos poucos que ela se aproximava era possível ver uma vigia, no qual um guarda fazia sua ronda.
A detetive estacionou ao lado de um caminhão militar e saiu. Foi recebida por uma continência de um daqueles homens e retornou com aceno serene. Perguntou para aquele rapaz, que estava armado e com colete aprova de balas, onde se encontrava os outros. Ele respondeu que estavam na sala de interrogatórios. Ela atravessou a porta e começou a descer as escadas e passar por um longo corredor com iluminação deficiente. Podia ouvir a cada passo dado os gritos estridentes de alguns homens. Suas botas com pouco salto, ecoavam e eles podiam saber que ela se aproxima, de forma feroz. Seguia para a última sala iluminada. Era uma luz amarelada de péssima qualidade, mas ressaltava o ambiente sinistro que ali se fazia. Ao chão, de joelhos, estava um homem amarrado com as mãos para trás e vendado. Estava surrado e ferido. Naquela sala, haviam dois homens, corpulentos e fortes, trajando o mesmo uniforme de cor azul marinho e uma calça cinza camuflada com botas de combate. Seus codinomes eram: O Cobra e Alvo.
- Yami, você chegou. Achamos que não apareceria mais hoje - disse Alvo.
- Como estamos indo? – indagou Valquíria, ao ser chamada pelo seu codinome.
- Ele não quer falar - continuou Cobra com seu tom de irritação.
- Deixem-me à sós com ele - concluiu Valquíria ao puxar uma cadeira e colocá-la perto do prisioneiro.
- Mas Yami...
- Podem ir... eu assumo agora - ela disse de forma cortante ao interrompê-los. Eles nada questionaram e saíram ao fechar a porta de ferro.
Valquíria tirou a venda negra que cobria os olhos daquele homem. Ao retirar, foram revelados olhos castanhos medrosos e receosos, com um certo toque de irritação. A pele do homem estava queimada, ressecada e maltratada, ele estava visivelmente desorientado e fraco. Havia aguentado algumas torturas, ela podia perceber. Mas nada disso afetou sua face inexpressiva. Haviam somente duas cadeiras ali e uma mesa contendo uma jarra de água, não deveria ser para o prisioneiro, Valquíria pensou.
O homem falou que ela não iria tirar nada dele. Ela não o respondeu, simplesmente caminhou até a mesa, tirou do seu blazer um lenço escuro e começou a passar no copo que estava repousando na mesa. Cada movimento seu era acompanhado pelo homem que deveria ter pouco mais de trinta e três anos. Ele começou a falar novamente, indagando o que ela iria fazer com ele e mais uma vez ela não dizia nada.
Aos poucos aquela atitude de Valquíria estava irritando o homem, ele não conseguia entendê-la, era totalmente diferente de Cobra e Alvo, ambos eram estressados e perdiam a paciência rapidamente. Ela não, continuava a limpar meticulosamente aquele copo de vidro até seu cérebro gritar que estava perfeito para consumo. Colocou um pouco de água e bebeu lentamente, ainda ignorando o homem a gritar com ela. Ela tomou tudo e depois colocou mais um pouco de água, retornando para a cadeira e sentando em frente ao homem. Ele a fitava com ódio.
- Gostaria de um pouco de água? - indagou ela.
- Vá se foder sua vadia branquela! - praguejou ele com todo o ódio que tinha.
Ela não se incomodou, começou a dizer que estava gelada a água e deliciosa. Narrou calmamente, enquanto fitava o copo com água, alguns fatos, indagou se ele sabia que cerca de 70% do nosso corpo era composto por água e que quase três litros iam embora rapidamente com as necessidades fisiológicas, sendo equivalente a perda de 2% da sua massa. Alertou que quando chegava aos 5%, o indivíduo começava a sofrer os primeiros sinais de desidratação e para identificar alguns desses sintomas seria a boca seca, diminuição de urina, pele seca, fortes dores de cabeça e um certo cansaço.
Ela cruzou as pernas e continuou a explicar que haviam cinco estágios, levantou o indicador para informar o primeiro estágio, dizia ela que o primeiro estágio era o de sede comum, a vontade de beber água quando se faz uma série de exercícios. Levantou o dedo médio para indicar o segundo estágio que era quando 4% ou 5% de água iam embora impedindo a produção das glândulas sudoríparas responsáveis pelo suor, isso acarretava fortes dores de cabeça, que deixam o sujeito em estado de letargia e apático. E mais uma vez ela levantou mais um dedo, sendo esse o anelar, para anunciar o terceiro estágio, quando cerca de um décimo do seu peso fora embora em forma de água, sua pele se torna visivelmente seca. Levantou o mindinho para alertar o quarto momento, quando 10% em diante eram perdidos. O corpo está visivelmente ressecado e os comandos para o cérebro estão desorientados. E por fim, ao levantar o quinto dedo, o polegar, alertou que era o estágio em que o sobreaquecimento dos órgãos vitais levariam uma pessoa à morte. Ele não compreendia mais onde ela queria chegar com toda essa conversa. Ela descruzou as pernas e trocou, fitando agora os olhos do homem.
- Ao te observar, com pele ressecada e sua irritação, mostram que já deve ter passado o estágio três e entrado no quarto, Sua desorientação está notória, não tardará a chegar até o último e mortal estágio - ela mostrava o corpo de água a sua frente. - Vamos, é só me pedir e eu darei a você. Sabemos que você quer isso.
Ele ficou calado, aquilo só podia ser um truque, mas ele a viu beber da mesma água, ou ao menos achou ter visto.
- Conte-me o que quero saber... - sussurrou ela.
Ele não possuía mais forças, preferiu estar apanhando com aqueles dois idiotas. Ela o estava tentando, uma tortura psicológica é pior do que uma física em alguns casos. Por um momento sua sobrancelha bem delineada foi arqueada e ele a olhou. Não era muito o que podia ser feito. Ele consentiu e abriu a boca esperando que ela colocasse um pouco de água e assim ela fez, encostou aquele vidro um tanto frio nos lábios rachados do homem e ele bebeu lentamente. Ela não o deixou beber todo, não fazia parte do acordo, ele passou a língua áspera nos lábios e fechou os olhos com a sensação. Engoliu e ela pode ver a sua proeminência laríngea, ou conhecido por pomo de adão, subir e descer. Ela o fitou mostrando que estava pronta para escutar.
- Tudo o que eu sei... - ele fez uma pausa - é que estão fazendo uma operação conhecida por Fenrir.
- Quem é o responsável? - indagou ela.
- Eu não sei, eu juro!
- Acredito em você - Valquíria deu o resto da água a ele e o homem tomou completamente. Suspirando em alívio. Ela deixou o copo no chão e levantou da cadeira, retirando o seu celular do seu bolso, anotando alguma coisa que o rapaz não sabia o que era. Ele perguntou se já poderia ser liberado e ir embora, ela se encontrava de costas ainda, quando virou, empunhando uma pistola com um silenciador, ele desesperou na hora. Pediu por piedade e todas as formas possíveis de implorar, mas ela simplesmente disparou um tiro no meio de sua testa, fazendo a morte ser imediata. Alvo e Cobra entraram rapidamente, pois estavam de guarda na porta. - Livrem-se do corpo.
Ela saiu discando para uma velha conhecida sua, Yoko.
- Quero me encontrar com você, agora! - ordenou Valquíria.
A implacável, Valquíria Van Dahl, detetive de homicídio do departamento de polícia de Nova Amsterdã, possuía um lado mais gelado do que muitos suspeitam naquele departamento. Conhecida pelo codinome de Yami, ela havia acabado de sair da estrutura que matara um homem. Seus subordinados, ex-soldados do Afeganistão ou do Iraque, a obedeciam cegamente, deveria existir dentro daquela estrutura mais de dez homens armados, incontáveis armas e munições. Ela deixou aquele lugar para seguir de volta ao centro da cidade. Eram quase duas horas da madrugada quando Valquíria chegou no falso restaurante japonês. A estrutura a sua frente tinha um formato oriental, as pinturas em vermelho e dourado eram predominantes, a fachada estava em hiragana e abaixo dela uma leve tradução que dizia: restaurante Yoko. Algumas luminárias japonesas harmonizavam o ambiente, trazendo um pedaço daquele país distante para o Brasil. Haviam dois seguranças de terno preto, com semblantes austeros.
A detetive estacionou seu automóvel na frente do restaurante e entrou. Poucos restaurantes ficavam aberto até tão tarde, isso fornecia uma boa publicidade ao local. Era confortável estar ali, climatizado e calmo. As garçonetes, trajavam uma bela roupa tradicional do país, uma yukata. Que são feitas a partir de um tecido de algodão, normalmente amarrada ao corpo através de um obi. Muitas se juntaram e desejaram bem vinda para a morena, algo próximo ao: Irasshaimase!. Ela fez uma saudação em respeito e observou o ambiente, estava calmo, com alguns clientes ainda bebendo sake e comendo alguma comida típica.
Uma garçonete a guiou até os fundos do estabelecimento, a jovem japonesa, já havia sido informada pela responsável que aguardava a visita de uma mulher morena com um forte batom vermelho. Haviam mais dois homens armados de terno que a fitaram seriamente. Por trás da cortina de lantejoulas prateadas, Valquíria ouviu uma voz de uma mulher ao fundo que dizia:
- Venha Yami - disse a asiática de longos cabelos negros. - Faz um tempo que não a vejo por aqui.
Valquíria passou pelos dois brutamontes e pode escutar um baixo comentário entre eles, um perguntava para o outro o motivo dela ser chamada de "Yami", ele cogitava se ela tinha alguma ascendência japonesa. O outro negou, disse que Yami, não era por ela ter ascendência japonesa e sim por carregar as trevas dentro dela, ela pode ainda ouvir quando ele professou essas palavras: Aquela mulher, traz a morte aonde quer que vá. Ela se aproximou da mulher a sua frente, a fitando em pé. Da mesma forma a mulher a fitava de volta. A detetive foi rápida e direta ao informar que queria saber de uma coisa.
- Veio fazer uma visita a negócios então? - a asiática rolou os olhos e devolveu o uísque que tomava ao centro a sua frente. - Não posso falar nada Yami, estou em uma situação delicada e sem laços diplomáticos. Qualquer coisa que eu forneça a você, me deixará em maus lençóis. Se veio apenas para isso, aconselho a ir embora.
- É assim que recebe uma velha amiga? - Valquíria contornou a pequena mesa e descruzou as pernas daquela mulher e sentou-se de frente para ela, acariciando seu liso cabelo negro. Yoko, tinha os olhos claros, o que denunciava sua ascendência euroasiática, os olhos eram claros, deveriam ter sido herdados de seu pai. A pele era aveludada como era de se esperar de uma asiática. - Conte-me os detalhes da operação Fenrir - sussurrou no ouvido da outra que conduziu suas mãos até a cintura da detetive.
- Você sabe que todos morrem de medo de você, não sabe? Simplesmente você resolveu criar um grupo de paramilitares que exterminam terroristas e traficantes - Yoko informou. - Desse jeito ficará difícil manter o seu passado enterrado.
- Eu não vim aqui para saber esse tipo de informação Yoko. Diga-me o que sabe sobre a operação Fenrir.
Yoko começava a retirar o blazer da detetive e deixar no outro lado do estofado, as mãos de Valquíria estavam envolta do pescoço da outra. A asiática beijou de forma desesperada o pescoço da outra, deslizando suas mãos até o quadril, apertando com certa força. Valquíria soltou um gemido baixo, próximo do ouvido da mulher abaixo de si. Yoko começou a falar, enquanto distribuía beijos pelo corpo de Valquíria.
- A operação ainda está ganhando força, ela está sendo executada por um grupo secreto de traficante de armas que se autodenominam de os "caçadores" - disse ao desabotoar a camisa social branca da outra, revelando os seios fartos da detetive.
- Quem é o alvo? - Yoko, beijava entre os seios da outra, enquanto sua mão esquerda a pressionava contra seu corpo.
- Ainda não sabemos, mas armamentos dos maiores comerciantes de armas andam sendo saqueados por esses grupos e gerando uma algazarra no mercado de armas. Não sabemos muito, mas tudo está crescendo e ganhando forma. Pelo desenrolar da trama, acredito que estamos diante de duas potencias do mercado de armas que irão rivalizar.
Valquíria nada disse além de prestar atenção no que a outra revelava. Yoko acabara de parar tudo o que estava fazendo e virou o rosto, sabia que a técnica de sedução da outra havia sido eficaz, ela odiava esse seu lado fraco. A outra arrancou sem muito esforço informações importantes. Ela pediu para que Valquíria saísse. A outra depositou um beijo em sua têmpora e começou a fechar os botões da sua blusa.
- O pessoal que trabalha com você, sabe o quão desprezível você pode ser ou eles simplesmente caem no seu joguinho de "sou apenas uma detetive investigando casos homicidas, nada mais?" – questionou com a sobrancelha erguida.
A imagem de Sophie fora a única que invadiu sua mente, manipular os outros agentes a permanecerem naquele papel era simples e não a acrescentava em nada. Mas enganava em parte Sophie, que durante anos havia sido sempre gentil com ela. A detetive, fechou a última casa do botão e pegou seu blazer fitando friamente Yoko sem a responder, apenas dizendo:
- Já sabe o que tem que fazer!
- Sim, sim, você nunca esteve aqui, ninguém esteve aqui hoje. - Yoko se esticava para pegar seu uísque que havia deixado na pequena mesa de centro.
- Yoko, se algo vazar... eu mato você.
- É o esperado, mas se você parar para pensar, todos nós já estamos mortos - Yoko bebericou mais um gole de seu uísque e observou a outra ir embora a passos firmes, colocando o blazer por cima do ombro. - É o próprio demônio encarnado. Ah, Yami, quando irá parar com essa obsessão pelo passado? Não se pode correr atrás do invisível.
--
Já se passavam das três e meia quando Sophie deitou-se em sua cama, fazia demasiado tempo que não relaxava. Não conseguia lembrar da sensação que era estar em sua cama. Chegava até a ser infantil a euforia que podia sentir por estar em seu quarto. Havia sido uma semana dura, principalmente as últimas horas enfurnada na morgue. Seus olhos pareciam estar cada vez mais pesados, seguiam de encontro para um outro mundo, dos sonhos talvez. Um soar longe a impedia de concretizar sua viagem. Lutou para abrir os olhos âmbar, era a porta batendo. Alguém estava tocando em sua porta em plena madrugada. Ela não sabia quem era, mas isso a irritava.
Rolou os olhos já abertos e colocou-se a descer as escadas de madeira e seguir em direção a porta. Olhou pelo pequeno buraquinho na porta e conhecia aquela silhueta muito bem, era inconfundível, mas o que estava fazendo em sua casa uma hora dessas? Haveria acontecido alguma situação? Sophie deixou os pormenores somente em sua mente e abriu a porta para aquela pessoa. Valquíria adentrou aquele recinto, deu uma olhada na sala, e como esperado, tudo estava devidamente impecável como era esperado de Sophie. O café já deveria ter evaporado na corrente sanguínea da detetive. Elas se entreolharam por alguns instantes em silêncio.
- Por mais embaraçoso que pareça, só consegui encontrar a rua da sua casa e não da minha - confessou a detetive que não lutava mais para esconder sua exaustão.
Era um fato para Sophie já que, às vezes, Valquíria passava mais tempo no departamento de policia do que sua própria casa e de quando em quando frequentava a casa da doutora para estudar os casos das vítimas. A maior parte que Sophie sabia sobre a detetive é que era uma viciada por trabalho e não seria uma surpresa, em seu atual estado, inconscientemente ser guiada para a casa da legista. Ao menos, era isso em que ela agarrava-se para acreditar. Sophie a convidou para entrar. Estava com as mesmas roupas quando haviam saído do DP a horas atrás, por onde ela andou? Era o que Sophie gostaria de perguntar, mas apenas proferiu essas palavras em sua mente. Conhecendo a detetive, o máximo que receberia seria um "por aí".
- Vou preparar um pouco de chá para você – diz Sophie, recebendo rapidamente um olhar estranho pela mais alta, um mínimo franzir de cenho. Era sempre tão fria e sem expor emoções que a doutora esquecia que a outra sabia fazer outras expressões, além da de costume. – Não me olhe assim, você já tomou café demais e no seu estado não sei se beber seja uma boa opção, deve tomar outra coisa mais relaxante e comer algo.
Valquíria nada disse e seguiu a doutora até a cozinha, tudo estava lavado e arrumado, nada fora do lugar, não há um único vestígio que mais alguém morava ali. Sophie, estava usando uma longa camiseta branca sem mangas que vestia para dormir, mostrando as coxas grossas. Porém, deveria estar usando só isso, além das peças de roupa íntima, algo que foi percebido pela detetive que olha de soslaio e de maneira discreta para que a outra não perceba.
Sophie estava picando tomates para a salada, no fogão, uma panela descansava, logo daria lugar ao curry tailandês que estava preparando, enquanto bebericava seu Bordeaux gelado de madrugada, estaria de folga amanhã e a detetive também, ao que indicava, então estava se permitindo a isso. Era um prato simples de se fazer, não iria levar muito tempo e acima de tudo, mostrava seus dotes culinários para a policial.
- O que eu poderia fazer para ajudar você? – indagou Valquíria. – Afinal, prendi você por 24h no departamento e retirei você da sua cama. Estou em debito.
- Absolutamente nada – replicou a outra. – você é a visita na minha casa, como uma boa anfitriã eu deveria está fazendo exatamente isso.
- Não nestas circunstâncias – disse a morena ao se aproximar por trás e retirar a faca da mão da outra. Fazendo Sophie segurar a respiração.
- E quais circunstâncias seriam estas? – Sophie liberou o ar que esqueceu de estar segurando.
- Eu me autoconvidei, nada mais justo do que ajudá-la. – disse a detetive de forma óbvia e com um fio de provocação que Sophie percebeu ou imaginou ter percebido.
A detetive começava a picar tomate, seguido dos pepinos que Sophie havia separado.
- Você realmente é uma viciada em trabalho – Sophie disse ao rir.
- Só uma viciada em trabalho poderia reconhecer outra – retrucou a detetive.
Sophie gargalhou com aquilo da forma mais sincera que havia, e pode perceber um ligeiro sorriso minimalista nos lábios da detetive. Sophie adorava esse momento intimista com a morena, pois sabia que ela se sentia confortável quando estavam a sós.
Outra coisa que sempre percebeu, era que Valquíria só comia bem quando vinha para casa da loira, pois a legista fazia ótimos pratos, já recusou a comida da outra nos primeiros anos que se conheceram, porém, Sophie sempre fazia questão de cozinhar algo, usando como desculpa o fato de estar com fome e por isso fazia outra porção, dando para a detetive.
- Eu tomo chá, enquanto você cozinha com vinho? – diz a detetive observando a outra.
- Não posso fazer nada se gosto de cozinhar, enquanto bebo algo, além disso você me tirou da cama em plena madrugada.
O curry tailandês estava pronto, Sophie sentou-se no banco da ilha de mármore negra da sua cozinha e observa Valquíria se servir. Ela encheu sua taça novamente com vinho tinto dessa vez. O silêncio não incomodava nenhuma das duas, estavam acostumadas a ficarem a tempos sem falarem, enquanto estavam na morgue, trabalhando. Era reconfortante, não algo sufocante ou anti natural, como pareceria para outras pessoas. Mas ela quebrou aquele silêncio, informando que a algumas horas atrás o departamento a ligou solicitando os resultados médicos do corpo que estavam estudando sobre a causa da morte. Algo que estranhou, sempre esperavam que Sophie liberasse as informações e não antes. Van Dahl a fitou nos olhos por muito tempo em silêncio, parecia estar montando um quebra cabeça de tamanho médio.
- Devem estar loucos para arquivarem o caso o quanto antes. Afinal, estamos a muito tempo à procura de alguém que tecnicamente, ninguém acredita que é o culpado. Querem encerrar de vez com isso e assim, nosso rastro sobre o "misterioso comerciantes de armas" se perderá. – disse objetivamente.
O assunto ali acabou por morrer.
--
Valquíria lavava os pratos como gesto de agradecimento pelo esforço de Sophie. A médica encontrava-se na sala com outra bebida, um coquetel com limas. Dessa vez estava irritada com o desmazelo dos policiais em levarem um caso assim, mas ela sabia bem. Era a grande oportunidade esperada para o prestígio de Van Dahl diminuir, seu primeiro caso, sem solução. Era uma chance imperdível e isso a irritava. Não percebeu quando a outra sentou-se ao seu lado no sofá. Já sem o seu blazer preto habitual. Retirou o coldre e colocou as duas pistolas no centro a poucos metros de distância. Valquíria se prostava de forma rígida, com aquele velho ar profissional, que habituou-se a fazer na frente dos colegas de trabalho. Sophie a observava e revirou os olhos, informando que ela poderia relaxar, não sairia denunciando ou expondo em redes sociais que Valquíria Van Dahl é um ser um humano o qual precisa descansar também. Tanto que não se esforçou para mostrar a sua figura imponente por mais tempo. Ali ela poderia mostrar que realmente estava cansada pelo seu trabalho e pelos outros serviços que faz, algo que ninguém sonha. Nem mesmo a doutora ao seu lado.
- Você está horrível sabia? – mais uma vez expondo o óbvio para a detetive.
- Só porque está me vendo assim, não quer dizer que tem o direito de expor como estou. – embora séria, Sophie sabia que a outra estava mostrando o seu lado humorado. Só mesmo a Doutora Seyfried para entender a morena
- Então, como o Cão de caça do Estado irá resolver isso?
- Cão de caça do Estado? – repetiu Van Dahl e deixou-se fazer uma expressão de insatisfação. – Por favor, não me chame assim, Sophie.
Sophie acabou rindo da expressão da outra, ninguém naquele departamento tinha o privilégio de ver tais expressões da mulher mais fria daquele departamento, além da Sophie.
- É assim que todos os policiais a chamam, não na sua frente, é claro. Mas soube disso quando escutei alguns comentários, você sabia disso?
- Já escutei algumas vezes, não gosto do apelido. Não o suporto, sendo mais precisa – Valquíria fechou os olhos e aconchegou-se mais nas almofadas – Como se eu fosse um cão do governo, um animal domesticado sem vontades próprias.
Sophie se esticou de forma temerosa até perto do rosto da detetive para retirar algumas mechas que teimavam em cair no seu rosto. Só escutou uma voz baixa e sonolenta inquirindo-a o que estava fazendo, ela assustou-se, retirando de imediato a mão dos fios escuros. Estava alerta, não sabia a razão de ter feito isso tão levianamente, como um gesto pueril. Tentou não transparecer que estava em nervos e respondeu com o máximo de tranqüilidade possível que estava apenas retirando algumas mechas do rosto da outra.
- Você realmente parece cansada... e mesmo assim parece difícil para você relaxar.
- É algo que não aprendi a fazer. – pausou por um momento e continuou – embora, seja o mais próximo que consigo chegar de relaxar. – Sophie acabou entendendo que apesar da outra não ter aprendido a relaxar, ali ela conseguia exercer o que ela achava o que seria próximo a um gesto de relaxamento. Acabou sorrindo um pouco de canto com a informação colhida.
- Não seja tão dura consigo mesma, vamos deite-se, parece que acabará desmaiando a qualquer momento.
Sophie, levantou-se do sofá e da forma mais mandona que achou que teria fez a outra deitar-se, achava que por estar a anos juntas, teria esse tipo de liberdade, esperou uma frase reprovadora, mas a outra parecia cansada demais para pestanejar. Valquíria, havia se desfeito dos seus sapatos, estava deitada. Não sabia como poderia estar dessa forma. Sophie encontrava-se sentada no chão, encostada no sofá, terminando a sua última bebida da madrugada. Estava visualizando seu celular pela última vez, nenhuma mensagem de Elizabeth, parece que resolveu deixá-la em paz. Quando levantou o rosto para ver a detetive, a mesma encontrava-se dormindo. Ficou ali, vendo-a dormir por um tempo. Seu rosto estava tranqüilo, sem expressar aquela expressão cortante e fria, habitual.
Traços delicados e harmoniosos, havia retirado a maquiagem pesada, mas ela não precisava disso, pois era bela e a legista sabia disso. A mulher deitada ali na sua frente, ela não sabia quando foi que se tornou tão atraída pela enigmática detetive, quando começou a ficar tão insuportável não estar ali com ela. Estava se sentindo patética. Elizabeth tiraria sarro da sua cara agora e depois a chamaria para o quarto, para um longo sex* selvagem, sem compromisso, uma amizade colorida, com benefícios, na qual uma escutava sobre a outra. Elizabeth escutava mais do que falava. E não entendia, a esse momento recatado de Sophie, se queria tanto assim a detetive, porque não investia? Ela tinha medo, após todos esses anos, agia como adolescente, sentia medo do que poderia acontecer à seguir. Afinal, Valquíria não era tão amistosa, apesar de ser com ela. Talvez fosse diferente, porém há o outro lado, e se não fosse?
Ela levantou e foi buscar um cobertor no armário e cobriu a detetive, estava prestes a acariciar o cabelo da detetive, mas a mão branca a imobilizou antes de alcançar o objetivo.
- Desculpe, eu... – disse ela, gaguejando. – não queria acordá-la.
Valquíria estava com os olhos cinzentos abertos, fitando-a, observando cada movimento da outra. Sophie, soltou o ar, não imaginou que o havia segurado, sentiu também um leve calor em sua face, deveria estar vermelha a essa hora.
- Eu ia só cobrir você e ia embora para o meu quarto.
Valquíria nada disse e voltou a fechar os olhos. Sophie achou que talvez ela acordasse enquanto dormia por reflexo, algum hábito adquirido com os ossos do ofício, pensou. Então, resolveu se recolher também.
Fim do capítulo
Comentar este capítulo:
Sem comentários
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook: