Segredos por Elliot Hells
Saudações para todos!
Enfim começaremos a nossa obra, vamos conhecer um pouco dos personagens que vão acompanhar vocês nessa jornada.
Capítulo um - Mudanças.
Um ano atrás....
Mesmo em pleno verão na cidade mais conhecida como: Cidade do Sol ou pequeno Hawaii brasileiro, no nordeste do Brasil, em uma cidadezinha na pata do elefante. Vivienne, não se sentia tão animada quanto as outras pessoas ao seu redor. Muitos corriam pelo calçadão mais movimentado daquela zona sul. Exibindo seus físicos bronzeados e definidos. O brilho de seus corpos refletiam ao sol como joias cintilantes. Outros faziam Yoga no gramado, bastante concentrados. Eles não pareciam nada para ela, apenas fitava o além deles, como se pudesse ver através deles e ir direto para as paisagens daquele local. Ela estava de volta aquele Estado que praticamente era esquecido por todos os outros. Ele se encontrava hoje, como dá última vez que o viu, há seis anos atrás. Cogitava que deveriam ser as mesmas pessoas que corriam naquele mesmo calçadão. Era uma cidadezinha parada, ela sabia disso. Lugar no qual os hábitos tornavam-se costumes e assim por diante. As casas de Nova Amsterdam, na zona Oeste da cidade, ganha uma arquitetura colonial, no tempo em que os holandeses, em 1633, tomam a cidade das mãos dos portugueses e a rebatizam de Nova Amsterdam. Aproximando-se da zona Sul, o ar moderno e despojado acaba tomando cor e uma paisagem verde é sempre vista. O clima da cidade era uma mistura de tropical chuvoso e um verão mais quente do que as caldeiras do inferno. No inverno a temperatura decaía um pouco, mas ainda permanecendo o velho calor de costume. Devido à localização no litoral, é perceptível a maritimidade que gera uma grande amplitude térmica. Possuindo, assim, o seu título de: Cidade do Sol, em função da elevada luminosidade solar. Desse calor, Vivienne não sentia falta, pelo contrário, a fazia desejar qualquer lugar, exceto aquele.
Nesse exato momento, as duas irmãs encontravam-se a oitenta por hora no velho Sandero vermelho da irmã que estava um pouco desgastado, ouvindo uma canção nostálgica. Ela sabia que precisava ser trocado, mas continuava a repetir que faria isso depois. Alegava que ele ainda executava com precisão suas atividades. Vivienne desistiu de dialogar sobre isso a muito tempo com a mais velha, sabia que era uma batalha perdida.
Ela bocejou, não havia dormido bem na noite anterior no hotel em que ficara, um turbilhão de pensamentos a incomodavam sempre impedindo que pudesse ter uma noite digna. Sempre tirava alguns cochilos aqui e ali. Às vezes, conseguia dormir quatro horas seguidas, porém, nunca mais conseguiu ter às oito horas de sono que possuía quando era adolescente. Sabia que aqueles haviam sido bons tempos, mas que nunca voltariam. Ela dava de vez em quando suspiros pesados como o vento. Andava fazendo muito isso quando refletia sobre sua vida ou algo a desgostava.
Nesse momento, ambas situações estavam ocorrendo. Catherine percebeu a tensão no corpo da irmã. Sua mão estava com punhos cerrados, os nós dos dedos esbranquiçados, apertando a velha calça jeans surrada do colegial que ainda lhe servia perfeitamente, talvez estivesse mais folgada do que antes, observou a outra. Ela sabia que Vivienne não havia contado toda a história para ela. Estava omitindo muitos detalhes, detalhes importantes. Porém, não pressionaria a irmã, no tempo certo ela contaria como sempre fez quando eram crianças. Sempre foram bastante unidas, até mesmo quando Vivienne passou a morar por seis longos anos em Curitiba, costumavam dizer que eram elas contra tudo e todos! Uma sempre estava disposta a proteger a outra, mesmo que acabassem ambas de castigo, não se separavam.
Vivienne era a mais ingênua das duas, acreditava demais nas pessoas e acabava sempre fazendo a vontade de todos ao seu redor. Era muito tímida e reservada, muitas vezes escondendo seus verdadeiros sentimentos. Não possuindo muita malícia, porém, quando se tratava da irmã, conseguia ser mais leve. Catherine por sua vez, seu caráter contrastava com o de Vivienne, pois é inteligente, alegre e sincera. Mas possui uma língua solta e não levava desaforo para casa. Sempre conversava com a irmã, dizendo para ser livre e fazer o que queria fazer, ninguém poderia julgar por suas escolhas e se julgassem, que ela não se importasse. Mas ela não conseguia ser assim, ao menos, não antes. Se importava e não gostava de decepcionar ninguém. Porém, todas essas informações eram de uma antiga Vivienne. Ninguém, nem mesmo a própria Vivienne sabia se reconhecer agora.
- Sabe o que eu odeio? - começou Catherine com os olhos atentos na estrada despertando a mais nova de seus pensamentos.
- Fora filas enormes, pessoas suadas, finais de filmes tristes, pipoca, semáforos lentos, computador lento e qualquer outra coisa lenta, não, não sei. O que mais você odeia que eu não citei? - ela disse tentando parecer animada.
- Foi uma boa descrição, mas faltou incluir esse tipo de situação - apontou com o polegar para a janela de seu Sandero.
Vivienne não conseguia ver nada e teve que desencostar do banco e olhar na direção que a outra apontava. Era outro carro com vários homens universitários gritando e bebendo cerveja. Estavam todos sem camisa e com óculos de sol, deveriam ir ou vir da praia. Sorriam debilmente, pediram para Catherine passar o seu número de telefone e da outra garota que se encontrava com ela.
- Rápido pegue um papel Enne - disse a mais velha, fazendo Vivienne franzir o cenho em total dúvida.
- Achei que odiava esse tipo de situação - falou confusa, enquanto abria o porta luvas e procurava um papel com uma caneta. Era difícil encontrar qualquer coisa no carro da irmã, estava repleto de sacolas de comida, lenços e lá no fundo um bloco de notas com uma pequena caneta azul. - pronto achei!
Vivienne não fazia ideia do que a irmã iria aprontar. Ela sabia que Catherine era assim, fazia o que dava na telha e quando queria. Uma hora poderiam estar na estrada com caminho certo para ver um bom filme e no último instante, poderiam estar em algum lugar no meio do nada. Catherine não se restringia a nada. Queria sua liberdade sempre plena e ao máximo. Era desapegada e impulsiva, totalmente diferente de Vivienne.
- Ótimo, agora escreve. - dizia enquanto sorria descaradamente para o outro carro e prestava atenção na estrada.
Vivienne fez o que havia sido pedido. Ela dobrou o papel e passou para a outra que aproximou mais o carro do outro veículo. O motorista do automóvel preto começou a urrar com seus outros amigos. Catherine deu o bilhete para o rapaz no banco do carona que segurou de forma sedutora sua mão e assim afastou o carro. Jogando rapidamente um beijo, ligou o pisca alerta para esquerda, tomando a rua e pisando fundo no acelerador. Os rapazes não entenderam, mas estavam confiantes que haviam pego o número de ambas e deixaram para lá. O mais bronzeado do sol, que havia pego o papel, começou a desdobrar e leu:
Vão se ferrar seus idiotas!
- Cara, elas esnobaram a gente - disse um deles.
Após terem esnobados os rapazes do carro, as duas mulheres pegaram uma outra estrada repleta de altos coqueiros com diversas casas longas e suntuosas. As irmãs continuaram por aquela rua até as residências ficarem para trás e a multidão de condomínios luxuosos darem as boas-vindas. Elas estavam seguindo para o condomínio de Henrique, um antigo amigo de muitos anos atrás de ambas, quando Vivienne resolveu relembrar do último ocorrido:
- Por um momento achei que você estava flertando com eles Kitty! - dizia incrédula ao lembrar do que a irmã fez.
- Achou mesmo que eu ficaria com aqueles idiotas? - indagou com ar risonho e continuou - maninha, a quanto tempo você não me vê mesmo?
- Fora aqueles longos anos, cerca de duas horas, quando você foi lá no hotel me ajudar a descer com as malas e depois subiu de novo com um ar de derrota por subir as escadas já que o elevador enguiçou. - Vivienne alternava entre olhar para a irmã e a estrada, preferia sempre manter os olhos atentos, pois sabia que das duas, Kitty era a mais avoada.
- Eu não acredito que um hotel como aquele, pode deixar tal situação ocorrer! Enfim, o que eu fiz hoje foi a maior prova de amor já realizada pelo ser humano! - dirigia, enquanto gesticulava sem parar. Um hábito que Vivienne pensa que ela deve ter herdado dos ancestrais europeus. Duzentos e dez degraus subidos pela escada de incêndio mais monótona de todo o Brasil, Vivienne. Você deveria construir um monumento com os dizeres "melhor irmã do mundo" - enfatizou Catherine, orgulhosa de si, apontando para as bagagens no banco de trás e algumas no porta-malas.
A estrada foi calma, poucos carros haviam agora. O vento estava tão refrescante que desligaram o ar condicionado do veículo e abriram as janelas. Os altos coqueiros lado a lado nas calçadas, proporcionavam uma bela vista à sua frente, lembravam ligeiramente a famosa avenida americana, Beverly Hills. Aos poucos, um condomínio suntuoso se erguia diante delas. A entrada era maravilhosa, com um jardim bem cuidado na frente, espécimes raras do exterior exalavam sua beleza para os moradores ou visitantes do Residence La Vie. Um enorme portão branco ficava entre as duas guaritas que cuidavam separadamente da entrada e saída de veículos. Uma moça trajando um uniforme bege e uma blusa branca por dentro abriu a janela. Seus olhos eram cor de amêndoas, seu cabelo preto estava preso em um rabo de cavalo bem forte, sem nenhum fio fora do lugar. Era dona de um sorriso de lado acompanhado de uma ligeira covinha no lado esquerdo da bochecha. Dizia "boa tarde" com tamanha cordialidade. Catherine dirigiu-se para a entrada do condomínio, recebendo a guarda com o mesmo sorriso e desejando uma boa tarde, a guarda continuou dizendo:
- Senhoritas, Catherine e Vivienne Lamartine ? - ela retirou os óculos pretos para fitarem as duas garotas no veículo.
- Como sabe quem somos? - disse Catherine um pouco nervosa, tentando se explicar.- Eu só fui fichada uma vez na polícia por liderar um grupo contra testes em animais, mas desde então estou limpa, eu juro!
- Calma, calma - tranquilizou a morena que prendeu o riso com a história. - O senhor Hernandez, me avisou sobre vocês. Ficarão durante um tempo no apartamento dele. Não há com o que se preocupar. Além do mais, ele falou a placa do automóvel, só fiz verificar.
- Ufa! - suspirou Catherine descendo os ombros.
- Sabem onde se localiza o prédio dele? - indagou a guarda que ao se aproximar pode ser visto seu nome no crachá, River Rodriguez.
- Noir, B, 3001? - indagou Vivienne.
- Afirmativo, aqui está a chave do apartamento - disse ao entregar e começou a explicar o caminho. - Sigam em frente, virem a primeira à esquerda a segunda à direita e peguem a primeira de novo e vão em frente. Sejam bem-vindas, senhoritas.
- Ah sim, sim, obrigada - sorriu Catherine, quando o portão foi aberto e depois virou para a irmã. - Você anotou isso, não anotou?
--
Residence La Vie, era luxuoso demais, hollywoodiano demais, surreal demais para Catherine e Vivienne. Já haviam entrado naquele condomínio diversas vezes, mas nunca haviam se acostumado com a grandiosidade do lugar ou mesmo aprendido o caminho. Parecia um outro mundo dentro de outro mundo. Um local proibido para pessoas de classe média. Só os poderosos dos poderosos eram dignos de pisar na terra sagrada ou como Catherine costumava falar, "a cidade das esmeraldas". Sempre que viam os jardins de cada bloco, seja o Blanc, Jaune, Rouge, Noir ou Rose, os únicos que puderam ver até agora, pois existiam muitos outros blocos se admiravam com a decoração de cada um deles. Cada bloco possuía sua flor representativa, como o bloco Rose, com flores de cerejeiras rosas, Rouge com suas rosas vermelhas, Jaune, com lindos girassóis ou rosas francesas amarelas. Mas o Bloco Noir, não possuía rosas negras, afinal, não existe flor de tal coloração, salvo quando já estão mortas e secas ao chão. Então, pensando na estética, como também na representatividade do bloco, Mei Xiao, uma botânica de renome e fanática estudiosa por plantas, decorou o bloco com várias flores da lua, conhecida cientificamente por, Epiphyllum Oxypetalum*. Suas belíssimas flores parecem exaustas pela manhã, são preguiçosas, penduradas por ramos finos. Mas mostra todo seu aroma e esplendor quando todos adormecem, tal flor, entrega-se totalmente à luz da lua. Desse modo, quando todas as flores se fecham para adormecer a noite, o bloco Noir, apresenta sua forma majestosa e esplendida, sendo o único a chamar atenção a noite, fazendo jus ao nome.
Após algumas entradas erradas e poucos acertos das garotas, chegaram no bloco que a guarda havia explicado. Ele era enorme, com trinta andares e um lindo hall de entrada. A flor da lua encontrava-se exatamente ali, exibindo-se de forma preguiçosa e sem muito encanto. Vivienne percebeu o quanto aquelas flores haviam crescido desde a última vez que aparecera naquele lugar. Fazia muito tempo desde a última visita das garotas na casa do velho amigo. Eram muitas lembranças que carregavam, festas que somente eram compartilhadas pelos três. Procuraram a vaga da garagem do amigo e estacionaram. Vivienne foi a primeira a sair do carro, abrindo rapidamente a porta de trás, retirando algumas bolsas e colocando rapidamente no chão. Catherine, fazia seu velho ritual de alongamento após sair do carro. Odiava dirigir, suas pernas e braços ficavam pesados e exaustos, parecia ter corrido uma maratona com dez antílopes amarrados por correntes nos seus quatro membros. Dirigiu-se a parte de trás e abriu o porta-malas retirando quatro malas e três bolsas. Colocou a mão nas costas depois do esforço, fingindo dores e cansaço, recebeu um leve rolar de olhos pela irmã.
Kitty fechou o carro e travou, seguiram em direção a entrada principal, no qual foi recebida pelo recepcionista do prédio. Ele, de forma cortês, forneceu uma saudação animada para as garotas. Vivienne conteve-se com um aceno discreto de cabeça, enquanto Catherine abriu seu melhor sorriso e desejou energeticamente uma boa tarde, ótimo serviço e que aproveitasse bem aquele fim de tarde. O rapaz com traços morenos, apenas agradeceu com outro sorriso. Vivienne olhava para o teto alto, com o enorme lustre de cristais com mais de 40 nano lâmpadas acopladas simetricamente, fornecendo um brilho intenso, porém, não violento a ponto de machucar ou incomodar a visão. O piso de mármore, estava devidamente lustrado, era possível se olhar por ele. A limpeza era feita perfeitamente, cada prédio contava com mais de oitenta funcionários, cada um designado para determinado a fazer. Talvez fosse dotado o sistema do fordismo, criado por Henry Ford. Entretanto, tal funcionário que ficava encarregado de limpar os lustres no bloco Rouge, desempenhava outra função no bloco Blanc, ou Noir e assim por diante.
Realizando assim, todas as tarefas. As garotas caminharam até o elevador que encontrava-se após uma parede imensa de espelho. Elas levaram aos poucos as malas até o elevador de serviço. Quando juntaram todas as bagagens, chamaram-no e jogaram todas as bagagens. Logo após, entraram no elevador de moradores e havia um painel com vários botões para outras funções, além dos andares que iria do um ao trinta. O curioso dos blocos, eram suas divisões de andares, do primeiro andar até o vigésimo nono, encontravam-se seis apartamentos, do trigésimo andar, somente dois apartamentos. Henrique encontrava-se no trigésimo andar, para muitos, a cobertura do bloco. Dividindo seu andar com apenas mais um apartamento.
- Como eu queria apertar todos esses botões agora! - Catherine tinha seus olhos brilhando com a ideia.
- Nem pense nisso! - repreendeu Vivienne.- Você sabe que morro de medo de ficar presa em elevadores, imagina se isso aqui despencar? São trinta andares Kitty.
- Enne, como poderíamos despencar se estamos no térreo ainda?
- Não importa, apenas coloque o andar certo. - disse Enne por fim.
Quando as portas se abriram lá estavam eles, dois apartamentos solitários, ambos com portas de madeira nobre escura. Não havia muita coisa do lado de fora, só uma tapeçaria vermelha cobrindo todo o assoalho.
Catherine ajudou Vivienne com as malas e colocaram em frente ao apartamento 3001. Vivienne pegou a chave que havia colocado no bolso e lá estava o apartamento claro e ventilado. No hall de entrada, local onde descansava os sapatos, como Vivienne lembrava, era totalmente de madeira escura. Ela retirou os tênis que estava usando e caminhou de meia pelo recinto.
Fazia muito tempo que não voltava a entrar naquele lugar, tudo parecia ter mudado, e de fato fora. O amigo havia feito uma reforma, subiu os dois degraus que separavam o hall da sala. O painel de tevê era moderno com um designe de última geração feito sobre encomenda para o gosto trés chique de Henrique.
Olhando mais adiante, estava a porta de vidro francesa que dava para a sacada. Na sacada o local que Vivienne se encontrava, olhando para a direita, estava a cozinha com conceito aberto, local no qual Catherine já se encontrava, vasculhando a geladeira de aço escovado do amigo.
- Será que não há um fio ou um rastro de comida nessa casa? - falava enquanto abria os armários projetados de Henrique e fechando em seguida a cada não encontro de comida que tinha.
- Kitty, H² viajou a algum tempo, é mais do que esperado que ele não tenha tais coisas. Só há alguns suprimentos básicos para fazer ainda.
Catherine rolou os olhos e bufou, falou resmungando que estava com fome agora e não possuía paciência para esperar por algo básico.
Vivienne continuava a olhar todo o local, os armários de mogno escuro da cozinha contrastavam com a ilha de mármore branca ao estilo americano no centro da cozinha. Ao recuar, havia um balcão com algumas cadeiras. Sobre o balcão, havia uma carta com uma escrita apressada, reconhecia a letra do amigo muito bem. Ela vasculhou mais uma vez aquele lugar com os olhos, os eletros domésticos eram lindos, todos combinando. Ela soltou um suspiro, sem perceber, sabia que agora teria que seguir em frente, teria que continuar a viver e a lutar. Pegou o papel e começou a ler em voz alta:
Vivizinha,
Eu lamento não poder ser um bom anfitrião e recebê-las em minha – nada - humilde residência - risos. Estou brincando. Mas infelizmente surgiu uma viagem repentina de negócios e não sei ao certo quando devo voltar. Mas estarei me comunicando com você sempre. Você já conhece a casa e tem mais que obrigação de sentir-se à vontade. Gostaria muito de poder estar com você nesse momento que está passando. Por isso, me mantenha informado ou ligarei para a Kitty! Diga para ela ficar longe da minha coleção de óleos naturais. Da última vez, ela me deixou sem nada! Mostre essa parte para ela! Eu juro que pretendo voltar logo, qualquer coisa que precisar, qualquer dúvida, me ligue.
Atenciosamente,
Seu H².
- Quer dizer que o H² está com uma nova coleção de óleos naturais? - Kitty falou com um ar travesso.
- E disse para você ficar longe da coleção dele, não escutou essa parte da carta? - apontou para o papel e a parte que estava escrita.
- Ah Enne seja boazinha, pegue uns dois óleos naturais para mim e jogue na minha bolsa por favor. Ele mandou eu ficar longe da coleção, que eu saiba dois não são considerados coleções.
- Você usa sua lógica para o mau, senhorita Catherine Lamartine. - Enne negava com a cabeça.
A outra riu e começou a xeretar o apartamento do amigo. Apostava que Henrique havia comprado muito mais coisa desde a última vez. Sabia que ele tinha um gosto por aventuras que se misturava com o requintado. Enquanto sua irmã bisbilhotava todo o apartamento, Vivienne, acomodava-se no quarto que o amigo havia preparado para ela. Um enorme closet estava a sua disposição e ela começou a acomodar-se, desfazendo as malas que trouxe do hall até o quarto. Ajeitou suas blusas, seus casacos, vestidos, lenços, calças, todo o tipo de vestuário por cor e tamanho. Passou horas à fio concentrada nessa tarefa que não percebeu que já passava das dezesseis horas da tarde.
Não havia mais escutado a voz de Kitty, cogitou que devia ter ido embora, mas sem falar com ela? Estranhou. Saiu do quarto procurando a irmã pelo grande apartamento, foi até a sala e de lá abriu a porta de vidro francesa, local que ainda não havia visto, dando de cara com a enorme sacada do amigo. Suntuoso era uma palavra humilde para descrever tal lugar. Havia vários estilos de plantas, bem tratadas e flores espalhadas harmonicamente. Um enorme estofado que preenchia uma boa parte da varanda para seus convidados. Ela percebeu que havia uma curva depois da parede repleta de flores e lá era um local mais reservado, com um balanço artesanalmente trabalhado. "Henrique modificou muita coisa desde a última vez", pensou.
A vista dava de cara com a varanda do apartamento do seu vizinho que não deveria estar em casa uma hora dessas. Nenhum sinal de sua irmã, resolveu voltar e fechar a porta atrás de si devido a enorme ventania. A porta da frente abriu-se e era sua irmã, voltando de algum lugar com a bolsa um pouco mais cheia do que entrará.
Vivianne discordava firmemente sobre a proposta da irmã. Ela não queria de maneira alguma sair, preferia ficar em casa, não havia dormido bem, desde que chegou de viagem e havia passado alguns dias no hotel. Estava exausta e ainda faltava arrumar os livros que trouxe em uma das malas, aquele momento seria seu deleite para o relaxamento, organizar seus preciosos livros.
Ela encontrava-se no seu novo quarto, sentada no chão com várias caixas abertas, organizando os vários livros, por gênero e ordem alfabética dos títulos. Enquanto sua irmã continuava a argumentar deitada na cama de casal espaçosa. O quarto, apesar de ser de hospedes, era totalmente trabalhado, com uma porta de vidro que dava acesso para a sacada, todos os quartos possuíam essa possibilidade do acesso a sacada. Foi um pedido que Henrique não aceitava recusa, seu principal argumento para o engenheiro era: Uma vista tão linda como essa, deve ser apreciada por todos e não só desfrutada por um único indivíduo. Era assim, todas às vezes que o amigo ligava para ela dizendo como estava o processo da reforma e de como o empreiteiro era um tanto teimoso e nada ousado. Tivera que mudar de construtor duas vezes, até encontrar o J. Scott, o melhor do ramo das reformas. Havia deixado aquele lugar o maior sonho. Catherine retomou a fala:
- Enne, você tem que sair, está apática, sua pele está tão maltratada, ressecada, seu cabelo está sem brilho e quando foi a última vez que você se olhou no espelho para por uma maquiagem? - ela sentou-se na cama fitando a irmã que estava de costas para ela.
Vivienne sabia que a irmã estava certa. Mas hoje ela não queria fazer nada disso. Queria ficar em casa e descansar.
- Deixe-me cuidar de você, sabe que tenho um curso de cosméticos.
"E do que você não tem um curso" pensou.
Com relutância e sem mais argumentos para convencer a irmã, Vivienne a deixou sentá-la em uma das cadeiras e ajeitar sua aparência. Ela havia pego o espelho e passou a encarar a mulher ali na frente, enquanto Catherine saía do cômodo prometendo voltar logo.
"Quem é essa?" indagou para si própria.
Passou a analisar com mais cuidado aquele rosto, que em outrora já fora liso e delicado, sem nenhuma sarda. Usava muito creme, pois tinha uma pele sensível por ser ruiva. Hoje, o topo das maçãs do rosto até uma parte de seu nariz estavam com pequenas sardas. O abundante cabelo cor de brasa havia ficado minguado e sem brilho. Os olhos, grandes e expressivos com cílios longos, tornaram-se opacos. O tom de esmeralda deles, que eram capazes de hipnotizar qualquer um, estavam sem vida. Observou sua boca, e estava um pouco pálida. Estava tão mais magra que antes, com toda certeza, havia ficado abaixo do seu peso ideal. Lembrava que quando era mais nova, possuía o cabelo mais cor de brasa do que Catherine, era totalmente da cor do boneco do filme de terror que assistiram quando eram mais novas. Por outro lado, Kitty, mudava seus tons quando queria, houve a fase na adolescência que pintara de azul, verde, violeta, laranja, preto, loiro, castanho. Todas as cores inimagináveis ela já havia feito. A mãe das garotas, senhora Lamartine, sempre dizia para a mais velha: um dia você ficará sem cabelos!. Kitty batia sempre três vezes no mogno de madeira à fim de isolar aquelas palavras agourentas da mãe. Vivienne olhou para irmã que havia retornado com um pente em uma das mãos e na outra uma tesoura. O cabelo da irmã havia mudado mais uma vez, mas dessa vez, ela havia deixado o seu tom de ruivo natural aparecer. As duas irmãs tinham herdado o tom de ruivo da senhora Lamartine, alaranjado e volumoso. Kitty apenas intensificou ainda mais o tom.
Continuava a apreciar a irmã e ela não havia mudado nada. Apesar dos vinte e oito anos, Catherine exibia feições de uma jovem de dezenove anos. Corpo magro, mas bem distribuído, não eram muito altas, ambas tinham o mesmo 1,65. Catherine, sem bolsas ao redor dos olhos expressivos de um violeta escuro, quase em tons de ametista escuro, raros tons. A pele branca não continha uma sarda sequer, totalmente aveludada e cuidada "era exatamente assim que eu era" pensou Vivienne. A irmã estava de volta com um largo sorriso com dentes brancos em um rosto em formato de coração, assim como o seu.
- Vamos começar!
- Espere, o que fará com isso? - Vivienne ficou assustada ao lembrar da tesoura na mão da irmã, ela iria cortar seu cabelo? - Não pode cortá-lo!
- Irei apenas, ajeitá-lo. Está horrível e sem corte! - reclamou - Vivienne, você tem vinte e cinco anos e parece ter mais de trinta assim! Toda descuidada, onde foi parar sua feminilidade?
Vivienne nada disse mais uma vez, forçou um sorriso e suspirou.
- Só quero ajudar você, sinto que hoje coisas boas podem acontecer. Eu li o seu horóscopo e dizia que hoje você conheceria alguém especial, sua cor é o roxo! Câncer está com tudo baby! - falou em seu tom descontraído para animar a irmã.
- Não acredito que ainda acredita nessas coisas Kitty! - exclamou à outra com indignação no tom de voz.
- Pare com isso! - ela afirmou, enquanto penteava o cabelo da irmã e começava a apará-lo aqui e ali. - Nada ocorre por acaso Enne. Tudo há um propósito. Se você e o Alex não deram certo, é porque ele não é o cara certo. Tem muita boca para beijar no mundo, vai se prender em apenas uma?
- Não há pessoas certas! - retrucou em um tom baixo, porém, ainda foi escutado pela irmã.
- Claro que há! Você tem que ser otimista e parar com esse drama canceriano que eu não tenho paciência!
- Digna frase de uma sagitariana! - retrucou com os braços cruzados.
Aos poucos, algumas mechas caíam no chão e ela começava a sentir pena de todo aquele cabelo desprezado no assoalho rústico de Henrique, cogitava estar com crise do zodíaco de Câncer mesmo, mas não queria admitir que a irmã estava certa. Kitty cuidou de cada centímetro do rosto da irmã. Após muito tempo, ouviu um "Tcharam" de sua irmã, que lhe entregou o espelho. Definitivamente, ela havia ficado surpresa.
- Essa sou eu? - passou a mão pelo novo cabelo. - Acho que voltei para a casa dos vinte.
- No mínimo dos 19 assim como eu - piscou a irmã. - combinou muito com o seu rosto o novo corte, está incrível! E não tirei muito o tamanho, continua no meio das costas, retirei só a parte desgastada.
- Obrigada - Vivienne falou acanhada.
- Não me agradeça. Tome um banho e se arruma, porque vamos sair para ver uma peça e claro, comer algo já que essa casa não tem nada! – revirou os olhos impaciente.
Fim do capítulo
Se quiserem saber mais e conhecer sobre *Epiphyllum Oxypetalum, vale a pena a pesquisa, de fato é uma linda flor descoberta por Margaret Mee!.
Atenção, se desejam capítulos assim, por favor comentem, caso contrário irei fragmentar. Contudo, esse é o tamanho original do manuscrito.
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Zanja45
Em: 19/01/2025
Morri de ri com os aprontes de Catherine.- Aqueles playboys levaram uma boa lição.![]()
Sem cadastro
Em: 20/01/2025
KKKKKKKKKKKKKKKK A Kitty é uma das personas mais queridas também por esse humor e alto astral dela!
Eu adoro demais!
Elliot Hells
Em: 27/01/2025
Autora da história
A Kitty é uma personagem muito querida para mim! Adoro demais essa leveza que ela carrega, acredito que pede uns momentos que devemos ser como a Kitty
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Zanja45
Em: 19/01/2025
Oi, Elliot!
Realmente, Vivienne tocou num ponto importante sobre o estado do Rio Grande do Norte. - É um dos menos que ouço falar dentre os outros. - praticamente nulo as menções a ele.
Elliot Hells
Em: 19/01/2025
Autora da história
Oláaa lindona!
Sim.. esse fator que ela traz é bem interessante. E da para perceber que aos poucos tudo isso acaba fazendo sentido tanto em Segredos e soma essa informação com Miinha pequena sorte tbm... pq lembra a Vivi diz "parece que todo mundo se conhece" as mesmas e velhas pessoas...
E percebemos que todos estão conectados.
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Elliot Hells Em: 19/01/2025 Autora da história
KKKKKKKKKKKKKKKK A Kitty é uma das personas mais queridas também por esse humor e alto astral dela!
Eu adoro demais!