Música do capítulo: Serj Tankian - Stand with us
Link: https://www.youtube.com/watch?v=EAO6P8dxEwY
Um pouquinho de drama para o capítulo final, o álbum inteiro foi tema de fundo dos capítulos finais de 'A Revolução'.
Aproveitem!
Uma Isa Miranda
Aqueles túneis pareciam intermináveis ou estávamos correndo em círculo. Eu não estava em plena forma física, mesmo tendo me recuperado por completo do tiro que Joana me acertou, ficar trancada ali embaixo só me fez perder o pouco do preparo físico que mantinha.
Gwen garantiu que sabia para onde estava indo, eu confiava nela, mas era difícil manter a calma quando os soldados estavam na nossa cola. Eu temia que a qualquer momento fossem nos alcançar ou que uma de nós fosse alvejada.
A mão de Amy suava contra a minha, mas mantínhamos um aperto constante justamente por isso. Se fôssemos morrer ali, ao menos estávamos juntas, mas eu preferia acreditar que veríamos a saída daquele lugar para sobrevivermos.
— Estamos chegando. — Gwen falou sobre o ombro.
Mas então parou abruptamente no meio do túnel quando ele se estreitou. Xingou baixo, virou-se e agarrou o colarinho da minha camisa, empurrando-me com força em direção a uma bifurcação sem iluminação.
— Mantenha ela quieta até eles passarem. — Ela falou para Amy. — Desculpa, Ana. Mas você precisa continuar.
— O que? Não! Gwen-
Amy tapou minha boca e pressionou nossos corpos contra uma parede. Eu vi Gwen no meio do túnel, apontando a arma para o caminho que íamos, não levou mais que alguns segundos para os sons de botas anunciarem a chegada dos soldados. Eu não os vi, mas vi as duas dezenas de luzes vermelhas apontadas para o corpo de Gwen.
Eu tentei empurrar Amy para longe, mas ela me manteve firme no lugar, longe da luz e da posição em que Gwen se colocou. Eu não acreditava que ela estava se colocando como um escudo humano para me proteger. Como ela podia abrir mão da própria vida por minha causa? Eu não podia deixar que ela simplesmente fizesse isso.
— Onde está a sua esposa, Sargento? — Um deles questionou. — Só a queremos, você pode sair inteira se a entregar.
— E que tipo de mulher eu seria em entregar a minha mulher para um bando como vocês? — Sua atenção se manteve neles, a mira firme mesmo que em desvantagem.
— Uma mulher inteligente, é claro.
— Pois morrerei feliz na ignorância, pois vocês enviaram forças para túneis vazios. Só há fantasmas aqui para vocês perseguirem.
— E você sabe que podemos fazer o que quisermos com você já que foi dada como morta, não sabe? Ninguém saberá de nada. Morrer é a última coisa que vai acontecer com você até terminarmos.
— Ah, é? — Ela sorriu e mudou o foco da arma, apontando para a própria têmpora. — Vocês não vão me levar viva daqui e eu nunca deixarei que saibam onde minha mulher está.
— Amy... — Sussurrei, baixando sua mão com alguma força, pois seu corpo estava firme contra o meu, incapaz de me deixar mover um músculo. — Não me faça aceitar isso. — Implorei.
— Ela fez a escolha dela Ana... — Sussurrou perto do meu rosto. — Se você aparecer, vão matar a todas nós. Você o ouviu. Não há limite do que farão com você e com ela.
— Então vamos tornar isso diferente. Por favor, preciso tentar.
— Não, Ana, desculpa, mas não posso perder você também.
— Seu celular tem bateria?
— Tem, mas-
Selei seus lábios, fechando os olhos por alguns instantes. Eu não podia correr o risco de fazerem alguma coisa com ela, mas também não deixaria que Gwen se sacrificasse por minha causa. Eu acertei a coronha da arma na cabeça de Amy e ela amoleceu nos meus braços, desmaiando. Coloquei seu corpo no chão com cuidado, em busca de não fazer barulho. Estava cansada de ser protegida e no processo perder amigos, ver mortes que não deveriam estar acontecendo.
Mas também não estava nos meus planos morrer só porque aqueles soldados assim o queriam.
Peguei o celular de Amy e desbloqueei, dedos trêmulos enquanto ligava para Deborah, esperando que a ideia que brotava em minha cabeça fosse maluca, mas que funcionasse em conjunto com a melhor hacker que eu conhecia.
— Eu ainda não estou vendo vocês. Diz que conseguiram sair. — Ela falou logo após o primeiro toque.
— Estamos cercadas. — Sussurrei. — Gwen vai morrer se não fizer o que eu te pedir.
— Ana... O que está fazendo?
— Transmita o vídeo desse celular. O máximo de lugares que conseguir. Faça isso, não importa o que tenha que hackear. Caso contrário estamos perdidas.
— O que vai fazer Ana?
— Ana está morta. Mas Isa não. E o mundo vai saber disso agora.
Eu só esperava que o mundo se importasse tanto com Isa Miranda quanto me faziam acreditar. Eu precisava dessa força, desse ideal que o ícone de Isa pregava há tanto tempo.
Caso contrário estaria morta.
Se Gwen estava certa, o pensamento de que precisavam da minha figura morta de verdade os davam o “direito” de me matar. Mas fariam isso somente porque eu, enquanto Ana, já tinha sido dada como morta. Enquanto Trisha negociava a paz com a Bandeira Azul, os Generais coordenavam uma caçada para me eliminar. Se eu conseguisse expor isso para a Cidade de Caneia – e eu esperava que além, no Continente Sul – talvez conspirasse ao meu favor e os fizesse parar. Afinal, seria uma execução ao vivo.
Quando Deb me ligou no número de Amy, eu aceitei a chamada de vídeo e liguei o flash. Guardei a arma no cós da calça e respirei fundo. Gwen me olhou com olhos perplexos, desacreditada no que via. Movi a cabeça de maneira positiva para ela, então ela apontou a arma para frente novamente, movimentando-se para ser o meu escudo enquanto eu apontava a câmera para os soldados.
— O que está fazendo? — O soldado à frente questionou, provavelmente o comandante daquele esquadrão, todos tensos ao me terem ali, com um celular apontado para eles. — Abaixe esse celular, senão-
— O que, Tenente Silva? — Gwen o questionou. — O que vai fazer?
— Estou transmitindo essa gravação ao vivo para toda a Cidade de Caneia. — Anuncio sobre o ombro de Gwen, meu braço estendido à frente para gravar todas as armas apontadas para nós, enquanto a câmera frontal capturava nossos rostos.
— Para todo o Continente Sul, garota, não me subestime. — A voz de Deb ecoou pelo aparelho.
— Essa é a minha garota. — Gwen falou com um sorriso de lado, mas seu corpo ainda estava rígido.
— Vocês serão presas assim mesmo. — Tenente Silva falou do lugar, todo equipado com o uniforme e colete, fortemente armado e um fuzil apontado para nós. — Pela lei vocês são rebeldes, liderando grupos terroristas para ferir a população.
— E quem ferimos até agora? — Questionei. — Eu sei que a verdade dói, mas não vi ninguém sangrando por saber o que vocês realmente fazem com quem tenta pensar fora da bolha que vocês criaram.
— Vocês fingiram a própria morte para escapar da justiça. Que exemplo querem dar para a população?
— E o que teriam feito conosco se nos rendêssemos? Por que estão atrás de nós com tanto desespero? Eu suponho que estejam atrás de Isa Miranda, ou estou enganada?
— Por que não sai detrás da sua esposa e descobre por si só?
— E o que vai fazer? Atirar em Isa Miranda na frente de toda a população do Continente Sul?
— Ana... — Gwen sussurrou, como em sinal de alerta.
— Está assumindo que é Isa Miranda? — O Tenente Silva moveu sutilmente a arma, como que em busca de me manter na mira.
— Eu sou Isa Miranda. — Gwen falou antes de mim.
Como que para nos dar uma esperança, as tropas de reforço do Resistência Avant chegaram logo atrás de mim, em grupo maior, todos devidamente armados e apontando para os soldados à frente. Ao menos tudo aquilo serviu para nos ganhar tempo.
— Isso é impossível. — O Tenente Silva mirou nela.
— Eu sou Isa Miranda. — Digo alto. — Porque Isa Miranda é muito maior que uma pessoa. Vocês podem me matar aqui e agora, mas todos lá em cima vão erguer bandeiras, vão continuar lutando. Isa Miranda está em todo mundo, porque todos estão buscando liberdade, e Isa deu isso a todos. Agora eles sabem que podem lutar pelo que acreditam. Então você pode me matar, mas vai acabar descobrindo que não existe somente uma pessoa por trás de Isa Miranda.
— Eu também sou Isa. — Deborah falou animada pelo alto falante.
— Eu sou a Isa também. — Um dos membros atrás de mim falou, fazendo-me sorrir, porque logo todos estavam falando a mesma coisa.
O aparelho do Tenente Silva tocou, ele pareceu surpreso, como que tirado do transe, mas o atendeu enquanto a outra mão mantinha a mira em nós. Seu tom foi baixo, eu não sabia com quem ele falava e nem sobre o quê, mas não pareciam boas notícias para ele, a julgar pela ruga acentuada na sua testa. Ele baixou a arma e fez um gesto para todos baixarem também, mas não desviou o olhar do meu quando se aproximou um passo e ergueu as mãos, sinalizando que não atiraria.
— Ela quer falar com você. — Alegou, estendendo o celular.
— Quem? — Gwen questionou, talvez tão confusa quanto eu.
— Ela. — Enfatizou. — Você saberá.
— Não tente nenhuma gracinha. — Amy apareceu de repente, o que me assustou, sua arma pressionando na têmpora do Tenente. Ela pegou o aparelho e me entregou sem tirar a arma da cabeça de Silva, sua atenção toda nele, o que não me dava espaço para avaliar o quanto ela estaria irritada comigo.
— Alô? — Eu falei, colocando na opção de viva voz perto do outro celular.
— Que grande barulho você está fazendo aí embaixo, Isa Miranda. — Uma mulher falou em meio à tensão do ambiente.
— Quem é você?
— Eu me chamo Tereza, sou a Presidente da Bandeira Azul.
— É verdade, eu tenho acesso à localização dela. — Deborah falou pelo outro celular.
— E ao que devo a honra? — Pergunto, tentando mascarar a surpresa. Tereza nunca se mostrou à público até hoje, nem mesmo Trisha tinha conseguido chegar perto dela desde o começo das negociações.
— Posso dizer que no mínimo você chamou a minha atenção, além de toda a população, é claro. — Havia um tom casual em sua voz, quase diria que ela sorria. — Mas você deve estar tão desconfortável na frente dos holofotes quanto eu, então por que não marcamos um encontro?
— Para me matar no modo privado?
— Eu não vou te matar, então espero a mesma discrição sua. Mas como oferta de boa-fé, eu te deixarei escolher um lugar neutro para isso acontecer. Seus guarda-costas ficarão do lado de fora, assim como os meus soldados.
— Só nós duas?
— Quero que Amy esteja junto. Minha sobrinha que não vejo há muito tempo, adoraria revê-la. — Isso me fez olhar para Amy, mas ela continuou concentrada na própria mira. — E você pode escolher um representante dos grupos. Todos desarmados, é claro.
— Espero que o acordo valha em ambas as direções, Tereza.
— Claro. Eu cumprirei com a minha parte do acordo.
— Ótimo. Então o encontro acontecerá em duas horas, na Helena Cafeterias.
— Por que não amanhã? Para te dar tempo de se recuperar.
— Para nenhum dos lados sofrer com qualquer armadilha de terceiros. — Isso a fez rir, descontraída. — Temos um acordo?
— Sim, temos. Eu te verei em duas horas, Isa Miranda. — Ela pigarreou. — Retorne para a base, Tenente Silva, e leve toda a equipe. Quero caminho livre para Isa e seu grupo.
— Sim, senhora. — Ele falou, então a ligação foi finalizada.
Houve aquela grande movimentação entre os soldados irem embora e nós recuarmos para outro ponto seguro, onde pudéssemos estabelecer uma comunicação segura e rápida com todos os representantes dos grupos.
Foi uma transmissão que pegou todos de surpresa, a maioria desaprovava a minha aparição pública e o encontro com Tereza, mas ninguém soube me falar um plano melhor também. Então eu escolhi Trisha para fazer parte dessa reunião, pois era a mais diplomática que eu conhecia entre todos e saberia o que fazer na situação.
— Vão com uma escuta, por garantia. — Deborah sugeriu. — Uma bem pequena que eles nem vão perceber.
— Será que eles tentariam alguma coisa diante de toda a população? — Resolvo perguntar. — Tereza impediu que fôssemos mortas lá diante da câmera, então sabemos que ela não quer nenhuma imagem ruim em frente à população nesse momento.
— É uma situação delicada. — Trisha comentou, pensativa. — Vamos nos precaver como pudermos. Não vamos atacar, mas também não ficaremos vulneráveis à possíveis ataques. Não podemos confiar em Tereza, ela é a cabeça por trás de tudo isso.
— Ela não iria despreparada também. — Amy comentou de maneira soturna.
— Em algum momento você vai comentar o fato de que sua tia é a presidente da Bandeira Azul? — Deborah questionou, balançando-se na cadeira de rodinhas de um lado para o outro, inquieta e nervosa, como nunca a vi.
Estávamos num outro quartinho igual ao que eu estava, aparentemente havia vários espelhados pelos túneis. Então estávamos espremidas ali dentro em frente ao computador de Deborah, que tinha espalhado pequenas câmeras em torno da tela, de forma que capturassem todo o cômodo e a nós cinco.
Eu estava no centro do lado de Trisha e Deborah, enquanto Gwen estava sentada mais ao lado, sobre um monitor velho. Amy estava em pé, os braços cruzados e as costas pressionadas na porta, com uma expressão séria e ao mesmo tempo possuía os olhos perdidos no chão. Não tínhamos falado sobre o fato de eu a ter dado uma coronhada e me colocado em risco direto. Mas ela também não tinha falado muito desde o confronto, então eu não fazia ideia do que se passava dentro da sua cabeça.
Mas isso só fazia aumentar a tensão entre todos, pois por mais que não dissessem em voz alta, todos estavam desconfiados e nervosos com a possibilidade de ela ter escondido essa informação. Até onde eu sabia, essa era a tia que fornecia dinheiro para patrocinar as ações do Resistência Avant, o que tornava a situação ainda pior.
A tia de Amy sabia das operações? Pois ela sabia que Amy participava ativamente das ações do grupo, mas não tínhamos como saber o quanto ela tinha de conhecimento e quais eram as intenções dessa tia com o patrocínio. Se Tereza sabia de tudo o tempo todo, por que não prendeu ou matou Amy?
Isso só levava à um pensamento: Amy sabia sobre a verdadeira função dessa tia?
Eu tinha a certeza de que Amy não esconderia algo assim de mim, e isso explicava todo o seu silêncio. Ela estava tão chocada quanto o resto de nós, devia estar se fazendo tantas perguntas dentro da própria cabeça que era quase audível naquele pouco espaço de tensão que nos rodeava.
Cauã, o líder do Resistência Avant, moveu-se de maneira inquieta, a câmera travou um pouco, mas ele estava bastante incomodado. Já Pedro, o atual representante dos Sem Bandeiras, estava com uma postura bem relaxada na sua cadeira, de pijamas e uma caneca de café equilibrada na perna.
Os demais líderes dos grupos estavam tensos. Hoje também estávamos online com os representantes dos grupos de todo o Continente Sul, onde a Bandeira Azul tinha o controle. Eu não conhecia ninguém entre eles, sabia que alguns desses grupos eram independentes, mas também havia outros que eram extensões dos grupos que possuíamos na Caneia.
E por estarmos tão tensos e tão pressionados para tomar decisões rápidas, eu me vi na obrigação de prestar alguma defesa pela situação de Amy. Não era o momento e nem a maneira de a questionar sobre isso, ainda mais quando eu sabia que ela fez demais pelo próprio grupo e pelo movimento. Eles sequer tinham o direito de duvidar dela depois de ela se arriscar repetidas vezes na linha de frente e ainda aceitar colocar a segurança de Isa Miranda acima da nossa relação.
— Eu sei que é uma informação crucial, mas não comecem a desconfiar de Amy por causa disso. — Digo em tom controlado, primeiro olhando para Deborah, então para o monitor e as diversas caixas de câmeras. — É da presidente da Bandeira Azul que estamos falando. Ninguém tinha conhecimento da identidade dela até hoje. Acham mesmo que ela deixaria Amy saber quem ela realmente era? Não sejam ingênuos. Estamos nessa luta há muito tempo e vocês sabem perfeitamente bem que os representantes da Bandeira são traiçoeiros.
— Amy não esconderia uma informação dessa de nós. — Trisha falou em tom apaziguador do meu lado, então tocou a perna de Deborah e acariciou. — Está tudo bem, querida. Vamos nos concentrar no plano em relação ao encontro.
— É a única coisa que importa agora. — Gwen se pronunciou, também tocando a outra perna de Deb. — Está tudo bem, vamos nos concentrar, ou estaremos fazendo exatamente o que Tereza espera de nós.
— E o que seria isso? — Deborah não parecia mais convencida, pois ainda encarava Amy em busca de uma reação.
— O conflito entre nós mesmos. — Amy finalmente falou, olhando para nós. — Vocês sempre souberam que minha família era envolvida com a Bandeira Azul, e eles sempre souberam que eu estava envolvida com grupos organizados. Eu saber ou não que minha tia é a presidente não muda nada do que sacrifiquei para estar aqui.
— E não temos tempo para perder nessa altura. — Pontuo. — Se querem ir adiante na revolução e querem que Isa vá nesse encontro para representar os grupos, então terão que engolir suas desconfianças sobre Amy. — E para isso Deborah me olhou, surpresa. — Eu não vou tolerar qualquer pé atrás com ela depois de tudo pelo que passamos. Ou somos uma organização, ou não somos nada.
— Estamos todos de cabeça quente, precisamos manter a calma. — Gwen falou, olhando-me fixamente. — Por favor Ana. Concentre-se na missão. — Então olhou para Trisha, como que traçando um diálogo somente com os olhos sem emitir uma palavra. — Eu vou preparar o veículo para vocês irem, você pode vir comigo, Deb?
Deborah a encarou, e também pareceram traçar uma discussão com os olhos, mas ela se levantou e suspirou, seguindo para fora do quarto. Amy teve que sair do seu rumo rapidamente, pois ela passou com pressa e à passos duros. Gwen acariciou o ombro de Trisha e me piscou um olho, saindo da sala em seguida.
Amy veio se sentar do meu lado e eu segurei a sua mão, buscando acalmá-la. Não podíamos discutir entre nós, era tudo o que a Bandeira Azul queria: nos ver desestabilizados. A parentalidade de Amy com a presidente era a fagulha perfeita para isso. Naquele momento fiquei feliz com o aviso de Gwen.
— Eu acho que você pode ser o ponto de equilíbrio nessa reunião, Amy. — Trisha falou após um instante de silêncio. — Tereza pediu por você lá, pode ser um ponto crucial para manter a situação controlada.
— Controlada? — Amy a olhou sem entender de imediato. — De que maneira?
— Ela sabe do seu envolvimento com os grupos e não fez nada contra você, então não faria nada agora. Ao mesmo tempo estaria mais propensa a negociar e manter a calma contigo lá.
— Eu não contaria muito com isso. Apesar de me ajudar, nunca fomos próximas.
— Mas ela te quer lá por algum motivo. — Comento. — Já estamos numa situação ruim, talvez seja para o bem que ela queira esse elo contigo lá.
— Minha tia é uma mulher reservada, eu não sei muito sobre ela. Achei que fosse para manter a própria segurança à salvo por causa das doações e a ligação da minha família à Bandeira Azul.
— O elo entre vocês bastará. — Cauã falou pelo monitor, com aspecto sério e realmente cansado. — Mas estejam preparadas para o pior. Nós montaremos um círculo de proteção para evitar uma catástrofe, e vigiaremos os passos dos soldados. Tentaremos tirar vocês lá com segurança se algo acontecer.
— E em hipótese alguma você deveria perder a cabeça, Ana. — Trisha pontuou para mim. — Você é muito imprevisível às vezes, não é bom para ninguém.
— Farei o que for possível. — Murmuro de braços cruzados, porque não podia prometer nada.
— Ela vai querer te tirar do sério de alguma forma para dar um motivo de atirar em você. Eu farei o que estiver em meu alcance para negociar com ela, mas vocês duas precisam fazer a sua parte e não arranjarem uma confusão.
— O destino da revolução está nas mãos de vocês, garotas. — Pedro alegou. — Estaremos preparados para intervir se necessário. Mas em todo caso, aqui vai uma sugestão.
Meu acordo com Tereza nunca foi sobre manter o nosso encontro privado dos ouvidos do público, somente que seria longe de intervenções. Logo, Pedro estava certo em sugerir que transmitíssemos a conversa, uma garantia tanto para a população de não serem mantidos às cegas; quanto para nós, como uma segurança de que não seríamos enganados às escondidas.
Então foi assim que ficou decidido como decorreria aquela reunião.
Trisha dirigiu a caminhonete blindada, com Amy do seu lado e eu sozinha no banco detrás. Estávamos tensas, cada uma com o próprio motivo. Eu temia pelo que Tereza tinha em mente ao sugerir esse encontro, mas sobretudo, tinha a sensação de que podia ser o fim de muitas coisas.
Naquele momento, ao longo da viagem de volta para a Cidade de Caneia, eu sentia aquela pequena realização, aquele conforto, pois estava vendo o sol se pôr e estava na superfície outra vez. Sentia medo também, pelo desconhecido que enfrentaria. Mas já tinha chegado até aqui, sequer considerava desistir, pois não havia nenhum lugar que pudesse ir que não fosse rumo à revolução.
Quando adentramos o centro da cidade, fomos recebidas pela multidão nas ruas. Cartazes e cantos, gritos de incentivos e batidas na lataria do carro, uma música em meus ouvidos sobre o desejo do povo. Estou em casa, foi o que pensei.
“Eu sou Isa Miranda”, era o que todos gritavam.
Camisetas, faixas, mais e mais cartazes, além das pinturas nos rostos, tão emocionados quanto eu estava.
Isa Miranda tinha conquistado seu objetivo, e era muito além da pessoa por trás das palavras escritas. Ela representava aquela multidão, aquelas pessoas. E muito além também, porque se comunicava com a causa do Continente Sul por inteiro.
Soldados e agentes do Resistência Avant faziam uma barricada em torno do carro num estranho trabalho em conjunto até passarmos por um bloqueio no quarteirão da Helena Cafeterias. Seguimos num silêncio incômodo até estacionar na frente do estabelecimento.
— Comece a transmissão, Ana. — Trisha falou enquanto se inclinava mais à frente, olhando para cima.
— Claro... vai ser super natural. — Digo com ironia.
— Vai ficar tudo bem, só precisamos dessa ideia de transparência.
— É, espero que a presidente concorde. — Suspirei, mas saquei o celular enquanto saía do carro, desbloqueando e então iniciando a transmissão. — Olá a todos. — Digo tão logo aponto a câmera frontal para o meu rosto. — Vocês sabem quem sou e onde estou. Decidimos que queremos manter a transparência do que será decidido nessa reunião com a presidente da Bandeira Azul.
— O que está fazendo? — O General Marcondes apareceu no meu campo de visão, com uma expressão irritada quando parou à minha frente. — É estritamente proibido gravar a imagem da presidente.
— Eu vim para uma reunião que ela convocou. Nada mais justo que seja ela a decidir se será gravada ou não. — Modifico para gravar na câmera traseira, o que pareceu irritá-lo mais a julgar pelo rosto vermelho. — Mas caso não aceite, também não posso aceitar a reunião. Não há nada que a população não possa lidar aqui, você não acha?
Ele abriu a boca para responder, mas o rádio chiou, uma voz feminina ecoando do outro lado. Ele suspirou, mas a ordem foi clara: “deixe que elas gravem”.
— Mais algum problema, General Marcondes? — Ergo a sobrancelha.
— Vocês serão revistadas. — Comunicou.
— Claro.
Felizmente não foi por ele, mas sempre tem uma dezena de soldados só esperando por isso. Não encontraram nossas escutas graças à tecnologia de Deborah, mas ao mesmo tempo a transmissão nos garantia alguma segurança ilusória de não sofrermos ataques. O que os impediria de simplesmente acabar conosco em frente da população do Continente Sul se significasse reprimir todos aqueles protestos?
A tensão por aquele encontro pesava os ossos de todos ali, de ambos os lados. Talvez a mesma dúvida pelo imprevisível passava na cabeça da maioria. Todos os rostos estavam sérios, concentrados, corpos rígidos e atentos. A rua estava em silêncio.
Houve um pequeno conforto que me trouxe de volta a mim quando Amy segurou a minha mão. Trocamos olhares mais breves, o suficiente para eu sentir a confiança que ela buscava me passar.
Caminhei o primeiro passo em direção à cafeteria, tendo o cuidado de manter o foco da câmera equilibrado quando acionei para que ela gravasse em ambas as direções. O som dos nossos passos pareceu estalar na rua toda, somente o zumbido das dezenas de drones que flutuavam pouco acima cortava aquele lento ressoar da nossa caminhada.
O General Marcondes abriu a porta e Trisha entrou primeiro, seguida por mim e então por Amy. A primeira pessoa que vi foi Renata, atrás do balcão, a garçonete que estava ali há anos e tinha subido para o cargo de gerente. Ela foi a mesma que teve a audácia de entregar o bilhete de Amy para Samuel, quando o intuito era que entregasse para mim. Parecia um fato tão distante e sem importância agora, mas talvez tivesse mudado toda a minha história com Amy se ela não tivesse feito isso. Amy teria me abordado como um membro de um grupo organizado, e estaria interessada somente em Isa Miranda.
Que bom que Samuel foi nesse encontro, afinal. Eu sentia a falta dele, e entrar na lanchonete me fez lembrar dos nossos fins de tardes de conversa.
Tudo estava vazio e quieto, eu me perguntei se Tereza demoraria a chegar, mas uma mulher apareceu ao lado de Renata e eu paralisei. Ela era alta, com cabelos grisalhos presos num coque e aparência de uma senhora idosa. Olhos castanhos, como os de Amy, e algumas pintas espalhadas pelo pescoço e o colo dos seios. Ela se vestia com o mesmo decote que todas as garçonetes utilizavam.
— O que foi? — Amy questionou baixo ao meu lado.
— Diz que não é sua tia ali. — Olho para ela, quase em súplica.
— Ela é mais velha que a minha mãe, mas sim, é minha tia. Por que? Você já a viu aqui?
— Quanta formalidade, Isa Miranda. Aproxime-se, por favor. — Tereza falou, sinalizando as banquetas para nós. — Farei um cappuccino do jeito que você gosta, com cafeína extra e canela. Ou isso mudou desde que deixou de viver na superfície?
— Não, o paladar pode ter mudado para algumas coisas, mas isso continua da mesma forma. — Digo lentamente, então me aproximo e sento diante dela, mirando seus olhos de perto. — Como sabia que eu escolheria esse lugar?
— Ah, você não é tão imprevisível assim, Isa. Você escolheria um lugar seguro na sua mente, que te daria a ideia de conforto que costumava ter aqui.
— De onde vocês se conhecem? — Trisha questionou ao meu lado, esperando por uma resposta enquanto nos olhava.
— Ela é a dona da cafeteria. — Alego, demorando-me a desviar os olhos da senhora. — Nos encontramos algumas vezes aqui, porque ela é também é a padeira.
— Você é dona de uma cafeteria e cozinha? — Amy a encarou incrédula.
— Sim, é um dos meus prazeres. — Ela sorriu para a sobrinha, mas logo voltou a me olhar com aqueles mesmos olhos afetuosos. — Mas nos conhecemos de muito antes de começar a frequentar a cafeteria, não é, Ana?
— É... — Suspiro ao me sentir vencida enquanto os pontos iam se ligando na minha cabeça.
— Você utilizava um nome falso? — Trisha questionou.
— Helena é uma homenagem à filha que morreu no parto. — Expliquei, esperando que a senhora negasse, mas ela moveu a cabeça para concordar. — Muito antes de você adotar Samuel e Manuela.
— Adotar? — Amy empalideceu. — Você... — Ela abriu a boca, incapaz de pronunciar o espanto dos seus pensamentos.
— Parece que você e Samuel são primos. — Digo devagar, pressionando os dedos entre os seus. — Eu conheci a mãe de Samuel há muito tempo, mas foram poucas as vezes que conversamos. Quando ela comprou a cafeteria, eu já estava no segundo ano da faculdade, então Samuel e eu começamos a vir aqui para ajudar.
— Você manteve suas vidas bem separadas. — Trisha raciocinou, talvez a mais racional ali, pois eu tentava acalmar os ânimos de Amy enquanto minha cabeça rodava como um furacão de pensamentos. — Para manter sua verdadeira função escondida das pessoas.
— Os mesmos passos que vocês ensinaram Ana a dar. — Tereza rebateu, então sorriu e tocou o ombro de Renata. — Traga os pãezinhos que Ana adora. Eu vou fazer as bebidas quentes para esquentar vocês.
Trisha segurou meu pulso, só então eu lembrei do celular que ainda segurava com a transmissão ao vivo. Foi como lembrar que não estava ali somente por mim, mas por todos os que assistiam aquele vídeo. Por mais que eu quisesse apoiar Amy, eu também precisava dela para estar ali comigo. Então me aproximei do seu ouvido e sussurrei “foque na missão”. E pareceu ter resolvido, pois ela apertou minha mão de volta e me olhou com maior seriedade, a cor até voltou no seu rosto.
Quando Tereza terminou de preparar as bebidas e Renata entregou uma cestinha de pães de queijo, nós três estávamos concentradas no que realmente importava.
— Eu tenho uma dúvida, Tereza. — Digo para atrair a sua atenção, então pauso, primeiro para beber um gole do meu estimado cappuccino, que apesar das circunstâncias, continuava delicioso, e, segundo, para respirar fundo. — Como foi que você chegou à conclusão de que torturar e matar Manuela era a melhor opção para tirar uma confissão minha?
— Não foi minha ideia. — Seu rosto sério e velho mascarou qualquer demonstração de que a minha pergunta a tinha acertado de alguma maneira. — Mas sabemos que Torres tinha uma fixação por você e por quem estava ao seu redor.
— Então ela agiu sozinha? Contra às suas ordens e às dos Generais? — Trisha questionou logo em seguida.
— Infelizmente sim. Quando eu soube já era tarde, mas enviei a escolta atrás dela ainda assim.
— Não foi atrás de mim? — Estreito os olhos, confusa.
— Eles já estavam atrás de Torres antes, quando seguiram o rumo da sua casa.
— Ela foi clara quando disse que tinha chamado reforços.
— Um blefe, com certeza. Não há qualquer registro sobre um chamado dela. E ela provavelmente sabia que haveria consequências se fosse pega sem qualquer informação relevante à Bandeira.
— E ela nunca conseguiu uma confissão sobre Isa Miranda. — Trisha pontuou com semblante neutro. — Você já sabia a identidade de Isa?
— Não, mas sempre desconfiei de Ana. Julguei que se a pressionasse de alguma forma as coisas iriam sair do controle dela e ela se revelaria.
— Para vocês usarem a voz de Isa Miranda para impedir o povo de continuar nas ruas. — Concluo o raciocínio, pois foi o que Torres tinha me oferecido e eu não duvidava de que fosse o plano principal da Bandeira.
— Vamos ser sinceras, Ana, nós duas queremos que esse tumulto nas ruas acabe, porque já perdemos demais nessa luta.
— O que eu não sei se concordamos é a forma que isso deveria acabar. — Suspiro, pensando no assunto enquanto a observava. — Por que você quis essa reunião e por que não impediu que seus filhos corressem perigo?
— Eu nunca pude controlar Manuela, você sabe disso muito bem.
— E nem aos seus soldados, se deixou aquela mulher interrogar e matar a sua filha. — Amy falou em tom azedo ao meu lado, eu somente a olhei para me certificar de que não estava buscando confusão, mas ela só parecia absorver os fatos.
— Não é fácil dar conta de tudo ao mesmo tempo, Amy.
— Você não deveria precisar dar conta se simplesmente abdicasse de todo esse totalitarismo. De todo esse poder sobre as pessoas. A que preço você mantém tudo isso? Olha onde a sua violência te levou, tia.
— Mesmo vocês devem ter um mínimo de raciocínio e noção para entenderem que eu não decido como tudo deve prosseguir na prática. — Ela suspirou de uma maneira profunda, eu somente aguardei; ela mirou o celular quando voltou a falar. — Eu não era a favor da violência, mas se tornou o método mais eficaz, e não com a finalidade que vocês pensam.
— Então com o que? — Indaguei. — Com o que a violência colaboraria?
— Para manter os soldados colaborativos. — Outro suspiro, dessa vez ela apoiou os braços no balcão e se curvou para ficar próxima de mim, olhando-me da mesma altura. — Foi uma coisa adquirida com as gerações e sempre viram como algo que funcionava, não é simples de se quebrar.
— E você precisava de algo para os manter ao seu favor e não se virarem contra você. — Trisha falou em tom de comentário, talvez para amenizar a acusação por detrás.
— Eu preciso de pessoas que possam seguir ordens e que mantenham as ruas seguras. — Tereza a encarou. — Não se governa sozinha, eu herdei esse poder e segui os passos que me foram ensinados, pois foi como funcionava há anos. Mas eu sei das falhas, sei que não é um sistema eficiente para todos, eu duvido de que haja um que forneça essa satisfação.
— Mas você está disposta ao quê? — Eu movia a caneca em mãos, pois me sentia inquieta. — Com essa reunião... O que você espera conseguir aqui?
— Expor que usa seus soldados por conveniência não deve te dar o melhor visual em frente deles agora. — Amy comentou.
— Sim, você tem razão. Estou me colocando em risco por justamente estar falando sobre isso com vocês... — Ela olhou para Amy, e então para o celular, erguendo uma sobrancelha. — E para todos.
— Então por que se colocaria em risco?
— Porque eu não quero nada acontecendo aos meus filhos. — Seu tom pareceu verdadeiro quando voltou o olhar para Amy. — Eu não quero que nada aconteça com Samuel. Perder Manuela foi o pior golpe que já sofri e me imaginei sofrendo. Se as coisas precisam mudar para eu poder proteger o meu filho, que assim seja.
— Falar isso com os seus soldados ouvindo não coloca Samuel em risco? — Questionei, sentindo-me preocupada com a ideia de ele estar em risco por nossa causa naquele momento.
— Eu o enviei à um lugar seguro. — Ela me garantiu, sorrindo um sorriso fraco e sem ânimo. — Eu não poderia fazer o mesmo com Manuela ou Amy, poderia?
— Seus filhos sabem sobre a sua posição? — Trisha questionou.
— Não. Estavam mais seguros sem saber. — Ela mirou o balcão com pesar, era difícil definir as suas expressões por trás do endurecimento da sua pele velha. — Ou eu achava que estavam.
— Perder alguém que ama realmente é um baque. — Amy ainda a olhava, mas ao menos dessa vez o tom foi mais brando. — Ainda assim não consigo acreditar que a morte de Manuela tenha sido o suficiente para te fazer recuar e se colocar em risco.
— Você não precisa acreditar em mim agora, Amy. Mas pense comigo. Até hoje a liderança da Bandeira Azul e de grande parte das demais é passado para o segundo filho, às vezes o primeiro. Samuel não tem qualquer intenção ou jeito para o cargo, eu nunca o eduquei para isso.
Nisso concordávamos. Samuel era professor, amava ensinar e cuidar das crianças. Tinha uma grande devoção pelo que fazia e se empenhava grande parte do tempo nisso. Se meter com política e violência nunca sequer passou pela cabeça dele em todas as conversas que tivemos – e não foram poucas. Ele preferia mudar o mundo através das crianças, era no que acreditava.
— Eu tinha fé de que Manuela seria a pessoa certa para isso. Eu a deixei livre para participar dos grupos e se empenhar pela causa que vocês lutam. Achei que isso a faria uma excelente candidata para manter o equilíbrio dos dois lados, ela só precisava de um pouco de maturidade e confiança... — Tereza mordeu o lábio, os olhos vidrados no balcão até então, sem tencionar terminar a frase que começou. — Mas eu estou velha agora. Preciso tomar as últimas decisões enquanto ainda posso, e já não aguento uma guerra nas ruas nessa altura da vida, depois de tudo o que perdi.
— Então você está aberta a negociações. — Trisha falou devagar com o tom mais firme, atraindo os olhos de Tereza para si. — Mas se está se colocando contra os Generais e soldados, sabe que a sua liderança enfraquece agora.
— Não, nem todos. Tenho adquirido bons aliados com o passar do tempo que querem mudanças. Mas sim, ainda terei problemas com os demais e é provável que não seja tão pacífico as mudanças que podemos fazer juntas se nos unirmos, mas não seria fácil de qualquer maneira.
— Então está disposta a se unir aos grupos organizados para apoiar à Revolução?
— Sim, estou. — Ela olhou profundamente para cada uma de nós. — Pelos meus filhos... Pela memória de Manuela, principalmente, eu quero tentar mudar as coisas do jeito que estão, para que nenhuma mãe ou pai precisem sentir a dor de perder um filho. De ver um filho ferido.
— Não vai ser fácil. — Amy comentou.
— Já não está fácil agora. — Argumentei. — E eu acredito que seja o melhor plano que temos nesse momento.
— Eu não posso oferecer garantias, mas meus aliados e eu faremos o possível para manter a ordem e o controle para que ninguém mais sofra. — Tereza ainda estava séria, ou talvez sempre tivesse sido o seu aspecto e eu nunca dei importância antes. — Mas eu vou precisar do apoio de vocês. Sei que são as mais ativas no movimento e saberão lidar com as problemáticas que vão surgir de agora em diante.
— Teremos que trabalhar em acordos e nós falaremos com os demais grupos, mas sim, é uma coisa que pode acontecer. — Trisha foi a primeira a responder.
— Ainda não posso prometer segurança à nenhuma de vocês, mas acredito que já é um começo.
— Nunca estivemos seguras, estamos acostumadas. — Digo num meio sorriso, sem grande humor apesar dos acontecimentos. — Eu não confio em você, Tereza, mas confio nas suas intenções. Espero não estar enganada, mas eu ajudarei no que for possível se significar a melhora real para o povo.
— Eu não esperaria menos de você, Isa Miranda. — Ela me encarou, e então mirou Amy. — Posso contar contigo? Eu sei que não fui sincera e te magoei com isso, mas tente entender os meus motivos, Amy.
— Eu ainda não consigo entender os seus motivos e nem sei se entendendo eu vou concordar. Mas eu não deixarei o movimento parar por causa dos meus sentimentos e minha mágoa por você. Ainda tem muitas coisas que você precisa me responder. — Amy fez uma pausa e suspirou de maneira ruidosa, como se todo o ar tivesse saído dos seus pulmões antes de continuar. — Mas eu não abandonarei Ana e a revolução. Se o povo concordar e os grupos estiverem de acordo, não vejo por que não trabalharmos juntas.
E foi assim, finalizando o meu estimado cappuccino, que o Acordo de Paz foi firmado entre a Bandeira Azul e os grupos organizados de resistência. A população festejou a ideia de terem sido ouvidas; mas a verdade era que aquilo era só o começo.
Tão logo as negociações começaram, as tropas lideradas pelo General Marcondes ofereceram resistência. Isso marcou o início sangrento do que tentamos evitar: uma guerra civil. Mas o General e os seus soldados encontraram um muro de armas e soldados esperando por eles, pois a população já estava cansada, mas não vencida, e isso nos rendia pontos a mais nessa luta.
Não estávamos sozinhos, não iríamos desistir.
A Revolução já tinha começado, e não havia nada nem ninguém que a faria parar. Nem o General Marcondes, nem a própria morte. Iríamos lutar até o fim.
Fim do capítulo
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Dressa007
Em: 20/05/2022
Por essas revelações eu não esperava... foi muito tenso todos estavam com os nervoso aflor da pele enfim o mistério foi revelado...
Autora nunca deixa na mão parabéns...
Resposta do autor:
Olá Dressa!
Os nervos estavam bem a flor da pele mesmo!
Fico feliz em surpreender :D
Não deixo na mão mesmo hehe :3
HelOliveira
Em: 19/05/2022
Alex vc sempre consegue me surpreender...nunca imaginei quem seria a Dona da p...a. Toda....achei que seria um homem....eu não tinha superado a morte da Manuela e agora pior ainda ....da pra matar a Torres de novo?
Muito louco...vou terminar de ler..
Resposta do autor:
Olá Hel!
Que bom saber, adoro fazer surpresas!
De todas as versões dessa história, sempre foi uma ideia principal de que algum parente da Amy viesse a representar um problema grande entre elas. Então eu estava com o arquivo aberto na última semana e tive essa brilhante ideia de que a presidente podia ter essa ligação dupla com a Amy e o Samuel. :)
Será que podemos rematar uma pessoa? Má ideia não seria ahahaha
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Lea
Em: 19/05/2022
Fiquei até tensa lendo todo o capítulo. A tia da Amy presidente da Bandeira Azul,mãe da Manuela e do Samuel,dona da confeitaria,essa mulher é uma camaleoa!
Já ia te xingar Alex,se você matasse a Gwen. É impressão minha ou Trisha, Débora e Gwen estão muito próximas? Essas mãos no joelho falou muita coisa!
Agora as mudanças se concretizarão.
Resposta do autor:
Camaleoa dona da p#rra toda, né? ahahah
Olha, que bom que não fui xingada! Ou quase ahahaha
Mas confesso que desde o início foi o meu plano matar a Gwen :3
e ela ía morrer nesse capítulo. Mas um santo divino se apoderou do meu corpo e falou "não, hoje não"
E puf, ela tá vivinha :3
E não é impressão sua não :3
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