Uma Revolução
A primeira coisa que descobri foi que existia uma rede de túneis em pontos específicos – e talvez esquecidos – da cidade. Aquilo foi construído há séculos, era perceptível o estado de conservação, mas havia um certo ar de abandono e morte. A iluminação era boa – para um túnel velho – e a ventilação funcionava. O silêncio era ensurdecedor e eu me sentia em um filme de terror ou ficção científica. Se apareceria algo ali dentro, não seria tão assustador quanto um exército de soldados prontos para me levarem para um interrogatório. O pensamento me fez tremer e contrair, gerando um gemido de dor que fez Gwen me apertar um pouco em seus braços.
Então descobri que havia uma engenhosidade no veículo e na rua que permitiu que saíssemos do veículo e caíssemos no acesso ao túnel. Claro que houve todo um cálculo e uma estimativa de erros – tinha uma grande porcentagem de dar errado. Mas o assento do banco traseiro se abriu e nós caímos, adentrando onde era para ser asfalto. Alguns metros nos separavam das viaturas, mas nunca estivemos tão inalcançáveis para eles. Caímos num amontoado de cinco colchões, o teto se fechou antes que eu visse qualquer coisa. Agora estávamos ali embaixo, Gwen me carregava em seus braços como um cavalheiro de armadura à passos apressados, por pelo menos meia hora.
— G... Eu vou morrer, não vou? — Perguntei, mas não ouvi resposta. — Mesmo que tenha um médico no fim desse túnel... ele não vai ter sangue o suficiente.
— Pare de falar besteira, você precisa economizar suas forças e se manter forte. Logo vamos chegar e você receberá cuidados.
Eu podia ouvir seu tom acelerado por causa do rápido caminhar. Mesmo que ela tivesse um bom porte e um bom treinamento, carregar meu corpo naquela posição devia ser exaustivo. Eu via o suor escorrer pelo seu rosto e pingar da ponta do seu queixo na camisa que eu tentava pressionar na costela, mas já não tinha força para isso então só segurava o tecido.
— Espero que Manuela possa me perdoar. — Pisquei, olhando para o corredor a frente, mas acabo enxergando somente escuridão e uma pequena luminosidade, onde enxergo Manuela, andando de costas a me encarar.
— Cala a boca, Ana. Estamos chegando. Espere só mais uns minutos. — Foi a voz de Gwen, mas eu não conseguia desviar os olhos da figura mais à frente.
— Manuela... Você está mesmo aqui?
— Sempre estive, você quem nunca quis me ver. — Ela sorria de um jeito divertido, usando uma camisa xadrez vermelha e uma calça agarrada com botas. Parecia realmente ela mesma, com os cabelos soltos e os olhos alegres, leve como nunca a vi.
— Não me diga que ainda não superou sua paixão por mim após tanto tempo.
— Não seja idiota. Por que não levanta e vem descobrir?
Eu me levantei, de repente me sentindo leve e esquecendo a dor que me incomodava. Segui Manuela sem realmente ter aquele peso que normalmente me perseguia, era como se nem tocasse o chão porque não sentia mais nada. E, ao mesmo tempo, era como se todas as coisas e detalhes importassem, um valor a mais que vibrava em meu interior e fazia uma felicidade genuína nascer.
Manuela me levou adiante, foi como andar na escuridão tendo a certeza de que nada me faria tropeçar e cair. O simples andar era como se estivesse mergulhando num oceano e sentisse as vibrações no meu corpo, levando-me adiante. Sentia-me mais alegre, mais livre. Parecia muito bom estar ali.
Então vi um quarto sem janelas, meio escuro. Duas camas em cantos extremos e poucos móveis nesse espaço. A maioria parecia ser um improviso dos aparelhos que se encontra em hospital. O mais curioso foi ver meu corpo na cama a esquerda, ligado nesses aparelhos. Eu estava sozinha, não havia mais ninguém ali. Minha pele estava pálida e com um cobertor por cima. Os lábios rachados e roxos. Não era preciso ninguém me dizer que eu estava morrendo.
— Você está morrendo. — Manuela alertou.
Eu me senti revirar os olhos, mas voltei a atenção para ela, que estava bem ao lado do meu corpo. Eu não me senti desesperar com a possibilidade de morrer, de estar tão próxima ali da morte. Havia uma estranha calma que pairava no ambiente, impossibilitando qualquer sentimento ou reação negativa que eu pudesse tentar.
— Se ficar mais tempo aqui não terá mais volta. — Ela voltou a falar. — É o que você quer? Deixar todo mundo e a nossa causa para trás?
— Amy deixou que me dessem como morta... Talvez devesse morrer.
— Sua vida se resume às decisões de Amy agora? Que decepção, Ana. Achei que Isa Miranda e a revolução nas ruas valessem mais para você que uma bu-
— Amy é especial.
— E é humana. Uma humana. Quer colocar um erro na frente de milhões de pessoas?
— Eu preciso dela do meu lado, senão que sentido teria toda essa luta?
— E você a quer do seu lado de que maneira? Olha onde você está, Ana. Se a quer, você precisa voltar. Precisa lutar. Senão deixe tudo para trás e venha comigo.
E eu não poderia ter Amy sem lutar pelas demais pessoas, mesmo que não merecessem todo o sangue derramado. A liberdade era a única coisa que importava, de sermos quem quisermos, de amarmos, de pensarmos diferente. De simplesmente existirmos. Independente do jeito que éramos, todos mereciam o direito de seguir a vida sem o medo de ser calado.
E foi assim, simplesmente assim, que aquele mundo dissipou. Num simples pensamento, como se toda aquela fantasia não passasse disso: uma ideia.
Quando abri os olhos, estava dentro do meu corpo novamente. Aquele peso voltou, mas era puramente a gravidade. Sentia-me mais fraca, no entanto, como se o respirar causasse um grande incomodo no meu peito. Ainda estava sozinha, tudo era um silêncio.
Sentei devagar, sentindo uma dor incômoda na região onde levei o tiro, além da tontura que me acometeu nesse primeiro movimento. Subi a barra da blusa moletom que estava no meu corpo, tendo que retirar o curativo para poder ver o ferimento. Estava feio, ainda era um buraco vermelho, e deveria ter outro nas minhas costas. Isso me fazia constatar que não passei tanto tempo ali, desacordada.
Coloquei as pernas para fora da cama, agora encontrando a calça moletom que me cobria a pele. Meus pés possuíam meias da cor do arco-íris, e isso me fez sorrir. Movi os dedos dos pés, minhas mãos pressionando na ponta do colchão. Eu estava viva, sentia frio e dor, mas julguei que fosse melhor do que morrer sem ter concluído minha missão.
Eu apoiei os pés no chão enquanto retirava a agulha do meu braço e aquele incômodo aparelho do meu nariz, só então me ergui. Eu sabia que não deveria, mesmo a tontura me alertou sobre a minha fraqueza, mas eu também precisava descobrir o motivo de estar sozinha naquele lugar. Ainda tinha o aspecto dos túneis que Gwen percorreu comigo, como o fato de não possuir janelas, mas a outra cama estava arrumada, indicando não ter outra pessoa dormindo ali. Gwen não me deixaria sozinha a menos que algum problema tivesse ocorrido.
Esperei a tontura passar e caminhei alguns passos naquele pequeno espaço, em busca de me habituar. Encontrei meu celular sobre a mesinha entre uma cama e outra, tive que pressionar o botão de ligar e então fazer o reconhecimento facial, da digital e ainda digitar o código PIN. Coloquei o aparelho no bolso enquanto carregava as mensagens, olhando a data somente para ter certeza dos dias que passei ali, desacordada. Foram somente quatro dias desde a visita da Tenente Torres. Era de manhã, perto do horário de almoço.
Considerei que Gwen tivesse ido procurar comida. Lembro vagamente de algum comentário dela sobre a interligação dos túneis com pontos específicos da cidade. Mas a menos que tenha algum meio de transporte dentro do túnel, ela levaria muito tempo para ir e voltar andando.
Respirei fundo e investiguei mais as coisas ao redor. Tinha um notebook debaixo do travesseiro na outra cama, assemelhava-se ao de Amy, porque era o mesmo modelo escuro e possuía a figurinha desgastada e suja do arco-íris. Talvez ela tivesse vindo me visitar nesse meio tempo e esqueceu o computador, ainda assim o pensamento me aqueceu um pouco. Talvez ela voltasse.
Segui para o pequeno cômodo adiante quando não encontrei água ou comida. Era um banheiro, parecia limpo. Tinha um chuveiro e um vaso sanitário, além do pequeno espelho sobre a pia. Visualizei meu rosto com grande pesar, notando que estava mais magro e pálido, com os lábios rachados e profundas olheiras. Meu cabelo estava seco e cheio de nós.
Eu estava horrível. E precisava urgentemente mudar aquela situação. Julguei que ajudaria a lidar com o que estava por vir se cuidasse do meu estado atual antes que alguém me encontrasse naquelas condições deploráveis.
Então decidi: cortaria o cabelo primeiro.
De que maneira eu não sabia, mas o faria assim mesmo. Então vasculhei o armarinho embutido com a pia, tudo numa lentidão e cuidado para não forçar os pontos que remendavam os buracos nas minhas costelas. Encontrei uma tesoura e uma navalha, ambas velhas e sujas, mas consegui limpar. Consegui um pequeno pente também, com alguns dentes faltando, mas era melhor que nada.
Cortar e raspar foi difícil, porque não conseguia manter os braços erguidos por muito tempo. Se eu fosse a superfície novamente, julguei que uma mudança na aparência seria bem-vinda.
No fim, eu tinha toda a lateral e a nuca raspada, com somente uma camada grossa no topo da cabeça. Eu certamente não me reconhecia. Não tinha ficado perfeito, mas eu certamente pediria para alguém finalizar essa situação mais tarde. Eu me perguntei se Samuel iria rir do meu corte ridículo de cabelo e me comparar à uma adolescente em sua alta taxa de hormônio. Mas pensar nele me fez lembrar de Manuela e eu me senti culpada.
Ele a tinha deixado sob a minha custódia, e agora estava morta. Ainda que o meu encontro com aquela versão dela, de quando eu estava quase morrendo, fez com que ela parecesse leve e sem remorso. Sem um sentimento de me acusar de nada. Ainda assim eu sentia falta dela como nunca achei que sentiria, porque nunca imaginei que logo Manuela morreria pela causa. E por esse mesmo motivo eu tinha que me manter forte e seguir em frente para fazer a nossa luta valer a pena e o seu sacrifício não ser em vão. Manuela não seria esquecida jamais se dependesse de mim.
Tirei os curativos como pude e tomei banho, buscando manter os pontos limpos. Com sorte tinha um sabonete em barra e outro líquido, que usei no cabelo. Quando terminei me sentia melhor, sem o mesmo peso, e considerei isso uma vitória quando voltei para o quarto. As roupas não fediam, então coloquei o mesmo conjunto de moletom e as meias coloridas.
Deitei na cama para descansar e pensar no que fazer, então peguei o celular ainda no bolso e comecei a verificar todas as notificações. Lembrava vagamente sobre Deborah ter protegido a minha localização, eu só esperava que continuasse valendo naquelas condições.
Enviei uma mensagem para ela perguntando se estava protegida, ela confirmou, logo em seguida enviando uma mensagem com “minha garota está viva!” Enviei uma foto para ela do meu rosto, atualizando dos meus status. Questionei sobre o que deveria fazer e como as coisas estavam lá em cima, mas ela demorou para responder e eu usei o tempo para finalizar todas as notificações e visualizar meu e-mail.
Não havia nada no noticiário, mas era de se esperar. Então eu ainda estava às cegas até que alguém dos grupos me dissesse algo ou aparecesse por ali.
— E eu preocupada que você pudesse ter se ferido, desmaiado. — Eu baixei o celular e vi Amy entrar devagar pela porta em frente à minha cama. Carregava uma mochila nas costas, outra no peito e uma mala de mão, que foram sendo colocadas no chão uma por uma enquanto ela falava. — Mas o que eu recebo é uma foto do seu novo corte de cabelo e uma ligação da Deb perguntando se eu tinha deixado você disponível.
— Você não ouviu falar? Namorar com pessoas mortas é o novo fetiche do momento. — Eu a provoquei. — E você está viúva, querida.
— Não brinque com isso.
— Venha aqui me impedir.
Ela veio sem hesitar, engatinhando sobre a cama até estar sobre o meu corpo. Deixei o celular de lado e segurei seu rosto em mãos, admirando-a e me sentindo sorrir aliviada. Ela estava aqui, realmente estava. E havia um misto de emoções nos seus olhos castanhos, aquela ternura e paixão que sempre encontrava nela, agora também mesclado com um amor e um alívio. Uma certeza de que estávamos bem e vivas. Juntas, enfim.
Tomei seus lábios nos meus, suavemente movendo os meus e sentindo a maciez e umidade dela. Seu hálito adentrou minha boca e nosso beijo estalou uma vez, então outra e mais outra. Acariciei suas bochechas e suguei seu lábio, meu coração estava em pulos alegres com o simples contato. Amy começou a distribuir beijos pelo meu rosto, arrancando uma risada em puro deleite, mas gemi de dor porque aquilo forçava minha costela sobre o ferimento. Infelizmente ela também parou com um pedido de desculpa, e se sentou ao meu lado na beira da cama.
— Eu fiquei tão preocupada, Ana. — Ela falou enquanto acariciava o meu rosto, observando-me ainda com aquela apreensão nos olhos.
— Eu sinto muito, Amy.
— Eu também. Você deve ter tantas perguntas e deve estar tão cansada.
— Estou com fome, isso sim. Diz que tem três hamburgueres naquelas bolsas, por favor.
— Como se você pudesse comer algo assim. — Ainda assim ela riu com a ideia.
— Dê na minha mão e você verá se não posso.
— Você precisa de vitamina e repouso. Perdeu muito sangue. Precisa ir devagar agora. Então sem mais novos cortes de cabelo, entendeu?
— Eu nem tenho mais cabelo agora, querida, você não precisa se preocupar.
— Mas eu gostei do visual. — Ela se inclinou e selou os meus lábios, movendo os dedos na mecha no topo da minha cabeça. — Te deixou com um visual mais rebelde. É sexy.
— Gostou? Fiz especialmente para você.
— Amei. Só faltou uma coisa. Fique aqui.
Ela foi até o banheiro e voltou com a navalha. Eu me sentei e ela finalizou o meu corte, mas acrescentou um risco sobre a minha sobrancelha. Liguei a câmera do meu celular e sorrio, gostando do resultado. Tinha ficado realmente diferente e fora do padrão, que era justamente o que eu queria.
Amy abriu uma das bolsas no meu colo, revelando duas marmitas mornas, mas era melhor que nada. Comi ali mesmo, apreciando o sabor de cada coisa e bebendo toda a água da garrafinha, sentindo-me recuperar parte da minha energia. Só então Amy abriu a mala de mão e revelou armas e o meu computador, felizmente a pistola que Gwen me deu de presente estava ali, recarregada e com munição.
— Qual o plano agora, Amy? — Questiono enquanto coloco travesseiros atrás das minhas costas, tendo que encostar devagar. — Morrer funcionou?
— Era somente para ganhar tempo. Eles não te queriam morta, ao tempo que não conseguiram uma confissão sua sobre ser Isa Miranda. Então ainda há a dúvida pairando lá dentro sobre você ser a Isa ou somente mais um membro dos grupos.
— E como vamos usar isso ao nosso favor agora?
— Temos algumas opções para analisar, estávamos esperando que você acordasse para discutirmos mais sobre o assunto. — Ela se aproximou com o próprio computador em mãos e deitou junto comigo com o aparelho no colo, a tela ligada. — Achamos que você deveria passar mais tempo aqui escondida, para continuar publicando as coisas em segurança. Dessa forma eles vão pensar que você não era realmente Isa Miranda.
— E vão continuar buscando. Vocês vão correr mais risco, Amy.
— Estamos preparados para os riscos, Ana. E precisamos de você para expor tudo o que conseguimos descobrir da Bandeira Azul. Assim eles vão enfraquecer e buscar diálogo.
— Eles não me parecem estar buscando diálogo, Amy. Aquela maldita matou Manuela, ela atirou em mim e iria atrás de você.
— Eles vieram atrás de mim, mas graças ao seu aviso eu consegui sair antes.
— Amy... — Eu a olho, preocupada com a ideia de a terem machucado de alguma forma, mas ela calou minhas possíveis preocupações ao beijar meus lábios.
— Estou inteira, bem aqui. Eu só não posso ser avistada lá em cima, assim como você. Mas fui dada como procurada.
— As coisas estão mais intensas para o nosso lado, não estão?
— Sim, estão. Estamos sendo cuidadosos, mas precisamos aumentar nossas informações, e você é a única chave para isso.
— E o que eu preciso fazer?
— Deb vai te enviar os dados atualizados sobre os crimes dos Generais e dos soldados. Você terá que revelar a identidade deles. Com isso expor a família deles.
— Trisha vai sequestrar a família deles, não vai? — A ideia não me agradava, nunca me agradou, mas naquele momento, um sequestro era o menor dos traumas e dos crimes que cometeríamos.
— Sim, ela fará isso, caso contrário eles não vão parar a perseguição para negociar.
— Está bem. Contanto que fiquem seguros, eu farei isso. — Ela me ajudou a pegar o computador, então esperei que ele se iniciasse. — Samuel está bem?
— Sim, eles não vão atrás dele, mas mantém a vigilância, agora que você...
— Que eu morri. — Sorrio, tombando a cabeça de lado para apoiar no seu ombro. — Parece que faz uma eternidade desde que conversei com ele, mas o medo é tanto que cheguem perto dele.
— Não vão chegar. Foi bom terem se afastado, sei que é o seu amigo, mas é o que dava para ser feito. Assim não o associam com nada dos grupos e o deixam em paz. — Ela beijou o topo da minha cabeça. — Sinto muito sobre Manuela.
— Eu também. Sei que eram amigas. Ah... Samuel deve estar devastado. A mãe dele então...
— Isso vai passar, Ana... Nós vamos vingá-los, mas com justiça.
— Espero que sim. Ou eu nunca me perdoaria. — Respiro fundo enquanto digito a senha para liberar o computador, só então notando a aliança ainda no meu dedo. — Onde está Gwen? Ela está bem?
— Sua esposa está bem, não se preocupe.
— Nós morremos, querida, o casamento vai “até que a morte as separe”. Então estou livre na pista se quiser fazer seu movimento.
— Acabou de morrer e já está pensando no próximo alvo? Que rapidinha você, Ana Martins.
— Estou dando a chance da sua vida, Amy Fontenelle. — Retiro a aliança do dedo e deixo na mesinha do lado, virando o rosto para beijar sua bochecha. — Case comigo, vet, e vamos revolucionar as ruas.
Ela virou o rosto para me olhar, analisando-me de perto. Eu sabia que tinha sido súbita, mas que momento melhor teríamos? Eu tinha acabado de perder uma amiga, experenciado a morte e ainda corria riscos. Quando teríamos uma chance verdadeira de ficarmos juntas de verdade se não criássemos a oportunidade?
— Eu ouvi errado ou você acabou de me pedir em casamento? — Ela estava genuinamente confusa, mas um sorriso já ameaçava abrir nos seus lábios.
— Eu não posso me ajoelhar e não consegui bolar uma aliança, querida, mas sim, estou te propondo casamento, aqui mesmo no esconderijo de um túnel subterrâneo. Não é nada romântico, eu sei, não é como eu planejaria eu garanto. Você pode acabar não aceitando, é claro, nunca conversamos diretamente sobre isso. — Rio baixinho, fazendo uma careta de dor. — Mas você aceita? Quer ser a minha esposa, Amy?
— E eu lá sou maluca em dizer não para você? — Ela abriu aquele sorriso, aquele doce e adorável sorriso pelo qual eu tinha me apaixonado, agora com um brilho único que eu poderia pausar o tempo somente para a olhar. Ela ficava incrível sorrindo daquele jeito. — É claro que eu aceito, Ana, eu quero ser a sua esposa. Nada me faria mais feliz agora.
Ela me beijou, mas eu não conseguia parar de sorrir e ela acabou rindo, distribuindo beijos pelo meu rosto com carinho e alegria. Eu não sabia se poderíamos assinar os nossos nomes tão cedo para marcar o nosso casamento, mas eu me contentava em esperar se significava que eu podia permanecer ao lado dela sem precisar esconder nossa relação de ninguém.
Eu não precisei escrever um novo livro, bastou eu listar os nomes e os crimes numa única edição, e as forças militares deixaram de atirar nos protestantes. Começaram a usar métodos não letais para calar as vozes, mas chegou num ponto que a multidão vinha com tanta frequência com a organização dos grupos, que o esforço parecia em vão.
As greves trabalhistas vieram como aliadas, e começaram a ganhar força. As ruas já não tinham o mesmo movimento, porque as pessoas não saíam para trabalhar, e sim protestar. Além de mim, repórteres anônimos surgiram para dar um teor midiático ao que estava acontecendo, divulgando sobre os movimentos e fazendo a notícia percorrer de maneira generalizada para quem quisesse ver.
Por outro lado, a Bandeira Azul retaliou. Deixaram de repor os alimentos dos mercados e fizeram as fronteiras se fecharem, isolando os estados e forçando uma espécie de confinamento. Gerou fome, inquietação e revolta. As escolas foram fechadas, as contas nos bancos foram congeladas, impedindo que as pessoas buscassem um meio de sobreviver nessas situações. Comida foi estocada, mas nem de longe era o suficiente para se manterem aquecidos e saudáveis naquele inverno, que veio frio, mas que esquentou as ruas com protestos cada vez mais violentos.
As pessoas começaram a revidar os ataques porque estavam com fome e temiam por seus entes. A pressão foi aumentando dos dois lados. Da Bandeira Azul para conter a revolução, e entre nós, para manter. Queríamos resultados verdadeiros, já não havia mais volta.
Quando obrigamos as pessoas a saírem das suas bolhas, fizemos também com que se ferissem com a verdade. Não tínhamos como preparar ninguém para a verdade sangrenta e corrupta que ajudamos a criar. E parecia não ter fim toda vez que olhávamos de perto, como uma mancha infeliz na roupa preferida. Era assim que via os Generais e a Bandeira Azul. Criamos um sistema que teoricamente estabilizaria a margem de crime e melhoraria as condições de vida da população, mas ao custo da liberdade de expressão e do livre arbítrio. Foi uma alienação coordenada que agora tentávamos extinguir.
Foi somente quando Trisha e o Pró-Independência mantiveram as famílias de vários militares e Generais em cativeiro por todo o inverno, que a Bandeira Azul abriu terreno para as negociações. E não somente isso: ela também tinha posse dos piores crimes da história e sobre as revoluções anteriores que tentaram apagar da memória. Isso os fizeram querer falar.
— Isso vai demorar. — Gwen falou certo dia. — Eles vão querer acalmar a população, calar os protestos para fingir acatar nossas demandas.
— Os protestos começaram contra as outras Bandeiras também. — Comentei.
Confesso que eu estava começando a ficar cansada de ficar escondida, bancando a Isa Miranda nas redes enquanto Ana Martins estava morta. Eu estava segura ali embaixo enquanto todos se arriscavam lá em cima.
— Eles vão começar a contra-atacar. — Gwen insistiu. — Vão fingir que essa negociação é séria, mas vão começar a colocar uns contra os outros.
— Para enfraquecer o movimento. — Amy pareceu raciocinar.
— Não temos como impedir. — Digo com mau humor. — As pessoas estão com fome. Estão cansadas também. Se eles querem lançar uns contra os outros, tem o cenário perfeito.
— Não se você lançar essa informação primeiro. — Gwen pontuou, erguendo as sobrancelhas para mim quando revirei os olhos. — O que foi? Você sabe que é a verdade.
— Claro, escreva sobre tudo, mas não viva mais nada. Eu não sou a droga de uma máquina, caramba. — Digo com raiva, afastando-me de ambas naquele pequeno espaço.
— Ana, o que está acontecendo? — Gwen me seguiu para fora do quarto, andando atrás de mim pelo corredor meio iluminado. — Fale comigo, Ana.
— Falar o que? Eu estou cansada. Não aguento mais escrever sobre isso e não nos ver perto de realmente concretizar essas coisas.
— Ei, vocês duas. — Amy também nos seguiu. — Não vão longe, Deb disse que está com problema de conexão nos túneis.
— De novo? — Gwen questionou. — Alguém precisa verificar isso pessoalmente. Pode ser fios velhos ou os soldados querendo invadir.
— Impossível. Ela teria visto pelas câmeras.
— Não se conseguiram invadir o sistema dela.
— Vocês precisam ser sempre paranoicas? — Pergunto com raiva, andando mais à frente. — Quem viria aqui embaixo procurar mortas?
— Se não acreditasse nisso, por que não anda sem arma aqui embaixo? — Gwen me provocou. — Fantasmas não mordem, Ana.
— Não comece com as suas piadas idiotas, Gwendoly.
— Ei, pare com isso. — Ela segurou meu ombro e se colocou à minha frente, impedindo que eu fosse adiante. — O que há com você? Você precisa de alguma coisa? Diga, e eu arranjo para você.
— Eu quero sair daqui Gwen. Quero ir ao parque, ao cinema. Quero comer na droga de um restaurante. Você pode arranjar isso para mim? Nenhuma de vocês pode!
— Ana. — Amy pareceu desconfortável, eu somente cruzei os braços. — Isso vai acabar, sei que é difícil agora, mas podemos aguentar mais um tempo.
— Quanto tempo, Amy? Pode durar a vida inteira e eu só sairei daqui debaixo como uma múmia. Faz meses, Amy! Meses que eu não vejo a luz do dia. Estou cansada de ficar escrevendo, eu não quero mais fazer parte disso. De que adianta? A gente luta e se sacrifica enquanto eles continuam no poder.
— E o que você quer, Ana? — Gwen me questionou com a expressão séria. — Você não pode simplesmente largar tudo e voltar lá em cima. Eles iriam te matar. De verdade agora, porque não tem nenhum impedimento quando já é dada como morta.
— Gwen, pare com isso, não vai ajudar em nada. — Amy tentou afastá-la, mas ela continuou no lugar.
— Eles vão te matar, Ana, para calar Isa de uma vez por todas. Não importa mais se você se tornar um mártir se eles conseguirem lançar a população contra nós. Para isso basta você subir. Basta se entregar.
— Eu não pedi por nada disso! — Protestei.
— Mas você aceitou fazer parte de tudo isso desde o começo! Você sabia dos riscos e quis continuar. Então não venha dar para trás agora, porque tem muitas pessoas contando com você. Muitas pessoas estão dando tudo para manter você à salvo, então não venha colocar tudo a perder porque você quer ver a droga da luz do dia.
— Gwen, pare com isso. Que droga... — Amy bufou quando o celular começou a tocar. Ela pareceu desligar e empurrou Gwen para a afastar. — Não é hora para isso. Você não pode simplesmente falar com ela desse jeito.
— Eu não pedi para morrer e nem para ser protegida. — Apontei o dedo para ela. — Eu não pedi por nada disso e você sabe, Gwen.
— Eu não me importo com o que pediu ou não, vocês duas sabem perfeitamente que concordaram com isso. — Gwen abaixou meu dedo e encarou a nós duas.
— Ela só está cansada, Gwen, vamos dar uma folga para ela. Discutir aqui entre nós não vai ajudar em nada, seria a oportunidade perfeita para eles. — Amy falou com seriedade, então bufou quando o celular tocou de novo. — É Deb. Eu preciso atender. Então parem de discutir. — Ela se afastou dois passos para atender, mas manteve os olhos em nós.
— Olhe, eu entendo o seu lado. — Gwen falou com a voz mais baixa. — Mas as coisas lá em cima estão um caos, Ana. Não tem parque, não tem cinema e nem restaurante. Não enquanto as lutas continuam acontecendo nas ruas. O que você acha que faria lá em cima? Você não pode sair atirando em soldados, não pode protestar, porque todos precisam de você escrevendo para manter todos informados.
— Eu não-
— Eles temem o que você representa, Ana. Você é a voz da população. Você está expondo as rachaduras do sistema que fomos construídos. E todos lá em cima querem que você continue mostrando o que está errado para que eles saibam pelo que estão lutando. Não é por você ou pelos grupos, mas por liberdade. Você sabe disso perfeitamente.
— Não torna mais fácil. — Sussurrei.
— Você não está sozinha, Ana. Você tem Amy, você devia ser grata por poderem estar juntas no meio desse caos, porque a grande maioria não tem esse luxo. — Eu não falei nada porque ela tinha razão, mas cruzei os braços, sentindo-me frustrada e com um cansaço que pesava os ossos no lugar. — Você não tem a opção de desistir, Ana, sinto muito, mas você perdeu essa oportunidade lá atrás, quando aceitou se casar comigo e espalhar a mensagem nas ruas. Você não vai me dizer que quer largar tudo, que não é justo, porque eu não vou deixar você jogar fora toda a nossa luta quando já viemos até aqui. Então por mais difícil que seja, lembra que já temos sangue demais nas mãos para ignorar o fedor desse sistema.
Ela segurou o meu rosto e continuou com aquela expressão séria e determinada, aproximando-se um passo para provavelmente me deixar ver de perto a seriedade e a urgência nos seus olhos. Era quase um desespero, se eu olhasse mais fundo, e para isso eu me senti ceder, incapaz de a contradizer.
— Nós precisamos de você, Ana. Sinto muito, está bem? Mas precisamos que continue escrevendo, que continue convocando a população e não os deixe desistir. Você não pode desistir. Porque foi assim que as outras revoluções deixaram de existir. Se você fraquejar, pronto, eles ganham e seremos todos varridos da história. Todos voltam para a bolha. É o que quer?
— Claro que não, você sabe disso.
— Então não venha mais me dizer essas drogas de desistir, entendeu? Eu sei que não pode ir lá em cima, mas não vai ser para sempre. Leve o tempo que precisar, mas não vai ser para sempre. Quando subir, vai ser para clamar a vitória. Para ver as pessoas livres e sem medo. — Ela acariciou as minhas bochechas e beijou a minha testa. — Seria ótimo subir e não ser interrogada no caminho de casa, não acha?
— Sim, seria. — Sorrio, descruzando os braços por fim.
— Nós precisamos descer mais fundo. — Amy falou, olhando entre nós, parecia mais pálida. O que me preocupou foi ela pegar a arma no cós da calça. — Eles desceram aqui, cortaram a nossa comunicação com as coisas lá em cima. Deb não consegue ver nada, então estamos às cegas aqui.
— E os reforços? — Gwen questionou, afastando-se de mim.
— Estão descendo também, mas precisamos desaparecer antes que nos encontrem primeiro.
— Tudo bem, eu sei o caminho para os túneis de esgoto. De lá podemos ir para fora da cidade.
— Mas os nossos equipamentos estão no quarto. — Digo com inquietação, pois sentia meu coração martelar no peito de repente, temendo o que viria a seguir.
— Precisamos ir, Ana. Esqueça tudo, Deb vai destruir os eletrônicos para criar uma distração. — Amy segurou minha mão e acariciou. — Só precisamos chegar nos túneis mais baixo para fugirmos.
Gwen ergueu a arma de repente e atirou pelo caminho que viemos, assustando-me. Quando olhei, era um soldado que caía no chão, mas pudemos ouvir o som de botas pesadas seguindo na mesma direção.
— Não temos tempo. Precisamos ir agora. — Gwen alertou. — Estamos perto de um dos acessos para o esgoto.
Então nós corremos. Eu retirei minha arma do cós da calça também e busquei manter minhas pernas firmes, porque as sentia trêmulas e descoordenadas nos primeiros passos. Eles vieram por mim, foi o que pensei. Se estivéssemos no quarto, já estaríamos todas mortas.
Então corremos.
E eles correram atrás de nós. Atiraram para matar, Gwen estava certa sobre não se importarem mais em me capturar com vida. Precisávamos fugir, caso contrário eu temia que fôssemos morrer ali mesmo.
Fim do capítulo
E é isso pessoal :) penúltimo capítulo.
Estou escrevendo o último nesse momento e então faltará somente o Epílogo.
Por isso peço perdão pelos possíveis erros, mas eu não tenho voltado para reler o capítulo.
Espero que gostem :)
Seus comentários são ainda mais que bem-vindos na reta final!
Até o próximo!
Comentar este capítulo:
HelOliveira
Em: 06/05/2022
Reta final....agora ou.nunca....ai.meu coração muita tensão
Até la
Resposta do autor:
Agora ou nunca dona Hel!
Muita tensão mesmo!
Até breve! :D
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
[Faça o login para poder comentar]