Um amor a primeira vista
E como não queríamos perder tempo, lá estava eu, no carro outra vez, indo ao encontro de uma revista mais cedo do que eu me sentia preparada. Manuela conduzia o veículo porque eu não poderia ou conseguiria dirigir com uma mão somente. Aurora ficou em casa por precaução. Fomos paradas para interrogatório, mas ao menos dessa vez esperávamos por isso. A soldado que quebrou meu braço estava lá, é claro, mas Gwen também estava, eu esperava que ela soubesse o que estava fazendo porque eu não queria ter outra coisa quebrada dessa vez.
Na longa tarde que ficamos discutindo na minha casa naquele final de semana, ficou definido os detalhes de como se daria essa aproximação. Gwen sempre diria onde estaria fazendo uma ronda e revistando pedestres, se fossem caminhos que cruzariam o meu percurso habitual. Segundo ela, os soldados possuíam um histórico de rotas que eu já percorri ao longo da vida em Canéia, então se eu saísse muito do meu caminho, eles poderiam desconfiar. E esse controle era adquirido através desses interrogatórios e dessas revistas que éramos obrigados a passar ao menos uma vez por semana.
E não seria somente um encontro público. Teríamos que nos esbarrar várias vezes em meio à essas abordagens e teríamos que interagir da maneira mais casual possível em frente aos demais soldados. Assim, todos veriam a nossa aproximação e diante dos olhos deles eu seria retirada da lista de suspeitos pelo simples fato de estar me envolvendo com um soldado.
Segundo Gwen, um soldado é um símbolo de força, mas também a firmeza de um caminho certo e seguro. Quem quer que se envolva com um soldado, está concordando com o sistema, já que eles são produtos dessa criação robotizada e mecânica, ultrapassada e violenta do qual vivemos. Quem se envolveria e planejaria um casamento com um soldado se não fosse para continuar vivendo nesse sistema corrupto e falho das bandeiras?
Se os Generais comandam cada estado do Continente Sul, soldados são os mantedores dessa ordem. Ao concordar em me aproximar de Gwen, eu faria parte desse círculo, dessa bolha que envolve todos os que seguem o sistema. Se daria certo eu não sabia, mas era o plano mais sólido para arriscar.
— Sra. Martins. — Gwen me cumprimentou com tom formal enquanto eu saía do carro e me posicionava com uma mão no capô.
— Soldado. — Imito seu tom.
— Nos encontramos de novo. — Ela parou do meu lado, segurando o tablet enquanto Manuela era revistada do outro lado e meu carro revirado por outros dois soldados.
— Realmente, parece que estamos destinadas a ficarmos nos cruzando.
— Espero que em melhores situações agora. Sua cachorra não veio por quê? Está doente?
— Não. Ela está bem, melhor que eu. Mas eu não posso entrar no mercado com um cachorro, e também não posso deixá-la no carro. Então já que não vou demorar, não vi problema em a deixar em casa dessa vez.
— Ah, é uma pena, ela é uma graça. Então estão indo ao mercado?
— Sim, achamos melhor aproveitar esse horário. Acabamos de receber o pagamento e vamos encher a dispensa.
— E o que farão depois das compras?
— Eu vou passear com Aurora, minha cachorra. Espairecer um pouco, exercitar-me. Tem um parque perto da minha casa, ela adora ir lá, ver outros cachorros. — E adorava mesmo, era o momento preferido dela da semana.
— Bom saber. — Ela sinalizou para a outra mulher que se aproximava para me revistar, impedindo-a de colocar as mãos em mim. — Deixe-a comigo dessa vez. — Falou, entregando o tablet e se posicionando atrás de mim, pousando as mãos em meus ombros.
— Nunca tive a chance de realmente te agradecer por ter me levado no hospital na outra semana. — Digo lentamente, percebendo a mulher ficar atrás de Manuela, mas os olhos de águia atentos em mim, esperando pelo meu erro.
— Não é necessário, eu só estava fazendo o mínimo para ajudar um civil que precisava de ajuda.
Ela moveu as mãos pelo meu braço, apertando, então foi para a minha cintura e desceu minhas pernas, ao contrário da outra mulher, ela estava fazendo isso com ar mais sério e neutro.
— Mesmo assim, eu queria te agradecer, significou muito para mim. Sei que é seu trabalho e você faria por qualquer um, mas naquele momento foi muito importante para mim.
Manuela sorria, fazendo movimento com a boca enquanto dizia sem voz “você é péssima nisso”. Eu devia ser mesmo, porque eu não fazia ideia de como deveria tentar uma aproximação sutil com um soldado sem que achassem que eu estava tramando alguma coisa. E não ajudava que Gwen estivesse com as mãos em mim também, eu jurava que no fundo ela estava se divertindo com a situação quando ela espalmou as mãos na minha bunda.
— Fico feliz em saber que te ajudei de alguma forma. Espero que você tenha uma boa recuperação. — Ela me virou, olhando nos meus olhos. — Sua namorada deve ter ficado preocupada. — E essa era a deixa, ainda que ela mantivesse a expressão séria.
— Nem tanto. — Suspiro. — Ela não queria realmente se preocupar com nada, e acho que meu braço a fez perceber que não queria qualquer compromisso. Então nós terminamos.
— Sinto muito por isso. O fim de uma relação nunca é fácil.
— Não, não é. — Respiro fundo, reunindo coragem para continuar o rumo daquela conversa. — Estou procurando algo mais sério, quero formar uma família; não tenho mais tempo para relações que não caminhem para isso.
— Então você está disponível para uma experiência melhor numa relação. — Ela pressionou a mão em meu abdômen, eu não consegui conter uma careta de dor, porque a região ainda estava dolorida do choque que levei e da pressão daquela maldita vara na região. — O que houve? — Ela levantou minha camisa sem entender, então suas sobrancelhas ergueram em surpresa, ela mordeu o lábio inferior, sem dizer nada. Parecia enojada com o que via, eu só soube que não era exatamente por minha causa, porque vi raiva borbulhar dentro dela.
— Está tudo bem agora. — Garanto em tom mais baixo, mais sutil, tocando sua mão sobre a luva, seus olhos verdes mirando os meus outra vez. — E sim, estou em busca de algo mais sério.
— Você não terá dificuldade em achar alguém, você é linda.
Senti meu rosto esquentar diante do elogio genuíno, sem saber o que dizer, e para isso ela sorriu, contente. Ela conseguia se recuperar rápido de uma sensação aflitiva para ela, indo para o lado galante sem sequer titubear. Voltou à tarefa de me revistar, agora sem realmente me apalpar com força. Ela olhou meu braço quebrado com cuidado, mantendo os olhos nos meus quando verificou minhas orelhas e meus cabelos.
— Você não deve ter dificuldade nenhuma em conquistar uma mulher com essas mãos, soldado. — Falei em provocação, e foi a vez dela de corar.
— É? — Sorriu. — Eu devia tentar as chances dessas mãos contigo, não acha?
— Bem, talvez. Vai depender se eu continuar te encontrando por aqui.
— Se eu te encontrar de novo, você sairá comigo?
— Vamos ter que esperar para ver, soldado. — Pisco para ela quando se afasta, respirando fundo. — Estou liberada?
— Sim, por enquanto. — Ela pressionou as mãos na própria cintura, uma postura confiante e relaxada ao mesmo tempo.
— Então até a próxima, soldado.
— Até logo, sra. Martins.
Eu entrei no carro após ela abrir a porta, e Manuela assumiu o volante outra vez. Gwen acenou para mim e nós fomos embora sem qualquer incidente dessa vez, o que me fez acreditar que talvez ela estivesse certa e esse fosse o melhor plano; eu esperava que sim. Talvez assim eu me sentisse menos culpada por ter flertado com outra pessoa, mesmo que isso fizesse parte de um plano e não fosse realmente acontecer algo ali.
Eu a encontrei outra vez na volta do trabalho na escola, perto do final da semana, e dessa vez não foi combinado, o que eu estranhei. Mas ela não estava sozinha então eu não pude perguntar, além daquela mulher que quebrou meu braço, havia outros soldados junto. Eu estava voltando a pé, querendo aproveitar o clima quente, pois eu não podia dirigir e Manuela saía uma hora mais tarde que eu da editora. Gwen sorriu para mim quando me viu e se aproximou sozinha.
— E nos encontramos de novo na mesma semana, você não pode negar que é um sinal, sra. Martins. — Ela falou em tom humorado.
— Realmente, acho que não tenho mais saída. — E não tinha mesmo porque aquele era o único caminho para casa, o mais rápido.
— Você vai sair comigo então, sra. Martins? — Os outros soldados pararam a própria conversa para prestar atenção na nossa.
— Se você me chamar pelo primeiro nome... — Falo lentamente, incomodada com a atenção dos demais.
— Você quer sair comigo, Ana? Prometo valer a pena.
— Sim, eu quero. Mas é bom que não esteja atrás de uma aventura, soldado.
— Não, não estou, pelo contrário. E você pode me chamar de G.
— Está bem, G. Sábado?
— Sim, eu te busco umas 19 horas para jantarmos juntas. É bom para você?
— Sim, é bom. Você sabe onde me encontrar, mas por via das dúvidas... — Peguei uma caneta na minha bolsa e segurei o braço dela, afastando a manga e escrevendo o número do meu celular, mesmo sabendo que ela poderia conseguir isso facilmente. — Caso precise ser lembrada ou surja um imprevisto.
— Não se preocupe, eu não te deixarei esperando.
— Então te vejo sábado, G. — Avancei um passo, mas parei. — Oh, eu esqueci. Você ainda precisa me revistar, não é?
— Você está vindo do trabalho?
— Sim, eu estou dando aulas na escola Camélia e Girassol. Fica a dois quarteirões daqui. — Aponto na direção que tinha vindo.
— Quantas turmas você tem?
— Agora eu tenho os mais velhos de tarde e os pequenos de manhã. Eu fui promovida essa semana.
— Olha só. Parabéns. — Ela sorriu e ofereceu uma carícia na minha bochecha, que já tinha cicatrizado a mancha vermelha. — Você está liberada, Ana. Eu te verei no sábado.
— Até lá, G.
Eu passei pelos demais soldados, que moveram a cabeça para mim, deixando-me passar. Aquilo devia ser um bom sinal, afinal. Naquela semana eu realmente tinha sido efetivada graças a ajuda de Samuel e ao meu empenho em fazer as crianças gostarem de mim enquanto eu as ensinava. E meu tempo como Isa estava mínimo, porque eu ainda tinha que corrigir as atividades das crianças e cuidar de Aurora. Como todos queriam que eu ainda trabalhasse como Isa? Eu não conseguia resolver aquela equação.
Gwen cumpriu com a sua promessa de me buscar no horário marcado no sábado. Eu estava sozinha em casa, esperando por ela.
Seu carro preto chegou alguns minutos antes do horário, ela desceu do carro e veio até a porta, onde eu acompanhava seus movimentos pela abertura no centro da madeira. Ela olhou para os lados antes de tocar a campainha, parecia nervosa. Aurora latiu e abanou o rabo, toda amigável, mas eu não podia levá-la dessa vez, não em um encontro de mentira. Então ao abrir a porta e sair, trocando cumprimentos e um olhar com Gwen, sabíamos que tínhamos uma encenação para interpretar naquela noite.
Eu estava preparada, usando uma calça cargo preta que era mais confortável, uma camisa justa de alças branca com um colete preto por cima. Meus cabelos estavam presos no topo num rabo simples, com poucos acessórios para não exagerar. Ela usava uma calça de couro escura, com uma camisa vermelha vibrante deixando à mostra seus braços firmes, um deles possuindo uma tatuagem de dragão que a deixava com aspecto juvenil e atraente. Seus cabelos estavam soltos e ela estava bem perfumada. Ela veio mesmo vestida para um encontro.
Fomos à um restaurante caro, elegante, ela parecia à vontade, mas eu não conhecia metade dos pratos que tinha no cardápio. Havia outros casais nas outras mesas, nós fomos guiadas para uma mesa reservada na lateral, um pouco mais reservada, mas não tão afastada quanto eu gostaria.
A mesa era de vidro reluzente, com uma toalha de linho branca sobre ela. Um prato vazio com os talheres embrulhados numa seda bege era o que estava disposto à nossa frente. Tinha duas taças vazias e uma pequena cesta com pães que me fez lembrar a grande cesta de Amy, em nosso primeiro encontro. Pensar nela me fazia sentir culpada, ainda que ela aprovasse a encenação, era péssimo pensar que passeios como aquele não poderiam mais acontecer. Mas eu tinha que me concentrar na motivação principal de estar ali para começar, caso contrário Isa Miranda não cumpriria com a sua mensagem de revolução.
— G? — Pigarreio, baixando o cardápio, e ela me olha. — Você pode pedir para mim ou seria muito indelicado de minha parte pesquisar no meu celular?
— Oh, desculpa. — Ela riu, baixando o próprio cardápio também. — A maior parte é peixe, mas tem frango também, se preferir.
— Eu gosto de peixe, só não os com aspecto gosmento.
— Eu pedirei para você então. Tem alergia a algo?
— Não, eu sou de ferro.
— É bom saber. Alguma preferência para bebida?
— O que sugere? Eu não posso beber nada forte por causa dos remédios para dor.
— Um pouco de vinho não te faria mal. — Sugeriu, seus olhos deslizando para o meu braço na tipoia.
— Tudo bem, eu aceitarei o vinho.
Ela assentiu, sinalizando para um atendente, que nos cumprimentou educadamente e anotou os pedidos. O vinho chegou alguns instantes depois, eu apreciei o gosto, saboreando na boca, percebendo que Gwen ainda estava desconfortável, olhando vez por outra para o meu braço.
— Você sabe que não foi você quem o quebrou, não é mesmo? — Pergunto em tom mais baixo. — Eu vou tirar a tipoia em algumas semanas, então basta fazer a fisioterapia e talvez em alguns meses eu recupero meu braço.
— Eu podia ter ao menos tentado impedir, Ana. Alegado que te conhecia.
— Mas você não conhecia. Você só se colocaria em problemas se fizesse isso.
— Nem tanto. Ao menos isso não teria acontecido contigo e você não estaria incapacitada de seguir sua rotina normalmente.
— Bem... confesso que tem sido bastante complicado fazer as coisas normalmente com apenas um braço que eu não estava acostumada a usar para tudo. — Respiro fundo, bebendo um gole do vinho. — Mas estou tendo tempo para refletir o que fazer sobre isso tudo. E tem sido desafiador mudar toda a minha rotina, ainda mais quando eu tenho uma grande aversão de mudanças. Não vou mentir e dizer que não amaldiçoo a bendita que me fez isso todos os dias, mas digamos que a cada dia vai se tornando menos difícil.
— Você não merecia ter passado por isso. Ela pegou pesado demais contigo. Eu vi a mancha na sua barriga... no seu rosto. São coisas assim que me fazem querer lutar para mudar as coisas. Civis não devem ser perseguidos e torturados por pensarem diferente.
— Estou curiosa. — Comento, bebericando do vinho. — Como você, um soldado a vida inteira, eu suponho, decidiu querer mudar as coisas?
— A primeira coisa que você precisa saber é que soldados são criados desde crianças. Há escolas especiais, designadas para moldar os soldados desde os primeiros anos, então dificilmente eles pensarão diferente, e mesmo que pensem, somos todos ensinados às consequências desde cedo. — Ela estendeu a mão direita sobre a mesa, só então percebi a grossa cicatriz na palma, com as letras B e A.
— Oh, G... — Toco a palma de sua mão, sentindo com as pontas dos dedos a ondulação em sua pele. — Por que te fizeram isso?
— Eu questionei, quando era jovem, por que não podíamos ter uma oposição. — Seus olhos vagaram pela própria mão, como se relembrando o momento. — Eles disseram que as bandeiras eram supremas, e nós, como soldados, não deveríamos nunca questionar. Só obedecer e seguir ordens. Então me queimaram para me ter como exemplo.
— Eu sinto muito sobre isso. — Olho em seus olhos, buscando demonstrar minha sinceridade. — O que significa as letras?
— Bandeira Azul. — Ela sorriu, ainda que melancólica. — Para eu não me esquecer a quem sirvo.
— Mas eles não conseguiram tirar os questionamentos da sua cabeça.
— Não, não conseguiram.
Ela pausou, dando o tempo de o atendente posicionar um carrinho de metal ao lado de nossa mesa e depositar nossos pratos. Segui o exemplo de Gwen e desembrulhei os talheres, utilizando o pano para pousar sobre o meu colo. Sorrio quando vejo meu peixe cortado em cubos e em meio a um molho branco com queijo, tendo algumas folhas de salada para acompanhar. Gwen pediu uma massa feita de pele de peixe, com um molho mais escuro e cheio de legumes junto ao frango. Tudo parecia realmente apetitoso, e o gosto era algo novo ao meu paladar.
— Você gostou? — Ela me perguntou, observando-me comer.
— Sim, está delicioso. Nunca comi algo assim.
— Que bom. Aproveite, ouvi falar que aqui fazem os melhores pratos.
— Você nunca veio aqui antes?
— Não, mas é famoso entre os soldados. E eu nunca tive ninguém para trazer aqui.
— Está tentando me impressionar, G? — Sorrio, achando a ideia engraçada.
— Está dando certo?
— Bem, talvez. Meu estômago se sente muito impressionado.
— Fico feliz em saber então. O estômago é um órgão muito importante no corpo. — Ela riu sutilmente.
— Então soldados vem aqui frequentemente?
— Sim, tem vários aqui hoje.
— Sério? — Isso me surpreendeu, fazendo-me olhar uma segunda vez para os casais próximos de nós.
— Sim, mas não se preocupe, é bom que nos vejam juntas. Você pode continuar agindo normalmente, eles não vão nos incomodar, só querem observar.
— Observar seu romance?
— Sim, basicamente. Eles estão sempre em vigia quando um soldado inicia sua vida familiar.
— Que apressada, G, já pensando em formar uma família no primeiro encontro. — Sorrio, mas sinto uma sensação amarga no estômago que eu obrigo o vinho a descer para afastar a sensação. — Você realmente não tem ninguém interessada no cargo de sua esposa?
— Talvez isso choque você, mas tente não gritar para não chamarmos mais a atenção. — Ela se inclinou sobre a mesa, falando mais baixo. — Eu gosto de homens.
— Você? Com homens? Que mentira feia, soldado.
— Eu não estou mentindo. — Ela se recostou na cadeira, inclinando um pouco a cabeça. — Eu só me envolvi com homens até hoje.
— Impossível.
— Bem... não foram realmente relacionamentos. Soldados não ficam com soldados, e civis temem soldados. É um campo mais difícil de desenvolver.
— Então você só... esteve com homens?
— Superficialmente, sim.
— Eu não acredito nisso. Está me dizendo que é virgem?
Eu devia estar soando perplexa, porque ela corou antes de se esconder atrás da taça de vinho, terminando a bebida em segundos.
— G... você não pode estar falando sério. — Insisto. — Como você sabe que gosta de homens se nunca foi para a cama com um?
— Você já foi para a cama com um homem para saber que não gosta? — Ela retrucou, eu fui obrigada a concordar com o seu raciocínio. — Eu nunca me atraí por nenhuma mulher até hoje. — Ela me olhou com cautela. — E homens não toleram que a mulher tenha maior patente que eles, eu nunca me interessei por um que fosse de patente maior ou igual a minha.
— Sério? Então você nunca realmente esteve em um relacionamento?
— Não, não exatamente.
— E como você chegou até aqui me propondo casamento?
— Era a opção mais sensata. Foi o que meus colegas acharam. E como eu quem iniciei contato contigo, era mais simples usar essa ligação para fazer sentido no sistema.
— E você não gosta de ninguém atualmente?
— Só de você, futura esposa. — Ela sorriu, gesticulando meu prato. — Vai esfriar e isso vai virar uma sopa. Coma enquanto está fresco.
Aquele era o sinal para encerrar o assunto porque ela estava mais incomodada do que se deixava demonstrar. Afinal, ela estava tão presa a mim de forma desconfortável quanto eu. Mas apesar disso o jantar foi agradável e a comida saborosa o suficiente. Nós decidimos dividir a sobremesa porque nenhuma de nós tinha espaço suficiente para comer uma inteira, e concordamos que não queríamos sair sem provar uma das opções.
— Não foi tão ruim, foi? — Ela me perguntou enquanto estávamos do lado de fora, esperando que o manobrista trouxesse o carro dela.
— Não, não foi. Eu gostei. — Olhei ao redor, percebendo um grupo mais a frente, nos observando. — Só tem soldados aqui?
— A maioria, sim.
— Então... — Eu me aproximei mais dela e segurei seus dedos entre os meus, olhando-a de perto. — O que deveríamos fazer para eles acreditarem que isso aqui é de verdade?
— Você não precisa se sentir pressionada a fazer nada em público, mas, sim... talvez tenhamos que ser convincentes sobre sermos um casal apaixonado se vamos nos casar às pressas.
— Então... talvez eu tenha que tirar a virgindade da sua boca bem aqui.
— O que? — Ela ergueu a sobrancelha, rindo de leve. — Eu já beijei antes.
— Uma mulher?
— Faz diferença?
— Muita. — Sorrio, mantendo os olhos nela, mas mesmo eu podia dizer que aquilo era estranho para nós duas.
— Você acha mesmo necessário? Eu sei que combinamos de fazer parecer assim em público, mas nunca combinamos como. E eu não quero criar conflitos com a sua namorada.
— Eu também não, mas não é como se pudéssemos nos passar por um casal apaixonado sem demonstrações públicas. Então talvez Amy entenda que isso faz parte da encenação, não é como se fôssemos continuar fazendo isso toda vez e a todo momento, eu não quero perder minha namorada, e quero continuar viva no processo.
— Eles questionariam menos quando eu anunciar que vamos nos casar. — Ela pausou, mas porque o carro tinha chego e o manobrista entregava as chaves para ela. — E iriam me parabenizar por te conquistar tão rápido. — Ela sorriu de maneira convencida.
— Oh, é assim que vai contar a história, soldado? — Rio, sem a levar a sério.
— É a pura verdade. Você não resistiu aos meus encantos, assuma.
— Oh, claro, sim, você é irresistível. O que vai fazer sobre isso agora?
Ela tocou meu rosto, acariciando minha bochecha, olhando-me de maneira mais intensa. Eu esperei, acho que todos esperaram, mas ela estava hesitante.
— Está tudo bem se você não estiver confortável. — Digo devagar. — Podemos pensar outra forma de os convencer.
— Eu só... Eu não quero te obrigar a ir tão longe e te dar a ideia errada sobre esse casamento.
— Não se preocupe, eu sei o que está em jogo aqui. Não é só nossa vida, G, é a vida de centenas de pessoas que estamos tentando mudar aqui. Vida de crianças como você foi, para não terem que passar por tudo o que você passou. Que ninguém mais tenha que passar por tudo isso.
— Você acha que vale a pena ir tão longe por isso? Quando sua namorada souber-
— Ela sabe. — Suspiro com a recordação, ela estreita os olhos. — Nós conversamos sobre todas as possibilidades do que aconteceria nesse plano. Não foi a melhor conversa que tivemos, mas ela sabe, e concordamos que seria melhor ela não ficar sabendo quando acontecer, se isso te deixa mais relaxada. — Eu me inclino na sua direção, selando seus lábios em busca de a fazer relaxar e não pensar tanto. — A menos que esteja com medo de eu dizer que você beija mal, então eu entenderei completamente.
— Você está com medo de gostar.
Eu quis retrucar, mas ela tinha finalizado o espaço entre nós e seus lábios pressionavam nos meus enquanto sua mão deslizou para a minha nuca, mantendo-me firme ali. Mas seu beijo foi diferente, era mais lento, sem pressa, sua língua acariciava a minha e não entrava por inteiro na minha boca. Sua mão se soltou da minha e ela a pressionou em minha cintura, deslizando pelas minhas costas numa carícia. Retribui ao beijo, tentando me manter natural. Mesmo que ela dissesse não gostar de mulheres, estava fazendo um excelente papel em fazer parecer o contrário disso. Eu não senti que era somente uma encenação para ela, um beijo sem significado. Ela estava querendo me provar algo, e ao mesmo tempo aproveitar o momento ali. Senti sua intensidade e seu desejo, quando se afastou, eu os via ali em seus olhos, tão de perto.
— Diga. — Ela falou perto dos meus lábios, olhando-me com olhos semiabertos.
— O que? — Pergunto sem entender.
— Que eu beijo mal.
Ela não me deixou realmente falar, seus lábios estavam nos meus outra vez, movendo-se devagar, sem pressa. Eu estava confusa, o que ela estava realmente fazendo? A fim de a fazer parar sem chamar outro tipo de atenção, eu suguei seu lábio e o segurei com os dentes, afastando o corpo do seu e mantendo a mão em seu ombro para a manter no lugar.
— Achei que não gostasse de mulheres, soldado, agora não consegue largar a primeira que encontra? — Pergunto ao erguer as sobrancelhas, mantendo o humor.
— Desculpa, eu... — Ela baixou o olhar, parecendo envergonhada. — Desculpa, eu não devia ter continuado. Não sei o que deu em mim.
— Ei, está tudo bem. Estou feliz por estar certa sobre você gostar de mulheres, eu posso te apresentar a algumas pessoas para você fazer um teste mais detalhado.
— Não brinque com isso. — Ela estava séria e constrangida.
— Só estou querendo que não se sinta culpada. É bom descobrir isso antes tarde do que nunca, não é? — Ela não respondeu, eu percebi que a atenção dos soldados continuava em nós, como se isso não os tornasse um bando de pervertidos. — G, eu sei que pode ser um choque para você, afinal, você nunca esteve com uma mulher antes, não é?
— Claro que não. — Ela me olhou.
— Mas é algo natural. Talvez esse seja o verdadeiro motivo que você nunca realmente tenha tido um relacionamento antes.
— Não importa isso agora. — Ela se afastou um passo, tornando-se séria e estoica. — Estamos aqui por uma missão. Cumprimos com o primeiro objetivo, que era fazer com que eles nos notassem. Eu vou te levar para casa agora.
Ela parecia um robô ligado no automático, então eu somente movo a cabeça para concordar, entrando no carro quando ela abre a porta. Talvez longe dos colegas soldados ela se sinta confortável para falar. Mas tão logo ela assumiu o volante, ela somente se calou e se concentrou na tarefa de me levar para casa. Eu me senti estranha. Se já não bastasse o beijo, ela agia dessa forma por algo tão simples quanto sentir atração por uma mulher.
Ela não quis falar muito quando chegamos além de combinar o próximo encontro no próximo final de semana, constatando o óbvio que nos veríamos pelas ruas nos próximos dias. Ao menos assim garantia que eu não fosse interrogada por outros soldados.
Quando entrei em casa, Aurora estava lá para me receber, feliz pelo simples fato de eu estar ali. Mas eu me surpreendi por não só a encontrar, mas à Lênin também. Eles estavam juntos e Aurora logo se esqueceu de mim para brincar com ele. Manuela ergueu a cabeça no sofá, parecendo engolir em seco, então somente apontou para cima, o suficiente para eu saber que Amy estava em casa também. Não parecia ser por um motivo bom, então respiro fundo e subo as escadas, entrando no meu quarto.
— Estava se divertindo no seu encontro, Ana? — Amy me perguntou tão logo a vejo, levantando da minha calçadeira e vindo até mim, mostrando o celular. — É assim que vai ser agora? Você vai ficar se agarrando com essa mulher para todos verem?
— Eu não queria que você visse. Qual é Amy, não significa nada para mim. — Suspiro, vendo a foto tirada por um drone do momento que Gwen tinha me beijado.
— Não é o que parece. Você tem mesmo que beijar aquela mulher com tanto ímpeto?
— Não foi a minha intenção, Amy. Mas havia soldados para todos os lados. Quanto mais rápido convencermos de que estamos envolvidas, mais rápido casamos e podemos seguir com os planos.
— Que planos envolvem vocês ficarem se beijando dessa forma?
— Me fale o brilhante plano que um casal mostra que está junto sem demonstrar isso publicamente, Amy. — Falo com irritamento diante de suas cobranças.
— Por que vocês têm que provar isso? Não basta dizerem que vão se casar e pronto?
— E se a sua última ex-namorada terminasse contigo em uma semana e na outra simplesmente te diz que vai se casar da noite para o dia? Qual é, Amy, pense um pouco. Até outro dia éramos nós que estávamos em público.
— Não nos compare! Não use nosso momento para justificar essa coisa!
— Amy... você sabia que isso teria que acontecer. Eu não estou dizendo que isso vai sempre acontecer. Você acha que eu quero?
— Não é o que parece. Por que tinha que ser um beijo de verdade? Por que você deixou que ela ficasse tão perto tão rápido? Você gostou mais de ir ao encontro com ela?
— Você está sendo ridícula Amy, e sabe disso. Só... pare, está bem? Eu não gosto dessa situação tanto quanto você. Eu preferiria ter ido ao cinema contigo hoje, mas tão logo saíssemos de lá, encontraríamos soldados. E como isso seria, Amy? Seria ainda pior se eles fizessem alguma coisa contigo, eu nunca me perdoaria. — Respiro fundo e seguro seu queixo, aproximando seu rosto do meu. — Ainda podemos seguir o plano inicial, apagar Ana do sistema e irmos embora. É o que você quer? — Para isso ela não tinha resposta, eu suspirei, afastando-me em direção ao armário.
— Desculpa, Ana. Eu realmente sinto muito.
— Não é sua culpa não querer fugir com uma morta, Amy, é compreensível.
— Não é esse o problema, Ana. Mas fugir nos deixaria vulneráveis sem contatos em outra cidade. E aqui seria perigoso. Não é que eu não queira, mas eu não teria como nos manter à salvo.
Ela pareceu se acalmar o suficiente para me ajudar a tirar a tipoia e então minhas roupas, suas mãos se mantendo ocupadas na tarefa de me despir sem realmente se atreverem a se desviarem do percurso.
— Só... esqueça sobre o beijo, não significou nada, Amy, nunca vai significar nada para mim. Eu não a conheço, não estávamos ali para realmente agirmos como nós mesmas. — Respiro fundo, pegando a rosa seca de dentro do meu armário e me virando para ela, entregando em suas mãos. — Sinto muito que tenha visto. Mas você está aqui... não podemos aproveitar isso?
— Claro. — Ela se inclinou na minha direção e selou meus lábios. — Desculpa, estou sendo infantil e insegura sobre nós quando já tínhamos imaginado que isso aconteceria.
— Eu nem sei como me sentiria se fosse o contrário, Amy. Só... eu senti sua falta essa semana, está bem? Eu não sei como lidar com o seu ciúme agora, eu nunca realmente tive que lidar com algo assim, e aquele beijo não significou nada para mim, não como o seu significa.
— Eu gosto quando você fala. — Ela acabou sorrindo, envolvendo minha cintura e selando meus lábios mais uma vez. — Você está aqui comigo e não com ela, eu vou me concentrar nisso agora.
— Ótimo, é só o que me importa.
— Eu?
— Você? — Sorrio. — Sim, você, eu me importo contigo.
— É bom ouvir. — Ela beijou o colo dos meus seios. — Precisa de ajuda com o banho?
— Não de ajuda, mas seria bom ter você lá.
Ela pareceu contente o suficiente para me seguir até o banheiro, tirando as próprias roupas e me agraciando com a visão. Continuou sendo um banho, mas era bom sentir suas mãos em minha pele, seu cuidado em limpar cada parte minha sem realmente precisar. Claro, ela estava adorando esse poder, eu não reclamava quando eu podia ver aquele sorriso ameaçando abrir como uma criança com seu brinquedo favorito. Mesmo sem a mesma facilidade dela, retribui aos seus cuidados com o único braço que podia usar, ela não se incomodou em me ajudar, movendo-se quando eu precisava, terminando os lugares que eu não alcançava. Ao fim estávamos mais limpas do que quando começamos, e eu senti que realmente precisava de um momento casual com ela.
— Ana, você está sentindo muita dor no braço ainda? — Ela me perguntou quando tínhamos voltado para o quarto, sentada na beira de minha cama enrolada numa toalha.
— Alguma, mas os remédios ajudam com isso.
Eu estava colocando a tipoia de volta no lugar, relaxando o braço nela e deixando a toalha cair no chão. Amy tinha os olhos nos meus movimentos, não era realmente difícil decifrar o que ela estava querendo me pedir, mas sem ter a coragem de colocar em palavras. Eu avancei na sua direção, meu quarto não era tão grande, então não precisei sentir o constrangimento de ficar andando nua. Movi a mão para desprender a toalha do corpo dela, trocando um intenso olhar antes de me inclinar e a beijar.
Amy recuou no colchão enquanto eu engatinhava sobre ela, sem tirar os lábios dos dela. Ela tinha a mesma necessidade de ser tocada que eu tinha de a tocar, deixando que o medo de a perder por causa do meu beijo com Gwen desaparecesse em cada som que eu tirava dela. Confesso que tentar usar a mão esquerda tinha sido um fracasso, mas eu a compensei com a minha boca, algo que eu estava me tornando experiente em seu corpo.
— Ana...! — Ela gemia, mantendo as pernas bem abertas diante do meu rosto, mas o peito inclinado para cima, deixando-me ter a visão dos seus bicos inflados, apontando seu desejo.
Era uma visão maravilhosa de se ter. Seus dedos prendiam no travesseiro atrás da cabeça, seus cabelos estavam amassados e uma gotícula de suor escorreu entre os seus seios. Eu movia minha língua na entrada dela, provocando com a ponta até penetrar de uma vez, momento que ela se contraía, cheia de prazer.
Sua umidade avançou em minha boca e eu estoquei dentro dela, movendo a cabeça para acompanhar o movimento. Sua cintura se moveu e ela prendeu uma mão nos meus cabelos, fazendo pressão para me manter ali.
Quando movi um pouco a língua para cima, seus pés cruzaram atrás da minha nuca. O movimento me fez sorrir. Usei um dedo para acariciar a entrada do seu ânus, atraindo seu olhar, mas ela não pediu que eu parasse, pelo contrário, continuou toda aberta, toda entregue, tão gostosa, para ser devorada como eu bem entendesse ali.
E como a devorei, sem pensar uma segunda vez. Dei uma ch*pada no seu grelinh* inchado e penetrei o dedo no seu cu, ouvindo seu gemido crescer e ao mesmo tempo se cortar no meio, antes de produzir um novo “oh” quando a estoquei.
— Não pare agora! — Ela ordenou, achei tão sexy sua voz naquele momento, demandando que a satisfizesse, as bochechas estavam levemente coradas, mas havia uma expressão safada nela que me enchia de desejo.
Eu não parei porque não era maluca. Meu dedo deslizou pelo seu canal e ela se deixou entregar ao prazer, ao tempo que não soltou os meus cabelos, pressionando cada vez mais num mesmo ponto. Lambi em torno do seu clit*ris, sentindo que ficava molhada de escorrer. Ch*pei seu grelo e ela gem*u alto, indicando seu orgasmo. Assoprei de levinho o ponto quente em frente do meu rosto antes de retirar o dedo devagar de dentro dela.
Seu corpo ainda produzia alguns espasmos quando me deitei do seu lado, mas não a impediu de me tomar num beijo cálido, cheio de vontades. Suas mãos estavam menos hesitantes e mais ousadas naquela noite, enquanto seus lábios tinham maior fome dos meus. Eu sequer tinha como conter quando ela me tocava com toda aquela vontade, nem me importei se estávamos fazendo barulho demais, eu lidaria com o julgamento no outro dia. Naquele momento, eu queria Amy satisfeita e segura do meu lado.
Encontramos maior conforto debaixo dos lençóis enquanto eu mantinha meu corpo colado as suas costas, sendo mais simples por causa do meu braço, não que ela tenha demonstrado qualquer desconforto por dormirmos de conchinha naquela noite.
Pela manhã eu acordei primeiro, sentindo Amy sobre mim, sua cabeça deitada em meu ombro. Eu não a culpava, minha cama não era grande. Fechei meus olhos, aproveitando a sensação. Eu queria mais manhãs como aquela, sem pressa, sem problemas, sem dramas. Mas eu tinha que trabalhar, havia atividades para corrigir e dois cachorros para alimentar. Acariciei os cabelos de Amy, beijando o topo de sua cabeça, ela murmurou algo, movendo-se somente para se aconchegar no meu corpo, suas pernas cruzando com as minhas.
— Tão preguiçosa, Amy Fontenelle.
— Mayumi. — Ela sussurrou.
— Mayumi? — Pergunto, sem entender o som.
— Meu nome do meio é Mayumi. Se quer soar brava comigo, vai ter que usar meu nome inteiro. — Seus lábios pressionaram um beijo no meu pescoço.
— Metade da sua família é misturada?
— Sim, meu pai é do Jardim dos Bambus. Minha mãe de Canéia.
— Que confusão, vet. Como veio parar aqui na cidade?
— Eu morei lá até ter idade para entrar na faculdade e decidir criar minha vida aqui. Tem mais oferta de trabalho.
— Quando eu estava em Figueira Vermelha tudo parecia encaixado. Digo... todos os cargos estavam ocupados. Meus pais estavam sempre trabalhando.
— Você é de Figueira Vermelha? — Ela inclinou a cabeça, pousando o queixo no meu peito em pura curiosidade, seus olhos me mirando atentos enquanto seu rosto prosseguia amassado, mas era uma doçura. — Eu nunca imaginaria.
— Sim, sou. Mas faz muito tempo desde que me mudei após a morte dos meus pais, então parece outra vida.
— Seus pais morreram? — Ela se surpreendeu, arregalando os olhos.
— Eu achei que sua pesquisa da minha vida tinha te revelado essas coisas, vet. Quando você estava atrás da identidade da Isa.
— Não, eu não procurei a fundo. Eu só imaginei que morassem em outra cidade ou que não tinham mais relações, como eu e minha família.
— Tínhamos uma boa relação quando eles estavam em casa. — Suspiro com a recordação. — Eles trabalhavam demais, só nos víamos à noite, depois do jantar, quando eu já estava cansada das lições da escola e pronta para dormir.
— Do que eles trabalhavam?
— Eles eram soldados. — Sorrio, ouvindo o som de perplexidade ecoar da boca dela.
— Não acredito que você era filha de soldados!
— Sim, eu sou. Eles ganhavam bem, deixaram um bom dinheiro para investir nos meus estudos. Eles não gastavam tanto porque morávamos numa casa simples que pertencia à Bandeira Azul. Mas você sabe como é...
— Você não pode ficar com a casa sem eles lá.
— Exato. Achei melhor procurar os estudos aqui na Canéia, pensando no trabalho depois. Meus pais deixaram um legado, afinal, eu tinha que fazer bom uso do que me deixaram.
— Legado? — Ela franziu o cenho. — Sua herança?
— Não o dinheiro. Mas eles me ensinaram algumas coisas que soldados não ensinam aos filhos.
— Continue, estou curiosa.
— Eu já escrevia alguns textos naquela época. Eram mais críticas, um desabafo, eu era adolescente, as coisas sempre eram mais intensas naquela fase. Mas meus pais gostavam de ler. Eu deixava tudo num tablet, e o deixava na sala, então eles sempre liam e deixavam algumas correções quando eu acordava. Digamos que eles me ensinaram a não escrever tão explicitamente sobre as coisas, a usar as palavras de forma a não chamar atenção indevida, e ainda assim ter o entendimento daqueles que pensam da mesma forma.
— Eles te ajudaram a ser a Isa. — Constatou. — Mas eram soldados.
— Assim como G. Eles não se tornam cegos a menos que queiram ser. E sei que é mais difícil acontecer, já que aprendem desde pequenos.
— Que eu saiba todos os filhos de soldados se tornam soldados.
— Meus pais nunca quiseram isso para mim. Na época eu não entendia muito sobre isso, mas eles têm a escolha de manter os filhos ou não no mesmo ramo deles.
— Então seus pais eram realmente legais. — Ela sorriu, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, e talvez tenha se soltado, porque ela repetiu o gesto.
— Sim, eles eram. — Também sorrio um pouco, inclinando o rosto para beijar seu pulso.
— Imagino que tenha sido difícil perder os dois de maneira tão súbita.
— Foi horrível. — Olho o teto do quarto, suspirando. — Eu gostava deles do meu jeito, e sabia que isso era retribuído. Mas quando morreram, eu fiquei sem chão. Literalmente, já que eu tinha que decidir o que fazer da minha vida de forma tão abrupta, sair de casa e todo o resto. Mas acho que eles me deixaram preparada para enfrentar tudo isso, porque mesmo desolada, eu sabia o que estava fazendo e tinha uma ideia de como deveria fazer as coisas.
— Preparada de que forma?
— Digamos que eles me fizeram programar algumas partes de minha vida, como trabalho, estudo, minha vida pessoal. Como soldados, eles diziam que a vida deles era jurada à Bandeira Azul, e que morreriam fazendo o trabalho deles, então sempre me prepararam para esse momento.
— Você acha que eles faziam parte de algum movimento?
— Eu não sei.
— Apesar dos grupos estarem mais ativos agora, não há grandes conflitos por enquanto, então não há muito trabalho para soldados fazerem além de ameaçarem civis. Você já pensou se havia outro motivo que eles temiam morrer fazendo o trabalho deles?
— Eu nunca parei para pensar nisso, Amy. — Arrumo seus cabelos para trás, acariciando sua bochecha. — Você acha que eles foram mortos?
— Não, eu só acho que eles tinham algum motivo para te prepararem com tanto cuidado para quando eles não estivessem mais aqui para cuidar de você.
— Você pode pesquisar se quiser, eu não vou me incomodar.
— Tem certeza?
— Sim, tenho.
— Está bem. Eu vou pesquisar sobre os seus pais. — Ela se apoiou para se erguer sobre mim, passando a distribuir beijos pelo meu rosto, fazendo-me sorrir. — Quero que saiba que é muito bom acordar do seu lado.
— Se tomarmos cuidado, podemos fazer isso mais vezes. Você ainda é a veterinária de Aurora, eu posso te requisitar algumas vezes, não posso?
— Isso ou eu posso fingir namoro com Manuela. — Ela riu, sem levar a sério, mas eu segurei seu queixo para que ela me olhasse nos olhos. — Estou brincando, eu não faria isso.
— Faria algum sentido, se pensarmos nisso.
— Namorar com Manuela?
— De mentira, não se anime.
— Oh? Está com ciúmes de um namoro de mentira que nem aconteceu? — Ela riu, selando meus lábios sem esperar por resposta. — Não se preocupe, ao contrário do seu namoro não precisaríamos convencer ninguém em público.
— Desculpa por isso. Não queria te fazer passar por nada disso.
— Eu sei que não. Por isso eu escolhi continuar do seu lado. Então não é sua responsabilidade, e sim a minha, por qualquer coisa que venha a acontecer.
— É nossa, Amy, porque eu também não te mandei embora. — E nem pretendia, quando era tão bom estar perto dela assim, compartilhando uma rotina e partes da minha vida que nunca me vi oferecendo a ninguém.
— Então vamos tirar o melhor que pudermos disso tudo. — Ela sugeriu, como se eu pudesse negar.
— Sim, vamos. — Beijo os seus lábios, aprofundando o beijo por um instante somente, mas suspiro com a recordação das minhas obrigações. — Eu tenho que levantar, corrigir atividades, e talvez escrever alguma coisa do livro.
— Eu posso ajudar. — Ela sorriu quando ergui a sobrancelha. — Não com o livro. Mas eu ainda lembro das coisas da escola, então posso te ajudar a corrigir.
— Está bem. Então vamos, ou não sairemos dessa cama e eu tenho certeza de que seu cachorro está levando minha Aurora para o mal caminho.
— Você diz isso agora, mas imagina se soubesse que em alguns meses teremos alguns filhotes para os unir a vida inteira?
— Como é? — Estreito os olhos. — Seu cachorro veio debaixo do meu teto engravidar a minha Aurora?
— Eu não sabia que ela estava no cio! — Falou na defensiva. — Eu os fechei na lavanderia para poder usar o drone e me comunicar com a minha equipe livremente, mas estranhei os latidos, e quando fui ver era tarde demais e já tinha acontecido.
— Amy Mayumi Fontenelle, você deixou seu cachorro safado engravidar a minha Aurora? Eu não acredito nisso. Eu saio por cinco minutos e você deixa minha cachorra engravidar?
— Qual é, serão filhotes lindos!
— Lindo vai ser a pensão que vou cobrar do seu cachorro! Quantas vira-latas ele engravidou pela rua? Ele que pense que não o farei assumir todas as responsabilidades! E aí dele se arranjar outra cachorra, eu vou fazer o inferno na vida dele.
— Eu assumirei todas as responsabilidades. — Ela sorria, sem se deixar abalar pelos meus protestos. — Pense, nossos cachorros estão juntos como nós estamos, eles vão ter filhotes. Isso vai nos unir mais, não acha?
— Pare de usar isso para ser romântica. Seu cachorro foi um safado.
— Talvez, mas tenho certeza de que Aurora está feliz, e eu cuidarei de tudo nessa gravidez. — Ela selou meus lábios, sorrindo. — Você não estará sozinha.
— Assim espero, Amy Mayumi Fontenelle, ou farei um inferno na sua vida. — Acabo sorrindo, pressionando a mão em sua nuca e a puxando para perto, voltando a receber seus beijos pelo meu rosto, gostando da sensação de ter algo nosso mostrando seus frutos tão rápido, como nossos cachorros.
Fim do capítulo
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HelOliveira
Em: 09/04/2022
G ja se empolgou com o 1° beijo...isso não vai dar bom viu....ainda bem que Amy tá muito atenta e acompanhando bem de perto isso,...
Um leve desconfiança aqui, será que pais da Ana estão vivos e fazem parte do mesmo grupo da G, daí a idéia de fingir a morte da Ana tb,
Lenin foi muito espertinho e amarrou Aurora ....
Gostei desse momento tão delas, da entrega e da cumplidade e companheirismo que estão criando....essa pode ser a única forma dessa relação amadurecer e resistir ao que vem pela frente
Bom fds
Resposta do autor:
Olá Hel!
G caiu na tentação do primeiro beijo, bem-vinda ao bonde G!
Que a Amy fique ligadinha agora ahahaha será que serão abaladas agora?
É uma boa teoria realmente. Os pais da Ana terão grande participação nessa trajetória dela, resta saber se vivos ou não ahahah
Lenin e Aurora amor eterno ahahah
Muito virá agora, também torço por elas hehe
Ótimo final de semana para você também Hel! Beijos!
Dressa007
Em: 09/04/2022
Há há há pra quem não gosta de mulher e esse ??’? se explica agora senhora G? beijar mulher é um caminho se volta kkkk ... e a Amy toda ciumenta não há jugo há essa altura me sentiria da mesma forma ... autora parabéns por mais um capítulo...
Resposta do autor:
Olá Dressa!
Beijar mulher é um negócio não é? É uma revelação que não dá para voltar atrás :3
Coitada da G. Vai sofrer nesse bonde agora hahahah
Amy é uma fofura de ciúmes xD não consigo levar a sério mesmo escrevendo isso.
Agradeço Dressa!
Até o próximo !
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Lea
Em: 08/04/2022
Essa "brincadeira" vai dá muita reviravolta. A companhia a "hetero" já gostou,o beijo então nem se fala,espero que não consumam o "casamento".
Amy é ciumenta e protetora.
E a família vai aumentar. Serão vovós!! Kkk
Acho tão válido falar de sexo anal,com consentimento claro.
Isso me faz lembrar que estou solteira. Kkkk Faz parte.
Boa noite!
Resposta do autor:
Será que dará reviravolta? Hehehe
Acho que será um casamento bem divertido hahaha
Amy é um amorzinho <3
Os filhotinhos vão vir! Imagina as gracinhas!
Sexo anal é seeeeeempre válido, se bem feito então :3
É aí que tem que aproveita dona Lea! Viva a solteirisse!
Um ótimo final de semana!
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