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A Revolução por Alex Mills

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Palavras: 8138
Acessos: 554   |  Postado em: 25/03/2022

Um interrogatório

Após Trisha se afastar, eu me aproximei de Amy, que recebia lambidas nas mãos enquanto se levantava. Eu segurei a coleira de Aurora e ela se sentou aos meus pés, obediente, então sorrio para Amy, que me analisa por inteiro e então olha o caminho que Trisha fazia.

— Você está mesmo bem? Ela não te fez nada?

— Não, ela estava tão em perigo quanto eu. Mas acho melhor termos essa conversa lá dentro. Estou cansada e nós duas estamos com fome. — Toco a cabeça de Aurora.

— Claro, você tem toda a razão. — Ela olhou para a mulher que continuava ali, e isso bastou para a fazer se afastar. — Eles te trataram bem?

— Depois que eles pararam de me apontar as armas, sim, foram descentes.

— Sinto muito por isso. Eu mesma teria ido, mas eles já estavam na estrada.

— Está tudo bem. Vem, vamos entrar. Por sorte eu não perdi minhas chaves também.

— Eu toquei a campainha, mas Manuela não estava em casa.

— É... eu não a vejo desde ontem. Eu ligaria para ela, mas agora não tenho celular. De novo.

Peguei a chave no cós da minha calça e girei na fechadura, entrando e tirando a coleira de Aurora antes de a liberar. Deixei Amy à vontade enquanto trancava a porta. Era boa a sensação de estar num lugar familiar novamente, após toda a situação de perigo que passei num dia só, era como se nada pudesse me atingir ali dentro. Afinal, era a minha casa, o lugar que moro há cinco anos e que me pertencia, que ninguém podia me tirar à força. Ao menos, eu esperava que não.

Fui para a sala junto de Amy, sentei-me exausta, ainda que tivesse em mente que precisava alimentar o animal. Amy sentou do meu lado e acariciou meu rosto, inclinei a cabeça de lado para olhá-la, sentindo-me estressada e pesada, mas ela estava preocupada, eu podia ver isso. Eu sabia que se abrisse a boca, poderia dizer as coisas erradas; então não digo nada e simplesmente deixo que ela continuasse me tocando. Era minimamente reconfortante tê-la ali.

Seus dedos fizeram a curva do meu maxilar e do meu queixo, subindo até meus lábios e os explorando com minucia. Eu queria que ela não parasse, queria ignorar a preocupação gritante nos seus olhos, mas sabia que era impossível.

— O que houve Ana? Você sumiu do mapa depois de ficar horas com a sua localização parada no mesmo lugar. — Seu tom era suave, mas eu senti sua cobrança como tapas. — Quando meu drone chegou lá eu vi a explosão. Achei que tivessem dado um fim em você, Ana.

— Amy... — Eu tentei, mas simplesmente não conseguia dizer nada, era como se houvesse uma gosma ácida entre os meus dentes.

— Eu segui as câmeras na cidade, eu vi quem te levou. Eu convoquei pessoas para retaliar.

— Retaliar? — Estreito os olhos, confusa.

— Se você ataca a companheira de alguém de um grupo, você está confrontando o grupo. Se eles tivessem dado um fim em você, então estavam nos ameaçando. Estavam me provocando.

— Trisha não faria algo assim.

— Como você pode saber? Você acabou de conhecê-la, e até onde eu sei ela te levou para longe e te fez correr perigo.

— Eu aceitei correr perigo. — Pontuou, sentindo-me na necessidade de defender Trisha. — Ela queria que eu visse como eles operam.

— Ela te levou numa operação? — Sua mão se afastou do meu rosto e ela me olhou com o cenho franzido. — Você aceitou a proposta deles?

— Não, eu não aceitei nada. Eu só queria ver com os meus olhos como isso realmente funciona na prática, porque ninguém realmente queria me mostrar.

— Porque você nunca precisaria se colocar em risco indo numa missão assim. Não comigo. — Seu tom tinha aumentado um pouco e sua testa ficado mais franzida, evidenciando sua indignação.

— Eu não estava realmente em risco, Amy, eu só observei de longe. A situação estava controlada. — Tentei explicar.

— E o carro dela sendo explodido foi uma ação premeditada. — Falou com ironia, fazendo-me bufar.

— Eu sequer devia estar te dando satisfação do que o grupo dela está fazendo quando você não me diz nada sobre o seu grupo. — Digo na defensiva.

— Não é porque Trisha resolveu colocar o grupo dela em risco que eu posso fazer a mesma coisa.

— Colocar em risco como, Amy? — Sinto-me ofendida pela implicação. — Você realmente acha que eu diria a algum soldado sobre o que vi hoje?

— Não deliberadamente, Ana. Mas te manter na ignorância das operações te deixa fora de risco em qualquer questionamento que te fizerem. — Ela tentou explicar com calma, mas havia um tom impaciente. — Não ache que porque aquela mulher foi diligente em relação a você, que ela está preocupada com o seu bem-estar estando com eles.

— E você vai me dizer que o seu grupo estava muito preocupado com o meu “bem-estar” enquanto nos parava de maneira abrupta no meio da estrada apontando armas para nós?

— É o procedimento padrão, eles não te machucariam. Eles só queriam eliminar a suspeita de que você estava em perigo.

— Se eu não tivesse insistido eles teriam levado Trisha. O que eles teriam feito com ela, Amy? — Insisto com irritação, sentindo meu coração acelerado de novo, mas também não gostava da motivação, assim como foi mais cedo.

— Levado para interrogatório. — Falou simplesmente, para o meu espanto.

— Interrogatório? Amy, você está soando como um deles.

— O que? — Ela se ofendeu nitidamente com a minha comparação. — Não me compare com os Generais. Nós não machucamos inocentes.

— Isso é exatamente o que eles pensam estar fazendo.

— Você está enganada. — Pontuou com seriedade, as bochechas vermelhas nessa altura. — Eles machucam qualquer um que ameace o sistema deles. Eliminam qualquer perigo, real ou não. Nós não fazemos isso. Combatemos o que eles representam. E sim, pode te parecer que somos brutos e ameaçadores, mas nunca machucamos ou interrogamos nenhum civil, nunca começamos um disparo. E não retaliamos ataques se envolvem civis. — Ela respirou fundo, fechando os olhos por alguns instantes, então me olhou, respirando fundo mais uma vez, o tom baixando em seguida. — Eu sinto muito, está bem? Eu não vim aqui brigar com você por causa dos ideais do meu grupo. Não vim aqui para discutir contigo sobre nada! — Ela mordeu o lábio de um jeito adorável. — Eu só queria me certificar de que estava bem. Eu posso ir embora se não quiser falar comigo agora.

— Não, por favor, não vá. — Eu pedi sem sequer pensar, sentindo-me em alerta com a possibilidade de a ver indo embora naquela noite, de ficar sozinha quando eu ainda sentia medo de que os soldados chegassem até mim.

— Tudo bem, eu ficarei. — Ela voltou a tocar meu rosto. — Eu não vou perguntar o que houve lá, eu entendo que não tenho o direito quando não te digo as coisas do meu grupo.

— Eu só estou tão cansada, Amy. — Admito, cedendo ao seu toque. — Nós quase morremos lá, e só não morremos porque eu tive a sensação de que algo estava errado e a fiz esperar. Eu podia estar morta agora! E essa é uma sensação aterrorizante, porque há tanto que eu ainda quero fazer nessa vida; e eu sei que deixei de pensar nessas coisas por muito tempo, mas eu voltei a pensar nelas. Eu não quero mais perder tempo, não com discussões sem sentido como essa, porque eu só quero que você fique aqui. E eu não quero mais falar sobre grupos hoje. — Finalizo, então respiro fundo, porque tinha falado rápido demais e agora precisava recuperar o fôlego.

— Você falou mais agora do que todo o tempo em que eu te conheço. — Ela sorriu enquanto eu revirava os olhos. — Você quer falar sobre essas coisas que andou pensando?

— Sim. Mas eu preciso tomar um banho, dar comida para Aurora e preparar um jantar decente. Então podemos falar de coisas mais agradáveis.

— Deixe Aurora e a comida comigo, vá relaxar um pouco e tomar banho.

— Eu não quero abusar de você. Você já deve ter tido um dia intenso também.

— Sim, tive realmente. Mas eu não corri risco nenhum hoje, e sei qual a carga que isso tem. Então deixe eu te ajudar um pouquinho, pode ser?

— Tudo bem. Eu te compensarei mais tarde, eu prometo.

— Eu gosto dessa promessa.

Selei seus lábios antes de subir para o andar de cima, aproveitando meu tempo no banho. Por simples paranoia e minha vida continuava valendo. Onde eu estava me metendo? Eu queria que a Cidade de Canéia fosse independente de Figueira Vermelha, queria que os representantes do Continente Sul fossem mais transparentes e que se importassem mais com as condições do povo.

Não que eu achasse que as pessoas viviam em condições precárias, vivíamos bem e ninguém passava fome. Mas vivíamos com medo e oprimidos, sem espaço para pensar ou falar diferente do que éramos ensinados. Eles tinham que entender que por mais que o sistema tivesse funcionado por séculos, as coisas tinham mudado, os pensamentos tinham evoluído e as necessidades eram outras. As pessoas tinham que lutar por isso, tinham que enxergar que precisávamos de outras coisas, e eu sabia que Isa Miranda podia colaborar para esse pensamento coletivo. Mas a que preço?

Eu continuaria colocando minha vida em risco como hoje? Valia mesmo a pena lutar por pessoas que eu não conhecia? Eu nunca fui próxima a ninguém, porque quando me deixei aproximar, essas pessoas só me viraram as costas ou me traíram de alguma forma. Por que eu me colocaria a risco por pessoas que preferiam continuar cegas à realidade? Até pouco tempo eu também era cega para situações como as que vi hoje, onde soldados aprisionavam pessoas em condições revoltantes. Além de matarem pessoas de grupos organizados.

Eu não podia mais fechar os olhos. Porque se o fizesse estaria deixando que pessoas como Trisha e Deborah se colocassem em risco e morressem pela causa sem ajuda. Eu faria Amy se decepcionar comigo eventualmente, deixaria que lutasse sozinha apenas porque senti medo na primeira situação que enfrentei. Não... elas mereciam mais. Eu usaria minha identidade como Isa Miranda para ajudar as pessoas a enxergarem o que estava acontecendo.

Meu maior conflito era escolher entre Amy e Trisha. Eu gostei da forma como Trisha e seu grupo resolviam os conflitos e conseguiam informações, que ajudavam pessoas como aqueles prisioneiros. Mas estaria sendo estúpida se não considerasse a necessidade do grupo de Amy, porque eu duvidava que eles seriam ingênuos como Trisha foi em deixar uma situação ir longe demais a ponto de colocar sua vida em risco. Esses pensamentos de nada me ajudavam a escolher por um grupo, e de nada me ajudaram a relaxar no banho.

Eu ainda me sentia estressada quando voltei para o meu quarto de roupão. Abri o armário, olhando as roupas dentro. Mas eu não consegui pensar no que vestir, porque eu vi a rosa que Amy tinha me dado, bem ali, sobre meu último livro, e algo nessa lembrança me fez deixar o estresse desabar dos meus ombros. As lágrimas caíram quentes e grossas ao ponto de eu não enxergar mais. Eu me senti soluçar. Eu podia ter morrido e não teria vivido metade das coisas que queria ao lado de Amy.

Ela devia ter lido os meus pensamentos, porque alguns minutos depois eu a senti segurando meu rosto, ela me perguntou algo, mas eu não entendi e simplesmente a abracei, escondendo meu rosto nos seus cabelos, aspirando seu cheiro e buscando o conforto dos seus braços. Ela não hesitou em retribuir, mantendo nossos corpos unidos enquanto acariciava minhas costas. Não falamos nada, ela somente me abraçou e eu me deixei ser abraçada e amparada, sem me importar que ela me visse daquele jeito.

Eu não sei quanto tempo durou, Amy foi paciente. Quando me afastei ela limpou meu rosto e me fez sentar na cama, bebendo da água que eu deixava ao lado do colchão. Ela não me perguntou nada, somente arrumou meus cabelos e beijou meus lábios algumas vezes.

— Se sente melhor agora? — Foi a única pergunta que me fez, e eu balancei a cabeça para concordar. — Então venha, a comida está pronta e você deve estar com fome.

— Sim, eu estou. — Levo a mão em seu rosto e acaricio. — Obrigada.

— Não me agradeça, eu estava me aproveitando para ficar perto de você.

— Pervertida.

— Culpada.

Eu segurei sua mão e nós descemos as escadas. Ela tinha preparado arroz com legumes e queijo, com uma carne cozinhada no molho. Nós comemos junto à mesa num clima mais leve, estava delicioso e eu me senti melhor. Era inevitável não me sentir melhor quando havia uma comida tão gostosa e uma companhia igual a Amy; ela sempre buscava por contato físico e com ela eu não conseguia me sentir incomodada. Nós limpamos tudo e assistimos à um filme na sala, eu aproveitei sua proximidade, contente em ter um momento de paz após um dia agitado.

Ainda assim, eu queria mostrar a Amy que a queria perto e que estava agradecida pelos seus cuidados. Eu aguardei o fim do filme, então subi no seu colo, segurando seu rosto e o erguendo para o meu, inclinando-me para beijá-la. Suas mãos acariciaram minhas costas e desceram pelas minhas pernas, sua língua deslizando sobre a minha enquanto aproveitávamos o momento. Ela não demorou para demonstrar que queria mais, aproveitando-se que eu ainda usava o roupão e o abrindo, de forma a obter minha nudez no contato das suas mãos.

— Vamos para o meu quarto. — Digo, abrindo os olhos para a olhar. — Não quero que Manuela chegue de repente e nos pegue aqui.

— Eu também não. — Ela sorriu, obedientemente fechando meu roupão com um nó. — Guie o caminho, escritora.

Eu a guiei para o meu quarto, livrando-me de suas roupas e obtendo sua completa entrega outra vez. Eu gostava do quanto ela era livre quando eu a estava tocando, sem hesitar em me entregar suas reações, seus pedidos, ensinando-me onde me queria e como me queria tocando seu corpo. Ela era incrível, tão enérgica e linda, paciente para me deixar explorar cada parte sua e prolongar seu prazer ao máximo, até obtê-la satisfeita nos meus braços. Eu sabia que estava apaixonada por Amy, após tanto tempo e o sentimento me penetrava outra vez. Agora eu o sentia mais intenso, mais abrasador, acolhedor; eu não queria abrir mão disso quando me fazia tão bem.

— Amy... — E eu queria que ela soubesse.

— Eu te quero. — Ela me falou, os olhos cheios de desejo enquanto tocava o ponto entre minhas pernas, massageando num ritmo constante. — Deixe-me te sentir.

— Claro, você pode ter o que quiser de mim, meu amor. — Eu deixei minhas pernas separadas, ela intensificou o contato dos seus dedos em mim, penetrando-me sem facilidade; sentia-me escorrer na sua mão.

— Posso ter tudo? — Ela perguntou em tom rouco contra os meus lábios, a respiração acelerada junto a minha.

— Sim, você pode. — Lambo seus lábios, convite suficiente para ter seus lábios nos meus num beijo mais quente.

— Diga que é minha. — Ela pediu em meio ao beijo, eu olhei seus olhos semicerrados como os meus estavam.

— Eu sou tua. — Isso a fez sorrir, contente, seus movimentos contínuos na minha vagin*. — Só tua, Amy.

— Então eu cuidarei de você, Ana.

Eu não sabia exatamente ao que ela se referia, eu somente aceitei, e acatei ao prazer que ela estava me proporcionando, aceitei aquela sensação de segurança e conforto que ela me oferecia. Não me importava as outras pessoas naquele momento, eu tinha Amy, e me senti feliz por me entregar a ela.

Nós dormimos juntas ali mesmo, ela encontrou seu local de encaixe no meu peito e enlaçou nossas pernas como podia, então fomos embaladas pelo sono. Dormi profundamente naquela noite, cansada do dia estressante, mas realizada diante da noite ao lado de Amy. Eu adoraria ter mais noites assim.

Pela manhã ela já tinha ido embora quando eu acordei, deixando-me um bilhete e uma rosa dizendo que estaria no petshop se precisasse dela, então disse que me arranjaria um celular até o final do dia. Coloquei roupas limpas e passei pelo banheiro, sentindo cheiro de café no andar debaixo, eu o segui até a cozinha, primeiro sendo recebida por Aurora, que pulava animada e abanava o rabo, feliz por me ver. Vi Manuela sentada sobre o balcão; tomando café e comendo uma rosquinha recheada.

— Achei que estivesse alucinando. — Digo com humor, acariciando a cabeça de Aurora, que estava abraçada na minha cintura. — Você? Em casa?

— E eu achei que estivesse alucinando mais cedo quando vi sua namorada saindo daqui de casa. — Retrucou.

— Ela está frequentando mais aqui em casa do que você, que teoricamente mora aqui. — Inclino a cabeça, erguendo a sobrancelha. — Olha, eu não vou cobrar satisfação sua, está bem? Não quero saber o que faz na rua, mas já que estamos dividindo o mesmo espaço, temos que manter um mínimo de contato para eu saber se você está desaparecida ou só em outro lugar.

— Eu tentei entrar em contato com você ontem para avisar que não voltaria para casa, mas você não recebia minhas mensagens e sequer recebia ligações.

— Ah, isso é minha culpa, meu celular quebrou e eu terei outro ainda hoje.

— De novo? Isso é um tremendo desperdício.

— Eu sei. O que você fez para comer, afinal? O cheiro está bom.

— Deve estar mesmo para você estar interessada. — Ela sorriu. — Tem café, torradas e panquecas. Amy fez um recheio para as torradas que ficou maravilhoso, se você não tivesse levantado logo eu teria comido tudo.

Eu acreditava, porque aquele recheio era mesmo delicioso. Eu ainda conseguiria as receitas que ela escondia. Peguei um prato e me servi com um pouco de torrada e panqueca, bebendo café primeiro antes de me sentar no balcão ao lado de Manuela, que riu, surpresa. Eu não costumava ter apetite logo pela manhã então só comia porque era obrigada.

— Estou vendo que muitas coisas mudaram desde que nos vimos pela última vez. — Ela tocou o ombro no meu. — Você está diferente. Parece mais leve, mais... apaixonada. — Isso me fez rir, incapaz de negar. — É bom te ver assim. É por causa de Amy?

— Digamos que eu decidi aproveitar a única vida que tenho antes que não tenha mais nenhuma. — Constatei calmamente.

— Mas que pensamento mais mórbido. — Ela me olhou, a testa se enrugando em confusão. — Alguém morreu?

— Não, mas digamos que eu percebi que isso pode acontecer a qualquer momento. Então por que esperar? Eu quero aproveitar o tempo que tenho e fazer o que é certo.

— Por exemplo?

— Bem, você vai acabar vendo, já que sabe sobre Isa. Mas como acordei de bom humor, eu vou te adiantar o assunto. — Como algumas torradas com recheio e bebo um longo gole de café antes de continuar. — Eu usarei Isa Miranda para propagar a mensagem de revolução.

— O que? — Ela se surpreendeu, quase engasgando com o próprio café. — Você? Falando sobre revolução? Você quer ser presa?

— Não, pelo contrário. Eu tenho apoio de algumas pessoas que querem me tornar independente de editoras. Então eu publicarei abertamente.

— Que pessoas? Você está falando de grupos organizados? — Ela me olhava com olhos bem abertos, expressão surpresa. Talvez o fato de eu agir no anonimato e nunca ter buscado saber sobre grupos organizados cause toda uma confusão nela, por saber de repente.

— Sim, tenho algumas propostas, mas não consegui escolher um em especial ainda. — Suspiro com o fato, porque realmente não era uma decisão fácil. Decidir entre Trisha e Amy tornava meus nervos tensos, só de pensar em prejudicar minha relação com Amy de alguma forma.

— Eles vão te bancar em troca que fale deles nos seus livros?

— Sim, basicamente é isso.

— Todos te ofereceram a mesma coisa?

— Sim, mais ou menos.

— Então por que você tem que escolher um e não fala de todos?

Eu abri a boca para responder, mas eu não pude porque eu não tinha pensado naquilo, e não era uma ideia ruim. Se tanto o grupo de Trisha quanto o de Amy queriam ter seus holofotes para repercutirem seus movimentos, talvez fosse aumentar a atenção do público em geral se todos os grupos tivessem essa mesma oportunidade, pois representariam mais pessoas. Eu quase abracei Manuela por ter me dito aquilo, mas eu julguei que ainda era cedo arriscar essa proximidade com ela.

— Você acabou de me dar a melhor solução para o meu dilema agora. — Digo com um sorriso para ela. — Isso realmente pode funcionar.

— Bem... de nada então. — Ela sorriu contente, voltando-se ao seu café. — Mas então... eu queria te falar... já que você está envolvida com grupos não deve surtar. Eu estou num grupo há algum tempo, desde a faculdade, e eu acabei me acidentando numa operação ontem que me levou para a enfermaria.

— Enfermaria? — Eu a encarei, fazendo uma careta, então observei seu corpo em busca de algum ferimento visível. — O que aconteceu?

— Digamos que eu escorreguei de uma altura considerável enquanto fugia dos tiros dos soldados, mas acabei sendo atingida. — Ela baixou a manga da camisa no ombro e eu vi o curativo ali. — Não foi tão ruim. Meu pessoal me levou para a enfermaria da sede deles e cuidaram de tudo para não atrair atenção.

— Isso está mesmo bem feito? — Eu soltei a xícara e puxei lentamente o curativo, fazendo uma careta com o que vi. — Você é do grupo dos açougueiros? Isso está horrível, Manuela. Você precisa de alguém que entenda o que está fazendo.

— Eu não posso ir para o hospital.

— Você não vai para um hospital, eu não quero ninguém fazendo perguntas tanto quanto você. — Respiro fundo, então reviro os olhos. — Amy pode consertar isso.

— Uma veterinária? Você está tentando me ofender?

— Você conhece um médico que não fará perguntas?

— E sua veterinária não fará perguntas?

— Deixe isso comigo. Dê o seu celular, eu vou avisar que vamos lá.

Ainda que em dúvida, mas sem plano melhor, ela aceitou e me entregou o celular, então eu busquei pelo petshop na internet para pegar o número de lá. Eu nunca lembraria um número da minha agenda telefônica, e me praguejei, porque agora nem os chips eu tinha mais. Todos meus contatos foram perdidos. Não que eu tivesse muitos, mas eram essenciais.

Eu pedi à atendente que Amy atendesse o telefone, mas a mulher do outro lado relutou, dizendo que ela estava em atendimento; insisti, mandando que dissesse quem eu era. Não levou nem um minuto e Amy estava ao telefone. Eu gostei desse pequeno poder de a tirar do trabalho a qualquer momento.

— Ana? — Ela falou. — Está tudo bem?

— Melhor agora. — Digo, sorrindo agradecida que Manuela tinha ido dar comida para Aurora. — Eu acordei e você não estava lá, então me perguntei quanto custaria um dia seu para te manter na cama até mais tarde.

— Oh. — Ela riu, parecendo surpresa. — Para você não custaria nada, querida. Eu voltaria para a sua cama e seus braços no momento que você pedisse.

— Simples assim?

— Não tão simples, eu provavelmente perderia o trabalho aqui, mas eu não teria dificuldades em encontrar outro lugar com os meus contatos. Então para mim valeria a pena sabendo que você me quer aí contigo.

— Oh. — Era eu quem estava surpresa agora. — Você tem doce nessa língua para falar coisas assim, não tem?

— Você quem deveria me responder.

— Bem, você definitivamente tem, mas eu gosto de provar.

— Você precisa do meu doce agora, escritora?

— Eu adoraria. — Respiro fundo, tentando conter a vontade que tinha ficado naquele momento. — Talvez mais tarde. Não seria justo te fazer perder o trabalho agora que eu preciso dos seus serviços.

— Oh. Aconteceu algo com Aurora? Quer que eu vá aí checar?

— Não com ela. É outro animal. — Sorrio.

— Você não atropelou outro pobre animal, não é?

— Claro que não. Eu aprendi minha lição. Mas digamos que encontrei um... animal baleado que talvez você possa ajudar? Digo, não sei se é sua especialidade lidar com esse tipo de ferimento.

— Ah, bem, eu tenho alguma experiência com ferimentos assim. Traga o animal e Aurora também, para passar na verificação de rotina. — Para não chamar atenção ao chegar no petshop sem um animal.

— Claro. Farei isso. Você está livre agora?

— Para você sempre tenho um horário vago, querida.

— Sem que perca seu trabalho?

— Está bem! Eu tenho uma hora vaga em meia hora.

— Então te farei um lanche e te encontro daqui a pouco, vet.

— Estarei contando os minutos.

Eu organizei tudo o que precisaria enquanto Manuela se vestia. Aurora comeu e fez suas necessidades num breve passeio perto de casa, então levei ambas para o meu carro e dirigi para o Meu Querido Pet, o petshop de Amy. Já era próximo ao horário do almoço e havia um movimento intenso de carros pelo caminho, fazendo-me suspirar impaciente. E para completar, tivemos que parar o carro para sermos interrogadas e meu carro revistado.

— Para onde estavam indo? — A mulher me perguntou enquanto verificava meu documento no seu tablet.

— Para o petshop, senhora. — Respondo, mantendo o tom formal, minhas mãos pressionadas no capô do carro enquanto uma delas segurava a coleira de Aurora. Outros dois soldados revistavam o carro e outra mulher revistava Manuela do outro lado do veículo. — Eu adotei minha cachorra há pouco tempo, quero ter certeza de que está tudo bem com ela. E acabou os petiscos também.

— E qual petshop você vai?

— Meu Querido Pet, é a três quadras daqui.

— Você tem o registro de adoção do animal?

— Tenho, está na minha carteira também.

— Ah, estou vendo. — Ela suspirou e entregou minha carteira, eu coloquei no bolso da calça. — Por que esse petshop em específico? Não fica exatamente próximo da sua residência.

— Eu conheço uma das veterinárias lá, então acho mais confiável ouvir o que ela me diz, já que é meu primeiro animal.

— É um belo animal, realmente. — Sua atenção se voltou a Aurora.

— Sim, ela é, e é um doce. Não serve para cão de guarda, mas é uma boa companhia para caminhar e gastar energia.

Manuela foi liberada da revista; eu estava impressionada pela sua resistência a dor, porque eu vi a mulher soldado mover a mão sobre seu ferimento duas vezes. Ela sorriu para mim, também pressionando as mãos no capô, porque era procedimento padrão e era assim que os soldados se sentiam no controle. Eu me sentia impaciente, porque estava cansada do interrogatório, e eu percebia que Aurora também estava incomodada, pois não tinha se sentado em momento nenhum, permanecendo em alerta. Os dois soldados saíram de dentro do meu carro, movendo a cabeça de maneira positiva para a mulher do meu lado. A outra que revistou Manuela contornou o carro e parou atrás de mim, pousando as mãos nos meus ombros.

— Separe as pernas, por favor.

— Claro, senhora. — Separo mais minhas pernas, inclinando a cabeça para Aurora, porque ela tinha começado a rosnar. — Está tudo bem garota, ela não fará nada. Sente. — Falo mais séria, estendendo a mão para tocar sua cabeça e acalmá-la, mas a mulher segurou meu braço e o posicionou de volta no capô.

— Mantenha a posição, senhorita Martins.

— Eu só quero acalmá-la, senhora. Ela nunca reagiu assim para ninguém, ela é bastante amigável. Só deve estar estranhando a situação.

— Eu posso segurá-la, Ana. — Manuela falou do próprio lugar.

— Se não for um problema, senhoras. — Inclino a cabeça sobre o ombro.

— Ninguém vai se mover. Controle seu cão, senhorita Martins. — A mulher me alertou em voz autoritária.

— Estou tentando, senhora.

— Só termine logo com isso. — A outra mulher falou, assumindo o posto atrás de Manuela como era costume.

Suspirei, enlaçando mais uma volta da coleira de Aurora em minha mão, buscando chamá-la e tentando falar com ela para a manter calma e não ter a atenção no que a soldado fazia.

Ela apalpou meus braços, minhas axilas, desceu minhas costelas e cintura; então apertou minhas nádegas. Suspirei. Ela se abaixou e apalpou cada perna, sem esquecer de apertar minha virilha como se eu fosse esconder uma arma dentro da minha vagin*. Repetiu o procedimento mais uma vez antes de me virar, apertando meus seios, descendo meu abdômen, então checou meus cabelos e atrás de minhas orelhas, mandando que eu abrisse a boca. Não parecia contente a julgar pela sua expressão, mas então eu também não estaria contente no lugar dela.

— Tire os sapatos. — Ela comandou, então estreitou os olhos quando hesitei, sem acreditar no que tinha ouvido. — Eu gaguejei? Tire os sapatos senhorita Martins, ou tem algum problema neles?

— Nenhum, senhora. Eu estava lembrando que tinha que cortar as unhas, só isso.

Suspirei, engolindo a frustração. Ela só queria arranjar algum problema, mas não encontraria nada. Eu me abaixei, começando a desamarrar meus cadarços, não que eu precisasse, mas eu queria enrolar o máximo que podia só para testar a paciência dela.

— Você acha que eu sou idiota? — Eu a escutei perguntar, eu fiquei em dúvida do que responder. — Acha que não sei que está enrolando de propósito? O que está escondendo, senhorita Martins?

— Nada, senhora. Eu deixei os tênis muito apertados, é só isso.

— Então faça isso mais rápido! — Ela agarrou meus cabelos e eu gemi com o súbito contato, sendo obrigada a olhar para ela. — Ou vou ter que te levar para interrogatório por insubordinação?

Eu sequer pude responder, porque no instante seguinte Aurora avançou no braço da mulher, que me soltou e gritou de dor, pois o animal a mordia com violência. Eu agarrei Aurora pelo peito para afastá-la, forçando-a para trás; mas a soldado pegou a vara na cintura e apertou o botão para a arma se alongar até meio metro, então desferiu um golpe em Aurora. Eu a xinguei quando minha cachorra chorou, encolhendo-se diante do golpe desnecessário, eu a abracei, protegendo-a de mais golpes, acariciando suas costelas e a ouvindo chorar baixinho.

— Olhe o que seu cachorro fez! — A soldado me praguejou, mas eu não me virei para a olhar.

— Ela não teria feito nada se você tivesse mantido as mãos longe, sua idiota.

— Do que foi que você me chamou?

— Eu fiz tudo o que a senhora pediu, não havia nada de suspeito aqui e você me agrediu por nada. Minha cachorra só estava me protegendo.

— Ora, sua miserável metida a espertinha. Acha que pode continuar me respondendo dessa forma? Levante-se e olhe para mim. Agora.

Primeiro eu deixei Aurora atrás de mim e mantive a coleira justa, então levantei e olhei para a mulher na mesma altura, travando o maxilar para conter a raiva que sentia dela. Como ela podia agredir um animal? Aurora só estava me defendendo porque a soldado me agrediu primeiro!

— Se acha melhor que eu, civil? — Ela me questionou com tom firme e olhar intenso, ameaçador.

— Não, senhora. — Respondo de maneira contida.

— Acha que deixar seu cachorro agredir um soldado passará sem que nada aconteça contigo?

— Não, senhora. Eu estou disposta a pagar pelo seu tratamento médico se necessário.

— Isso é o mínimo que você fará. Você entregará seu cachorro para uma correção imediatamente.

— Minha cachorra não fez nada de errado. — Falo mais firme sem titubear. Jamais deixaria minha cachorra ser punida por quem quer que fosse. — Eu sou a dona dela e ela só quis me proteger. Pela lei eu sou garantida o direito de escolher o que deve ser feito ou não com o meu animal, e eu me nego a entregá-la a qualquer pessoa.

Ela sorriu, esperando por essa resposta, porque era impossível ela parecer tão contente após levar uma mordida. Pela lei, isso a garantia o direito de me punir pelos atos do meu cachorro. E era exatamente o que ela queria desde o início. Eu começava a duvidar que não sabiam que eu era Isa Miranda, porque esses interrogatórios estavam cada vez mais frequentes e isso me irritava cada vez mais. E mesmo que não soubessem, eles estavam abusando cada vez mais da autoridade para suprimir qualquer rebeldia.

— Ana... — Manuela me olhava quando estendi a coleira de Aurora para ela, meu braço sendo segurado pelo soldado.

— Não se preocupe. Só fique de olho nela. — Asseguro; ainda que eu mesma temesse o que pudesse acontecer agora.

Ela segurou a coleira, então a soldado me empurrou à frente, mantendo o aperto firme no meu braço enquanto me guiava pela calçada até a Unidade Móvel dos soldados. Levou poucos segundos para chegarmos até lá, eram grandes tendas erguidas em todos os lugares que eles resolviam fazer revistas e interrogatórios. As laterais eram cobertas por divisórias retráteis que abafavam o som, tudo em coloração azul escuro.

Ela mandou os soldados saírem quando entramos, eles me lançaram um olhar torto antes de saírem e me deixarem sozinha com aquela mulher, então ela trancou a porta e me empurrou para frente, pegando sua vara. O lugar funcionava como um escritório, havia um punhado de mesas com computadores e era mal iluminado, como um esconderijo secreto. E fedia a suor e café vencido. Ela foi me empurrando até o fundo, então moveu uma parte da divisória para fechar um quadrado ao nosso redor, assim abafando ainda mais o som e tornando o ar mais denso. O que ela estava planejando?

Naquele momento lembrei dos reféns contidos dentro de um cômodo fechado, sem janela nem porta. Olhando para aquela mulher, eu não duvidei de que fosse capaz de fazer algo assim comigo. Temi nunca mais ver a luz do dia, e o pensamento me fez engolir em seco. Será que ela sabia que eu sou Isa Miranda? Eu sinceramente esperava que não, ou minha atividade com os grupos organizados terminaria antes de começar.

Pensei que talvez se eu fosse mais gentil e demonstrasse mais respeito por aquela mulher e a sua posição, ela fosse pesar menos a mão na minha punição. Não poderia esquecer do meu novo trabalho, que podia contar ao meu favor para provar que não tenho ligações com Isa Miranda. Ao menos, eu esperava que sim.

— Você pode não acertar meu rosto? Eu comecei meu trabalho essa semana, as crianças iriam estranhar se eu chegasse amanhã com o-

E ela acertou meu rosto. Eu gemi, recuando um passo e tocando minha bochecha direita, sentindo o gosto de sangue na boca. Senti minha pele arder e então queimar, eu a olhei com raiva, seu sorriso brilhou em satisfação. Como ela podia sentir prazer por me machucar?

Levei a mão na boca e peguei o dente que ela me arrancou, fechando a mão em punho para conter a vontade que tinha de devolver o golpe no seu rosto. Ela usava a mão esquerda porque a direita foi a que Aurora tinha mordido, e ela devia estar evitando usar o braço e errar o golpe.

O uniforme de todos os soldados era igual, justo e vermelho sangue. A calça era de poliéster, sem detalhes e com vários bolsos. Uma camisa de botão e colarinho, as bordas enfiadas dentro da calça e normalmente um colete à prova de balas. Às vezes era comum utilizarem uma jaqueta por cima, nunca soube a motivação. Os sapatos costumavam ser botas, bem presas em seus tornozelos. A soldado à minha frente ainda usava uma boina e o cabelo loiro preso num coque. Tinha os olhos claros, azuis e frios, analíticos. Aparentava meia idade porque tinha o rosto maduro, os lábios carnudos pintados num tom rosado. Seus seios e suas nádegas eram fartos, ela não era uma mulher feia, mas endurecida pela profissão.

Eu nunca tinha parado para reparar num soldado porque nunca passei tanto tempo na presença de um assim. Todos eram um borrão vermelho que eu tinha que buscar evitar a todo custo. Soldados como essa à minha frente, por exemplo.

— O que? Agora perdeu a vontade de tagarelar sobre os seus direitos? — Ela ainda me provocou a revidar.

— Você sabe que reparei em algumas coisas que você deixou passar? — Cuspi sangue nos seus pés. — Primeiro você se diverte me apalpando, agora me traz para um lugar para ficar sozinha comigo. Estou começando a achar que você tem ideias erradas de como conseguir um encontro, senhora. Minha namorada foi mais criativa.

— É? E o que ela fez para conseguir um encontro com você? — Ela sorria ainda. — Você parece fazer o perfil de se fazer de difícil.

— Sim, realmente. Hoje em dia não dá para confiar em mais ninguém. — Forço um sorriso, buscando manter o controle da minha respiração para quem sabe soar mais amigável do que eu realmente me sentia. — Mas ela é teimosa, não quis desistir até eu dar uma chance e sair com ela. Ficou uma semana insistindo. Todos os dias, sem exceção, ela encontrava um jeito de me fazer lembrar dela e então avançar mais um passo nas investidas.

— Que jogo duro. — Ela usou a vara de metal para erguer meu queixo, analisando meus olhos. — Mas vocês de cabelos vermelhos têm histórico de terem um péssimo temperamento. Não me admira estarmos aqui agora.

— Realmente, eu tenho um péssimo temperamento. Mas não devo ser tão ruim assim, se ela continua querendo ser minha namorada. Até minha cachorra gosta de mim para se arriscar como hoje, e ela nunca faz isso. Ela é sempre amigável com todos, até demais.

— Mas não comigo.

— Não, realmente. Mas eu não posso realmente te culpar. — Mordo o interior das minhas bochechas, sentindo meu coração disparado, porque não imaginava que ela aceitaria qualquer conversa.

— Me culpar? Você deve me odiar.

— Odiar é uma palavra forte. Mas se for pensar do seu lado, deve ser muito estressante fazer a mesma coisa todo dia e lidar com pessoas de temperamentos fortes a todo momento.

— Você só está sendo legal porque não quer apanhar.

— Está funcionando? Eu não quero apanhar o tanto que você não quer bater.

— O que te faz pensar que eu não quero te surrar?

— Por que você parou no primeiro golpe então? — Balanço os ombros, ela somente me encarou. — Olhe... eu realmente não queria te aborrecer lá fora. Você está estressada, eu também estou. As coisas só saíram do controle. E eu aprendi minha lição. — Mostro meu dente para exemplificar.

Ela torceu o nariz para a visão, então agarrou meu pescoço e me empurrou até a parede, eu a encarei de perto, assustada pelo contato abrupto, enquanto seu rosto estava sério e analítico. Senti a ponta da sua vara pressionada no meu abdômen, eu sabia que ela podia me eletrocutar se assim o quisesse com aquele negócio.

— Não ache que me engana com essa língua mansa, garota. Eu tenho um trabalho a fazer e não vou hesitar.

— Está tudo bem, você pode fazer o que quiser. Está em seu direito.

— Não pense que gosto de fazer isso, você parece ser legal, não há qualquer histórico ruim na sua ficha. — Ela suspirou. — Mas sim, eu assumo que fui além com você, sinto muito por isso.

— Eu entendo. Sinto muito pela minha cachorra. Como eu disse, faz pouco tempo que eu a adotei, não consegui adestrá-la ainda. E ela morava na rua, então há situações que a devem tornar mais agressiva. Eu tomarei mais cuidado.

— Espero que sim. Mas por algum motivo eu sinto que está escondendo algo aqui.

— Eu não vou tirar minha roupa para você se satisfazer, se é o que está pensando.

Ela estreitou os olhos e eu senti a ponta da vara pressionar na minha barriga, meu corpo se retorceu e minha visão escureceu por um instante, só quando ela afastou o objeto que eu entendi que tinha levado uma voltagem de choque. Era pior do que imaginava. Ela continuou segurando meu pescoço, as luvas grossas a protegendo da descarga elétrica. Seus olhos azuis se escureceram em deleite, eu quis xingar aquela maldita sádica, eu sequer podia baixar a guarda sem ser devidamente punida por isso!

— Não ache que eu te liberei por bom comportamento. Você é péssima se comportando. — Eu não digo nada, sentindo dormência na região que ela me acertou, além de dor. — Mas sua altura e sua voz batem com a descrição que estamos procurando. O que você disse que fazia antes de dar aulas?

— Eu era editora. — E isso era verdade. — Então consegui esse trabalho com os jovens e decidi investir meu tempo em ensiná-los, sempre foi o meu sonho. — E isso era mentira.

Arthur não sabia, mas me pagou para ser editora dos meus próprios livros. Para esse trabalho eu tinha me demitido alegando que consegui outro trabalho na área que queria atuar. Ana Martins era editora principal dos livros de Isa Miranda, e para ambos eu trabalhava de casa, assim ninguém suspeitaria de mim.

— Qual editora?

— Objetiva.

— A mesma que Isa Miranda? — Ela sorriu. — Quanta coincidência.

— Eu editava o livro dela, corrigia. — Digo, soltando um suspiro lento, porque era difícil respirar com a mão dela pressionada no meu pescoço, além de eu sentir alguma dormência e espasmos pelo corpo. — Você pode perguntar ao meu antigo chefe. Mas eu nunca tive contato com ela. Eu só recebia os livros por intermédio de Arthur.

— Quem é Arthur?

— Meu ex-chefe.

— Ah, é bom saber. Parece que terei uma conversa com ele. Então saiba que manterei os olhos em você, Ana Martins. Para o seu bem, espero que esteja falando a verdade e que eu tenha tido uma péssima impressão de você.

— Por que eu mentiria? Digo... quem não iria querer ser Isa Miranda com o que ela deve estar ganhando?

Para a minha sorte ou pela minha paranoia, eu tinha criado uma conta separada para Isa no banco. Ao menos para questões de bancos, a Bandeira Azul não tinha controle, e todos os dados eram secretos. Ainda assim, eu sabia que teria que retirar o dinheiro e esconder em algum lugar quando começasse a publicar os livros mais seriamente falando sobre a revolução, porque esse sigilo não iria durar para sempre.

— Os bens dela foram confiscados. — Ela pontuou seriamente. — Até que ela se apresente às autoridades.

— E por que ela está sendo procurada, senhora? — Eu perguntei logo em seguida, talvez assim mascarando minha surpresa. — Ela fez algo errado?

— Ela está sendo acusada de liderar motins contra a ordem de Canéia.

— É uma acusação bastante séria.

— Sim, e para o seu bem, é bom que você não seja Isa Miranda. Mas por garantia... — Ela guardou a vara e agarrou meu braço direito, torcendo-o nas minhas costas, eu quase gritei, gem*ndo alto pela dor, meu rosto sendo pressionado na parede fria. — Isa Miranda não pode liderar e nem escrever sem o braço de comando, não é?

— Não, por favor! Eu não sou Isa Miranda! — Implorei em pânico. — Eu preciso do braço para trabalhar na escola, por favor, senhora. Eu acabei de conseguir o trabalho, se fizer isso eles vão me demitir!

— Então você devia ter controlado seu comportamento desde o começo, não acha?

Eu estava gritando no momento seguinte, ela forçou meu braço mais ainda até que o som grotesco do osso se partindo ecoasse junto dos meus gritos. Ela me soltou e eu caí no chão, chorando de dor, prendendo o braço junto do corpo, mas isso só me fez gem*r mais alto. Eu olhei a região, vendo a deformidade logo acima do cotovelo. Era impossível dobrar o meu braço, de forma que ele ficou jogado no chão ao meu lado, eu sequer conseguia mover meus dedos da mão.

— Dói? — A soldado me questionou, abaixando-se a minha frente, mas não respondi, porque era uma pergunta estúpida e eu ainda chorava com dor. — Dói? — Repetiu, segurando meu queixo e me obrigando a olhar em seus olhos.

— Claro que sim! Você quebrou meu braço! — Acuso-a, frustrada e com ódio.

— Ótimo. Agora você vai lembrar dessa dor toda vez que for parada e interrogada, e vai pensar duas vezes antes de insubordinar um soldado. Agora se levante, ou vou ter que te carregar para fora?

Aquela maldita, deixando que eu acreditasse que a conversa iria acalmá-la o suficiente para não fazer nada comigo. Ironicamente lembrei do meu penúltimo livro, que ganhou a versão cinematográfica, quando Peter foi atropelado. Generais e suas formas de calar protestos e passar a mensagem de violência adiante para amedrontar o povo. Mas isso só me fazia sentir mais raiva, um desejo intenso de lutar de volta para que coisas assim não continuassem acontecendo com tanta frequência.

Eu me levantei sozinha porque não queria que ela me tocasse outra vez, e ainda chorando de dor, fui para fora, sendo seguida de perto pela mulher. Eu não sabia seu nome porque soldados não falam nomes, não possuíam qualquer identificação, mas eu a odiava mais que qualquer pessoa que já tivesse conhecido.

— Oh, Ana... — Manuela falou quando parei a sua frente, impedindo que Aurora pulasse em mim.

— Agora vocês estão liberadas. — A mulher nos dirigiu um sorriso cínico, então se afastou para outro carro, eu sequer me importei de olhar.

— Eu sinto muito por isso. — A outra soldado parou ao nosso lado, vendo meu braço pendendo ao lado do corpo. — Você precisa de ajuda para chegar ao hospital?

— Não. — Talvez eu tenha soado rude, mas não me importei, pois estava com tanta dor que sequer me importava em como deveria tratar um soldado agora. — Você pode dirigir, Manuela?

— Eu não estou com a minha carteira, Ana, eu sinto muito. — Manuela mordeu o lábio, culpada. — Eu vou ligar para Amy, ela está aqui perto.

— Por favor, sei que sou a última opção de vocês para aceitarem ajuda, mas ao menos me deixem conduzir o veículo até o hospital mais próximo. Se tiver rompido uma veia você pode morrer ou perder o braço. — A soldado insistiu.

— Não é necessário. Eu espero até minha namorada chegar. — Falo sem paciência.

— Com esse trânsito ela vai demorar para chegar de qualquer forma. E eu ligarei a sirene no seu carro, chegaremos rápido.

— Com todo o respeito, senhora, mas você pode me garantir de que será para o hospital que vai me levar? Porque até agora eu só fui ameaçada por exatamente nada!

— Mantenha a calma, senhorita Martins, por favor. Não queremos chamar a atenção agora, certo? — Ela ergueu as sobrancelhas, eu mordi o lábio para me manter em silêncio, e gemi, lembrando que meu lábio estava machucado também por causa daquela maldita vara. — Você precisa de cuidados, é o mínimo que posso oferecer.

— E você pode se oferecer, para começo de conversa?

— Sim, meu turno acaba agora, eu fiquei a noite toda. — Estreito os olhos para a informação a mais.

— Vamos, Ana, ela tem razão. — Manuela disse. — É melhor sairmos logo daqui. Eu ligarei para Amy no caminho.

Eu não tinha mais como resistir porque estava exausta de tanta dor, além da queimação no meu rosto e o gosto de sangue na minha boca. Foi assim que um soldado me levou para o hospital após outro soldado ter me interrogado e quebrado o meu braço. Mas meu sangue fervia, e um braço quebrado não impediria o que estava por vir.

Fim do capítulo

Notas finais:

Olá revolucionárias!

 

É um prazer receber todos vocês aqui ;)

Siga-me no instagram para mais curiosidades das minhas histórias!

@alex.escritora

 

Em breve sorteio do meu livro "Born" por lá. Vou continuar coletando nomes por lá para quem quiser participar :) fique ligado!

 

E não se esqueça: revolucione-se!


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Comentários para 7 - Um interrogatório:
Lea
Lea

Em: 26/03/2022

A Aurora deveria ter arrancando o braço e depois a cabeça desse lixo arrogante!!

 


Resposta do autor:

Já pensou?

-"Aurora, pega!" - Então a cachorra avança e arranca a cabeça da soldado.

ahahhaah

teria que haver aviso de cenas fortes no início, com certeza!

 

Responder

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HelOliveira
HelOliveira

Em: 26/03/2022

Autora que tensão, eu queria matar essa soldado....será que Amy vai fazer isso pessoalmente?

Agora segura que a Isa vem com tudo...

Não expectativa para o próximo...

 


Resposta do autor:

Nossa acho que a Amy iria adorar fazer isso pessoalmente hahaha

Mas talvez a Ana tenha outros planos para ela ;) 

 

A Isa vai vir com tudo mesmo :D 

 

Até o próximo!

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