Capítulo 20

Capitulo 20

de E se..., por Nadine Helgenberger

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Elena afundou-se no assento do avião sentindo-se extremamente cansada. Olhou as horas no tablet e percebeu que faltava pouco tempo até começarem a descer para La Guardia.

Fechou os olhos e suspirou. Estava exausta e a rotina de reuniões e eventos na Carolina do Sul justificava o desânimo.


--Animo Elena, ainda precisas estar na EWO depois do almoço...- Suspirou e encolheu-se no assento.


Lembrou das palavras de Milanka e mordeu a boca por dentro como sempre fazia quando alguma coisa a incomodava. Há quanto tempo sentia-se assim? Muito? Pouco? Não sabia ao certo, mas não estava confortável naquela situação. Não queria ser a faz-tudo da editora. Sim, era exatamente assim que se sentia. Por muito tempo, sentiu-se privilegiada com a confiança nela depositada. O fato de estar sempre ao lado da chefe, era de certa muito estimulante e exigia dela uma performance cada vez melhor. Para sua veia competitiva, nada poderia ser mais afrodisíaco. O trabalho, o crescimento profissional era sua maior prioridade. Ainda era, mas alguma coisa parecia estar fora do lugar...


Mais um longo suspiro e dessa vez acompanhado de um desconforto no estômago. Claro, não tinha comido nada decente na sua última noite em Columbia. Sentira-se tão esgotada que sequer pensara em comida. Agora, com o dia amanhecendo, sentia-se faminta.
Pensou na mãe e esboçou um leve sorriso. Ela sempre preguntava se tinha se alimentado bem. Se a mãe soubesse a realidade dos seus últimos três dias...
--Vou tomar um pequeno almoço de rainha no aeroporto. - Disse para o reflexo da própria imagem na tela escura do tablet.
Fechou os olhos e experimentou mais uma vez aquela sensação que ainda não tinha nome. Era algo que causava desconforto...angústia...e muitas outras coisas antagónicas. Massajou a lateral da cabeça para aliviar a perturbação.
Joy...
Mais um suspiro. Sentia-se confusa naquela situação. Um pássaro com uma asa aberta pronta para alçar voo, e a outra quebrada ao meio...
O que aquele sentimento tinha de diferente? Claramente sentia algo avassalador por aquela mulher. Na melhor das hipóteses e levando em conta as conjeturas de Milanka, seria algo fácil de resolver. Mordeu a boca mais uma vez e dessa vez doeu.
Mal tinham-se falado nos últimos dias e muito por culpa das exigências de Brigitte. Chegava ao hotel tão cansada que não tinha condições de muita coisa além de banho e cama. Mas, se fosse honesta, diria que agira assim propositalmente. Queria afastar-se daquele redemoinho para organizar as ideias. Queria sua rotina previsível de volta. Então, deveria agradecer à chefe por mais uma viagem sem planeamento...
--Coerência, Elena! - Resmungou.
Encostou a cabeça na janela e entregou-se ao devaneio enquanto ouvia a melodia de We´re gonna be ok de Cody Francis.

 

*****


Depois de comer uma refeição que deixaria a sua mãe orgulhosa, Elena teve alguma dificuldade em levantar-se da mesa e seguir a sua vida. Perdeu-se em pensamentos enquanto observava as pessoas que transitavam pelo aeroporto. Imaginava a história que carregavam, os sonhos, desalentos...
Sempre teve essa mania, inventar histórias para estranhos. Sorriu e sem julgar a sua atitude, tentou mais uma vez falar com Joy. Telefone desligado. Suspiro longo.
Por um lado, frustração. Por outro, alívio. Era assim que vivia ultimamente, total incoerência.
--Vamos para casa dona Elena, porque o Mykonos com certeza ficará feliz e a senhorita precisa descansar antes de marcar presença na editora. - Riu de si mesma enquanto dirigia-se com passos firmes em direção à saída do terminal.

 

*****


Até o momento de sair para o lounge do aeroporto, Joy ainda não tinha entendido o motivo de ter sido arrancada às pressas de Vermont. O irmão não fora claro na urgência da sua presença em Nova York. Ela nem pensara duas vezes, o trabalho era importante, mas o irmão sempre estaria no topo das prioridades.
Qualquer crise de consciência que pudesse existir, foi totalmente superada assim que bateu os olhos no irmão. Correu para ele e entre risos felizes, foi levantada do chão e rodopiada.
--Agora que matei as saudades, posso saber o motivo dessa chamada intempestiva? O mundo vai acabar?
Risos.
--Essa é a Joyanne, brava e pragmática. Não te iludas com sorrisos, Paloma.
Joy abraçou a namorada do irmão que ria da situação.
--Mas, devo admitir que mudaste para melhor, ou, que fotografia é apenas hobby...
--Não, fotografia não é hobby. Sabes bem qual é o meu ponto fraco, seu sacana.
Risos.
--Pois sei. Por acaso sou eu, Paloma.
Gargalhadas.
--Além de brava e pragmática, sou extremamente curiosa. O que estou a fazer aqui?
--E o trabalho?
--Prometi voltar amanhã nas primeiras horas. A minha atitude não foi nada profissional, mas quando eu disse que era uma questão familiar...
--Mentiste, Joyanne!
Gargalhadas altas.
--Eu mato esse irmão mais novo, ou será que devo esfolar? - Fingiu apertar o pescoço do irmão arrancado risadas da dupla.
--É por uma boa causa...- Disse Paloma deixando uma aura de mistério no ar.
--Só pode ser, afinal vocês apareceram por cá bem antes da data prevista.
--Conta Paloma, afinal és a culpada de tudo isso...
--Culpada? - Joy franziu a testa.
--Lembras das fotos que fizeste do nosso concerto em Los Angeles?
--Claro!
--Lembras da FW Magazine & Co?
--Não...nenhuma ideia.
--É a revista especializada em fotos de bandas e outras artes.
--Sim, agora me lembro.
--Claro que ela lembra, essa cabeça é brilhante.
Risos.
--Para de devaneios...Paloma?
--Então, eu enviei o teu ensaio e...
--Ganhaste o prémio revelação. - Gritou Thomas.
--Eu o quê?
--Ganhaste o prémio Joy. Tudo bem que deves ser uma boa fotógrafa, mas a banda ajudou, os componentes. Isso tudo sem mencionar o charme irrepreensível desse casal carismático.
Gargalhadas.
--E isso significa exatamente o quê? - Joy não conseguia acreditar.
--Significa que vais receber um prémio logo mais, na galeria mais hype da cidade de Nova York. Sim, isso não é para qualquer um, mas tu és a minha irmã.
--Ahhhhhhhhhh! - Joy pulou de alegria. Finalmente tinha entendido o que estava a acontecer.
--Isso, grita de felicidade. Tu nem imaginas o tanto que já vibrei, irmãzinha.
--Não te esqueças de contar das cervejas...
--Mal de família e da geografia.
Gargalhadas felizes.
--Vamos Joy, tens um prémio à espera e uma plateia ávida por conhecer a mais nova sensação da fotografia.
--Ele não é nada exagerado.
Joy puxou o cabelo do irmão que riu às gargalhadas.
--Ele até pode ser exagerado, mas nessa situação...
--Ah, parem com isso. Não tenho estrutura para esse tipo de coisas...
--E os prémios que recebias em Londres?
--Outro mundo...
--Vamos? Acredito que os irmãos ingleses querem ficar apresentáveis para a noite memorável.
Gargalhadas altas.
--Eu nem sei se tenho roupa para esse evento...
--Ah Joy, pelo amor de Deus. Tu tens um guarda roupa que é puro exagero...bom, tinhas...
--Ah, pois...
--Não é nada que demande brilhos e plumas. Com certeza tens muita roupa e se não tens, vamos comprar alguma coisa.
--Precisamos correr, Joyanne! - Gritou Thomas.
--Não sei se mato ou encho de beijos.
Risos.
--Ele me tira do trabalho e ainda manda em mim...
Risos.
--A propósito, estou muito feliz com a vossa presença. Não sou muito adepta de surpresas, mas essa acalentou o meu coração.
--Por falar em coração, tentei falar com o William, mas ele estava sempre muito ocupado.
--William? - Joy franziu a testa.
--Sim, o teu namorado. Aquele senhor perfeito que só tu aturas...
Risos.
--Eu sei quem é William. - Sorriu de forma enigmática. - Vamos embora porque preciso comprar uma roupa apresentável.
Joy abraçou o irmão e a namorada dele e caminharam a passos largos para a saída.

*****

Elena olhou mais uma vez para o calendário de tarefas e suspirou. Tinha pendências que já se acumulavam há mais de uma semana e nada poderia ser mais angustiante para a profissional perfecionista que era. A última viagem tinha sido totalmente desnecessária...
--Talvez não de todo, mas eu poderia ter ficado aqui a adiantar a minha vida...
Mais um longo suspiro acompanhado de uma sensação de aprisionamento.
Levantou da cadeira e andou de um lado para o outro. Estava cansada, com sono, mas o que eclodia na sua mente era uma sensação de angústia. A angústia já descera da cabeça para o peito...
--Preciso trabalhar. Tenho que concluir essa merda ainda hoje.
Levou uma mão à boca e sorriu ainda que sem muita vontade. Estava realmente irritada e com vontade de sair dali e perder-se pela cidade como quase sempre fazia em situações idênticas.
Situações idênticas? O trabalho às vezes a consumia, sua mania de perfeição causava-lhe algum stress, mas aquele aperto no peito era inédito.
Olhou para o amontoado sobre a mesa de trabalho e rapidamente desvencilhou-se daqueles pensamentos pouco ortodoxos.

 

*****


Joy observava o reflexo que via no espelho do seu quarto e sorria. De repente um filme passava pela sua cabeça. Já recebera prémios na vida, aliás, acostumara-se a eles. Na escola, recebia-os anualmente. Na universidade fora premiada muitas vezes em vários fóruns, na vida profissional, recebia prémios financeiros, promoções...
--Estou tão feliz! FELIZ! - Gritou e pulou de alegria.
A satisfação ao ser distinguida naquele que poderia ser considerado um prémio inferior, a deixava tão maravilhada. Queria gritar de felicidade, correr, abraçar as pessoas queridas. Queria espalhar alegria.
O telefone tocou, e já sabia que era Paloma. Ela estava muito entusiasmada, afinal, tudo começara com a sua atitude.
Tranquilizou a namorada do irmão, avisando que já poderiam passar para buscá-la. Thomas alugara um carro alegando que a premiada não poderia chegar a pé o que fora motivo de muitas gargalhadas.
Antes de sair de casa, Joy tentou mais uma vez ligar para Elena. Em vão. O telefone permanecia mudo. Queria partilhar aquele momento e no cenário ideal, queria a presença dela...
Suspirou e sorriu. Estava com uma leve ansiedade e sabia muito bem a quê atribuir aquele estado de espirito. Mas, era mais comodo acreditar que a ansiedade era pelo inusitado do prémio de fotografia.
Fechava a porta do apartamento quando Ethan atendeu-lhe a ligação.

*****


Elena estendia os braços sobre ao cabeça para tentar aliviar um pouco o cansaço, quando Milanka entrou como um furacão pela sala. Foi abraçada pela amiga que transbordava energia.
--Troia, já liguei para a porcaria do teu telefone mil vezes...
--Exagerada!
Risos.
--Desconta o exagero, mas liguei muitas vezes e...
--Está morto!
--Hã?
--Por descuido deixei cair água no banheiro do aeroporto e desde então está com essa tela camuflada e não faz ligações...
--E nem recebe.
--Pois...
--Arroz?
--Aqui?
Gargalhadas altas.
--Tens outro telefone, aquele que ganhaste do último candidato a namorado.
Gargalhadas.
--Já nem me lembrava disso, mas estás certa e acabaste de salvar a minha vida.
Risos.
--O mundo deve estar atrás de ti e esse telefone morto...
--A única pessoa que está atrás de mim é a Brigitte e um escritor persistente que conheci na feira...que cara é essa?
--Cara de quem está com vontade de pular no teu pescoço.
--Que violência é essa?
Risos.
--Muita coisa acontecendo lá fora e tu enfiada nessa sala...
--Não sei se lembras, mas eu trabalho aqui...aliás, nós trabalhamos aqui.
Risos.
--Eu não me esqueci desse fato e cumpro muito bem as minhas atribuições. A única diferença é que sei que há vida além dessas paredes e não me esqueço da vida com a cara enfiada num computador. Elena, chegaste de viagem hoje, uma viagem sem sentido...
--Tinha pendências...
--Sempre tens, mas deixa isso para lá. Vim arrancar-te dessa sala para juntas podermos prestigiar a inglesa...
--Quem?
--Elena, que inglesa que causa uma avalanche na tua vida?
Elena prestou mais atenção ao destempero da amiga.
--Continuo sem entender...
--A Joy vai receber um prémio...
--Prémio?
--Sim, é uma história doida, mas ela depois te conta. Vamos?
--A Joy vai receber prémio de quê?
--De fotografia. De banda musicais, ou algo assim. Não sei ao certo, mas o Ethan que viaja logo mais, faz questão de estar presente ainda que por poucos minutos, e eu vou acompanhá-lo.
Elena absorveu aquela frase, mas nada fez muito sentido.
Ansiedade...
Aquele aperto no peito agora parecia capaz de asfixia-la.
--Troia?
Elena soltou o ar pela boca.
--Estou com muita coisa para fazer...
--Elena, é a Joy que vai receber um prémio. Ouviste bem o que eu disse?
Mais um suspiro seguido de um momento de silêncio.
--Aconteceu alguma coisa durante a viagem? Não pode ter acontecido nada, ela também estava a viajar e não era contigo.
--Preciso trabalhar...
--Troia, nós sabemos que precisas trabalhar e que o trabalho é o ar que respiras, mas sabemos também que desde que essa inglesa apareceu...
--Milanka, se continuares a falar eu nunca mais concluo a agenda...
--Elena, estavas com um pé fora dessa zona de conforto chata...
--Tu mesma me disseste para ter cuidado...- Elena revirou os olhos.
--Ter cuidado é uma coisa, esconder-se é outra bem diferente. Estavas tão bem...
--Eu estou bem, só preciso me concentrar aqui...
--Estás decidida a não prestigiar a Joy, é isso?
--Ela por acaso convidou-me?
--ELENA! A merda do telefone não está avariado? Ela chamou o Ethan, imagina se não te chamaria...
Silêncio.
--Estás com medo? Preferes a vida morna? Que vida morna? A tua vida é fria e olha que ela pode ser escaldante...tanto potencial...
Elena arregalou os olhos.
--Não precisas arregalar esses olhos. O momento é de andar para a frente ainda que o caminho possa parecer obscuro. Ah, Desisto Troia.
Milanka anotou o endereço do local do evento num post it, beijou a amiga e foi embora.
Elena desmoronou sobre a mesa de trabalho. Alguns minutos depois, pegou o telefone e ele permanecia com a tela quase apagada. Tentou ligar para Milanka, mas sem sucesso. Teve vontade de atirar o aparelho contra a parede, mas controlou-se.

*****
O relógio na tela do computador marcava 18:45 e ainda que não emitisse qualquer som, na cabeça de Elena, o tique taque martelava. Já deveria ter ido embora, mas, mais uma vez mergulhara no trabalho e esquecera da vida.
Todos já tinha ido embora, pelo menos todos do seu departamento. As pessoas tinham vida...
Suspirou e olhou para o teto. Ouviu uma movimentação perto da entrada de sua sala e desceu o olhar naquela direção. A figura que apareceu à porta da sua sala só poderia ser fruto de alucinação, miragem, ou ainda projeção da sua carência excessiva.
--Telefone desligado, Elena? Essa é a ultima novidade?
--Mãe? Melina, o que fazes aqui? Estarei a sonhar?
--Vem cá me dar um abraço e já esclareço a tua dúvida.
Elena voou da cadeira em direção aos braços abertos da mãe. Apertou-a com urgência.
--Minha filha, quanta saudade. - Melina beijou a cabeça de Elena inúmeras vezes enquanto era apertada.
Elena sorria, ria e não acreditava que estava mesmo nos braços da mãe.
--Deus ouviu minhas preces...
Risos com afagos.
--Mãe, não me disseste nada...
--Eu não sabia que viria a Nova York. Sabes que tenho um namorado imprevisível e completamente maluco...
Risos.
--Hum-hum, e maravilhoso também.
--Muito! Na volta para casa, ele me perguntou se não me importava de fazer uma paragem rápida em Nova York para assistirmos a estreia de Adrian na Broadway.
--Wow! Ele vai estrear aqui?
--Vai! E Richard não cabe em si de satisfação. Além de abraçar a minha filha querida, ainda vou à Broadway. Decisão muito fácil.
Risos felizes.
--Mãe, não vais ficar comigo? Por favor...
--Claro que vou ficar contigo. Já deixei minha mala no teu apartamento. Não te avisei antes porque o teu telefone está desligado.
--Não tens que me avisar nada. Meu telefone molhou e...ahhhh, mãe, estás mesmo aqui? - Elena apertou a mãe contra o seu corpo para certificar-se que era mesmo real.
--Quantos dias?
--Apenas dois, meu amor. Tenho pendências em casa...
--Ah, já agradeço de joelhos no chão. Não contava com a tua visita e acho que estou carente de mãe.
--Hmmm, é bom ouvir isso de uma filha tão autossuficiente.
Risos.
--Tu me criaste assim...
--Sim, e não me arrependo. Elena, já não são horas de sair do trabalho?
Risos.
--São, mãe. Ainda bem que apareceste aqui para me lembrar que há vida fora dessas paredes.
--Estou com muita fome. Vamos comer?
--Já sei, nosso restaurante de sabores asiáticos no Bryant Park.
Gargalhadas.
--Tua mãe é bastante previsível e viciada naqueles pratos.
--Estás linda, mãe. Radiante.
--Estou apaixonada pelo melhor homem que poderia encontrar nesta existência. Além de excelente companheiro, ele ainda apoia todas as minhas ideias, tem esse espirito de aventura que simplesmente me encanta...
--Fico feliz!
--Não posso me queixar. Demorou algum tempo, e quando eu não estava à espera de nada, eis que surge o Richard todo atrapalhado no meu restaurante e com aquele sotaque irresistível...
--Ainda resististe um bocado...
--Desconfiança, Elena...dores antigas...e necessidade de resolver a vida para estar inteira.
--Hum-hum...
--Mas ele naturalmente mostrou-me que não podemos ter verdades cristalizadas na nossa vida, ou podemos nos tornar pessoas rígidas, às vezes muito céticas...
--Eu gosto dele...gosto muito dele.
--E eu sou completamente apaixonada pelo meu Neozelandês.
Elena sorriu e abraçou a mãe pelos ombros.
--O Mykonos recebeu-me com entusiasmo.
Gargalhadas.
--Ele estava em casa? Ah, sim, nem me lembrava mais que fui busca-lo em casa da Milanka. Ele é bipolar.
Gargalhadas.
--Mostrou-se muito feliz com a minha chegada. E a Milanka como está?
--Bem louca como sempre.
Gargalhadas.
--A amiga perfeita para essa minha filha muito centrada e ambiciosa.
--Ah mãe, não sou ambiciosa...
--Não é critica, filha. Tu és ambiciosa na tua carreira e estás certa em ser assim. Só não podes esquecer que há outras coisas tão importantes quanto a carreira. A Milanka é a doseadora dessa explosão de foco.
Risos.
--Ela não pode saber que tens essa opinião ou mandará ainda mais em mim.
Risos.
--Ninguém consegue essa proeza.
Gargalhadas altas.
--Vamos, Elena! Estou com fome e tenho a certeza que tu não comes nada há muito tempo.
--Ah mãe...
Gargalhadas.

 

*****
Apesar das risadas e da óbvia descontração da filha, uma amiúde inquietude não passou despercebida à atenção de Melina. Entre um gole de vinho e um pedaço da sobremesa, ela sempre se mexia na cadeira de forma ansiosa. Melina a observava com calma, tentando entender o que estaria na origem daquela ansiedade.
--Não me digas que vais regressar ao trabalho. Já tive mais prestígio junto à minha única filha.
Risos.
--Mãe, não sou tão aficionada assim...
--Então? A comida estava tão boa que nem devem lavar nossos pratos.
Gargalhadas.
--A comida estava maravilhosa e a companhia perfeita. Nem imaginas a minha felicidade, mãe...
--Imagino sim. Eu fico imensamente feliz que estejas a viver o teu sonho, mas as saudades às vezes podem ser sufocantes.
--Quem sabe eu não volte para casa...
--Vais desistir do teu sonho?
--Não, mas posso vivê-lo em outro lugar...em qualquer lugar. Mas, isso é conversa para outro momento. Por enquanto, estou feliz aqui...
Sorrisos.
--Já sabes, mas não custa nada repetir, apoio-te em qualquer decisão e em tudo.
--Eu sei...
--E essa efervescência no olhar?
Elena riu alto. A mãe a conhecia como ninguém...
--Mais cedo a Milanka convidou-me para um evento...
--Elena, porque não me avisaste? Eu jantaria com o Richard...
--Não, nada disso. O evento está a decorrer agora...
--Vamos? Posso acompanhar-te? Nada como uma noitada em Nova York.
Gargalhadas.
--Não estás cansada?
--Eu? Cansada em Nova York e na companhia da minha filha? Impossível. Vamos!
--É uma premiação...alguma coisa assim...
--Estás a tentar dissuadir-me?
--Não...
Risos.
--Nem conseguiria...
--Pois! Vamos à entrega de prémios.
--E o Richard?
--Ah, definimos que hoje seria cada um com a sua respetiva prole. Nada me faria ficar longe de ti, meu amor.
Elena sorriu sentindo-se acolhida.
--A essa hora já nem sei se vamos a tempo...
--Pergunte à Milanka...ah, o telefone tirou férias.
Risos.
--Provavelmente a premiação já terminou, mas sempre acontece uma comemoração. Vamos?
--Agora! Afinal, estamos em Nova York.
Risos.

 

*****

--Eu não acredito! - Gritou Milanka ainda distante de Elena e da mãe.
Elena riu e maneou a cabeça.
--Melina, a tua filha agora esconde-me as informações. Como é que eu não sabia que estarias em Nova York? - Abraçou a senhora que retribuiu na mesma intensidade.
--Talvez porque tenha sido uma surpresa para mim. Já conheces a minha mãe...
Risos.
--Melina, ainda bem que apareceste por cá. Tens a certeza que não trocaram-te a criança no hospital?
Gargalhadas altas.
--Uma mãe aventureira dessas e essa filha...
--Cala a boca.
Gargalhadas.
--Ainda bem que a convenceste a vir. A premiação já terminou, mas ainda há comemoração com comida e bebida do melhor. Ah, e muita gente bonita.
Risos.
Elena tentava agir com naturalidade, mas involuntariamente olhava de um lado para o outro e sentia o batimento do coração ressoar por todo o corpo.
Num desses momentos de impaciência disfarçada, seu olhar cruzou com o de Joy. Teve a sensação, que de uma forma bastante abrupta, todas as outras pessoas foram varridas daquele espaço. Sorriu e sentiu a face tremer. Socorreu-se do ombro da mãe para não tropeçar nas pernas. Apertou os olhos e abriu-os devagar. Tudo em segundos que pareciam demorar mais do que normal.
Joy sorriu. Elena apertou o ombro da mãe com força. Sentiu-se invadida por algo estranho e de uma força poderosa. De repente, a razão chacoalhou a sua mente e ela tentou manter uma postura neutra.
Ninguém podia exercer aquele poder todo sobre si, muito menos alguém que mal conhecia. A lembrança de que Joy tinha um relacionamento foi suficiente para devolver-lhe a postura impassível.
--Filha, então é uma amiga tua que está a ser premiada e não me disseste nada.
Elena fuzilou Milanka com o olhar e a amiga sorriu de forma provocativa.
--E o meu namorado e aquele séquito de fãs finalmente deixaram-na em paz e lá vem ela. Melina, vais adorar a Joy...
O ar imperturbável de Elena desvaneceu. Apertou o ombro da mãe com força e desviou o olhar de Joy.
"Ela não precisava ser assim e era escusado exercer esse efeito sobre mim." Pensava Elena enquanto ouvia o coração bater no estômago.
Elena percebeu claramente que Joy fixava o olhar nela e teve que reagir evitando alguma atitude que a deixasse vulnerável.
--Joy...parabéns. Essa é a minha mãe. - Apressou-se a apresentar a mãe.
Joy desviou o olhar para Melina e abriu um sorriso esplendoroso.
--Hmmm, está explicada a beleza da filha. Muito prazer, Joy.
Melina sorriu e cumprimentou Joy efusivamente. Era assim com todos os amigos da filha.
--Ela é muito mais bonita...parabéns pelo prémio. - Elena tentou disfarçar o nervosismo.
--Obrigada! São muito parecidas...
--Ah Joy, não são nada. A Melina é muito mais divertida do que essa filha chata dela.
Risos.
--Obrigada pela sinceridade. - Elena fingiu-se brava.
--O que aconteceu com o teu telefone? - Joy perguntou segurando a mão de Elena que imediatamente experimentou um calor que parecia lava em fúria a correr.
--Caiu água...demorei a perceber...
--A tua amiga é desligada, Joy.
Risos.
--Ainda bem que tu não és e a trouxeste para cá...
Joy sorria com os olhos, com a boca e tinha uma postura tão perfeita que Elena tinha a certeza que estava numa outra realidade. Queria...
--Liguei-te várias vezes para te contar dessa loucura. A namorada do meu irmão é doida...
--Eles estão aqui...
--Pois estão. Uma surpresa incrível, aliás, estou a viver um sonho e a Paloma é o anjo.
Elena tinha a certeza que pasmava em Joy muito além do razoável. Joy tinha esse poder, irradiava uma luz que inebriava...
--Como foi a viagem?
--Hmmm? - Elena não conseguia raciocinar.
Joy sorriu e mordeu o canto da boca como muitas vezes fazia. Apertou a mão de Elena que prendeu-lhe um dedo entre os seus.
--Muito trabalho, quase não respirei. Mas ainda bem que os anjos existem e tive essa surpresa maravilhosa. - Elena abraçou a mãe
--Estamos em sintonia...familiar.
Sorriram. Dos olhos saíam perfeitas labaredas.
--Ah Melina, como podes ver, já perdi o meu lugar na vida da tua filha. - Milanka precisou agir para quebrar aquele momento de encantamento entre a amiga e a inglesa.
--Exagerada! Mãe, tu já conheces essa doida carente e maravilhosa.
Melina sorriu e passeou o olhar de Milanka para Joy e pousou na filha.
--O coração de Elena é enorme. - Concluiu Melina sorrindo.
Risos.
--Sem dúvida. Mas é impossível concorrer com uma fotógrafa maravilhosa, premiada e que fala com esse sotaque que é uma caricia no ponto G.
Melina riu alto. Elena corou violentamente e Joy agiu rapidamente para livrá-la de um eventual constrangimento.
--Ainda não viste a foto premiada...- Disse enquanto a levava pelas mãos para longe dali.
Elena entendeu aquela saída pela tangente e teve uma súbita vontade de abraçar Joy.
De mãos dadas, seguiram em direção à galeria de prémios.

 

*****
--Vejo muitas mudanças por aqui desde a minha última visita...
--Ah sim, com certeza. A tua filha que não saiu à mãe, agora está mais aberta a amizades, e quem sabe a aventuras...
--Nem imaginas como fico feliz. A Elena sempre foi muito determinada e com uma certa tendência ao exagero.
--É chata mesmo.
Risos.
--Mas tão encantadora que eu não consigo ficar longe. Essa amiga nova tem mostrado um novo mundo a ela e com sucesso. Poderia ficar com ciúmes, mas, fico muito feliz que ela esteja a desabrochar.
Risos.
--O trabalho a absorve muito...
--Trabalhamos na mesma empresa, e eu vivo...
--Sim, até tens um namorado novo...
Risos.
--O Ethan é quase um milagre na minha vida. E a Troia me ajuda muito a gerir minhas emoções.
--E ele conhece a fotógrafa...
--Para veres as coincidências dessa vida. Eles são amigos desde os tempos da universidade. Joy estudou aqui. Estamos todos em família.
Risos.
--Confesso que gosto dessas novidades. Gosto do brilho nos olhos da minha filha...
--Quem não gosta de uma novidade com sotaque inglês?
Gargalhadas.
--Doida!

 

*****
Elena contemplava a foto que concedera à Joy o primeiro prémio de fotografia e era invadida pela certeza que ela nascera para se embrenhar naquela arte. A sua capacidade de captar detalhes perfeitos era sem dúvida a sua marca.
--Gostas? - Joy perguntou com a boca quase encostada à orelha de Elena.
--Adoro! Não me admira que tenhas arrecadado um prémio.
--Meu primeiro...estou em êxtase e não fazia a menor ideia que estava a concorrer.
--Não?
--Não! Isso tudo foi uma loucura da Paloma. Eu não teria coragem...
--Como não? És muito corajosa, aliás, eu admiro essa tua coragem para tudo...
--Hmmm, há controvérsias.
Risos. Sorrisos. Brilho nos olhos.
--Tu és maravilhosa com a camera. Diria que falam a mesma língua e se entendem perfeitamente.
--Perceção instigante e também desafiadora.
Risos.
--Lembro-me bem de a senhora dizer que adora desafios.
--Adoro! Todos...
Elena queria perder-se na boca de Joy. Queria abraçá-la, colar a sua pele na dela. Queria coisas que não fazia ideia que também eram o desejo de Joy.
--Vais voltar para Vermont? - Mudou de assunto, ou...
--Vou! Nas primeiras horas do dia...
--Hmmm...
--Tive que sair às pressas, mas ainda não conclui o trabalho. Devo ficar mais 3 dias, ou seja, fim de semana a trabalhar.
--Tu nem gostas...
Risos felizes.
--Pois...
Sem pensar muito, Elena apertou a mão de Joy entre as suas. Perderam-se numa intensa troca de olhar.
--Como é que eu te acho? - Joy perguntou num rompante.
--Não entendi...
--Estás incontactável. A porcaria do telefone...
Elena sorriu e depois soltou um risinho.
--Tenho outro que será ligado assim que chegar a casa.
--Ufa! Acabaste de salvar a minha vida.
--Exagerada!
--Tive saudades tuas...- Joy sabia ser intensa.
Elena estava entregue ao encantamento.
--Eu...
--Joyanne, eu acredito que estejas com saudade da tua amiga, mas o mundo quer falar contigo, conhecer a fotógrafa que fez essa maravilha. Se bem que a banda ajudou bastante...
Gargalhadas. Elena vermelha e com o coração acelerado.
Contudo, acalmou-se ao perceber que Joy também estava com a tez avermelhada e aparentava algum descontrole.
--Elena, esse é o meu irmão mais novo e a criatura mais irreverente desse mundo.
Risos.
--E essa é a Elena dos vídeos. Eu jamais me esqueceria desse par de olhos e de como a minha irmã fica leve na tua companhia.
Gargalhadas altas.
--Tu falas demais. A Paloma?
--Está a fazer o teu trabalho.
--Nada mais justo, afinal, ela é a responsável por tudo isso.
--Minha irmã é uma chata, Elena. Como é que aguentas?
Gargalhadas.
--Só muita amizade para justificar.
--Thomas...- Joy simulou um tapa nas costas do irmão que riu alto.
--Ah, esqueci de mencionar que ela é a dádiva da minha vida. Sem o apoio dela e da minha mãe, eu jamais estaria fazendo o que me atiça a alma.
Thomas abraçou a irmã pelo ombro e recebeu um beijo terno na face.
--Elena, não te importas que eu a roube por alguns minutos?
--Não, claro que não. Ela precisa brilhar.
--Gostei...gostei muito.
--Vamos Thommy. - Joy apressou-se para sair dali antevendo que o irmão falaria mais do que o conveniente.
--Ficas mais um pouco?
--Preciso ir, além do meu cansaço, minha mãe chegou de viagem hoje e ainda não descansou.
--Liga o telefone, por favor.
--Claro! Parabéns!
--Obrigada. Ligo-te mais tarde.
--Vamos, senhora fotógrafa? Muito prazer, Elena. Ao vivo és ainda mais linda, e olha que alegas cansaço...
Gargalhadas.
--Esse é meu irmão...galanteador.
--E apaixonado pela minha namorada. Mas, não sou cego...
Risos.

 

*****
--Mãe, ainda não foste dormir?
--E perder a chance de mimar a minha menina?
Elena sorriu deitando a cabeça nas pernas da mãe e aconchegando-se o máximo que pôde.
--Estás cansada mãe...
--Mas nunca a ponto de não apreciar a presença da minha filha. Já tenho tão pouco tempo. E sabes que para mim...
--Serei sempre a tua menina.
Risos.
--Espera até teres os teus filhos para veres que não será diferente.
--Falaste com o Richard?
--Sim. Está tudo bem, ele também lambe a cria.
Risos.
--Amanhã estás livre depois do trabalho?
--Sim...devo estar...
--Gostaria que fosses connosco à peça do Adrian.
--Claro mãe! Há tempos que não vou ao teatro...
--Gostavas tanto...filha, não tens direito a alguns dias de férias?
--Devo ter. Porquê?
--Pareces cansada...
--Estou! Mas há tanta coisa para fazer na editora...
--Tira uns 3 dias. Ninguém morre e tu ficas revigorada.
Risos.
--A minha chefe exige bastante...
--A Milanka comentou sobre isso e disse ainda que tu é que não estabeleces limites.
--Ela fala demais, mas se calhar tem razão. É um pouco difícil para mim definir o que é demais...entendes?
--Sim, claro. Talvez eu tenha uma parcela de culpa nessa tua característica...
--Culpa? Porquê?
--Eu sempre ressaltei que o que realmente importa é o sucesso profissional.
--E, não é?
--É importante, mas temos que saber gerir as prioridades...
--Eu quero ter sucesso na minha profissão.
--Mas não precisas anular as outras esferas da tua vida. A Milanka parece feliz no namoro e ela é uma excelente profissional. Não te sobra tempo para namoros?
--Mãe...
--Sim? Elena, namorar é muito bom e eu recomendo vivamente.
Risos.
--Não tenho tempo...
--Então arranje tempo e é uma ordem de mãe.
Risos.
--Sabes mãe, as pessoas mais interessantes já são comprometidas...
--Hmmm...todas?
--As mais interessantes...sim. Aprendi contigo que devo ficar a quilómetros de distância de gente comprometida. Aliás, já tive a minha experiência...tivemos.
--Elena, eu acho que te ensinei algumas coisas muito boas, mas esqueci de te ensinar a ser flexível.
--Não entendi. - Elena sentou-se e encarou a mãe.
--Eu tive aquela experiência negativa e arrastei-te para o mesmo vendaval. Depois de ter saído daquela situação desgastante, a última coisa que eu faria era envolver-me numa situação idêntica.
--Sim, foi isso que aprendi...
--E aprendeste bem, filha. Mas sabes o que aprendi nessa minha vida de mais de 50 anos? Que não devemos ser radicais. Há sim gente de caráter duvidoso, mas também existem pessoas que estão apenas num processo...
--Continuo sem entender.
--Imagina se o Richard fosse como eu, como nós. Quando ele apareceu todo atrapalhado no meu restaurante, eu estava numa relação.
--Ah Melina, aquele idiota...desculpa, mãe, mas era um idiota.
--Sim, concordo. Mas eu estava numa relação. Numa relação que se arrastava e que eu por comodismo não terminava. Se o Richard pensasse como eu, ele não teria insistido a ponto de eu não querer saber de mais nada, e teria ido embora. Ele insistiu de forma elegante, não me pressionou, ou pelo menos não de forma incisiva. Cheguei a um ponto, que romper a relação desgastada foi como virar uma página de livro. Ele não desistiu....
--Ele tinha tempo para investir e provavelmente nenhum medo...
--Não seja tão inflexível, filha. Escute o teu coração...ele sabe quando as coisas são boas, ou não. Passado o momento da paixão intensa, eu sabia que havia algo de muito errado com o Alwin, mas deixei-me ficar...
--Não tem ninguém interessante na minha vida. Nem solteiro ou comprometido...
Risos.
--Precisamos mudar esse cenário. Tens que sair mais vezes, aproveite a Milanka, que ainda que esteja namorando e aparentemente apaixonada, terá tempo para ti. Aproveite a tua amiga inglesa, ela parece ser bastante interessante. Onde a conheceste?
Elena contou a história do encontro no parque com todos os detalhes. O entusiasmo na voz e o brilho nos olhos, deixaram claro à mãe que ela gostava mesmo da inglesa.
--Ainda bem que essa moça apareceu e conseguiu entrar nesse coração.
Risos altos.
--Ela é charmosa e engraçada...gosto dela.
--Nota-se e fico muito feliz. Será que ela aceitaria ir connosco á peça do Adrian?
--Ela adoraria, mas vai viajar amanhã logo cedo, aliás, daqui a poucas horas. Ela teve que interromper um trabalho em Vermont para vir receber o prémio...
--Vermont, wow! Lembras-te quando queríamos fazer uma viagem juntas pelos encantos da Nova Inglaterra?
--Eu ainda quero. Quero muito!
--Imagina as fotos que ela faz por lá...
--Ah mãe, não aguces ainda mais o meu desejo.
Risos.
--Elena, o teu telefone...
--Hmmm?
--O teu telefone está a tocar. Até o Mykonos ouviu.
Risos.
--Não estou familiarizada com esse tom de toque.
Elena atendeu e caminhou em direção à cozinha seguida por Mykonos.
Em menos de um minuto, voltou para perto da mãe e disse que precisava descer.
--A essa hora?
--Sim, mãe. Preciso entregar algo à Joy. Ela está lá em baixo.
--Ok, mas leva o casaco. A essa hora a rua deve estar gelada...
--Não vou sair.
--Leve o casaco.
--Ok!
Risos.
Elena saiu e bateu a porta.
--Myk, parece que nossa Elena está com a vida bem mais movimentada. Bendita inglesa.
Mykonos ronronou e Melina agachou-se e o levou-o para os braços.
--Sem ciúmes, gato.
Riu enquanto dirigia-se ao quarto.

 

*****
--Eu sei que pareço uma maluca, mas não consegui falar contigo há bocado...
--Entra, sai desse frio.
Risos.
--Já estavas a dormir?
--Não. Conversava com a minha mãe. Assunto não nos falta e já havia algum tempo que não nos víamos pessoalmente.
--A tua mãe está aí contigo? Que vergonha! Elena porque não me disseste que já era tarde?
--Tarde para quê?
--Para uma doida aparecer à tua porta...
--Viajas daqui a pouco...
--Hum-hum...
--Não vi nenhuma loucura. E se for loucura, então...
Risos.
Elena puxou Joy para um abraço apertado. Joy gemeu sem ressalvas. As duas suspiraram ao mesmo tempo.
--Não via a hora de poder fazer isso...
--Confesso que lá no prémio eu travei uma luta com os meus ímpetos mais insanos.
Risos com afagos.
--Fiquei muito feliz pelo teu prémio. Ver-te feliz é tão bom...respiravas felicidade...
--Sim...eu não teria coragem de me lançar num concurso, mas ainda bem que a Paloma fê-lo.
--Queria tanto conhecê-la...
--Nossas famílias resolvem visitar-nos quando não podemos estar todos juntos. Eu queria muito conhecer a tua mãe.
--Ela volta. Ela vem com alguma regularidade ou então, quem sabe, não me acompanhas até o Ohio. Conheces Ohio?
--Não e aceito o convite.
Risos.
--Eu também tive saudades tuas...a viagem absorveu-me tanto...
--E ainda perdes o telefone...
--Não perdi, apenas sofreu um pequeno acidente.
Risos.
--Que quase custa-me a sanidade. Pensei que não quisesses mais falar comigo. Ahhh...detesto ser ansiosa, mas fiquei...muito.
--Pensei a mesma coisa...
--Porquê?
--Porque não conseguia falar contigo e quando a Milanka me disse do prémio...
--Pensaste asneira...
--Sim...
--Elena, sabes que és muito importante...
--Eu sei...
--Liguei-te no momento que soube do prémio. Adoro partilhar as minhas conquistas contigo.
--Estamos ansiosas...
--Muito...alguém vai entrar aqui?
--Onde?
--No teu hall...
Risos.
--A essa hora não mais. A Milanka que é sempre a retardatária, vai dormir no apartamento do Ethan...
Elena viu-se levada para um pequeno corredor que dava acesso às escadas. O coração já galopava no peito quando percebeu as costas contra a parede.
Joy olhou-a dentro dos olhos enquanto as mãos já passeavam pela cintura.
--Pele quente...- Apertou-lhe a cintura.
Elena puxou-a pela nuca e beijaram-se com voracidade.
Perderam-se naquele encontro há algum tempo almejado.
--Eu queria tanto mergulhar na tua boca...quanto te vi lá na premiação quase gritei de felicidade...tinha esperança que o Ethan conseguisse...
Elena gemeu e puxou-a para mais um beijo intenso.
Joy apertava-a, deslizava as mãos para pontos que causavam incêndios na pele de Elena.
--Eu poderia...- Joy começou a dizer com a voz ofegante.
--Eu quero um momento...quero me demorar...- Movida por muito desejo, Elena puxou o cabelo de Joy e encarou-a.
--Ahhhh...sim...
E a intensidade do beijo já as deixava sem ar. Elena viu seu casaco no chão...
--Se não fosse esse trabalho...
Riram dentro do beijo.
--Temos tempo...
--Quero todo o tempo...tu me enloqueces, misteriosa do parque...
Gargalhadas.
--Vou ser expulsa desse edifício...
--Estão todos a dormir...ou deveriam estar.
Risos.
--Viajo daqui a 4 horas...
--Vá para casa...
--Não sei se percebeste, mas estou presa nos teus braços, pernas...
Risos.
--Porra, eu estava com saudades...queria ficar contigo...
Joy beijou-a intensamente. Um beijo que mostrava que a saudade era recíproca e um combustível para qualquer atitude intempestiva.
Muitos minutos depois...
--Precisas ir, meu bem...
--Preciso...não quero sair daqui, mas preciso.
Risos com beijos.
--Que dia surpreendente...custa-me acreditar em tanta coisa boa num único dia...
--E podem sempre melhorar...
--Ahhh, tenho até medo...
--Tu? Ninguém é mais corajosa do que a inglesa atrevida.
Risos com abraços.
--Digamos que há situações que impulsionam ainda mais a nossa coragem...
Olharam-se sem pressa. Muitas vezes tinham aqueles diálogos com os olhos...aqueles instantes de reconhecimento...raros instantes...
--Ainda bem que a tua casa é na esquina...avisa quando chegar.
--Claro. E não inventa de ficar sem telefone. Vou estar mergulhada no trabalho, mas não te perco de vista.
Risos.
--Telefone sempre a postos.
--Obrigada pela presença num momento tão importante.
Elena engoliu uma frase que pareceu-lhe desproporcional, mas o olhar gritou muito mais.
Joy a abraçou transbordando afeto. Encontraram-se mais uma vez.
O elo parecia cada vez mais irrevogável.

 

*****
Elena entrou em casa na ponta dos pés. Sorriu ao dar-se conta que parecia uma adolescente. A mãe já tinha ido dormir e apenas Mykonos deambulava por ali. Ele sempre esperava pela sua chegada.
O coração ainda batia num ritmo acelerado e o sorriso permanecia.
Apertou o play da caixa de música e caiu no sofá. Precisava relaxar antes de dormir, se é que conseguiria dormir.
Mykonos pulou no sofá e aconchegou-se nela. Ela sussurrou no ouvido dele:
--Estou feliz, Myk. - Disse enquanto pensava nas palavras da mãe...flexibilidade...
Devaneou ao som de Maine de Noah Kahan.

 

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

5
R

rhina

20/05/2021 às 19:19

 

Ser flexível.

Se lançar.

Será? 

Rhina

M

Mille

26/01/2021 às 19:01

Olá Nadine 

E voltou com mais um capítulo lindo. 

Acho que a mãe da Elena vai mudar as atitudes da filha. 

Bjus e até o próximo capítulo 



Resposta do autor:

Obrigada Mille :)

Bjs

P

patty-321

26/01/2021 às 00:30

Ah que feliz em ler mais um capítulo dessa estória de Nadine, amo todas as suas estórias. Feliz ano Novo. Gratidão por voltar a postar. Bjs



Resposta do autor:

Muito obrigada patty.

Abraço

B

brunafinzicontini

24/01/2021 às 23:04

SURPRESA MARAVILHOSA!!!

Que delícia, Nadine! Ganhamos o domingo! Retorno triunfal, que todas almejávamos de todo coração!

A ligação entre Elena e Joy - sempre mais forte e inequívoca! Ambas já sabem que é inevitável, elas devem e precisam se entregar a esse sentimento lindo e verdadeiro! Resta saber como a inglesa irá administrar a situação em que se vê presa. Até Melina sentiu a força da presença de Joy na vida da filha.

Fiquei muito aflita com o incidente do telefone. Felizmente, elas contam com a ajuda de alguns anjos que as rodeiam.

O momento da despedida, muito terno - com a troca de beijos que incendiou o coração das duas e o nosso!

Músicas lindas, sempre atestando o bom gosto dessa autora sensacional!

Boa semana, querida! Que sua recuperação seja completa e tudo lhe corra bem!

Beijos,

Bruna



Resposta do autor:

Muito obrigada Bruna.

Beijos

Foto de NovaAqui

NovaAqui

24/01/2021 às 20:00

Naná!

Que bom te ver aqui!

Muito feliz por saber que você está bem

Bem vindo! Feliz Ano Novo! Feliz aniversário!

Capítulo maravilhoso como sempre

Abraços fraternos aí!

 



Resposta do autor:

Muito obrigada querida.

Bjs

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