"A sós"
'A sós'
* * *
...
Confesso que fiquei com vergonha de tirar a roupa e entrar na água. Apenas sentei na margem ao lado de Raíra, o mais próximo que meu constrangimento permitiu.
--Não vai entrar na água, Avatí? - Yaya me perguntou, enquanto olhava para Mari jogando água no Sr. Jair.
--Não. Estou sem roupa de baixo.
--Que tem?
--Eu não vou ficar nua na frente do Sr. Jair.. Nem de ti. - Falei olhando para ela pelo canto do olho.
--Entra de roupa. - Continuou olhando para frente.
--Não.. depois vou voltar toda molhada.
--Cê complica. - Bufou.
Ficamos caladas por um bom tempo, só olhando Mari e sr. Jair, pareciam duas crianças brincando e pulando na água.
...
Após um (longo) silêncio entre nós duas, Sr. Jair saiu da água com Mari nos ombros.
--Já vamos, Senhoritas? A Princesinha está com fome.. e eu também. --Falou rindo.
--Senhor leva Mari pra mim? Vou mostra' uma coisa pra Avatí. --Sr. Jair aceitou de bom grado e foram cantarolando músicas infantis e dançando. Estava ótimo aparentemente.
Fiquei (muuuito) curiosa para saber, além de bem animadinha por ficar a sós com Raíra. Não que fosse fazer acontecer algo, mas a sós tem mais chances de rolar um clima pelo menos.. acho.. (Esperança)
--O que vai me mostrar? - Perguntei olhando em seus olhos fixamente (torcendo pra rolar um clima básico).
Yaya pegou na minha mão docemente e me guiou. (Eu iria para qualquer lugar com essa menina) Adentramos um pouco na mata, tinha um "miniparaíso": uma pequena cachoeira que ficava meio escondida entre as árvores e certo tipos de flores esbranquiçadas. Parecia que uma orquestra de diversos pássaros junto ao barulho das águas davam o som ambiente.
--É bom lugar pra se banhar, aqui ninguém vê. Nem precisa vergonha, Avatí. --Falou com uma expressão calma olhando ao redor.
--Tá bom! Mas não olha, tá? - Yaya bufou virando de costas com expressão de enfado.
Me despi rapidamente e entrei na água, estava boa meio morna pra fria. Nadei vagarosamente até a margem oposta, ouvindo os sons da natureza.. uma das coisas mais relaxantes da vida. Depois de estar bem relaxada, fui para uma pequena cachoeira um pouco mais ao fundo, fiquei um bom tempo relaxando sentindo a água cair sobre mim. Comecei a nadar para margem inicial procurando Yaya, no entanto, ela não estava mais lá nem em nenhum outro lugar. Como se não bastasse, uma cobra nadava em minha direção. Respirei fundo. Tentei me acalmar, nadei para a margem mais próxima o mais rápido possível.
--RAÍRA! RAÍRA! RAÍRAAA.. CADÊ VOCÊ? - Toda calma tinha virado desespero. Gritei o mais alto que pude assim que cheguei a margem. Fechei meus olhos, respirei fundo procurando calma e reabri, então a vi me olhando no alto de uma árvore na margem em que estávamos.
--Como ela subiu tão alto? - Pensei. Quando olhei novamente já havia sumido de lá.
--Que foi? - Sussurrou de repente. Sentir sua voz baixa próximo ao meu ouvido.. aiai
--Aaaii.. Que susto, Raíra. Como chegou até aqui tão rápido? - Falei admirando ela pendurada meio que pelo pés em um cipó de uma árvore. Pena que havia colocado top!
--Com cipó. - Falou como se fosse algo supernatural.
--Cipó?? Igual Tarzan? - Perguntei incrédula.
--... Vai ir assim ou nadando?
--Não tenho força nos braços para isso e só vou nadando se for comigo.
--Cê veio sozinha. - Fez cara de brava. (Aí, Meu coração)
--Mas agora tem uma cobra na água. Gigante?
--Num é venenosa, Avatí. --Era pra ser óbvio, acho.
--E se for? E se me picar, Raíra. Eu vou morrer até chegar na cidade para tomar a vacina. Isso se tiver. --Talvez eu tenha um pouco de medo de cobra.
--'Mim' num deixa cobra picar Avatí. - Falou segurando meu queixo com uma mão, olhou bem dentro dos meus olhos. Um gesto tão fofo, né. Nem parecia a mesma ogra!
--E se me picar, Raíra? Eu vou morrer! - Talvez tenha feito um pouco de drama, mas valeu a pena. Ela agilmente desceu da árvore, segurou meu rosto com as duas mãos e aproximou seu corpo. Meu coração na garganta, e meus os olhos só ficavam fixos em sua boca (muito bem desenhada). Naquele momento nem nos meus melhores sonhos (eróticos) imaginaria o que ela diria a seguir.
--Se picar, ch*po pra sair veneno de Avatí. Confia em mim! --Minha mente explodiu.
Não deveria, porém fiquei bem "animadinha" (louca para cobra me picar em pontos estratégicos). Não deu pra resistir aquela proximidade, beijei. Só encostei nossos lábios, na verdade. Ela trancou a boca, além de se afastar abruptamente.
--Por que fez isso? - Falou assustada, paralisada.
--Po-por que.. e-eu.. é.. --Pensa rápido. --Quis.. saber se.. se falava a verdade, mas tu tinhas que fazer o mesmo comigo para.. para confirmar que é, sabe? - Inventei uma desculpa descaradamente.
--Ah, entendi. Desculpa, Avatí. - Disse abaixando a cabeça parecia envergonhada. Me aproximei, levantei o rosto dela e o segurei. Yaya manteve os olhos fechados.
--Que foi, Raíra? Olha pra mim. - Falei estranhando a atitude
Quando seus olhos se abriram estavam marejados, partiu meu coração.
--Não é nada. - Falou se recompondo, tentando se afastar, mas a segurei.
--Como nada? Por que ficou assim? - Perguntei curiosa.
-- ..mim'.. não sabe faze isso.
--Isso o que, meu Anjo? .. Beijar? - Ela só assentiu baixando o olhar novamente. Inacreditável. Até fiquei sem palavras por um tempo.
--Vamos, senão vai ficar tarde. - Falou indo para água, fugindo do assunto.
* * * *
--Raíra?! É sério? - Perguntei assim que chegamos a outra margem.
--Quê?
--Que não sabe beijar? Nunca foi beijada? - Raíra não me respondeu só seguiu andando, então insisti.
--Se quiser, eu te ensino.. Assim será nossa forma de confirmação. --Continuei com a ment.. desculpa que inventei. --Quer? - Perguntei pensando somente em ajudá-la, é claro.
Ela assentiu com a cabeça, mas nem olhou para meu lado. Estava super vermelha . Fiquei superfeliz, ansiosa - 'adoro ajudar'.
--Quando chegarmos a cidade eu te ensino, ok?
--Uhum. - Sussurrou tímida.
* * * *
--Até que enfim! O que estavam fazendo? - Nina indagou quando chegamos.
--Nada. - Raíra falou rapidamente e subiu correndo para o quarto.
--Sei.. Mas bem que você queria, né, Mika? - Falou com um sorrisinho e eu a acompanhei. - E sua perna está boa mesmo?
--Está ótima, melhor que antes até. Vamos agora? --Ansiosa para chegar na cidade.
--Vamos. --Falou me olhando com os olhos semicerrados. Desconfiou de algo, mas não falou nada.. naquele momento.
* * * *
Fim do capítulo
Nome do capitulo poderia ser "Desculpa esfarrapada", né..rs
Continua..
Comentar este capítulo:
kasvattaja Forty-Nine
Em: 17/08/2020
Olá! Tudo bem?
Aulas sobre com beijar? Bom, provavelmente ela vai se esforçar muito para ensinar... Ou não! Talvez não seja esforço algum!
É isso!
Post Scriptum:
''A vida é como um sonho; é o acordar que nos mata.''
Virginia Woolf
Resposta do autor:
Olá, Kasvattaja Forty-Nine.
Esforço algum.. quase.
"... É o acordar que nos mata." Realmente!
Obrigada por comentar.
Até os próximos..
Abs
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