Mel - London por Jubileu
Capitulo 3
Um fio de luz passava por uma fresta da porta da sacada e batia no meu rosto. Ou virava de costas ou virava ao contrário na cama. Levantei na ponta dos dedos, peguei uma toalha de rosto e dependurei na maçaneta cobrindo a fresta. Ouvia vozes e sorrisos ao longe dali. Havia outro barulho no quarto e fui até o banheiro ver se vinha de lá, mas era mesmo no quarto. Aproximei da cama da Olivia e o barulho era um gemido baixinho, demorei a entender que esse gemido era de frio e senti pena, porque ela estava com uma só coberta, justamente a que estava no guarda-roupa. Comprei duas cobertas no dia anterior e fui até a minha cama buscar. Ainda estava empacotada, parece que tudo naquela hora da madrugada fazia um barulho maior por conta do silêncio lá fora. Abri e estiquei o cobertor no meio peito, dei quatro passos a frente encostando a perna na madeira da cama. E agora? Pensei. Eu não conseguia enxergar muita coisa naquela escuridão e não queria acender a luz para não acordá-la. Apertei os olhos tentando focar no escuro cobrindo seu corpo lentamente e meio que instantâneo parou de gem*r. Voltei para a minha cama, me enfiando debaixo das cobertas e dormi. Dormi com um sorriso bobo no rosto.
- Good Morning! – disse ao descer a escada.
Olivia estava sentada no sofá da recepção olhando uma revista, com as pernas cruzadas.
- Hi Mel, estava te esperandu para tomarmus coffee. – sorriu, colocando a revista no monte.
- Não precisava! Você deve estar faminta! Vou me arrumar! – e dei de costas subindo os primeiros degraus da escada.
- Mel! Ondi vai?
- Me trocar! Não vamos sair para tomar café?
- Pensei em preparar, tem uma kitchen! – apontou para o corredor.
- Eu não tenho nada, nem uma fatia de pão. – abri os braços com um sorriso sem graça.
- Eu tenho vamus! – disse pegando uma mochila que tinha do lado, entrando pelo corredor.
Desci os degraus e a acompanhei. Fiquei surpresa com a cozinha, era enorme! Tinha de tudo e nem tive a curiosidade de olhar no dia em que cheguei. Olivia me parecia cozinheira de mão cheia. Tirou tudo o que tinha de dentro da mochila colocando sobre a mesa. Vez ou outra olhava para mim com um sorriso meigo. Eu sabia preparar o café, mas melhor não. Sempre preferi que o outro preparasse, parece que ficava mais gostoso, não sei. Sempre tive sempre essa impressão. Adorava o bolo de tapioca da minha avó, era uma delicia! Nunca mais comi outro daquele jeito, mesmo eu fazendo, nunca ficou tão bom.
Sentei-me na mesa e ouvi vozes vindas na nossa direção, eram dois rapazes. Pareciam estudantes, depois de nos cumprimentar, sentaram-se na outra ponta da mesa e tomaram café. Você via as pessoas que não eram daqui, justamente pelo que elas comiam. O café da manhã em Londres é algo bem gorduroso, muito bacon, com ovos mexidos, como os americanos também gostam. Eu gostava de algo mais leve, tipo frutas, as vitaminas, um pão com manteiga ou geléia e só.
Olivia batia uma massa com a mão muito desajeitada, mas adiante descobriria a razão.
- Você precisa de ajuda? – via a dificuldade dela em segurar a vasilha com a mão enfaixada.
- Estou quase terminandu, mas obrigada! – sorriu.
O café cheirava tão bem que salivei de vontade de provar. A massa que ela preparava era de waffle e falando em frutas, era justamente o recheio que ela usava, com calda de chocolate.
- Ai que delicia! – esfreguei as mãos, salivando ainda mais.
Olivia sorriu depositando tudo o que tinha preparado sobre a mesa, na minha frente e sentou-se piscando para mim.
- Posso? – sorri.
- Claro!
E cortei um pedaço do waffle colocando na boca.
- Hummm que delicia! – e derramei um pouco da calda de chocolate sobre o morango.
- Feliz que gostou – disse bebendo um gole de café.
- Sabe fazer salgadinhos?
- Salgadinhux?
- Você não deve conhecer, é coisa do Brasil. – disse olhando para ela. Vou fazer um dia para você experimentar.
Depois que acabamos de tomar o café, lavamos todos os pratos e utensílios. Subimos para o quarto. Queria deitar um pouco, ouvir uma música talvez, estava louca por um cigarro, mas não queria fumar na frente dela. Estava bem agitada e ela notou a minha impaciência.
- Desculpa. – olhei para ela.
- Tudo bem. – disse olhando com interesse para mim.
- Há quanto tempo mora aqui? – derrotada, sentei na cama, cruzando as pernas.
- Desde os meus deix. Meus paix vieram para trabalhuar e ficaram.
- E você faz o que?
- Trabalhu?
- Sim. Eu sou administradora, começo a trabalhar na semana que vem.
- Sou tatuadora.
- Que legal!
- Legal? O que ser?
- Hum, algo bom, divertido, algo que você aprecia que é prazerosa.
- Ah sim. Tu pode me ajudar? – disse levantando o rolo de esparadrapo. – Eu molhei tudo! – torceu o nariz.
- Claro.
Fui até lá me sentando na cama, de frente para ela, mas não conseguia levantar os olhos para o seu rosto. Tinha vontade de olhar para os lábios rosados, a covinha no queixo, nem mesmo sabia a cor dos olhos dela com certeza, era algo verde acinzentado. Uma cor diferente para mim. Agora estava de frente para ela e não me atrevia a levantar meus olhos. Mordi os lábios, passando a ponta da língua no lábio inferior e ela raspou a garganta. Bem, dobrei a manga do moletom e tirei a fita molhada com cuidado para o ferro não sair do lugar. Rasguei um pedaço colando em volta do pulso, fazendo o mesmo com todos eles, um por um, do contrário comprometeria a lesão dos dedos. Não podia retirar todos de uma vez só. Ela não tinha jeito nenhum com a mão direita. Sorri para ela.
- Eu ser canhota. – sorriu.
E eu levantei os olhos nessa brecha que ela me deu, olhando para rosto delicado. Seu sorriso era lindo, mas a cor dos olhos agora estava acinzentada. Era como se mudasse de cor, do azul para o verde, do verde para o cinza. Sua mão era macia, seus dedos eram longos, ela era só mais um pouco mais baixa do que eu e ainda por cima era canhota. Respirei fundo e disse por fim:
- Prontinho.
- Cheers! – ela sorriu.
- Saúde? – olhei encabulada.
- Obrigadu! É como o thank you, mas aqui em London usamos cheers para agradecer aos amigos.
- Cheers... legal. – eu tinha que aprender muita coisa ainda por ali.
Arrumava a cama, dobrava as cobertas quando ouvi Olivia cantando na sacada, me pareceu uma música francesa e ela cantava muito bem. Olhei de soslaio pelo vão da porta e notei que a mesinha de ferro havia sumido. Ela ficava bem de centro, mas não havia cadeiras. Outra coisa que eu queria providenciar, não sabia por quanto tempo ficaria ali, mas também queria economizar ao máximo possível. O céu estava azul, mas com certeza mudaria mais à tarde, o tempo ali era bem esquisito. Acabei por dobrar a toalha e coloquei a cabeça para fora da porta procurando por ela. Olivia estava sentada sobre o tampo da mesa, do lado direito da porta e percebi que ela fumava, pela fumaça que saia da boca.
- Ah que bom você também fuma!
- Às vezes!
Corri para pegar um cigarro também, mas não encontrei o meu isqueiro.
- Você me empresta o seu...? – disse levantando o cigarro entre os dedos.
E ela ergueu a mão colocando na minha palma. Quando levou o cigarro novamente até aos lábios, parei com o meu na metade do caminho da boca, olhando para ela. Juro que meu coração disparou e senti endurecer com aquela cena.
Não era muito comum ver uma mulher fumando um charuto.
Fim do capítulo
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