Sexta Temporada - FELICIDADE VII
Seyyed contemplava o amanhecer pela janela da sala. Pensava na vida e sofria em silêncio por acreditar que seu casamento estava com os dias contados.
--Acordada tão cedo em pleno domingo... Você mal dormiu, não foi? -- a ruiva abraçou-a pela cintura e beijou-lhe o ombro -- No que está pensando aí tão desligada do mundo? -- beijou o ombro dela novamente -- Hein?
--Tô pensando na gente! -- continuava olhando para fora -- Eu não queria que nosso casamento chegasse ao fim, mas também não queria novamente fazer você perder a chance de realizar seus sonhos... -- respirou fundo -- Tô tentando não ser egoísta mas tá difícil...
--Olha pra mim, amor? -- pediu com delicadeza
Ed virou-se de frente para a ruiva que continuava abraçando-a pela cintura. -- Não minta pra mim! -- pediu
--Eu não minto pra você. -- olhava nos olhos da morena -- Eu não vou pra França assim, num estalar de dedos. Há todo um processo que tem que se desenrolar, então lá pra setembro é que devo estar de malas prontas... Ou até mesmo depois. -- sorriu -- Não há motivo pra que desde já fique sofrendo por conta!
--E isso muda o que? -- perguntou controlando a frustração -- Agora ou setembro, não importa, será o fim pra gente! Só estamos adiando o começo desse fim!
--Por que pensa assim? Eu só vou orientar a estruturação do projeto e depois volto pra casa! -- argumentou
--Você vai pra ficar, Isa! -- respondeu enfaticamente -- Você só tem 29 anos e vai ter a chance de montar sua própria escola e companhia de dança! Duvido que passe pouco tempo na França! Duvido! -- desvencilhou-se da bailarina e caminhou até o centro da sala -- Você quer acreditar que vai estruturar todo um projeto nos moldes que sempre sonhou e depois vai ter coragem de entregar tudo isso nas mãos de outra pessoa! -- virou-se de frente para ela -- Isso não vai acontecer, duvido muito! -- pôs as mãos na cintura e novamente ficou de costas para a amante -- E casamento nenhum resiste a uma separação dessas! Não sei porque você quer se iludir e acreditar no contrário!
Isabela ficou olhando para a mulher diante de si. Sabia que ela não falava absurdos, mas também sabia que provavelmente nunca mais teria uma oportunidade como aquela que lhe fora oferecida.
“Por que eu quero tanto aceitar essa proposta?” -- pensava -- "Estava enganada a respeito de mim mesma? A satisfação do projeto nas comunidades não me é suficiente? Preciso de mais?” -- refletia -- "Eu amo o que faço hoje, mas queria muito saber como é criar uma companhia de dança contemporânea! Seria a realização de um sonho... Isso é orgulho, vaidade ou amor à dança? Não me sinto completa?” -- não sabia responder -- "Por que estou assumindo o risco de ver meu casamento terminar? Eu amo Seyyed, sempre tive medo de perdê-la, por que estou agindo assim?” -- passou a mão nos cabelos -- "É a sede pelo sucesso?”
--Seja honesta com você mesma, Isa! -- olhava para a ruiva -- Você quer viver isso e é uma oportunidade única! Uma coisa assim não vai mais se repetir! E não há mal nenhum em você querer aceitar! -- pausou -- Por mais que me machuque, eu não vou te impedir de ir e nem quero que não siga a vontade do seu coração por minha causa! -- pediu -- Já bastou que tenha feito isso uma vez!
A jovem ficou olhando fixamente para o rosto da mecânica até que perguntou de súbito: -- Você me ama, Ed? -- analisava a outra -- Diga a verdade!
--Ainda isso? Ainda essa dúvida, mesmo depois de tudo? -- respondeu chateada -- Claro que amo, Isa! Não enxergo outra mulher mais perfeita pra ser minha esposa!
--Então por que nunca esquece de Camille? -- estudava o rosto da morena
--Pára com isso, pelo amor de Deus! -- passou a mão nos cabelos -- Pára com isso! -- balançava a cabeça contrariada
--Sabe, às vezes eu fico pensando... -- ponderava -- Você queria as duas, não é? -- aproximou-se um pouco de Seyyed
--Isa... -- resmungou chateada
--Você busca se disciplinar, mas não se contenta com apenas uma mulher, não é? -- olhava nos olhos da morena -- Assume, Ed?
--Por que está me dizendo essas coisas? -- perguntou magoada -- Pra usar isso como desculpa pra me deixar? Quer um motivo? -- começou a chorar -- Você quer ir embora e abnegadamente abrir mão do seu amor pra Camille? -- passou a mão nos olhos -- Se quer ir, vá! Mas não invente motivos e nem me culpe! -- parou bem perto da ruiva -- Eu não sou perfeita, Isa! E nunca disse que era! Você não tem idéia do esforço que eu faço pra ser uma pessoa melhor! Você não tem idéia! Ninguém tem! -- pausou brevemente -- Eu não quero mais fazer certas bobagens e nem ferir os sentimentos dos outros! Escolhi você pra me casar e você me escolheu! Se queria uma mulher perfeita, então escolheu errado! Se queria alguém como Suzana, também escolheu errado! -- respirou fundo e caminhou na direção do quarto -- Vou trocar de roupa, sair e ficar um pouco sozinha!
--Eu não queria que você fosse perfeita! -- Isa falou em voz bem alta fazendo com que a morena parasse de andar -- Só queria que seu coração fosse só meu! -- seu tom tinha uma certa tristeza
--E eu me esforço pra que assim seja durante todos esses anos! -- olhou para a ruiva -- Mas não é o suficiente, né? -- foi para o quarto
A bailarina esfregou as mãos no rosto e respirou fundo. “Não é? Tem certeza que não?” -- questionava-se
“Ela nunca fica satisfeita comigo!” -- pensava enquanto vestia um short jeans -- "Isa quer um amor de histórias românticas, não está interessada na vida real! Ela não liga pro fato de que me esforço pra caramba pra ser uma boa companheira!” -- vestia uma blusinha de alças -- "Acho que ela pensa bem mais em Camille do que eu!” -- sentou-se na cama para calçar os tênis
Isabela apareceu na porta do quarto. -- Não vamos nos magoar logo no começo do ano! -- pediu com delicadeza -- Fica aqui comigo? Vai não, tá tão cedo...
A mecânica olhou para a mulher e se levantou. -- Você não respondeu a minha pergunta! -- aproximou-se -- Não é o suficiente? -- repetiu
--Eu não sei, Ed... -- segurou as duas mãos da outra -- Às vezes acho que sim, em outras acho que não...
--Eu sempre acho que você é mais que suficiente pra mim, mesmo que em alguns momentos Camille me estremeça! -- respondeu com sinceridade
--Adoraria que resolvesse de uma vez por todas sua situação com ela! -- olhou nos olhos da morena
--Mas não tem o que resolver! -- respondeu chateada -- Quer que eu faça o que? Eu tô com você e quero continuar assim, ela tá com Fátima, o que quer eu faça? Que jogue ela na cama e depois de saber como seria volte correndo pra ficar contigo? -- achava aquela conversa sem sentido -- Ela merece muito mais do que isso! EU mereço mais do que isso!
--Ai, Ed, eu não sei o que dizer! -- estava tensa -- Me abraça e fica aqui, por favor? -- pediu
As duas se abraçaram com força, como se não quisessem mais se soltar.
--Eu não sei o que fazer com você, garota! -- a morena falou com uma certa tristeza -- Você é um pássaro... Por quanto tempo te manterei engaiolada, hein? -- beijou a cabeça dela -- Sua alma quer ganhar o mundo mas se prende a mim e não vai atrás do que realmente sonha!
--Há muito tempo deixei de ser escrava do sucesso! -- retrucou
--É verdade, eu sei, mas você pode mais, você quer mais e não há mal algum nisso! -- segurou o rosto da ruiva delicadamente com as duas mãos -- Não impeça o seu crescimento por causa de mim! Eu não mereço isso e mulher alguma merece!
--Você quer que eu vá? -- queria entender o que Seyyed desejava
--Quero que seja feliz e eu sei que isso não é do meu lado! Não posso dar pra você o que a dança daria! -- falava emocionada -- E ao mesmo tempo não quero te perder! Meu lado egoísta é o que está me fazendo sofrer!
--Vem pra França comigo! -- seus olhos eram súplices
--Sabe que não posso! Sabe disso... Como você mesma já disse uma vez, tenho raízes demais. -- olhava nos olhos dela
--Vamos fazer uma coisa, então? -- propôs -- Vamos viver a vida sem pensar nisso? Quando o momento chegar a gente vê como fica! Daqui até setembro vai acontecer tanta coisa!
Seyyed respirou fundo e balançou a cabeça concordando.
--Fica aqui comigo? -- insistiu
Ed nada respondeu e a beijou com ternura. Depois de alguns instantes, a jovem interrompeu o beijo e afastou-se.
--O que eu represento pra você? -- perguntou enquanto se despia lentamente -- Somente prazer? O desejo que faz seu corpo incendiar? A luxúria que você procura controlar? -- olhava nos olhos da morena -- Amor? A descoberta do sentimento que você não conhecia? Sua alma afim?
A mecânica, ao contrário, se despiu com pressa enquanto a ruiva falava e mantinha seu olhar preso ao dela. --“O prazer está colocado onde termina a Terra; o amor, onde começa o Céu.”42 -- respondeu com voz rouca enquanto se aproximava -- Você pra mim é o limite! -- puxou-a para junto de si e colou testa com testa -- Você é a Terra onde meu corpo vive, -- olhava nos olhos da outra -- você é o Céu onde minha alma sonha!
--Ai, Ed... -- suspirou -- Você me enlouquece quando vem assim e fala essas coisas... -- -- beijou-a apaixonadamente
Seyyed levantou-a e fez com que as pernas da ruiva envolvessem sua cintura. Beijavam-se e tocavam-se como se experimentassem seus últimos momentos.
Sentaram-se na cama e a morena segurou a amante pelos cabelos fazendo com que reclinasse o tronco para trás. Seguiu beijando seu pescoço e seios enquanto que a outra mão apoiava as costas da parceira, para que não se machucasse. Trouxe a outra mulher novamente para junto de si e beijaram-se com a mesma ansiedade.
Deitaram-se e a mecânica ficou sobre a mulher, segurando-lhe uma das coxas com força, do modo como sabia que ela adorava. A bailarina arranhava suas costas, beijando e mordendo cada canto de pele que podia ter acesso. Esfregavam-se como se tivessem fome uma da outra.
--Ah!!! -- a ruiva gemia
--Ah, Isa... -- gemia -- Eu te amo! -- deslizou a mão para o sex* de Isabela -- Te amo!
--Também te amo! -- beijou-a
--Você quer argumentos pra ficar comigo? -- perguntou sussurrando no ouvido da amante -- Nós temos uma vida juntas... onze anos! -- beijou-a
--Ah!! -- sentia prazer com o toque, os beijos e as palavras da morena
--Você se descobriu comigo... -- beijou-a novamente -- E eu aprendi muito contigo... -- falava com a respiração alterada -- Nós transformamos o destino... Ah... -- gem*u
--Juntas! -- complementou ao morder o lábio da parceira -- Você e eu! -- buscou o sex* da outra -- Juntas!
--Ah!! -- Ed fechou os olhos
Tocavam-se, beijavam-se e perdiam-se numa profusão de carícias e sentimentos confusos nos corações de ambas. Amor, desejo, dúvidas e ciúmes ardiam sob a paixão que as incendiava desde o começo de tudo.
Chegaram ao orgasmo juntas e não pararam de se beijar e acariciar, mesmo com a satisfação dos corpos. As almas queriam mais e se buscavam.
***
Brito arrumava sua sala cheio de felicidade. Estava finalmente realizando um sonho.
“O que mais eu poderia querer?” -- pensava com satisfação -- "Uma mulher maravilhosa, um casal de filhos incríveis, bons amigos e o progresso profissional! -- sorriu -- "Brito, você está vivendo uma fase de ouro!”
--Delegado Brito! -- Lemos deu duas batidinhas na porta e sorriu -- Ih, arrumou a sala na maior categoria, gostei de ver! -- contemplava o ambiente
--Ah, mas é uma honra pra mim, não podia fazer de outro modo! -- endireitou a gola da camisa -- Não sabe o quanto fico feliz por ter conseguido me tornar delegado!
--Nós também! -- Macumba veio chegando com Jailson -- Finalmente voltaremos a ter alguém de tutano sentado nessa cadeira! -- sorriu
--E finalmente estamos juntos de novo! -- Jailson complementou -- Só lamento por Rodolfo não estar aqui e por Coimbra ter largado a polícia!
--Vamos honrar cada homem digno que passou por essa delegacia! -- Brito deu um soco na mesa -- E nossa delegada Suzana Mello! A gente vai ser o pesadelo na vida de qualquer bandido!
--É isso aí! -- Macumba respondeu empolgado
--É!! -- os outros dois concordaram
--Sabiam que o meu garoto disse que quer ser policial igual a mim? -- Brito comentou orgulhoso -- Vou trazê-lo aqui pra que conheça como funciona uma delegacia!
--Falando nisso, delegado! -- Jailson aproveitou a deixa -- Tem um monte de gente aí fora esperando pra ver como funciona uma delegacia!
--Que venham! -- sentou-se na cadeira -- Vamos resolver isso!
--Vambora, galera! -- Macumba chamou os colegas -- Pro trabalho!
--Se prepara que hoje tá bombando! -- Lemos advertiu
--Deus me defenda! -- o delegado esfregava as mãos nervosamente -- Que eu tenha sabedoria pra lidar com esse povo! -- desejava
--Delegado, minha filha foi vítima de um crime cibernético! -- uma mulher entrou acompanhada por uma bela jovem -- O namorado espalhou fotos da nudez dela pro mundo todo ver nessa internet! -- gesticulava nervosa -- Eu quero justiça!!!
--Namorado, não, né, mãe? Agora é ex! -- a moça corrigiu cruzando os braços
--E como ele conseguiu essas fotos? -- perguntou ajeitando a gola da camisa
--Tão tudo no meu celular. Quer ver? -- a garota queria mostrar
--Opa! A gente tem que analisar essas provas!! -- Lemos falou empolgado -- Cadê, cadê??
--Que cadê, o que? -- Brito fez cara feia e deu um soco na mesa -- Faz o BO e vamos encaminhá-las pros cuidados do pessoal da...
--Delegado, -- um homem entrou falando nervosamente -- prende essas três bichas fingidas!! -- apontou para os travestis que chegavam junto com ele -- Eu pensava que se tratavam de mulheres gostosas e na hora H descubro que é tudo macho! -- cruzou os braços -- Isso é falsidade ideológica!!
--E desde quando ser travesti é crime? -- um dos homens perguntou com as mãos na cintura -- Fala pra ele, delegado! -- olhou para Brito -- Esse bofe é todo sem noção!!
Macumba reparava nos travestis. “Pensava que eram mulheres?! Pô, mas esse aí é lesado mermo!” -- pensava
--O senhor joga futebol? -- Brito perguntou curioso
--Delegado, em nome do Pai, o senhor tem que fazer alguma coisa!! -- três senhoras entraram com véus cobrindo as cabeças -- Nossa rua anda infestada de lésbicas!! Elas se beijam, se abraçam e fazem quase tudo em público!! -- uma delas dizia
--Isso é coisa do diabo! -- outra falou
--E essa rua é aonde?? -- um outro policial que vinha chegando perguntou interessado
--Ah, mas a gente tem que ir averiguar! -- Jailson esfregava as mãos
--Mas vocês tão no cio, o que é isso aqui? -- Brito perguntou de cara feia para os colegas
--Delegado, meu filho sumiu há exatas 48 horas e eu tô apavorada, pelo amor de Deus me ajuda! -- uma senhora pediu chorando
--Vamos ver isso! -- respondeu resoluto
--Delegado, fui assaltado e os bandidos quebraram meu irmão na porr*da! -- um rapaz chegou todo machucado -- Eram cinco contra dois!
--Covardia! -- Macumba protestou
--Meu marido, delegado... -- uma mulher vinha amparada pelo filho -- ele me espancou!!
--Maria da Penha nele, delegado! -- o rapaz dizia -- É meu pai, mas merece! -- estava revoltado
--Ah, mas a gente vai enquadrar esse safado! -- Brito respondeu com revolta
--Ih, mas isso aqui tá cheio de bicha!! -- uma das beatas exclamou horrorizada
--Epa, bicha não!!!! -- um dos travestis retrucou -- A gente aqui é Beyonce, Shakira e Lady Gaga! -- apontou para si mesmo e para os colegas
E o fuzuê era completo.
“Mas o pior,” -- Brito pensava enquanto tentava pôr ordem na casa -- "é que eu amo esse trabalho!”
14:30h. 12 de fevereiro de 2011, Rua Aragarças, casa 10, Ramos, Rio de Janeiro
Juliana e Suzana estavam na casa de Ivo e Ana Paula por conta de uma comemoração em família. Mariana, então com 14 anos, havia sido aprovada no concurso da Escola Técnica e ingressaria no curso de biotecnologia.
--Ah, mas é um orgulho pra mim! -- Ivo abraçava a filha -- Ela passou em primeiro lugar no concurso! -- beijou a bochecha da moça
--Pai... -- corou e sorriu envergonhada
--Eu também tô muito feliz e orgulhosa da minha menina! -- Ana Paula exclamou satisfeita
--E tem mais é que se orgulhar mesmo! -- Juliana respondeu animada -- E o planos, Mariana? -- olhava para a sobrinha -- Do jeito que te conheço já teve ter o futuro todo planejado nessa cabecinha!
--Eu pretendo fazer faculdade de biotecnologia e trabalhar como técnica pra ganhar um dinheirinho enquanto estudo. -- contava -- E depois quero fazer mestrado, doutorado, pós doutorado e virar professora universitária! -- respondeu animada
--Nossa! -- Suzana exclamou admirada -- Que bacana!
“Humpf! Garota besta!” -- Guilherme pensou despeitado
--Eu também tô muito orgulhoso! -- Henrique falava olhando para os filhos -- Lúcio e Laís estão indo muito bem estudando na USP, não dão trabalho pra gente, sabem se divertir de modo saudável... Eu não tenho do que me queixar! -- sorriu -- Teremos mais dois engenheiros em casa!
--Vocês estão com quantos anos? -- a delegada perguntou para os jovens
--Vamos fazer dezenove, tia. -- Laís respondeu -- Mas o Lúcio gosta de fingir que tem 21! -- provocou o irmão
--Todo mundo pensa que eu tenho 21 porque sou cabeça feita! -- retrucou
--Mas, olha, vou te contar, viu? Eu só tenho sobrinho inteligente! -- balançava a cabeça impressionada -- Tudo superdotado!
“Ô tia coruja!” -- Suzana achava graça
“Humpf!” -- Guilherme pensou fazendo um bico -- "Eu só tenho sobrinho metido, isso sim!”
--E como tem sido a vida na USP? -- Ivo perguntou aos sobrinhos -- Muita ralação?
--Ih, tio, nem me fale! -- Lúcio respondeu -- Ciclo básico, caraca, não é mole!
--Eu tô gostando! Só não gostei dos trotes, mas graças a Deus a gente já está no terceiro período e saiu dessa fase triste! -- Laís revirou os olhos
--Esse negócio de trote é um horror! -- Ana Paula comentou -- Acho que tinha que ser proibido! O pessoal não sabe se comportar, abusa e o que deveria ser uma boa brincadeira pode acabar em tragédia!
--Quando eu entrei pra faculdade de direito, -- Suzana falava -- fui logo abordada por um grupão de veteranos! Era óbvio que eu era caloura! -- lembrava -- Eles vieram me aplicar um trote meio esquisito, pegando umas lingüiça pra colocar no meio das pernas e jogando maionese em cima delas pra eu ch*par!
--Gente! -- Henrique arregalou os olhos -- Que falta de respeito!
--Ih, pai, mas você acha que trote de hoje em dia é melhor do que isso? -- Lúcio perguntou -- Já teve gente morrendo por causa dessas brincadeiras! Fora as humilhações!
--Mas e aí, tia? -- Mariana perguntou curiosa -- Você fez o que?
--Ah, eu fui cacetando todos eles e desmaiei uns cinco. Um outro perdeu dois dentes e dois fugiram. Voou lingüiça pra todo lado! -- respondeu seriamente -- Aí foi todo mundo pra delegacia. Depois dessa, nunca mais ninguém veio me dar trote!
--E por que será? -- Ana Paula perguntou rindo
--Ai, minha heroína... -- Juninho suspirou em voz baixa
--E vocês, queridos? -- Juliana perguntou olhando para Júnior e Tainá -- Como vão indo? Infelizmente a gente sempre teve tão pouco contato... Vocês são meus únicos sobrinhos que nunca foram na casa da gente. Nem aqui e nem em Brasília.
--Claro, né? -- Guilherme respondeu desaforado -- Eu sou seu irmão mais pobre! Aí ninguém dá bola pros meus filhos!
--Ah, pára com isso! -- Henrique se meteu -- Você é que sempre afastou seus filhos da família!
--Gente, sem brigas, por favor! -- Ana Paula pediu chateada para os dois homens
--Eu vou terminar o fundamental nesse ano. -- Tainá respondeu para mudar o clima da conversa -- Não sei o que vou fazer depois disso!
--Faz curso técnico, Tainá! -- Mariana recomendou -- Aí você já sai com uma profissão!
--Mas curso de que? -- ela perguntou -- Não sei do que eu gosto!
--Eu ajudo você a se decidir! -- a prima ofereceu -- Tem biotecnologia, química, biologia, meteorologia, mecânica, construção civil, eletrotécnica, um monte de opções!
--Faz curso de eletrônica, Tainá! -- Lais interferiu -- Aí depois você faz igual a mim, entra pra engenharia eletrônica!
--Faz isso, mas entra pra engenharia de telecomunicações que é o que eu estudo! -- Lúcio opinou -- É o futuro!
--Hum! -- Laís olhou para o irmão -- Metido!
--Ai, gente, eu não sei! Vou precisar de ajuda! -- a moça balançava a cabeça -- Eu quero trabalhar e ganhar dinheiro, porque não dá!
“Eu tenho que conversar com Tainá e Juninho em particular pra orientar esses dois e ajudá-los sem que Guilherme possa se aproveitar disso!” -- a enfermeira pensava seriamente
--E você, rapaz? -- a delegada perguntou a Júnior -- Como você vai? O que pretende fazer da vida?
--Ah, tia, eu tô no ensino médio mas não é técnico, não. Ninguém me orientou, eu fiquei meio perdido... -- falava meio encabulado -- Mas eu queria mesmo ser policial, assim, tipo a senhora! Eu admiro sua carreira a beça! -- olhou para a delegada com receio
--Nossa! -- a morena ficou toda prosa -- Eu posso orientar você e até te apresentar a meus amigos que ainda estão na ativa. -- olhava para o rapaz -- Meu melhor amigo agora é delegado e ele iria adorar te receber e bater um papo.
--Faria isso, tia? -- perguntou empolgado
--Claro! Mas você também tem que fazer por onde! Tem que entrar pra faculdade de direito, estudar muito e ralar pra passar no concurso da polícia. O negócio é sério, garoto, não é brincadeira, não! -- orientou
--Mas como é que meu filho vai fazer tudo isso com o pai pobre que tem? -- Guilherme chorava uma miséria -- O que eu ganho mal dá pra pagar as contas! -- olhou de relance para Juliana e Henrique -- Quando eu pedi ajuda, cadê que meus irmãos me deram apoio? -- olhou de cara feia para Ivo -- Quando eu pedi pra abrirem mão da casa dos nossos pais, cadê que fizeram isso? -- lamentava -- É por essas e outras que meus filhos não têm esse sucesso todo que os primos têm! -- falava com despeito -- Somos a parte marginalizada nessa família!
--Ah, Guilherme, pára com isso, tá? Até parece que Ana Paula e eu nadamos no dinheiro! -- cruzou os braços revoltado -- Nem por isso a gente vive por aí pedindo ajuda pros outros!
--Você vive assim porque nunca se interessou por nada! -- Henrique protestou -- E de mais a mais não é preciso dinheiro pra dar amor e orientação pros filhos, coisa que você também nunca se importou em fazer! Você sequer deixou as crianças terem contato conosco!
--É fácil pra vocês falarem! -- respondeu com raiva -- Mas quem batalha sozinho pra dar de tudo do bom e do melhor pra esses dois sou eu! -- bateu no peito -- Só Deus sabe o quanto eu sofro! -- fez um tipo de abnegado -- Olha como eu tô velho e acabado! Quem diz que tenho 49 anos?
--Tá velho porque sempre viveu na farra! -- Ivo protestou
--Dar tudo o que, pai? -- Juninho perguntou magoado -- Você mal paga a pensão! E ainda tem vergonha de mim porque sou gay! -- olhava para Guilherme -- Nem sei como me chamou pra esse churrasco de hoje! Na certa pra fazer um tipo pra tia Juliana!
--Eu também não sei disso de você viver me dando tudo do bom e do melhor! -- Tainá argumentou -- Se não fosse por mamãe eu tava era ferrada!
--Gente, por favor! -- Juliana se levantou e interferiu -- Não vamos mais brigar! -- olhava para todos -- Nós somos uma família que já perdeu tempo demais com desavenças e rancores desnecessários! Vamos acabar com isso, tá na hora de mudar! -- pausou -- Mamãe lutou bravamente contra uma doença terminal pra pedir pra gente se reconciliar, então é hora de tomar de vergonha! Já passou da hora, aliás!
--Mas a gente se reconciliou! -- Henrique argumentou -- Guilherme é que continua na mesma e por causa dele os filhos quase não têm contato com a gente!
--Eu queria ter... -- Juninho lamentou
--E eu! -- Tainá concordou
--E vão ter! -- Juliana olhou para os dois -- Já perdemos tempo demais esperando que o pai de vocês fizesse a parte dele! -- olhou para o irmão -- Seus filhos vão ter todo apoio, mas você não vai se dar bem por causa disso!
--Vocês me colocam como se eu fosse a ovelha negra da família! -- levantou-se revoltado -- E envenenam meus filhos contra mim!
--É você mesmo que envenena! -- Henrique retrucou -- Tá na hora de crescer, meu irmão! -- aconselhava -- E parar de ser tão ignorante! Meu filho também é gay e ninguém morreu por causa disso! Amo Lúcio e Laís e isso independe de qualquer coisa!
--Minha filha é lésbica! -- Ivo novamente abraçou Mariana -- E nunca vou deixar de amá-la por causa disso!
--E eu sou lésbica! -- Juliana falou sem receios -- Nunca abaixei a cabeça por ser assim! Não é vergonha, nem crime ou doença! É quem eu sou!
--Nem eu! -- Suzana reforçou -- Sou lésbica e não tô pedindo que ninguém me aprove!
--Não é só isso! -- Tainá desabafou -- Eu não sou lésbica e meu pai também não me liga. A diferença é que com Juninho ele é um grosso e comigo não! -- fez cara de tristeza -- Papai não gosta da gente, isso é um fato! -- abaixou a cabeça
--E não gosta mesmo! -- Júnior concordou -- Ele não gosta é de ninguém!
Guilherme não conseguiu responder. Sentiu-se imensamente envergonhado e triste por constatar os sentimentos e impressões que inspirava nos filhos.
--É isso que quer pra sua vida? -- Ana Paula perguntou olhando para o cunhado -- Você briga com seus irmãos, despreza seus filhos, não pára com mulher... Seu problema não é falta de dinheiro, mas de amor! Até quando vai ser assim? Vai esperar ficar à beira da morte pra fazer alguma coisa?
Guilherme abaixou a cabeça e colocou as mãos nos bolsos. -- É melhor eu ir embora! -- anunciou envergonhado -- Isso aqui tinha que ser uma festinha e já deu pra mim...
--Ah... -- os filhos lamentaram
--Será que podem levá-los pra casa? -- perguntou para Suzana, que balançou a cabeça concordando -- Não quero que me chamem de estraga prazeres, além de tudo! -- pegou a pochete e olhou para o irmão e a cunhada -- Foi uma festinha legal, Ivo. Obrigada, Ana Paula. -- olhou para Mariana -- Sucesso, garota! -- sorriu sem graça
--Valeu, tio! -- respondeu meio constrangida
--Boa viagem de retorno! -- olhou para Henrique e os filhos -- E tudo de bom!
--Pra você também! -- o irmão respondeu
--Júnior, Tainá, depois a gente conversa com calma! -- disse para os filhos, que nada responderam
Guilherme deu um tchauzinho para Suzana e seguiu para a porta acompanhado por Ivo e Juliana.
--A gente quer você na família, meu irmão! -- a japonesa se aproximou do homem e falou com delicadeza -- E seus filhos querem um pai! -- esfregou a mão nas costas dele
--Mude sua vida, cara! -- Ivo aconselhou -- Já tá mais do que na hora!
O homem olhou para os irmãos, sorriu sem graça e nada respondeu. Foi embora pensativo e com vontade de chorar.
--E agora, Tamiko? -- Hiroshi perguntou esperançoso -- Acho que pela primeira vez esse menino foi tocado por alguma coisa! Ele sentiu vergonha das atitudes que vem tomando ao longo da vida! -- olhou para a esposa -- Será que ele vai mudar? Será que despertou das ilusões?
--Creio em Deus que sim! -- olhou para o marido -- Não hoje e não amanhã, mas ele vai reconsiderar e mudar de atitude! -- sorriu -- Depois de todos os nossos esforços para consertar o mal que fizemos a essa família, creio que finalmente agora tudo será resolvido!
--Graças a Deus! -- o homem fechou os olhos emocionado -- Foram muitos anos de sofrimento pra mim! -- mirou o infinito -- Engraçado como decisões que tomamos em um minuto podem ter conseqüências pra uma vida inteira! -- derramou uma lágrima
--Não vamos nos perder em lágrimas, querido! -- a mulher tocou seu rosto -- Não mais! -- olhava para ele com ternura
--Eu me senti perdido na escuridão por tanto tempo... -- olhou para Tamiko -- Fui um péssimo pai!
--"Diante da noite, não acuse as trevas. Aprenda a fazer luz."43 -- ela sorriu com os olhos marejados -- De agora em diante, tudo será diferente!
***
Seyyed havia acabado de conduzir a instalação de uma máquina de corte à laser e limpava as mãos orgulhosa.
--Isso deu trabalho, né? -- Anselmo aproximou-se dela -- Foi quase o dia todo tomado! -- olhava para a máquina
--Pois é, mas agora tá pronta pra usar! -- sorriu feliz -- Essa infra vai ficar ainda mais responsa que a antiga estrutura de restauro que tínhamos aqui!
--Você vibra mesmo! -- sorriu para a morena -- É legal isso! Você e Isa são duas pessoas que realmente amam o que fazem!
--E é por isso que a gente é um espetáculo! -- brincou olhando para o sogro
--Ed, me perdoe interromper essa alegria com assunto chato, mas... -- coçou a cabeça constrangido -- Não tenho como não falar...
--O que foi? -- perguntou preocupada -- Algum problema com a família? Problema contigo, na tua condicional?
--Não, não é isso! -- esclareceu com delicadeza -- É sobre Ricardo. -- estava receoso em contar
--Ricardo? -- espantou-se -- Deixa eu fechar a oficina e aí a gente conversa com calma, pode ser?
--Tudo bem! -- concordou -- Eu vou pra minha sala e te espero lá. -- retirou-se
“Mas o que será que ele já fez, hein?” -- pensou chateada enquanto se preparava para fechar a ESSALAAM
***
--Eu já andava desconfiado dele por causa de umas conversas perdidas que ouvi ter com alguém no celular, -- contava -- mas quando Murilo veio me mostrar que algo havia de errado no estoque de peças, tudo ficou claro! -- olhava receoso para Ed -- Um dos seus mecânicos me disse ontem que viu Ricardo entrando no almoxarifado umas duas vezes em um só dia. Ele não tem o que fazer lá, né mesmo?
--E eu estive em São Paulo na semana passada; isso facilitou as coisas... -- respondeu pensativa
--Facilitou, mas isso não começou agora, não! -- alertou -- Eu comecei a ficar desconfiado dele desde pouco depois que você o contratou. -- pausou -- Desculpe, Seyyed, mas esse seu parente não tá te roubando de pouco tempo!
--Mas que praga! -- deu um soco na perna -- Será que minha sina é sempre ser roubada por alguém? -- fez cara feia
--Você confia demais nos outros! Não pode ser assim! -- aconselhou -- Eu mesmo, se fosse ladrão, já tinha roubado você!
--Ah, mas eu sei que você não é ladrão! -- olhou para ele -- O lance é que se eu viver na neurose em cima de cada colega de trabalho, não vou fazer mais nada!
--Não é viver na neurose, mas você acha que todo mundo é honesto sempre, e não é assim! -- advertiu -- Pode continuar sendo uma pessoa bondosa, mas não seja ingênua demais! Jesus mesmo recomendou que fôssemos mansos como as pombas e sábios como as serpentes!
A mecânica ficou olhando para o sogro e achou interessante que estivesse ouvindo conselhos dele. -- Eu vou chamar Ricardo à responsabilidade e vai ser amanhã, assim que ele chegar.
--Perdoe-me te trazer uma notícia dessas, mas... -- sentia-se constrangido -- eu me senti na obrigação!
--Que é isso? Eu que devo te agradecer! -- sorriu reconhecida
Minutos depois, Camille estacionou o carro na rua ao lado e caminhou até a porta da oficina. Ficou parada olhando para a fachada da ESSALAAM.
“O que eu tô fazendo aqui, ao invés de ir pra casa?” -- pensava -- "Mamãe tá me esperando e Ed já foi embora, com toda certeza...” -- suspirou -- "Por que sou sempre tão idiota?” -- deu as costas e preparou-se para partir
--Camille! -- ouviu a morena chamar
“Ô louco, ela não tinha ido embora!” -- pensou surpreendida e virou-se de frente para a morena -- Oi, Ed! -- sorriu sentindo o rosto queimar
--Oi, garota! -- aproximou-se sorridente -- Que faz aqui? Veio me ver? -- parou diante dela
Verdes e azuis mergulharam-se uns nos outros.
--É... eu... eu... -- não sabia o que responder -- É que... -- pausou -- eu queria te contar uma novidade: fui promovida a gerente! -- sorriu -- "E o que ela tem a ver com isso, Camille? Você é mesmo uma idiota!” -- pensou se recriminando
--Sério?? -- perguntou empolgada -- Caraca, que notícia boa, garota! Vem cá, me dá um abraço! -- abriu os braços e a envolveu carinhosamente
A loura fechou olhos e sentiu-se confortável junto à mecânica. Depois de alguns segundos decidiu romper o contato.
--É... -- afastou-se receosa -- Eu sei que você não tem nada com isso, mas como sempre me deu força na minha carreira achei que fosse gostar de saber...
--Adorei saber! -- respondeu com sinceridade -- E me sinto honrada porque você veio aqui pessoalmente pra me dizer! -- sorriu
--Eu já contei pra mamãe, pro tio e pra Fátima por telefone... -- passou a mão nos cabelos -- Aí, tive de passar aqui perto, por causa do desvio de uma obra que tão fazendo, e arrisquei ver se você ainda estaria na oficina...
--É, eu tava conversando com meu sogro e por isso ainda tô aqui. -- ouvir a palavra sogro deixou Camille sem graça -- Um dia desses você tem que dar uma passada aqui pra ver a estrutura de restauro de carros antigos que a gente tá montando! -- convidou -- Muito show!
--Eu venho, sim. -- abaixou a cabeça rapidamente -- Mas agora é hora de ir! Mamãe deve estar me esperando ansiosa pra comemorar! -- sorriu
--Camille, eu te desejo tudo de bom na vida! Tudo! -- falava com muito sentimento -- E que você e Fátima sejam muito felizes! -- desejou
A engenheira ficou sem graça. -- Obrigada! Também torço muito por você! -- sorriu e começou a andar -- Tchau! -- acenou
--Tchau, querida! -- acenou também
A loura seguiu andando e Seyyed a acompanhou com o olhar. Sentia-se honrada pela consideração da jovem e ficou realmente feliz por ela. Ao mesmo tempo uma pontada de tristeza alfinetou seu coração quando espontaneamente se lembrou do dia em que conversaram ali mesmo, diante da oficina, que ainda estava em construção.
“Às vezes eu me sinto como se entre nós houvesse uma coisa que ficou mal resolvida no passado.” -- pensava -- "Às vezes tenho vontade de pegá-la no colo e protegê-la do mundo...” -- respirou fundo e sacudiu a cabeça -- Pra casa, Seyyed! -- disse para si mesma -- Sua mulher a espera e você a ama! -- sorriu -- "Será que se eu pedir pra Isa usar aquela lingerie deliciosa hoje de novo ela usa?” -- idéias borbulhavam em sua mente
***
Aline e Pedro estavam radiantes e esbanjando simpatia. Casaram-se logo nos primeiros dias de março e curtiam a festa com muita empolgação.
--Eu tô muito satisfeita de ver nosso menino casado com uma moça que nem essa, não sabe? -- Vânia conversava com os pais de Aline -- Só pelo sorriso dele dá pra notar a felicidade!
--Também tô feliz! -- a mãe da moça respondeu sorridente -- Olha só pra ela! Tá que não se agüenta de alegria!
--Ver nosso filho bem empregado e bem casado era tudo que eu queria! -- Roberto disse -- Agora é esperar pelos netos! -- sorriu
--Eu queria uns dois netinhos! -- o pai de Aline opinou -- Dois meninos, duas meninas, um casal, tanto faz! -- olhou para Roberto -- Você gosta de futebol? -- perguntou curioso -- Qual o seu time?
--Oxi, como gosto!! -- respondeu com ênfase -- Pense num cabra vascaíno!! -- deu um tapa na mesa -- Sou Vascão até morrer!!
--Eita, que eu também sou!! -- ficou empolgado e bateu na mesa -- Então quando essas crianças nascerem a gente tem que fazer delas vascaínas como nós!!
--E vão ser!! -- o paraibano respondeu concordando -- O enxoval dos menino vai ser preto e branco, cheinho de cruz de malta! Pedro é vascaíno também e vai fazer a parte dele!
--Aline não tem time mas vai que seu filho faz a cabeça dela? -- estava esperançoso
As duas mulheres se entreolharam e reviraram os olhos.
--Ai, amiga, mas eu tô tão feliz! -- a recém casada segurava as mãos de Camille -- Arrumei um amor pra vida inteira!! -- sorria extasiada
--Se Deus quiser que assim seja! -- a loura desejou sorridente
--Amiga, ele é tudo que eu queria! -- aproximou-se da outra -- Agüenta fazer em todas as posições que eu quero e nem fica desconjuntado! -- cochichou -- Acredita que fizemos duas sessões do giramundo com agachamento?
--Ô louco!! -- exclamou sem entender sobre aquelas posições -- Meu, você me inventa cada coisa!!
--Ai, eu adoro provar da novidade!! -- deu um tapinha no braço de Camille -- E fico louca porque ele topa e não pede arrego!
--Acredito que pra uma tomba homem que nem você isso seja muito importante! -- olhava para a amiga -- Mas vá com calma pra não ficar viúva cedo! Ou pra você não morrer cedo também!
--Que nada! Se Deus quiser teremos uma boa e longa vida juntos! -- olhou rapidamente para o alto -- Agora que sei o que é prosperidade no amor e no trabalho quero viver isso intensamente!
--Eu desejo que seja assim! Com toda sinceridade!
--Só falta você, amiga! -- segurou o rosto da loura com carinho -- Virou gerenta, é toda poderosa... só te falta encontrar um grande amor!! -- desejou
Camille olhou rapidamente para Fátima, que conversava com Mariângela e Jurema, pensou um pouco e respondeu olhando para Aline. -- Já encontrei... pena que meu coração se entrega pela metade...
--Ainda por causa daquela pessoa que é comprometida? -- perguntou com pena da loura
--E que também se entrega pela metade... Pelo menos tenho essa impressão.
--Por que não vai atrás dele e fala tudo? Por que não diz pra ele: “ -- Ei, cara, a gente se ama! Por quanto tempo vamos ficar fingindo o contrário?” -- aconselhou
--Eu já deixei muito claro o que sinto... -- lembrava-se da conversa na porta da oficina -- Mas, as coisas não são tão simples assim...
--Ah, então esquece ele! Esquece, joga no vento, e mergulha de cabeça no relacionamento com esse outro cara que te ama! -- incentivou -- Depois que eu voltar da lua de mel, vou te procurar e te ensino umas posições do arco da velha! -- gesticulava -- Amarelinha safada, Baco invertido, ponte estaiada no pau, giramundo com agachamento, mola com bailarinos, flexão invertida com arco sagrado, berimbau metalizado, de quem é esse jegue?, -- contava nos dedos -- tudo isso você tem que aprender!
--Berimbau?? -- perguntou apavorada -- E esse troço de jegue?? Desde quando o Kama Sutra tem isso??
--Ah, minha filha, a do berimbau fui eu que inventei, e a do jegue, -- olhou para Pedro e suspirou -- foi meu cabra da peste que me introduziu!
--Ô louco!! Imagino como são as tais introduções... -- revirou os olhos
--Você vai gostar de aprender e vai fazer teu homem gem*r sem sentir dor! -- pausou -- Ou sentindo dor, a depender da perspicácia do casal! -- sorriu -- Mas o importante é ser feliz!
--Eu, hein, me inclui fora dessa!! Quero aprender posição contigo, nada! -- fez cara feia -- "Ainda bem que Aline nunca conversou com Fátima! Do jeito como aquela nadadora tem energia pra gastar, seria o meu fim!” -- pensou aliviada
***
Ana foi abrir a porta de casa para a mãe e levou um susto ao ver que Leila a acompanhava. Convidou-as para entrar.
--E o que você faz aqui? -- perguntou secamente para a irmã, que estava parada no meio da sala
--Eu pedi que ela viesse, Ana. -- Odete falou -- Vocês são irmãs e é hora de acabar com as desavenças!
--Somos irmãs?! -- perguntou com ar de deboche -- Não tenho notícias de que minha irmã tenha ido me visitar um dia sequer naquela clínica! -- olhava nos olhos de Leila, que nada respondeu
--Eu vou deixar as duas conversarem a sós. -- a mulher mais velha decidiu -- Vou passar na padaria pra comprar umas coisas e depois volto aqui. -- olhou para ambas -- Espero que se entendam de uma vez por todas! -- caminhou até a porta -- Quero encontrá-las vivas e inteiras quando voltar! -- foi embora
--Está com raiva de mim? -- perguntou medindo as palavras
--Imagina! -- respondeu com sarcasmo -- Você não teve nem coragem de perguntar se minha filha precisava de ajuda com alguma coisa! -- acusou -- Nunca pensei que você pudesse fazer isso!
--Eu sei... Fui muito mesquinha, é verdade. -- concordou -- Mas você também ficou tão metida quando morava naquela cobertura! -- falou com mágoa -- Ficava jogando na nossa cara que éramos mais pobres que vocês, que nossos filhos não tinham futuro...
Ana ficou quieta, pois sabia que era verdade.
--Quando Anselmo foi preso eu levei um susto! Paulo teve medo que sofrêssemos as conseqüências do envolvimento dele com traficantes perigosos e pediu que eu não te procurasse. -- pausou brevemente -- Quando soube que você estava internada, eu... -- respirou fundo -- eu tive muita pena, chorei demais... só que não quis me envolver.
--Posso ter sido esnobe e inconveniente, mas quando nós éramos jovens e você ficou à beira da morte, estive do seu lado o tempo inteiro! Cuidei de você! -- lembrava com mágoa -- Na hora em que mais precisei de você, na única vez em que realmente precisei de uma irmã, fui abandonada! -- fez cara de choro -- Ingrata!
--Talvez eu não quisesse aceitar que aquela que sempre admirei, -- justificava-se controlando a emoção -- houvesse caído tanto... -- cruzou os braços por não saber o que fazer com as mãos -- Eu achava que você era meu modelo a ser seguido. -- pausou -- É difícil constatar que nossos ídolos são seres humanos com limitações como todo mundo...
--Sou sua ídola? -- perguntou surpreendida -- Sempre achei que você tinha inveja de mim, mas daí a me ver como sua ídola...
--E sempre tive mesmo! Morro de inveja de você há séculos! -- confessou -- Você sempre foi mais elegante, mais atraente, mais bonita, mais interessante e eloqüente do que eu!
“Ainda bem que ela reconhece!” -- pensou concordando
--E por tudo isso era minha ídola! -- pausou -- Tudo seu parecia dar mais certo! Sua condição financeira era melhor, sua apresentação impecável, sua filha sempre se destacou no balé, sempre foi boa aluna... Meus filhos mau e porcamente fizeram o segundo grau e vivem batendo cabeça por aí pra arrumar emprego... -- olhou para Ana -- No fundo, uma parte de mim comemorou sua derrota. -- assumiu envergonhada -- A vida inteira eu me senti uma fracassada... queria que você soubesse como é isso...
Ana pensou um pouco e decidiu ser sincera na mesma medida.
--Nunca te achei uma fracassada... Pelo contrário! -- passou a mão nos cabelos -- E também sempre tive inveja de você... -- confessou -- A vida inteira me pareceu que as pessoas que gostavam de você, gostavam de verdade. Como seu marido, seus filhos... Vocês são uma família unida e eu não sabia como era isso... -- pausou -- Eu nunca soube conquistar os outros; você sim!
--Você com inveja de mim?! -- estava pasma
--Sim... -- abaixou a cabeça -- E acho que passamos a maior parte de nossas vidas competindo! -- olhou para ela novamente -- Pelo menos desde que você entrou pra faculdade e eu casei. -- pausou -- Eu também queria ter passado no vestibular e você também queria ter arrumado um marido. -- sorriu -- Mas isso você conseguiu na própria faculdade...
--Quando éramos mocinhas era tudo tão diferente, né? -- lembrou saudosa -- A gente conversava tanto! -- sorriu -- Gostávamos de passear de bicicleta, de ir no cinema e comer algodão doce na saída, de ir nas festas juninas da falecida tia Penha... Lembra do tio Chico tocando violão?
--Sempre a mesma melodia pra tocar qualquer canção! E ele ainda tinha raiva porque a gente não acertava qual era a música! -- riram
--Lembra que a gente era apaixonada pelo Elvis? -- perguntou animada -- Nossas amigas diziam que ele era ultrapassado mas a gente suspirava por ele!
--Nossa, eu tinha um pôster enorme na parede do quarto! -- sorria -- Lembra quando a gente ia na praia só pra ficar paquerando os rapazes? Você ficou apaixonada pelo salva vidas da camisa sete!
--E você criou toda uma estratégia pra eu ficar com ele!! -- sorria também -- Aliás, nós éramos cheias de planos e estratégias!
--Nós éramos uma dupla e tanto... -- afirmou melancólica
Ana e Leila gastaram uns segundos caladas. -- E... será que... isso acabou pra sempre? -- Leila perguntou receosa -- Sinto tantas saudades...
--Eu também sinto... -- passou a mão nos cabelos -- Acho que já perdemos tempo demais com bobagens e eu não quero perder mais nada!
--Então vamos recomeçar? -- pediu com humildade -- Unidas como nos velhos tempos?
Ana abriu os braços e as duas se abraçaram com força, sentindo em seus corações como um reencontro ansiosamente aguardado.
--Como nos velhos tempos... -- afirmou com os olhos fechados -- "Gente, que perfume é esse que Leila tá usando?” -- pensou -- "Tenho que descobrir pra comprar um igual!”
“O cabelo de Ana continua um arraso!” -- Leila pensava -- "O que será que ela passa? E pinta com que tintura? Essa cor ficaria boa em mim!”
***
Joselina andava muito preocupada com o futuro de seu neto. O rapaz não queria saber dos estudos ou de trabalho, vivia com más companhias e dormia com qualquer garota que estivesse disponível. Ultimamente desconfiava que ele começava a experimentar drogas.
Mulher trabalhadeira, pobre, negra humilde do morro Babilônia, sentia o peso de seus quase 89 anos de vida a torná-la cada vez mais frágil.
--Cheguei! -- William anunciou ao abrir a porta -- Aí vó, -- olhou para ela -- descola um rango aí que tô com a maior fome, tá ligada? -- jogou-se sobre o maltratado sofá e deitou
--Mas onde é que você esteve, menino? -- perguntou aborrecida -- Saiu de casa na quinta e só volta hoje, em plena segunda-feira? -- colocou as mãos na cintura -- Com quem esteve por aí? Olha o seu aspecto, que coisa horrível!
--Ah, qual é? -- respondeu mal humorado -- Tive nos baile, zoei, comi umas cachorra, tô de boa! -- cruzou os braços por detrás da cabeça -- Vê um lanche aí? -- insistiu
--E isso por acaso é vida? -- estava chateada -- Você ainda nem completou dezessete anos e já se comporta assim? Não estuda, não quer saber de trabalhar, só anda com vagabundos e ainda sai com todo tipo de garota!
--Qual é, vó? -- sentou-se com raiva -- Eu sou homem, porr*! Fica feio pra essas cachorra que dão pra gente! Tem umas aí que deixa geral aparar pela rabiola! -- sorriu com uma expressão indecente -- Tô na idade dos baile mermo, pô!
--Nada disso é bonito ou bom pra nenhum de vocês! Seja rapaz ou moça! -- argumentava -- Você quer viver de que? De farra? -- fazia cara feia -- Não tem lanche pra você comer! Cadê o dinheiro pra comprar as coisas?
--Puta que pariu! -- levantou-se -- E tua aposentadoria? Tá gastando a grana com o que? -- encarou com a idosa
--Só a minha aposentadoria não dá conta! E além disso o dinheiro acabou mais rápido que o normal! -- olhava seriamente para ele -- Desconfio que você pegou pra comprar droga, não foi, William? -- acusou
O jovem não respondeu e se encaminhou até a porta. -- Caralh*! É foda, viu? -- saiu com raiva
“Meu Deus amado!” -- Joselina pedia com lágrimas nos olhos -- "Eu Lhe suplico, orienta esse menino, por favor!” -- colocou as mãos sobre o peito -- "De minha parte, já não sei mais o que fazer...”
15:00h. 09 de abril de 2011, Edifício Ícaro, Ipanema, Rio de Janeiro
Isa organizava uma festinha de despedida para Priscila em seu apartamento. Lady, Jaqueline, Tatiana e alguns poucos amigos da dentista estavam presentes. Priscilinha se distraía brincando com Seyyed.
--Gente, parece até mentira, sabe? -- a morena comentava pensativa -- Moro no Rio desde os 15 anos... Já vou pros 32! -- riu rapidamente
--E a gente se conhece desde aquela época! -- a ruiva disse com admiração -- Como as coisas mudaram, não é? Realmente parece mentira! -- ficou pensando
--Eu nem dormi essa noite, totalmente mergulhada em lembranças... -- olhava para um ponto perdido -- Depois que meus pais voltaram pra Piraí, vivi em dois apartamentos diferentes até encontrar aquele Edifício Rubro Negro! -- sorriu -- Parece que foi ontem que conheci Patrícia e Leandra e a gente ficou morando juntas... -- olhou para Tatiana -- Aí Leandra se formou e você veio pra ficar no lugar dela!
--Deixa eu te contar que morro de saudades daquela época, viu, fi? -- sorriu também -- Era tão divertido! Você, a finada Patrícia e eu dávamos tão certo... -- pausou -- Lembra que quando Marcelo terminou comigo eu fiquei arrasada? Isa tinha acabado de voltar da Europa, tava triste também, e você cismou que todo mundo tinha que ir pra uma danceteria lá no baixo Gávea!
--Claro que lembro! -- a morena riu -- E graças a mim as vidas de vocês mudaram radicalmente!
--Com certeza! -- a bailarina sorriu -- Graças a sua idéia eu conheci Seyyed! -- olhou para a mecânica junto à Priscilinha na varanda
--E eu conheci meu pretinho! -- a repórter suspirou -- Que aliás ficou na ESALAAM pra Seyyed poder estar aqui agora! -- sorriu
--E eu fiquei com Silvio, que tempos mais tarde ficaria com Lady! -- riu -- E que teve um filho que é criado por seus sogros, -- olhou para a ruiva -- e virou bailarino, diga-se de passagem!
--Pois é, que loucura, né? A vida é muito imprevisível... -- Tatiana ficou uns segundos calada e depois olhou para a engenheira -- Agora tô lembrando que você chegou naquele apartamento cheia dos trem e mais aquele papagaio possuído! -- riu
Lady riu também. -- Vocês diziam que ele era possuído, mas nunca ouvi meu bichinho dizendo nada! -- balançou a cabeça negativamente -- E de minha parte, posso dizer que adorava aquela época! Viver com vocês duas era muito legal... Pena que eu só namorava bomba! -- suspirou
“Humpf! Como se isso não acontecesse até hoje!” -- a dentista pensou fazendo um bico
--E depois veio Lila! -- a engenheira disse -- Ao contrário de mim, chegou com um mochilão nas costas e só! -- olhou para a gaúcha
--E Lila virou Jaqueline! -- sorriu -- Mas seja uma ou outra, a verdade é que também vou morrer de saudades de vocês, gurias! Morar sozinha naquela quitinete vai ser bem mais econômico só que muito menos divertido, daí!
--Quando você vai se mudar? -- Isa perguntou para a gaúcha
--Sábado que vem. Já deixei tudo praticamente pronto e a imobiliária me entregou as chaves ontem. -- olhava para a ruiva -- Tu tens que ver a diferença no preço do aluguel! Morar na zona sul é bom mas... Barbaridade, tchê! -- exclamou sorridente -- Que caristia!
--E você, Lady? -- Tatiana perguntou -- O que vai fazer da vida?
--Eu vou continuar naquele apartamento até encontrar um imóvel pra comprar, coisa que não tô achando! Pagar o aluguel sozinha, embora seja puxado, vai ser a melhor opção até que eu possa encontrar alguma coisa! -- cruzou os braços -- Mas a droga é que os preços dos imóveis nesse Rio de Janeiro tão me deixando apavorada! É cada coisa cara! -- olhava para as amigas -- E cada coisa ruim!!
--Eu bem sei! Antes de comprar esse apartamento aqui, Ed e eu vimos cada coisa horrorosa! -- Isa lembrava -- Horrorosa e cara! Imagino agora que o Rio será sede da Copa e das Olimpíadas, como os preços dos imóveis devem ter subido!
--Demais!! -- Lady exclamou -- E não é só na zona sul, mas em todo lugar! Quando vai ver um preço melhor é área de risco! -- olhava para as demais -- Aí eu me sinto enganada e quando os corretores perguntam se eu gostei do imóvel, dou um grito bem alto e não respondo! É meu protesto mudo! -- falava cheia de consciência
--Protesto mudo e você grita? -- a repórter riu -- Tem base? Num dou conta, não, uai! -- balançava a cabeça divertida
--É por essas e outras que eu tô voltando pra Piraí! Amo o Rio, mas essa cidade tá cada vez mais caótica e cara pra se viver! -- a dentista se justificava -- Lá em Piraí eu vou trabalhar perto de casa, sem pegar engarrafamento, minhas contas serão mais baratas e a qualidade de vida bem melhor! -- olhou para as amigas -- A única pena é que eu vou morrer de saudade de vocês! -- fez beicinho
--Ai, não fala assim que eu também vou morrer de saudades!! -- a bailarina abraçou a amiga -- E te amo, Pri!
--E eu também amo! -- Tatiana abraçou as duas -- E peço pra gente combinar de manter a internet em dia pra apaziguar a saudade!
--Mas, bá, até eu vou sentir tua falta! -- uniu-se às demais -- Aprendi muito nesse tempo de convívio!
Lady ficou apenas olhando sem nada dizer.
--Tia Pi, -- a menina correu até a morena -- também quero abraço!! -- sorria
--Mas é claro que eu abraço a minha gotosa, gente!! -- pegou a criança no colo e a abraçou com força -- Hum, meu amorzinho, tia Pi ama você muito, muito, muito!!! -- fechou os olhos
--Eu também! -- beijou a bochecha da dentista -- Mãe! -- olhou para Lady -- Abraça eu e tia Pi! -- pediu
Lady e Priscila ficaram meio constrangidas mas acabaram se abraçando. As duas beijaram as bochechas da garota ao mesmo tempo.
--É, mulher, você vai fazer falta! -- Ed falou enquanto abraçava a ruiva pela cintura -- Apesar de ter ajudado essa bailarina aqui a fazer meu coração de gato e sapato, eu também vou sentir saudades suas! -- sorriu
--Boba! -- Isabela deu um beijo rápido na bochecha da esposa
--Priscila é especialista nisso de fazer o coração dos outros de gato e sapato! -- a engenheira desabafou ao interromper o abraço entre elas -- É uma verdadeira Dalibel dos tempos modernos! -- fez cara feia
--Quem é Dalibel? -- Jaqueline achou graça
--Ih, mas você não sabe nada da Bíblia, viu? -- ralhou -- É uma mistura de Dalila com Jezebel! -- esclareceu -- Só mulher que chega pra destruir! Bota uma tesoura na mão dela pra ver! Corta os cabelos!
A morena ficou sem graça e disfarçou brincando com Priscilinha em seu colo.
***
Oito dias depois, Lady acordava e percebia um silêncio bem diferente no apartamento. Priscila e Jaqueline haviam ido embora e tudo parecia grande e vazio demais para ela e sua filha.
Levantou-se da cama lembrando de ver as coisas da dentista serem transportadas para dentro de um caminhão de mudanças. Priscilinha chorou muito e isso fez com que ela e a morena também chorassem bastante. Foi uma despedida triste e carregada por uma forte sensação de que algo estava sendo deixado para trás.
“Tadinha da minha filha...” -- pensava -- "Ela se sentiu abandonada...” -- olhou carinhosamente para a criança que dormia -- "Assim como eu também me senti...”
A engenheira abriu o guarda roupas para pegar suas coisas e só então se deu conta de que havia uma carta perto do porta jóias.
“Ué?” -- pegou a carta com estranheza -- "Será possível que só agora eu tô vendo isso aqui?” -- abriu o envelope e se preparou para ler
“Querida Lady,
Escrevi essa carta por saber que só assim eu teria coragem de te dizer aquilo que não conseguiria verbalizar. Há coisas que me confundem bastante e meus sentimentos por você, com certeza, estão no topo da lista. Você por si só me deixa totalmente confusa, mas isso é outra conversa. Aquela noite que tivemos não foi uma coisa qualquer para mim. Não foi como as outras vezes em que estive com alguém na cama, absolutamente não! Foi a primeira e única vez em toda minha vida que fiz amor com uma pessoa! Nunca vou esquecer, mesmo que viva cem anos...” -- a engenheira se emocionou -- Nossa, que coisa forte! -- disse para si mesma e continuou a leitura -- “Eu sei que sou metida, orgulhosa, intransigente, teimosa e que não tenho muita paciência com você. Sei que não te dei tudo que você merecia, mas acredite que tentei! Do meu jeito mas tentei! Eu não estava preparada para o amor e isso desabou minhas estruturas por completo.” -- arregalou os olhos abismada -- Meu Deus, ela escreveu amor?? -- voltou a ler -- "É isso mesmo que você leu: amor!” -- continuava em estado de choque -- Nossa, que coisa interativa! A carta conversa comigo!! -- estava pasma -- "Eu te amo, Lady; não posso continuar negando. E amo sua filha como se fosse minha...” -- derramou algumas lágrimas de emoção -- "Desejo tudo de bom para você e para o homem que escolher. Mas não gostaria que fosse esse tal de Ricardo. Ele não é um sujeito legal!” -- ficou pensativa e argumentou: -- Mas ele é o enviado, o homem que a cigana me anunciou! -- voltou a ler -- "E não me venha com essa história de enviado! Esquece essa maldita cigana que esse tempo já passou!” -- novamente ficou pasma -- Gente, nunca na minha vida eu conversei com uma carta! Só Priscila mesmo pra fazer um troço desses! Será que tem aquele botão ‘curti’? -- procurou no texto -- "Tudo de bom, saúde, muito sucesso e paz! Priscila Toledo Galvão.” -- Lady abraçou a carta, suspirou e saiu rodopiando pela casa
19:50h. 20 de maio de 2011, Arco do Teles, Centro, Rio de Janeiro
Camille e Letícia conversavam em um barzinho no Centro da cidade.
--Olha, Letícia, eu queria deixar bem claro que só vim encontrar contigo porque você me garantiu que não era pra falar de passado. -- olhava para a professora -- E porque você também insistiu demais, ô louco! Me deixou até curiosa!
--Eu sei que você tá namorando a Fátima, fique tranqüila. -- respondeu calmamente -- Não te chamei aqui pra ficar te dando idéia, é sério. -- pausou e sorriu -- Na verdade eu queria dividir uma coisa com você, uma coisa que me emocionou muito! -- falava com empolgação -- Quando estávamos juntas você sempre demonstrou interesse no meu trabalho e hoje eu recebi um telefonema que... -- balançou a cabeça -- Recebi um telefonema do Presidente da Agência! -- olhava para a loura
--Agência? -- ficou surpresa -- Você diz, Agência Internacional de Energia Atômica? -- perguntou arriscando
--Isso! -- sorria confirmando
--Meu, e o que ele queria?? -- estava curiosa e empolgada
--Me convidar pra trabalhar na sede da ONU em Viena, por cinco anos, como especialista sênior de segurança nuclear, num cargo diplomático da Agência. -- sorria excitada -- Terei de visitar, gerenciar treinamentos e realizar inspeções nas diversas usinas nucleares espalhadas pelo mundo.
--Letícia!! -- cobriu os lábios com as mãos -- Que notícia da hora, meu!! -- estava boquiaberta -- Mas... -- lembrou-se de um detalhe e apoiou as mãos na mesa -- e como fica o seu trabalho aqui? -- perguntou preocupada
--Se eu aceitar a proposta, o Governo Federal vai me liberar como funcionária cedida à ONU por tempo determinado e depois eu volto e ocupo meu cargo na universidade novamente. -- explicou -- Quanto ao trabalho que venho fazendo, terei de dividi-lo entre alguns colegas e doutorandos. Não vou ficar cinco anos sem pisar no Brasil e também posso monitorar alguma coisa via internet. -- sorria -- Afinal de contas essa ferramenta é útil e pode nos ajudar bastante!
--Gente, mas que honra! Eu tô super feliz por você!! -- falava com sinceridade -- E por que essa proposta, assim, agora? Teve alguma coisa a ver com aquela tragédia que aconteceu no Japão no dia 11 desse mês?
--Só teve! -- confirmou -- Inclusive eles querem que eu seja mediadora nas discussões que a ONU vai promover nos meios acadêmico, político e científico por causa de Fukushima. -- contava -- As autoridades do mundo inteiro ficaram alarmadas e muitos países começam a questionar se darão andamento a seus respectivos programas nucleares ou não!
--Letícia, isso é... nossa, nem sei dizer! -- sorria -- Um tsunami terrível, acompanhado por um terremoto tenebroso, causa um acidente sem precedentes e o Presidente da Agência lembra de você! -- estava orgulhosa da outra -- Prova sua extrema competência técnica!
--Eu fiquei pensando, sabe? -- brincava com um guardanapo -- O Presidente da Agência convocou uma mulher, brasileira e negra! Uma órfão de mãe, que foi criada por um pobre soldador que morreu cego. -- seus olhos marejaram -- Uma mulher que trabalhou como caixa de supermercado pra sustentar a casa e que fazia faculdade de física à noite no maior sufoco. -- pausou para controlar os sentimentos -- Lembro que na época em que fazia meu mestrado na França, ouvi um colega de departamento falar que o mais perto que eu chegaria da Agência seria pra servir cafezinho. -- passou a mão nos olhos -- Sinto muito por essas 20 mil pessoas que morreram até agora e de forma alguma fiquei feliz com essa tragédia, mas, -- olhou para Camille -- você não tem idéia do que senti quando ouvi a proposta que me foi feita! -- pausou -- Eu me sinto como alguém que venceu uma árdua batalha depois de anos de luta!
--E você venceu! -- aproximou-se e tocou o rosto da professora com carinho -- Eu tenho muito orgulho de você, Letícia, e sei que vai nos representar muito bem! -- sorriu -- A imprensa vai fazer o maior alarde quando você disser que sim! Vai ficar famosa no mundo todo! -- cruzou os braços encarando com a professora -- Agora é que ninguém mais te segura!
--Eu ainda não disse que aceitava! -- pausou -- Pedi uns dias pra pensar. Mas não vou demorar pra responder porque há urgência no caso.
--Valorizando o passe, faz bem! -- concordava -- Mas me diz, sua opinião sincera: essa calamidade não foi uma prova cabal de que apostar na geração energia com base em usinas nucleares não é a melhor escolha?
--Você gosta dessa discussão, não é? -- sorriu -- O fato é que a questão energética tem muito mais fatores políticos em jogo do que meramente técnicos. E ela anda muito vinculada à questão bélica. Ter energia é ter poder! -- pausou -- Contra ou a favor da energia nuclear, esse acidente, que foi classificado como de nível 7, o mais elevado na escala internacional dos incidentes nucleares, vai mudar muita coisa daqui por diante. Você vai ver!
--Ai, dona Letícia, você enrolou e não me respondeu. Bem vaselina essa sua resposta! -- sorriu provocativa -- Eu acredito que as áreas em torno da central de Fukushima, por causa da radioatividade muito forte, deverão permanecer desabitadas por milênios. As zonas um pouco mais distantes, por séculos. Milhões de pessoas serão definitivamente deslocadas pra territórios menos contaminados e deverão abandonar pra sempre suas propriedades e atividades industriais, agrícolas ou de pesca. -- expressava sua opinião -- Além disso, os efeitos radioativos se farão sentir na saúde de dezenas de milhões de japoneses. E sem dúvida também sobre diversos países vizinhos.44 -- pausou -- Um acidente nuclear nunca é local, mas sempre planetário! E é por isso que eu sou do contra!
--Não sou eu a dona da verdade e também não tive tempo de estudar o acidente pra ter uma opinião bem abalizada. -- respondia -- Mas as usinas de Fukushima deram o testemunho da robustez do projeto nuclear, porque a estrutura permaneceu de pé apesar de tudo. Nenhuma outra planta industrial de geração de energia teria o mesmo desempenho, mas, infelizmente, você está certa, aconteceu um vazamento de material radioativo que não foi irrelevante. -- explicava -- O grande problema foi que as bombas de refrigeração de emergência não funcionaram. E foram quatro unidades com problema de resfriamento, dentre as seis de Fukushima.
--O que mostra um elo fraco no sistema dito perfeito! -- continuou -- Se o país mais apto e mais vigilante do mundo não foi capaz de evitar uma catástrofe, o que se dirá dos outros?
--Peraí, Camille, não é todo dia que acontece um tsunami e um terremoto ao mesmo tempo! Você tá sendo radical! -- objetou
--Tudo bem, mas ouve uma. Os defensores da energia nuclear dizem que o petróleo vai acabar daqui a 80 anos e por isso a saída é apostar nessa tecnologia. Mas, as jazidas de minério de urânio do planeta são extremamente limitadas. Eu li que, ao ritmo da exploração atual, as reservas mundiais desse minério estarão esgotadas em 80 anos, ou seja, igual ao petróleo.44 -- concluiu vitoriosa -- Qual é a vantagem?
--É por isso que eu te amo, Camille. -- sorriu sedutoramente -- Você, além de linda, é inteligente e maravilhosa! -- aproximou-se e segurou uma das mãos dela -- Fátima deve ter dito que fui uma ridícula com ela naquela vez que vi vocês duas no restaurante, mas... agi daquele jeito por ciúme e inveja! -- estava sendo sincera -- Eu nunca me conformei em te perder e sempre achei que Fátima era a culpada. -- pausou brevemente -- Depois fiquei morta de vergonha do papelão que fiz! Foi realmente muito pequeno de minha parte!
--Letícia...
--Eu pensei nas coisas que ela me disse, no que aprendi com o Budismo, no que aprendi naquele tributo que nós fomos e em tudo que você já havia me dito sobre amor e sex*. -- tocou o rosto dela com carinho -- Tenho muito a aprender sobre o amor e não tive maturidade pra isso na época do nosso namoro. Sei que te magoei e te exigi coisas que você não tava preparada pra me dar.
--Letícia, isso é passado! -- recolheu a mão que ela segurava -- E você prometeu que essa conversa não seria sobre nós.
--Eu não posso evitar! -- olhava nos olhos da outra -- Me dá uma chance, Camille! Por favor! Vai pra Viena comigo e a gente recomeça!
--Não me peça isso, por favor. -- falava com delicadeza -- Você e eu... não tem mais jeito!
--Você não ama Fátima! -- afirmou convicta -- Você apenas se refugia no amor sereno que ela te dá pra tentar esquecer de Seyyed! -- segurou a mão da loura novamente -- Mas isso não vai acontecer! Pra isso você precisa de um amor forte e vigoroso, um amor que eu posso te dar! Não Fátima!
A engenheira mais uma vez recolheu a mão e abriu a bolsa retirando a carteira. -- Letícia, eu juro que fiquei muitíssimo feliz em saber desse convite que você recebeu e desejo tudo de bom na sua vida! -- colocou um dinheiro sobre a mesa -- Mas não adianta ficarmos com esse tipo de conversa porque nosso tempo já passou. -- olhou para a professora -- Gosto muito de você, não guardo mágoas e espero que tome jeito na vida pra parar de ficar de galinhagem por aí! -- levantou-se -- Nunca vou esquecer do que aprendi com você, mas acabou! -- beijou a testa da outra -- Tchau! E boa viagem! -- deu tchauzinho e partiu
A professora ficou olhando a loura se distanciar e suspirou lamentando por mais uma vez não conseguir tê-la de volta.
***
O dia de trabalho terminava e Isabela descia as escadarias da Mangueira. Ela buscava se alternar entre as diversas comunidades atendidas pelo projeto, revezando com Neyan, e sempre contando com o apoio de Mariângela e Lúcia. Nos últimos tempos, a mãe de Karine também começava a trabalhar como voluntária e vinha ajudando bastante.
De repente sentiu o celular vibrar.
--Que número é esse? -- perguntou curiosa para si mesma e decidiu atender -- Alô?
--Ora, ora, há quanto tempo que eu não ouvia essa bela voz!
A ruiva não acreditava. -- Meu Deus! Diva??
--A própria! -- respondeu enfática -- Como vai querida?
--Bem, graças a Deus, e você? Pelo que percebo, está no Brasil!
--Também estou ótima! E sim, cheguei na cidade há quase uma semana, só que vim a lazer. -- pausou brevemente -- Será que... poderíamos nos encontrar hoje? Estou sabendo da proposta que você recebeu do Governo Francês e gostaria de conversar a respeito.
--Nossa, como é que sabe disso? -- ficou surpresa
--Certas notícias correm tão rápido quanto fogo em rastro de pólvora e Diva Bustamanti é sempre muito bem informada, meu bem! -- riu brevemente -- Será que poderia vir me ver aqui no Sheraton Rio? Nada melhor que um chazinho com bolo em um dia fresquinho como esse.
“Ed não vai gostar nada disso...” -- pensou receosa -- Tudo bem, Diva. -- havia acabado de descer as escadas -- Eu vou demorar um pouquinho mas estarei aí.
--Eu espero, fique tranqüila. -- pausou -- Até logo!
--Até! -- ouviu o telefone ser desligado -- "É melhor eu ir direto daqui e contar pra Ed somente quando chegar em casa.” -- pensou
***
--E então, Diva? -- Isa queria ir direto ao assunto -- Já estamos aqui há uns bons minutos conversando sobre amenidades e você ainda não entrou no assunto principal. -- olhava para a coreógrafa -- Por que quer conversar sobre a proposta que eu recebi?
A mulher mais velha achou graça e riu brevemente. -- Ainda age como se tivesse medo de mim. -- cruzou as pernas sedutoramente -- Será que há motivo pra isso?
“Ela continua exuberante e parece que nunca desiste.” -- pensou -- Sabe que sou casada e por mais agradável que seja conversar com você não posso ficar aqui por muito tempo. -- respondeu educadamente -- Eu não queria ser grosseira mas... será que poderia me dizer porque me chamou aqui?
--Isabela Guedes nunca é grosseira. -- sorriu -- É uma das coisas que me atraem em você. -- passou a mão nos cabelos -- Mas, enfim, -- ajeitou-se na cadeira -- fiquei sabendo que o Governo Francês quer que você reproduza em Paris o que fez aqui, só que investindo na dança contemporânea. -- olhava para a ruiva -- Confesso que senti uma pontinha de inveja ao saber, mas depois entendi porque chamaram você e não eu. Minha escola não é tão democrática quanto o seu projeto. -- pausou brevemente -- Aliás esse Dança e Liberdade é de se tirar o chapéu! Está de parabéns! -- sorriu
--Obrigada! -- agradeceu sorridente -- "Onde será que ela quer chegar com essa conversa?” -- pensava desconfiada
--Soube também que você tem negociado com os franceses e que deve estar pousando na França por volta de setembro.
--Nossa, mas você é bem informada! -- ficou surpresa -- "E um bocado fofoqueira!” -- pensou
A coreógrafa riu brevemente mais uma vez. -- Diva Bustamanti não é a melhor do mundo à toa, querida. -- sorriu sedutoramente -- Bem... você terá que montar uma escola de dança e uma companhia vinculada a ela. Mais ou menos como é o meu Mişcarea Center! -- olhava fixamente para a ruiva -- Isso não é um desafio qualquer, do contrário! Vai ser uma empreitada e tanto!
--Eu sei disso! -- sorriu -- E nunca me senti tão motivada! Com certeza vai ser um dos maiores desafios da minha vida!
--E você não está preparada pra fazer isso sozinha! -- afirmou categoricamente -- Não tem a experiência necessária e pode cometer erros que destruiriam sua carreira. -- debruçou-se sobre a mesa -- Vai precisar de ajuda!
--Hum... -- fez uma expressão de contrariedade -- E presumo que você é a ajuda que eu preciso.
--Eu tenho ido muito a Europa, por várias razões. Não me seria nada impossível tirar um tempo pra te dar uma orientação. -- apoiou o queixo sobre uma das mãos -- Se conversar com os franceses sobre isso e pedir que me contratem como uma espécie de consultora as coisas poderiam correr maravilhosamente bem! -- sugeriu
--Seria algo que viria muito bem a calhar pra você, uma vez que com a crise nos Estados Unidos o Mişcarea Center andou experimentando alguns problemas, não é? -- perguntou com uma dose de sarcasmo
Diva não esperava ouvir aquilo e ficou sem graça.
--Não é a única bem informada aqui, meu bem! -- sorriu
--Entendo essa reação. -- passou a mão nos cabelos, descruzou e cruzou as pernas em outro sentido -- No seu lugar eu também não gostaria de receber ajuda mas... -- suspirou -- Não precisa me responder agora, pode tirar um tempo pra pensar.
“Humpf!” -- fez um bico discreto
--E quanto a seu casamento? -- levou a conversa para outra direção -- Como vai fazer pra morar na França e ter uma esposa aqui? Sua mecânica não vai morar lá... -- estudava a reação da outra
--Um casamento não tem que acabar por causa disso. -- respondeu com segurança -- Especialmente se é amor verdadeiro!
--A distância não destrói o amor, mas faz com que muitas coisas se percam. -- retrucou com a mesma segurança -- A carência que decorre dela muitas vezes abre as portas pra que outro alguém possa se aproximar; especialmente no elo mais fraco ou inseguro da relação. -- pausou brevemente -- O amor não torna as pessoas perfeitas.
--Olha, Diva, -- pegou a bolsa e começou a se ajeitar para ir embora -- acho que já conversamos o que tínhamos de conversar. -- levantou-se -- Espero que sua temporada no Rio seja muito agradável e que você tenha uma ótima viagem de retorno. -- olhava para a outra -- Agora é minha hora de ir.
--Pense com calma. -- levantou-se também -- Não decida coisas importantes com a cabeça quente. -- sorriu -- Pode me ligar ou entrar em contato através do Orkut ou do Facebook. Hoje em dia eu uso bem mais o Face, devo salientar.
--Já está decidido! -- respondeu com seriedade -- Não vou solicitar sua consultoria técnica.
Diva desmanchou o sorriso. -- Não seja infantil! Você precisa ter cautela porque é um desafio enorme e...
--Você não está preocupada comigo ou com minha carreira! Está apenas querendo se favorecer e conseguir mais uma chance de aparecer. -- sorriu -- Não sou tão ingênua quanto você pensa!
--Ora, mas como pode me dizer uma coisa dessas? -- sentia-se ofendida -- Eu te estendo a mão amiga e é isso que recebo em troca?
--Já vivi tempo suficiente pra saber que “há duas coisas que ninguém perdoa: nossas vitórias e nossos fracassos.”45 -- olhava nos olhos da coreógrafa -- Se tiver que se aborrecer comigo, não será por causa de um fracasso meu! -- respirou fundo -- Passar bem, Diva! -- retirou-se
A mulher mais velha ficou olhando a jovem partir. “Como pôde?” -- pensou contrariada -- "A constante dessa menina é viver me dizendo não!”
***
Lady caminhava com Ricardo pela orla da Lagoa. Vinham de mãos dadas e contemplando a paisagem. A engenheira olhou para o relógio.
--Tá com pressa de ir embora, Lady? -- perguntou desconfiado
--Só tô de olho no relógio porque dona Olga levou Priscilinha pra um evento infantil no centro espírita. -- explicava -- Ela disse que por volta das seis e meia estariam de volta lá em casa.
--Ainda tem tempo! -- respondeu sorridente -- Don't worry!
--Sim, e ainda temos tempo de conversar... -- pausou brevemente -- Ricardo, me responda, -- olhou para ele -- até quando pretende mentir pra mim?
--What?? -- olhou surpreso para a namorada -- Mentir pra você, my love? Eu não faço isso! -- estava indignado -- O que foi que dona Olga andou te dizendo? -- fez cara feia -- Se ela fez alguma fofoca por causa daquela treta na oficina de Seyyed...
--Fica quieto que ela não fez fofoca nenhuma! -- interrompeu a fala dele e parou de andar -- Uma mulher que é uma verdadeira super heroína dos espíritos não faria isso! -- gesticulava revoltada -- Olha o respeito que eu sou sensitiva e pode me baixar um caboclo aqui a qualquer momento! -- começou a rodopiar -- Ê, meu pai!!
--Please, Lady, don’t do it! -- pediu com medo -- Segura essa mediunidade! Please, stop it! -- a engenheira foi parando de rodar -- Desculpe, foi que eu pensei que talvez ela tivesse dito alguma coisa quando você deixou a menina lá no centro hoje mais cedo! -- tranqüilizou-a -- E eu também estranhei essa pergunta.
--Eu perguntei isso, -- buscou se recompor -- porque somente ontem entendi o mistério que te rondava na oficina de Seyyed! -- olhava nos olhos do homem -- Jaqueline me contou tudo e a verdade nua e crua chegou como um tapa na minha cara! -- fazia um drama -- Doeu n’alma!
--Mas ela contou o que? What does she know? -- cruzou os braços na defensiva
--Ela me disse que você roubava peças do estoque da oficina pra vender por aí e por isso Seyyed te demitiu! -- acusou -- Foi Isa quem contou a ela! -- deu um tapa no ombro do namorado -- Vai dizer o que? Que é um complô contra você?
--What a lie!! É tudo mentira daquele engomadinho ex presidiário do pai da bailarina! -- protestou -- O ladrão é ele que já esteve preso, não eu!
--Chega de mentira, Ricardo! -- falou mais alto -- Você mente pra mim desde o começo!
--Eu não minto pra você! -- afirmou enfaticamente -- Apenas omito certas coisas porque fico sem graça... -- fazia cara de vítima -- Errei no passado e todos me perseguem por causa disso! -- segurou as mãos da namorada -- Não roubei, é calúnia!
--Você escondeu de mim que foi demitido! -- desvencilhou-se dele -- Disse que não estava trabalhando na oficina por falta de serviço e era mentira! Foi demitido em fevereiro e eu só soube ontem, em pleno mês de junho! -- fez um olhar sorumbático -- Veja há quanto tempo venho sendo enganada!
--Lady... -- não sabia o que dizer
--Vamos fazer uma retrospectiva histórica dessa mentirada toda! Você enganou a amiga de Camille com kaozinhos cibernéticos, -- começou a contar nos dedos -- você queria dar uma volta no seu pai...
--Oh, no, don’t say that, eu estava zelando pela minha herança! -- defendeu-se
--Você mentiu pra mim sobre o que aconteceu na academia da fisioterapeuta!
--Flávia é maluca, ela me prometeu uma grana e não hora H não quis pagar! -- reclamou
--E Seyyed? -- pôs as mãos na cintura -- Ela é maluca também? Ou vai dizer que as peças saíram da oficina caminhando com as próprias perninhas e se ofereceram em sacrifício?
--Foi armação do boneco lá, eu não fiz nada! Please, believe me! -- implorava
--Eu fico boba! -- balançou a cabeça horrorizada -- Você consegue olhar nos meus olhos e mentir com a cara das mais de pau! -- deu outro tapa no ombro do homem -- Pinóquio!
--Lady, please... -- continuava implorando
--Bem que minhas amigas me advertiram sobre você! -- passou a mão nos cabelos -- Mas a culpa foi daquela cigana sem vergonha! É isso que dá acreditar nessas conversas! -- deu um soco na mão
--Suas amigas são preconceituosas, Lady! Essa garota, essa tal de Jaqueline, ela me odeia, ela quer me queimar contigo! Se faz de espiritualizada mas é uma grande fingida! Safada, maliciosa!
--Não me venha falar na malícia de toda mulher! -- argumentava interrompendo a fala dele -- Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é! -- lançou-lhe um olhar acusador
--Não me olhe como se a polícia andasse atrás de mim! -- pediu choroso
--Shut up, Ricardo! Chega de kaô na minha life! -- gesticulava
--Oh, my darling, você se faz vítima, só que mente pra mim! -- tentava reverter a situação -- Eu me dou todo nesse relacionamento, não há outra mulher na minha vida! -- olhava para Lady -- Enquanto isso, você guarda uma carta de amor que Priscila te deixou como se fosse um tesouro! -- fazia um drama -- E você nunca me contou que essa carta existia!
--Eu não te revelei sobre a carta pois faltava coragem! -- falou como atriz mexicana -- Mas nada disso se compara ao peso de tuas mentiras! -- olhou para o namorado com cara de suspense
--Mas eu já disse, honey! Posso explicar tudo muito bem se você quiser! -- respirou fundo -- Só não aceito que minta pra mim sobre teus sentimentos!
--Você sabe explicar, você sabe entender, tudo bem! -- jogou os cabelos -- Você está, você é, você quer, você tem... -- pôs a mão no peito -- Você diz a verdade e a verdade é seu dom de iludir. -- olhou nos olhos de Ricardo -- Como pode querer que a mulher, vá viver sem mentir?
--Lady... -- aproximou-se e segurou-a pelos ombros -- Vamos recomeçar... I love you!
--Acabou! -- decidiu -- É o fim desse amor traiçoeiro! -- rodopiou pela ciclovia
--Lady, não... -- fez cara de choro
A engenheira rodopiou brevemente e se apoiou nas paredes de um quiosque olhando cinematograficamente para o ex namorado. Mais ao longe percebeu que três mulheres caminhantes se aproximavam. De repente, em seus delírios criativos, tudo lhe pareceu diferente...
Ricardo vestia uma calça jeans bem apertada, camiseta branca justa no corpo e um colete preto. Na cabeça, óculos escuros e no pescoço, uma corrente dourada.
Lady usava uma túnica lilás de pano semi transparente.
--Quando você chegou em mim, -- o homem cantava -- estava precisando de amor... -- pôs a mão no peito
--Cheguei chorando inocente, -- apertou os seios -- por que ela me abandonou... -- deslizou as mãos pelo corpo e cobriu o sex* com elas -- Você enxugou todo o meu pranto, -- sorriu angelical -- fez de tudo para mim!
--Agora você diz: -- cantou mais alto -- “preciso ser feliz!” -- dramatizou com cara de cão pidão -- É hora de dizer adeus... -- fez um salamaleque -- Volta pra ela! -- gesticulou com tristeza
--Que eu vou ser feliz... -- Lady rodopiava
As caminhantes cantavam em corinho: -- Tchururu, tchururu...
--Volta pra ela! -- fazia um drama
--Isso é tudo que eu sempre quis... -- esfregava-se na parede do quiosque
--Tchururu, tchururu... -- o corinho cantava
--Volta pra ela! -- cantava com raça -- Sei que vou sofrer... -- puxou a roupa como se fosse rasgá-la
--Tchururu, tchururu...
--Volta pra ela, mas não vai se arrepender... -- despediu-se com tristeza -- Eu te amo... -- uma lágrima rolou-lhe pela face
Volta pra Ela -- Eliana de Lima e Raça Negra [a]
Lady partiu rodopiando ensandecida pela ciclovia.
15:40h. 25 de junho de 2011, Café-Konditoreien Meinl am Graben, Viena, Áustria
Letícia estava prestes a chamar o garçom, quando sua atenção foi desperta pela chegada de uma mulher elegante e poderosa que parecia estar no auge de seus quarenta e tantos anos.
“Gente, mas o que é isso aí?” -- pensou cheia de desejo -- "Que mulher!” -- admirava -- "Ô, meu Pai, assim eu não agüento...”
A desconhecida escolheu uma mesa próxima a da professora. Mal se acomodou, recebeu um telefonema. Letícia ficou prestando atenção.
“Hum, ela conversa em inglês mas não é inglesa...” -- pensava -- "Tampouco parece americana, embora o sotaque seja bem nova iorquino!”
--Passei a semana concentrada para o espetáculo, claro que não cuidei disso! -- falava com seriedade -- Vocês podem resolver estas questões na minha ausência! Será possível que o mundo pára se Diva Bustamanti não estiver presente? -- reclamou
“Diva Bustamanti!” -- Letícia sacou o Black Berry -- "Vamos pesquisar!”
Depois de quase meia hora de conversa a coreógrafa deu um basta.
--Não me incomodem mais com essas bobagens! Vocês têm condições de saber o que fazer! -- desligou o telefone contrariada e o guardou na bolsa
“Esse é o momento!” -- a física decidiu se levantar
“Ai, que inferno! Vim para relaxar nesse café e já sou incomodada por esses meus assistentes despreparados!” -- a mulher mais velha pensava -- "Vida de estrela não é fácil!”
--Com sua licença, por favor! -- a professora falou em português, fazendo com que a outra olhasse espantada para ela -- Perdoe-me incomodá-la, mas é que é muita emoção ver alguém como a maravilhosa Diva Bustamanti assim, tão de perto! -- bajulava -- Meu nome é Letícia Avelar, sou especialista sênior de segurança nuclear da ONU e... -- sorriu sensualmente -- sua fã!
--Oh! -- passou a mão nos cabelos e reparou na física -- É incrível que encontro fãs em todos os lugares. -- respondeu em português também
--Seria muito inconveniente de minha parte se pedisse para me sentar nesta mesa a seu lado? -- fazia questão de manter uma formalidade -- Estaria realizando um sonho!
“Hum, por que não? Tive um dia tão puxado... de repente ela poderia me distrair um pouco...” -- pensou -- Claro, -- sorriu indicando a cadeira -- por favor!
--Muito obrigada! -- sentou-se -- Eu estava naquela mesa, -- apontou rapidamente -- prestes a pedir um chá com bolo de chocolate quando paralisei por conta de sua chegada. -- pausou brevemente -- Não é sempre que se vê uma ídola justamente no seu café vienense preferido! -- sorriu
Estava toda cheia de si. -- Chá com bolo de chocolate... -- pensou em voz alta -- Não costumo comer doces, mas acho que hoje vou cometer este excesso! -- sorriu
--Imagino que sua alimentação seja controladíssima, a julgar pela silhueta singular, -- continuava bajulando -- mas uma fatia de bolo não será capaz de alterar essa elegância toda!
--Oh, mas você é muito galante! -- sorriu vaidosa
--Sou sincera, é diferente. -- respondeu com delicadeza -- Será que eu poderia fazer o pedido, então?
--Claro! -- concordou
Letícia chamou o garçom e fez o pedido. Diva reparou que o sotaque dela era berlinense típico.
Quando o rapaz se retirou, a bailarina fez uma pergunta: -- Você diz que é minha fã... Será que assistiu o meu espetáculo ontem? -- olhava para a física -- Sind Sie gestern im Theater gewesen? (Você esteve ontem no Theatro?) -- testava o alemão da outra
--Ich habe das Nativitat gesehen! (Eu vi o Nativitat ontem!) -- mentiu descaradamente
--Wie hat es ihnen gefallen? (Você gostou?)
--Ihrer Tänzer sind phantastisch! Die Vorstellung hat mir ausgezeichnet gefallen! (Seus dançarinos são fantásticos! Gostei muitíssimo da apresentação!) -- respondia cheia de charme -- "A internet é uma aliada e tanto!” -- pensava
--War es einfach, Karten zu bekommen? (Foi fácil conseguir ingressos?) -- perguntou desconfiada
--Kein Problem! (Sem problemas!) -- respondeu calmamente
--Mas... fiquei sabendo que os ingressos para o Nativitat esgotaram-se rapidamente! Isso é natural pra mim, especialmente quando fazemos uma única apresentação nas cidades. -- não acreditava na professora -- Vi que a casa lotou, isso foi nítido!
--Acontece, minha diva, -- reclinou-se sedutoramente sobre a mesa -- que quando se está em certas posições, -- olhava nos olhos da coreógrafa -- as portas se abrem com facilidade! -- blefava -- E quando eu quero alguma coisa, vou atrás! -- sorriu -- Jamais perderia a oportunidade de ver a melhor coreógrafa do mundo em ação!
“Essa aí é fã mesmo!” -- pensou envaidecida -- Seu alemão é impecável! -- comentou impressionada -- Há quantos anos mora na cidade?
--Na verdade cheguei em Viena há duas semanas. Sou professora de física e pesquisadora da UFRJ e participo regularmente das reuniões da Agência Internacional de Energia Atômica. -- explicava -- Depois do que aconteceu no Japão, fui convocada pra trabalhar na ONU e ficarei aqui por cinco anos.
“Gente!” -- estava boquiaberta -- "Essa mulher deve ser uma sumidade!”
--Foi tudo muito às pressas, sabe? -- contava -- Mal tive tempo de arrumar minhas coisas... -- caprichou nos olhares -- A única vantagem de estar sem namorada é que pude sair do país sem sofrimento. -- decidiu deixar claro que era lésbica
O garçom chegou e começou a servir às duas mulheres. Nisso o celular de Letícia tocou.
--Com licença? -- pediu educadamente e atendeu -- Hello, mister Kelner, how do you do?
Discretamente a coreógrafa pegou o celular e acessou a internet para pesquisar o nome de Letícia no Google. Enquanto saboreava a torta acompanhava os resultados da busca.
--Desculpe, minha diva. -- sorriu ao desligar o telefone -- Sei que a ligação não foi tão rápida mas eu não podia recusar essa chamada. Era o embaixador da Inglaterra. -- aproveitou para se exibir um pouco
“Essa mulher não é café pequeno!” -- Diva pensava -- "E é uma negra muito bonita!” -- estava começando a se empolgar -- Você fala alemão, inglês... -- bebeu um gole de chá -- Mais alguma outra língua? -- perguntou curiosa
--Je parle français, tout comme vous parle aussi. (Eu falo francês, assim como você também fala.) -- sorriu
--Oui, bien. (Sim, claro.) -- respondeu orgulhosa -- Est un langage belle! (É uma língua bela!)
--Le français est la langue de l'amour ! (O francês é a língua do amor !) -- olhava nos olhos da outra -- Mais... pardonne-moi! Je n'ai pas ta classe, ni ta cadence pour dire des mots d'amour. (Mas... perdoe-me! Eu não tenho sua classe e nem sua cadência para dizer palavras de amor.)
“Gente, que mulher é essa?” -- Diva, mais que nunca, sentia-se poderosa
--Nihongo ga hanasemasu ka? (Você fala japonês?)
--O que? -- perguntou surpreendida -- Que língua é essa?
--Gomen nasai. (Perdoe-me.) -- pediu polidamente -- É japonês. -- deu uma garfada
--Você fala inglês, alemão, francês e japonês, meu Deus! -- exclamou abobalhada -- Acho que meus olhos nunca viram uma pessoa tão culta! Confesso que fiquei boba com você!
--Agmal a’ouyoun filkone Ana shouftaha. (Os mais lindos olhos que eu já vi neste universo.) -- piscou
--O que? -- sorriu
--Eu disse que você tem os mais lindos olhos que eu já vi neste universo. -- pausou -- Em árabe.
“Gente, essa mulher é a enciclopédia Barsa!” -- pensou boquiaberta
--Mas você também é uma poliglota! -- elogiou -- Como toda grande artista que se preze. -- piscou para ela -- Aliás, parabéns pelo prêmio! Você estava espetacular naquela cerimônia!
--Hum, você viu? -- perguntou vaidosa -- Será que sabe tudo sobre mim, Letícia Avelar? -- finalizou a torta -- “Gente, encontrei a mulher da minha vida!” -- pensou animada -- "Poderosa, inteligente, culta e o melhor de tudo: minha fã!”
“Tua vida tá toda no Facebook! Aí é mole!” -- pensou -- Nem tudo! -- bebeu um gole de chá -- Mas adoraria saber! -- caprichou no charme
--Imagino que, sendo minha fã, você já tenha me pesquisado bastante na internet. -- limpou os lábios no guardanapo -- Já entrou no meu Orkut ou visitou meu Face?
--Já, mas... -- limpou os lábios também -- Eu faria qualquer coisa pra entrar no seu Orkut... -- olhou fixamente nos olhos da outra -- e pesquisar tudo com muita calma... -- falava cheia de malícia
--Como pesquisadora creio que seja especialista em fazer análises minuciosas. -- respondeu de modo insinuante
--Com toda certeza! -- afirmou enfaticamente -- Minha visita ficaria marcada na sua página com várias estrelinhas!
--Será? -- provocou
--Paga pra ver?
***
Letícia e Diva entraram no quarto da professora aos beijos. Conforme seguiam para a cama, suas peças de roupas eram arremessadas pelo ar.
--Gostosa! -- imprensou a coreógrafa contra a parede enquanto mordia e beijava os seios dela
--Ah!! -- sentiu a penetração dos dedos da parceira -- Que animal! -- segurou a outra pelos cabelos
--Hora de... tirar... essa... calcinha! -- falou enquanto mordia, beijava e lambia o abdômen da outra em sua exploração ansiosa -- Isso! -- puxou a lingerie para baixo e se ajoelhou
--Oh, my God!! -- sentiu a boca de Letícia devorando seu sex* -- Ah!!!!!!!!!! -- gem*u alto
A física foi se levantando devagar, fazendo um caminho sinuoso de beijos, ch*pões e mordidas no corpo da bailarina. Suas mãos não tinham destino certo.
--Será que... -- mordeu um mamilo da coreógrafa -- estaria disposta a... -- mordeu-lhe o queixo -- experimentar um... -- colou o corpo no dela e começou a se esfregar -- brinquedinho? -- mordeu-lhe a orelha
--Oh, yes, yes, yes!!! -- respondeu excitada
“Eita, que mulher empolgada!” -- pensou com entusiasmo -- Um minuto! -- correu até o armário
“Gente, essa mulher é um vulcão!” -- Diva estava louca -- Não demore muito! -- pediu cheia de lascívia -- Eu tô em brasa!
--Agora! -- voltava com o acessório preso ao corpo -- Onde nós estávamos? -- perguntou com um sorriso safado
Diva aproximou-se da física e levantou uma perna bem no alto. Sua panturrilha encostou no ombro da professora.
“Ô, meu Pai, que abertura de pernas!” -- pensou extasiada e puxou-a pela cintura com força. Em meio a uma avalanche de beijos ardentes, novamente imprensou-a contra a parede e penetrou com força
--Ai, assim, assim!! -- arranhava as costas de Letícia -- Mais forte, mais forte!! -- pedia quase aos berros -- Fuck me!!! Oh, yes, fuck me!!! Oh!!!!!!!!
--Ah!!! -- a professora gem*u enquanto acelerava e alternava os movimentos
Sem que esperasse, Diva levantou a outra perna da mesma forma que havia feito antes. Isso deixou Letícia ainda mais excitada, fazendo com que seus movimentos ficassem alucinados.
As duas beijavam-se com fúria e permitiam-se toda sorte de carícias e toques que podiam experimentar. Em pouco tempo chegaram ao orgasmo.
--AHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!! -- a coreógrafa berrou como louca -- Quero mais, mais!!
“Eita, que encontrei a mulher da minha vida!” -- Letícia pensava sentindo-se nas nuvens
***
--Hoje, dia 27 de junho de 2011, segunda-feira, está acontecendo aqui em Brasília o primeiro casamento civil entre duas mulheres no país!! -- a repórter apresentava empolgadamente olhando para a câmera -- A juíza goiana recém transferida de São Paulo, Tamires Queiroz, já chegou no Distrito Federal promovendo mudanças e, nesse momento, converte a união estável homoafetiva entre a deputada federal Juliana Okinawa Mitsui e a delegada de polícia Suzana Mello em CA-SA-MEN-TO. -- pronunciou a última palavra com destaque -- Vivendo juntas há quase 7 anos, a partir de agora o casal fará jus a todos os direitos legais garantidos pela nova lei de união estável homoafetiva, reconhecida pela Justiça no dia 06 de maio deste ano, após votação ocorrida no Supremo Tribunal Federal. -- sorriu -- Com certeza pode-se dizer que o dia de hoje vai ficar na memória de todos os ativistas e militantes homossexuais do Brasil!
Pouco tempo depois, as recém casadas apareciam de mãos dadas e sorridentes. Vinham seguidas por Olga, Tatiana, Renan e Henrique. Os repórteres correram para abordá-las.
--Deputada, deputada, por favor! Uma palavrinha! -- um rapaz pedia
--Deputada Juliana, como a senhora se sente? -- uma jovem perguntava
--É um dia de glória para o movimento LGBT, deputada?
--Delegada Suzana o que a senhora tem a dizer? -- o assédio era intenso
--Ju, -- a morena cochichou no ouvido da esposa -- fala com eles aí que eu não quero, não! Deus sabe o esforço que eu fazia pra dar entrevista quando tava na ativa! -- revirou os olhos
--Hum, meu nenenzinho! -- beijou o rosto da outra
--Deputada! Deputada! Deputada!! -- os repórteres clamavam ansiosos
--Calma, meu povo! Calma! Não criemos pânico! -- Juliana dizia sorridente -- O que eu posso dizer? -- sorria -- Estamos muitíssimo felizes e daqui pra frente vários outros casais homossexuais entenderão o que sentimos nesse momento! -- olhava para as câmeras -- A nova lei de união estável homoafetiva regulamenta a comunhão de bens e garante o direito à pensão e à herança, além de tornar possível o processo de adoção! -- destacou este ponto -- Sem dúvida, após tantos anos de luta, sinto como se hoje fosse o dia da entrega dos troféus!
--Ela já gosta, né, dona Olga? -- Henrique perguntou achando graça
--Juliana é muito doida! -- Olga ria
--E a senhora e sua esposa vão lutar por esse direito, deputada? -- uma mulher perguntava -- O direito de adotar uma criança?
--Ah, mas com toda certeza!!! -- respondeu enfática e gesticulando -- Anote aí no seu caderninho virtual que a gente não vai descansar enquanto não tiver adotado uma criança!
--E quanto à oposição? -- uma moça provocou -- Está havendo um protesto contra seu casamento em frente a Esplanada dos Ministérios!
--E que protestem! -- gesticulou com raça -- Isso aqui é uma democracia, eles têm o direito de protestar! -- olhou para a câmera em frente a si -- E nós temos o direito de casar! Tá na lei! -- deu um soco na mão
--Juliana parece que se diverte dando entrevista, né, não? -- Renan cochichou para a esposa
--Eu me divirto de assistir, viu, fi? -- riu
--E a festa, deputada? -- um homem perguntou brincando -- Vai ter ou não vai ter?
--Ih, meu filho, nem te conto! -- sorria -- Sábado é o dia!
--E a senhora delegada? -- um rapaz abordou Suzana -- Que acha de tudo isso?
--Tenho dito! -- a morena se limitou a dizer isso com cara de má
***
Era sábado e a casa de festa estava cheia. Da família de japonesa todos estavam presentes. Olga, Mariano, Ricardinho, Ricardo, Seyyed, Isabela, Ana, Anselmo, Odete, Mariângela, Camille, Fátima, Jurema, Ivone, Tatiana, Renan, Tamires, Flávia, Brito, Celso, Clara, Aline, Pedro, Lady, Priscilinha, Jaqueline, Débora, Selma, Ruy, Macumba, Jailson, Lemos e Coimbra também faziam parte do grupo que comemorava o casamento de Juliana e Suzana. Amigos do centro espírita, colegas do Silva Avelar, do PCons, da militância homossexual e do Sede de Sangue igualmente marcavam presença.
--Mas que festança, hein, comadre? -- Ed deu um tapinha no ombro da delegada -- Fala sério, viu? -- sorria -- Teu casamento virou evento em Brasília e agora tá bombando no Rio de Janeiro! Não é mole, não!
--Nem me fale! -- estava feliz e nervosa -- Nem acredito que agora minha Juliana e eu somos oficialmente casadas! -- sorriu
--Mas deixa eu te falar que um dos pontos altos desse casamento foi minha irmã aqui, -- abraçou Tamires pelos ombros -- que teve a coragem de fazer acontecer!
--Se recém chegada já tá mandando ver desse jeito faz idéia o que vem por aí! -- a bailarina brincou
--Eu não batalhei por anos a fio pra chegar a juíza e ficar no conforto não, fi! -- respondeu sorridente -- Serei a pedra no sapato de muitos! -- olhou para a delegada -- Mas com gente boa a conversa é outra!
--E pra gente não poderia haver honra maior do que ter nosso casamento oficializado por você! -- a morena respondeu agradecida -- Foi de verdade uma honra!
--A honra foi minha! -- fez uma reverência
--Mas e os nomes? -- Isa perguntou curiosa -- Vocês mudaram os nomes?
--Eu mudei! Agora sou Suzana Mello Mitsui. -- sorriu toda prosa -- Ficou bonito, né?
--Ai, que fofa! -- a mecânica falou com voz afetada e deu outro tapa no ombro da amiga
--Fofa? Que fofa? -- protestou -- Aqui não tem fofura nenhuma! -- fez cara feia
--Não provoca a delegada que depois você num dá conta, não, Ed! -- Renan imitava o jeito da esposa falar -- Fica na tua aí que essa festa tem duas autoridades! É delegada, é juíza e mais uma repórter pra contar a história...
--Gente, por favor... -- mostrou a mão com dedos a menos -- pega leve! Respeita a condição!
--Ed! -- a bailarina deu um tapa na morena -- Pára com essa brincadeira! -- ralhou
--Não maltrata... -- fez beicinho
--Juliana esse teu casamento abalou os alicerces da sociedade brasileira! -- Selma exclamou sorridente -- Agora vocês têm que adotar logo umas criancinhas e a gente vai trabalhar tua imagem como mulher de família! -- falava empolgada -- Tem que pensar na próxima campanha!
--E recomendo que adotem criancinhas negras pra conquistar o eleitorado afro descendente! -- Ruy opinou
--Mas será possível que vocês só pensam em eleição? Cruzes! -- cruzou os braços contrariada -- Nem no dia do meu casamento eu tenho um refresco, que diabo!
--Ô, Isa... -- Lady abordou a bailarina -- Assim... Festa boa essa, né? -- prestava atenção no ambiente -- Lugarzinho bonitinho, viu?
--Pois é... -- olhava para a engenheira -- "Aposto que ela tá doida pra saber de Priscila!” -- pensava achando graça
--Sabe...? -- passou a mão nos cabelos -- Priscilinha queria saber por que Priscila não veio nesse casamento...
--Priscilinha queria saber...? -- reparou que a menina brincava empolgadamente com Celso, Clara e Ricardinho -- Sei... -- achou graça -- Diga a sua filha que a mãe de Priscila passou mal ontem e por isso nossa amiga teve que ficar cuidando dela. -- sorriu -- Foi por isso que não veio, Lady!
--Ah, tá. -- fingiu que não se importava -- "Gente, será que minha ex futura sogra tá muito mal?” -- pensou preocupada
--Ricardo? -- Mariano chamou
--What? -- olhou espantado para o pai -- O que foi?
--Ao invés de ficar aí parado secando Lady por que não vai falar com ela? -- incentivou -- Você podia abordá-la pra puxar uma conversa descontraída. Se quer voltar pra ela precisa manter o canal aberto. -- aconselhou -- E o mais importante, precisa mudar de vida e evoluir! -- olhava para o filho
--Ô, pai, by the way, falando nisso de mudar de vida... -- aproximou-se do contador e falou mais baixo -- Pelo que vejo dona Olga tem a maior intimidade com a deputada aí! Até celebrou a parte religiosa do casamento dela!
--Juliana é como se fosse filha dela também. -- respondeu desconfiado -- Mas aonde você pretende chegar?
--Pede pra ela falar com a japonesa pra me arrumar uma vaguinha de assessor lá em Brasília? -- cochichava -- Vi no jornal que tem uns aí que ganham benzão pra fazer quase nada! -- sorriu -- Aposto que se eu me der bem, Lady vai querer voltar! She will, that’s for sure!
Mariano balançou a cabeça contrariado, revirou os olhos e saiu de perto do filho sem nada responder.
--Ué, foi alguma coisa que eu disse? -- Ricardo perguntou para si mesmo
--Lady, teu ex enviado não pára de te devorar com os olhos! -- Jaqueline falou
--Tô nem aí! -- deu de ombros -- Ricardo é cem por cento kaô e eu me enchi de ser noiva de Pinóquio! Hora de mudar de personagem! -- cruzou os braços resoluta -- Vê lá se eu tenho cara de Gepeta!
--E quanto a Priscila? Agora que terminaste com aquela bomba, tu não vais conversar com ela? -- perguntou curiosa
--Jaque, vou te contar! Você é tri alcoviteira, viu? -- fez cara feia -- Pára de me confundir, eu hein, cruzes! -- olhou para a outra revoltada -- Eu virei lésbica por culpa tua, sabia? -- acusou
--Minha culpa??? -- perguntou chocada
--Se você não tivesse me contado que sou lésbica, eu tava até hoje sem saber! -- respondeu enfática -- Não seria uma bidivorciada que tanto sofre! -- saiu de perto
A gaúcha ficou rindo sozinha.
--Pôxa, mas agora eu fiquei pensando... -- Macumbra reclamava -- Todo mundo aqui é casado, menos eu...
--Claro! Só quer saber de viver em motoclube cheio de macho! -- Brito endireitou a gola da camisa -- Vai casar como?
--Nada a ver! A chefe andava no motoclube tanto quanto eu! -- retrucou
--Não seja por isso! -- Coimbra respondeu brincalhão -- Aquele anão ali não tira os olhos de você! -- apontou discretamente para Ruy
Macumba olhou desconfiado e viu que Ruy deu uma piscadinha. Jailson e Lemos acharam graça.
--Eu mereço... -- revirou os olhos
--Dona Olga disse coisas tão bonitas! -- Fátima exclamou sorridente -- Foi uma cerimônia muito emocionante! Daria tudo pra ter visto!
Camille olhou para a nadadora com pena. “A cegueira é uma das provas mais duras que existem!” -- pensou -- Você fez melhor: sentiu! Muitos podem ver e nada sentem. -- pausou brevemente -- Você é uma das pessoas mais intensas que eu já conheci. Os olhos tornaram-se desnecessários...
--Nossa, pequena! -- ficou toda prosa -- Depois dessa, ganhei o dia!
--Mas é verdade! Quisera eu merecer tudo isso... -- olhava carinhosamente para a outra -- Sabe, Fátima? Eu estive pensando e constatei que você sempre me aceitou, não importava o jeito como eu fosse. Você me chamou à realidade, me disse o que eu precisava ouvir, mas sempre me aceitou!
--Que bom que sente assim!
--Não sabe o quanto eu gostaria de... -- não teve coragem de falar
--De me amar? -- arriscou -- Não se preocupe, querida... Amar não é função da vontade.
--Mas eu tô conseguindo! -- segurou uma das mãos dela -- Eu tô tirando Seyyed do coração! -- sorriu
--E se o lugar dela for justamente o seu coração? -- perguntou com delicadeza
--Não é! -- afirmou convicta -- Eu não quero que seja!
--Querida, agora que a lei enxerga a realidade, -- Ana perguntava -- por que você e Seyyed não se casam? -- bebeu um gole de vinho -- Podiam aproveitar o embalo e ser o segundo casal lésbico do país! Aí você aproveita convida Ana Fluminense, Marcília Rafaela, o Presidente, a Primeira Dama e essa alta roda que te conhece e admira tanto!
Isabela riu. -- Ai, mãe, você não muda... -- balançou a cabeça achando graça
--Ué, minha filha, você tá esperando o que pra agarrar essa mulher de uma vez por todas? -- não entendia -- Seyyed é a pessoa certa pra você! E hoje em dia nós estamos tão bem! -- indicou Anselmo -- Veja só seu pai! -- olhou para ele -- Olha ele lá conversando com Seyyed e o irmão na maior farra!
A bailarina virou-se para olhar e ficou prestando atenção na morena que fazia Renan e Anselmo rirem com as coisas que dizia.
--A gente deveria casar mesmo... -- passou a mão nos cabelos -- Mas eu preciso pensar melhor...
--Pensar no que?! -- perguntou espantada -- Não ouse sair daqui pra França deixando essa mulher solta! -- olhou para Camille -- Eu não confio naquela garotinha sonsa!
--E assinar um documento impede que um relacionamento termine? -- balançou a cabeça negativamente -- Mãe, você sabe muito bem que não é um papel que segura um casamento!
--Não segura, mas dificulta que se termine e as pessoas pensam duas vezes antes de dar um basta! Ninguém gosta de encarar um processo de divórcio, a verdade é essa, meu bem! -- afirmava enfaticamente
A ruiva suspirou e nada respondeu.
Priscilinha passou correndo perto de Anselmo e ele a abraçou e levantou no colo. Beijou a bochecha da menina, brincou um pouco e a colocou no chão. A menina se despediu e voltou para perto das outras crianças.
--Já reparou como seu pai adorou aquela menininha? -- apontou para a filha de Lady -- Nunca vi Anselmo fazer graça com criança dos outros e até estranhei!
--É mesmo. -- Isa respondeu achando a situação curiosa -- Papai simpatizou de verdade com Priscilinha!
--Hum, eu já vi tudo: ele quer ser avô! -- Ana concluiu -- Trate de casar com Seyyed e adotar uma criança! -- aconselhou -- Aí você dá ocupação praquela mulher e faz seu pai feliz! Eu é que ainda não sei se tenho preparo pra ser vó! -- revirou os olhos
--Adotar criança, mãe? -- olhou para Ana -- E cuidar dela com que tempo? -- cruzou os braços -- Como? Em setembro eu já viajo!
--Ah... -- pausou brevemente -- Casa logo nesse mês e vai pesquisando isso de adoção. Aí, dando tudo certo, de repente... eu tomo conta enquanto vocês não puderem... -- enrolava um cacho de cabelo nos dedos -- Adote uma garotinha e eu farei dela uma princesinha igual fiz com você, que foi muito da bem criada, diga-se de passagem. Sou especialista em formar estrelas Dalvas! -- mirou um ponto no infinito
--Sabe? -- achava graça -- Eu acho que não é bem papai que tá querendo neto...
--Débora! -- Juliana abordou a ex colega de trabalho -- Fico feliz que tenha vindo! -- sorria
--Você teve a consideração de me convidar, então eu vim! -- sorriu também
--E a vida, como vai? -- olhava para a outra -- Como estão as coisas no Silva Avelar?
--A vida vai indo e no hospital é aquela correria de sempre! Além da eterna falta de recursos e mais a rotina que você conhece bem. Às vezes melhora um pouco e em outras piora muito.
--Saúde, educação e segurança: eis os pontos mais difíceis de se promover melhorias! E quando se consegue aprovar algum projeto de lei e a verba é destinada pra aplicar naquilo que realmente interessa, parece que algo acontece que o dinheiro some no meio do caminho e não chega onde deveria!
--Mas até que você tem lutado muito pra fazer alguma coisa. -- Débora confessou -- Não à toa se tornou uma deputada conhecida e polêmica! -- riu brevemente
--É muito difícil, Débora! São muitos interesses em jogo e as coisas não acontecem como a gente gostaria que acontecessem! -- desabafou -- Até hoje, pra você ter uma idéia, continuo na batalha, junto com outros tantos, pra que todos aqueles que foram envolvidos no esquema das drogas recebam a punição que merecem.
--Pois é! E o crack tá se estabelecendo com força total! -- afirmou preocupada -- Sua amiga repórter denunciou um monte de coisas naquela época, mas nesse meio tempo surgiram outras!
--E o problema das práticas de magia negra? -- lembrou -- Cadê que alguém fala mais alguma coisa? Depois do tumulto do primeiro momento a mídia deixou o assunto morrer!
--E enquanto isso, tome de reality show! -- revirou os olhos
--Pão e circo pro povo... -- balançou a cabeça indignada
--Tem muita coisa pra mudar nesse país, né, Juliana? -- passou a mão nos cabelos -- Hoje eu entendo porque você não me deu um cargo especial quando te pedi...
--Eu não dei cargos especiais a quem quer que fosse, Débora. Suzana cuida de minha segurança mas ela não é remunerada por isso, nunca foi. -- pausou e sorriu maliciosa olhando para a delegada -- Pelo menos não com dinheiro... -- suspirou e voltou a olhar para a colega
--Pode deixar, eu entendo. -- afirmou compreensiva -- Se a gente quer que o país melhore e mude, tem que fazer a lição de casa e dar o exemplo também!
--Fico feliz que tenha entendido e que não tenha ficado ressentida comigo! -- sorriu
--Sem ressentimentos! -- abriu os braços querendo abraço
--Ai, que bom! -- abraçaram-se animadas
--Mas, em todo caso... -- Débora falou enquanto ainda estavam abraçadas -- se pintar uma bocada interessante, lembra de mim!
“Mas que diabo!” -- a japonesa pensou revirando os olhos
***
Suzana e Juliana estavam em Fernando de Noronha aproveitando os dias de recesso para curtir uma nova lua de mel. Passeavam de mãos dadas pelas areias da praia do Boldró.
--Amor, que delícia de lugar, hein? -- a japonesa exclamou -- Eu tô adorando essa ilha! -- mirou o sol que se despedia lentamente no horizonte -- É cada pôr de sol mais maravilhoso que o outro!
--Tudo aqui é muito lindo, né? -- respondeu sorridente -- O lugar é caro pra danar, mas vale cada centavo! -- beijou o rosto da esposa -- Especialmente quando se está muitíssimo bem acompanhada! -- sorriu
--Hum... -- sorriu também e abraçou o braço da amante -- Eu tô amando essa nova lua de mel, sabia? -- beijou o ombro da morena -- Pena que depois de amanhã a gente já vai embora...
--Sinal de que a gente deve aproveitar o tempo com sabedoria. -- a delegada respondeu fingindo seriedade -- Curtimos um dia inteiro de praia e agora é hora de voltar pra pousada!
--E pra onde nós vamos esta noite? Praquele forrozinho lá do Bar do Cachorro ou pra Feitiço da Vila? -- olhava para Suzana
--Eu tenho outros planos pra você... -- lançou um olhar misterioso para a japonesa -- E eles não incluem nada que esteja fora do quarto!
--Sua nhambiquara safada... -- respondeu sorridente e pensando nas possibilidades
***
Juliana e Suzana estavam sentadas na cama, uma de frente para a outra. A japonesa enlaçava a cintura da amante com as pernas.
--Na minha tribo, -- olhavam-se nos olhos -- quando as pessoas se casavam, elas seguiam um ritual que simbolizava amor e fidelidade eternos. -- explicava -- Esse ritual se encerrava com uma fase que só o casal presenciava e que se chamava de o encontro de almas. -- segurou as mãos da enfermeira -- Eu nunca soube como era isso porque não me casei lá, mas queria fazer um encontro de almas com você; da nossa maneira!
--Ai, meu nenenzinho... -- sorriu apaixonada -- Eu adoro esse seu lado romântico... E sim, eu quero ter esse encontro de almas com você!
A delegada gastou uns segundos calada até que começou a falar com muito sentimento: -- “É fácil amar os que estão longe. Mas nem sempre é fácil amar os que vivem do nosso lado.”46 -- pausou brevemente -- Isso porque a intimidade remove as máscaras e os disfarces, apresentando o que vai na alma de cada pessoa; nem sempre é fácil conviver com a bagagem que os outros carregam. -- respirou fundo -- Sei que minha bagagem é pesada, sei que tenho milhões de defeitos, mas queria que você soubesse que, desde o começo, você foi e é o remédio pra minha alma sofrida. -- segurou o rosto da japonesa -- Você é a estrela guia que Deus enviou pra que brilhasse em meio à solidão que tomou conta de mim por tantos anos... Eu te amo, Ju!
--Ai, meu nenenzinho fofo, que coisa linda! -- beijou-a repetidas vezes e a abraçou forte -- Eu te amo muito, muito, muito! -- sussurrou no ouvido da morena -- E peço perdão por tê-la feito sofrer. Não sabe o quanto me arrependo! -- beijou-a -- Você também é o grande amor da minha vida e a coisa mais bonita que me aconteceu até hoje! -- beijou-a novamente -- Faz amor comigo bem devagar e me deixa sentir cada palavra que me disse; -- pediu -- de corpo e alma! -- olhava nos olhos da amante
A delegada acariciou o rosto da japonesa e deixou que suas mãos percorressem lentamente o corpo da mulher que amava com todas as forças. Beijaram-se com ternura e o beijo foi crescendo gradativamente em meio a um mundo de carícias que pareciam capazes de se fazer sentir muito além do corpo físico. As almas se encontravam e se refugiavam uma na outra com amor, carinho, cumplicidade e paixão.
Suzana e Juliana cada vez mais conheciam o amor que permanece presente em laços que se estendem além dessa vida. Muito mais que sex* com o corpo físico, elas praticavam o amor na mais sublime das formas
Fim do capítulo
Músicas do Capítulo:
Diálogo de Lady e Ricardo:
Dom de Iludir. Intérprete: Gal Costa. Compositor: Caetano Veloso
[a] Volta Pra Ela. Intérpretes: Eliana de Lima ft Raça Negra. Compositores: Antonio Carlos De Carvalho / Luiz Carlos Raça Negra / Waldir Luz. In: Eliana de Lima. Intérpretes: Eliana de Lima ft Raça Negra. Elektra Records, 1994. 1 CD, faixa 3 (3min53)
Comentar este capítulo:
PaudaFome
Em: 13/05/2024
Você é uma cultíssima divertida romântica que história linda! Mas não quero ver Isa deixando Seyyed Lady e Priscila também têm que ficar juntas. Camille quer acordar? Fátima é tudo. Letícia e Diva duas metidas tudo a ver kkk
Solitudine
Em: 20/05/2024
Autora da história
Obrigada, querida!!!
Vamos ver o que vai acontecer com Seyyed e Isabela. O triângulo, porque temos Camille, mobilizou as meninas na época.
E Lady e Priscila? Vamos ver também.
Letícia e Diva nasceram uma para a outra! kkk
Beijos,
Sol
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Bora pros quinhentinhos!
Solitudine
Em: 10/04/2024
Autora da história
Estou achando inacreditável que Samira realmente fez escola! kkkk
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Samirao
Em: 01/04/2024
Habibem quer vir responder os comments?
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Estou aqui, uai!
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Samirao
Em: 07/10/2023
A Samira de Maya não tá correspondendo huahuahua
Solitudine
Em: 11/11/2023
Autora da história
kkkkkkkkkkkkkk
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Femines666
Em: 14/03/2023
A gente fica sem palavras! Até você é a namorada se metem na história! Adoro! Kkkkkk
Minha tensão é apenas com Seyyed e Isa. Como a Camille não vê que a cega da história é ela?
Resposta do autor:
kkkk A caipira é abusada, não?
Vamos ver se ao final sua tensão vai passar!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 13/11/2022
Amoreee olha Maya recebendo mais coments!!! Nunca vou esquecer que no abcles esse conto recebeu simplesmente 2000 coments!!!!
Resposta do autor:
Olá querida!
E você fica doidinha, né?
Sim, eu me lembro desses 2000 comentários. Mas, como te digo sempre: desapega que é passado.
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 16/09/2022
Feliz e muito por Sue Ju! Adorei o casamento. Mas saber que Letícia agora caiu de amores pela Divalina me deixa no pó. Tu tá abrindo os caminhos pra eu ficar com a loura. Até gosto mas prefiro a ruiva autora snif, snif
Pelo menos Lady vai se livrar daquele encosto que além de tudo é ladrão! Hehe
Resposta do autor:
Suzana e Juliana plantaram e agora colhem os frutos. Aliás, já vinham colhendo há muito. Houve apenas uma interrupção quando a enfermeira deputada temporariamente se perdeu.
Eu não estou abrindo os caminhos mas a vida. rs
Lady demorou a ver mas agora ela se conscientizou que Ricardo não é a pessoa.
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 16/09/2022
Tô igual minha avatar nessa série e sofrendo de véspera. Todo mundo se acertando, ficando feliz e minha ruiva pronta pra zarpar. Feliz que pelo menos ela deu um chega pra lá na Divalina! Hahaha Priscila vai embora...tô que nem Lady me despirocando hahaha
Resposta do autor:
kkkkkkkkkkkkkkk
Então vamos ver no que tudo isso vai dar?
Beijos,
Sol
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Atrevida
Em: 29/04/2022
Que história foda!!!!!! Essa Letícia é uma pegadora safada mas eu gosto. Muito foda também. Ela pegar a Diva eu não esperava mas até que combinou. Muito comédia o encontro tu é porra louca. Tem pouca preta aqui mas as que tem representa
Resposta do autor:
kkkkkkkkk
Você gostou do casal Letícia e Diva e até se divertiu? Sinceramente, na época, eu também! rs
Que bom que você gostou das minhas meninas!
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 26/04/2020
Olá Sol!!
Essa conversa de Ed com a Isa foi tensa, porém, necessária, pois a mecânica sempre soube dos planos e desejos da bailarina e apesar de sempre incentivá-la, Isa priorizou seu casamento e deixou meio que de lado seus sonhos.
Quanto à Isa ela tem razão em dizer que o coração de Ed não pertence a só ela, Camille mesmo que de forma involuntária se faz presente no relacionamento das duas.
Que elas sempre se amaram não há dúvidas, massssss talvez em algum momento algo se perdeu.
Realmente não exista família perfeita, Juliana que o diga.
E lá vem os verdes e os azuis...
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk... Lady lendo a carta toda emotiva e me solta essa pérola: “Nossa, que coisa interativa! A carta conversa comigo!! “ Como não amar essa coisinha ? “ Gente, nunca na minha vida eu conversei com uma carta! Só Priscila mesmo pra fazer um troço desses! Será que tem aquele botão ‘curti’? “ Kkkkkkkkkkkkkkk.... Fico rindo igual uma besta, a Ju não entende nada!!!
Até para terminar um namoro a Lady se supera!!
Leticia e Diva quando se encontram precisam de dois ambientes, um pra elas e outro para o ego de cada uma.
Casamento dos sonhos da Suzana e da Julia.
Beijos
Resposta do autor:
Gabinha!!!
Isa mudou muito sua visão e seus objetivos ao longo dos anos. Ela focou não no casamento, eu diria, mas na vida ao lado das pessoas que Deus colocou a seu lado. E Seyyyed foi vivendo enquanto era assim. Mas surgindo uma oportunidade de ouro na carreira da ruiva, as inseguranças em função da atitude da própria Seyyed fizeram Isa tomar uma decisão "radical". A conversa era mais que necessária, por muito ter sido adiada.
Lady tem seu jeito de fazer tudo; até ler uma carta. Priscila, ciente disso, soube escrever antecipando as reações! kkk
"Leticia e Diva quando se encontram precisam de dois ambientes, um pra elas e outro para o ego de cada uma".kkkkkkkkk Mas sejamos justas: a coreógrafa é sem igual.
A fase das dúvidas e inseguranças para Suzana e Juliana finalmente chega ao final. Irina e a sedução do poder foram um bom aprendizado; para ambas.
Beijos,
Sol
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Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
Hum... você vai ver. rs
Beijos,
Sol