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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

Ver comentários: 11

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Palavras: 20160
Acessos: 11172   |  Postado em: 13/04/2020

Sexta Temporada - FELICIDADE VI

 

 

Enquanto Isabela e Seyyed finalizavam os trâmites burocráticos junto à recepção, Ana olhava-se no espelho e sentia-se uma velha acabada. Terminava de se arrumar pensando no tempo em que fora mantida naquela clínica, totalmente entregue a uma loucura que parecia consumi-la dia após dia.

 

“Meu Deus... E pensar que eu vim pra cá em 2006... Quanto tempo perdido...” -- pensava -- "Olha como estou! Nem de longe me pareço com aquela de outrora...” -- lamentava

 

Ao caminhar para a saída, acompanhada por um enfermeiro solícito, pensava em tudo que a levou até ali e conscientizou-se que sacrificou muita coisa em vão.

 

“Minha vida era boa... Eu não precisava ter corrido tanto atrás de mais. Já tinha o suficiente...” -- rememorava os fatos -- "Meu orgulho idiota em não querer me separar, minha inconformação com a situação financeira da gente, o desejo doentio pra que Isa se tornasse uma estrela de renome... Tudo bobagem...” -- sentia vontade de chorar -- "Incentivei Anselmo a se envolver na contravenção e desprezei as pessoas que realmente me amavam... Como pude?”

 

A luz que podia ver no final do corredor comprido, no entanto, mostrava-se lhe como um sinal de esperança.

 

“Mas haverá esperança pra mim? O que ainda me resta?” -- questionava-se -- "Será que Isa ainda me ama? Não teria vindo me visitar apenas por desencargo de consciência? E mamãe? Será que não me considera um caso perdido? Anselmo... Não, nosso casamento acabou faz tempo...” -- suspirou

 

--Sua filha está finalizando a parte burocrática da sua alta, dona Ana. -- o enfermeiro explicou -- Se quiser aguardá-la no jardim... -- sorriu -- Seria mais agradável, não?

 

Ana agradeceu e seguiu a recomendação do homem. Foi para o jardim frontal da clínica e ficou admirando as roseiras. “Vovó tinha roseiras assim...” -- lembrou. Pensando naquela senhora, também lembrou-se de algo que ela dizia: -- "Nunca acendas um fogo que não possas apagar."36 -- balançou a cabeça -- "Eu acendi e me queimei inteira!” -- pensava com tristeza

 

--Mamãe? -- ouviu a voz da ruiva e virou-se para trás

 

Isabela, Odete, Anselmo e Seyyed estavam parados ali, nitidamente felizes em vê-la. Imediatamente Ana começou a chorar; não esperava que eles fossem buscá-la.

 

Isa lançou-se nos braços da mãe, mal controlando a emoção que se manifestava em lágrimas de felicidade. Nenhuma das duas conseguia dizer coisa alguma.

 

Odete, igualmente emocionada, se juntou àquele abraço com o coração repleto de alegria e júbilo pela vitória conquistada. Sua filha estava de volta, nada mais lhe era necessário.

 

--Por que não vai se juntar a elas? -- Ed perguntou a Anselmo

 

--Eu não sei se... -- estava chorando -- Não sei se Ana gostaria... -- respondeu receoso

 

--Vai lá! -- incentivou -- Só tá faltando você! -- sorriu emocionada

 

Anselmo se aproximou das mulheres e elas abriram espaço para que ele abraçasse a esposa, que chorava copiosamente.

 

--Por favor, Ana, me perdoe! -- ele pediu aos prantos -- Sei que fui um canalha! Me perdoe, por favor!

 

A mulher nada respondeu de imediato, tentou se recompor e quando se sentiu mais calma, saiu do abraço dos familiares e falou para todos: -- Acho que eu, de minha parte, tenho mil motivos pra pedir perdão. A todos vocês! -- passou as costas das mãos nos olhos -- Não imaginava que ainda iriam querer saber de mim...

 

--Nós lutamos por você em todos os dias desse tempo que passou! -- a bailarina afirmou secando as lágrimas

 

--Todos os dias! -- Odete concordava -- E posso dizer que essa menina, -- abraçou a neta -- sua companheira -- olhou rapidamente para Ed -- e a família dela lutaram muito por vocês dois; -- olhava para Ana e Anselmo -- pra manter essa família unida!

 

--É verdade, Ana! -- o homem passou um lenço nos olhos -- E muita coisa mudou! -- sorriu -- Eu ganhei condicional e ganhei emprego honesto! -- olhou para a mecânica -- Trabalho com ela!

 

Ana ficou surpresa. -- Meu Deus, então... você se recuperou? -- perguntou para a morena

 

--Digamos que tive muita ajuda! -- respondeu sorridente

 

--Vamos embora! -- a ruiva segurou a mão da mãe -- É hora de voltar a vida normal! -- sorria -- Há um mundo lá fora lhe esperando!

 

--Querida, será... -- olhou para Ed e depois para a filha -- que eu poderia falar com Seyyed por alguns instantes em particular?

 

--Mamãe, vamos embora! -- Isa pediu com carinho -- Ed vem com a gente, pode conversar com ela em casa!

 

--Por favor, Isa! -- insistiu -- Tem que ser agora!

 

--Vamos para o carro! -- Anselmo propôs -- Esperamos por elas no estacionamento. -- Odete e a ruiva concordaram e seguiram com o homem para lá

 

--E então, o que quer me dizer? -- Seyyed perguntou sorrindo -- Bem vinda! -- não sabia o que falar

 

--Eu tenho uma coisa pra te confessar... -- começou a falar com receio -- O que vou te contar... Eu não sabia antes, mas os espíritos malditos que me infernizaram a vida me jogaram isso na cara por tantas vezes que não há como esquecer... -- pausou -- Aliás, foram muitas as coisas que eles me disseram...

 

A morena ficou calada esperando. Seu olhar não fazia acusações, dando segurança à outra mulher para que continuasse.

 

--Eu pedi muitas coisas a Àjé, uma feiticeira com quem tive a infelicidade de me envolver... E ela... -- abaixou a cabeça -- ela me enganava e na verdade me preparava pra que eu fosse sacrificada... Isso nem me ocorria naquela época! -- pausou -- Ela queria me convencer a fazer um sacrifício de sangue e fez tudo de um jeito que... Era pra eu ficar desesperada, sabe? E no final a vítima seria eu! -- olhou para Ed -- Àjé arrumou alguns homens que não gostavam de você e... -- não tinha coragem de completar a frase

 

--E um deles plantou as bombas na minha oficina. Bombas que ela mesma forneceu. -- a morena concluiu a frase inacabada -- Eu sei disso! Rubens, que é o único deles que ainda vive, me procurou e contou tudo. Ele me falou que Àjé deu uma boa soma em dinheiro aos três por conta desse... ‘serviço!’ -- fez aspas com os dedos -- Eu só não tinha entendido o porque, pelo menos não até agora. Quando perguntei no centro os guias espirituais me disseram que a verdade seria revelada no momento certo. -- pausou -- Agora entendo que a bruxa imaginou que Isa recusaria as propostas que recebeu naquela época, por conta da minha falência, e isso te faria aceitar o tal sacrifício. -- concluiu

 

--E... -- olhava para a morena com espanto -- Você sabe disso e... veio me ver? -- perguntou confusa

 

--Eu não denunciei Rubens à polícia, mas ele se entregou há poucos dias e será julgado. -- pôs as mãos nos bolsos -- Pra mim essa história já morreu! Acabou! -- olhava firmemente para Ana

 

--E quanto a mim? -- perguntou receosa e envergonhada -- Você... o que pretende fazer?

 

--Essa história já acabou! -- repetiu enfática -- Rubens pensa que Àjé fez o que fez à mando de algum dos traficantes rivais do bando de Luizinho Beira Rio. Ele acha que foi uma espécie retaliação por causa de Anselmo. -- explicou -- A polícia pensa da mesma forma. História capenga mas é a que vai colar! Aqueles que podiam esclarecer estão mortos mesmo... Sobramos só nós duas! -- pausou -- Fica sendo o nosso segredo.

 

--Você... -- não conseguia entender como a mecânica reagia tão tranquilamente àquilo tudo -- Mas...

 

--Teria coragem de ordenar que fizessem aquilo na minha oficina? -- perguntou à queima roupa

 

--Mas é claro que não!! -- afirmou enfática -- Eu até pedi várias vezes a Àjé que te desse sucesso e dinheiro! Eu achava que seria bom pra minha filha! -- falou a verdade

 

--Então, como eu disse, fica sendo o nosso segredo. Nem minha mãe sabe, nem Isa! Vai morrer comigo! -- prometeu -- Vocês agora são uma família de fato; eu jamais faria coisa alguma pra perturbar isso!

 

--Meu Deus! -- estava estupefata -- Não existe alguém como você! -- novamente sentia vontade de chorar -- Não me admira que minha filha tenha preferido ficar do seu lado! E também não me admira que tenha conseguido se reerguer e estar aí tão bem! -- pausou -- Pessoas como você fazem a gente pensar que milagres acontecem...

 

--Estamos nos despedindo dessa clínica e ainda passa na sua cabeça a idéia de que eles não acontecem? -- perguntou sorrindo -- "Há duas formas para viver a sua vida: uma é acreditar que não existe milagre. A outra é acreditar que todas as coisas são um milagre.”37 Qual delas vai adotar daqui pra frente?

 

Ana lançou-se agradecida nos braços de Seyyed e mais uma vez chorou de emoção. Pela primeira vez em todos aqueles anos aprendia finalmente a ver aquela mulher pelo que ela era e não pelo que possuía.

 

“Trava amizade com a bondade das pessoas, não com seus bens."38

 

***

 

Camille estava em casa vendo TV enquanto Mariângela costurava na máquina. De repente, uma reportagem chamou sua atenção.

 

--Oito jovens foram feridos por estilhaços de uma bomba de fabricação caseira que explodiu por volta das 11:00h deste sábado, no pátio desta escola, -- a repórter apontava para o colégio -- aqui em São Paulo. A onda de choque gerada pela explosão foi tão violenta que derrubou uma parede e quebrou várias vidraças, atingindo outros seis estudantes, que sofreram cortes pelo corpo. -- mostrava imagens da estrutura destruída -- Todos os feridos foram atendidos pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, sendo que cinco jovens foram internados na Policlínica São Sebastião.

 

--Ô louco! E quem foi que fez essa desgraça? -- a loura perguntou com revolta

 

--Os responsáveis pela explosão foram denunciados pelos próprios colegas de colégio. -- a repórter continuava -- Os gêmeos Caroline e Michael Trevisani Ramos, de dezesseis anos, foram encaminhados pelo Conselho Tutelar para a Polícia Civil e o caso foi registrado na delegacia vizinha da escola onde o incidente aconteceu.

 

--Mãe, corre aqui, vem ver!! -- Camille gritou com os olhos arregalados

 

--O que, menina? -- interrompeu a costura assustada

 

--Caroline e Michael explodiram uma bomba no colégio e barbarizaram geral! Vem ver!! -- falava em estado de choque

 

--Mas minha Virgem Santíssima! -- Mariângela veio correndo

 

--Na casa dos dois jovens foram encontradas mais dez bombas do mesmo tipo da que foi acionada no colégio. -- a repórter dizia -- A Vara de Infância e Juventude vai discutir a questão e a Secretaria de Educação afirmou que será realizada uma reunião na próxima segunda-feira com os pais, a direção e a assessoria jurídica do colégio para definir o que será feito.

 

--Mais dez bombas?! -- a costureira estava pasma

 

--Eu sempre disse que aqueles dois eram futuros psicopatas e ninguém me dava crédito! -- a engenheira lembrava -- Lady fala que meu primo é o enviado mas ela não sabe de nada! Os enviados são esses dois: a garota de O Chamado e o brinquedo assassino! São próprios embaixadores do Bicho Ruim!

 

--Cruzes, menina! -- benzeu-se apavorada

 

--Isso tudo é muito injusto! -- Ligia chorava na televisão -- Eles são jovens inteligentes, gostam de ciência, de pesquisa... O que meus filhos querem é fazer experimentos com as coisas que gostam de estudar! -- justificava -- A culpa é do colégio que não provê um lugar adequado pro jovem se expressar!

 

--Que cara de pau, meu! -- a loura jovem reclamava -- Deixa estar, Lígia, daqui a dois anos eles vão se expressar lá no Carandiru!

 

Mariângela achou graça.

 

--Meu filhos são jovens do bem! -- Mateus protestava -- Eles são é super ativos e os colégios não têm preparo pra lidar com esse tipo de jovem especial!

 

--Ah, é, super ativos! Pouca vergonha mudou de nome agora! Eles são é super possuídos, isso sim! É uma verdadeira legião de capetas que domina essas almas perdidas de Caroline e Michael! -- protestava -- Nunca vou esquecer que roubaram minha perna! E nem que fizeram cocô na minha cama! -- deu um soco no braço da poltrona -- Ah, mas eu não esqueço!

 

--Meu Deus, em pensar que eles vinham aqui pra passar tanto tempo e eu aturava tudo calada em nome da família... -- Mariângela lembrava-se apavorada

 

--Os dois jovens já haviam sido expulsos de três escolas por tentativa de incêndio, agressão aos professores e consumo de bebidas alcoólicas. -- a repórter denunciava -- Alguns jovens, que não quiseram ser identificados, afirmaram que os gêmeos vêm criando problemas no colégio desde que começaram a freqüentá-lo.

 

A reportagem encerrou com a imagem dos dois irmãos cobrindo os rostos enquanto entravam no camburão da polícia.

 

--Que vexame, viu? Ô louco! -- a engenheira reclamava -- E pensar que ainda temos um sobrenome em comum, que droga! -- deu outro soco no braço da poltrona -- O nome Trevisani caiu na esparrela e agora tá por aí, nas bocas das Matildes por causa dessa dupla infernal! -- resmungava

 

--O que será que vai ser daqueles dois, hein? -- Mariângela sentou-se do lado da filha e falava preocupada -- Mas tinha que terminar mal mesmo! Eles faziam tudo que não prestava e os pais nunca tomaram providência. Não vê agora, que eles tentam defender o indefensável? -- balançava a cabeça negativamente

 

--Mãe, eu sempre disse que Mateus e Ligia só não davam o rabo, o pinto ou a periquita pros filhos brincarem porque ficava chato! -- gesticulava -- Eles achavam que faziam o bem e davam amor deixando que os dois fizessem o que quisessem e agora deu no que deu: Caroline e Michael ficaram de uma tal forma que se alguém acender uma vela aos pés deles, faz um pacto maligno!

 

--Cruzes, menina! -- deu um tapinha na coxa dela mas acabou rindo

 

--Ricardo disse que eles o roubaram quando passou a noite lá no covil daquela família louca, então vai juntando aí: ladrões, brigões, abusados, cachaceiros e fazedores de bomba! Resumindo: psicopatas!

 

--Eu vou pedir a Deus e a Virgem pra orientar esses jovens porque o futuro deles é triste! -- a costureira falou pensativa

 

--Até eu vou fazer isso! Lucas sozinho já deu um trabalho danado, imagine uma dupla dessas! -- a campanhia tocou e a loura levantou-se para ver quem seria -- Quem será?

 

--Eu não espero visitas! -- ainda estava em choque por causa dos gêmeos

 

Camille olhou pela janela e viu que era Ricardo. -- É o primo! -- constatou desconfiada e foi abrir a porta

 

Ricardo entrou e cumprimentou as duas. Mariângela ofereceu um lanche mas ele educadamente recusou. Gastaram um tempo conversando sobre amenidades mas a engenheira desconfiava que o primo tramava alguma.

 

--Camille, just wondering... -- olhou para ela -- lá na tua empresa não tem vaga pra auxiliar, não?

 

“Just wondering, pois sim! Eu sabia que ele queria alguma coisa! Quando ele chega com essa cara de cão pidão não dá outra!” -- pensou -- Lá existem muitas vagas, Ricardo, mas tem que fazer o concurso e passar! -- respondeu naturalmente

 

“Concurso? No way!” -- pensou revoltado -- Ah, mas tem as empresas contratadas! -- retrucou -- Nesse caso não precisa de concurso!

 

--Nesse caso é levar o currículo pra alguma dessas empresas e aguardar o contato. -- continuava respondendo sem muitas delongas

 

--E será que... maybe... -- falava cheio de jeito -- você não me indicaria pra alguma delas? Afinal de contas você é quase uma gerenta e o pessoal acataria sua palavra...

 

“Bem que estranhei essa visita!” -- Mariângela pensava -- "Ele veio aqui pra pedir indicação de Camille!”

 

--Eu não sou quase gerenta e também não tenho condições de fazer nada por você, Ricardo! Perdoe a franqueza, mas você não tem formação alguma e as empresas todas exigem segundo grau técnico ou nível superior!

 

--Oh, come on, sempre tem quem não atenda a esses requisitos e arranja emprego! Uma indicaçãozinha vale tudo! -- sorria malandramente

 

--Eu não dou indicaçõezinhas e não peço favores a essas empresas! -- respondeu chateada -- Eu marco em cima delas pra que trabalhem direito e se ficar devendo favor, com que cara vou poder exigir qualidade dos caras?

 

“Oh, gosh, mas será possível que nessa família é todo mundo metido a santo?” -- Ricardo pensou contrariado -- Pô, é que eu tô precisando de uma força... Flávia não me chama pra fazer mais nada e a graninha da academia tá fazendo falta...

 

--Ah, mas por que será que ela não te chama, hein, Ricardo? -- Mariângela perguntou chateada -- Eu estava lá e testemunhei seu papelão! Rachou minha cara no meio! -- fez cara feia -- E você ainda devia dar graças a Deus porque ela não te processou ou chamou a polícia por causa da palhaçada que você fez ao sair!

 

--Eu tava nervoso, tia... Very pissed off! Fiz o que fiz sem pensar... -- voltou com a expressão de maior abandonado

 

--O seu mal é esse: faz tudo sem pensar e aí se dana! -- a costureira se levantou contrariada -- Vou terminar minhas costuras! -- foi para a máquina

 

--Mas... -- olhou para Camille -- será que você não podia me dar uma força, prima?

 

--Eu já disse que não pretendo ficar devendo favor a empresa nenhuma! -- retrucou

 

--OK, I got it, mas... -- pausou -- Você não podia me emprestar um dinheiro...? É que Lady banca tudo e fica muito chato... Ainda não recebi o pagamento lá da oficina...

 

--Ricardo, me perdoe mas não empresto dinheiro nem pra São Expedito! -- respondeu enfática -- Sinto muito! -- cruzou os braços de cara feia

 

“Shit, é melhor eu ir embora porque daqui não vai sair é nada!” -- pensou com revolta -- Tudo bem, prima, all right! -- levantou-se -- É melhor eu ir que vocês devem estar a fim de curtir o sábado em paz.

 

--Cuide da vida, homem! -- Camille foi até a porta para abri-la -- Por que não volta a estudar? Tem uma pá de curso interessante por aí. Se você tiver a fim de investir numa formação técnica eu te dou uma força. -- ofereceu -- Aí com uma profissão de verdade fica viável arrumar um emprego que pague melhor e tire você dessa eterna paúra!

 

--No way, já tô velho pra estudar! -- fez um bico e foi para o quintal

 

A loura seguia atrás dele para abrir o portão.

 

--E não tá velho pra ficar pedindo dinheiro emprestado pra um e pra outro, meu?

 

--Ah, Camille, give me a break! Você é toda metidinha porque tem esse empreguinho de merd* e fica jogando na minha cara a minha condição! -- respondeu desaforado

 

--Acontece que pra ter esse empreguinho de merd* eu estudei muito e ralei pra caramba! Ralei e ralo! Não sou igual a você que é um tremendo malandro que vive às custas da namorada! -- abriu o portão revoltada -- Dinheiro fácil e pistolão pra arrumar emprego mole você quer, mas se esforçar pra conseguir alguma coisa nem pensar, né? Vai embora daqui! -- enxotou o primo

 

--Fuck you!! -- saiu revoltado e de cara feia

 

--Fuck you too, you idiot! -- respondeu em voz alta e fechou o portão -- Vai pedir dinheiro pra tuas negas, bicho malandro! -- voltou para dentro de casa -- Vê lá se eu vou ficar sustentando marmanjo! -- entrou resmungando -- Tio Mariano que é teu pai não faz isso, não sou eu que vou fazer! -- fechou a porta

 

--Que foi, Camille? -- Mari interrompeu a costura e perguntou de cara feia -- Não me diga que seu primo veio engrossar com você lá fora?

 

--Ah, ele deu um pití aí na porta mas eu o coloquei pra correr! -- sentou-se novamente -- Eu, hein, vagabundo! Vê lá se eu vou ficar sustentando macho? É ruim, meu! -- reclamava

 

--Esse menino tá muito abusado, mas deixa ele comigo! -- voltou a costurar -- "Da próxima vez eu coloco minhas luvas de boxe e se ele vier de abuso, meto-lhe meu cruzado animal e vai ser só pena que voa! Vem mexer com quem tá quieta, pra ver no que dá?” -- pensou revoltada -- "Mariano que me perdoe, mas Ricardo vai à nocaute!”

 

***

 

Priscila estava em casa escrevendo sua tese de doutorado. Faltavam ainda mais três capítulos, porém ela sabia que até dezembro estaria com tudo pronto, incluindo a versão do texto em francês.

 

Priscilinha brincava com massa de modelar, sentadinha no carpete do quarto da dentista.

 

--Olha, tia Pi! -- mostrou uma boneca que havia feito

 

--Ih, mas que lindo! -- sorriu -- Vem cá, pra eu ver de perto? -- girou a cadeira para ficar de frente para a menina

 

--Ó! -- levantou-se e foi mostrar

 

--Senta aqui no meu colo, sua gotosa! -- colocou a criança no colo e beijou a cabeça dela -- Nossa, mas que boneca linda que ela fez! -- beijou-a de novo

 

--Gostou? -- perguntou sorrindo

 

--Claro! É linda! -- segurou a boneca -- Ih, meu Deus, quebrei o bracinho dela! -- fingiu tristeza -- Vamos curar ela? -- colocou o braço de volta e sorriu

 

--É sua! -- afirmou toda prosa

 

--Ih, mas que presente lindo que eu ganhei! Deixa eu colocar ela aqui na minha mesa! -- colocou a boneca perto dos livros

 

--Tia Pi, você já fez a tarefa de casa toda? -- referia-se a tese da morena

 

--Ah! -- riu brevemente -- Não toda, porque minha tarefa é muuuuuito grande, mas tô indo bem nela. Por que?

 

--Pra gente conversar! -- sorriu

 

--Conversar? -- achou graça -- E sobre o que a minha pequenininha quer conversar?

 

--Por que você não é mais marida da mamãe? -- perguntou curiosa e preocupada

 

“Ô, meu Deus, olha o que Lady me inventa!” -- pensou constrangida -- Ah... Onde ouviu isso? -- não sabia o que dizer e ganhava tempo

 

--Mamãe que falou! -- respondeu olhando para a morena -- Mamãe falou pro tio Ricado que você era marida dela e não é mais!

 

“Lady tem titica na cabeça!!” -- pensou revoltada -- "Não bastasse falar tanta besteira, ainda fala na frente da filha!!” -- suspirou -- É porque agora o melhor amigo da mamãe é o tio Ricardo. Foi isso que ela quis dizer! -- explicou

 

--Minha melhor amiga é a Rayane! Ela é minha marida também? -- estava curiosa

 

--Não!! -- respondeu apavorada e olhou para a menina com espanto -- Não. -- repetiu de um jeito mais calmo -- Na verdade, só a mamãe diz isso de marida. É uma brincadeira dela, sabe? -- mentiu -- Não diga isso pros outros porque as pessoas não entendem. Essa palavra, marida, nem existe! É brincadeira da mamãe!

 

--Por que você não é mais a melhor amiga da mamãe? -- estava decepcionada

 

--É que tio Ricardo é mais que eu, porque é amigo e namorado dela, entendeu?

 

--Eu não quero morar com ele! Quero morar com mamãe e você! -- afirmou enfática

 

--Mas a tia Pi vai embora pra casa no ano que vem, meu amorzinho. -- explicava com delicadeza -- Não vou mais morar com você e sua mãe depois disso! -- olhava para Priscilinha -- Minha casa é em outro lugar, não é aqui!

 

--Eu não quero morar com tio Ricado! -- pulou do colo dela -- Você é chata e boba! Não gosto mais de você! -- saiu da quarto chorosa

 

--Priscilinha!! -- chamou e a garota não respondeu -- Priscilinha! -- foi procurar pela menina e a encontrou chorando deitada na cama da mãe -- Ah, meu amor, não chora!! -- ficou triste -- Chora não, meu benzinho! -- sentou-se na cama ao lado dela

 

--Você não gosta mais de mim! -- chorava

 

--Não gosto?? Eu amo você, minha linda!! -- passava a mão na cabeça dela -- Você é como se fosse minha filha! Nem diga uma coisa dessas! -- tinha vontade de chorar -- Eu amo muito, muito, muito você... -- pausou -- e sua mamãe...

 

--Mentira! Você vai abandonar eu! Eu e mamãe! -- protestou

 

A dentista ficou arrasada ao ouvir aquilo. -- Eu não vou abandonar você nunca! -- segurou-a e a colocou no colo -- Chora não que eu explico tudo! Você é inteligente e vai entender! -- beijou o rosto dela -- Tia Pi ama você e te ver chorando dói muito! -- abraçou-a -- Chora não!

 

--Você vai abandonar eu e mamãe... -- repetiu magoada -- Você prometeu que não ia embora...

 

--Não é isso... Olha só, a tia Pi veio morar no Rio pra estudar e se formar em dentista. Quando eu terminar de estudar, depois de um tempinho vou ter que voltar pra casa e isso vai ser no ano que vem. -- explicava com delicadeza -- Mas eu vou visitar vocês sempre que puder! -- prometeu

 

--Mentira! Você vai esquecer da gente...

 

--Eu nunca vou esquecer de vocês, meu amor... -- beijou-a no rosto -- Nunca!

 

Nesse momento Lady chega em casa e chama pela filha.

 

--Estamos aqui, Lady! -- Priscila respondeu

 

--Cadê a minha lindinha? -- apareceu sorridente na porta do quarto mas mudou a expressão quando percebeu que a filha chorou -- O que foi? -- correu até elas e se ajoelhou na beirada da cama -- Por que minha fofinha tá chorando?

 

--Porque a tia Pi vai embora! -- olhou para a mãe -- E eu não quero morar com tio Ricado! -- cruzou os braços

 

A engenheira ficou sem graça e olhou para a dentista sem saber o que dizer.

 

--Eu já expliquei a ela que preciso voltar pra casa. Ela é muito inteligente e entendeu. Depois a tristeza passa, até porque sempre vou visitá-la! -- acariciava a cabeça da menina

 

--Mãe, vamos pra casa da tia Pi? -- pediu -- Só você e eu, sem tio Ricado?

 

--Não pode, meu bem! -- respondeu constrangida -- A casa da tia Pi é dela, da família dela. A gente vai comprar a nossa e vai morar com tio Ricardo lá. -- explicava sorridente -- Ele é legal, é bonzinho pra você e não demora muito os dois serão muito amigos!

 

--Eu não gosto do tio Ricado! Não gosto! -- protestou -- Faz tia Pi ser sua marida de novo e deixa ele! -- ordenou

 

A dentista morreu de vergonha ao ouvir isso.

 

“Ai, filha, bem que eu queria mas Priscila é uma marida tão complicada...” -- a engenheira pensou -- Meu bem, não é assim tão fácil... -- olhou rapidamente para a dentista -- E é diferente porque o tio é namorado da mamãe! -- sorriu constrangida

 

Priscilinha fez um bico e nada respondeu.

 

--Vamos dar uma voltinha lá fora! -- a morena sugeriu e se levantou com a pequena no colo -- Aí a gente vai conversando, brincando e a tristeza passa! -- tentava engabelar a garota

 

“Gente, eu sabia que isso ia acontecer...” -- Lady sentou-se na cama preocupada -- "Priscilinha percebeu o bidivórcio e começa a se revoltar com a situação! Ai, meu Pai, como é que eu resolvo esse problema?” -- pensava angustiada -- "E se essa menina ficar viciada em drogas??” -- arregalou os olhos

 

***

 

Jaqueline chegou em casa animada e nem percebeu que Lady estava tristonha e pensativa sentada no sofá da sala.

 

--Lady, guria, mas que dia maravilhoso! -- sorria feliz -- O projeto de reciclagem de eletrônicos vai de vento em popa! -- sentou-se do lado da outra -- Já arrecadamos mais de cem máquinas e separamos as que ainda podem servir às pessoas que não têm recursos. Aquilo que não tem mais jeito vai ser desmontado! Algumas peças deixaremos guardadas, pra fazer futuras manutenções, e outras serão enviadas pra reciclagem! -- passou a mão nos cabelos -- Consegui que dois técnicos em informática se candidatassem como voluntários pra trabalhar com a gente!

 

--Que bom! -- tentava se empolgar com a animação da outra -- Você trabalhou tanto pra levar a efeito essa idéia de reciclagem de e-lixo e inclusão digital que em algum momento tinha que acontecer e dar muito certo. -- sorriu sem muita graça -- E quanto ao livro? Como foi a tarde de autógrafos? -- brincou

 

--Mas, bá, essa foi a outra maravilha do meu dia! -- olhava para Lady -- Pensei que apareceriam meia dúzia de gatos pingados na exposição mas o salão ficou tri lotado! Um monte de escaladores deu força na divulgação do livro e eu acho que de repente até dá pra vender uns bons volumes, viu? -- sorria -- Acredita que até a Marcília Rafaela apareceu lá? Ela disse que ficou muito abalada com a morte de Sabrina e queria ler meu livro pra entender o que aconteceu naquela expedição! Outra que também passou por lá foi Tatiana e, no finalzinho do dia, Isabela apareceu com Seyyed.

 

--Eu gostaria muito de ter ido, mas não faz muito tempo que cheguei em casa. Meu dia foi muito pesado, não teria ânimo de me deslocar... -- lamentou

 

--Mas, bá... -- reparou melhor na outra -- Eu aqui tagarelando sem me dar conta de que tu não estás nada animada... O que foi, guria? Tudo isso é cansaço? -- estava preocupada

 

--Ai, amiga, você não sabe! -- olhou agoniada para a gaúcha -- Cheguei em casa e Priscilinha chorava porque Priscila vai voltar pra Piraí no ano que vem. -- contou -- Ela me pediu pra fazer de Priscila minha marida de novo, vê se pode? Só quer saber de morar com a gente e nada de Ricardo!

 

--A menina disse isso?? -- perguntou em choque -- Ela usou esse termo de marida? -- não conseguia acreditar

 

--Pois é, amiga, nem sei da onde ela ouviu essa palavra! -- afirmou com espanto -- Mas a frase foi exatamente assim: “-- Faz tia Pi ser sua marida de novo e deixa ele!”

 

--Não sabe da onde ela ouviu essa palavra? -- riu e balançou a cabeça -- Lady, não é tudo que se pode falar na frente dos piás! -- ralhou

 

--Mas eu não falo! Priscilinha é que é muito esperta e já percebeu tudo! -- respondeu convicta -- Meu medo agora é que ela se deixe dominar pela revolta, entre pra alguma gangue e fique viciada em drogas! -- segurou o braço de Jaqueline -- Ai, amiga, é muita preocupação no meu peito de mãe!!

 

--Entrar em gangue e se viciar em drogas aos quatro anos? -- perguntou incrédula e se levantou do sofá -- Lady, tu és tri louca!! -- olhou para a engenheira e pôs as mãos na cintura

 

--Ué, você tá pensando? O que tem de criança de quatro anos envolvida em gangues e assaltos a mão armada não tá no gibi! -- gesticulava

 

--Capaz! E onde acontece isso que ninguém sabe? -- perguntou achando graça -- Não é essa a questão! O ponto é que a menina adora Priscila porque está acostumada com ela! Além do mais as duas são bastante parecidas, nunca vi coisa igual! O mesmo estilo, a mesma pose, a mesma decisão... Bá, é impressionante! -- falava -- A piazinha sofre por antecipação porque vai sentir saudades da dentista!

 

--Não só ela... -- suspirou e se abraçou com o travesseiro -- Priscila e Priscilinha são duas damas de ferro... Xena e mulherzinha maravilha, minhas duas heroínas preferidas!

 

--Tu vais fazer a maior burrada de tua vida! -- ajoelhou-se diante da outra -- Vais casar com aquele Ricardo simplesmente por causa de uma coisa que uma cigana te disse há tanto tempo! -- segurou as mãos da amiga -- Lady, o destino não é uma linha traçada de caráter imutável! A vida é dinâmica, as coisas estão em constante mudança! Tu amas Priscila, não tem sentido casar com aquele homem problemático simplesmente pra fugir do sentimento que nutres por ela e atender a uma profecia de cigana!

 

--E o que quer que eu faça? -- levantou-se de cara feia -- Que eu viva correndo atrás de Priscila? -- cruzou os braços olhando para a amiga -- Ela me trata como se eu fosse uma barata! Só não me mata com o chinelo porque não pode!

 

Levantou-se também. -- Não te humilhes atrás dela mas tenha ao menos uma conversa final com tua marida! -- argumentou -- E mesmo que não dê certo, fique solteira por uns tempos mas não te cases com Ricardo! Ele não é homem pra ti!

 

--Vocês falam de Ricardo de um jeito que parece até que ele é um traste! -- reclamou

 

--Lady, mas será possível que só tu não vês o tipo de pessoa que ele é? -- segurou a outra pelos ombros -- Ricardo não é pior que os outros homens, não é o que quero dizer, mas ele não quer nada com a vida! Tu trabalhas, dá um duro danado e ele só sabe reclamar e ficar fazendo biscates aqui e ali!

 

--Não é fácil pra ele arrumar emprego! No Brasil há muito preconceito com as pessoas de mais de quarenta anos que procuram uma oportunidade! -- desvencilhou-se da gaúcha

 

--Ele por acaso se interessou em estudar e ter uma profissão?? -- perguntou desafiadora -- Você sabe que ele só voltou pro Brasil porque não se agüentou mais nos Estados Unidos! Sabe que ele veio com interesse nas coisas do pai e quebrou a cara! Sabe que enganou a amiga da prima pra poder ficar na casa dela e encontrar a família. O que ele teria feito se a mentira não tivesse sido desmascarada?

 

Lady não soube o que responder.

 

--Eu cheguei a conversar com Isa sobre ele e fiquei sabendo que Ricardo fez o maior escândalo na academia da fisioterapeuta. Por acaso teu namorado te contou sobre isso? -- cruzou os braços

 

--Escândalo?! -- perguntou surpresa -- Será por isso que ele nunca mais trabalhou lá? -- perguntou-se intrigada

 

--Claro, né? E ele ainda foi na casa da prima pra pedir dinheiro! Ela não deu, mas ofereceu ajuda pra ele estudar. Pergunta se ele quis?

 

--De fato, ele disse que teve uma discussão chata com Camille, que ela era metida... -- lembrava

 

--Metida, nada! Ela não é boba! -- suspirou -- Ricardo vai deitar nas tuas costas e isso nunca vai mudar porque ele não quer mudar! -- alertou -- E só pra completar, tua piazinha não gosta dele!

 

--E não gosta mesmo... -- suspirou

 

--Pense bem, Lady! -- foi para o quarto -- Antes só do que mal acompanhada, já diz o ditado! -- falou mais alto

 

--Ai, meu Pai... -- passou a mão nos cabelos -- E eu que já fiz trinta anos e continuo aqui mais solteira do que nunca! Nem solteira; bidivorciada! -- suspirou e se encostou na parede -- Que fazer? -- falava consigo mesma -- Tentar um recasamento com Priscila? Casar com Ricardo? Ficar alone in the dark? -- esfregou-se na parede -- Oh, meu Pai, ajudai-me, guiai-me, orientai-me... -- pôs a mão no peito -- Que sina bandida, meu Pai! De um lado, o desprezo da mulher amada e do outro um pretendente odiado por todos! O que fazer? Como tomar a decisão mais sábia pra essa vida de mulher? Eu tenho que ponderar bastante porque a coisa é cabeluda! Que decisão complicada... -- pensou -- Acho que vou pegar uma moeda e fazer um cara e coroa...

 

 

16:40h. 05 de setembro de 2010, Barra Shopping, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro

 

Samira e Letícia encontraram-se por acaso no shopping.

 

--Oi, Samira! -- sorriu e deu beijos de comadre na outra -- Que surpresa! Não te via desde a tua festinha de casamento! -- olhava para a morena -- E aí, como vai a vida? Deu um jeito naquela maluca lá? -- brincou

 

--Minha vida tá maravilhosa! E minha caipirinha eu coloquei nos eixos! -- sorria também -- E você, como vai? Namorando e trabalhando muito? -- piscou

 

--Trabalhando muito sim, namorando muito não. -- pausou -- Tô dando um tempo... Afinal de contas, tô com quatro ponto dois, né? Tenho que pegar mais leve!

 

--Você tinha era que casar também! -- aconselhou -- Mas claro, com a pessoa certa!

 

--Ah, mas não é fácil achar a pessoa certa. E quando eu pensei que tivesse achado, acabei dando mole... -- lembrou de Camille -- Mas, enfim! -- quis mudar de assunto -- O que você faz aqui sozinha no shopping?

 

--Eu queria comprar um presente pra minha behebbik e já fui em tudo que é livraria atrás do tal livro que ela quer mas não acho! -- mostrou um papel para Letícia -- Vê se você conhece esse livro!

 

Leu o nome. -- Conhecer eu não conheço, mas você não vai encontrar esse tipo de livro em livrarias comuns! -- olhou para a amiga -- Deixa esse papel comigo que eu resolvo isso pra você! Amanhã eu compro lá na faculdade. Duvido que não ache! -- ofereceu

 

--Ai, obrigada! -- agradeceu e entregou-lhe o papel -- Quando comprar você diz quanto foi e eu transfiro o dinheiro pra sua conta.

 

--Pode confiar que não vou te deixar na mão! -- guardou o papel na bolsa -- E aproveitando que nos encontramos, você não gostaria de me ajudar a escolher um novo par de óculos escuros? Perdi os antigos e agora tô aí andando pela rua franzindo a testa!

 

--Vamos sim! -- voltaram a andar -- E eu amo escolher óculos escuros! Aproveito e de repente compro mais um par pra mim!

 

--Nossa! -- riu brevemente -- Espero não desencadear uma briga conjugal por causa disso!

 

--Minha caipirinha nunca se meteu com meus gastos! Assim como não me meto nos gastos dela.

 

--E onde está aquela criatura nesse momento? -- perguntou curiosa ao se aproximar de uma ótica -- Cruzes mas aqui só tem óculos ao preço dos olhos da cara! -- reclamou

 

--Ah, minha filha, você não sabe! -- revirou os olhos -- Tá em casa de molho porque fez besteira! E tá de castigo também! -- viu um modelo interessante -- Esse Armani aqui é lindo, mas por dois e quinhentos não rola! Óculos de ouro, eu, hein! -- reclamou também

 

--Qual foi a besteira que ela fez? -- perguntou achando graça -- Aliás aquela criatura não muda: se não é fazendo estripulia é sempre lendo as coisas mais viagem! -- voltaram a caminhar -- Pelo nome do livro que você me deu, tenho certeza de que trata daquelas teorias matemáticas louquérrimas das quais eu quero distância!

 

--Ah, mas ela adora essas coisas! E também adora aprontar, parece criança, nunca vi! -- passou a mão nos cabelos -- Ontem nós fomos na praia e encontramos com Ivan, um colega dela do grupo espírita. O homem tá tentando praticar kitesurf, sabe qual é? -- olhou rapidamente para a professora

 

--Sei. É aquele esporte da pranchinha e da lona, que eles chamam de pipa.

 

--É isso aí mesmo! -- confirmou -- Pois então, o cara tava lá apanhando do negócio e eu notando que ela tava doida pra tentar. Lá pelas tantas ele ofereceu e ela aceitou. -- balançou a cabeça negativamente -- Foi interessante que ela tava indo até direitinho, sabe? Especialmente pra alguém que nunca tinha tentado. -- suspirou -- Aí foi se empolgando demais, começando a fazer umas manobras de pular igual cabrita n’água e o cara tava louco por conta daquilo tudo! Ficou empolgadão! Nisso, veio uma onda inesperada e o que aconteceu? Ela se desequilibrou e foi jogada em cima de um banco de corais!

 

--Gente! -- olhou para a motociclista com espanto -- E aí?

 

--E aí que ela se recompôs, tirou a pranchinha dos pés e voltou nadando pra beira da praia. Ivan tava mais preocupado com o material dele e nadou pra pegar a pipa! -- fez cara feia -- Fiquei tão nervosa que me deu um negócio e quem disse que eu conseguia nadar pra ir ajudar? -- olhou para a física -- Mas graças a Deus ela conseguiu voltar sozinha sem precisar de socorro.

 

--Mas e aí?? -- perguntou curiosa -- Ela se machucou??

 

--Claro, né? Tá com um talho enorme que vai do joelho até a canela e mais um baita hematoma ao redor desse corte! Quando chegou na beira da praia o sangue escorria em bicas!

 

--Então foi por isso que ela ficou de molho? -- perguntou achando graça

 

--Minha filha, o corte foi feio, tá? Fomos pro hospital e tudo! -- aproximaram-se de outra ótica -- Aqui, Letícia! -- apontou para alguns modelos

 

--Eu não gosto de Guggi! -- fez cara feia -- Mas deixa eu ver o resto! -- prestava atenção na vitrine -- Bem, o que estranhei dessa história toda é que pensei que alguém tivesse dito que colocou a caipira nos eixos! -- riu

 

--Ela não trabalha tão absurdamente quanto antes, foi o que quis dizer. Mas nunca vai deixar de ser doida! -- acabou rindo -- Tadinha... Ela se machuca, sente dor e não demonstra; fica quietinha... -- olhava para os óculos à venda -- Apesar de tudo, me parece que até hoje ela é extremamente presa em certos aspectos! Pra demonstrar dor, por exemplo.

 

--Quando a gente era da faculdade ela nem chorava, não importava o que acontecesse... -- lembrou e depois fez um bico -- Vamos continuar circulando porque os preços aqui nessa loja também estão lastimáveis. É pra matar! -- afastaram-se da loja -- Coisa absurda, quase três mil reais em um óculos!

 

--Pensando bem, eu também nunca a vi chorar... -- Samira pensou surpreendida

 

--Outra coisa que já percebi é que me parece que às vezes ela é mais sua filha do que sua mulher! -- riu brevemente

 

--É verdade! -- sorriu -- Ela me dá segurança, é uma pessoa super decidida, independente, mas em alguns momentos não passa de uma menina querendo carinho. -- pausou -- Embora me deixe louca por causa de certas coisas, eu amo aquela criança grande! -- reconsiderava suas decisões -- Vou tirá-la do castigo e dar um colinho pra ela quando chegar em casa! -- decidiu

 

-- Sabe? Nunca pensei que a história de vocês fosse dar em coisa séria. Ainda mais que você não tava nem aí pra mulher alguma!

 

--Foi diferente com ela! De repente eu me vi totalmente apaixonada e... -- suspirou e olhou para Letícia -- Agora me diz você! Qual o tipo de mulher com quem gostaria de viver um grande amor?

 

--Ah... -- sorriu -- Uma mulher independente, forte, decidida, intensa... cabeça feita, sabe? Bem dona de si, bem metidona, entende? -- pensava -- E que não tivesse pudor algum na cama! Do tipo flexível, sempre disposta a experimentar posições diferentes e outras novidades!

 

--Mais velha, mais nova? -- perguntou curiosa

 

--De repente, mais velha. Sérgio Reis não dizia que panela velha é que faz comida boa? -- riu

 

--Você vai encontrar! É só se dar a chance de realmente conhecer a outra pessoa! E deixar de galinhar, é lógico! -- riu

 

--Será? -- duvidava -- Se for tão difícil quanto achar um óculos escuros eu tô ferrada!

 

***

 

Irina estava escondida com uma criança em um dos parques do Rio de Janeiro. Era noite e ela preparava tudo para uma cerimônia do mal. Já havia sedado a pobre pequenina, que dormia alheia ao que se passava, e arrumava as velas e demais aparatos para começar o ritual.

 

--Juliana vai voltar a se interessar por mim! -- falava para si mesma -- E quando estiver no papo, caidinha de amores, eu farei dela meu oitavo e último sacrifício pro poder supremo! -- atentava para os detalhes -- Vou fazer parecer um suicídio por conta do término do relacionamento com aquela delegadazinha ridícula! -- sorria -- E ela vai acabar perdendo as eleições por causa daquela nota maliciosa no jornal... todo mundo vai acreditar que tudo contribuiu pra um suicídio!

 

A advogada se concentrou e iniciou a prática de invocação. Após alguns minutos, quando estava finalmente pronta para executar a menina, um estranho clarão a pegou de surpresa.

 

“Mas o que...?” -- seus pensamentos foram interrompidos por uma forte dor no pescoço que a fez se ajoelhar espontaneamente

 

--Irina Meyer em flagrante! -- Suzana falava com raiva enquanto apertava a nuca da outra -- Advogada de dia e de noite uma feiticeira miserável!

 

--Deixa eu pegar essa pobrezinha aqui! -- Tatiana foi até a criança e segurou-a no colo -- Tadinha! -- beijou a cabeça da menina

 

A loura gemia sentindo o ar lhe faltar.

 

--Se você for uma mulher de sorte, nada de mal aconteceu com essa garotinha! -- a delegada rosnou quase no ouvido da outra

 

--Não, ela... -- falava com dificuldade -- está... apenas... sedada... ah!! -- não agüentava de dor

 

--Sorte sua! -- Brito parou diante dela -- Mas ainda assim sua barra tá muito pesada... -- balançava a cabeça

 

A morena empurrou a feiticeira no chão e ela caiu de bruços, aos pés do policial.

 

--Tirei uma belíssima foto da senhora, doutora. -- Tatiana dizia com deboche enquanto continuava com a menina nos braços -- Essa vai pra primeira página de um monte de jornais!

 

Brito esperou a advogada se sentar. -- Irina Meyer, -- anunciou com seriedade -- a senhora está presa por tentativa de assassinato, seqüestro e mais algumas outras acusações que a gente vai elaborando devidamente no caminho! -- endireitou a gola da camisa -- Afinal de contas sabemos que a mente doentia por trás do psicopata místico era ninguém menos que a senhora! -- sorriu

 

--O que?? -- estava confusa -- Mas...

 

--Nem mas, nem meio mas! -- Macumba segurou-a pela braço para que se levantasse e na seqüência a algemou -- Teje presa!

 

--Eu vou pro carro! Essa criança precisa de cuidados! -- Tatiana falou antes de seguir levando a criança adormecida

 

--Acabou, Irina! -- Suzana dizia olhando nos olhos da outra -- Você não vai mais sacrificar aquela menininha, Juliana ou quem quer que seja! Teu sacrifício de agora em diante vai ser se manter lúcida em um manicômio judiciário! -- olhou para o colega -- Leva pro camburão!

 

Macumba seguia levando a mulher pelo braço. Brito e a delegada vinham atrás deles.

 

--O caso Lucas abriu precedentes pra que possamos enquadrá-la como inimputável também. -- Brito explicava para a feiticeira -- Se for transferida pra São Paulo terá um coleguinha pra conversar, pois é lá que ele se encontra! Com certeza sua vida não será monótona! -- debochou

 

--Eu... -- sabia que estava em um beco sem saída -- Como foi que...? -- não conseguia entender aquela situação

 

--Fica na tua, bicha! Pro camburão! -- Macumba repreendeu

 

“Mas isso não pode estar acontecendo!” -- Irina pensava em pânico -- "Eu fiz tudo certo, como posso ter sido surpreendida dessa forma? Por que meus guias me abandonaram desse jeito depois de tantos anos de dedicação?” -- sentia-se traída

 

Quando Brito abriu a porta do veículo, a advogada se deteve e olhou para Suzana. -- Eu só queria entender, eu preciso... como conseguiu me encontrar? -- aguardava ansiosamente pela resposta

 

--Pelo cheiro de carniça! -- respondeu com raiva e empurrou-a para que entrasse no camburão -- Entra, sujeita! -- abaixou-se para olhar no rosto da outra -- À propósito, Lucas e Juliana te mandaram o mesmo recadinho: “-- Toma, papuda!” -- fechou a porta

 

***

 

A notícia da prisão de Irina reacendeu a acalorada discussão em torno do psicopata místico e da prática de rituais de magia negra no Brasil. Novamente havia manifestações e protestos nas ruas e a mãe da menina seqüestrada pela feiticeira liderou um grupo que exigia justiça.

 

A revista Isso Vai! publicou uma reportagem onde Tatiana argumentava que a advogada era a verdadeira mandante dos crimes cometidos por Lucas Damaso. Dias depois uma ex empregada aparece e denuncia a loura por vários outros crimes.

 

No auge do tumulto, Selma e Ruy deram várias entrevistas alegando que as ligações de Juliana com Irina faziam parte de um plano secreto para prendê-la em flagrante. Apesar dos discursos debochados da oposição, a japonesa voltou a liderar o ranking dos candidatos com o maior número de intenções de voto.

 

--Olha, mas a prisão da psicopata loura foi melhor que qualquer propaganda eleitoral pra Juliana! -- Hugo exclamou -- Ouve o que eu tô dizendo, vó! -- olhou para a mulher mais velha -- Ela vai se reeleger com folga depois dessa!

 

--Pois é! -- Soraia respondeu de cara feia olhando para a neta -- E você teve tantos anos de contato com ela aqui nesse prédio e nem pra tentar uma sedução básica! Só vive com essas namoradas horrorosas e problemáticas! Agora a da vez é a beata de São Gonçalo! Pra completar ainda mora longe que só! -- reclamou fazendo um bico

 

--Ah, vó, não fala mal da minha namorada! -- protestou -- E de mais a mais, eu bem que tentei dar uma seduzida naquela japa, mas a delegada tem uma força na mão que nem te conto! Pegou no meu pescoço que eu pensei que fosse esmagar meus ossinhos sem dó nem piedade! -- lembrou -- Deus me livre de encarar aquela mulher!

 

--Humpf! Você tem encarado coisa muito pior faz tempo! -- levantou-se da poltrona -- Mas pelo menos uma coisa eu consegui nessa história toda: permaneço síndica! Meu povo me quer à frente desse prédio! -- gesticulava -- E eu vou aproveitar que Juliana tá em Brasília pra marcar uma reunião e aumentar esse condomínio! Vou fazer uma obra nesse prédio que vai entrar pra história! -- mirou um ponto no infinito -- E no hall de entrada, vou mandar colocar um busto de bronze com a minha cara! -- sorria empolgada -- Quero ver quem vai me deter!

 

***

 

Ana chegava em casa e ficou surpresa ao encontrar a sala adornada por muitas flores.

 

--Gente! -- olhava para tudo com espanto -- Que será isso? Será que morreu alguém?

 

--Olá, querida! -- Anselmo apareceu trajando um terno -- Você chegou na hora certa! -- sorriu

 

--Anselmo?! -- não entendia o que se passava -- O que aconteceu? É dia de comemorar alguma coisa e eu não sei? -- perguntou desconfiada

 

--Sim! -- pegou uma caixa e caminhou até ela -- Vista-se e vamos comemorar juntos! -- colocou a caixa nas mãos da mulher

 

--Mas... o que temos pra comemorar? -- abriu a caixa -- Meu Deus, que vestido lindo! -- exclamou

 

--Foi Isa quem escolheu, não posso negar, mas fui eu que comprei! -- falava sorridente -- Os sapatos estão no quarto, mas estes fui eu quem escolheu!

 

--Mas... -- olhou para ele abobalhada -- O que estamos comemorando, afinal?

 

--O fato de que talvez pela primeira vez em nossas vidas adultas estejamos livres! -- olhava nos olhos da mulher -- O fato de que estamos com saúde, juntos e tudo vai bem. -- sorriu -- Temos motivos de sobra pra comemorar!

 

--É você mesmo? -- não acreditava -- Bateu com a cabeça, fizeram alguma coisa contigo...? -- cobriu a boca com uma das mãos -- Não me diga que seus dias estão contados e você tá cumprindo as metas de uma listinha terminal?

 

Riu brevemente. -- Não é nada disso! É que estamos vivendo juntos nesse apartamento desde que você voltou da clínica e ainda não acertamos nossa vida. -- tocou o rosto dela com delicadeza -- Vamos comemorar e depois resolver tudo de uma vez por todas!

 

--Eu... -- continuava surpresa -- Eu vou me vestir. Me dê alguns minutinhos, por favor. -- pediu e foi para o quarto

 

--Estarei aqui! -- ajeitou a gravata

 

“Gente, mas o que deu em Anselmo?” -- pensava intrigada -- "Será que ficou maluco?”

 

Depois de um tempo relativamente longo, Ana aparece de volta na sala.

 

--Está linda! -- o marido exclamou sorridente

 

--Linda? -- perguntou com descrença -- Mas eu demorei justamente por ter ficado horrorosa! -- falou constrangida -- Tô uma velha seca e feia! Ninguém diz que não cheguei aos sessenta!

 

--O tempo também passou pra mim, querida. -- caminhou até ela -- Também envelheci com o sofrimento e pareço mais velho do que realmente sou, -- parou diante da esposa -- mas nunca me senti tão bem comigo mesmo como hoje. -- tirou um controle remoto do bolso e ligou o aparelho de som -- E nunca estive diante de uma mulher tão bonita quanto agora! -- colocou o controle sobre a poltrona

 

https://www.youtube.com/watch?v=MKCyUe4syc4

Ana reconheceu a música que tocava.

 

--Essa música! -- sorriu emocionada

 

--Era a que tocava quando eu te conheci. Naquela época já era antiga, mas nós gostávamos dela. -- fez uma reverência -- Dança comigo, minha dama?

 

--Claro que sim, cavalheiro! -- aceitou sorridente

 

Começaram a dançar no pequeno espaço livre que sobrava na sala.

 

“Unforgettable,

That's what you are,

Unforgettable,

Though near or far…”


--Mas essa é a gravação que Natalie Cole fez depois. -- Ana comentou -- Não é nossa música original!

 

“Like a song of love that clings to me,
How the thought of you does things to me,
Never before has someone been more…”

 

--A música reflete nossa situação: uma nova versão de um amor antigo... -- sorriu e a curvou rapidamente sobre o próprio corpo

 

“Unforgettable,

In every way,
And forever more,

And forever more,

That's how you'll stay,

That's how you'll stay…”

 

--That's why, darling, it's incredible, -- ele cantava baixinho no ouvido da esposa -- That someone so unforgettable. thinks that I am unforgettable too…

 

Dançavam de rosto colado. Ana fechou os olhos.

 

“No, never before,

Has someone been more…”

 

--Casa comigo? -- Anselmo pediu

 

“Unforgettable,

Unforgettable,

In every way,

In every way…”

 

--Mas nunca deixamos de ser casados! -- não entendia o pedido

 

“And forever more,

And forever more,

That's how you'll stay,

That's how you'll stay…”

 

--Nunca fomos casados! Somente no papel! -- ele respondeu


“That's why, darling, it's incredible,
That someone so unforgettable,
Thinks that I am,

Unforgettable too…”

Unforgettable – Nat King & Natalie Cole [a]

 

Anselmo ajoelhou-se diante de Ana. -- Vamos recomeçar! -- olhava para ela -- Nós nos perdemos logo no começo, nos afastamos e demos espaço pra que coisas pequenas nos dominassem. -- falava com emoção -- Eu fiquei mesquinho, arrogante, indiferente, me envolvi com duas outras mulheres e depois perdi a noção de certo e errado. Você ficou egoísta e só se importava com futilidades. -- segurou a mão esquerda da mulher -- Nós apanhamos muito da vida, amadurecemos e Deus nos permitiu recomeçar, então vamos fazer isso! -- beijou a mão que segurava -- Por favor, me perdoe e case comigo! Deixe-me te mostrar que posso ser o marido que sempre quis ter! -- pedia com humildade

 

--Ai, Anselmo! -- puxou-o pelo paletó para que se levantasse -- Esperei longos anos por esse momento! -- sorria emocionada

 

O homem se levantou nervoso. -- Então é um sim?

 

Ana beijou-o e daí por diante não tiveram mais tempo de falar coisa alguma.

 

***

 

Suzana arrumava a mala para voltar para o Rio. Juliana apareceu na porta do quarto e ficou olhando.

 

--Você não precisa ir... -- falou com delicadeza -- Aliás, queria que ficasse pra sempre...

 

--Poucas coisas são pra sempre, Juliana. -- não olhava para a japonesa -- E nosso casamento não é uma delas!

 

--Eu acreditava que fosse... -- encostou-se no portal

 

--Que coisa! -- olhou para ela -- Eu também! Mas a gente tava errada, né? -- voltou a cuidar da mala

 

--Fica? -- pediu como se fosse criança

 

--Não precisa mais de mim! Está segura, foi reeleita e sua vida vai muito bem! -- fechou a mala

 

--Minha vida não vai bem há muito tempo! -- aproximou-se da morena -- E nem a sua!

 

--Juliana, escuta! -- olhou para a japonesa mais uma vez -- Acabou! Vou ter que dizer isso quantas vezes? -- sua expressão era de indiferença

 

--Tira essa máscara que você usa pra esconder seus sentimentos e fala a verdade pra mim! -- falou com emoção -- A gente se ama, Suzana!

 

--Acabou! -- repetiu impaciente

 

--Eu sei que não! -- segurou o rosto da morena com as duas mãos -- Nós temos uma história juntas, temos uma vida e isso não acaba assim! -- olhava fixamente nos olhos da outra mulher -- Sei que errei muito com você e não posso culpar Irina ou Lucas por tudo que aconteceu! Você tava certa o tempo todo, eu dei margem, eu me deixei seduzir pelo poder e me tornei uma mulher vaidosa e orgulhosa demais a ponto de me achar infalível! Assumo a responsabilidade que tenho sobre cada passo em falso que dei!

 

--Agora é tarde pra isso! -- desvencilhou-se da enfermeira e caminhou até a janela

 

--Eu não sou perfeita, Suzana! -- passou a mão nos cabelos -- Ao contrário do que você e eu pensávamos!

 

--Nunca pensei que você fosse perfeita! -- olhou para ela -- Só não imaginava que fosse fazer o que fez!

 

--Você pensava que eu era perfeita, sim! -- falou mais alto -- Perfeitamente forte, perfeitamente firme e perfeitamente fiel! Só que não sou! -- esforçava-se para não chorar -- Você pensava assim porque sempre estive ali pra você, em todos os momentos! Quando me deixou por medo das ameaças de Lucas, quando os loucos da seita dele tentaram me matar mais de uma vez, quando você quase morreu naquela emboscada, quando você me deixou sem dizer uma palavra e voltou pra me pedir em casamento... Só que, -- abriu os braços -- bem vinda à realidade! Eu também erro e também me iludo. -- bateu no peito -- Só que eu sei perdoar! Você não!

 

--Não me venha com esse discurso! -- também falou mais alto -- Eu nunca te traí, nem em pensamento! -- passou a mão nos cabelos -- Acha que eu não lembro que no começo da nossa relação você vivia doida pra voltar pra Ed? Acha que esqueci disso? -- perguntou magoada -- E por que deu tanto mole pra Irina? Por que ela puxava o teu saco, te bajulava, te colocava lá em cima? Eu sempre te tratei como rainha e você não deu tanto valor assim!

 

--Eu nuca desvalorizei você, Suzana! -- retrucou -- Quem sempre se desvaloriza dizendo que é velha, aposentada e transplantada é você! Eu nunca, nunca, falei nada que pudesse te fazer pensar que te desvalorizo! -- argumentava chateada -- Eu me encantei com Irina porque me deixei iludir por um monte de bobagens! E quanto a Ed, é verdade, naquela época eu ainda vivia feito boba atrás dela, mas joguei limpo contigo e me dediquei a nossa relação de um jeito como você só foi fazer anos mais tarde!

 

--Que mentira!! -- reclamou revoltada -- Eu sempre me dediquei!!

 

--Você sabe que não!! E sua desculpa era não ter tirado todas as mágoas do coração! -- relembrava -- Eu tinha um monte de mágoas no meu e nem por isso adiei nada com você! Não era eu quem vivia fugindo! -- colocou as mãos na cintura -- Aliás, na vida pessoal é assim que você faz: quando tem um problema, foge!

 

--Eu não tô fugindo de nada! -- gritou

 

--Tá sim! -- gritou também -- Tá fugindo de mim, do nosso casamento e da nossa vida! Mas se é o que você quer, então vai! -- começou a chorar -- Eu te amo, Suzana, amo de verdade como nunca amei ninguém, nem Seyyed! Mas você não liga, você não erra nunca, você não perdoa, então tá! -- passou a mão nos olhos -- Eu não vou passar o resto da vida te pedindo perdão e nem te esperando! Quer ir? -- encarou com a morena -- Então vá e seja muito feliz! -- saiu do quarto

 

A delegada colocou a mochila nas costas, pegou a mala e saiu de casa furiosa. Juliana estava na sala mas ficou de costas. Não queria vê-la partir.

 

Depois de ouvir a porta se fechar a enfermeira caminhou para o quarto e chorou com muita tristeza. Sentia que seu casamento havia chegado ao fim.

 

Suzana entrou no táxi sem ao menos cumprimentar o motorista. Ordenou que fosse para o aeroporto e não pôde evitar que algumas lágrimas escapassem de seus olhos.

 

Enquanto olhava para fora do carro, uma profusão de lembranças pipocavam em sua mente até que uma delas veio nítida em suas memórias:

 

“Suzana e Lourdes conversavam.

 

--O que você tem que a impede de se casar com a mulher que ama?

 

--Ainda não ajustei contas com o passado. Ainda me sinto suja, pesada, assassina... Eu tenho que resolver essas coisas, e aí sim posso pensar em me casar com ela e dar-lhe o que merece.

 

--Não leve uma eternidade pra fazer isso, meu bem! A gente nunca sabe quando nossa hora vai chegar. Veja o caso de minha neta! Jovem, inteligente, bonita, um mundo de possibilidades pela frente, e ela tanto que fez que encontrou a morte nos Estados Unidos. Quem poderia imaginar? -- olhou para as crianças brincando na quadra ali perto -- A vida é um espetáculo onde a gente entra pra fazer o melhor logo de cara! Do contrário, vira um fiasco e motivo de vergonha e arrependimento... -- olhou para Suzana -- Sei que você é uma mulher que carrega um monte de conflitos dentro do coração, mas não perca tempo! A pior coisa do mundo é desejar mais tempo e não o ter!”

 

A morena começou a chorar mais intensamente. Espontaneamente lembrou-se do dia em que quase morreu.

 

“Sentiu que as forças lhe esvaíam e não mais se agüentou de pé. Durante os poucos segundos que antecederam sua queda no chão, um filme rápido de suas memórias passou diante de seus olhos.

 

Viu a floresta, o céu estralado, a tribo, os pais, as cerimônias, viu a escola, a faculdade, sua formatura, seu primeiro dia como delegada, pessoas conhecidas, Juliana e a noite de amor mais bonita de toda sua vida.

 

“Eu te amo, Juliana!” -- pensou com saudades

 

Quando seu rosto tocou o asfalto duro e quente, espalmou as mãos contra o solo. Não aceitava que era sua hora. Podia ouvir o barulho das sirenes de viaturas policiais se aproximando e o ronco de um dos carros arrancando em disparada.  Virou-se de barriga para cima e viu que um dos homens veio até ela. Usava meia fina sobre o rosto para se disfarçar. Apontou o revólver em direção a sua cabeça e engatilhou.

 

“Senhor, eu Lhe imploro, me dê mais uma chance, por favor!” -- suplicou em pensamento -- “Mas se é pra morrer, vou morrer pelo que eu sou!” -- olhava nos olhos do bandido sem demonstrar qualquer temor

 

O homem disparou mas nada aconteceu. Parecia ter ficado sem munição. O som das sirenes parecia mais próximo e ele correu para longe.

 

“Obrigado, meu Deus... obrigado...” -- viu uma luz vinda do céu que se aproximava. Os sentidos faliram devagar e tudo se apagou.”

 

--Motorista, faz o retorno e volta! -- ordenou ao taxista

 

--O que? -- o homem perguntou sem entender

 

--Eu pedi pro senhor fazer o retorno e voltar pra onde me pegou! -- repetiu secando as lágrimas

 

O motorista obedeceu.

 

Juliana havia acabado de sair do banho. Vestiu sua camisola e fez uma oração pedindo a Deus que a ajudasse a passar por aquele momento difícil. Pediu pelo bem de Suzana e que ela um dia pudesse perdoá-la, mesmo que não voltasse para viver a seu lado.

 

Quando se preparava para deitar ouviu um barulho na sala.

 

--Meu Deus, o que é isso?? -- arregalou os olhos assustada e correu para ver

 

Chegando lá, deu de cara com a delegada. O coração acelerou.

 

https://www.youtube.com/watch?v=gTblCHUKYcg

“Depois que o mau tempo foi,

Eu vi você chegando...”

 

--Eu também não sou perfeita! Também erro! -- a morena afirmou olhando nos olhos da japonesa

 

“Trazia o rosto doce, bom e aliviado,

Nada mais incerto,

Passava também um tempo...”

 

--E sei perdoar! -- jogou a mala e a mochila no chão -- Também te amo como nunca amei ninguém e também não quero ir embora!

 

--Ai, meu nenenzinho! -- correu até a mulher e beijou-a com paixão

 

“Voltávamos a ser então,

O tal casal,

Apaixonado,

Apaixonado...”

 

Suzana levantou a esposa no colo e seguiu sem interromper o beijo até o quarto das duas.

 

“Gostei de ser de quem me gosta,

Eu aprendi,

Querendo a vida bem mais fácil,

Eu resolvi...”

 

Deitaram-se na cama ainda aos beijos. A japonesa arrancava a blusa e o sutiã da amante com pressa.

 

“É tão melhor viver em paz,

Ninguém me faz sentir assim...”

 

Uma camisola foi arremessada longe. As calças da delegada também.

 

“Agora mais que nunca,

Somos o tal casal,

Apaixonado,

Apaixonado...”

 

--Vem, minha índia safada! -- arranhava as costas da amante -- Ai... -- gem*u ao sentir a boca da morena devorando-lhe o seio

 

“Agora mais que nunca,

Somos o tal casal,

Apaixonado,

Apaixonado...”

 

--Que bom que você dorme sem calcinha... -- seguiu lambendo o corpo da japonesa até mergulhar ferozmente entre as pernas dela

 

--Ai!! -- sorriu -- Ai, sua nhambiquara danada! -- gemia -- Ai, meu amor, que saudade, ai!!

 

“E não adianta alguém,

Querer que não seja assim...”

 

Enquanto isso, Irina se angustiava na prisão tentando entender aonde foi que errou.

 

“E não adianta ir,

Tentar se esconder,

Fugir,

Sabedor é quem está,

Amadurece e recebe...”

 

A morena percorreu uma trilha de beijos e mordidas em direção aos seios da amada, deslizando as mãos por suas coxas e apertando-as com força.

 

--Ai, amor... -- segurou a delegada pelos cabelos e beijou-a nos lábios

 

“O presente, aaah,

O presente, aaaah...”

 

Suzana acomodou-se entre as pernas da japonesa e começaram a se esfregar com força.

 

“Gostei de ser de quem me gosta,

Eu aprendi,

Querendo a vida bem mais fácil,

Eu resolvi,

É tão melhor viver em paz,

Ninguém me faz sentir assim...”

 

--Eu quero goz*r com você! -- a enfermeira pediu

 

A delegada pegou a mão da esposa e colocou-a entre as próprias pernas. Simultaneamente começou a estimulá-la.

 

“Gostei de ser de quem me gosta,

Eu aprendi,

Querendo a vida bem mais fácil,

Eu resolvi,

É tão melhor viver em paz,

Ninguém me faz sentir assim...”

 

--Eu te amo!! -- olhava nos olhos da delegada

 

“Ninguém me faz sentir assim...”

 

--Também te amo! E é pra sempre! -- respondeu antes de beijá-la

 

“Ninguém me faz sentir...”

O Tal Casal – Vanessa da Mata [b]

 

Atingiram o clímax juntas e abraçaram-se com força como se quisessem guardar aquele momento por toda eternidade.

 

***

 

Juliana estava deitada de barriga para cima acariciando a cabeça de Suzana, que repousava sobre seu colo. As pernas entrelaçadas roçavam-se suavemente.

 

--Eu nem acredito que ficamos separadas por tanto tempo... -- a japonesa dizia -- Se Deus quiser isso nunca mais vai acontecer com a gente! -- beijou a cabeça da morena

 

--Se Deus quiser! -- repetiu -- Me separar de você foi horrível... -- sentia que a amante arranhava seu ombro bem de leve

 

--Pra mim também foi! -- beijou a cabeça da outra novamente -- Mas de agora em diante as coisas serão diferentes. Aprendi com meus erros e não vou me permitir tropeçar de novo na mesma pedra.

 

A delegada levantou a cabeça para olhar nos olhos da mulher. -- Queria que você entendesse que foi muito difícil pra mim passar por cima de tudo e voltar atrás. -- falava com seriedade -- Só que a partir do momento que decidi te dar uma chance prometo que não vou jogar o passado na sua cara quando tivermos desentendimentos.

 

--Eu acredito em você! -- acariciava o rosto da amante com carinho -- E as coisas que desabafamos nessa discussão dessa noite... elas devem ficar no passado. -- beijou o queixo da outra -- Vamos trabalhar pra que todos os nossos obstáculos sejam superados. Eu sei que nosso amor é forte o suficiente pra isso!

 

A morena balançou a cabeça concordando. -- Mas eu preciso aprender a confiar em você novamente. Confiar como confiava antes. -- pausou -- E isso não vai acontecer da noite pro dia! Espero que tenha paciência...

 

--Nós vamos conseguir, amor! -- respondeu confiante -- Eu sei! -- sorriu -- Vou honrar a chance que você me deu! O tempo vai te mostrar!

 

--Eu te amo! -- beijaram-se com ternura e novamente a morena repousou a cabeça no colo da japonesa

 

Após alguns instantes de silêncio cúmplice, Juliana disse: -- Agora me conte como conseguiu fazer aquela prisão em flagrante. Como sabia onde Irina se encontrava? -- estava curiosa -- Aquela história de denúncia anônima que vocês divulgaram não me convenceu! -- sorriu

 

--Lucas ficou tão revoltado por ter sido enganado por ela que decidiu colaborar e me ensinou como encontrar uma pessoa usando nosso magnetismo pessoal. Eu treinei exaustivamente, orei muito e acho que aprendi a coisa no momento certo. -- contava

 

--Esteve com Lucas quando fomos pra São Paulo?

 

--Foi. -- estava adorando receber o cafuné da japonesa -- Tá gostoso isso...

 

--Tá, meu nenezinho? -- deu vários beijos na cabeça da delegada -- E você soube que Irina estava no Rio naquele dia em que decidiu inesperadamente ir pra lá?

 

--Sim. Eu a localizei no Galeão. -- explicava -- Isso me deu uma certa segurança de que daria tempo de chegar antes dela ter feito qualquer coisa terrível. Contatei Brito e falei pra que ficassem de sobreaviso.

 

--Mas ela poderia ter ido pra lá e não ter feito coisa alguma. Como você tinha tanta certeza que a surpreenderia numa situação tão infeliz quanto aquela? -- não entendia

 

--Antes que uma ação se concretize, Juliana, ela se plasma no pensamento da pessoa. É o que se chama de formas pensamento. Quando percebi Irina chegando no Galeão, pude sentir as vibrações extremamente negativas de seus pensamentos. -- explicava -- Eu sabia que ela estava pra fazer algo de muito ruim! Daí, quando novamente procurei por ela e senti que estava naquele parque tive certeza de que o momento havia chegado.

 

--E quanto a Tatiana?

 

--Eu liguei pra ela assim que desembarquei no Rio e fiquei sabendo que estava na cidade por causa de um trabalho que duraria alguns dias. Depois quando liguei de novo perguntando se queria se juntar a nós a resposta foi imediata! -- sorriu

 

--Gente, como é que pode, né? Se vocês contassem isso na reportagem ninguém acreditaria! -- comentou surpreendida

 

--Ainda há muito mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa vã filosofia entende, já dizia o grande poeta!

 

--Pois é... -- segurou o rosto da parceira fazendo com que levantasse a cabeça -- E meu pensamento já concretizou um monte de coisas que eu quero fazer com você, nhambiquara safada! -- beijou-a com carinho e inverteu as posições -- Quero te amar bem devagar e deixar claro pra você que Suzana Mello é o grande e único amor da minha vida! -- segurou as mãos da morena entrelaçando os dedos -- Você é tudo que eu quero, tudo que eu preciso e o que de mais valioso tenho na minha vida! -- afirmou com muita verdade

 

--Você também é o grande tesouro que eu tenho! -- Suzana respondeu emocionada

 

--Meu nenenzinho lindo... -- mordeu os lábios da esposa -- Deixa sua enfermeira cuidar de você... Hoje e sempre... -- beijou-a lenta e apaixonadamente enquanto suas mãos deslizavam pelos braços da amante vindo se encontrar em seu rosto

 

A japonesa beijou a testa, as sobrancelhas, as bochechas, o queixo e novamente os lábios da delegada. Era como se quisesse rememorar cada detalhe fisionômico da mulher amada.

 

Continuou beijando, mordendo e sugando suavemente o pescoço, ombros e os seios, deleitando-se em provocar arrepios pelo corpo da morena.

 

--Ai, Ju... ah... -- gemia ao sentir as leves mordidas alternando-se em cada mamilo e as unhas da outra arranhando sua pele devagar -- Ah...

 

Juliana continuou explorando delicadamente seu caminho ao longo do corpo de Suzana até que começou a beijar e morder uma de suas coxas.

 

--Hum, que cicatriz gostosa é essa aqui? -- lambeu a marca perto do joelho da delegada

 

--Foi... aquele gato lá do centro... -- respondeu com dificuldade

 

--Então agora vai ser a sua gata a te arranhar... -- mordeu e arranhou a coxa da mulher

 

--Isso é pra me matar... Ah... Ai... -- gem*u

 

A enfermeira deslizou a mão até o sex* da morena. -- Nossa, como meu nenenzinho tá excitado... -- sorriu e seguiu beijando, arranhando e mordendo

 

--Minha nossa... -- fechou os olhos em antecipação

 

Juliana invadiu lentamente o sex* da amada e permitiu-se explorá-la sem pressa enquanto arranhava suavemente seu abdômen.

 

Suzana mal conseguia raciocinar de tanto prazer, mas ainda assim era capaz de bendizer a decisão de ter voltado para os braços da única mulher que conseguia envolvê-la plenamente. Com aquele amor, Suzana sentia-se forte, capaz de todos os heroísmos; Juliana, de todos os martírios. O heroísmo enobrece, o martírio sublima.


Seus corpos eram como templos, cujas portas novamente eram abertas; suas almas, sacrários, cujo interior mais um vez se revelava. Ante o templo elas se descobriam; ante o sacrário se ajoelhavam.39

 

18:50h. 01 de dezembro de 2010, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro

 

Jaqueline terminava de fazer massagem em Priscila.

 

--Pronto, guria! -- deu um tapinha no braço dela -- Consegui desfazer todas as contraturas e acho que demos uma alívio importante pra tua cervical! -- levantou-se da cama da amiga

 

--Ai, Jaque, nem sei como te agradecer. -- sentou-se na cama e vestiu a camisola -- Gente, eu me sinto outra! -- movimentava o pescoço aliviada -- Esse estresse de trabalho com doutorado tá acabando comigo, sabe? -- levantou-se para se esticar

 

--Mas, bá, tu sabes que não é só o estresse do doutorado que te deixa tão tensa, né, guria? -- cruzou os braços e se encostou na porta -- Vives aí agoniada por causa de Lady e Ricardo! -- falou abertamente

 

--Eu, hein, que conversa! -- protestou de cara feia -- Eu não tô nem aí praqueles dois! -- falou com despeito -- Se Lady quer se casar com aquela bomba, que se case! Aliás, ela podia trabalhar com alguma facção terrorista, porque vai gostar de bomba assim no inferno!

 

--Não tá nem aí?! -- riu brevemente -- Ai, ai, Priscila, a quem pretendes enganar? Só um idiota não nota que tu morres de ciúmes quando vê os dois! Fica a ponto de cuspir fumaça, daí! -- riu de novo

 

--Olha, eu vou te contar! Não sei qual o seu pior modo de funcionamento, se é como Lila ou como Jaqueline. Tem uma terceira opção, não? -- sentou-se na cama novamente e abraçou-se com um travesseiro -- Eu com ciúmes de Lady, pois sim! -- fez cara feia

 

Jaqueline respirou fundo, pensou um pouco e decidiu falar: -- Eu acho que farei contigo o mesmo que Sabrina fez comigo numa das vezes em que conversamos sobre a expedição. Ela olhou bem pra mim e disse: “ -- Eu vou ser bem sincera contigo, mesmo sabendo que às vezes o excesso de sinceridade se confunde com a má educação.”

 

A dentista não entendia onde a gaúcha pretendia chegar e ficou quieta ouvindo.

 

--Tu és aquele tipo de mulher que anda de cabeça erguida, peito estufado e sabe chegar nos lugares pra ser vista. Sabes seduzir sem vulgaridade e tu escolhes, não és escolhida, sempre fazendo dos homens o que bem entende. És inteligente e bem sucedida no que te envolves. -- gesticulava um pouco -- Quando tu queres uma coisa, tu consegues. Resumindo, és a própria imagem de mulher bem sucedida que muitas de nós temos na cabeça. -- olhava seriamente para a morena -- Só que te falta humildade, muita humildade, diga-se de passagem. O sucesso fez de você uma pessoa soberba e arrogante, mas não sábia.

 

--Ah, mas eu não acredito que você tá querendo me dar liçãozinha de moral nessa altura do campeonato! -- reclamou

 

Jaqueline ignorou o comentário. -- Eu andei pensando... sem te julgar, não penses o contrário! -- esclareceu -- Quando ficaste grávida, uma das razões que te levou ao aborto foi a sensação de ter perdido o controle da situação. És muito controladora, tu decides o caminho a seguir e não aceita mudar os planos; a gravidez foi algo que fugiu do teu controle e isso te fez descer do teu pedestal.

 

--Não aceito que venha falar sobre uma coisa que você não tem condições de opinar! -- levantou-se muito revoltada

 

--Imagino como te arrependeste. -- respondeu com brandura -- E tua atitude impedindo Lady de fazer o mesmo foi a coisa mais linda e mais humana que te vi fazer. -- falava com muita sinceridade -- O modo como te importas e cuidas de Priscilinha também é muito bonito. E a responsabilidade tua com ela te fez melhorar muito. Nem de longe és a mesma mulher arrogante e elitista que conheci quando cheguei aqui, mas ainda tens um caminho a percorrer, guria.

 

Priscila riu com raiva. -- Eu fico boba com a tua cara de pau, sabia? -- cruzou os braços diante da loura -- Com que autoridade acha que pode me falar essas coisas?

 

--Ouvir a verdade assim incomoda, né? Quando Sabrina falou desse jeito comigo eu fiquei possessa e fui embora. Mas quando a montanha ‘falou’ -- fez aspas com os dedos -- desse jeito comigo, não havia fuga pra mim. Fui obrigada a aceitar a verdade! -- continuava encarando a dentista -- Aceite ouvir e refletir agora porque mais tarde pode ser bem mais doloroso e incômodo!

 

--Eu não te elegi como minha terapeuta, tudo bem? -- respondeu desaforada

 

--Eu sei, tu não ouves nem a voz do teu próprio coração! -- olhou nos olhos da outra -- É demais pra alguém tão bem sucedida e maravilhosa como tu, o fato de se ver apaixonada por uma maluquinha que nem Lady. -- sorriu -- Ela é simples, ingênua, não se veste na última moda, é bonita embora não tenha o teu charme e... vamos ser sinceras, é completamente sem noção em diversas ocasiões. -- pausou -- Só que tu a amas, fazer o que?

 

--Eu não amo!! -- retrucou furiosa -- Não do jeito como vocês pensam!! Amo como amiga e olhe lá! -- caminhou até a janela

 

--E pra completar ela é mulher, não é isso? Não estava nos teus planos se apaixonar por um homem, faz idéia por uma mulher! É demais pra ti, não é, guria? -- provocou

 

--Jaqueline, vê se te enxerga, tá? -- olhou para a loura com raiva -- O que você entende de relacionamentos se desde que te conheço nunca te vi com ninguém?

 

--Eu já te vi com vários e tu entendes ainda menos que eu! -- respondeu calmamente

 

--Onde está querendo chegar com essa conversa fiada? -- perguntou controlando o tom de voz para não gritar -- Quer me convencer de que amo Lady e deveria correr atrás dela pra salvá-la do malvado com quem ela pretende se casar? Não seja ridícula! -- olhou para a janela novamente -- Eu não amo Lady! E se ela não vê quem Ricardo é, que se dane!

 

--Sabes por que ela namora ele? Vou te dizer porque. -- aproximou-se da outra -- Ricardo tem um monte de defeitos e atitudes que me incomodam muito, mas eu entendo Lady. Ele não tem vergonha dela! Ele a vê, ouve, trata bem, é carinhoso, não age como se ela fosse uma idiota, tem paciência com doideiras dela e até acha graça. Ele a respeita e enxerga a pessoa que ela é. -- pausou -- Coisas que nem sempre tu sabes fazer! Na verdade, quase nunca fazes!

 

Aquelas palavras pareciam capazes de ferir a alma da morena, que não conseguiu dizer coisa alguma, por mais que desejasse.

 

--Lady foi abandonada pela família, pelo pai da menina e não tem ninguém por ela além de nós. -- tentava fazer a amiga entender as atitudes da outra -- Quando tu a impediste de abortar, ela se sentiu acolhida e se prendeu a ti com todas as forças. Mas parece até que quando tu percebeste isso, por mais que gostasse do que acontecia, decidiste fugir. Primeiro pro Canadá e agora pra Piraí.

 

--Fugir?! -- riu novamente -- Todo mundo sabe que minha ida pro Canadá tava planejada com um ano de antecedência! E todo mundo sabe que eu dizia, desde que comecei na faculdade, que desejava trabalhar em Piraí quando terminasse meus estudos; portanto, dona psicóloga, nada isso é uma fuga! -- afirmou em voz mais alta

 

--Tornam-se fugas pelo modo como ages. -- suspirou e balançou a cabeça -- Tua atitude com Lady foi reprovável demais! Fizeste amor com ela e depois agiste como se nada houvesse acontecido! Coisa de homem cafajeste da pior laia! -- criticou -- Foi por isso que a fúria casamenteira foi despertada por Ricardo: tu a deixaste carente e mais louca que o normal! -- explicava

 

--Ora bolas! -- fez cara feia -- Você não passa de uma ex picareta que foi salva pelo Everest e agora dá uma de professorinha e ecologista esotérica de plantão! -- passou pela gaúcha dando-lhe uma trombada proposital -- E vá pro seu quarto porque eu já tô por aqui contigo! -- fez um gesto com uma das mãos -- Não fale do que não sabe!

 

--Do que não sei? -- achou graça enquanto caminhava lentamente para o próprio quarto -- Lady contou TUDO pra mim, pra Sabrina, pra Tatiana, pra Ricardo, pra Camille, pra mãe de Camille, pra algumas trocadoras de ônibus, pra várias caixas do mercadinho aqui da esquina, pras manicures e pra síndica do prédio! -- deu tchauzinho antes de sair -- Ou seja, como dizem os cariocas, geral tá sabendo!

 

--O que?????? -- Priscila deu um berro enfurecida -- Então é por isso que quando eu vou naquele salão fica um monte de gente cochichando... -- concluiu cerrando os olhos -- Ah, Lady Dy, eu te mato!!! -- deu um soco na mão -- Eu te mato!!!!! -- berrou ensandecida

 

***

 

Seyyed estava na casa dos pais de Isa aguardando para assistir a entrevista da ruiva na TV. A mecânica sentia-se imensamente feliz e orgulhosa de sua mulher e olhava para a televisão um pouco nervosa. Ana, Anselmo e Odete não cabiam em si e as reações deles, sempre exageradas, divertiam a morena.

 

--Mamãe, pelo amor do Pai, senta pra não cair!! -- Ana apontou o sofá para Odete -- Quando essa menina aparecer aí na telona é capaz da gente perder os sentidos!!! -- gesticulava

 

--Ai, não, eu quero ver é tudo!! -- sentou-se entusiasmada -- E você vem pra cá também pra não desmaiar de emoção!! -- bateu no sofá indicando o local onde a filha se sentaria

 

--Ai, meu Deus, minha estrela Dalva na Marcília, que orgulho!!! -- pôs a mão no peito e se sentou

 

--A princesinha do papai!! -- Anselmo falou para si mesmo ao se posicionar de pé ao lado da morena

 

“Mas ele só sabe dizer isso!” -- Ed pensou achando graça

 

--Camille, corre, vem ver que vai começar! -- a costureira olhava empolgadamente para a televisão -- A entrevista de Isa, vem ver!! -- chamava

 

--Ô, que coisa... -- a loura resmungou em voz baixa e foi se sentar ao lado da mãe

 

Isabela apareceu e cumprimentou a apresentadora. Usava um vestido longuete branco estampado de lilás, saltos altos e os cabelos soltos caindo pelos ombros. Seu rosto estava belamente maquiado.

 

--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!! -- Ana gritou escandalosamente e bateu com os pés no chão -- Mamãe, me abraça, que o coração parece que vai explodir!!! -- abriu os braços

 

--AHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!! -- gritava também -- E o meu? -- abraçou a filha -- Eu mal consigo ficar de pé!! -- quase chorava

 

“Ué, mas não tá sentada?” -- Ed controlava-se para não rir

 

--A princesinha do papai!!! -- abraçou a morena com força -- OHOHOHOHOHOH!!!! -- gritou com voz de tenor

 

--Eita, que assim eu não guento! -- brincou enquanto era esmagada pelo sogro

 

Marcília olhava para a câmera. -- Hoje o nosso bate papo é com a bailarina Isabela Guedes, uma jovem linda e entusiasta que vem mudando o destino de muitas pessoas através da dança. -- apresentava -- Criado em 2006, o projeto Dança e Liberdade atende cerca de 300 crianças de dez comunidades da cidade do Rio de Janeiro. São elas: -- começou a ler em um papel -- Pavão-Pavãozinho, Cantagalo, Rocinha, Mangueira, Chapéu-Mangueira, Jacarezinho, Salgueiro, Dona Marta, Oswaldo Cruz e Borel.40 -- olhou para a ruiva -- Olá, Isabela, boa noite! Será que posso te chamar de Isa? -- sorria

 

--Boa noite, Marcília! -- sorriu -- E claro que pode me chamar de Isa, por favor. -- cruzou as pernas

 

--É um imenso prazer fechar esse ano de 2010 com você aqui no meu programa! -- falava com sinceridade -- Querida, conta pra gente sobre esse projeto lindo que você criou! Eu ouvi falar tão bem sobre ele e sobre você que fiquei mais do que curiosa! -- olhava para a bailarina -- Se você tivesse que definir sucintamente, o que seria o Dança e Liberdade? Qual a filosofia desse projeto?

 

--Gente, mas já é a segunda amiga minha que vai na Marcília! -- Lady exclamou satisfeita -- Eu só ando na alta roda, viu? -- balançou a cabeça impressionada

 

--Amigas MINHAS, Lady! -- a dentista esclareceu enquanto mantinha Priscilinha no colo -- Amigas MINHAS!

 

Jaqueline olhou para as duas e revirou os olhos.

 

--O prazer é todo meu! E pra mim é uma honra imensa estar aqui apresentando o nosso trabalho pra você e pras pessoas que nos assistem! -- Isa sorriu novamente -- O projeto objetiva apresentar a dança para jovens e crianças de comunidades carentes, abrindo possibilidades concretas pra eles se profissionalizem no balé. E não apenas isso, -- explicava -- nós queremos que eles experimentem um crescimento crítico e criativo de suas individualidades. Acredito sinceramente que a dança é fundamental para a formação de um ser humano. Nós queremos formar cidadãos conscientes e capazes de interagir com o mundo de forma digna! -- falava com paixão -- O nome Dança e Liberdade não foi escolhido em vão; a dança ajuda a pessoa a se entender como sujeito de suas ações na sociedade em que está inserida. E esse conhecimento é libertação!

 

--Mas é uma filósofa, essa minha estrela Dalva! -- Ana apontava para a TV -- Que sabedoria, que desenvoltura!! -- olhou para Odete -- Essa menina tá me lembrando até Marlene Dietrich naquele filme O Anjo Azul!

 

“Mas o que é que tem a ver?” -- Ed pensou divertida

 

--Essa menina vai dominar o mundo, Ana! Escute o que diz uma mulher idosa!

 

“Até a senhora com essa conversa?” -- a mecânica teve vontade de rir

 

--E além de oferecer essa forma de arte tão rica que é o balé, o projeto ainda provê todo um suporte sócio educativo aos jovens, não é isso? -- Marcília perguntou interessada -- Além de atendimento médico! Ouvi dizer que tem até aula de línguas!

 

--Sim! Ao longo dos anos, além dos bailarinos e coreógrafos que se uniram a nós, passamos a contar com a participação voluntária de assistentes sociais, médicos, dentistas, fonoaudiólogos, psicólogos e nutricionistas. -- respondia orgulhosa -- Hoje em dia as crianças têm aulas de línguas, inglês e francês, além de reforço escolar!

 

--É verdade! -- Mariângela comentou animada -- É uma coisa maravilhosa! A gente trabalha que nem umas loucas, mas vale a pena!

 

“Eu tenho que tirar o chapéu pra essa garota!” -- Camille pensava admirada -- "Nunca imaginei que esse projeto tivesse uma abrangência tão grande!”

 

--Renan, tá vendo isso, fi? -- Tatiana perguntou ao marido -- Deixa eu te falar que Isa é poderosa por demais da conta!

 

--Eu não me surpreendo, meu amor! -- ele respondeu naturalmente -- A vida inteira só lidei com mulheres assim. Tem que ver aquela com quem me casei! -- brincou

 

--Ai, meu pretinho! -- ficou toda derretida

 

--E esse suporte que o projeto oferece é abrangente, que fique bem claro pra quem está nos assistindo! -- Marcília falava olhando para as câmeras -- A partir do momento que os alunos entram no balé, passam a ter acompanhamento sistemático da parte desses profissionais que a Isa citou e esse atendimento é extensivo às famílias. -- contava

 

--A idéia era exatamente essa: fazer o projeto crescer a ponto de poder proporcionar a participação do núcleo familiar! -- respondeu enfática -- Essa participação é fundamental pro desenvolvimento de uma consciência cidadã e melhor qualidade de vida! -- Isabela dizia -- E esse sonho acabou se concretizando, graças a Deus e aos nossos patrocinadores. Hoje temos três grandes patrocinadores que sinalizam que permanecerão nos dando suporte por muito, muito tempo. -- pausou -- Se Deus quiser!

 

--E Deus quer, meu bem! -- Olga dizia olhando para a TV -- Esse projeto é abençoado pelos Grandes Iluminados, tenha certeza!

 

--E quanto a interação com a Escola de Dança do Municipal, Isa? -- a entrevistadora olhava para a jovem -- Como tem sido esse intercâmbio?

 

--Maravilhoso! A nossa querida Ana Fluminense abraçou a idéia do projeto desde o começo e graças a ela essa parceria pôde se concretizar e vai de vento em popa! -- sorria -- Nesses quatro anos o projeto integrou à Escola de Dança quase sessenta crianças! Interessante destacar que muitas delas pretendem, no futuro, se tornar monitoras dentro do próprio projeto!

 

--Você sabia que esse projeto era tudo isso, Ju? -- Suzana perguntou espantada

 

--Eu estive lá procurando por Isa e depois marquei de fazer uma visita. -- a japonesa respondeu -- Que coisa maravilhosa, viu? -- gesticulava -- Pretendo fazer um projeto de lei que vise garantir recursos do Governo Federal pra projetos com essa seriedade e relevância! Não podemos deixar morrer uma coisa dessas! -- olhou para a delegada

 

“Juliana agora faz discurso até quando estamos as duas sozinhas!” -- a delegada pensou com vontade de rir

 

--Mas, vocês acreditam que todos os jovens assistidos ingressarão no mercado de trabalho como bailarinos? -- Marcília perguntou com jeito

 

--Não... -- respondeu com a verdade -- Nós trabalhamos com a perspectiva de garantir a eles direitos e oportunidades iguais, onde se sobressairão aqueles em que o desempenho e o talento nato estiverem como metas em suas vidas. Balé exige muito e nem todos irão levá-lo adiante. -- passou a mão nos cabelos -- No entanto, os alunos poderão utilizar os conhecimentos adquiridos em profissões ligadas às demais atividades artísticas ou em atividades que possam melhorar a qualidade de vida de suas comunidades.40 -- sorriu -- O importante é que vidas serão transformadas! Há luzes que uma vez acesas, nunca se apagam!

 

--Essa é a minha garota!!! Uhu!! -- Ed gritou batendo uma palma

 

--É muita emoção nesse peito de mãe! -- Ana exclamou impressionada apertando os próprios seios

 

--É muita emoção nesse peito de vó! -- Odete repetiu o gesto

 

--A pri... a pri... -- Anselmo não conseguia falar

 

--A princesinha do papai, tô sabendo! -- Ed falou por ele e riu

 

--Nosso projeto planeja investir na formação dos jovens bailarinos por meio de inscrições e custeamento das despesas totais em audições no Brasil e no Exterior. -- a ruiva explicava -- Pretendemos investir também em bolsas de estudos em faculdades, curso pré-vestibulares e cursos profissionalizantes. E vamos estimular os alunos a participar de concursos públicos.40

 

--Gente, mas essa mulher não pára! -- Marcília exclamou impressionada olhando para as câmeras -- Digam se eu poderia ter uma pessoa melhor pro último programa do ano? Isabela Guedes é a própria mensageira da esperança! -- sorria

 

--Isso mesmo! -- Ana levantou-se extasiada -- Eu sempre disse que essa menina era uma pomba da paz! -- falava como se discursasse -- Voa, minha pomba! Sobe estrela Dalva, sobe!

 

--É muita emoção, muita emoção!!! -- Odete gritava ensandecida -- Eu vou morrer, gente, socorro!!! -- pôs as mãos no peito e ensaiou um desmaio

 

--Ai, mamãe, então vem comigo que eu tô vendo a bicha de perto! -- Ana caiu dura no sofá -- Peito de mãe... -- sussurrava

 

--Que bicha?? -- Anselmo perguntou apavorado ajoelhando-se diante das mulheres -- Fala, Ana, que bicha é essa que você vê? Que bicha??

 

--A morte homem, a morte! -- respondeu com voz fraca. Odete só batia a boca sem produzir som

 

--E agora, faz alguma coisa Ed! -- correu até a morena -- Elas estão morrendo!!! -- o homem chacoalhava Seyyed pelos ombros

 

--Calma, criatura! -- tentava se desvencilhar dele -- Eu ligo pro SAMU e eles agora têm uma injeção que ressuscita qualquer um! -- mentia -- Tem que ver que agulha enorme!

 

--Ai, meu Deus, acordei! -- Odete subitamente se recompôs -- Ai, que coisa louca!

 

--E eu também! -- Ana se endireitou na poltrona -- Oh, mamãe, foi um mal súbito!

 

“Falou em tomar agulhada, elas logo acordam!” -- a mecânica se divertia

 

--E como se não bastasse você ainda iniciou um belíssimo trabalho com crianças especiais! -- a entrevistadora continuava -- Fale um pouco sobre isso pra nós!

 

--Seyyed, minha companheira, me ensinou muito sobre os especiais. Ela me dá diariamente o exemplo de como promover a integração deles, a partir do momento que os mantêm em sua oficina há anos. -- sorriu -- Pude conhecer os pais de alguns desses jovens e foi contando com a ajuda de duas mulheres magníficas, dona Nilza e dona Lina, que nós começamos a desenvolver um trabalho corporal por meio da dança clássica, onde buscamos integrar os alunos especiais à sociedade de forma lúdica, por meio de atendimento especializado.40 -- Isabela respondia orgulhosa -- Por enquanto só temos uma turma no Pavão-Pavãozinho, que foi onde tudo começou, mas vamos expandir a idéia para os outros núcleos, com toda certeza! Dona Nilza e dona Lina se tornaram voluntárias pra nos auxiliar nesse propósito!

 

--Ah, Isa, mas isso é lindo demais! -- Marcília não deixava de se impressionar -- Mas me diga, da onde surgiu a inspiração e tamanha força de vontade pra você iniciar um projeto tão lindo, tão maravilhoso quanto esse? -- perguntou

 

Isabela se emocionou um pouco. Olhou para baixo, respirou fundo e respondeu olhando para a outra mulher: -- Tudo começou em 2005... -- passou a mão nos cabelos -- Seyyed havia sofrido um terrível acidente de moto e a oficina mecânica que ela possuía foi totalmente destruída por conta de um atentado. Nós simplesmente falimos! -- lembrava -- No meio de tudo isso, eu havia recebido duas propostas tentadoras pra dançar no exterior e tive de recusar a ambas porque não tinha como ser diferente, sabe? -- sorriu -- Engraçado porque eu sonhei a vida toda pra que acontecesse e quando aconteceu... tive de abrir mão! -- pausou -- Então recebi um convite pra participar de um musical de final de ano no morro do Pavão-Pavãozinho. Fomos muito bem recebidas, foi lindo, mas eu me dei conta de que nunca havia pisado numa favela. -- olhou para as câmeras -- E eu parei pra pensar na minha vida e constatei que nunca havia feito nada pelos outros! Tudo sempre girou ao redor de mim e dos meus desejos! Eu estava ali, sofrendo com os meus problemas, sem me dar conta de que existia um mundo de pessoas com problemas muito maiores que os meus! -- olhou novamente para Marcília -- Eu pensei em um monte de coisas, inclusive na minha família, e vi que nós não passávamos de estranhos íntimos. Constatei decepcionada que não havia entre nós aqueles laços de amor tão fortes como os que deveriam haver e isso me machucou. Percebi que vinha me conduzindo mal, sem me dar conta disso. -- pausou brevemente -- Minha sogra, que se chama Olga, havia me dado um livrinho de reflexões e a primeira mensagem que li nele foi: "Experimenta substituir os instantes de queixa, por momentos de serviço ao próximo e observa os resultados."41 -- emocionou-se -- Eu resolvi experimentar! E decidi cuidar de tudo o que até então havia negligenciado.

 

--Ela falou em você, mãe!! -- Ricardinho exclamou animado

 

Mariano derramou uma lágrima discreta. -- Nossa, Olga, você ouviu? Que coisa tocante!

 

--Isa é uma pessoa incrível! -- afirmou emocionada

 

“Meu, tenho que tirar o chapéu!” -- Camille balançava a cabeça impressionada -- "Ela é uma mulher e tanto!” -- pensava

 

--E depois ainda se seguiu uma fase muito difícil na sua vida, não foi? -- Marcília perguntou delicadamente -- Desculpe trazer o assunto, querida, mas...

 

--Eu não tenho vergonha ou restrições pra falar sobre isso, Marcília! -- a ruiva respondeu tranquilamente -- Meu pai foi preso por associação com tráfico, minha mãe teve de ser internada numa clínica psiquiátrica por pouco mais de quatro anos, vovó sofreu muito com problemas no coração, foi uma fase terrível! -- esforçou-se para não chorar -- Mas eu contei com a apoio e o amor de minha companheira, que nunca reclamou de nada! Contei com meus sogros, meu cunhado e minhas grandes amigas! Você não sabe como essas pessoas me ajudaram em TUDO! -- enfatizou -- E com isso muita coisa boa aconteceu! -- sorria -- Meu pai está em liberdade condicional, mamãe ganhou alta e leva uma vida normal e vovó passa muito bem, graças a Deus! Aliás, -- olhou para as câmeras -- eu queria mandar um beijo pra eles! Ana Guedes, Anselmo Guedes, Odete Lima e Seyyed Khazni, amo vocês de todo coração!!

 

--AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!! -- Ana, Odete e Anselmo gritaram ao mesmo tempo

 

--Eita! -- Ed riu enquanto secava as lágrimas com as mãos

 

--Ai, Isa! -- a entrevistadora pegou um pacotinho de lenços de papel e ofereceu para a ruiva, que retirou um -- Gente, certas entrevistas acabam comigo! -- secou os olhos com um lenço -- Você me emocionou, garota! -- sorriu para a ruiva -- Em meio a tantos problemas e desilusões como conseguiu ter forças pra desenvolver algo tão bonito e grandioso? -- respirou fundo -- Ui! -- colocou a mão no peito -- Ainda vou desmaiar ao vivo, pode acreditar! -- as duas riram

 

--Também me emocionei! -- sorriu e respirou fundo -- Bem... o que eu posso dizer? As forças vieram do apoio que recebi das pessoas que me amam e, claro, de Deus. O projeto não teria chegado onde chegou se dona Iolanda, do Pavão-Pavãozinho, não tivesse comprado a idéia logo no começo e os membros das comunidades beneficiadas não tivessem levado tudo tão a sério. -- sorria -- Em pouco tempo várias e vários colegas de trabalho se ofereceram pra dar aulas de dança junto comigo! São as amigas da Escola de Dança do Theatro, os amigos da EEFD da UFRJ, nossa madrinha Ana Fluminense e o coreógrafo Neyan. Dona Mariângela Trevisani e dona Lúcia Avelar se tornaram minhas fiéis secretárias e ajudantes dedicadas sem as quais eu não daria um passo! Camille Trevisani me ajudou a batalhar e conseguir o patrocínio que nos deu recursos pra crescer. Priscila Galvão sensibilizou colegas dentistas, médicos e fonoaudiólogos para nossa causa e ela mesma trabalha como dentista voluntária quando pode. Ivone Siqueira também é voluntária e mobilizou colegas psicólogos pra trabalhar do nosso lado. Jaqueline Hirstern nos auxiliou a estabelecer o esquema das aulas de reforço e ela nos ajuda ainda com um projeto incrível sobre inclusão digital e reciclagem de lixo eletrônico. A deputada Juliana Okinawa nos deu uma importante contribuição neste final de ano e ela e a delegada Suzana Mello, como nossas amigas pessoais, ainda nos ajudaram de um jeito como nem muitos parentes teriam coragem de fazer! -- pausou -- Esse sonho é de muita gente, Marcília, e por isso deu tão certo! Sonho que se sonha junto vira realidade!

 

--Ela falou da gente, Camille!!! -- a costureira estava radiante -- Ela falou da gente!! Estamos famosas, estamos famosas! -- sorria e pulava na poltrona

 

--Ai, mãe... -- ria

 

--Priscila, mas eu não conhecia essa tua faceta solidária, amiga! -- Lady olhou para a morena -- Nossa, que coisa humana! -- falou embevecida -- Viu, Priscilinha, que exemplo? -- olhou para a filha, que não entendia o que se passava

 

--E depois tem umas e outras aí que dizem que eu sou metida, arrogante e blábláblá! -- jogou indireta para Jaqueline

 

A gaúcha revirou os olhos. “Eu não mudaria uma palavra que te disse, guria!” -- pensou

 

--Certas pessoas têm essa força que arrasta os outros pra se mobilizar por um objetivo nobre! Eu já vi isso várias vezes e já entrevistei muitos assim! -- Marcília dizia -- É por isso que esse programa faz sucesso, eu só recebo pessoas diferenciadas, né, gente? -- olhou para as câmeras sorridente

 

--Isabela Guedes não é bagunça, não, minha filha! -- Ana se manifestou empolgada -- Essa menina é papa fina!

 

--Papa fina! -- Anselmo concordava gesticulando

 

--Nunca na história desse país houve outra igual a ela sentada nessa tua poltroninha de veludo! -- Ana gesticulava

 

--Nunca na história desse país! Nessa tua poltrona de veludo! -- Anselmo repetia

 

--Se eu não morrer hoje, não morro mais! -- Odete gemia com a mão no peito -- Ai, que o coração tá batendo louco!

 

“Ô, gente maluca!” -- Ed pensava achando graça

 

--E eu ainda fiquei sabendo que uma das suas alunas vai pro exterior no ano que vem, não é isso, Isa?

 

--Ah, Marcília, você não sabe como fiquei orgulhosa! -- exclamou sorridente -- Karine Ribeiro, a primeira aluna inscrita no projeto e a primeira a ser aprovada na Escola de Dança do Municipal, foi aprovada numa audição que aconteceu ONTEM... -- começou a chorar -- pra uma das mais tradicionais escolas de dança da Alemanha: a Staatliche Ballettschule, de Berlim! -- conteve-se -- Karine é uma moça pobre, negra, que não conheceu o pai, criada por uma verdadeira guerreira e que já passou por um monte de dificuldades nessa vida e... -- estava muito orgulhosa -- e ela conseguiu! Em março do ano que vem, se Deus quiser, ela viaja pra lá! -- secou os olhos -- Se eu tivesse somente até o dia de hoje pra viver, posso te dizer que estaria me sentindo realizada! Estou muito feliz, acho que mais feliz do que se fosse eu mesma a ir no lugar dela!

 

--Que coisa linda! -- Tatiana chorava -- Uma negra pobre fazendo bonito no exterior, Renan! Uma favelada, como dizem por aí! Deixa eu te contar que num tô dando conta de tanta emoção!

 

--Você é uma manteiga derretida, Tati! -- disfarçava a própria emoção

 

--Ai, Camille, como a gente chorou quando recebeu essa notícia! -- Mari olhava para a filha -- Que coisa linda que foi! A mãe da menina chorava tanto que... -- chorava também -- Ai, minha Virgem, nem sei...

 

--Ah, que fofa! -- Camille olhava para a costureira com ternura -- Tenho muito orgulho de você, mãe! -- abraçou-a -- Minha famosa! -- beijou a cabeça dela

 

--Nossa, que coisa cidadã! -- Lady agarrou Priscila -- Ai, vou lá e quero dançar! Quero ser bailarina também!!

 

--Mas isso é pra criança e jovem, criatura! -- tentava se desvencilhar da outra. Priscilinha ria

 

--Ai, Su, emocionei! -- agarrou a delegada -- E eu ando tão romântica ultimamente! -- olhava para a amante

 

--Anda, é? -- puxou-a para um beijo intenso

 

--E pra finalizar, Isa, -- secou os olhos também -- quais são os seus planos pro futuro? Além daquilo que você já nos contou, o que mais passa nessa cabecinha privilegiada que você tem? -- sorria

 

--Nossa, Marcília, não me faltam idéias! Penso de levar esse projeto pro Brasil inteiro! E eu me sinto muito segura quanto à continuidade do projeto porque temos tudo: gente interessada e capaz, bons alunos, recursos... Sei que o Dança e Liberdade terá ainda muitos anos pela frente! E que vai ultrapassar as fronteiras do Rio de Janeiro! Se Deus quiser!

 

--E Ele quer! -- a entrevistadora olhou para cima e depois para a ruiva -- Isa, você fala com uma paixão e uma fé tão grande que a gente não consegue duvidar que vai dar certo!

 

--Ele quer, Ele quer!! -- Ana gritava -- Isso minha filha, mostra tua fé na TV!

 

--Mostra tua fé! -- Odete gritava

 

--Mostra! -- Anselmo deu apoio

 

--Mostra tua raça na TV, menina! Isabela Guedes é coisa séria não é bagunça!

 

--Mostra tua raça! -- Odete gritou de novo

 

--Mostra! -- Anselmo gritou -- Não é bagunça!

 

--Mostra tua faceta pra esse povo todo ver, minha estrela Dalva! Mostra, escancara essa faceta na TV!

 

--Ô, Ana! -- Odete olhou para a filha de cara feia -- Eu não te ensinei isso, não!

 

--Mostra não, menina, mostra não! -- Anselmo gritava

 

“Mas já voltou com essa história de faceta?” -- Ed revirou os olhos achando graça

 

--E depois do que aconteceu hoje a minha cabeça ficou fervilhando com ainda mais idéias, sabe? -- contava -- No final do dia, antes de me preparar pra vir aqui pro seu programa, recebi a visita de algumas autoridades francesas e eles me fizeram uma proposta.

 

--E qual teria sido? Pode nos contar?

 

--Na verdade eu nem tive tempo de contar pra ninguém, então... Todos ficarão sabendo agora, através do seu programa. -- sorria

 

“Autoridades francesas?” -- a mecânica se alarmou

 

--Ai, meu Deus, eles querem prender minha filha! -- gritou apavorada

 

--Prender por que, Ana? -- não entendia -- Por que querem prender nossa filha?

 

--Por que a competência dela escandalizou a França! -- Ana respondeu olhando para o marido -- Lembre-se de que por muito menos eles cortaram a cabeça de Maria Antonieta! Povo invejoso!!

 

--Essa Antonieta era bailarina da onde? -- Odete perguntou -- Eu nunca ouvi falar nessa mulher!

 

“Ô, meu Pai, dai-me forças!” -- Ed pensou

 

--A França tem vivido muitos problemas por conta dos imigrantes que vêm de países como Marrocos, Argélia, Costa do Marfim e Mali. São pessoas que vivem na periferia, não conseguem se integrar perfeitamente a sociedade francesa e ainda são vítimas do preconceito de muitos europeus. -- olhava para outra -- Os franceses tiveram notícias sobre o nosso projeto e acharam que seria muito interessante reproduzir algo do gênero lá. Só que não exatamente igual ao que temos aqui. -- pausou -- Eles gostariam que eu montasse uma escola e vinculasse a ela uma companhia de dança contemporânea.

 

--Certamente porque acham que a dança contemporânea atrairia mais os jovens imigrantes do que o balé clássico. -- Marcília deduziu

 

--Exatamente! -- balançou a cabeça -- Segundo eles, o Governo Francês está disposto a me fornecer os recursos que eu julgar necessários. Tanto na forma de infra estrutura como de dinheiro propriamente dito. -- pausou -- Claro que eu teria de justificar esses gastos e necessidades muito bem, mas... a mensagem é que nada me faltaria!

 

--Oh!!!!!!!! -- Odete gritou -- Minha neta convidada pelo Governo Francês! É muita emoção nesse peito de vó!!

 

--Minha filha com escola e companhia de dança!!! AHAHAHAHAH!!!!!!!! -- Ana se jogou no chão -- Ai, meu Pai!!! Hosana nas alturas!! -- rolava ensandecida

 

--A princesinha do papai... -- Anselmo chorava

 

Seyyed sentia um misto de alegria e tristeza. Não conseguia falar.

 

--Meu Deus, mas que proposta inacreditável!! -- exclamou boquiaberta -- Então... Então a França está querendo levar você embora? -- olhou para as câmeras -- Os europeus não perdem a mania de querer levar nossos tesouros, não é verdade?

 

--Ué? Mas então... -- Odete arregalou os olhos -- Nossa menina vai morar na França? Eu não tinha pensado nisso!

 

--Meu Deus! -- Ana olhou para Ed, que nada respondeu

 

Anselmo ficou calado olhando para a mecânica também.

 

--E se você aceitar, o que será do Dança e Liberdade? -- perguntou curiosa

 

--O tempo todo eu trabalhei pra que o projeto não dependesse unicamente de mim. -- respondeu para Marcília -- Tenho certeza de que o coreógrafo Neyan, dona Mari e dona Lúcia dariam conta do recado. Além do mais, há toda uma geração de futuros bailarinos que querem voltar como monitores. -- sorria -- Se eu aceitasse também não significaria que abandonaria o meu país. Sempre voltaria e, uma vez aqui, não deixaria de visitar esse sonho que nós construímos em quatro anos de muita luta!

 

--Agora, a pergunta que não quer calar: -- Marcília olhava para a ruiva -- você vai aceitar essa proposta dos franceses?

 

--Não sei, Marcília... -- respondeu reticente -- Preciso pensar muito e conversar com minha companheira e minha família.

 

“Meu!” -- Camille pensava com os olhos arregalados -- "Será que ela vai aceitar isso aí?”

 

Seyyed chorava discretamente.

 

(Nota da autora: o projeto Dança e Liberdade foi inspirado na história real do projeto Dançando para Não Dançar da maravilhosa bailarina Thereza Aguilar. Minha homenagem a uma mulher incrível e linda que desde 1995 usa o amor à arte para transformar o destino de centenas de jovens carentes do Rio de Janeiro. Thereza, sou sua fã!!)

 

06:00h. 01 de janeiro de 2011, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro

 

Lady rolava na cama por conta de um sonho enigmático.

 

“Lady e Ricardo celebravam seu casamento diante de um padre, um juiz de paz e vários convidados. A engenheira usava um vestido maravilhosamente adornado com flores de renda e uma enorme cauda.

 

--Amor, -- ela cochichou com a boca torta -- por que esse padre é importado? -- perguntou curiosa -- Eu queria ser casada por um padre nacional...

 

--Don’t worry, be happy! -- respondeu aos sussurros e com a boca igualmente torta --Não vai ser dessa vez, mas pelo menos estamos super antenados no contexto! E esse aí ainda chegou com intérprete!

 

--Y si alguien tiene algo que decir que impediría este matrimonio, -- o padre falava -- hable ahora o calla para siempre!

 

--E se alguém tem algo a dizer que impeça esse casamento, -- o juiz repetia -- que fale agora ou cale-se para sempre! -- olhava para os convidados

 

Nesse momento, Priscila invade o recinto acompanhada por Tatiana, Isabela e Jaqueline. Vestiam-se como nos tempos da Jovem Guarda.

 

--Pára tudo!!!! -- a dentista gritou escancarando as portas

 

--Oh!!! -- os convidados olharam surpresos para trás

 

--Priscila!! -- Lady exclamou surpresa

 

E a música invadiu o ambiente.

 

--Por favor, -- a morena vinha dançando e rodando as mãos -- pare, agora! -- as outras garotas acompanhavam seus movimentos -- Senhor juiz, -- aproximavam-se do casal -- pare, agora!!

 

--Oh, my God! Holy shit! -- Ricardo protestou sapateando

 

--Senhor juiz, esse casamento, -- Priscila segurou o homem pela toga -- será pra mim todo meu tormento! -- chacoalhava o homem -- Não faça isso, peço por favor, pois minha alegria vive desse amoooooooooooor!!!!!!!!!!! -- cantava cada vez mais alto

 

--Desse amoooooooorr!! -- as amigas da dentista cantavam em corinho

 

--Ai, ai... -- a engenheira suspirou derrubando o buquê no chão

 

--Minha nossa! -- o juiz exclamou com medo da morena

 

--Pare, agora!! -- o corinho continuava cantando e dançando -- Por favor... pare, agora!!

 

--Volte aqui! -- Ricardo gritava para o religioso, que jogou a toalha e foi embora -- What a hell! Mais um padre que desiste!! -- deu um soco no ar e viu que o juiz também corria para longe

 

--Nossa, que coisa fugitiva!

 

--Lady, chega de meias verdades! -- virou-se para a noiva chateado -- Fala pra mim! -- segurou-a pelos ombros -- Você ainda gosta dela?

 

--Responde, Lady, você ainda gosta dela? -- Isa perguntava curiosa

 

--Deixa eu te perguntar, fi, você gosta de Priscila até hoje? -- Tatiana questionou em seguida

 

--Mas, bá, guria, tu ainda gostas da dentista mesmo ou não, daí? -- Jaqueline juntou-se às demais

 

Antes de responder, Lady mirou um ponto no infinito, rasgou o vestido e de repente o cenário mudou. Estavam todos em um descampado, usando calças jeans, chapelão, botas e camisas xadrez.

 

--Perguntaram pra mim, -- a engenheira respondia dançando com as mãos nos bolsos -- se ainda gosto dela! -- olhou para Priscila -- Respondi tenho ódio, -- gesticulou ensandecida -- e morro de amor por ela! -- sorriu -- Hoje estamos juntinhas, -- dançou no miudinho -- amanhã nem te vejo... -- rodopiou -- Divorciando e voltando, a gente segue andando entre tudo na vida!

 

--Entre tudo na vida, eu sou tua marida, é sonho, é ternura! -- puxou Lady pela cintura para junto de si -- Um casal que se ama, até mesmo na cama, provoca loucuras... -- lançou-lhe um olhar cheio de promessas picantes

 

--Nossa, que coisa quente! -- olhou esperançosa para a dentista -- Será que finalmente a gente se entendeu? -- envolveu o pescoço da outra com os braços

 

--Tá no cheiro da flor! -- Isabela afirmou rodopiando

 

--Estampado na cara! -- Tatiana bateu no rosto

 

--Tá na força do amor, na beleza da cor, tá pulsando e não pára! -- Jaqueline apertou os seios

 

--Meu amor é só seu, -- Lady sorria embevecida -- seu amor é só meu, nosso amor é assim! -- suspirou -- Eu só sei te querer, também sei que você, só tem olhos pra mim! -- piscava rapidamente

 

--Sei não... -- a dentista se mostrou indecisa e se afastou de Lady -- Não sei se devo, não sei se não devo... -- jogou os cabelos -- Esse negócio de ser lésbica é um troço muito complicado! -- balançava a cabeça pensativa

 

--Ah!!!!!!!!!!!! -- Isabela, Tatiana e Jaqueline lamentaram

 

--Tá vendo, Lady? -- Ricardo falou desaforado -- Não casou comigo e olha aí! Priscila já amarelou de novo! What a bitch!

 

--Tá bom, Priscila! -- a engenheira respondeu decepcionada -- Deixe estar! -- lançou-lhe um olhar de desprezo -- Eu quero ver, você correndo atrás de mim! Eu quero ver, você correndo atrás de mim! Quando eu te procurei você nem ligou pra mim! Agora eu quero ver, você correndo atrás de mim! -- batia na mão -- Você vai virar mulher pombo!!

 

--Mulher pombo?! -- todos perguntaram intrigados

 

--É isso aí! Vai comer na minha mão!! -- explicou

 

--Gente, mas peraí! -- a dentista parou alarmada -- E cadê Priscilinha no meio dessa coisa toda?? -- olhava para todos os lados

 

--Oh, meu Pai, cadê??? -- Lady procurava também -- Onde está minha enviadinha??

 

--Eu respondo! -- Suzana apareceu no meio do povo -- Está presa!

 

--Oh!!!! -- todos exclamaram estupefatos

 

--Presa???????? -- Lady perguntou aos berros -- Mas por que??? Por que??? -- estava pasma -- Why, oh, meu Pai??

 

--Associação para o tráfico de balas e porte de arminhas de plástico! -- a delegada afirmou enfática

 

--Não, não, não!!!!!!!!! É muito desgosto neste peito de mãe!!! -- apertou os seios ensandecida

 

--Mas não pode ser!!! -- Priscila perguntou entristecida -- O que levou essa menina pro crime, delegada? Diga, que eu preciso saber!! -- segurava a outra pela blusa

 

--Você é responsável!!! -- Suzana culpou a dentista enquanto se desvencilhava dela -- E você também!! -- apontou para Lady -- A menina se revoltou porque as mães se separaram e Lady ainda me arrumou um picareta pra casar! Dogueiro 171!!

 

--Picareta, não! Show me respect! -- Ricardo protestou -- Mão de obra informal da melhor qualidade! -- endireitou a roupa -- Sou apenas um pobre descamisado! -- resmungou

 

--Pois vai todo mundo é preso! -- a delegada foi algemando o trio -- Isso aqui é uma grande pouca vergonha e eu vou cortar o mal pela raiz! Simbora! -- deu um tapa na cabeça de Ricardo

 

--Help me!! Somebody help me!! -- ele gritava -- Free, free, Ricardo free!! -- pulava em protesto

 

--Eu exijo meus direitos!!! -- a dentista berrava -- Socorro!!! Socorro!!!

 

--Ai, ai, ai!! Eu presa, minha filha presa, meus pretendentes presos... Ai, meu Pai, que sina bandida!! -- chorava desesperada enquanto era conduzida para o camburão -- Não, não!!! -- lamentava -- AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! -- soltou um berro medonho”

 

--AHAHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! -- Lady acordou gritando apavorada

 

--Oh, my gosh!!! -- Ricardo caiu da poltrona assustado

 

--Oh, onde estou?? -- a engenheira sentou-se nervosa e arregalou os olhos -- Where am I, oh, meu Pai? Estarei no cárcere? Cadê meu caneco de alumínio?? -- procurava

 

--Fuck!! -- o homem se levantou sonolento e se sentou no sofá -- Que grito medonho!

 

--Priscilinha? -- levantou-se desesperada para ver a filha, que ainda dormia -- Uff! Graças a Deus ela tem um sono de pedra! -- suspirou aliviada -- Não sei a quem puxou nisso aí! -- estava intrigada

 

--Lady! -- Ricardo apareceu na porta do quarto e falou aos cochichos -- O que há contigo? -- aproximou-se receoso -- Meu coração bateu no dente e voltou! Se eu fosse banguela ele tava aí no chão pulando, cruzes! -- resmungou esfregando a mão no peito

 

--Venha comigo, não quero que minha filha acorde! -- segurou-o pelo braço e foram para a sala -- Tive um sonho revelação que me deixou deveras apavorada! -- olhava nos olhos do namorado -- É melhor você pegar suas coisas e ir embora!

 

--Mas por que?? -- perguntou decepcionado -- E ir embora a essa hora?? Nós chegamos tão tarde da casa do meu pai! -- reclamou

 

--Não tente entender! -- fez mistério -- Meu sonho foi muito forte! Foi um aviso! -- afastou-se dele -- Por favor, arrume suas coisas e vá! -- pediu em tom dramático -- Go away!

 

“Oh, shit!” -- Ricardo pensou desanimado -- "É o ano começando e eu me dando mal...”

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo:

 

[a] Unforgettable. Intérprete: Natalie Cole dueto com Nat King Cole. Compositor: Irving Gordon. In: Unforgettable... with Love. Intérprete: Natalie Cole dueto com Nat King Cole. Elektra Records, 1991. 1 CD, faixa 22 (3min29)

[b] O Tal Casal. Intérprete e Compositora: Vanessa da Mata. In: Bicicletas, Bolos e Outras Alegrias. Intérprete: Vanessa da Mata. Sony Music, 2010. 1 CD, faixa 1 (4min20)

 

Sonho de Lady:

Pare o Casamento (Stop the Wedding). Intérprete: Wanderléa. Compositores: Fred Johnson / Leroy Kirkland / Pearl Woods. Tradução: Luis Keller;

Entre Tapas e Beijos. Intérprete: Leandro & Leonardo. Compositores: Antonio Bueno / Nilton Lamas;

Doce Desejo. Intérpretes: Bruno & Marrote ft Claudia Leitte. Compositores: Felipe / Bruno / Falcão;

Correndo Atrás de Mim. Intérprete: Aviões do Forró. Compositor: Renato Moreno

 


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Comentários para 35 - Sexta Temporada - FELICIDADE VI:
PaudaFome
PaudaFome

Em: 12/05/2024

Mistério resolvido enigma desvendado Irina presa e Su e Ju de volta que emoção!!! Suas músicas são perfeitas e os sonhos de Lady me fazem gargalhar. Isa é o máximo mas também amo Seyyed


Solitudine

Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
kkkkkkkkkk Que felicidade que Suzana e Juliana se reencontraram e Irina recebeu o retorno de suas más ações, não é verdade?

Obrigada por elogiar a trilha sonora.

Os sonhos de Lady têm que ser ao estilo dela, não? kk

Isabela e Seyyed também são um tal casal, não acha? rs

Beijos,
Sol


Responder

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Em: 03/04/2024

Moderniza caipira! Hahaha


Solitudine

Solitudine Em: 10/04/2024 Autora da história
Uai? kkkk


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Samirao
Samirao

Em: 01/04/2024

Amore, tá faltando pouco!


Solitudine

Solitudine Em: 02/04/2024 Autora da história
Para que, mulher?


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Hana Stewart
Hana Stewart

Em: 03/04/2023

Temporada maravilhosa e inesquecível!! Grande destaque da Isa, Lady aos poucos se conscientizando das burradas, Seyyed sendo Seyyed (pessoa mais altruísta da vida!). 


Solitudine

Solitudine Em: 08/04/2023 Autora da história
kkkk Isa cresceu muito mesmo e Lady, mesmo sendo uma adorável maluquinha, começava a ver que buscava coisas nos lugares errados.
Beijos,
Sol


Responder

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Femines666
Femines666

Em: 14/03/2023

Cada vez mais empolgada. Essa temporada tem sido a minha mais cara até agora. Podia dizer muito mas prefiro soltar foguete por ver Juliana e Suzana de boas novamente! Mas fiquei triste com Isa indo embora. Eu gosto da Camille mas queria ela com a Fátima e não com a Seyyed. Seyyed e Isa se pertencem!!

Volto em instantes 


Resposta do autor:

kkkk Vamos esperar você avançar para ver se seus foguetes podem ser lançados ou não. Espero que sim!

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 16/09/2022

MINHA RUIVA VAI EMBORA???? Ô, AUTORA!!! Não mata O CASAL dessa série 

Nem esse sonho de Lady me tranquilizou hehe


Resposta do autor:

Eu imaginei que você fosse sofrer, depois de tudo que li aqui. Mas calma. Nada que o tempo não ajude a resolver.

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 16/09/2022

Cararra eu não existo!! A sogrona que o diga hehe Cami tinha razão o tempo todo com aqueles guris. E o acerto do casal meus sogros, gostei! Lady e a marida é demais! Endoida até a garotinha. 

A parte meu bem: reconciliação Su e Ju! Ameeeeeeiiii

Jaque deu o recado. Priscila, se liga!


Resposta do autor:

Como diria Samirao: Seyyed é o must! rs

Criança que ninguém dá limites não pode terminar em boa coisa. Só se por si só a pessoa cresce e amadurece.

Lady fala os trem para Priscilinha e ela escuta, uai! rs

A delegada perdoou, viu, fi?

Será que ela se liga? 

Beijos,

Sol

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Samirao
Samirao

Em: 14/09/2022

Eu me empolguei !!!!!! Tantos coments é o must!


Resposta do autor:

Você sempre se empolga! Adoro isso!

Beijos,

Sol

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Samirao
Samirao

Em: 13/09/2022

Habibem aparece!! Responde a garota honey?


Resposta do autor:

Oia eu aqui! rs

Beijos,

Sol

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Samirao
Samirao

Em: 12/09/2022

Caipiralhasss


Resposta do autor:

Por que, uai?

 

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 26/04/2020

Olá querida como vai?

 

Seyyd sempre surpreendendo... A arte do perdão é por vezes difícil de exercer e ela o faz com uma serenidade impressionante.

 

 

Ricardo... Afff...

 

 

Priscilinha é demais, acertou em cheio ao falar com Priscila, muito bonitinho o jeito dela expor seus sentimentos.

Jaqueline também foi certeira nas palavras.

 

 

Essa caipira apronta viu? Kitesurf? Senhorrrrrr....

 

 

Que dupla Suzana e Tatiana! Aí sinto firmeza.

 

 

Finalmente Juliana e Suzana se acertaram!

 

 

Como dizem os cariocas: "Caracaaaaaaa!" Jaqueline "jantou" a dona Priscila, falou tudo o que pensamos dela.

 

 

Essa entrevista da Isa foi boa por demais e melhor do que a entrevista, foram as reações, uma melhor que a outra.

 

 

Lady nos tempos da jovem guarda... Kkkkkkk... Priscila encarnando Wanderléa, demais!Aí da jovem garda vamos para o sertanejo com Leando e Leonardo, que viagem! Kkkkkk...Tadinha da Priscilinha, que doideira... Kkkkk...

 

 

 

Beijos Solzinha


Resposta do autor:

Gabinha!!!

A atitude de Seyyed com Ana foi extremamente cristã.

 

Priscila levou umas cipoadas neste capítulo, não foi?

 

Kitesurf é massa! A caipira tem bom gosto! kkk

 

Isa e a família foram um show a parte na entrevista. Uma com classe e os outros no pastelão. Seyyed foi quem ficou sem chão.

 

Os sonhos de Lady que você gosta, uai! kkkk

Beijos,

Sol

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