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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 18568
Acessos: 10624   |  Postado em: 13/04/2020

Sexta Temporada - FELICIDADE IV

 

 

--A professora falou que eu tenho potencial pra entrar na Escola de Dança do Theatro! A idade mínima é de 8 anos, então a partir do ano que vem eu bem posso tentar! -- contava para o avô -- É a mesma escola que a Isa estudou!

 

--Nossa, que coisa maravilhosa! -- ele respondeu -- E eu apóio totalmente! Se é pra ser bailarino, tem que ser na categoria! -- passava manteiga no pão

 

--É? -- Mariano não se conteve e perguntou surpreso

 

--Claro! -- olhou para ele -- Eu sou um homem de cabeça aberta, além do mais Ricardinho é um Toledo! -- afirmou enfaticamente -- Na nossa família os homens não têm medo de fofoca alheia! Somos machos com m maiúsculo! -- olhou para Mari

 

--Humpf! -- a costureira fez um bico enquanto cortava o pão

 

--Que bom que gostou da novidade! -- Ricardinho respondeu -- Quando eu fizer minha primeira apresentação, vou lhe chamar pra ver! -- sorriu e comeu o pão

 

--Ah, eu vou aplaudir de pé na primeira fileira! Amante de balé como sempre fui, não hei de perder isso por nada! -- mordeu o pão

 

--Amante de balé?? -- Olga teve vontade de rir -- "Por que será que Romeu mudou de idéia tão rapidamente?” -- perguntou-se achando graça e ciente da resposta

 

--Ora, Olga, eu gosto de artes, cultura, clássicos! Não à toa que participo das investigações sobre tráfico de obras de arte que desvendarão quem é o psicopata místico! -- olhou rapidamente para a costureira, que não lhe dava a mínima

 

--Sério? -- Mariano perguntou -- Está envolvido nisso? -- bebeu café

 

--Ah, meu amigo, desde aquela época em que a repórter Tatiana pediu minha ajuda pra investigar sobre os laboratórios de crack foi como se um vulcão extinto houvesse entrado novamente em atividade! -- exibia-se

 

“Ô bicho besta!” -- a loura pensou enquanto mastigava

 

--Que bom que você é um homem que não tem medo de reconsiderar certas coisas, não? -- Olga perguntou achando graça. Limpou os lábios no guardanapo

 

--Ah, mas eu sou um homem moderno, arrojado! Meu sucesso com as mulheres não é sem razão! -- exibiu-se novamente

 

“Pra mim tem passagem livre!” -- a costureira pensou fazendo um bico

 

Nesse momento a campanhia tocou.

 

--Deve ser Camille! -- Mariângela exclamou animada -- "Não vejo a hora de me livrar desse bolha!”

 

--Eu vou abrir! -- Ricardinho correu até a porta e a abriu -- Oi, prima! -- abraçou a jovem

 

--Oi, querido! -- beijou a cabeça dele, fechou a porta e foi entrando ao lado do menino -- Oi, boa tarde! -- cumprimentou a todos -- Tudo bem?

 

--Oi, meu bem! -- Olga sorriu -- Ficará melhor se você se sentar e tomar café, por favor! -- ofereceu

 

--Você agora tem carro, menina! -- Mariano falou -- Não precisa ter pressa! -- sorriu

 

--Boa tarde, Camille! -- Romeu a saudou com a cabeça

 

--Eu agradeço mas tenho que finalizar um relatório urgente pra amanhã! Perdoem mesmo, mas é que minha data limite é amanhã, e pela manhã! -- olhou para a mãe -- Será que podemos ir? -- perguntou meio sem graça

 

“Ah...” -- Romeu pensou decepcionado -- "Logo agora que eu tava impressionando tanto minha deusa loira! Senti que chegava lá!”

 

--Claro! -- olhou para Olga e o irmão -- Perdoem a indelicadeza de lanchar e ir embora, mas vocês ouviram. A menina precisa que a gente vá!

 

--Dessa vez eu perdôo! -- Olga brincou

 

--Minha sobrinha tá ficando importante! -- afirmou orgulhoso -- Não demora e essa menina vai a gerente! -- sorriu

 

--Quisera, tio! Mas não é bem assim! -- sorriu e corou

 

--Ah, mas ele tem razão! -- a costureira se levantou -- Você tem muito futuro! Você e Ricardinho!

 

--Eu acompanho as duas até a portaria! -- o menino se ofereceu

 

Mariano e Olga se levantaram também.

 

--Também acompanho! -- Romeu se levantou de um pulo -- Esse menino não nega a raça! Cavalheiro como eu! -- sorriu -- Quando crescer vai ficar igualzinho a mim!

 

--Não roga praga pra criança! -- Mariângela resmungou enquanto se dirigia até a porta

 

Olga achou graça.

 

--O que, meu bem? -- o homem perguntou colocando a mão na cintura da loura mais velha

 

--Olha lá o destino dessa mão! -- deu-lhe um tapa

 

--Acho que eu as acompanharei também! -- Mariano seguia atrás vigiando Romeu

 

--Então vai logo todo mundo! -- Olga falou achando graça

 

Despediram-se na portaria e as duas louras atravessaram a rua para entrar no carro.

 

--E aí, mãe? -- Camille perguntou ao se sentar -- Vi o clima que tava rolando entre você e o coroa lá quando eu cheguei! Não é de hoje que percebo que ele tá amando! -- brincou e ligou a ignição

 

--Humpf! -- fechou a porta -- Amando! Só se for à mando do Cão! Aquilo ali é um encosto que o Bicho Ruim mandou pra me infernizar! -- fez cara feia

 

Camille ficou rindo.

 

--Fico impressionada como a presença de Mari faz você mudar de opinião rapidamente! -- Olga comentou olhando para Romeu -- Seja como for, espero que não desaponte o menino! -- deu dois tapinhas no peito dele e foi pegar o elevador

 

--Eu ajudo com a louça, mãe! -- Ricardinho foi atrás dela

 

--Agora somos nós! -- Mariano falou olhando para o outro homem -- Pensei que eu já tivesse lhe pedido pra parar de assediar minha irmã. -- cruzou os braços -- Sabe que ela não gosta disso! -- estava sério

 

--Ora, Mariano, minhas intenções são as melhores! -- respondeu olhando nos olhos do outro -- Além do mais Mari e eu estamos apaixonados!

 

--O que??? -- riu -- Isso é piada?

 

--Ela apenas tem medo dos próprios sentimentos! Mas juntos chegaremos lá! -- afirmou com certeza do que dizia -- A mulher que ela é precisa de um homem que sou eu!

 

--Ai, ai... -- balançou a cabeça negativamente e foi até o elevador -- Você é maluco!

 

--Maluco! -- falou para si mesmo -- Essa mulher ainda vai me pedir em casamento! -- passou a mão na cabeça calva -- Ela tá que não se agüenta de desejo, toda me querendo!

 

***

 

Olga presidia os trabalhos da sessão que contava com quatorze participantes. Suzana e Cléia novamente se encontravam no centro do círculo formado pelos médiuns. No plano espiritual, Lourdes, Valadão, Rodolfo, Vitória e Khazni se faziam presentes sob a orientação do Alto. Estela, a benfeitora de Patrícia, e o instrutor Felipe acompanhavam pelo pensamento.

 

--Deus amado, Onipresença do Universo, estamos aqui reunidos em Teu nome, buscando Tua ajuda para iluminar o espírito de Lucas Damaso, o qual se encontra ainda equivocado, cometendo crimes hediondos e injustificáveis. -- Olga orava -- Humildemente rogamos Tua permissão para contar com aquele que talvez seja o único capaz de tocar o coração endurecido de nosso pobre irmão.

 

O campo de força que unia os médiuns foi intensificado pelas Potências Celestiais e Suzana e Cleia desdobraram-se no plano astral. Segundos depois, três índios guardiães e Patrícia surgem acompanhados por outro espírito, que se apresentava como um rapaz.

 

--Yamaki saúda seus irmãos! -- a morena fez uma reverência

 

--Xarimã, Catüpe e Yakan saúdam Yamaki! -- um deles respondeu e reverenciou

 

--Lucas está na Pedra do Sino em Teresópolis. -- Patrícia falou -- Tá sozinho e prestando homenagens à lua cheia através de cânticos e invocações diabólicas. -- balançou a cabeça contrariada -- Ave Maria! -- exclamou -- Bem, em poucos instantes estaremos com ele.

 

--Estaremos conectadas a vocês por todo tempo que for necessário. -- a delegada afirmou resoluta

 

--Preciso do ectoplasma de ambas. -- o rapaz disse -- É necessário que ele me veja tão materializado quanto possível!

 

--Pode contar conosco. Estamos aqui para isso! -- Cléia respondeu

 

--Nós cuidaremos da proteção deles! -- Xarimã disse a Suzana, que respondeu balançando com a cabeça em concordância

 

Os cinco espíritos se concentraram e sumiram do campo de visão das médiuns. Em poucos instantes estavam em Teresópolis, pairando acima de Lucas, o qual dançava olhando para céu com as mãos postas para cima. Uma legião de espíritos perdidos no mal giravam ao redor dele como moscas.

 

Os três índios abordaram os obsessores e energicamente os expulsaram do local, garantindo a proteção de Patrícia e do rapaz.

 

--Agora é comigo! -- o jovem falou olhando para a moça, que assentiu com a cabeça

 

Com a ajuda do ectoplasma de Suzana e Cléia, aos poucos uma presença começou a se materializar diante de Lucas.

 

--Mas o que...? -- ele interrompeu seus cânticos sem entender o que acontecia -- Oh!! -- caiu de joelhos no chão sentindo o coração disparar -- Irineu!!! -- seus olhos marejaram -- Meu sobrinho querido!!! -- lágrimas rolaram-lhe pela face -- Há quanto tempo... -- sorriu emocionado -- Que felicidade!!

 

--Tio Lucas... -- respondeu com voz triste -- Não sei se posso dizer que me sinto feliz em vê-lo! -- olhava para o outro homem com pesar

 

--Mas, meu filho... -- ficou preocupado -- Por que está dizendo isso? Eu o amo tanto...

 

--Eu também sempre amei o senhor, mas muito me entristece ver o que anda fazendo. Um homem tão bom, tão sábio, desperdiçando sua vida neste intercâmbio malévolo com o qual se envolveu há tanto tempo! -- seu tom de voz era gentil porém firme

 

Lucas envergonhou-se. -- É que... depois que você morreu eu fiquei tão perdido... -- abaixou a cabeça -- E as vozes falando na minha cabeça me deixavam tão confuso... -- olhou para o jovem -- A vida se transformou num vazio sem cor depois que perdi você! E meu irmão, minha cunhada... -- chorava contidamente -- Eu sempre me senti um lixo, um trapo qualquer largado aos cuidados de gente estranha nos hospícios, a vergonha da família... -- fungou -- Você era a personificação da esperança pra mim! Você representava minha crença num mundo melhor, minha alegria... e daí veio Yamaki, aquela desgraçada, e tirou você de mim! -- falou com muita mágoa

 

--Ela fez o que fez porque não passava de uma menina extremamente traumatizada! Assim como o senhor, também teve seu mundo subtraído e enlouqueceu! -- tentava fazê-lo refletir -- Ela queria justiça, acreditava que faria um bem pra sociedade se matasse os assassinos de seu povo; e meu tio era um deles. Foi uma escolha minha protegê-lo e ela nunca adivinharia o que eu estava disposto a fazer para salvá-lo! -- explicava

 

--Não a defenda! Ela é uma assassina maldita! -- berrou

 

--Não a julgo por entender seus motivos. Yamaki não foi cruel, ela foi vítima da ignorância, da solidão e do desespero. -- olhava nos olhos do tio -- Ainda assim, ela foi capaz de se deixar transformar pela palavra do Divino Mestre e mudou de vida. Eu a perdoei e muito me faria feliz se o senhor a perdoasse também. -- pediu

 

--Mas... ela e as malditas mulheres que... -- falava em meio às lágrimas

 

--Não há mulheres malditas! -- interrompeu-o -- Elas assim como nós são um testemunho vivo da Bondade Infinita dessa Força Criadora que a tudo modela, transforma e ilumina. -- aproximou-se -- Pare de matar, pare de se envolver com espíritos ignorantes! O senhor tem um longo caminho de resgates dolorosos pela frente e é melhor que comece a se modificar o mais rápido!

 

--Você me pede muito... -- pressionou a cabeça com as mãos -- Me deixa confuso! -- chorava

 

--O senhor está doente e precisa de tratamento; não só pro corpo, mas pra alma. É hora de recomeçar.

 

Nesse momento, da mesma forma que Irineu, Patrícia se materializa.

 

--Lembra de mim, Lucas? -- ela perguntou

 

Ao vê-la, o homem sentiu uma estranha sensação e levou um susto. -- Você??

 

--Eu te persegui por muito tempo e alimentei um ódio contra você por igualmente por muito tempo. -- parou do lado de Irineu -- Mas agora conheço os laços que nos une e vejo que preciso te perdoar.

 

Ele estava atônito, confuso e não conseguia parar de chorar.

 

--Pense no que lhe falei meu tio. E perceba que não poderá lutar contra o inexorável. Ninguém perturba as Leis da Vida sem arcar com as conseqüências disso. Nós não somos vidas que correm separadas e independentes. “Nossas vidas imortais não são realmente nossas. Do útero ao túmulo estamos todos interligados; no passado e no presente. E através de cada crime e da cada ato bondade, nós moldamos o nosso futuro.”23 -- sua imagem desvanecia lentamente -- Que a Paz de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo habite em seu coração! -- desapareceu

 

--Fique com Deus, Lucas! -- Patrícia também sumiu diante de seus olhos

 

Lucas deitou-se no chão e chorou como uma criança.

 

***

 

--E agora, dona Olga? -- Suzana perguntava -- Será que surtirá efeito? Será que Lucas vai parar de cometer esses crimes terríveis?

 

--O tempo dirá, mas eu acredito fortemente que sim! -- sorriu -- Ele não vai ficar bonzinho simplesmente por causa do que aconteceu, mas não terá aquela vontade tão irresistível de matar.

 

--Que Deus a ouça! -- olhou para cima e depois para ela -- Seja como for, pude pedir perdão a Irineu e o fato de saber que ele não me odeia me fez me sentir muito bem! -- sorriu -- Foi uma emoção muito grande pra mim, ainda mais que pude ver dona Lourdes, o delegado Valadão, Rodolfo... -- falava com os olhos marejados -- Posso ver minha mãe, meus companheiros da tribo... Eu só os tinha visto uma vez em Roraima... -- segurou as mãos da mulher mais velha -- Muito obrigada por ter me feito o convite pra ser médium da casa e por me ajudar a viver esses momentos. Especialmente agora nessa fase de minha vida!

 

Olga beijou a testa da delegada. -- Não me agradeça, agradeça a Deus e confie nEle, pois seus problemas terão solução. -- pôs a mão no rosto dela -- Se um dia quiser desabafar comigo, sabe que estou à disposição!

 

--Ore por Juliana, dona Olga! -- pediu com tristeza -- Veja que ela nem veio comigo. O asilo que tanto quis construir aqui já está pronto e ela nem veio ver! -- comentou -- Por favor, ore por ela!

 

--Faço isso todos os dias desde que a conheci. -- olhava atentamente para o rosto de Suzana -- Será que você não me diria o que está acontecendo? -- perguntou com preocupação

 

A morena sentiu uma imensa vontade de desabafar, mas teve receio de incomodar uma pessoa como aquela com seus problemas conjugais. -- Não há o que dizer. -- mentiu -- Eu só preciso que a senhora continue sempre orando por minha japonesa.

 

Olga sentia que havia algo errado entre Suzana e Juliana, mas respeitou e não insistiu.

 

 

10:15h. 14 de abril de 2009, caminhando para o Acampamento Base do Everest (5364m), Nepal

 

O grupo de Sabrina seguia para o acampamento base com certa ansiedade. As péssimas condições de vento atrasaram a excursão em quatro dias e os participantes não viam a hora de chegar ao local onde efetivamente a escalada ao cume começava.

 

Uma vez que era a chefe da expedição, a escaladora precisava cuidar de manter seu grupo de dezesseis pessoas saudável, bem alimentado e acomodado, o que não era nada fácil. Aproveitando os recursos disponíveis no acampamento base, ela cuidaria de questões logísticas, do ferramental necessário, da quantidade de animais para transporte de carga, da alimentação, do suprimento de remédios, roupas e peças sobressalentes, etc. Fazer isso era uma empreitada extremamente complicada em condições de altitude.

 

Lila estava mal e por isso caminhava devagar. Havia ficado para trás de todo o grupo e Maya seguia a seu lado. Sabrina precisava se adiantar com o restante do pessoal e pediu para que a sherpa cuidasse da gaúcha.

 

Devido às lamentáveis condições de higiene do último acampamento onde estiveram, a mística passou muito mal do intestino e vomitou repetidas vezes. Teve acessos de tosse e sentia-se cansada como se suas forças tivessem sido drenadas.

 

--Preciso parar! -- pediu ao se apoiar em uma pedra

 

--Tudo bem. -- Maya concordou

 

“Mas, bá, o que eu vim fazer aqui? Isso não é pra mim...” -- pensava com remorso -- "Estou mal, sinto dores pelo corpo, frequentemente a cabeça me enlouquece de tanta dor, meus lábios estão rachados, a pele seca, os cabelos parecem palha de milho...” -- lamentava -- "Acho que se não morrer hoje, de amanhã não passa...”

 

Lila também estava muito abalada com a morte de um sherpa de uma outra excursão, durante a caminhada entre Pheriche e Lobuje, há seis dias atrás. O pobre rapaz havia escorregado em um dos trechos da parte inferior da cascata de gelo do glaciar Khumbu e seu corpo se perdeu em meio a um mar de neve e rochas. Ela estava bem perto dele e não teve tempo de fazer coisa alguma. Aquele olhar de desespero que o jovem lançou antes de desaparecer ficou marcado em sua memória de modo chocante.

 

--Eu não consigo esquecer! -- olhou para Maya -- Vejo aquele rapaz em meus sonhos, ouço seus gritos e aquele olhar... Eu não esqueço... -- falava com tristeza

 

--Nós, os sherpas, representamos mais de um terço das vítimas fatais de Sagarmatha (nome como os nepaleses chamam o Everest).24

 

--E por que continuam com esse trabalho? -- perguntou horrorizada -- Vejo como a vida de vocês é dura, daí! Muito esforço, muito peso pra carregar...

 

--Os sherpas competimos acirradamente por cada vaga disponível nas expedições dos escaladores e caminhantes. Pode-se ganhar de 1400 a 2500 dólares nesses dois meses de trabalho; sem estas excursões, no ano inteiro não ganhamos nem 200 dólares!24 -- explicou -- Sou indiana, filha de sherpas, e fui criada em Goa até meus doze anos. Tivemos de fugir para o Nepal por questões religiosas e desde então trabalho nas montanhas. Se assim não fosse, não sei o que seria de meus pais, que estão velhos e doentes, e do meu filho de cinco anos. Sou viúva porque meu marido morreu em uma excursão no Lhotse em 2007, e não tenho quem me ajude.

 

A gaúcha estava pasma. -- E tu sustentas essa família com o pouco salário que recebes aqui? Não considero 2500 dólares dinheiro suficiente pra se manter pelo ano todo! -- não conseguia acreditar -- E tu me pareces tão feliz, tão bem, tão satisfeita! Como consegues ser assim?

 

--“O que somos é consequência do que pensamos.”25 Não sou eu quem sirvo ao dinheiro, é ele quem deve me servir. E se me faltar, basta-me ter em abundância aquilo que ele não compra. -- sorriu -- Você está iludida com a matéria, deixa-se por ela dominar e sua ganância lhe fez perder sua própria essência. Ao longo dos dias, sua atitude mudou e não vejo mais resquícios da mulher que se disfarçava com frases de uma filosofia que não tocou sua alma. -- apontou na direção do cume do Everest -- Deixe que Sagarmatha lhe desperte e comece a viver! Você não vive, desperdiça tempo!

 

Lila ficou envergonhada e manteve-se calada escutando.

 

***

 

Camille circulava pelo Shopping Barra Garden procurando roupa de inverno. Sabia que atenderia a um evento em Frankfurt no mês de dezembro e precisava estar preparada.

 

Depois de alguns minutos viu que Aline estava sentada em uma mesinha conversando animadamente com um homem, cujo rosto não podia ver.

 

“Hum, deve ser o tal brasileiro rico de pobreza dos Estados Unidos!” -- revirou os olhos

 

Caminhou em direção a eles e antes que chegasse foi vista pela amiga.

 

--Oba, que coincidência boa! -- levantou-se sorridente -- Amor, -- olhou para o homem -- quero que conheça minha melhor amiga! -- indicou Camille com os braços

 

Ele se levantou sorrindo e quando deu de cara com a loura paralisou.

 

--Amiga, esse é Ricardão, meu namorado! -- Aline os apresentou sem se dar conta da reação dele

 

Camille parou diante de Ricardo e arregalou os olhos. Levou uma das mãos aos lábios e exclamou surpresa e indignada: -- Mas eu não acredito! Ô louco, mas você... Não pode ser!!

 

O homem continuava mudo. “Oh, shit!” -- pensou contrariado

 

--Vocês se conhecem? -- Aline perguntou desconfiada

 

--Oi, Camille... -- Ricardo cumprimentou constrangido

 

--Se a gente se conhece? -- a loura respondeu olhando para o primo -- Esse aí é Ricardo Pereira Zanini, filho do meu tio Mariano, que passou mais de 20 anos fora do país e sem dar notícias pra ninguém. -- fazia uma cara feia -- Mas, claro, depois de ter aprontado todas!

 

--O que??? -- Aline olhou com surpresa para o namorado -- Então vocês são primos??

 

--Don’t talk like this, não foi bem assim, Camille! Além do mais você era uma criança, o que sabe daquela época? -- respondeu chateado

 

--Eu era criança mas não era doida, meu! E nem sofro de esclerose! -- protestou -- Lembro muito bem do quanto você sacaneou meu tio, e todo mundo sabe que tia Clotilde não agüentou e morreu de desgosto por sua causa!

 

--Gente, tô boba! -- Aline cobriu a boca com as mãos

 

--Olha lá o que fala, Camille! -- respondeu mal humorado -- Você não sabe nada da minha vida!

 

--Ah, não? -- cruzou os braços indignada -- E pelo visto você mudou muito pouco, se é que mudou em alguma coisa, uma vez que veio pra cá mentindo pra minha amiga!

 

--E qual foi a mentira? -- Aline perguntou olhando pra Camille -- Tem mais alguma coisa que eu não sei?

 

--Ele nunca foi dono de restaurante, Aline! -- respondeu sem tirar os olhos do primo -- Meu tio viu ele na televisão, há coisa de três anos atrás, pousando de vítima do Katrina! Ele vivia de vender cachorro-quente em Nova Orleans mas o furacão chegou e acabou com a festa! Foi parar até em albergue!

 

--Jura??

 

Ricardo não disse coisa alguma.

 

--Não dá tempo e nem condição pra ter aberto um restaurante bem sucedido em Miami!

 

--Ai, meu Deus! -- Aline pôs a mão no peito -- Fui mais uma vítima de um crime cibernético! -- jogou-se sobre a cadeira

 

--Ei, mas eu não sou criminoso! -- protestou -- Camille você tá falando de um jeito que a garota vai ficar pensando que eu sou um... salafrário!

 

--É exatamente o que penso de você! -- respondeu enfática -- E não acredito nem pra te fazer favor que você chegou no Rio no dia em que se encontrou com ela no aeroporto! -- afirmou sem receios -- Fala a verdade, meu! Você tava tirando com ela!

 

--Tem mais alguma mentira nessa história? -- Aline olhou para Ricardo com muita decepção -- Fala, Ricardão, se é pra me matar de desgosto, mata logo de uma vez que eu já tô com a navalha na carne!

 

--Bem, eu... -- coçou a cabeça envergonhado -- "Eu já tô ferrado mesmo, que diferença faz?” -- pensou -- Eu cheguei no Brasil no dia 09 de janeiro e passei um mês na casa de tia Rosa... -- olhava para o chão -- Eles não sabiam o endereço de papai ou o teu e passei um mês servindo de empregado lá enquanto procurava por tua prima Lígia! -- contava a verdade -- Ralei como um condenado! Até das frieiras de tio Alípio eu cuidei! -- balançou a cabeça em desgosto

 

--Eca!! -- as duas responderam ao mesmo tempo

 

--Depois que achei Ligia passei uma noite na casa dela pra nunca mais! Eles são pessoas estranhas e os filhos dela roubaram meu relógio, o mp4, quase todo o dinheiro que tava na minha carteira e mais um par de tênis. Até hoje não sei porque não roubaram meu laptop! -- pausou -- Quando fui reclamar, o tal do Mateus me pegou pelo colarinho e me jogou escada abaixo!

 

--Eu sabia que o destino daqueles dois tava nas mãos do capeta! -- a loura pensava em voz alta -- A garota de O Chamado e o brinquedo assassino! Eles serão os herdeiros naturais do psicopata místico... -- balançava a cabeça

 

Aline e Ricardo não entenderam, mas mesmo assim o homem continuou: -- Eu peguei carona pro Rio no caminhão de um cara que ia pra Vitória. Morei debaixo de viaduto, na rodoviária, dei meu jeito, até que resolvi entrar contato com Aline e inventar aquela história toda de férias no restaurante...

 

--Seu cachorro! -- Aline se levantou e deu um tapa no braço dele com toda força que podia -- E eu aqui te dando boa vida e noites de amor inesquecíveis! -- reclamou de cara feia

 

--Inesquecíveis mesmo! -- ele retrucou -- Minha coluna tá que eu não agüento, e o... negócio lá, -- indicou o próprio sex* discretamente -- mal consegue fazer um xixi!

 

“Mas o que Aline tanto faz que destrói e desconjunta o povo??” -- a loura pensou intrigada -- "É uma verdadeira tomba homem, ô, louco!”

 

--Pois de hoje não passa! -- Aline jogou alguns guardanapos embolados sobre o homem -- Você vai pegar os seus trapinhos e sumir da minha casa! Cachorro, sem vergonha, fingido da internet! -- falou mais alto

 

Ricardo corou de vergonha ao reparar que haviam pessoas nas outras mesas prestando atenção.

 

--Camille, please! -- aproximou-se dela -- À despeito do que pensa sobre mim, me diz como encontrar meu pai! Eu preciso falar com ele, preciso vê-lo! Foi por ele que eu voltei! -- pediu com olhos súplices -- Please!

 

--Eu não acredito nessa tua cara de Madalena arrependida, mas vou te ajudar. Primeiro pega tuas coisas na casa de Aline e enquanto isso eu falo com o tio. Se ele quiser te ver, eu passo lá e te busco.

 

--Passa lá na portaria do prédio, você quer dizer, porque na minha casa ele não fica nem mais um segundo! -- deu outro tapa com força no braço dele -- Ex namorado mentiroso e kaozeiro!

 

“Oh, fuck, não dou uma dentro!” -- Ricardo pensou desanimado

 

--Vocês ouviram isso? -- uma adolescente perguntou para as amigas -- O cara e a garota se conheceram por internet e ele é o maior 171! -- olhava para elas

 

--Eu também conheci um cara numa sala de chat e... Acho que meu namoro termina hoje! -- uma delas decidiu receosa

 

***

 

Mariano aguardava pelo filho com nervosismo. Depois de ouvir tudo o que Camille falou, decidiu encontrar-se com ele no dia seguinte.

 

--Olga, eu tô tão agoniado! -- andava de um lado a outro com impaciência -- Faz tanto tempo que a gente não se vê! E eu não sei se ele tá bem intencionado, se voltou pro vício, se é homem de bem... O que sei é que continua mentiroso, o que não é nada bom!

 

--Calma, meu amor! -- foi até o marido e o beijou -- Calma! Não sofra por antecedência! -- sorriu e beijou-o novamente -- Como bem nos ensinou o Mestre, seja bondoso mas sem perder a prudência!

 

O contador sorriu e segurou as duas mãos dela. -- Incrível como tem o poder de me tranqüilizar sem a menor dificuldade. -- beijou-a

 

--Pai, se meu irmão é Ricardinho também, como é que a gente vai saber quem é que vocês tão chamando? -- o menino perguntou intrigado -- É algo a se pensar... -- ponderava

 

Mariano achou graça. -- Vem aqui, meu filho! -- abriu os braços e o garoto foi abraçá-lo -- Você vai saber quem é quem, não fique preocupado! -- beijou a cabeça dele -- Agora eu vou chamar meu outro filho apenas de Ricardo e Ricardinho fica sendo só você!

 

Nisso, o interfone toca.

 

--Devem ser eles! -- Olga foi atender

 

--Ele vem com Camille, pai? -- olhou para o contador

 

--Vem, querido. Seu irmão não conhece as coisas no Rio de Janeiro.

 

Minutos depois, Ricardo e Camille entravam no apartamento. Mariano ficou inerte no meio da sala sem saber o que fazer. Ter o filho ali, diante de si, depois de tanto anos, pareceu despertar nele algumas mágoas e lembranças adormecidas.

 

--Oi! -- a loura beijou o rosto de Olga e sorriu

 

--Oi, meu amor! -- beijou a cabeça dela com carinho e olhou para o enteado -- Eu sou Olga, -- estendeu a mão -- seja bem vindo a nossa casa! -- sorriu

 

“É uma coroa bonitona! E que olhos azuis! Meu pai se deu bem!” -- Ricardo pensou admirado -- Obrigado! -- beijou a mão dela -- Estou encantado! -- sorriu

 

--E esse é seu irmão! -- segurou o menino pelos ombros -- Vocês têm o mesmo nome!

 

“Irmão?? Um casal dessa idade não pode ter um filho tão novo!” -- pensou intrigado ao olhar para o menino -- "Sequer se parece com eles! Com certeza é adotado!”

 

--Oi! -- a criança estendeu a mão -- Eu sou Ricardo também!

 

--É um prazer, garoto! -- apertou a mão dele e fez um carinho rápido na cabeça do menino

 

--Oi, Camille! -- abraçou a prima -- Como você achou meu irmão? -- perguntou curioso

 

--Oi, meu lindo! -- beijou o rosto da criança -- É uma longa história! Acho que tenho esse talento de encontrar os desaparecidos! -- sorriu e se lembrou do modo inesperado como encontrou Vitória quando o menino ainda era um bebê

 

--Olá, Ricardo! -- o contador cumprimentou sem emoção

 

--Long time no see, my dad! -- sorriu -- Você não mudou quase nada! Só ficou um pouco calvo!

 

--Aí é que você se engana! Eu mudei muito, como nem poderia imaginar! -- respondeu secamente

 

--Bem, -- Olga falou olhando para Camille e o filho -- vamos deixar os dois a sós porque eles têm muito pra conversar!

 

--Ah, mas eu queria ouvir tudo! -- Ricardinho protestou

 

--Que é isso, menino? -- Olga ralhou achando graça

 

--Deixa de ser fofoqueirinho, meu! -- a loura também se divertiu -- Tô de carro aí, vamos dar uma volta! -- convidou

 

--Ah, mas aí eu vou! -- o garoto concordou

 

--É só o tempo de pegar a bolsa! -- Olga falou indo para o quarto

 

Mariano e Ricardo ficaram calados se olhando até o momento em que Olga, Ricardinho e Camille saíram. Assim que a porta se fechou, o contador perguntou à queima roupa: -- Por que voltou? O que pretende?

 

--Nossa, pai! -- exclamou admirado -- Que recepção é essa que você me dá!

 

--E o que você esperava? -- respondeu controlando a revolta -- Você mente pra mim dizendo que faria um intercâmbio de seis meses nos Estados Unidos e desaparece por mais de 20 anos! Foram mais de 20 anos sem dar uma notícia sequer! -- sua expressão era de contrariedade e mágoa -- Tem idéia do quanto me fez sofrer? Tem idéia da dor que senti? Eu já não tinha mais sua mãe e de repente perdi meu único filho! -- não conseguia se calar -- Eu fui demitido por sua causa logo depois que você foi embora e se não fosse por sua tia e meu cunhado, nem sei o que seria de mim! -- calou-se por alguns instantes e circulou um pouco pela sala -- Por muitos anos eu me senti um fracasso como pai! Por muitos anos eu chorei aos pés da Virgem pensando em você... -- olhou para ele

 

--Foi por isso que adotou o garoto? -- arriscou

 

--Não só por isso... mas também por isso. -- respondeu mais calmo

 

--What a shame... Eu não tenho o que dizer porque você tá certo em tudo que falou! -- pôs as mãos nos bolsos e abaixou a cabeça -- Quando eu fui embora, saí daqui como tantos outros brasileiros que largam tudo pra tentar a sorte lá fora. E como a imensa maioria deles, só me dei mal... -- pausou -- Acredite pai, é muito difícil se dar bem se você não chega lá com uma boa proposta de emprego desde sair do Brasil. A gente acaba ralando muito, morando mal, comendo mal, sofrendo preconceito, passando todo tipo de perrengue e no final junta uns trocados, compra umas besteirinhas e não raciocina que se tivesse ficado aqui teria sido muito melhor! -- olhou para o contador -- Eu trabalhei em todo tipo de coisa que possa imaginar, até pra bandido! Não te procurei por orgulho, pra não dar o braço a torcer, pra não mostrar que eu tinha quebrado a cara! -- riu brevemente -- Conheci um camarada lá que virou um grande amigo e ele dizia sempre: “ -- Faça como todos nós! Brasileiro que se preze, mesmo que se ferre por aqui, nunca pára pra contar derrota!” -- pausou -- Depois eu não te procurei por vergonha.

 

--E você não se casou? Não me diga que abandonou alguém por lá?

 

Ricardo gastou uns segundos calado antes de responder. -- Eu vivi dez anos com uma mexicana que me ensinou muita coisa... O nome dela era Consuelo Ramírez e nós tivemos um filho, que se chamou Alejandro. -- abaixou a cabeça e sentiu os olhos marejarem -- Nos últimos anos, morávamos em Nova Orleans em condições muito precárias, mas a gente dava conta do recado. -- pausou -- Os dois morreram num assalto na farmácia perto do lugar onde eu trabalhava... -- respirou fundo e tentou não chorar

 

--Sinto muito! -- lamentou com pesar

 

--Então eu aprendi o que é perder um filho! -- olhou para o pai no momento em que uma lágrima rolou-lhe pelo rosto -- E aprendi a te entender depois que virei pai!

 

--Geralmente é assim que a gente funciona!

 

--Pra completar perdi meu furgãozinho quando o Katrina varreu tudo por lá! Nunca mais me recuperei depois disso!

 

--E por isso voltou?

 

--Voltei porque... I missed you so much! -- fez um olhar de tristeza

 

--Está dizendo que voltou por saudade de mim?? -- Mariano perguntou incrédulo e gargalhou gostosamente

 

--Pai! -- não gostou da atitude do contador

 

--Você pensa que eu sou idiota, Ricardo? -- encarou com o filho -- Não acredito nisso! Você voltou porque não é mais um garoto, não tem profissão e nem construiu nada na vida! Não tem onde cair morto e daí se lembrou do velho pai aqui! -- bateu no peito desaforado

 

--Será que não percebe que eu mudei, pai? -- perguntou magoado -- Eu cresci, aprendi com o sofrimento, tô limpo das drogas e preciso recomeçar! -- falou mais alto -- Quero oportunidade, quero trabalhar! -- pausou -- E quero meu pai de volta!

 

--Você mudou? -- perguntou com descrença -- Como quer que eu acredite nisso depois do que fez? Você usou a amiga de Camille pra ter onde ficar enquanto não me encontrava! Mentiu pra ela e se não fosse por sua prima estaria nesse teatro até agora! -- estava contrariado

 

--OK, you are right! Eu sei que errei! -- passou a mão na cabeça -- Mas menti por desespero!

 

--Há sempre uma causa pra você mentir!

 

--Pai... -- aproximou-se do homem mais velho -- Me dá uma chance? Me deixa ficar aqui? Pelo menos enquanto eu não arrumo um canto pra mim? -- perguntou com jeito

 

--Não posso decidir isso assim antes de falar com Olga. Não moro sozinho, rapaz!

 

“Claro, ela é a dona da casa!” -- lembrou -- Eu deixei minhas coisas num armário que aluguei na rodoviária. Passei a noite lá...

 

Mariano ficou calado.

 

--So, what can I say...? -- sorriu receoso -- Lembro de quando eu fazia besteiras e você brigava comigo. Sua zanga nunca durou muito! Lembro do modo como cuidava de mim e do conforto que sempre senti no seu abraço. Eu me sentia protegido como nunca mais me senti! --- abriu os braços emocionado -- Quando vai me dar um abraço? Me faz ser menino de novo? -- pediu humildemente

 

O contador olhou dentro daqueles olhos verdes como os seus e não mais conseguiu resistir à saudade. Abraçou-o com força e chorou. Ricardo fechou os olhos e chorou também. Depois de tantos anos, sentiu-se um garoto mais uma vez.

 

***

 

Maio estava em seus primeiros dias e Isabela seguia com seu trabalho, o qual abrangia agora cinco comunidades. A ajuda de Neyan era-lhe muito valiosa e estava feliz em vê-lo tão dedicado ao projeto como se mostrava. O coreógrafo já não tinha mais o mesmo alongamento de antes, porém o conhecimento e o gosto pela dança permaneciam intactos.

 

Mariângela havia saído com Iolanda, a representante da associação de moradores do Pavão Pavãozinho, para comprar algumas artigos que estavam faltando e por isso a ruiva estava sozinha resolvendo problemas burocráticos dos quais não podia se esquivar.

 

Concentrada em seus afazeres nem percebeu que uma moça a observava. -- Professora? -- ela falou em voz baixa

 

A bailarina levantou a cabeça e viu que se tratava de Karine, a primeira jovem que se matriculou no balé quando o projeto começou.

 

--Olá, querida! -- sorriu -- Vejo que quer conversar comigo!

 

--Será que teria um tempo? -- perguntou com receio

 

--Sente-se! -- interrompeu o que fazia para dar atenção a ela -- Pode falar.

 

--É que... eu queria muito participar da apresentação que o grupo vai fazer em Brasília! Eu sei que tenho condições! Por favor, professora, deixa eu ir! -- pediu como se fosse criança

 

Isabela sorriu, gastou uns segundos calada e depois respondeu olhando para a jovem: -- E será que não se lembra do motivo que me levou a cortar seu nome da lista?

 

--Mas professora! -- fez cara de choro -- Eu cometi um erro, mas quem não erra?

 

--Você descumpriu as regras, Karine! -- argumentou enfática -- Perdeu quase um mês de aulas no colégio pra ficar dançando! Eu também amo a dança mas nem por isso deixei os estudos de lado, do contrário!

 

--Mas eu prometo que nunca mais faço isso! -- estava a ponto de implorar -- Eu queria treinar bastante pra ser a melhor! Fico louca a cada vez que a Ana Fluminense vem aqui e palestra pra gente! -- argumentava para se justificar -- Será que não entende? Eu fui a primeira aluna do projeto a ser aceita na Escola de Dança do Theatro!

 

--Claro que entendo, mas você mentiu pra sua mãe e pra mim! E se não fosse pelo seu ex namorado nós talvez demorássemos muito mais tempo pra saber que você faltava ao colégio!

 

--Aquele X9 miserável! -- cruzou os braços de cara feia -- Mas vê se ele falou que eu terminei porque o safado andava na droga, isso ele não fala!

 

--Fico felicíssima em saber que você não se envolve com drogas, mas o fato é: a senhora descumpriu uma regra! -- afirmou enfática -- Se eu abrir exceção pra você perco a moral diante dos outros alunos!

 

--Eu faço qualquer coisa, professora! -- quase se deitou sobre a mesa -- Mas por favor, não faça isso comigo! Não me deixe fora dessa! Por favor, me dê uma chance! Juro que nunca mais vou decepcioná-la novamente! -- pedia aflitamente

 

Isabela se levantou e ficou pensando no que fazer. De repente, uma lembrança de uma conversa com Ana Fluminense veio nítida em suas memórias:

 

“--Ai, Ana, que maravilha! -- deu pulinhos -- Eu nem sei como te agradecer!

 

--Eu me lembro de você salvando a pátria quando Joice se acidentou. -- cruzou as pernas -- Um dia, você será uma bailarina experiente e vai receber a visita de uma jovem talentosa, que pode até pecar pela ansiedade, mas que vai te inspirar a dar a ela uma oportunidade. -- pausou -- Lembre-se de que um dia você foi essa jovem! -- aconselhou

 

--Juro que não esquecerei! -- sorriu"

 

A ruiva balançou a cabeça pensativa e reconsiderou: -- Tudo bem, Karine. Você vai! -- olhou para ela

 

--AHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!!! -- deu um berro e pulou como pipoca -- Ai, professora, eu te amo, te amo, te amo!!! -- abraçou a ruiva empolgadamente

 

--Calma, menina! -- achou graça

 

--Eu prometo que nunca mais vou lhe dar motivo de desgosto! Prometo! -- sorria agradecida

 

--Qualquer vacilo eu corto você de novo! -- ameaçou

 

--Juro que não tem mais vacilo! -- beijou os dedos em formas de cruz

 

Isabela sorriu e disse: -- Escute uma coisa, Karine. Um dia, você será uma bailarina experiente e vai receber a visita de uma jovem talentosa, que pode até pecar pela ansiedade, mas que vai te inspirar a dar a ela uma oportunidade. -- pausou -- Lembre-se de que um dia você foi essa jovem! -- repetiu as palavras de Ana Fluminense -- Eu não esqueci, e por isso voltei atrás!

 

--Eu não vou esquecer também! -- prometeu e beijou o rosto da ruiva -- Te acho o máximo e quero seguir seu exemplo na minha carreira! -- saiu da sala pulando que nem pulga -- "Quando mamãe souber vai ficar toda prosa!” -- pensou feliz

 

A bailarina cruzou os braços e ficou pensando em como as coisas acontecem na vida. Um dia, ela era uma jovem sedenta pelo sucesso e corria atrás das luzes dos holofotes como se dependesse daquilo para viver. Hoje, parecia não se importar em não ser a estrela mais conhecida no cenário do balé internacional. O que lhe motivava agora era trabalhar para que sonhos se concretizassem e outros pudessem crescer e brilhar, mesmo que fosse mais do que ela mesma um dia brilhou.

 

“A gente muda tanto...” -- pensou

 

Ao mesmo tempo, via em Karine a personificação de si mesma no passado nem tão distante e achava graça no modo como a história parecia se repetir sempre.

 

“O charme da história e sua lição enigmática consiste no fato de que, de tempos em tempos, nada muda e mesmo assim tudo é completamente diferente.”26 -- filosofou consigo mesma

 

 

12:45h. 05 de maio de 2009, Edifício Véritas, Centro Comercial Norte, Brasília

 

Tatiana estava no escritório de Brasília finalizando a matéria que considerava a segunda grande reportagem bombástica de sua vida. Concentrada que estava, foi surpreendida pela voz de um conhecido.

 

--Boa tarde, minha Ariadne! Você deveria estar no almoço a essa hora, não?

 

--Lucas?!! -- girou a cadeira para vê-lo -- Meu Deus, o que faz aqui, uai? -- levantou-se apavorada

 

--Será que poderíamos conversar? -- perguntou usando seu mais fino tom

 

A jornalista estava boquiaberta. -- Claro! -- apontou para a cadeira diante de sua mesa -- Por favor! -- ofereceu -- "Eu tô sonhando ou ele veio mesmo?” -- pensou embasbacada

 

--Sendo assim, -- sentou-se -- eu me sento! -- sorriu

 

--Deseja uma água, alguma coisa? -- perguntou -- "Eu tô doida o que? Oferecendo aguinha pro criminoso, mulher, sê besta!” -- pensou se recriminando

 

--Fique tranqüila! -- agradeceu com um gesto -- O que eu quero mesmo é conversar. Vim pra contar tudo!

 

--Tudo?! -- sentou-se empolgada -- "Não pode ser tão fácil! O que ele pretende?” -- pensou desconfiada -- Como me encontrou?

 

--Posso encontrar qualquer pessoa que procure, desde que tenha um objeto dela ou já a tenha visto alguma vez. -- respondeu orgulhoso -- Mas... você que é uma repórter que gosta de repercussão não quer saber o que tenho a dizer? -- perguntou cruzando as pernas

 

--Lógico, uai! E entrevistar alguém como você é sempre muito interessante! -- puxava pela vaidade dele -- "E não foi por vaidade que ele veio me procurar?” -- pensou

 

--Algumas coisas aconteceram na minha vida que me fizeram reconsiderar... -- pausou -- Não cometerei mais crimes e pretendo me entregar a polícia. Preciso de tratamento e... a vida aqui fora é muito sem graça se você não pode arrancar uns corações ou cortar umas cabeças por aí!

 

“Ave Maria!” -- Tatiana pensou horrorizada enquanto buscava o gravador -- Posso? -- mostrou o aparelhinho

 

--Fique à vontade! Grave tudo e não se atreva a distorcer minhas palavras! -- recomendou -- Detesto certas gírias! -- revirou os olhos

 

“E mais essa!” -- indignou-se -- Vamos começar -- ligou o aparelho -- Cinco de maio, estou em Brasília e Lucas Damaso me procurou por livre e espontânea vontade para falar tudo que sabe. -- pausou e olhou para o homem -- Lucas, então... você é o psicopata místico?

 

--The one and only! -- respondeu orgulhoso

 

--E por que? Por que mudou de tática e o que pretendia com tudo isso?

 

--Eu fui um bom menino e ganhei condicional. Daí pensei nas pessoas que estavam na minha lista negra e marquei: -- enumerou nos dedos -- Yamaki, ou Suzana Mello, como preferir, e Sabrina, a escaladora metidinha. Então eu pensei que seria muito sem graça simplesmente pegar essas duas e acabar com elas. Tinha que haver algo mais, só que sem minha seita fiquei desnorteado...

 

--E por que eu também não estava na sua lista negra? -- não entendia

 

--Quem iria me mostrar pro mundo? Você e eu temos uma história! -- respondeu como quem explica o óbvio -- Não gosto de repórteres, mas vocês cumprem um importante papel social.

 

--Sei. -- estava abismada -- "Eita, psicopata pra gostar de aparecer!”

 

--Daí, curiosamente fui procurado por um homem que tinha um estranho prazer: assistir vídeos reais de mulheres sendo estupradas e mortas! -- contava sua história -- E descobri que tem muita gente que adora vídeos assim! -- pausou -- Não sei como ele me encontrou, mas deixou claro que pagaria muito bem se eu fizesse o trabalho, não importava o preço! -- olhou seriamente para a garota -- Há malucos de todo tipo nesse mundo, minha jovem, há que se ter cuidado! -- advertiu

 

“Veja só! Como se ele também não fosse!” -- ficou indignada

 

--Ele também queria mais: queria aumentar seu poder, seu patrimônio, suas influências... O louco chegou no Brasil com as mãos abanando e conseguiu progredir muito; mas não está satisfeito! Ele quer tudo!

 

--E então você conjugou o pedido dos vídeos com os rituais macabros que o ajudariam a ter esse poder todo?

 

--É por isso que eu vim aqui! -- sorriu satisfeito -- Detesto papo com gente burra! -- balançou a cabeça positivamente -- Você me poupa de explicações!

 

--E por que as relíquias?

 

--Eu consultei os meus guias e eles disseram que deveriam ser oito sacrifícios! Então eu fiquei pensando... oito sacrifícios, caminho óctuplo... -- pausou -- O mundo vai mudar e as pessoas não estão se dando conta! A Terra vai se transformar e virá por aí uma época de muita dor e sofrimento! Minha mensagem é essa! As pessoas precisam entender que nada é pra sempre! -- deu um soco na mesa e se recompôs -- E eu também aproveitava esses rituais para afetar aquelas que estão na minha lista negra! -- explicava -- Para Sabrina, mandei doença e para Yamaki... -- sorriu maquiavélico -- Ela sabe o que eu mandei!

 

--E a lembrança do caminho óctuplo lhe fez escolher pelas relíquias indianas? -- tentava encontrar algum sentido naquela loucura toda

 

--Eu visitei uma exposição de arte medieval e as peças indianas me encantaram bastante. Decidi que seriam um bom pagamento para meus serviços e uma forma inteligente e culta de conscientizar o mundo. -- respondeu orgulhoso -- Não tente entender, são coisas de gênio!

 

--Com toda certeza! -- respondeu ironicamente -- E como escolhia as vítimas? Com base em que?

 

--Meu cliente escolhia o tipo físico e algumas características básicas, eu só fazia procurar quem se encaixasse no perfil. Quando aparecia a mulher certa, eu pegava.

 

-- E quem é esse homem, afinal? O seu cliente?

 

--Quer nome, endereço e tudo mais? -- riu -- Ah, minha jovem, eu só o vi uma vez, mas tenho todos esses dados. E ele não sabe, mas tenho uma gravação de nossa conversa. -- sorriu -- Esses telefones celulares de hoje em dia têm tantos recursos, não?

 

--Você fazia tudo sozinho? -- perguntou curiosa -- Os sacrifícios, a filmagem...

 

--No primeiro caso sim, mas foi muito complicado. O vídeo ficou péssimo! Depois arrumei dois secretários, e você vai ficar boquiaberta quando souber: não são pessoas quaisquer! -- pôs o celular sobre a mesa -- Está tudo aí, as provas do que digo! -- a repórter pegou o telefone -- E vou ser ainda mais bonzinho pra você! Vou lhe entregar tudo o que sei sobre a magia negra nesse país! Quem pratica e onde!

 

--E por que? -- perguntou desconfiada

 

--Agora que sairei da ativa, acho que esse negócio tem que acabar. Sem mim, a coisa perde o sentido! Eu sou o melhor! -- sentia-se celebridade

 

“É muita cara de pau!” -- pensou controlando a raiva -- Fico feliz que esteja disposto a ajudar!

 

--Não me agradeça! Estou apenas atendendo a um pedido muito especial. -- pensou em Irineu

 

--Por fim, responda uma pergunta que ficou no ar: se viu seu cliente apenas uma vez, como entregava os vídeos que fazia? E como é que recebia o pagamento em forma de relíquias? -- pausou -- Isso não se manda por e-mail ou pelo correio!

 

--Eu negociava com uma jovem advogada que o representa em diversas situações. Aliás, ela estava com ele na primeira e última vez que vi aquele doido varrido.

 

--E o nome dela é?

 

--Parece que já teve quem a dedurasse! Mas por falta de provas, ela escapou... Ela e o chefe dela.

 

--Irina Meyer? -- arriscou

 

--Casa comigo? -- piscou para ela

 

“Ih, eu hein? Sai pra lá, bicho!” -- Tatiana pensou apavorada enquanto se benzeu

 

***

 

Juliana estava sozinha bebendo refrigerante em um bar. Havia discutido com Suzana e saiu de casa querendo pensar na vida. Ultimamente sentia-se confusa e não sabia o que fazer. Não se sentia mais atraída pela delegada e pensava em deixá-la, mas ao mesmo tempo um sentimento forte a impedia de fazer isso. Seria amor?

 

--Terra para Juliana! -- uma voz melosa se fez ouvir

 

--Irina? -- olhou espantada para ela -- Mas será possível que sempre me encontra? -- perguntou contrariada

 

--Não fale como se não gostasse disso. -- sentou-se do lado da japonesa -- O que foi? Pensando na vida?

 

--Por favor! -- virou-se de lado no banquinho para encará-la -- Me deixe em paz, tá legal? Não é me perseguindo por toda parte que vai me fazer entrar no jogo do seu cliente! Eu não quero isso pra mim! -- afirmou enfática

 

--Já faz um bom tempo que quem te procura não é a advogada, mas a mulher! -- respondeu insinuante -- De mais a mais, não represento aquele homem desde o mês passado!

 

--Como é?? -- não acreditava

 

--Eu cansei, sabe? -- passou a mão nos cabelos -- O seu exemplo me fez repensar muita coisa na minha vida! -- falava convincentemente

 

--Meu exemplo? -- estava desconfiada

 

--Sua força de caráter, sua paixão pela justiça, pela verdade, pela ética... Ainda não havia conhecido alguém assim em toda minha vida! -- olhava nos olhos da enfermeira

 

Juliana ficou toda prosa mas não demonstrou. -- E daí pensou na vida e desistiu de trabalhar pro mau caráter?

 

--Exatamente isso! -- respirou fundo e abaixou a cabeça -- Sou filha única e minha mãe me criou sozinha e com muita dificuldade. Quando eu estava na universidade, descobrimos que ela tinha câncer! -- olhou para Juliana novamente -- Um tipo raro que não tinha tratamento no Brasil. -- pausou -- E foi aí que ele apareceu na minha vida! -- suspirou -- Ele me ofereceu os recursos pra levá-la pros Estados Unidos e eu aceitei sem pestanejar. Minha mãe se tratou, ficou curada e eu me senti nas nuvens...

 

--Mas...? -- perguntou meio que adivinhando o resto da história

 

--Ele me pediu fidelidade em troca. E desde formada trabalho praquele crápula! -- pausou por uns instantes -- Minha mãe morreu há seis anos atrás e me pediu em prantos pra que o deixasse. Iludida pelo status do qual goz*va não lhe dei ouvidos, mas depois de conhecê-la, Juliana, tudo mudou!

 

A japonesa sentia-se perturbada com aquela história que lhe parecia verdadeira e falsa ao mesmo tempo. -- Você sabe, porque foi indiciada, que seu ex cliente comprou as relíquias que o psicopata místico usou. Sabia que o homem estava envolvido em crimes tão bárbaros e ainda assim permaneceu do lado dele? -- estudava o rosto da outra

 

--No começo eu pensava que ele era mais um excêntrico a colecionar raridades. Não perco meu tempo com noticiário e centenas de pessoas são mortas diariamente pelo mundo afora. Não dou atenção a notícias sobre crimes, acho pesadas demais. Foi no quinto assassinato que eu fiquei sabendo que as relíquias eram deixadas junto aos corpos e aí me desesperei. -- contava sua versão dos fatos -- Desde então, preparei terreno pra deixá-lo e agora eu fiz!

 

--Mas você o defendeu com unhas e dentes quanto Brito a abordou. Por que fez isso? Seria o momento ideal pra entregá-lo!

 

--Eu não podia fazer isso, será que não entende? -- perguntou sobressaltada -- Se eu o entregasse iria presa também! -- passou a mão nos cabelos -- E eu nada fiz além de servir como uma intermediária idiota!

 

“Que história! Onde começa e onde termina a verdade?” -- a enfermeira estava dividida -- Mas ele será descoberto com toda certeza. Você vai aparecer querendo ou não!

 

--Eu sei, mas... -- balançou a cabeça como se quisesse esquecer aquele assunto -- Não foi pra falar sobre isso que eu vim lhe abordar! -- segurou uma das mãos da outra -- Agora eu moro em Brasília e meu apartamento não é longe daqui. -- sorria -- Eu não sabia que iria encontrá-la hoje. Vim pra beber e esquecer dos problemas, só que não preciso de álcool tendo você por perto!

 

--Irina... -- recolheu a mão que a loura segurava

 

--Vem comigo pro meu apartamento? -- pediu caprichando na sensualidade -- Vamos conversar?

 

--Eu... sabe que sou casada! -- sentiu o coração acelerar e a excitação crescer entre suas pernas

 

--Vem? -- pediu quase em um sussurro

 

Juliana ficou pensando e uma profusão de sentimentos revolveu-se furiosamente em seu peito. Tinha muito a perder e não quis arriscar. Algo dizia que ela não deveria aceitar o convite, por mais tentador que fosse.

 

--Desculpe, Irina, mas não dá! -- olhou para o balcão -- Garçom! -- chamou -- Minha conta! -- colocou um dinheiro sobre a mesa -- O troco é seu! -- levantou-se e olhou para a loura -- Não venha atrás de mim! -- foi embora

 

A advogada ficou acompanhando seus passos com o olhar.

 

***

 

Priscila havia acabado de falar com Priscilinha pelo Skype. Morria de saudades da criança e de sua mãe.

 

Conversou brevemente com a engenheira e estava feliz em saber do emprego que a maluquinha conseguiu em uma empresa de design do produto. “Criatividade ela tem de sobra!” -- achava graça

 

A dentista havia se envolvido com um canadense que conheceu no supermercado, mas terminou o relacionamento após a primeira noite com ele. Não conseguiu sentir prazer e lembrou o tempo todo do que viveu com Lady.

 

“Que inferno!” -- reclamava

 

Sem sono, decidiu gastar suas últimas horas do dia lendo o blog de Lila. Queria saber como estavam as coisas no Everest.

 

“Lila parece diferente. Quem lê o diário dos primeiros dias não reconhece essa pessoa que escreve agora!” -- a dentista pensava admirada

 

As últimas novidades a deixaram um tanto alarmada.

 

“Escalar o Everest exige bem mais do que pensei.” -- Lila escreveu -- “Eles sobem e descem entre o acampamento base e os acampamentos 1, 2, 3 e 4 repetidas vezes até que o corpo se aclimatize e seja viável partir para a investida final. E com isso o tempo passa e as forças se esvaem... Vale a pena tanto sacrifício? O que eles querem? Fico a me perguntar...

 

O mau tempo e muitos imprevistos técnicos causaram atrasos em todas as excursões, fazendo com que somente agora o grupo de Sabrina, que é o mais adiantado, esteja pronto para atacar o cume. Eles estão no acampamento 4, há quase 8000m de altitude, e partirão rumo ao topo do mundo logo nas primeiras horas da manhã de amanhã.

 

Sabrina é uma verdadeira mãe zelosa por seu grupo e uma intendente notável. É uma pena que sua competência não tenha sido capaz de evitar os inúmeros percalços que surgiram por culpa de outros. Aliás aprendo cada vez  mais que a montanha é um livro a nos ensinar como a vida funciona: estamos todos interligados e as atitudes de uma pessoa podem gerar conseqüências graves para outras várias.

 

Converso pelo rádio com ela, sempre que possível e tento acalmá-la quando as coisas vão mal. Ultimamente os ventos fortes são assustadores!

 

Às vezes falo com Maya, a sherpa que funciona como sirdar da escalada. Ah, sim, você deve estar se perguntando sobre o significado da palavra sirdar. Entenda como o chefe dos sherpas, nesse caso, escaladores. Ontem Maya me disse que os escaladores do grupo de Sabrina estão contaminados por um mal que não tem cura até que se desça da montanha: a febre do cume; e assim como eles, todos os outros grupos desta temporada, que são doze pelo lado nepalês. Essencialmente a febre do cume é um termo que ela usou para descrever um misto de ansiedade com vaidade. Maya teme que as conseqüências sejam fatais; e eu também agora.

 

Tivemos um desfalque nas garrafas de oxigênio suplementar e isso muito me preocupa. Sabrina queria desistir, mas ninguém aceita isso e ela teme deixar seu grupo sozinho. Seja como for, deixou claro que depois das 14:00h quem não estiver no cume está proibido de tentar continuar. Acima dos 7000m, na chamada zona da morte, qualquer segundo desperdiçado pode ser fatal; os riscos de um edema pulmonar ou cerebral aumentam exponencialmente.

 

Tempo... eis o recurso mais desperdiçado neste planeta! Quantas as vezes eu brinquei com ele como se fosse uma coisa qualquer, que se recupera facilmente. Que nada! A montanha me ensina que cada momento é único e os relógios não correm para trás.

 

Sofrendo aqui no acampamento base nessa longa espera, vejo, analisando os erros dos outros, cada passo mal conduzido que dei em todos esses anos. Foi como bem me disse Maya: “Só vemos nossos próprios erros através dos olhos dos outros."27


Que Deus ajude que amanhã eles atinjam o cume e que isso não custe a vida de ninguém mais. Uma das excursões perdeu mais um sherpa anteontem e muito sofri por conta disso.”

 

 

05:17h. 13 de maio de 2009, rumo ao cume do Everest (8848m) - 24

 

Sabrina, Maya e Peter chegaram à Balcony, uma plataforma a 8400m de altitude. Conversavam em inglês.

 

--Meu Deus, onde estão as cordas?? -- a escaladora perguntou sem entender o que se passava

 

--Mas não é possível! Ang Shya e eu instalamos cordas fixas em toda parte superior da crista sudeste! -- Maya estava chocada

 

--E como excursão mais adiantada, nós nos comprometemos com os outros grupos a instalar essas cordas! -- Peter lembrou -- Sem elas, as excursões comerciais terão problemas e a merd* vai resvalar em todo mundo! -- reclamou

 

--Maya, eu trouxe corda! -- Sabrina jogou a mochila no chão -- Vamos instalar até onde der! -- decidiu

 

--Você tem se esforçado muito consertando os erros que surgem, Sabrina! -- Peter advertiu

 

--Eu não quero ver ninguém mais morrendo aqui! -- ela respondeu secamente -- Enquanto fazemos isso, desça um pouco mais e procure as cordas sobressalentes que deixei a uns 110m abaixo! -- ordenou

 

Peter concordou balançando a cabeça e começou a descer, no entanto estava fingindo. Ele queria chegar ao cume e não se importava com os outros. Queria poupar energias e não estava disposto a subir novamente com peso extra. Escondeu as cordas sob a neve e alegou que não as encontrou.

 

As cordas novamente instaladas foram insuficientes e uma confusão de escaladores e clientes de excursões comerciais formou-se, horas depois, acima dos 8000m. Alguns desistiram e retornaram, mas a febre do cume já havia contaminado a maioria das pessoas.

 

Cobra-se 70 mil de dólares por grupos de escaladores que pretendem chegar ao topo da montanha e as empresas especializadas que levam clientes em excursões comerciais cobram de 65 a 70 mil dólares por pessoa (é isso mesmo!). Esse era um outro fator que estimulava para que muitos não abandonassem a empreitada. Às vezes, para não perder dinheiro e sair no prejuízo material, colocamos outras coisas em jogo; geralmente bem mais valiosas.

 

Sabrina se cansou bastante ajudando as pessoas e evitando acidentes até que às 14:15h desesperou-se quando viu que, desobedecendo suas ordens, cinco escaladores de seu grupo seguiam para o cume encarando o escalão Hillary. Ninguém havia concluído a escalada com sucesso naquela temporada e os cinco persistentes queriam ser os primeiros.

 

--Maya, -- Sabrina olhou para a sherpa -- quero que desça com meu pessoal para o acampamento 4. Não há cordas instaladas ao longo daquela crista -- apontou para o Hillary -- e eu temo que aqueles cinco não voltem com vida.

 

--Sagarmatha anuncia nevasca e ventos fortes! -- apontou para o cume -- Eles não deveriam ter ido e você deve ter muito cuidado. Está desgastada e não mais consegue pensar com a clareza habitual. -- advertiu -- Deixe-me acompanhá-la. Mando os outros sherpas desceram com os escaladores.

 

--Eu não confio nos outros sherpas como confio em você e não se discute acima dos 7000m! -- argumentou ansiosa -- Faça o que eu disse! Por favor!

 

Maya beijou a mão dela apesar das luvas. -- Que Brahman esteja com você! -- preparou-se para descer

 

A escaladora seguiu adiante a conseguiu, apesar de cansaço extremo e dos ventos que varriam as encostas nevadas, alcançar os escaladores a tempo de evitar a queda de um deles.

 

--Voltem imediatamente! -- ordenou com voz fraca e alguns gestos

 

--Peter está no topo do escalão! -- um deles falou

 

Sabrina usava seu segundo e último cilindro de oxigênio e calculou que ele expiraria dali a uma hora. Embora pareça muito tempo, em altitude os movimentos se desenvolvem em câmera lenta. Sabia que corria um risco, mas decidiu enfrentar.

 

--Eu vou buscá-lo, vocês descem! -- continuou seu caminho

 

Os homens obedeceram contrafeitos e iniciaram a descida. Os ventos que os castigavam também falaram por si só.

 

Atingindo o topo do escalão, a morena viu que Peter caminhava com dificuldade rumo aos poucos metros que o separavam do cume. Tentou chamá-lo mas não tinha forças. O silvo dos ventos tampouco deixaria que sua voz fosse ouvida.

 

Cambaleante como um bêbado, Peter derrubou seu cilindro de oxigênio no chão e perdeu o equilíbrio. Terminou por cair em uma cunha de gelo, desaparecendo completamente da visão.

 

Sabrina sentiu uma enorme dor no peito ao presenciar a morte do colega e interrompeu seus passos. No entanto, dezenas de bandeirolas budistas que ornavam o cume e bailavam ao sabor do vento pareciam um convite para que continuasse.

 

“Está tão perto de mim...” -- pensou com um sorriso nos lábios

 

Enquanto isso, no acampamento base Lila se desesperava.

 

--Tenho um mau pressentimento! -- falava em inglês para o sirdar do acampamento -- Sabrina não se comunicou pelo rádio e os membros das outras excursões receberam notícias de que as coisas estavam tensas! -- olhava para o homem em desespero

 

--Ela disse que o horário limite era duas da tarde! Depois disso, sem cume! -- o sherpa respondeu

 

--E já são quatro e vinte e nem Maya se comunica! -- pegou o rádio nervosamente -- Eu vou chamar Sabrina! -- tentava contatar a escaladora

 

A alguns passos do cume, de repente pareceu a Sabrina que podia ouvir uma conhecida canção:

 

(Se você ouvir a música, juro que fica melhor!)

https://www.youtube.com/watch?v=NBE-uBgtINg

“Anol Shalom,
Anol sheh lay komud de ne um,
Flavum,
Nom,
de leesh,
Ham de nam um das,
La um de,
Flavne...”

 

--Não pode ser! -- ficou surpresa -- Enlouqueci ou estou ouvindo a música de Patrícia? -- caminhava em câmera lentíssima e nem percebeu que seu cilindro de oxigênio despencava nos flancos do Everest

 

“We de ze zu,
bu,
We de sooo a ru,
Un va-a pesh a lay,
Un vi-i bee
Un da la
pesh ni sa (Aaahh)...”


A escaladora ouviu que era chamada pelo rádio. Removeu a máscara de borracha do rosto e atendeu: -- Sabrina!

 

--Mas, bá, guria louca, onde é que tu estás?

 

A morena olhou para o céu e de repente pôde ver, à despeito da tempestade que se formava, um belíssimo clarão nos espaços como se as portas celestiais houvessem sido abertas.

 

--Perto do céu! -- respondeu extasiada derrubando a máscara no meio da neve

 

“Un di-i lay na day
Un ma la pech a nay
mee di nu ku...”

 

--Saia daí! Tá muito tarde!! -- gritou quase chorando

 

--Eu estou exatamente onde deveria estar... Adeus, Lila! -- desligou o rádio e deixou que o aparelho caísse no chão

 

--Sabrina!!!!! -- Lila berrou chorando


“La la da pa da le na da na
Ve va da pa da le na da dumda...”

 

Sabrina pôde ver que, junto com outros espíritos iluminados, Patrícia vinha a seu encontro sorrindo.

 

“La la da pa da le na da na
Ve va da pa da le na da dumda...”

 

--Meu amor! -- a morena exclamou emocionada

 

“La la da pa da le na da na
Ve va da pa da le na da dumda...”

 

Patrícia pairava acima do cume e sorriu de braços abertos. -- Venha, meu anjo! Falta pouco!”

 

A escaladora continuava sua lenta caminhada para alcançar o topo do mundo. Faltava pouquíssimo.

 

“La la da pa da le na da na
Ve va da pa da le na da dumda...”

 

--Consegui! -- a morena levantou os braços e olhou para cima sorrindo

 

--Conseguiu! -- Patrícia chorava concordando com a outra


“Anol Shalom
Anol Sheh ley
Kon-nud de ne um”

 

Sabrina caiu de joelhos no chão e em seguida tombou de bruços na neve. Virou-se de barriga para cima com dificuldade. Continuava sorrindo.


“Flavum
Flavum
M-ai shondol-lee
Flavu...”

 

--Hoje é o dia da libertação dos escravos! -- Patrícia dizia -- Liberte-se e venha pra mim! -- esperava de braços abertos


“Lof flesh lay

Nof de lis

Ham de num um dass

La um de Flavne...”

 

Sabrina fechou os olhos lentamente e seu espírito libertou-se do corpo como uma borboleta deixando o casulo.


“Flay
Shom de nomm

Ma-lum des...”

 

Patrícia a acolheu nos braços e seguiu conduzindo sua amada, fazendo-se acompanhar por um cortejo de espíritos de luz, rumo à uma das muitas moradas existentes na casa do Pai.


“Dwondi
Dwwoondi
Alas Sharum du koos

Koot-tum”

Now We Are Free - Enya


(As dificuldades que os escaladores encontraram na ascenção ao Everest foram baseadas e inspiradas no livro No Ar Rarefeito, de Jon Krakauer)

***

 

Às 19:20h, Lila conseguia contatar Maya pelo rádio, a qual encontrava-se com os outros membros do grupo congelando no acampamento 4.

 

--Maya, Sabrina está contigo? -- perguntou angustiada

 

--No final das contas, os esforços dela valeram a pena! -- respondeu com tranqüilidade -- Estão quase todos aqui, inclusive os membros das outras três excursões que teimosamente não cumpriram o planejado e seguiram quase junto conosco!

 

--Quase todos?! Tu não me respondeu, guria! Sabrina está contigo? Ela está, não é? -- não queria aceitar o contrário

 

--Nem ela e nem Peter. -- continuava calma

 

--Ai, meu Deus, Sabrina está morta!! -- começou a chorar com tristeza -- Ela e Peter! Eu sabia, eu sentia mas não queria aceitar!

 

--Peter foi abatido pela morte, ela não!

 

--Como assim?? -- perguntou esperançosa -- O que quer dizer??

 

--Certas pessoas não morrem, elas vivem um encontro! -- sorriu

 

A gaúcha não respondeu e desligou o rádio chorando com pesar.

 

***

 

A notícia da morte de Sabrina repercutiu em vários países do mundo, já que a conclusão do projeto dos sete e dos quatorze cumes em uma única escalada chamava a atenção de escaladores de todas as partes. A imprensa brasileira noticiou o fato com alarde e o Presidente da República divulgou uma nota de pesar. A jovem escaladora salvou muitas vidas e foi homenageada como heroína por muitas pessoas.

 

Dias depois, Lucas Damaso entregou-se à polícia e a entrevista que fez com Tatiana foi apresentada no jornal de Brasília e posteriormente reproduzida por emissoras de rádio e TV. Juliana intensificou a luta para que Lucas fosse enquadrado como inimputável e, conseqüentemente, impedido de retornar ao convívio social enquanto vivesse.

 

A reportagem sobre magia negra foi divulgada no final de maio pela revista Isso Vai!, causando imenso rebuliço no país. Muitos foram presos, outros tantos caíram de seus postos e o caso acendeu vários debates no seio da sociedade civil, despertando protestos em diversas cidades, nas quais a população exigia que as autoridades iniciassem processos investigativos sobre a ocorrência de tais práticas.

 

Irina entregou tudo o que sabia sobre seu poderoso cliente, que acabou cometendo suicídio dias depois de sua prisão preventiva. A advogada foi submetida a julgamento mas, face às provas existentes, a Justiça entendeu que ela não havia cometido crime algum.

 

 

10:50h. 15 de novembro de 2009, vôo Brasília-Rio de Janeiro

 

Aline voltava de uma viagem de trabalho. No dia anterior, participou de uma reunião em Manaus e agora retornava ao Rio em um vôo que fazia conexão em Brasília. Sentado a seu lado, um rapaz aparentando seus 30 anos demonstrava certo nervosismo.

 

“Nossa, mas que sujeito nervoso! Parece a ponto de ter um ataque!!” -- pensou enquanto prestava atenção no companheiro de viagem -- "Talvez seja bom puxar uma conversa pra descontrair, ainda mais que é um tremendo gatinho!” -- decidiu -- Oi, colega! Tudo bem? -- sorriu para ele -- Aceita uma pastilha? -- ofereceu

 

--Vixi, eu acho que vou aceitar! -- pegou uma -- Tô com um aperreio da peste! -- respondeu tentando sorrir -- "Que gordinha simpática!” -- pensou

 

--E por que? -- perguntou curiosa -- Não gosta de andar de avião?

 

--Ave Maria, que gosto nada! -- pôs a bala na boca -- E não é só isso; tô saindo de minha cidade pra morar no Rio, de modos que fica aquela ansiedade, não sabe?

 

--Pelo sotaque, você é nordestino. -- deduziu -- Mas de que lugar?

 

--Campina Grande. À propósito, meu nome é Pedro! -- estendeu a mão -- Sua graça?

 

--Aline! -- apertou a mão dele -- Encantada, cavalheiro! -- sorriu

 

--Igualmente! -- soltaram as mãos -- E você é carioca, com toda certeza! -- sorriu -- "Mas eu tô gostando dos modos dessa garota!” -- pensou empolgado

 

--Da gema, como dizem! -- passou a mão nos cabelos -- Você trabalha em que, Pedro?

 

--Sou administrador de empresas e passei num concurso público. No final de tudo, me transferiram pro Rio. -- pausou -- E você? Qual é a sua profissão?

 

--Eu sou engenheira de produção e trabalho como analista de comércio.

 

--Vixi, que massa! -- ficou impressionado -- Acho lindo ver as mulheres ocupando cargos poderosos! -- sorriu

 

--Ah, mas não tenho poder algum, quisera! -- fez um charminho -- Sou apenas uma solitária engenheira peão!

 

--Solitária?! -- perguntou espantado -- Oxi que os cabra do Rio não tão com nada! -- comentou lisonjeiro

 

--Ah, mas não tão mesmo! -- respondeu enfática -- E por qualquer coisa ficam tudo destruído! -- pensava nos ex namorados -- Recentemente tive um namorado de São Paulo, que morou fora por muitos anos, e a decepção foi a mesma! Tudo frouxo! -- desabafou

 

--Oxente! -- exclamou surpreendido -- Eu não sei o que acontece com esses cabra, não! Mas, vou falar, eu não tenho tido sorte com mulher! Acho que porque os cabra são frouxo elas desacostumaram de homem macho e ficaram frouxa também, não sabe? Por qualquer coisa ficam tudo rendida! -- desabafava -- Nunca fui namorador, mas as poucas namoradas que tive logo se largaram de mim! -- olhou para Aline -- Elas ficavam tudo desconjuntada!

 

--Menino, mas não é? -- segurou o braço dele e se aproximou para cochichar -- Sei que mal nos conhecemos, mas com todo respeito, -- olhava para ele -- fui tentar fazer o Baco invertido com um ex namorado e ele teve até uma fratura... lá, nas partes! -- gesticulou

 

--Vixi! -- arregalou os olhos -- Já eu fui tentar a posição da mola com a dos bailarinos e a garota danou-se que foi é toda! -- cochichou também

 

--Ih, eu já fiz isso aí! -- exclamou empolgada

 

“Vixi, que encontrei a mulher da minha vida!” -- pensou com animação -- Já tentasse a flexão invertida com o arco sagrado? -- perguntou curioso

 

--Tentei! Foi uma loucura, mas eu tive que chamar a fisioterapeuta pra me tratar! -- balançava a cabeça

 

--Eu também tentei e fiquei com dor, mas depois passou! -- confessou

 

Aline ajeitou-se no assento e comentou jogando um charme: -- Vejo que você é um homem de fibra!

 

--Cabra da peste, como dizem! -- bateu no peito

 

“Ô, meu Pai! Será que encontrei o homem da minha vida?” -- pensou esperançosa

 

--Eu vou gastar minha primeira semana me assentando na cidade, mas depois... -- Pedro arriscava -- Será que... você e eu não poderíamos... marcar de... -- estava envergonhado -- "Será que ela aceitaria sair comigo?” -- questionava-se

 

--Eu conheço o Rio como a palma da minha mão! -- exibiu-se -- Posso bancar a sua cicerone enquanto não está cem por cento familiarizado com a cidade! -- ofereceu

 

--Você faria isso?? -- perguntou sorridente

 

--E por que não? -- enroscava uma mecha de cabelo nos dedos -- Afinal de contas não é sempre que se encontra um cavalheiro cabra da peste por aí!

 

Pedro sorriu embevecido. “E eu sempre gostei de mulher carnuda!” -- pensou admirando a jovem diante de si

 

***

 

Camille estava em casa, deitada na cama e escrevendo seu mais novo conto. Escutava música usando os fones de ouvido e nem percebeu a movimentação na sala.

 

--Camille, -- Mariângela entrava em seu quarto -- larga disso aí e vem pra sala! -- sorria -- Temos visitas!

 

--O que? -- tirou o fone dos ouvidos

 

--Temos visitas, menina! Vem pra sala que você vai gostar de saber quem chegou! -- retirou-se

 

--Quem será? -- levantou-se e foi ver de quem se tratava

 

--Pequena? -- Fátima perguntou sorridente -- Já me acostumei a identificar seus passos suaves!

 

--Ah, eu não acredito!! -- pulou empolgada -- Fátima, dona Jurema, que surpresa boa!! -- correu para abraçá-las

 

Mãe e filha estavam sentadas na poltrona, uma do lado da outra. Levantaram-se e abraçaram a loura ao mesmo tempo.

 

--Que saudades, pequena!! -- a nadadora beijou o rosto da engenheira

 

--Há quanto tempo! -- Jurema exclamou -- Fico feliz em vê-la, e cada vez mais bonita! -- sorria

 

--Ô louco, que é isso? -- sorriu encabulada -- É claro que vocês almoçam com a gente, né? -- convidou

 

--Eu convidei e as proibi de recusar! -- Mariângela afirmou enfática

 

--Então só nos restou aceitar a honra! -- Fátima respondeu animada

 

--Vou ser sincera, -- Jurema dizia -- o cheiro que vem da cozinha foi o argumento que me deixou de pernas bambas!

 

--A comida da minha mãe é da hora, dona Jurema! A senhora, mesmo sendo excelente cozinheira, há de me dar razão! -- disse orgulhosa

 

--Então fique aí fazendo sala pra elas que eu vou preparar tudo e arrumar a mesa! -- a costureira afirmou enquanto se dirigia até a cozinha

 

--Nada disso! -- Jurema respondeu -- Eu vou com você! -- foi atrás dela

 

Camille e Fátima se sentaram na poltrona uma ao lado da outra. A loura segurou a mão da nadadora e ficou olhando para ela, que sorria.

 

--Que bom que voltou! Quando vi junho chegar e nada de você aparecer pensei que nunca mais a veria novamente! -- lembrava -- Você mal sai da China e vai fazer não sei o que nos Estados Unidos! -- riu

 

--É uma longa história, mas... no final voltamos! -- pausou -- E pra morar no Rio.

 

A loura nada respondeu e sorriu animada

 

***

 

Mariângela, Camille, Jurema e Fátima haviam acabado de almoçar e permaneceram na mesa conversando.

 

--Olha, mas vocês têm que ver! -- Jurema contava -- Os chineses gostam de engaiolar ou colocar em caixinhas tudo que canta! É passarinho, grilo, uns bichos esquisitos... São barracas e barracas vendendo isso! -- olhava para as louras -- E os campeonatos de corrida de barata? As corridas de gafanhoto? Minha Nossa Senhora, o que era aquilo? -- riu

 

--Dá medo só de pensar! -- a engenheira respondeu arrepiada -- Odeio barata! Gafanhoto nem se fala!

 

--E aquele povo come mesmo os insetos e mais outros bichos no espetinho? -- a costureira perguntou -- Besouro, escorpião, lacraia... Aquilo é verdade ou lenda?

 

--Eles não têm por hábito comer essas coisas malucas no dia a dia. -- Fátima respondeu -- Existem as feiras vendendo esses animaizinhos fritos no espeto, mas o apelo é até muito pra turista e pros chineses que querem um tira gosto mais... exótico. -- sorriu -- Eles comem muita fritura, de fato, mas a dieta conta com arroz, muitos legumes, raízes e outras coisas que eu não conhecia.

 

--E têm as iguarias mais finas como o pato. -- Jurema lambeu os lábios -- Eu adorava o pato chinês! -- olhou para Mariângela -- Aprendi como fazer e vou te ensinar!

 

--Ai, eu quero saber! -- sorriu

 

--E é verdade que eles comem bicho da seda, ninho de passarinho...? -- Camille perguntou descrente

 

--É! -- Fátima respondeu desgostosa -- E eu tive de comer tudo isso porque são iguarias caríssimas! -- lembrava -- Fui convidada para alguns jantares finos e me serviram essas coisas como prova de estima e respeito. Se recusasse seria uma tremenda desfeita...

 

--Argh!! -- as louras exclamaram

 

--E o tira gosto pra abrir o apetite ainda era uma gosma horrorosa de ruim! -- a nadadora continuava -- Era uma espécie de pele de peixe muito mole e pegajosa. Grudou na minha garganta que pensei que fosse... -- pausou -- perdoem a má palavra, mas... pensei que fosse vomitar ali mesmo!

 

--Ô louco! -- Camille exclamou -- Se um dia eu for pra China vou me lembrar de fugir dos jantares finos!

 

--Mas e o terremoto, gente? -- Mari perguntou -- Vocês chegaram a sentir os efeitos dele? Como foi aquilo?

 

--O epicentro do terremoto foi em Sichuan, quase no centro do país, e o tremor chegou a 8 pontos na escala Richter! Deu pra sentir os efeitos na capital, porque os prédios balançaram de um jeito que deu pavor.

 

--Nem me lembre, Fátima! -- Jurema falou -- Graças a Deus que foi de tarde e eu tava bem acordada!

 

--Morreu muita gente e o governo decretou 3 dias de luto nacional. -- Fátima lembrava -- E foi essa tragédia que me fez pensar em não aceitar a renovação do contrato até 2010.

 

--Deus me livre! -- a costureira se benzeu -- Graças a Deus que não temos isso aqui!

 

--Mas nós passamos o almoço inteiro tagarelando e falando de nossa vida na China. Agora queremos ouvir de vocês! -- Fátima pediu -- Contem tudo que aconteceu nesses últimos tempos! Queremos saber!

 

--Pois é! -- Jurema concordou -- Eu vi até carro na garagem! -- piscou para Camille

 

--Muita coisa aconteceu. -- a engenheira falou -- Mas algumas coisas permanecem as mesmas. -- olhou para Fátima

 

A nadadora não podia ver o rosto da loura, mas entendeu aquela resposta como sendo uma afirmação de que as portas estavam abertas para ela.

 

“Hum...” -- Mariângela pensou -- "Paixão antiga sempre abala! Que nem o tal do terremoto...” -- filosofou -- "Mas eu até que faço gosto nesse namoro aí!"

 

***

 

--Você está sempre me surpreendendo, pequena! -- Fátima disse enquanto acariciava as costas da loura -- Camille Trevisani guiando um carro direto pra um motel... -- beijou-a -- Fiquei boba! -- sorriu

 

A loura corou e sorriu também. -- Hoje eu sou outra mulher, Fátima. Nem de longe me pareço com aquela chata desinteressante que você conheceu nas piscinas do poliesportivo! -- beijou-a também

 

--E eu só tenho a comemorar por isso! Mas digo que chata e desinteressante você nunca foi! -- abraçou-a com força e beijou-a com mais demora

 

A nadadora estava sentada com Camille no colo, a qual envolvia a cintura da amante com a perna e o pescoço com os braços.

 

Fátima segurou-a pelos cabelos com delicadeza e a fez se deitar de barriga para cima. -- Quero você de novo! -- seguiu beijando e experimentando o corpo da outra ao seu modo bem peculiar

 

--Ai, Fátima... -- gem*u -- Você vai me matar essa noite... -- sorriu

 

--Muito tempo de ausência pra compensar... -- continuava com seu processo de ver sem os olhos

 

--Ah!!! -- a loura gem*u novamente

 

Fátima se deleitava no corpo de Camille como quem faz uma homenagem. Ela amava a loura com paixão, carinho e respeito, o que repercutia poderosamente na alma da engenheira. Para Camille, Fátima era uma verdadeira terapia que muito a ajudava a recuperar, mais e mais, as partes ainda fragmentadas em sua auto estima.

 

Chegando no sex* da amante, a nadadora se dedicou a explorá-la de todas as formas, deixando que língua e dedos descobrissem cada possibilidade prazerosa que pudesse haver.

 

--Ah!!!!!!!!! -- Camille gemia alto, arqueando as costas

 

***

 

--E então, minha gata? -- Seyyed perguntava a Isabela enquanto manobrava o carro -- Que achou desse motel aqui? -- beijou-a rapidamente -- Aprovou? -- sorriu

 

--Eu não sou muito fã de motéis, mas até que esse é bem simpático. -- a ruiva respondeu olhando para a morena -- A companhia também não me dá muito tempo de ficar prestando atenção no detalhes do lugar... -- acariciava uma das coxas da amante

 

--Olha essa mão boba, aí, garota! -- brincou -- Não vai me fazer bater com o carro!

 

--Esse estacionamento aqui é grande, né? O estranho é que não pensaram bem e fizeram um monte de corredores que vão terminar numa saída estreita, que é a única, aliás! -- revirou os olhos

 

--Tem que ter cuidado pra ver se vem alguém dali! -- olhava para a esquerda -- Mas tá escuro! Só tem luz mesmo na saída!

 

--Meu, que corredor escuro! -- Camille reclamava -- E nem pintaram faixa luminosa, não consigo ver direito nem com o farol ligado!

 

--Eu também mal enxergo o caminho! -- Fátima brincou

 

Perto da saída, Camille e Seyyed param o carro bruscamente. Por pouco não bateram.

 

--Caraca! -- a morena reclamou

 

--Que droga! -- a loura falou ao frear

 

Verdes e azuis se encontraram.

 

--Gente, é Camille! -- a ruiva exclamou surpreendida -- E quem é aquela??

 

--Fátima. -- Ed respondeu com seriedade. Piscou os faróis indicando que a loura deveria seguir

 

Totalmente constrangida e corada a engenheira seguiu seu caminho e foi embora. A morena permaneceu parada.

 

--Ed, vai! -- Isa pediu olhando para a amante

 

--Tô indo! -- respondeu enquanto manobrava

 

--O que foi, pequena? Por que freou bruscamente e depois voltou a andar?

 

--É que... -- estava sem graça -- Aquele motel contratou um engenheiro burro que projetou um estacionamento péssimo! Quase bati no carro de um casal e fiquei com vergonha, foi isso! -- não mencionou sobre Ed e Isa

 

--Pelo tom percebo que ficou inclusive transtornada. -- Fátima comentou

 

--Nem tudo mudou em mim! -- tentava disfarçar -- Ainda tenho vergonha de certas coisas... E quase fucinhar com outro carro na saída de um motel é uma delas!

 

Fátima achou graça.

 

--Parece que ver Camille saindo do motel com outra mulher te deixou meio transtornada. -- a bailarina afirmou sem rodeios

 

--Fui pega de surpresa! Que situação esdrúxula, encontrar uma conhecida na saída do motel e quase bater no carro dela! -- pausou -- E era eu que teria de consertar os dois carros! -- brincou para tentar parecer natural

 

Isabela suspirou e nada respondeu. "Não entendo porque Ed ficou assim! Fazia tanto tempo que essa coisa com Camille havia passado!” -- pensava -- "Mas também pode ser porque foi mesmo um constrangimento. Com gente conhecida fica ainda pior!” -- olhou discretamente para a outra -- “O bom de tudo isso é que uma vez comprometida, Camille definitivamente não vai me trazer problemas!”

 

“Não entendi porque fiquei tão destreinada só porque a vi com a outra lá.” -- Seyyed pensava -- "Eu tô bem com a Isa há muito tempo e não quero saber de me complicar. Camille não é uma garotinha e eu tenho que parar com isso de me preocupar com quem ela namora. Ela sabe se cuidar!”

 

***

 

--Então é isso, Ed. -- Suzana desabafava com tristeza -- Minha japonesa não quer mais saber de mim... -- olhava para o chão enquanto arrancava pedaços de grama -- E eu tenho certeza que é por causa da tal da Irina...

 

--Nossa, mas eu tô boba com isso! -- a mecânica respondeu intrigada -- Juliana nunca foi de traição, ainda mais com esse tipo de mulher que nem faz a cabeça dela! -- não acreditava -- A japinha te ama tanto... -- balançou a cabeça negativamente -- O que é que você andou aprontando, Suzana? -- olhou para a delegada

 

As duas conversavam sentadas no chão de uma praça perto do apartamento em que Ed vivia.

 

--Eu não aprontei foi nada! -- jogou os pedaços de grama no chão -- Nunca fui de aprontar!

 

--Mas eu digo, aprontar no entendimento dela! Veja a Isa por exemplo, -- explicava -- só porque eu comprei uma R1 azul alucinante por um preço incrível ela brigou comigo e me deixou de castigo por quatro meses! -- contava -- Acredita que a danada ainda ficava desfilando de camisolinha dentro de casa e passando creminho nas pernas de um jeito super sensual só pra me provocar? -- reclamou -- Juliana é bem capaz de fazer uma dessas também só pra te deixar doidona!

 

--Quisera que fosse isso, mas eu sei que não é! -- olhou para Seyyed -- Estamos vivendo uma crise como nunca vivemos. -- suspirou -- Ela não tem mais paciência comigo, não faz a menor questão da minha companhia, não quer conversar... parece até que deixou de me amar e isso dói tanto... -- começou a chorar -- Eu fico me sentindo um lixo...

 

--Ah, meu amor, não fica assim não! -- abriu os braços -- Vem cá, minha irmã! -- ofereceu um colo

 

A delegada deitou-se no colo da mecânica e chorou pesadamente por alguns minutos. Depois sentou-se e passou as costas da mão nos olhos.

 

--Desculpe por isso. -- falou constrangida

 

--Ei, não tem porque se desculpar. -- pegou a bolsa e tirou um pacotinho de lenços -- Seque o rosto. -- ofereceu e a amiga aceitou -- Você não tem que ser durona o tempo inteiro. Estamos falando da mulher que ama e é natural que você sofra se as coisas não vão tão bem.

 

--As coisas vão péssimas! -- secava o rosto e o nariz -- Desconfio que se Juliana ainda não foi pra cama com aquela tal, chegou bem perto disso!

 

--Já tentou conversar com ela? -- perguntou com jeito

 

--E ela dá abertura? -- olhou para Ed -- Juliana mal olha na minha cara!

 

--Suzana, escuta, -- segurou uma das mãos dela -- entrega nas mãos de Deus e não se deixe abater por causa disso. Eu sei que é difícil, que deve estar doendo demais, só que te peço encarecidamente: não se deixe derrotar! -- olhava nos olhos da outra -- Deus vai lhe dar forças e vai ajudar Juliana a colocar a cabeça no lugar. -- pausou -- Tente conversar e se ela não quiser... paciência, pelo menos você tentou!

 

--Eu vou fazer isso. -- respondeu com tristeza -- Mas ela não quis vir pro Rio, pra variar, então quando estiver em Brasília de novo darei um jeito de puxar o assunto.

 

--Que tal fazer uma coisa que nunca fizemos? Vamos orar juntas? -- propôs -- Essa praça tá com um clima legal, o dia tá bem agradável e você é minha irmã. -- sorriu -- Que acha?

 

--Acho ótimo! -- sorriu e segurou a outra mão dela -- Obrigada, Ed!

 

--Não me agradeça e feche os olhos, sujeita! -- brincou -- Vamos conversar com nosso Pai.

 

--Vamos! -- fechou os olhos

 

***

 

Lady estava no aterro sentada na grama e vendo sua filha brincar. Admirava o modo decidido como Priscilinha, mesmo sendo tão pequena, liderava as outras crianças e era sempre dona da situação.

 

“Priscilinha tem a força da mulherzinha brasileira!” -- pensava com orgulho

 

Também achava curioso o fato de que a garota odiava aviões, não gostava de ficar perto de janelas e era muito vaidosa.

 

“Coisa que ela traz de outras vidas...” -- concluía -- "Quem será que ela foi? Na certa, alguma dama de ferro!”

 

Ricardo passeava pelo aterro. Vinha com as mãos nos bolsos e pensando na vida.

 

“Meu pai não vai me dar nada se eu não fizer alguma coisa... O coroa realmente mudou... está mais durão!” -- balançava a cabeça pensativo -- “Ficar vivendo naquele apartamento com ele, a mulher e o moleque não vai me levar a lugar nenhum...” -- suspirou

 

Em sua distração, não viu Lady sentada e tropeçou caindo sobre ela.

 

--Mas o que é isso??? -- a engenheira gritou empurrando Ricardo para que saísse de cima dela -- Socorro, tarado!! Help me, socuerro, socuerro!!! -- batia nele

 

“Socuerro?! Que língua é essa?” -- pensou -- Oh, girl, please, don’t panic!! -- pediu ao se sentar -- Eu não te vi aí, me perdoe! -- esquivava-se dos tapas que ela lhe dava -- Não sou tarado, me perdoe, é que eu não te vi!! Ai!

 

--Humpf! -- Lady ficou de pé e ajeitou a roupa -- Que modo mais besta de abordar uma garota, viu? -- olhava para ele com a cara feia -- Eu sou mãe e mulher, meu filho, fique sabendo! Não tô aqui pra pouca vergonha, não!

 

--Mas foi sem querer, eu juro! -- levantou-se também -- Tava tão absorto em meus pensamentos que me desliguei do mundo. -- sorriu -- Mas vamos começar do jeito certo! -- estendeu a mão -- Ricardo, é um prazer! -- reparou na mulher discretamente -- "Até que ela é bonita... e tem um par de seios maravilhosos!” -- pensou empolgado

 

--Lady Dy. -- apertou a mão dele com desconfiança -- "Até que ele não é de se jogar fora!” -- pensou -- "Se eu ainda fosse hetero, rolava uma sedução!”

 

--Você disse que é mãe... -- soltaram as mãos -- Onde está sua criança?

 

--É aquela bonitinha ali, vestida de lilás. -- apontou orgulhosa -- Priscila o nome dela, mas todo mundo chama de Priscilinha.

 

--Ah, mas é lindinha mesmo! -- olhou para a menina e depois para Lady -- Quantos aninhos ela tem?

 

--Três. E é esperta como só!

 

--Dá pra notar. -- olhou para a criança novamente -- Ela é a líder da brincadeira!

 

--Essa menina tem força, tem poder! Puxou à outra mãe. -- falou naturalmente ao se sentar de novo na grama

 

“Puxou à outra mãe?! Será que ela é lésbica?” -- pensou intrigado -- Well... Se incomodaria se eu ficasse aqui com você? É que tô vivendo uma época muito difícil na minha vida e cheguei no Brasil há menos de um ano... Não tenho amigos pra desabafar. -- pediu receoso

 

--Senta! -- bateu no chão -- Sei como é isso que você sente. Eu sou bidivorciada e só Deus sabe o que me abunda n’alma. São tantas coisinhas miúdas, não é mesmo?

 

“Bidivorciada?!” -- sentou-se ao lado dela -- Eu sou viúvo. Também tive um filho, mas... Ele morreu. -- falou com tristeza

 

--Ô meu Deus! -- olhou para o homem com pesar -- Sinto muito!

 

--Já tem tempo que aconteceu. -- abraçou as próprias pernas e ficou olhando para as crianças -- Mas quando eu vejo os pequenininhos brincando assim, dá uma saudade...

 

--Imagino! -- olhou para a filha -- Deus me livre que minha Priscilinha morra antes de mim! -- olhou novamente para Ricardo -- Mas... vamos mudar de assunto. Você disse que chegou no Brasil há menos de um ano. Por onde andava? -- perguntou curiosa

 

--Vivi nos Estados Unidos por muito tempo, mas depois da crise não deu pra continuar lá. Tava punk demais! So heavy!

 

--Ô, meu Pai, eu não acredito!! -- arregalou os olhos -- As profecias da cigana!! -- lembrava das palavras da mulher:

 

“--Você terá um homem em sua vida. Ele vem de longe, depois de uma crise muito séria.

 

--O que?? -- arregalou os olhos -- Crise? Será que ele vem doente? Mal vou casar, ficarei viúva?

 

--E passará um bom tempo ao lado de uma mulher. Aliás, vejo uma outra mulher do seu lado que ficará contigo a vida toda.”

 

--Um homem que veio de longe e depois de uma crise muito séria... -- segurou o braço de Ricardo com força -- Então é isso! -- olhou para ele com cara de suspense -- Você é o enviado!!

 

--Enviado?? -- não entendeu -- Enviado de quem?? -- teve medo de Lady

 

“E a mulher com quem eu passaria um bom tempo é Priscila...” -- pensava -- Sim, agora tudo faz sentido! -- continuava olhando para o homem -- Eu sabia o tempo inteiro que the truth estava out there!!

 

--É... -- desvencilhou-se da engenheira com jeito -- Eu não sei do que você tá falando, então... é melhor eu ir embora!

 

A fúria casamenteira de outrora ressuscitava em Lady como por encanto.

 

--Please don’t go! -- pediu em tom cinematográfico -- Don't go, ou, ou, ou, don’t go away! -- segurou-o pela gola da camisa -- Eu comi o Devil que amassou o bread por sua causa, não se atreva a leave me agora! -- olhava nos olhos dele

 

--Por minha causa?! -- não entendia coisa alguma -- Mas a gente se conheceu hoje! -- argumentava -- "Oh, my God, livrai-me desse mal! Essa mulher é louca!!” -- pedia em pensamento enquanto tentava se libertar de Lady

 

--Eu ando confusa, perdida, sofrendo por amor como nem sei! Eu tô mais lost que o seriado da TV! -- sentou-se sobre Ricardo e continuava segurando-o firmemente pela camisa -- Take me by the hand, take me somewhere new, -- falava com voz melosa -- I don’t know who you are, but I... I’m with you! -- olhava para os lábios dele -- I’m with you, yeah, yeah!

 

--Mas... -- engoliu em seco -- a gente mal se conhece, eu nem sei quem você é!!

 

--Eu sou apenas uma moça, latino americana sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vinda do interior! Sou Lady Dy da Silva: mãe e mulher! -- beijou-o fazendo força para que caíssem deitados no chão

 

Ricardo ficou sem saber o que fazer. Abriu os braços e tremia as pernas que nem barata agonizando.

 

***

 

Juliana chegava no apartamento da advogada. Fez de tudo para ser discreta e evitar que algum repórter a flagrasse. Ao chegar no andar da loura, constatou que ela a aguardava na porta.

 

--Finalmente! -- sorriu maliciosa -- Eu pensava que nunca teria a honra dessa visita. -- deu passagem -- Por favor, entre! -- convidou

 

A japonesa entrou receosa.

 

--Fique à vontade, meu bem! -- pegou a bolsa das mãos da outra e tirou o blazer dela, colocando-os sobre o sofá -- Por que não se senta enquanto eu preparo um drinque? -- piscou para ela e passou um dedo rapidamente sobre seus lábios.

 

O corpo da enfermeira incendiou. -- Tá, eu sento! -- sentou-se rapidamente

 

Irina foi para trás do bar e pegou dois copos. -- Que tal um pouco de uísque? -- ofereceu -- Tenho um legítimo blend escocês! -- mostrou a garrafa -- Envelhecido 12 anos!

 

--Eu não bebo há anos. E nunca bebi uísque. -- respondeu ainda um tanto constrangida

 

--Pra tudo há uma primeira vez! -- colocou gelo nos copos -- Há muitos sabores novos que você precisa provar. -- falava com malícia

 

“E eu tô que não me agüento!” -- a japonesa pensava

 

--E a delegada, por onde anda? -- veio trazendo os copos -- Pra você estar aqui agora... -- sentou-se ao lado da japonesa -- Toda linda de terninho... veio direto do trabalho, eu suponho!

 

--No Rio. -- respondeu recebendo um copo -- Volta depois de amanhã.

 

--Que bom! -- propôs um brinde -- A nossa... amizade!

 

--Amizade! -- tocaram os copos de leve

 

Irina bebia o uísque com os olhos fixos em Juliana, que arriscou a provar um gole.

 

“Cruzes, que troço horrível!” -- pensou tentando disfarçar o desgosto

 

--Eu soube que você conseguiu que o psicopata místico fosse enquadrado como inimputável. -- sorria sensualmente -- Aquilo foi incrível!

 

--Tatiana, Selma e Ruy fizeram um excelente trabalho nesse sentido. Eu fiz a menor parte! -- afirmava com falsa modéstia

 

--Que nada! Você foi o ponto focal. Sempre é! -- deixou que uma perna se esfregasse nas pernas da enfermeira -- Eu assisti o seu discurso apaixonado, insistindo pra que todos os envolvidos no caso daquele império das drogas fossem penalizados. -- mordeu os lábios -- Fiquei excitada...

 

Juliana engoliu em seco. -- Eu não vou deixar aquele assunto morrer! -- afastou-se um pouco de Irina -- No que depender de mim, luto até o final! -- sentia a própria excitação crescer

 

--Essas coisas em você me deixam louca! -- aproximou-se mais -- Fico pensando: como será alguém assim na cama? -- bebeu mais um gole -- Aposto que é do tipo que enlouquece qualquer mulher... -- sorria

 

--Ah! -- começou a tremer -- É... eu... eu... -- gaguejava

 

A advogada pegou o copo da mão de Juliana e colocou sobre a mesa, junto com o seu. -- Muita conversa, não é? -- puxou-a pela blusa para beijá-la

 

A japonesa deitou-se sobre a loura beijando-a com muito desejo. Irina abriu as pernas e Juliana acomodou-se entre elas. Deslizou a mão pelas coxas da advogada e constatou que estava sem calcinha.

 

--Quero... você... agora! -- Irina pedia entre beijos enquanto tentava desabotoar os botões da blusa da outra

 

O vestido de loura foi arremessado no meio da sala, revelando seu corpo totalmente nu. A blusa da japonesa teve o mesmo destino, bem como seus sapatos.

 

--Tira essa calça, vem! -- a advogada ordenou excitada

 

Juliana ajoelhou-se na poltrona e começou a desabotoar a calça quando uma luz diferente chamou sua atenção. Olhou para frente e viu que Maria de Lourdes e Tamiko a observavam com muita decepção. Ficou paralisada.

 

--“Não useis a liberdade para dar ocasião à carne”28 -- Tamiko lhe dizia dentro da mente

 

--Por que parou? -- Irina sentou-se e abriu o fecho da calça da japonesa, puxando-a para baixo enquanto mordia a barriga dela

 

--Cuide do que está fazendo, querida, pois pessoas como essa mulher, “com palavras de vaidosa arrogância e provocando os desejos libertos da carne, seduzem os que estão quase conseguindo fugir daqueles que vivem no erro. Prometendo-lhes liberdade, são eles mesmos escravos da corrupção, pois se alguém se faz vencido, torna-se escravo daquilo que o vence.”29 -- ouvia a voz de Lourdes ecoando dentro de si

 

--Não!! -- levantou-se de um pulo -- Eu não posso fazer isso e nem deveria estar aqui! -- pegou sua blusa e começou a se arrumar

 

--Mas por que isso, meu amor? -- Irina levantou-se com sua graça felina -- Não se culpe se a delegada não lhe importa mais. -- tentou beijá-la

 

Juliana sentiu uma imensa dor ao ouvir aquilo. Não queria que fosse verdade, embora viesse questionando seus sentimentos por Suzana.

 

--Sai de mim, Irina! -- empurrou-a nervosamente -- Chega, isso é loucura! -- pegou suas coisas sobre o outro sofá, calçou os sapatos e correu para a porta -- Não volto mais aqui! -- abriu a porta e partiu

 

Irina respirou fundo e recolheu seu vestido no chão. -- Você não tem escolha, meu bem! -- pegou o copo de uísque -- Está nas minhas mãos! -- sorria maquiavelicamente

 

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, Olga orava para que Deus afastasse Juliana das más influências.

 

***

 

Suzana chegava em casa por volta das sete da noite. Ao entrar constatou que Juliana estava no banheiro da suíte, com a porta fechada. Pegou suas coisas e foi tomar banho no banheiro social.

 

Quando terminou, ouviu os sons da movimentação da japonesa na cozinha e decidiu ir até lá. Encontrou-a preparando sanduíches. Morreu de vontade de tomá-la nos braços e beijá-la mas se conteve temendo uma reação de repulsa.

 

--Oi, Ju. -- cumprimentou receosa

 

--Oi, Suzana. -- olhou para ela e sorriu -- Tô terminando de fazer uns sanduíches pra gente e já arrumei a mesa. Pode tirar o suco de uva da geladeira e levar pra lá? -- pediu

 

--Claro! -- fez o que lhe foi pedido e ficou aguardando sentada à mesa

 

--Pronto! -- a japonesa chegava com dois pratos nas mãos -- Sanduíche de peito de peru defumado saindo no capricho! -- colocou um dos pratos diante da morena -- Coloquei alface, tomate, ricota, azeitonas, milho e um pouquinho de extra virgem só pra amaciar o pão sírio! -- sentou-se -- Só de falar me deu fome! -- olhou excitada para o prato

 

“Ela até que tá parecendo a Juliana que eu conheço!” -- pensou animada -- Fico feliz que esteja satisfeita! -- sorriu e mordeu o sanduíche -- Hum, que bom! -- comentou de boca cheia

 

--Não fala de boca cheia! -- ralhou impaciente e deu uma mordida também -- "Vamos lá, Juliana, faça um esforço pra ser ao menos gentil com ela!” -- falava mentalmente consigo mesma

 

As duas seguiram conversando sobre coisas sem importância. A morena lavou a louça e recolheu a mesa. Ao final, decidiu tocar no assunto que mais habitava seus pensamentos.

 

--Acho que a gente precisa conversar. -- olhou para a amante e se sentou ao lado dela no sofá

 

--Também acho. -- a japonesa respondeu olhando para o rosto da delegada

 

--Me diz o que tá acontecendo, amor, porque sua atitude comigo nesses últimos tempos tem me machucado demais e eu preciso entender. -- falava com calma -- Foi alguma coisa que eu tenha feito? Você tá me dando um castigo, é isso?

 

--Você não fez nada, Suzana. Nada mesmo. -- tocou o rosto dela -- O problema sou eu!

 

--Então divide comigo! -- segurou a mão que tocava seu rosto e a beijou -- Sou sua mulher e quero lhe ajudar! Ou ao menos quero tentar fazer isso! Não deve haver segredos entre nós!

 

“Como eu vou falar, meu Deus?” -- pensou com aflição -- Algo acontece comigo que eu... eu tenho achado muito difícil... -- não sabia como dizer -- ficar do seu lado. -- olhava receosa para a morena -- Eu perco a paciência, fico irritada, não tenho vontade de conversar...

 

--Percebo isso nitidamente! -- respondeu controlando a mágoa -- E queria entender o porque!

 

--Eu mesma não sei! -- falou com sinceridade -- Nem sei dizer quando começou mas foi um processo gradual. -- soltou a mão da outra -- Quando Ivone esteve em nossa casa no Rio, ela me disse que achava que eu estava dando brechas pra ser afetada por más influências...

 

--Aquela mulher! -- interrompeu-a -- Ela representa as tais más influências. -- afirmou resoluta -- Por que tem deixado ela se aproximar? -- perguntou magoada

 

--Fala como se eu saísse com ela! -- retrucou impaciente

 

--Ainda não! Pelo menos até onde eu saiba. -- olhava firmemente para a enfermeira

 

--Não, Suzana, eu não saio com ela! -- levantou-se irritada e circulou pela sala

 

A delegada levantou-se também e perguntou à queima roupa: -- Foi pra cama com ela, Ju?

 

--Claro que não! -- respondeu sem encarar a morena

 

--Então por que não me diz isso olhando na minha cara? -- não conseguiu controlar a mágoa -- Responde, Juliana, olhando pra mim, -- aproximou-se e bateu no peito -- você foi pra cama com ela?

 

--Não, eu não fui! -- olhou nos olhos da amante

 

--Mas chegou perto, não é? -- perguntou com os olhos marejados

 

A japonesa não respondeu.

 

--Chegou perto, não foi? -- repetiu a pergunta

 

Permanecia calada.

 

--Responde, droga! -- falou mais alto

 

--Foi, Suzana, chegou perto e foi por pouco, por muito pouco! -- respondeu quase gritando

 

A morena sentiu como se uma faca tivesse rasgado seu peito e caminhou desnorteada para perto da mesa. -- Eu sabia, eu sabia! -- passou a mão nos cabelos

 

--Mas foi só uma vez... -- falou com mais calma

 

--E faz diferença? -- olhou para ela derramando algumas lágrimas. Controlava-se arduamente para não cair em prantos -- Você me tira dia a dia do seu coração. -- respirou fundo -- Essa é a traição que mais me dói! -- falava com muito sentimento

 

Vê-la daquele jeito representou uma dor enorme para a japonesa. Nunca imaginou que faria o amor de sua vida sofrer daquela maneira e foi como se finalmente houvesse caído em si.

 

--Meu nenenzinho... -- tentou se aproximar da delegada, que se afastou -- eu não... eu... -- começou a chorar também

 

--Você mudou! Não é mais a mulher que conheci! -- passou a mão nos olhos e tentava manter o controle das próprias emoções

 

--Por que diz isso? -- perguntou preocupada -- Sou a mesma de sempre! Posso estar meio confusa, mas...

 

--Não é, não! -- falou mais alto novamente -- Você pode ser honesta e defender o povo e o país em seus projetos de lei mas você se deixou seduzir pelo sucesso, pelo poder, pela fama! -- dizia sua opinião com sinceridade -- Você se deixou inflar pelos elogios dos bajuladores de plantão e não se dá conta de que eles vão te esquecer tão logo seu momento passe! -- acusava -- Você perde sua simplicidade aos poucos e nem se dá conta... Fala do mesmo jeito, apresenta-se do mesmo jeito, mas alguma coisa vem mudando no seu coração! E foi por isso que surgiu espaço pra essa Irina se intrometer entre nós! Ela não teria condições de fazer isso se as portas não estivessem semi abertas, como antes não estavam!

 

--Você tá sendo injusta comigo, Suzana! -- respondeu indignada -- Hoje eu sou uma mulher muito melhor do que antes! Não sou mais aquela doida que se desesperava porque um relacionamento terminou e nem a enfermeira maluca que se metia em brigas por qualquer coisa! -- falava desaforada -- Eu não me corrompi ou me deixei seduzir pelo poder! Não dou a mínima pra isso! Sequer corro esse risco!

 

--“Nunca é tão fácil perder-se como quando se julga conhecer o caminho."30 -- respondeu pegando as chaves -- Acho que a gente precisa dar um tempo e eu quero um pouco de espaço pra digerir essa coisa toda! -- foi para o quarto buscar algumas coisas

 

--Pra onde vai, Suzana? -- a enfermeira foi atrás preocupada -- O que tá pensando em fazer?

 

A delegada pegou a mochila e arremessou algumas peças de roupa dentro dela. -- Vou pegar minha moto e rodar por aí! -- respondeu enquanto arrumava as coisas -- Não durmo em casa hoje!

 

--Por que tá fazendo isso? -- segurou o braço dela agoniada -- Tá sendo infantil, Suzana!

 

--Sou eu que tô? -- desvencilhou-se dela e perguntou de cara feia -- Não fui eu que joguei nosso casamento no lixo!

 

--Nosso casamento não acabou! -- respondeu nervosa

 

--Será? -- colocou a mochila nas costas -- Realmente eu não sei! -- pegou o capacete e saiu

 

--Não se atreva a fazer isso, não se atreva! -- seguia a morena falando alto -- Você fica aqui comigo! -- seu tom era imperativo

 

A morena abriu a porta e lançou um olhar magoado para a japonesa. -- Eu te amo, Ju, mas não vou deixar que meu amor por você acabe comigo! -- abriu a porta e partiu

 

Juliana ficou parada onde estava e chorou pesadamente.

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo: 

Diálogo entre Lady e Ricardo:

Please Don’t Go. Intérprete: Double You. Compositores: Finch / Casey;

I’m With You. Intérprete: Avril Lavigne. Compositores: Avril Lavigne / Lauren Christy / Graham Edwards / Scott Spock;

Apenas Um Rapaz Latino Americano. Intérprete e Compositor: Belchior


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Comentários para 33 - Sexta Temporada - FELICIDADE IV:
PaudaFome
PaudaFome

Em: 12/05/2024

Que capítulo foda a morte de Sabrina a separação de Suzana e Juliana a fúria casamenteira da Lady.. algo me diz que Lila vai mudar pra sempre 


Solitudine

Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
Olá querida!

Foi muito emocionante escrever a morte de Sabrina, ou reencontro, como preferir. rs

Suzana e Juliana vivendo um crise. Justo o tal casal!

Lila... vamos ver o que ocorre com ela. E Lady, bem... sendo Lady! kkk
Beijos,
Sol


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Em: 03/04/2024

Eu não vou nas redes sociais do Lettera. Não sei o que acontece lá mas aqui a caipira reina! Hahaha


Solitudine

Solitudine Em: 10/04/2024 Autora da história
kkkkk Eu também não vou porque nem tenho redes sociais. Mas reinar... reino em canto algum! kkk Quisera!


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Samirao
Samirao

Em: 01/04/2024

Quero ver até aonde vai a amnésia do site!


Solitudine

Solitudine Em: 02/04/2024 Autora da história
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk


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Samirao
Samirao

Em: 07/10/2023

Tenho o controle de tudo I know. Tipo Priscila vai? Huahuahua 


Solitudine

Solitudine Em: 11/11/2023 Autora da história
Eu hein! E como Lila você escreve umas coisas que eu não entendo! kkk


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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Falta pouco habibem!


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Graças a Deus!


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Femines666
Femines666

Em: 14/03/2023

Meu Deus é cada capítulo mais especial que o outro! Poderia dizer muitas coisas mas vou te parabenizar pela forma linda como você transformou uma morte num reencontro esperado. 

VOCÊ É DEMAIS!!!!


Resposta do autor:

Olá querida,

Eu acho que "mortes" podem muito bem ser reencontros. E espero que a minha, quando vier, seja um reencontro com quem tanto desejo rever.

Obrigada pelo carinho!

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 15/09/2022

Esse final foi pra me destruir! Primeiro vem você e essa mania de gente conhecida pagar mico nos motéis! Hehe E termina com um dos casais mais foda de SEM se separando??? Não me conformo!!! Eu tô devorando essa série e lendo com ansiedade não aceito essa separação!!!


Resposta do autor:

Calma, menina! Confia na caipira!

Momentos de tensão fazem parte da vida. rs

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 15/09/2022

Mamãe é o bixo!! Não tem capeta nem psico que supere! hehe

Aline tombando os macho! Ricardo toma totoma! Hehe E esse caso investigativo tá demais. Ju olha onde você tá se metendo miguete!!

Você escreve barbaramentchê!!! Esse reencontro Sabri×Pat!!!! Chorei


Resposta do autor:

kkkkkkkk Verdade, Olga é maravilhosa!

Aline não é fácil! Tem que ter resistência! rs

Obrigada, menina! Esse reencontro também muito me emocionou.

Beijos,

Sol

Responder

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Samirao
Samirao

Em: 12/09/2022

Sai da toca sua caipira!!


Resposta do autor:

Oia eu aqui, uai!

Beijos,

Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 26/04/2020

Olhos e azuis aparecem em horas impróprias  e tenho dito!!

 

Repito: Solzinha você é fodaaaaa....

 

Beijos

 

Ps. A Ju deixou um recado pra você na nova história.


Resposta do autor:

Gabinha!

Vi o recado e até respondi. Obrigada!

 

"Repito: Solzinha você é fodaaaaa...." - Obrigadaaaaaa!

Beijos, Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 25/04/2020

Olá Solzinha,

 

Dona Mari faz muito bem em ignorar o nojento do Romeu, ô sujeito misógino.

“Aquilo ali é um encosto que o Bicho Ruim mandou pra me infernizar! “

 

Muito forte os diálogos de Irineu e Patrícia com Lucas... Li e reli algumas vezes, achei linda a última frase: “Que a Paz de Deus e de Nosso Senhor Jesus Cristo habite em seu coração! “

 

A Maya tem uma sabedoria de deixar qualquer um boquiaberto,  Lila aprendeu muito com ela, aliás nós aprendemos muito.

 

Por isso sou fã da Camille, não perde tempo já colocou Ricardo em seu devido lugar e ainda bem que a Aline não é iludida igual a Lady.

 

Poder e vaidade... Ingredientes que deixaram Juliana fora do prumo e mesmo tendo consciência das besteiras que estava fazendo, ela não conseguia se libertar.

 

 

O relato do Everest é revelador e perturbador, dá pra sentir o frio, a dor, a falta de ar, o cansaço... Parece que ouço o vento uivando e se fazendo presente o tempo todo.  Jamais teria esse coragem, para participar dessa aventura além de determinação, é preciso não ter apego à nada, talvez nem apego à vida, pois o risco é enorme.

É um trecho angustiante e ao mesmo tempo fascinante, gera uma expetativa : Será que vão conseguir?”

Me emocionei demais com o encontro de Sabrina e Patrícia e a trilha sonoro compôs esse momento, foi lindo, lindo, lindo! Sabrina morreu feliz e realizada.

Garota você é f.

 

Camille e Fatima, tão fofinhas juntas!

O amor delas é puro, sem cobranças... Elas se amam e pronto!

Agora fala sério, que hora para os verdes e os azuis viu? Ô loco meu!

 

 

Beijos

 

Ps.  Pra variar mais um capítulo arrasador!!!


Resposta do autor:

Olá Gabinha,

Romeu só quebrou a cara! kkkk

Mesmo Lucas sendo um psicopata, ele tem sentimentos. Ninguém é isento deles.

E com isso, Lila sai de cena e entra Jaqueline.

Aline só tem um fogo que nada apaga, mas doida não é! kkkkk

E qualquer pessoa podemos cair nas armadilhas que prenderam Juliana por um tempo.

O Everest me encanta muito. É onde gostaria de deixar Terra na minha hora.

"Garota você é f." - kkkkkkkk Obrigada!

"Camille e Fatima, tão fofinhas juntas! O amor delas é puro, sem cobranças... Elas se amam e pronto!" Hoje você vê assim. Gosto disso!

Verdes e azuis não têm hora, Gabinha! kkk

Beijos.

Sol

Responder

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