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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

Ver comentários: 11

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Palavras: 19810
Acessos: 10743   |  Postado em: 13/04/2020

Sexta Temporada - FELICIDADE III

 

 

--O casamento do seu pai foi uma coisa linda! Tudo muito bonito, muito chique! Teve até músico! -- Rosa relembrava -- Quer dizer, não foi tão bacana quanto o casamento de Vanda e Reginaldo, mas ainda assim uma beleza! -- sorriu

 

--Eu não achei! -- Alípio discordou

 

--E quando foi que ele se casou com a tal da Olga? -- perguntou curioso

 

--Foi no ano que deu problema na minha próstata! -- Alípio respondeu -- Aquela vez que saiu um baita gosmeiro!

 

--Então foi em 2001, eu acho. -- a mulher concluiu

 

--E onde eles moram?

 

--Ah, meu filho, aí você já quer saber demais! Quem disse que a gente lembra? Só estivemos lá uma vez e não somos habituados a viver passeando no Rio de Janeiro. Vai que matam a gente? Cidade perigosa! -- Rosa respondeu enfática -- Além do mais pensa que seu pai tem consideração pelos parentes? Que nada! Nunca mais nos convidou pra uma visita! E olha que o apartamento era grande!

 

--E quando nós estivemos lá fomos muito mal tratados! -- Alípio reclamava -- Cama ruim, comida ruim, tudo ruim! Eu não gostei! -- fez uma careta

 

“Ah, mas pra fazer festa chique e morar em apartamento grande no Rio de Janeiro meu pai deve ter arrumado uma coroa rica!” -- pensou empolgado -- "Cool!” -- sorriu satisfeito -- O que acharam da mulher dele?

 

--Ela é boazinha, bonita... É uma mulher madura e tem os olhos azuis. -- pausou -- Tem dois filhos e os dois são mecânicos. Acho que não são do mesmo pai, porque a moça parece com ela, mas o rapaz é preto, vê se pode? -- fofocava -- Eu acho que eles têm oficina, mas é coisa mixuruca. -- falou despeitada -- Aqueles filhos de Olga nem se comparam com Rodrigo e Vanda!

 

“Têm oficina, é?” -- pensou todo interessado -- "Very, very nice...”

 

--Pelo amor de Deus, Rosa, Olga é bonita, mas muito sem graça! -- o tio respondeu fazendo um gesto de contrariedade -- Parece uma pomba sem fé!

 

--Pomba sem fé?! -- Ricardo não entendeu o comentário e acabou rindo -- E quanto a tia Mari, tio Antônio e Camille?

 

--Ih, mas você tá por fora mesmo, viu? -- a mulher ficou surpresa -- Antônio foi assassinado durante um assalto e Camille tava junto! Aí os bandidos jogaram ela nos trilhos do metrô e a coitadinha ficou sem perna! A menina tava até noiva, mas o safado do rapaz abandonou a pobre no dia do enterro do pai!

 

--Oh, my God!!! -- exclamou horrorizado -- Então foi por isso que todo mundo se mudou, agora tá explicado! -- deduziu

 

--Elas se mudaram porque Antônio era cheio de dívida e sua tia teve de vender a casa pra pagar! -- esclareceu -- Aí se mudaram pra uma casa que seu avô deixou de herança lá no Rio! Seu pai foi pra lá depois, quando ficou desempregado!

 

--Herança do meu avô? Ué, tia Rosa, eu não sabia dessa casa!

 

--Teu pai deve ter mantido isso em segredo com medo que você vendesse a casa pra comprar maconha, né, meu filho? -- Alípio deu um tapa na cabeça dele -- Até eu como mais bobo faria isso!

 

Ricardo novamente ficou sem graça. -- E quando foi isso? Quando foi que aconteceu essa tragédia?

 

--Ah, foi no ano que me deu aquele lumbago dos diabos!

 

--Qual deles, meu filho? -- Rosa perguntou curiosa

 

--Aquele que atacou minha rinite alérgica! Foi uma catarreira louca!

 

--Ah, então foi no ano 2000! -- afirmou com certeza

 

--E como as duas estão? -- estava preocupado -- Meu pai tá bem, pelo que me dizem, mas e elas?

 

--Mariângela continua como costureira e Camille se formou em engenheira. Só não sei se consegue viver bem naquele estado tão desfavorável... -- a tia lamentou

 

--E as duas tampouco têm consideração pelos parentes! -- Alípio reclamava -- Quando Reginaldo se formou, sua tia Mari e a filha dela fizeram uma tremenda desfeita pra nós e desde então nunca mais soubemos delas. -- pausou -- E nem de seu pai e da pomba sem fé que ele arrumou!

 

--E Rodrigo e Vanda, tio? Será que eles saberiam de mais coisas? -- arriscou -- Maybe...

 

--Se quer saber do endereço de Mariângela vai ter que perguntar a Lígia e Mateus. Procure por eles e saberá de tudo! -- Rosa recomendou -- Ao contrário do que fez conosco, que somos seus verdadeiros parentes, Mariângela vivia convidando a família de Lígia pra passar dias com elas. Acho que é assim até hoje!

 

--Lígia?! -- perguntou sem se lembrar de quem se tratava -- E quem é essa? Não lembro dela!

 

--É parente de Antônio, prima de Camille. -- Rosa esclareceu -- É casada com Mateus e tem um casal de filhos gêmeos que devem estar com seus quinze anos.

 

--E onde eles moram? Como posso encontrá-los?

 

--Você faz perguntas demais, rapaz! Eles se mudaram e nós não sabemos pra onde foram! -- Alípio se levantou do sofá -- E já é tarde! Hora de se deitar!

 

--Eu... -- Ricardo também se levantou -- Será que poderia ficar aqui até encontrar essa tal de Lígia? -- pediu com cara de maior abandonado

 

--Humpf! O combinado não era esse! -- o homem mais velho reclamou

 

--Calma, meu filho! -- Rosa se levantou e olhou para o marido -- Ele pode passar um tempinho aqui e pode pagar pela estadia trabalhando! -- sugeriu

 

--Pagar pela estadia trabalhando?! -- Ricardo se surpreendeu com o que ouviu

 

--Ele pode raspar e pintar as paredes da casa, por dentro e por fora. -- falava como se o sobrinho não estivesse presente -- Pode arrumar o quintal, consertar o muro, pintar o portão, recolocar as telhas no telhado e, claro, cuidar dos serviços do lar, fazendo limpeza, lavando, passando...

 

--Fazer o que, né? -- resmungou decepcionado -- "Life sucks sometimes!” -- pensou

 

--E pode ainda cuidar de suas frieiras! -- sorriu para o marido

 

--Como é??? -- perguntou em choque

 

--Assim sendo... -- Alípio reconsiderou e olhou para o sobrinho com o cenho franzido -- Fica um mês e olhe lá!

 

“Ah, mas eu tenho que encontrar essa Lígia o mais rápido possível!” -- pensou em desespero

 

***

 

Priscila, Sabrina e Lila confraternizavam em uma festinha de despedida junto com Isabela, Tatiana, Lady, Priscilinha e outros amigos das jovens que estavam prestes a viajar. A dentista seguiria para Montreal dali a uma semana, enquanto que Sabrina e Lila partiriam no final de março. Para que todas pudessem ainda se ver, Isabela decidiu organizar aquela festa.

 

--Deixa eu te falar, Priscila, continue mantendo o contato com a gente! Use e abuse da internet, viu fi? -- Tatiana pedia -- Hoje em dia ninguém tem mais desculpa pra sumir!

 

--Ah, mas com certeza vou abusar da internet! -- a dentista respondeu sorrindo -- Vai parecer que eu tô logo ali!

 

Priscilinha puxou a morena pela saia. -- Posso ir junto, tia Pi? -- perguntou sorridente

 

--Hum, meu amor! -- segurou a menina no colo e beijou sua cabeça -- Se você vier comigo quem vai cuidar da mamãe, hein, sua gotosa? -- sorriu

 

--Mamãe e eu vai, ué! -- respondeu decidida

 

Isabela, Tatiana e Sabrina riram. Lady e Priscila se entreolharam rapidamente.

 

--Mas não pode, meu benzinho! -- olhava para a criança -- Tia Pi vai estudar em um lugar bem longe e não pode levar ninguém junto! Mas eu volto, não vou sumir!

 

A menina a abraçou com força.

 

--Eu não vou sumir, não, meu amor! -- fazia carinho na cabeça de Priscilinha -- Vou telefonar pra vocês e vamos conversar pelo computador também. -- olhou para a menina -- E você vai ficar aqui cuidando da mamãe até eu chegar! Tá bom?

 

--Tá! -- balançou a cabeça

 

--Ela gosta muito de ti! -- Lila falou para a morena

 

--E eu dela! -- deu outro beijo na cabeça da criança. Lady ficou espiando pensativa

 

--Vocês também! -- a jornalista olhou para Sabrina e Lila -- Embora no caso das duas deva ser bem mais difícil ficar acessando internet, não desapareçam porque a gente tem que saber como vão as coisas por lá!

 

--Mas, bá, tu podes ficar tranqüila que eu vou fazer um blog contando o passo a passo da minha peregrinação mística. O dia a dia de uma alma que busca os cimos para alcançar a Luz! -- fazia seus gestuais -- Enquanto houver internet disponível, vocês saberão de tudo! De quebra, darei notícias sobre a expedição da mulher arrojada que pretende chegar ao topo do mundo! -- olhou para Tatiana apontando para Sabrina -- E sem perder o toque profundamente humano e transcendental que me caracteriza, daí!

 

--Humpf! -- Lady fez um bico -- Aposto que pra ver esse blog vai ter que pagar alguma taxa de acesso!

 

“Capaz! Mas não é que a idéia é boa, tchê?” -- pensou na possibilidade

 

--Tem dois repórteres que vão com a gente! -- Sabrina esclareceu -- Um deles é um argentino que mora em Curitiba há muitos anos e é repórter de montanha. Já acompanhou várias expedições em altitude e, assim como Lila, vai montar um blog. O outro é um norte americano que trabalha pra revista ExtremeHigh. Vai fazer a cobertura internacional.

 

--Imagino que as atenções estarão voltadas pra vocês! -- Isa comentou -- Além da conclusão de seus dois projetos ainda tem o fato de que será a primeira mulher do mundo a realizar uma empreitada dessas! -- sorria

 

--Ai, você não imagina! Até a Marcília Rafaela me ligou pra desejar boa sorte! Ela disse que assim que eu pisar de volta no Brasil, quer ser a primeira a me entrevistar! -- comentou excitada -- E o Presidente me mandou uma cartinha com palavras de incentivo! Tem que ver que bacana!

 

--Que moral, viu, fi? -- Tatiana piscou para ela

 

--E definitivamente agora você se sente bem, não é Sabrina? -- Lady perguntou preocupada -- Acabou aquele problema na cicatriz!

 

“Olha ela toda interessadinha na cicatriz de outra!” -- Priscila pensou contrariada -- "Eu, hein, indecência!”

 

--Graças a Deus! -- olhou para o alto e depois para Lady -- Desde que Isa levou meu nome pro centro dela, nunca mais senti nada ruim! -- sorriu -- Já me considero em forma novamente!

 

--Ah, minha filha, minha sogra é o must! -- a bailarina respondeu orgulhosa -- E agora que juntou com Suzana ninguém segura! -- sorria

 

--Troço estranho aquilo que acontecia contigo, né, amiga? -- Lady comentou -- Ainda bem que agora já acabou!

 

--Quando eu alinhava os chakras dela vinha um arrepio trilouco que me deixava até tonta! -- Lila relembrou -- Coisa sinistra!

 

--Aquilo era feitiço daquele maluco que matou Patrícia! -- a escaladora respondeu de cara feia -- Mas, ele goste ou não, eu vou pro Everest! E quando estiver no cume vou fazer pra ela a homenagem mais bonita de todas! -- sorriu -- Será uma coisa rápida por causa da altitude mas vai ser linda, vocês vão saber!

 

As pessoas continuaram conversando até que Isabela aproveitou um momento para falar com a dentista em particular.

 

-- Priscila, me responde uma coisa, -- falava com muita discrição -- o que acontece entre você e Lady que noto que as duas mal se falam? Você parece evitá-la! -- olhava para a amiga

 

--Ai, Isa... -- suspirou -- Eu não contei pra ninguém, não comentei a respeito, mas tô a ponto de explodir! -- respondeu aflita e falando baixo -- Tô contando os dias pra essa viagem chegar e eu ir embora!

 

--Por que? -- perguntou desconfiada

 

--Lady e eu... -- passou a mão nos cabelos -- Ai, como é que eu vou dizer isso?

 

--Vocês fizeram amor? -- deduziu tudo

 

--Isso mesmo! -- olhou para a ruiva -- E foi um grande erro!

 

--Mas por que? -- perguntou sem entender -- Por acaso foi ruim, você não gostou?

 

--Ruim nada! -- respondeu enfática -- Acho que foi a primeira vez na minha vida em que realmente fiz amor com alguém. Antes eu só fazia sex*... -- suspirou -- Mas eu me arrependi e tenho evitado de conversar com ela. Não quero tocar nesse assunto! Não com ela!

 

--E qual o problema, afinal? Vocês se amam, por que não aceita isso? -- segurou a morena delicadamente pelo braço -- Você tá indo embora, Priscila, vai deixar as coisas entre vocês tão mal resolvidas desse jeito? Em um ano muita coisa pode mudar, ela pode conhecer alguém e...

 

--Que conheça! -- interrompeu a fala da outra -- Eu gostaria muito que isso acontecesse!

 

--Gostaria mesmo? -- duvidava -- Não faça como eu! -- aconselhava -- Por infantilidade quase perdi Seyyed e se tivesse feito isso teria muito pra me arrepender! Eu continuaria uma garota mimada e egoísta e não teria conhecido o amor como conheço! -- olhava para a outra -- Deixa de ser boba, pára com esses preconceitos bobos!

 

--Já tá decidido, Isa! -- respondeu com firmeza -- Lady e eu não viveremos um romance! -- olhou para a ruiva com seriedade -- E espero que você seja discreta e não comente isso com ninguém! -- advertiu

 

--Eu não vou comentar, mas quanto a Lady... -- olhou para a engenheira que conversava com Tatiana, Sabrina e Lila -- Não espere que ela seja discreta! -- riu

 

--Ai, meu Deus!!! -- a morena exclamou apavorada -- E ainda deixou Priscilinha no colo daquela escaladora maluca que é amiga de Sabrina!!

 

--Ai, amigas, foi uma coisa tão intensa, tão linda, tão forte! -- abriu os braços extasiada -- E foi um tal de travesseiros soltos, roupas pelo chão e tome de braços que se abraçam e tome de bocas que murmuram palavras de amor! -- rodopiou embevecida esbarrando em um pequeno móvel -- Ui!

 

--Num dou conta disso! -- a repórter exclamou abobalhada -- Lady, deixa eu te falar, você pode contar as coisas pra nós, mas não fica rodopiando que vai acabar quebrando os trem que tem aqui! Ou então se quebrando toda, uai!

 

--É que é muita emoção, amiga! É muita coisa que abunda no meu peito! -- olhava para Tatiana -- Foi tudo tão Ghost!

 

--Ghost? -- Sabrina perguntou sem entender

 

--Ai, amiga, eu me senti como Demi Moore naquela cena do pote de barro! -- gesticulava -- Aquela coisa linda de esfrega a mão no barro e barro na mão e esfrega a mão nas coisa e coisa com coisa e beija daqui e beija dali... -- suspirou -- Foi muito amor! E um queimor... -- abanou-se

 

--Mas, bá, que eu não vi barro em canto algum! -- Lila exclamou intrigada

 

--Maneira de dizer, Lila! Licença poética! -- reclamou de cara feia -- Você não entende nada de amor entre mulheres!

 

--Não mesmo! -- riu

 

--Eu entendo, mas... -- a escaladora coçou a cabeça -- Também entendo que depois de tanto amor e tanto barro as coisas entre vocês parecem estremecidas... Percebi que as duas mal se falam...

 

--Mas você não desiste de mim, né, Sabrina? Fica aí filmando a gente! -- Lady retrucou colocando as mãos na cintura -- Eu não posso me envolver contigo com outra no meu coração! Controla esse teu desejo que não dá pra você!

 

--Humpf! -- a morena fez um bico -- "Pra que eu tinha que dar pitaco?” -- revirou os olhos

 

***

 

Priscilinha dormia e Lila havia telefonado para dizer que não passaria a noite em casa. Lady foi até o quarto da dentista, que estava terminando de arrumar as malas.

 

--Será que a gente poderia conversar? -- encostou no portal com os braços cruzados -- Desde aquela noite você tem evitado estar a sós comigo e a gente simplesmente não tem diálogo! -- estava séria

 

A dentista fechou uma das malas e respondeu: -- Sobre o que quer conversar? -- não sabia como lidar com aquela situação

 

--Sobre o que eu quero conversar? -- riu por não acreditar no que ouvia -- Isso é piada ou o que? -- encarou com a morena

 

Priscila respondeu nervosamente. -- Não há muito o que dizer, Lady. -- parou no meio do quarto -- Nós nos deixamos levar por sentimentos confusos e... cometemos um erro! -- passou a mão nos cabelos -- Não deveria ter acontecido!

 

--Cometemos um erro?! -- repetiu decepcionada e caminhou até a outra -- Não acredito que tenha se arrependido! -- olhava nos olhos dela -- Foi uma noite linda e eu nunca tinha experimentado nada igual na minha vida! Não acredito que pra você não tenha sido especial!

 

Pela primeira vez Priscila achava que Lady mantinha com ela um diálogo racional.

 

--Eu não disse que não foi! -- também olhava nos olhos da outra -- Mas não deveria ter acontecido!

 

--Não deveria por que? -- perguntou magoada -- Não entendo como pode estar agindo assim! Não entendo como pra você tudo parece sempre tão sem valor! -- falava com tristeza -- Depois de uma noite tão bonita eu acordei sozinha e desde então você me evita de um modo que me machuca muito!

 

--Continuo a mesma de sempre, Lady! -- protestou -- E ainda levei vocês pra passar o final de ano com minha família como tem sido desde que ficou grávida!

 

--E me evitou o tempo inteiro! -- retrucou -- Até durante a viagem de carro você vinha muda como uma múmia! -- cruzou os braços -- Na festinha de despedida todo mundo notou que você tava estranha comigo!

 

--Ah, claro, você deve ter dito pra todo mundo o que aconteceu entre nós e aí as pessoas ficaram só manjando! -- respondeu chateada

 

--Não tenho nada a esconder! Eu não me escondo atrás desse tipo de mulher fatal que você faz! -- falava mais alto -- Eu não agüento mais essas suas esquisitices!

 

--Olha, Lady, daqui a poucos dias eu tô indo viajar e você terá um ano sem minhas esquisitices pra te perturbar! -- afastou-se dela e parou diante da janela, olhando para a rua

 

--Eu não vou esperar um ano pra você se decidir se quer continuar a ser a gostosona dos rapazes ou ficar comigo! -- caminhou até a morena

 

--Então não espere! -- olhou para Lady novamente -- Não tô te pedindo isso! Cuide de sua vida e esqueça de nós! Se é que algum dia realmente houve um ‘nós’!

 

Lady gastou uns segundos calada até que falou com desgosto: -- Então novamente você me pede o divórcio, não é? Nunca imaginei que você seria uma marida tão complicada! Agora sou bi! Bidivorciada!

 

“Pronto, já endoidou de novo! Tava muito bom pra ser verdade!” -- a dentista pensou revirando os olhos -- Pare de falar bobagens, criatura! Eu nunca fui sua marida!

 

--Nunca foi?! -- indignou-se -- Mas é muita cara de pau! -- fez uma cara feia -- Você não vale nada, Priscila, mas eu gosto de você! Não vale nada mas eu gosto de você! -- gesticulava -- Tudo o que eu queria era saber porque! -- caminhou até a porta e antes de sair lançou-lhe um último olhar -- Tudo o que eu queria era saber porque! -- foi embora

 

--Dá pra levar a sério uma criatura dessas? -- pausou -- Mas o pior é que eu gosto tanto dela... -- olhou para cima -- Ô, meu Pai, me defenda... -- pediu com tristeza

 

***

 

Juliana e Suzana estavam na cama em um gostoso amasso.

 

--Ai, Su... -- arranhava as costas dela -- você é... sempre... tão... safada... -- dizia entre beijos

 

--E a culpa disso é toda sua! -- respondeu enquanto mordia a orelha da amante

 

A mão da delegada encontrou lugar entre as pernas da japonesa que gem*u de prazer e fechou os olhos. Nisso a imagem de Irina veio nítida em sua mente e ela interrompeu o que acontecia.

 

--Não, Suzana, pára! -- desvencilhou-se rapidamente da morena e sentou-se na beira da cama de costas para ela -- Eu... -- passou a mão nos cabelos -- eu não tô a fim!

 

--Não tá a fim?? -- perguntou sem entender e sentou-se atrás da japonesa -- Como não tá a fim?? -- riu brevemente -- Eu senti muito bem que você tava a fim e querendo tanto quanto eu! -- beijou o pescoço da mulher -- Isso é um jogo pra me deixar mais excitada? -- beijou de novo -- Hein?

 

--Não há jogo nenhum! -- levantou-se sobressaltada e pegou a camisola do chão -- Eu não tô a fim e ponto! -- vestiu-se e caminhou até a porta do quarto

 

--Então a gente vai conversar e você vai me explicar o que está acontecendo! -- levantou-se também e parou atrás dela -- Já faz pouco mais de um mês que você vem me evitando na cama e eu quero entender isso! -- virou-a de frente para si -- Sempre tivemos uma vida sexual ótima! -- olhava nos olhos da amante -- Qual o problema? Se abre comigo, vai?

 

--Eu já te disse não em outras vezes!

 

--Assim como eu, mas desse jeito nunca foi! Eu quero entender, Ju! -- estava preocupada

 

--É muita coisa na minha cabeça! -- respirou fundo e virou o rosto para o lado -- Muito estresse, muito trabalho...

 

--E era muito pior na época em que trabalhava como enfermeira! -- virou o rosto de Juliana com delicadeza para si -- Mas nunca foi assim!

 

--Ah, Suzana! -- respondeu impaciente e saiu andando pelo corredor -- Já saímos da fase do deslumbramento, somos um casal maduro e as coisas esfriam naturalmente! -- entrou no banheiro -- Não pode querer que seja como no começo, em que toda hora dá vontade! -- olhava-se no espelho

 

--E por que temos um tempo juntas e somos um casal maduro significa que nossa vida sexual tá com os dias contados? -- parou atrás da japonesa e olhou para ela através do espelho -- Eu não engulo essa sua conversa! Fala pra mim, Juliana, o que está acontecendo? -- pedia -- Se abre comigo, por favor! Sou sua mulher, você pode e deve confiar em mim!

 

--Eu já falei! -- virou-se de frente para a delegada -- Mas você tem dificuldade pra entender, não é, fazer o que? -- falava com impaciência

 

--Por que isso, Ju? -- seu olhar era triste

 

--Pare com essas criancices, tá, Suzana? -- empurrou-a até a porta -- E se não se incomoda eu queria usar o banheiro, pode ser? -- pediu com a cara feia

 

A delegada sentiu uma imensa tristeza e se retirou em silêncio. Juliana fechou a porta do banheiro e se encostou nela fechando os olhos.

 

“O que está acontecendo comigo, meu Deus? Por que de um tempo pra cá eu me vejo pensando tanto naquela mulher e perdendo a paciência com Suzana a troco de nada?” -- abriu os olhos e suspirou -- "Ai, mas que droga!” -- deu um soco na porta

 

A morena sentou-se na cama e apoiou os cotovelos sobre os joelhos. “Será que ela tá se interessando por outra mulher?” -- pensava -- "Por favor, meu Deus, não deixa isso acontecer! Eu a amo tanto...” -- sentia vontade de chorar -- "Será que é alguma daquelas mulheres que ficam assediando?” -- preocupou-se -- "Queria tanto um colinho de dona Lourdes...” -- lamentou com saudades

 

***

 

Tatiana conversava às escondidas com um homem em um barzinho bastante reservado. Era por volta das seis da tarde.

 

--Eu venho tentando encontrá-lo há muito tempo. Fico feliz que esteja disposto a colaborar comigo. -- ela falava em voz baixa

 

--Eu não estava! -- ele respondeu decidido -- Mas algumas coisas que presenciei sem querer me fizeram reconsiderar... Nunca pensei que meu guru chegasse ao ponto em que chegou! -- afirmou com desgosto

 

--Descobri sobre seu guru depois de muita investigação e posso lhe dizer que não é de hoje que ele tá metido com magia pesada. -- olhava para o homem -- Você foi que confiou cegamente nele e demorou a ver as coisas como são. Tudo que ele apresenta abertamente é um disfarce pro que realmente faz!

 

--Eu sei... -- tirou um pen drive de dento do bolso da calça -- Aqui dentro tem um monte de fotos que não deixam dúvidas sobre o fato de que meu guru pratica rituais macabros. -- entregou a ela -- Alerto que são imagens muito chocantes e você pode até passar mal quando vê-las! -- advertiu

 

--Pode deixar. Vou me preparar antes de abri-las. -- guardou o pen drive na bolsa

 

--Aí também estão algumas fotos de pessoas que encomendam esses rituais pra não perderem o poder que têm. -- explicava -- E eu que pensava que aquela gente ia lá apenas pra um banho de purificação... -- balançou a cabeça contrariado

 

--Eu te agradeço muitíssimo por colaborar! -- tirou um papel dobrado da bolsa -- Como te prometi, aqui estão os contatos das pessoas que deve procurar. Elas vão te ajudar a fugir e refazer a vida em outro lugar. -- entregou o papel ao homem -- Afinal de contas você nunca matou ninguém e servia a seu guru apenas nas práticas normais da religião.

 

--Religião que eu pensava que era séria e não essa matança! -- deu um soco na mesa -- Como pude me deixar enganar por cinco anos sem saber de nada?

 

--Não fique se lamentando e nem perca tempo porque com certeza virão atrás de você. Saia daqui direto pra rodoviária e desapareça sem olhar pra trás! -- deixou uma soma em dinheiro sobre a mesa -- Pague a conta e suma! -- levantou-se e foi embora

 

Ao invés de fazer conforme foi orientado, o homem permaneceu no local viajando em seus pensamentos e bebendo chope. Essa infeliz decisão fez com que perdesse tempo precioso e, com isso, a própria vida.

 

***

 

Tatiana dirigia em direção a ponte JK. Anoitecia e ela fora obrigada a passar em Brasília mais tempo do que planejava. O encontro com o informante havia dado a ela material precioso para trabalhar, agora era hora de ordenar fatos e idéias em uma matéria bem estruturada.

 

--Cuidado, Tati, vixi Maria! -- Patrícia alertava -- Guarda esse pen drive contigo, mulher, tira essa pistinga da bolsa! -- inspirava a amiga -- E feche melhor essa janela de carro, visse?

 

Sem pensar a repórter esticou a mão e pegou o pen drive de dentro da bolsa. “Acho que vou guardar esse trem na minha calcinha!” -- pensou e assim fez

 

--Isso, agora feche melhor essa janela, mulher! -- insistia

 

Depois de alguns segundos ela fechou completamente todas as janelas do carro.

 

--Vai dar tudo certo, amiga! -- Patrícia continuava -- Fica bem e confia!

 

Ao pegar a ponte a jovem teve sua atenção voltada para um carro atrás de si. -- Mas o que...? -- desconfiou e acelerou mais

 

O veículo que a seguia acelerou da mesma forma. A perseguição começava intensa.

 

Valadão e Rodolfo apareceram no carro junto a elas.

 

--Delegado, eles vão jogá-la nessa lagoa! -- Rodolfo advertiu nervoso

 

--Concentre-se comigo, rapaz! Quando a pressão da água romper os vidros nós vamos protegê-la e ela sai! -- Valadão orientou -- Patrícia, -- olhou para a jovem -- cabe a você ajudá-la nesse momento!

 

--Tamo junto! -- respondeu confiante

 

Alheia ao amparo que recebia dos amigos espirituais, Tatiana sentia-se tomada pelo nervosismo.

 

--Ai, meu Deus, me ajuda! -- clamou em desespero

 

Em um golpe certeiro o carro misterioso se chocou lateralmente contra seu veículo. Tatiana foi projetada da ponte no trecho mais alto, a 62m de altura.

 

--Ahahahahahahahah! -- gritou apavorada

 

--Agora!! -- Valadão gritou

 

Em poucos segundos o carro mudou de inclinação e caiu na água, de modo que o choque causado pelo impacto não fosse traumático. Tatiana, orientada por sua amiga, destravou o cinto segurança e quando os vidros romperam, ela saiu pela janela do motorista, nadando até a superfície.

 

***

 

--Mas você só me mata de preocupação, menina!! Será possível?? -- Cláudio reclamava furiosamente -- Já não bastou aquela época em que vivia perseguida por aí, agora já me vem com mais essa de investigar coisa do mal? -- olhava para a filha -- Você podia ter morrido!!

 

--Ai, filha, pelo amor de Deus! Larga essa vida de se meter com esses perigos! -- Clarice pedia -- Vai fazer reportagem sobre viagens, vida de artista e outros trem que não dão problema! Seu pai e eu num tamo dando conta!! -- segurou o rosto dela

 

--Mas eu não sou repórter de amenidades, mãe! Não adianta, eu sou repórter investigativa e é isso! -- respondeu com decisão

 

Clarice soltou o rosto da filha e balançou a cabeça negativamente.

 

--Quando é fé chega a notícia que essa menina morreu! -- Cláudio continuava reclamando -- Eu não quero ir pra enterro de filha, não viu, Tatiana! -- afirmava com o dedo em riste -- Você tá proibida de morrer!

 

--Ah, mas isso aí eu obedeço sem pensar duas vezes! -- acabou rindo

 

--Pelo amor de Deus, Tatiana! Pare de levar tudo na brincadeira! Nem Ed é tão maluca quanto você! -- Renan falava contrariado -- Também não quero ficar viúvo!

 

--Mas, gente, eu tô aqui vivinha da silva, não tão vendo, não? -- abriu os braços

 

--Tá viva, mas num hospital e depois de ter sido cuspida de um diacho de ponte a mais de 50m de altura! -- o pai da jovem argumentava -- Daqui a pouco vai ter que se esconder de novo!

 

--Não me diga que a gente vai ter que fugir, Tati? Eu não quero mais aquela vida, não! -- Renan cruzou os braços revoltado -- Não quero mais saber de ficar passando fome no exterior investigando guerra e outras loucuras!

 

--Calma, meu pretinho, não vai ter nada disso! -- ela respondeu sorrindo -- Daqui a pouco eu saio daqui e de mais a mais o atentado já virou notícia no Brasil todo! Eles vão retroceder. Pelo menos nesse primeiro momento!

 

--Um homem apareceu morto no banheiro da rodoviária e algo me diz que era o tal que se encontrou contigo! -- Renan contou a triste notícia -- Esse pessoal não tá de brincadeira, Tati! -- olhava para ela assustado

 

--Você entrevistou o falecido? -- Clarice perguntou apavorada -- Ai, meu Deus! -- cobriu a boca com as mãos

 

--Veio de tão longe pra me ver e acabou morrendo assim... -- a repórter falou com tristeza -- Mas a morte dele não será em vão! -- falava mirando um ponto no infinito -- No momento certo vou despejar tudo que tenho e essa cambada vai ver só! Ainda tenho um trunfo escondido na manga! -- balançava a cabeça -- "Ou na calcinha, melhor dizendo!” -- pensou

 

***

 

Ricardo chegava ao endereço de Lígia na tarde de um sábado de muito calor. Fevereiro estava em seu início.

 

Apresentou-se ao porteiro que ligou para o apartamento dela, a qual, após muita resistência, permitiu que o homem subisse.

 

Ao sair do elevador deu de cara com Mateus parado na porta.

 

--Ricardo? -- perguntou de cara feia e braços cruzados

 

--Sim, sou eu. -- respondeu desconfiado

 

--Só entra na minha casa depois de mostrar os documentos! -- ordenou

 

Ricardo estranhou o pedido mas apresentou o passaporte. Mateus leu em voz alta.

 

--Nome do pai: Mariano Zanini. -- olhou para dentro de casa -- É isso mesmo, Lígia?

 

--É! -- ela apareceu na porta -- De fato, ele se parece com tio Mariano. -- olhou para Ricardo de cima a baixo -- Deixa ele entrar! -- decidiu

 

--Tô de olho, mano! -- Mateus encarou fazendo cara feia

 

“Será que eu fiz uma boa coisa vindo atrás desse pessoal?” -- pensou arrependido

 

***

 

--E foi isso, gente! -- Ricardo se explicava -- Eu procurei por eles na internet, mas nada encontro sobre meu pai ou tia Mari. E quanto a Camille só achei a notícia de que foi aprovada na prova de transferência da UFRJ e num concurso público aí!

 

--Tia Mari foi a maior decepção da minha vida, viu? -- Ligia afirmou magoada -- Nunca pensei que fosse fazer o que fez com a gente!

 

--Nem eu! -- Mateus respondeu de cara feia

 

--Mas... o que aconteceu? -- perguntou curioso

 

--Ah, uma coisa horrível! -- Ligia contava sua versão dos fatos -- Tia Mari vivia convidando a gente pra passar dias na casa dela. Uma semana, duas, um mês...

 

--Mas quando a gente aceitava e ia pra lá pra passar o final de ano, ela sempre dava um cano em nós! -- Mateus complementou -- Por mais de uma vez demos viagem perdida, mano!

 

--Só que a gente relevava. Sabe como é, família, né? Tem que relevar... -- Ligia continuava -- Até que há coisa de uns três anos atrás, tia Mari e Camille enlouqueceram e trataram a gente feito cachorro. Pior que cachorro, eu diria! -- gesticulava com o dedo para cima

 

--Why?? -- mais curioso ficou -- Por que?

 

--Aceitamos o convite delas de passar um mês lá e na hora H, ela nos disse um monte de desaforos e nos expulsou de casa! Até ameaçou nos bater! -- Mateus relembrava furioso -- Desde então nunca mais pusemos os pés lá! E eu também nem gostava de ir praquela casa velha e feia! -- deu de ombros com despeito

 

--Mas eu ainda acho que foi fofoca daquela dona Rosa. -- a mulher dizia -- Só porque nossos filhos foram expulsos do colégio por um foguinho à toa!

 

“Foguinho à toa?” -- Ricardo não entendeu -- Mas... vocês teriam o endereço da tia Mari pra me dar? -- pediu esperançoso

 

--Ah, meu filho, eu joguei fora, né? Não piso mais naquela casa nem que me pague! -- Ligia disse desaforada -- Depois de tudo que ouvi? Ah, não!

 

--Mas você não saberia nem me dar uma dica? -- perguntou aflito -- Eu preciso achar meu pai e conto com tia Mari pra me ajudar!

 

--Eu só me lembro que ela mora num bairro chamado Engenho! -- pausou -- Engenho? Ou é Meyer? -- ficou na dúvida -- Ah, é um desses aí! Lugarzinho feio, viu? -- fez uma careta

 

--Ei, mano, não olha pra mim que não lembro de nada! -- Mateus disse logo -- Sou péssimo pra nome de rua!

 

--Putzgrila... -- suspirou desanimado -- E eu que contava com a ajuda de vocês... -- pausou -- Shit! -- xingou baixinho

 

--Putzgrila?! -- riu -- Eu não ouvia isso há séculos! -- pausou -- Bem... Sinto muito, querido! -- Ligia esfregou a mão no braço dele rapidamente

 

--É... mas... well... será que... será que eu poderia passar essa noite aqui? -- pediu receoso

 

--O que??????? -- Mateus arregalou os olhos -- Mas é muita cara de pau, meu! Você chega aqui sem avisar e quer passar uma noite na nossa casa? -- levantou-se -- A gente nunca que fez isso de chegar na casa dos outros de supetão e pedir pra passar tempo! -- franziu o cenho -- É bem filho do Mariano mesmo!

 

--Hey, buddy, please relax! -- levantou-se também -- It's just... É só por essa noite. Prometo que amanhã cedo eu vou embora! -- olhava para os dois

 

--Hum... -- olhou para o marido com cara de piedosa -- Ah, pode ser, vai, eu sou coração mole! -- olhou para Ricardo novamente -- Mas você dorme no sofá e não toma café da manhã!

 

--OK! -- respondeu de imediato -- "Não pode ser pior do que bancar o empregado de tia Rosa durante um mês! E ainda cuidando das frieiras de tio Alípio, argh!” -- pensou enojado

 

Nesse momento, Michael e Caroline chegam da rua.

 

--Quem é o carinha aí? -- Michael perguntou desconfiado

 

--Esse é Ricardo, filho de tio Mariano. Ele vai passar a noite aqui. -- Ligia esclareceu

 

--Hi there! Tudo bem? -- cumprimentou os jovens timidamente

 

--Você parece um tio Mariano com pneuzinho! -- Caroline apontou para ele e riu

 

--E olha só a roupa, meu! Coisa tooooosca! -- Michael ria também

 

“Pneuzinho?!” -- olhou para a própria cintura -- "E o que há de errado com a minha roupa?” -- perguntava-se intrigado

 

--E como foi no curso de inglês, queridos? -- Mateus perguntou sorridente -- Vocês chegaram tão tarde! Geralmente já estão em casa antes do almoço...

 

--Ah, pai não ferra! -- Michael respondeu mal humorado jogando-se na poltrona -- Hoje o dia foi foda!

 

--Olha o jeito de falar com o papai! -- Ligia ralhou sem energia alguma

 

--E aquela professora chata? Pegou no pé de vocês hoje? -- Mateus perguntou cheio de mesuras

 

--Ah, nós demos um jeitinho nela! -- sorriu para o irmão e se jogou na poltrona também -- Ô, mãe, tamo com fome! Como é que é? -- Caroline olhou para a mãe esperando providências

 

--Só um segundinho! -- Ligia correu para a cozinha

 

--Eu gostei do teu relógio! -- Michael se levantou e segurou no pulso de Ricardo -- É da hora!

 

--É, mas é o único que eu tenho! -- desvencilhou-se dele com jeito

 

--Isso aí é um mp3? -- Caroline apontou para o bolso dele

 

--Não. É um mp4. -- respondeu desconfiado -- Por que?

 

Caroline e Michael se entreolharam e sorriram com cumplicidade.

 

“Eu deveria ter ficado com as frieiras de tio Alípio...” -- pensou receoso -- "Fuck!”

 

***

 

Seyyed chegava em casa da oficina.

 

--Querida, cheguei! -- falou com uma voz brincalhona -- Onde andará o meu amor? -- perguntou em voz alta

 

Ao chegar no quarto deu de cara com Isabela sentada na cama e se maquiando diante do espelho do guarda roupas. Usava um espartilho preto, calcinha de mesma cor, meias três quartos e saltos altos.

 

--Oh! Que susto! -- olhou para a morena com o cenho franzido -- Você demorou a chegar! E eu aqui precisando de seus serviços! -- fingia-se mal humorada

 

--Ah, eu... -- entrou no jogo dela -- Eu tive uns problemas e por isso perdi a hora. Mas estou a sua disposição pro que desejar. -- sorriu maliciosamente e fez uma espécie de reverência

 

--Sabe que não tolero atrasos mas dessa vez vou deixar passar. -- olhou para a morena com desdém -- Estou me preparando pra entrar no palco e preciso relaxar... -- falava com arrogância

 

--Sim senhora. -- aproximou-se da bailarina lentamente e se ajoelhou diante dela -- O que quer de mim? -- perguntou insinuante

 

--Massageie meus pés! -- esticou a perna e repousou o tornozelo no ombro da amante

 

--A senhora manda! -- tirou o sapato da ruiva e começou a massagear seu pé -- Está bom assim? -- sorria

 

--É... -- respondeu sem empolgação -- Massageie o outro também! -- repetiu o mesmo movimento com a outra perna

 

--Agora! -- tirou o outro sapato da bailarina e passou a massagear os dois pés dela

 

--Responda uma coisa: uma mulher pobre como você não se sente honrada em servir uma estrela como eu? -- perguntou insinuante

 

--E me sentiria muito mais honrada se pudesse lhe servir com mais dedicação ainda! -- beijou um dos pés da outra -- Posso fazê-la relaxar de verdade!

 

--Você é muito pretensiosa! -- sorriu e empurrou-a com os dois pés fazendo-a cair sentada -- Vestida com esse jeans surrado e essa blusinha branca mixuruca e suada, acha que poderia me interessar? -- acariciava o tórax da morena com os pés -- É muito básico pra me satisfazer!

 

--Garanto que poderia lhe dar muito prazer! -- deslizava as mãos sobre as pernas de Isa -- E deixá-la bastante excitada! -- sua voz era rouca de desejo

 

--Será? -- empurrou-a com os pés novamente e se levantou -- Hoje eu queria uma coisa diferente... -- passou a mão nos cabelos e olhou para Ed -- Não creio que você saberia como fazer. -- olhou rapidamente para o travesseiro

 

Só então a morena percebeu que havia um acessório esperando para ser usado.

 

--Ah! -- levantou-se e tirou os próprios sapatos com os pés. -- A senhora deveria saber que sou uma pessoa habilidosa naquilo que faço. -- tirou a blusa -- Sei exatamente como fazer... -- reclinou-se sobre a cama e pegou o acessório -- E não vou decepcioná-la! -- desabotoou a calça

 

Isabela observou a amante se preparando para ela. -- Eu não disse que sim... -- afirmou dengosamente ao se encostar na penteadeira

 

--Também não disse que não... -- caminhou na direção da ruiva

 

--Eu decido aqui! -- segurou a mecânica pelos ombros e a empurrou para que caísse sobre a cama -- E você ainda não me convenceu... -- roçou uma perna entre as pernas dela

 

--Não seja por isso! -- tomou-a pela cintura e rapidamente a deitou sobre a cama -- ajoelhou-se entre as pernas dela e deslizou as mãos em suas coxas -- Tenho argumentos suficientes pra convencer a senhora de que sou tudo que precisa nesse momento! -- sorria com um olhar faminto

 

--E quais os seus argumentos, hein, sua serviçal abusada? -- perguntou olhando nos olhos da morena

 

Seyyed nada respondeu, iniciando um gostoso modo de desatar o espartilho da ruiva com os dentes. Não deixava seu peso cair sobre ela apoiando-se com as mãos na cama.

 

--Ai... -- abriu as penas para dar mais acesso à morena -- como consegue desatar tantos laços desse jeito? -- sorriu

 

A mecânica olhou para Isa rapidamente e piscou, continuando sua tarefa de despi-la. Ao concluir seu intento, mordicou levemente um seio da amante.

 

--Ah... -- gem*u segurando Ed pelos cabelos

 

A morena continuou a se deliciar com os seios da ruiva embalada pelo som de seus gemidos de prazer.

 

--Já estaria convencida, senhora? -- mordeu delicadamente um mamilo

 

--Ai... -- respirou fundo -- Não! -- buscou se recompor e afastou-a de si empurrando-a mais uma vez pelos ombros -- É preciso mais pra me convencer! -- fazia um tipo

 

A morena deslizou as mãos pela cintura da bailarina e percebeu que a calcinha dela tinha uma abertura no fundo. Sorriu e apoiou as duas pernas da amante sobre os ombros.

 

--Então vou continuar tentando! -- seguiu lambendo uma das pernas da ruiva desde os joelhos até o sex*

 

--Ah! -- arqueou as costas ao sentir a língua da mecânica a lhe provocar, enquanto as duas mãos dela percorriam seu corpo em direção aos seios -- Ah!!!!!!!!!

 

Após um tempo, Seyyed seguiu lambendo em direção ao outro joelho. -- E então, senhora, estaria convencida?

 

--Não... -- respondeu com dificuldade

 

--Mesmo? -- aproximou-se para que roçasse de leve -- Mas sinto que deseja ardentemente que eu... -- continuava suportando o próprio peso -- lhe satisfaça.

 

Isabela não resistiu mais e pediu: -- Vem!

 

--Eu não escutei bem! -- continuava roçando

 

--Ai, vem, vem!! -- puxava a amante pelos braços mas ela não vinha

 

--Pede, vai? -- sua voz era hipnótica

 

--Vem, amor, vem!!! -- insistia sem sucesso

 

--Fala pra mim o que você quer! -- continuava mantendo-a hipnotizada com a voz e o movimento suave

 

--Eu quero você! Dentro de mim, agora, vem, vem!! -- pedia e puxava com ansiedade

 

Seyyed penetrou-a de uma só vez, deitando-se sobre a amante com cuidado e segurando-a pelas pernas com pressão.

 

--Ahahah!!!!!!! -- gritou

 

Em poucos segundos as duas estariam chegando ao orgasmo juntas.

 

***

 

--Eu nem acredito que papai vai começar no regime semi aberto em março! -- falava satisfeita -- Aí as coisas ficarão melhores pra ele, já que só vai ter de dormir no presídio. -- pausou brevemente -- Ai, meu Deus, tomara que ele arrume emprego pra poder cumprir a pena direitinho e depois ganhar liberdade condicional! -- acariciava as costas da amante -- É tão injusto, né? Tudo bem que papai errou e merecia ser preso, mas o psicopata do Lucas já está de condicional! -- fez cara feia

 

--E desapareceu, diga-se de passagem! Suzana anda à caça dele e nada! -- comentou

 

--É uma droga! -- suspirou -- Torço com todas as forças pra esse pesadelo acabar logo! -- beijou o ombro dela

 

Seyyed estava deitada de bruços e Isabela sobre suas costas.

 

--Se Deus quiser vai acabar! -- silenciou por alguns segundos -- E seu pai vai arrumar emprego, sim. Pode acreditar!

 

--Sei não... As pessoas não costumam dar oportunidades nem pra quem foi solto, faz idéia pros presos condenados! E ele já é não mais um rapaz...

 

--Calma, ruiva de pouca fé! -- brincava -- Relaxa que as coisas vão dar certo! Pra ele e pra sua mãe!

 

--Mamãe nunca mais deu um acesso de raiva e não vive mais sedada, só que continua totalmente fora si. -- arranhava levemente o braço da morena -- Às vezes pensa que é uma rainha e faz discursos pra ninguém, por outras passa dias sem dar uma palavra...

 

--E como disse sua avó, isso já foi um adianto, uma grande vitória! -- tentava dar esperança a bailarina -- Assim como Neyan está voltando a vida, trabalhando e se refazendo, o mesmo acontecerá com sua mãe. Mas tudo na devida hora. Você leu a mensagem dos guias espirituais: ela fez por merecer e ainda precisa passar por isso!

 

--É, eu sei... -- suspirou e ficou pensando -- Sabe Ed, eu tenho saudades do nosso apartamento em Ipanema... Era tão gostoso lá...

 

--Também tenho, mas ainda precisamos do dinheiro do aluguel dele pra dar uma força no pagamento da clínica de sua mãe. -- pausou -- E falando em apartamento, temos que aproveitar que seus inquilinos saíram do apê dos seus pais e dar uma garibada nele. Quando os dois estiverem de volta precisam ter onde morar e agora não precisamos mais do dinheiro desse aluguel. Desse dinheiro, pelo menos, a gente já pode abrir mão!

 

--Tá certo, vamos ver isso! -- concordou e ficou pensando -- Eu nunca me incomodei de morar aqui no subúrbio, sabe? E esse apartamento de Silvio até que é bem gostosinho!

 

--Apartamento de Ricardinho, meu neto! -- imitou o jeito de Romeu falar, fazendo as duas rirem -- Também gosto daqui... -- gastou uns segundos calada e depois resolveu falar: -- Amor, hoje eu comprei uma moto! -- mordeu os lábios esperando a bronca

 

--Mas, Ed, será possível?? -- sentou-se contrariada e deu um tapinha no ombro dela -- Eu sabia que aquele papinho sobre duas rodas com Samira ia dar nisso! Eu sabia! -- cruzou os braços de cara feia

 

--Amor, você sabe que eu curto muito! -- sentou-se e ficou de frente para a ruiva -- Andar de moto pra mim é um prazer que não dá pra explicar!

 

--Mal a gente se recupera um pouco e você arruma dívida! -- deu uma travesseirada em Ed -- Juliana e Suzana não despejam dinheiro na oficina, elas investem com muita cautela, e você me vem com essa? -- mais uma travesseirada -- Que foi, o dinheiro que Renan te dá, tá sobrando, é isso? -- tome de bater

 

--Que sobrando, meu amor? Eu uso esse dinheiro pra pagar algumas contas. -- defendia-se do travesseiro -- Gata, eu comprei a moto por um preço quase de graça! Nem vai fazer diferença no orçamento! -- continuava se esquivando -- É uma Yamaha YZF-R1 1000 do ano passado, azul, super esportiva e muito show! -- argumentava -- Dirigir aquele tipo de moto me deixa até excitada!

 

--Te deixa excitada? -- levantou-se da cama com cara feia -- Então a partir de hoje a senhora vai dormir na sala! E fica de castigo dormindo lá por uma semana!

 

--Mas, Isa? -- fez cara de coitada

 

--E quanto a nós, -- pegou o roupão e se vestiu -- vai ficar na secura por quatro meses!

 

--Quatro meses?! -- perguntou desesperada

 

--Quando ficar excitada, Seyyed, procura a R1! -- andou até a porta do quarto -- Já pra sala!

 

--Isa... -- falou como criança decepcionada

 

--Pra sala, Seyyed! -- apontou para fora

 

Ed se levantou chateada e pegou o pijaminha. -- Pôxa, você nem liga de passar esse tempo todo sem mim... -- vestia-se fazendo beicinho

 

--Eu ligo, mas você é muito mais sexual do que eu! -- passou a mão nos cabelos -- E você sabia que tava proibida de andar de moto até o fim da vida!

 

Pegou um lençol e um travesseiro. -- Mas isso não tá certo, Isa! -- protestou e andou até ela -- Eu sou motociclista, não dá!

 

--Você não tinha nada que comprar moto sem falar comigo! -- deu outro tapinha no ombro dela -- Agora agüenta!

 

--Isa... -- parecia uma garotinha falando

 

--Pra sala! -- cruzou os braços -- Por uma semana!

 

A morena respirou fundo e saiu do quarto. “Me ferrei...” -- pensou com tristeza

 

 

19:00h. 20 de fevereiro de 2009, Edifício Rubi, sala 1033, Centro da Cidade, Rio de Janeiro

 

--Pra mim foi uma sensação indescritível, Ivone! -- Camille contava -- Aquela carta do meu pai é verdadeira e eu chorei muito quando mamãe leu pra mim. -- sorriu emocionada

 

--Que maravilha! -- sorriu satisfeita -- Considero que receber uma mensagem de alguém que amamos e não está mais aqui é uma das maiores honras que Deus nos concede! Fico muito feliz que tenha recebido notícias do seu paizinho!

 

--Pois é... Eu realmente me senti muito grata a Deus e O agradeci de joelhos! -- pausou --Acho que agora começo a acreditar nessa coisa de vida após a morte e Espiritismo.

 

--Se interessaria em ler um livro a respeito? Tem essa curiosidade? -- perguntou com jeito

 

--Acho que sim... -- pausou -- É, eu me interessaria, sim! -- balançou a cabeça

 

Ivone se levantou e foi até a estante. Pegou um volume do Livro dos Espíritos e colocou sobre a mesa, diante da jovem. -- É uma boa leitura pra começar.

 

--Eu vou ler. -- pegou o livro e deu uma folheada -- Pode deixar que não vou sumir com ele e nem fazer orelha. Sou cuidadosa! -- garantiu

 

--Nem me ocorreu o contrário! -- sorriu

 

--Isso tudo é muito curioso e estranho pra mim, sabe? Essa coisa de vida espiritual... Dona Olga coordena uns trabalhos no centro e eles fazem um negócio de lutar contra o mal, desmanchar o efeito de magias e coisas do gênero. -- comentava -- Soube que graças a isso, o mecânico safado que colocou as bombas na ESSALAAM e vivia vegetando acabou se recuperado. E mais um coreógrafo doido, que aprontou uma ursada com uma bailarina, deixou o hospício e tá até trabalhando com Isa. -- ficou pensando -- Como pode? -- perguntou surpreendida -- Até dona Ana melhorou! Continua maluca mas não tem crises!

 

--Muitas doenças que a medicina não consegue entender ou debelar têm sua origem no espírito imortal. Em muitos casos, por conta de débitos que contraímos no passado, nós nos comprometemos de uma tal forma que acabamos tendo nossa estrutura espiritual avariada. -- explicava -- Essas avarias da alma se projetam no corpo físico e geram enfermidades. Por outras vezes, conquistamos a ira de alguma pessoa que fica nos obsidiando e sugando nossas energias. Isso também gera doenças, especialmente aquelas de fundo psicológico. Mas veja, não quero dizer que toda patologia que se manifesta ao longo de nossas vidas têm uma causa espiritual! -- advertiu

 

--Entendo! Há casos e casos. -- balançou a cabeça concordando

 

--E ainda há os casos em que uma obra de feitiçaria feita contra nós acaba por nos debilitar de corpo e alma de modo apavorante; como acontecia com essas pessoas que você citou. -- continuava explicando -- E essa magia pode nos atingir por conta do desequilíbrio predominante em nossos pensamentos e atitudes. Não foi à toa que Jesus Cristo nos advertia dizendo: “ -- Orai e vigiai!”

 

--Faz sentido... -- ouvia atentamente -- Lembro de que uma vez dona Olga disse que "muitas enfermidades têm origem no temperamento desajustado, nas emoções em desalinho e em influências espirituais negativas."17

 

--O que Olga está fazendo, graças ao estudo que iniciou no centro, chama-se apometria. Ela, auxiliada pelos Espíritos de Luz e por seus médiuns, coordena ações que visam combater o mal e seus efeitos sobre a vida das pessoas. É algo que poucos centros se dedicam a fazer! -- pausou -- Depois que eu me aposentar, começarei a me envolver nisso ativamente. Nos dias de hoje minha participação é esporádica e eventual.

 

--Eu vou começar a estudar essas coisas! -- decidiu -- Já é hora de cuidar de minha vida espiritual com a mesma seriedade com que cuido de todo resto!

 

--Muito bom! -- exclamou animada -- Não sabe como me felicito ao ouvir isso de você, uma moça que até bem pouco tempo afirmava em alta voz que não acreditava em coisa alguma! -- sorria feliz

 

--Tem que andar pra frente de vez em quando, né? -- sorriu encabulada -- Outra coisa que me emocionou, do ponto de vista material, foi que Ed me deu um carro. -- falou com orgulho -- E ela preparou ele sob medida pra mim! É o que se chama de tuning!

 

--Nossa, que presente bacana! Muita consideração da parte dela!

 

--Também acho! E fiz questão de agradecer a ela pessoalmente. -- lembrava -- E fui, a gente conversou e tava indo tudo muito bem até que sem pensar fiz uma pergunta com duplo sentido. -- fez um suspense -- E nessa hora Isa chegou!

 

--Ela ficou zangada com você? -- perguntou curiosa

 

--Ela não ouviu o que eu falei, mas percebeu que havia algo no ar, porque Ed tava toda sem graça. -- explicou -- Daí a abraçou pela cintura e tascou-lhe um beijo na boca como se quisesse me dizer: “-- Eu tenho, você não tem!” -- fez uma voz fininha -- Eu tento de verdade, mas não consigo simpatizar com ela! E também tem o fato de que aquela desgraçada vive toda linda e maravilhosa! -- pausou -- Eu não dou nem pro cheiro...

 

--Mais uma vez repito que você não precisa competir com ela. São pessoas e estilos distintos!

 

Suspirou. -- É, né? Mas vamos deixar pra lá... -- olhou para baixo e ficou mexendo no tecido da saia -- Ed e Isa se pertencem e eu devo me conformar com isso e viver minha vida!

 

--E quanto à Letícia? -- Ivone perguntou curiosa -- Não haveria uma nova chance pra vocês?

 

--Ah, não... -- descartou a hipótese -- Não combina mesmo! E de mais a mais ela continua a mesma sedutora incorrigível de sempre! Nem sei como agüentou ser fiel tanto tempo antes de me pôr chifre! -- olhou para a outra

 

--E Fátima? Quando voltará da China?

 

--Parece que em junho, mas eu não sei. Os chineses vivem sacando uma novidade da cartola e na hora H aparecem com uma proposta ainda melhor pra segurá-la por mais tempo. -- pausou -- Talvez ela não volte nunca mais... -- lamentou

 

--Nunca e sempre são mais tempo que uma encarnação tolera. -- sorriu -- Virtualmente são palavras que raramente trazem algum sentido.

 

Camille ficou pensando e olhou para a psiquiatra desconfiada. -- Ih, eu tô te entendendo, meu! Você tá me enrolando só pra eu contar tudo e você saber da concorrência!

 

--Concorrência?! -- não entendeu

 

--Ivone, por favor, eu não quero te magoar, mas... desista desse amor! -- falava com seriedade -- Já disse que é necessário manter uma ética nessa bodega!

 

--Ah! -- achou graça -- Tudo bem, mantenhamos a ética! -- concordou bem humorada -- "Mas ela pensa de verdade que eu a quero! Ai, ai...” -- teve vontade de rir

 

--Agora vamos falar sobre as novas tendências. -- ajeitou-se na cadeira -- Minha amiga Aline arrumou um hominho virtual.

 

--Hominho virtual?? -- achou graça

 

--É! Homem de internet, namoro pelo computador! -- esclareceu

 

--Sei.

 

--E ela tá amarradona e se sentindo! Diz que eles conversam, fazem sex* e o escambal!

 

--Fazem sex*? -- surpreendeu-se -- Bem deve ser uma espécie de masturbação conjunta transmitida via rede em tempo real. -- deduziu

 

--Coisa de louco, isso sim! -- retrucou -- Acha que alguém pode ser feliz com isso?

 

--Já diria um autor que li no passado: “A felicidade pode ser um novo par de botas.” -- sorriu -- As pessoas buscam a satisfação de várias formas. Há quem se contente com coisas que julgamos nada valer; pro bem e pro mal.

 

--Humpf! -- cruzou os braços -- O que aconteceu foi que depois dessa, fiquei curiosa e pensando em possibilidades.

 

--Como o que? -- ficou desconfiada

 

--Sabe que sou escritora e um sucesso no mundo lésbico virtual. Já tenho dez histórias postadas e todas elas com mais estrelas que o peito de um general!

 

--Sim. -- queria ver onde a loura queria chegar

 

--Tenho muitas fãs e fiquei pensando numa coisa que Letícia falou uma vez... -- passou a mão nos cabelos -- São mulheres que me admiram e que dariam uma perna pra me conhecer. -- falou com orgulho -- Será que não seria interessante pra mim começar a sondar, ver qual é a dessa mulherada e, de repente, escolher uma que... me agradasse mais? -- olhou para Ivone

 

--Olha, Camille, muitas pessoas que se dedicam a fazer alguma coisa que o público aprecia, começam a se envolver mais intimamente com aqueles a quem se poderia chamar de fãs, só que é necessário que se considere alguns aspectos. O que mais acontece é um misto de deslumbramento com caprichos do ego. -- ponderava -- Suas fãs, como gosta de dizer, não amam você, essencialmente, elas amam a Crisálida.

 

--Mas eu sou a Crisálida! -- protestou -- Acha que alguém escreve no meu lugar?

 

--Não, querida, claro que não. O que quero dizer é que a escritora Crisálida é apenas uma parte de você e não você por inteira. -- respondeu de pronto -- E a escrita é algo que você pode controlar, como se estivesse brincando de ser uma deusa que cria um mundo novo e interfere no destino das personagens a sua maneira. Você mexe com o imaginário de suas leitoras e algumas delas podem, eventualmente, projetar em sua pessoa uma série expectativas e desejos que falam alto em suas almas. -- pausou olhando para a loura com seriedade -- Elas massageiam o seu ego e você se sente valorizada e, de uma certa forma, em um patamar superior. Note que é uma relação onde ambas as partes estão bastante iludidas.

 

--E aí você quer dizer que isso tem tudo pra dar errado... -- fez um bico

 

--Pode acontecer de surgir alguém e vocês iniciarem um real processo de conhecer uma a outra, sem fantasias, sem máscaras ou visões distorcidas. -- explicava -- E esse relacionamento pode dar muito certo. No entanto, se você se colocar nessa posição de ‘consagrada’ -- fez aspas com os dedos -- certamente a coisa não vai acabar bem. -- pausou -- Digo isso considerando que você é uma pessoa que não está interessada em sex* pelo sex* somente.

 

--Claro que não! -- foi enfática

 

--Então pense bem. Quando nos vemos como um alvo de admiração alheia, temos de nos policiar bastante para não cairmos nas garras do orgulho e da arrogância.

 

--É... -- desanimou-se -- É melhor eu sossegar o facho mesmo pra não encontrar chifre na cabeça de cavalo e na minha! -- gastou uns segundos calada até que perguntou preocupada: -- Ô, Ivone, você não tá me dizendo isso por ciúme, não, né? -- estudava o rosto da outra -- Agora começo a desconfiar que você parou de me alcovitar pra me dar o bote na tua aposentadoria!

 

A psiquiatra não agüentou e riu gostosamente.

 

***

 

Juliana e Ivone conversavam no apartamento da japonesa, no Rio de Janeiro.

 

--Ai, Ivone, eu tô tão feliz em te receber aqui em casa! -- sorria com as mãos na cintura -- Nem sei por onde começar! -- falava com empolgação -- Você quer beber alguma coisa, comer alguma coisa...? Afinal de contas você se alimenta a base de que, hein? Vai dizendo aí!

 

--Calma, querida! -- riu -- Eu já almocei e não estou com fome. Só vou comer alguma coisa lá por volta das sete da noite. Se tiver sede, deixo você saber. -- tranquilizou-a -- Relaxe, por favor. Afinal de contas essa é a sua casa! -- sorriu

 

--Ah, mas é que é a primeira vez que você vem aqui e eu não quero passar por mal educada, né? -- apontou para o sofá -- E, por favor, vamos sentar. -- as duas se sentaram

 

--Sua casa é muito bonita. Vocês têm bom gosto. -- elogiou

 

--Obrigada! -- sorriu -- Suzana é a responsável por isso. Ela se importa e cuida com muito carinho das coisas da gente!

 

--E falando nela, por onde anda? -- cruzou as pernas

 

--Reunida com Brito por conta da peste da minha vida! A pulga que nunca sai da minha calcinha! -- revirou os olhos

 

--Quem?! -- não sabia

 

--Lucas Damaso, quem mais? -- fez cara feia -- Ou, o psicopata místico, como preferir. Eu chamo mesmo é de filho de uma égua!

 

--Ah, sim. -- lembrou-se dele -- Imagino que sua delegada esteja a mil por causa desse psicopata místico. Já vitimou a sexta mulher... -- falou com um pouco de tristeza -- Mas, como sabem que Lucas é o assassino? -- perguntou intrigada -- Os jornais afirmam que a polícia não tem nem uma deixa de quem seja!

 

--Suzana sente que é ele! -- afirmou enfática -- É aquele sexto sentido dela que não falha! -- pausou -- Aliás, foi por causa dela que eu te chamei aqui, em plena quarta-feira de cinzas, pra conversar comigo. Claro que também queria te ver, mas precisava desabafar com alguém que me conhecesse bem. -- passou a mão nos cabelos -- Pensei em conversar com a Isa, mas... você me conhece melhor do que ela.

 

--Estou ouvindo. -- respondeu interessada

 

--Conheci uma advogada saláfria chamada Irina Meyer. Ela tem uns trinta e poucos anos e faz aquele tipo de bonitinha mas ordinária, sabe como é?

 

--Sei. -- pausou -- Quer dizer, acho que sei.

 

--Essa mulher veio me procurar dizendo que o cliente dela, um poderoso desses aí, se interessou por mim e queria bancar minha candidatura pra 2010. Claro que eu recusei a oferta, mas desde então ela me persegue. -- olhava a psiquiatra -- Se eu vou pra uma reunião, esbarro com ela pelo corredor, se vou almoçar, ela aparece no restaurante, se faço uma ginástica, ela tá lá, do meu lado levantando um peso, é um inferno! Acho que um dia quando eu entrar no banheiro ela vai sair pulando de dentro da privada que nem aquele brinquedo Pula Pirata!

 

--Nossa, que mulher é essa? -- achou graça

 

--E ela nem mora em Brasília, imagine você! -- deu um tapa na perna da outra -- Diz se não é um baita assédio? -- aproximou-se de Ivone -- E pra completar, -- falava mais baixo -- vive me dando cantadas! Fica doida pra... você sabe! -- afastou-se novamente

 

--E você? -- perguntou curiosa -- Será que se sente balançada com esse assédio todo?

 

--Ai, Ivone do céu, eu não queria, mas... -- esfregou as mãos no rosto -- vivo sonhando com ela! -- apoiou a cabeça de lado na poltrona e ficou olhando para a terapeuta -- É cada sonho que nem te conto! A passarinha chega canta que é uma beleza e amanhece naquela base: toda encharcada!

 

--Hum... -- coçou o queixo -- o que essa mulher representa pra você? É simplesmente uma atração física?

 

--Aí é que tá! Ela é bonita mas não é o meu tipo. Sempre gostei de mulheres do tipo de Suzana, Seyyed... nunca de uma loura mignon e toda molinha!

 

--Toda molinha?? -- não entendeu

 

--É, ela é toda mole, toda lânguida, faz aquele tipo de mulher fresca e fatal, sabe como é? -- explicava requebrando o corpo e imitando Irina -- Aquele tipo que fala em latim: ‘aiam, uiam, queridam, fofam, páram!’ Uma verdadeira bicha do sex* feminino!

 

--Ah! -- riu -- Acho que entendi. -- balançou a cabeça negativamente -- "Ô, criatura doida!” -- pensou divertida

 

--Então, esse tipo de mulher fresca nunca me aqueceu a periquita! Só que tem algo nela, uma coisa que me deixa arrepiada, eu não sei explicar!

 

--E nesses sonhos? Existe algum diálogo ou é apenas...

 

--Tem diálogo, sim... -- pensou -- É o coro comendo e ela me falando troço, a porca torcendo o rabo e ela me dizendo coisa! Tem que ver! E não é papo erótico!

 

--E o que ela diz?

 

--Ah, ela fala como se me conhecesse de outros carnavais. Fica dizendo que eu gosto do poder, que não tô satisfeita com a minha vida, que nós duas somos iguais e coisas do gênero. -- respirou fundo e cruzou os braços -- E o pior é que isso tá interferindo na minha relação com Suzana!

 

--O que está acontecendo com vocês? -- achava aquela situação muito curiosa

 

--Eu simplesmente não consigo mais fazer amor com ela! E já faz um tempinho... -- olhou para as mãos e ficou mexendo na aliança -- Tenho tido uns sonhos estranhos onde dona Lourdes me pede pra orar e eu tento fazer isso mas... Dá uma preguiça de orar, entende? -- olhava para Ivone -- Me diz, criatura, o que está acontecendo comigo? -- perguntou com preocupação -- Eu não queria que meu casamento fracassasse por causa de uma mulher desonesta que surgiu na minha vida pra me confundir a cabeça!

 

--Já aconteceu alguma coisa entre vocês, Juliana? -- perguntou com jeito

 

--Não! -- respondeu enfática -- Eu não dou espaço pra isso!

 

--Graças a Deus, menos mal. -- respondeu aliviada

 

--O que acha que é isso? Estamos em crise porque a novidade acabou? É a rotina?

 

--Eu poderia lhe dizer muitas coisas sobre isso mas sinceramente desconfio que o caso aqui não é uma simples vontade de viver uma aventura ou uma crise conjugal de um relacionamento que caiu na rotina. -- falava com delicadeza -- Sua mulher está desafiando as potências do mal e é natural que elas busquem atacá-la de alguma forma. Sabem que o relacionamento com você é a coisa mais preciosa que Suzana tem.

 

Juliana sentiu uma dor enorme ao ouvir aquelas palavras, pois sabia que era verdade.

 

--E o relacionamento da gente sempre foi sagrado pra mim... -- afirmou com tristeza -- Uma parte de mim ama Suzana e não quer perdê-la de maneira alguma, só que essa parte tem sido derrotada cada vez mais pela outra Juliana que não tá nem aí. Eu não entendo!

 

--Procure por Olga e converse com ela a respeito disso. -- aconselhou -- Você precisa se colocar em condições de não se tornar vulnerável às influências do mal. Precisa orar!

 

--Mas eu não entendo, Ivone! -- olhava para a terapeuta agoniada -- Já sofri esse assédio do mal e não me curvei a ele! Como posso agora, que sou uma pessoa muito melhor do que antes, me tornar uma presa tão fácil? -- perguntou com aflição

 

--Talvez o reencontro com uma paixão antiga tenha lhe deixado exposta e feito você fraquejar.

 

--Paixão antiga?! -- ficou surpresa -- Acha que Irina é uma paixão antiga? -- perguntou descrente

 

--Eu não estava pensando nela.

 

--Então a quem se refere? -- não entendia

 

--Ao poder!

 

--Mas... eu não me corrompi! -- protestou

 

--Vaidade excessiva também é uma forma de corrupção! -- respondeu de imediato -- Ouça o que estou lhe dizendo e procure por Olga pra conversar com ela. Não deve ter vergonha de desabafar esses assuntos com a mulher que é como se fosse sua mãe. Só que antes disso, faça o que ainda não fez e converse com Suzana. Diga-lhe toda a verdade! -- aconselhou

 

A japonesa ficou calada. Parecia ouvir uma voz a lhe dizer para não fazer o que era aconselhada. “Não sei se vou fazer isso...” -- pensou reticente

 

E a campanhia tocou.

 

--Não espero visitas, quem será? -- levantou-se e olhou pelo olho mágico -- Ai, não! -- abriu a porta contrariada -- Dona Soraia... -- falou o nome da outra com má vontade

 

--A sua síndica preferida! -- entrou no apartamento como um foguete -- Ih! E quem é essa aí, que eu nunca vi? -- olhou desconfiada para a psiquiatra e sentou-se do lado dela

 

--Sinta-se em casa, dona Soraia. -- Juliana respondeu sarcástica ao se sentar

 

--Meu nome é Ivone, prazer. -- ela respondeu

 

--Soraia, síndica do prédio. -- sorriu -- Prazer!

 

--Ela é psicóloga e psiquiatra e fizemos terapia por muitos anos. -- a enfermeira falou -- A senhora e sua neta deveriam experimentar algo do gênero pra ver se tomam jeito de gente!

 

--Como é?! -- deu um salto na poltrona e ficou olhando para a terapeuta -- Então você é uma sapatóloga? Ah, mas isso muito me interessa! -- cerrou os olhinhos

 

--Sapatóloga?! -- a psiquiatra não entendeu

 

--Quem trata de sapatão é o que? -- esclareceu -- Mas se bem que não deve ser das boas, haja vista que essa aí continua mais lésbica do que nunca!

 

--E quem disse que eu queria deixar de ser? -- perguntou desaforada ao cruzar os braços

 

--Seja lá como for, quem não tem cão... -- meteu a mão na coxa de Ivone -- Escuta aqui, minha filha, tenho uma neta que vive comigo e ela não é mole! A menina se converteu em Hugo não é de hoje e só vive metida com mulher problemática! -- contava a história -- Pra você sentir o drama, a namorada atual é prostituta da ativa! Acredite ou não, a bicha faz ponto lá na Senador Pompeu e tem uma carteira de clientes pra ninguém botar defeito! -- deu um tapa na perna da outra -- A mulher tem mais horas de cama que urubu de vôo!

 

--E... -- a terapeuta se ajeitou no sofá com vontade de rir -- o que a senhora espera que eu diga? -- perguntou desconfiada

 

--Ora essa, mas a sapatóloga aqui é você! -- reclamou -- Deveria ter uma solução pro meu problema na ponta da língua!

 

--Sinto por lhe decepcionar mas eu acho que não tenho. -- achava graça

 

--Juliana, vou te contar! Essa tua sapatóloga não tá com nada! -- olhou para a japonesa e fez uma careta

 

--E a senhora veio fazer o que aqui, hein? -- foi direto ao ponto

 

--Eu vi quando você chegou aqui no sábado mas não pude vir te abordar porque fazíamos a verificação da caixa d’água. Depois eu tive uns compromissos, fui dançar no Bola Preta, passei no clube de biribinha...

 

--Mas e aí, dona Soraia? Desembucha! -- perdeu a paciência

 

--E aí que eu quero que você leve minha neta contigo! -- deu um soco no ar -- Não dá mais pra manter essa menina aqui! Eu não posso permitir que minha neta namore uma criatura que fala que “compreto é cem real”! Ah, mas isso não!

 

--Eu já disse que não levo sua neta comigo pra lugar algum! Não quero e nem preciso de uma assessora lésbica! -- levantou-se e foi abrir a porta

 

--Mas quem pensava em assessoria? -- levantou-se também -- Eu pensei é dela ser sua amante mesmo!

 

--O que??? -- a japonesa arregalou os olhos -- A senhora enlouqueceu, dona Soraia?

 

Ivone teve que rir.

 

--Ora, minha filha, tempos difíceis exigem medidas drásticas! Você já tá casada de tempos e todo político que se preze tem uma amante! Se os homens podem, as mulheres também podem, como não? -- parou diante de Juliana

 

--Pois eu não quero amante nenhuma, muito menos aquela franguinha assanhada! -- apontou para fora -- E eu vou convocar eleições nesse condomínio porque a senhora se tornou síndica em caráter vitalício e hereditário! Isso tem que acabar!

 

--Vejo que o poder subiu a sua cabeça com tudo mesmo! Pensa em eleição o tempo todo, cruzes! -- saiu de cara feia mas se deteve -- E você, sapatóloga! -- dirigia-se a Ivone -- Vê se estuda pra aprender alguma coisa! -- olhou para a japonesa -- Você terá notícias minhas! -- foi embora

 

--Tá vendo, Ivone? -- fechou a porta contrariada -- Tá vendo como o assédio pra cima de mim tá sinistro? -- olhou para a outra de cara feia

 

--Pois é... -- sorria -- E agora você nem tem mais uma sapatóloga pra se consultar. -- brincou com a situação

 

***

 

--Mas, Aline, você tem titica na cabeça, meu? Vai receber o tal do Ricardo na sua casa?? -- Camille estava em choque -- Ô louco, mina doida!

 

--Ah, amiga, meus pais se aposentaram no ano passado e foram morar em Rio das Ostras. Eu vivo sozinha, não vou incomodar ou escandalizar ninguém! -- sorria

 

As duas conversavam ao telefone.

 

--Mas eu não tô querendo dizer que a presença dele vai incomodar seus pais, eu tô dizendo que você se arrisca muito em receber um desconhecido em casa! -- argumentou -- Vai que é um assassino? Um tarado? Um viciado louco ou então esse tipo de homem que gosta de bater em mulher? -- alertava a outra -- Quem vai te defender se serão apenas vocês dois dentro de casa? Seria melhor se seus pais ainda estivessem lá!

 

--Ah, não viaja, eu sei que ele é boa gente! -- respondeu com segurança -- Além do mais eu tenho que aproveitar que ele tirou umas folguinhas do restaurante e vem vindo passear no Brasil! -- pausou -- Acredita que vai ficar na cidade por dois meses?

 

--Dois meses?? Nunca vi um dono de restaurante se ausentar do trabalho por tanto tempo! -- ficou surpresa -- Essa história tá muito da mal contada! -- Camille fez um bico

 

--Tá nada, você é que é muito desconfiada, amiga! Ricardão chega amanhã à noite e eu vou buscá-lo no Galeão! -- sorria empolgada

 

--E que vôo é esse que chega dos Estados Unidos à noite? -- perguntou desconfiada

 

--O vôo dele vai pra Guarulhos e de lá é que ele vem. O problema é que a conexão São Paulo – Rio tem um intervalo de tempo imenso e o coitado só chega aqui à noite! -- explicava

 

--E o cara vai ficar esse tempo todo na tua casa, comendo, bebendo e dando despesa sem contribuir com nada? -- achou um absurdo -- Vê se não fica dando boa vida pra malandro, viu?

 

--Que malandro que nada! Ele trabalha é muito! Além do mais eu não posso receber uma pessoa na minha casa e fazer conta dos gastos dela! -- protestou

 

--Humpf! -- fez um bico novamente -- Bem, Aline, você é quem sabe! A vida é sua e eu não me meto!

 

--Por que não vai comigo no aeroporto? Prometo que te deixo em casa! -- ofereceu -- Aí você olha na cara dele e perde a cisma!

 

--Não vai dar. Amanhã mesmo viajo a serviço e só volto em abril.

 

--Ah, então fica pra quando você voltar. Eu marco um encontro pra você conhecê-lo e dizer o que acha do meu gato. -- respondeu sorridente -- Ei, e pra onde você vai, afinal? -- perguntou curiosa -- Vai ficar tanto tempo fora! Hoje ainda é primeiro de março!

 

--Pra quatro lugares diferentes, pra ser exata. A missão é complexa e a gente tem que negociar com um grande número de potenciais fornecedores. -- falava -- Primeiro vou com dois colegas pra Nova York e passo uma semana lá. Aí nos separaremos e vou sozinha pra Londres, onde passo mais um tempo. De lá sigo pra Oslo e por fim pra Dubai, onde também encontro com uma colega.

 

--Gente!!! -- arregalou os olhos -- Que chique!!! Minha amiga em Dubai, oh, meu Pai! -- ficou excitada -- Tira foto de tudo, amiga, de tudo! E vê se fica esperta, porque vai que você arruma um sultão rico e poderoso?

 

--Eu, hein? Tô fora de Sultão! -- fez uma careta -- "Mas uma libanesa bem que eu queria...” -- pensou

 

***

 

Anselmo cruzava as portas do presídio como quem descobre o mundo pela primeira vez. Sabia que teria de voltar todos os dias para dormir e que também passaria finais de semana e feriados na cadeia, mas só o fato de poder circular pelas ruas dava-lhe um verdadeiro sopro de vida na alma.

 

Ele agradecia a Deus por ter tido forças para resistir até ali e prometia-Lhe de coração aberto que seria um novo homem. Não queria mais saber de luxo, riqueza ou qualquer uma dessas coisas passageiras. Desejava imensamente tornar-se rico daquilo que o dinheiro não compra e ser o marido e pai que até então não se permitira ser.

 

Lembrava-se de uma frase que leu há anos atrás sem dar a devida importância, mas que naquele momento parecia ter sido escrita para ele: "Em você existem as causas da sua derrota e vibram as forças de seu triunfo."18

 

“Eu vou conseguir, eu sei! Só depende de mim! Tenho fé!” -- pensava confiante

 

Vestindo a roupa que Isabela havia lhe trazido na última visita, caminhava com uma pequena maleta nas mãos, sorridente e emocionado, em direção a filha.

 

--Ah, meu amor!! -- abraçou-a com força -- Não sabe o quanto que sonhei com esse dia!! -- fechou os olhos e se encantou com o perfume da ruiva -- Minha princesinha, que felicidade...

 

--Eu também contava nos dedos, pai! -- olhou para ele e beijou-lhe a testa -- Graças a Deus! -- sorria também

 

--Também devo te agradecer pelo apoio. -- olhou para Seyyed -- Será que... eu poderia lhe dar um abraço? -- perguntou receoso

 

--Claro que sim! -- abriu os braços sorridente e ele veio

 

--Me perdoe! -- pediu com muita sinceridade -- Por favor, me perdoe! Pode acreditar que eu mudei muito. Sou outro homem, eu juro!

 

--Tá tudo bem! -- olhou para ele e deu um tapinha delicado em seu rosto -- Acho que estamos nos tornando uma família de fato, não?

 

--Eu também acho e fico muito feliz com isso! -- afastou-se um pouco e se endireitou -- Olhem pra mim! -- pediu -- Estou apresentável? -- perguntou nervoso

 

--Totalmente, pai. -- a ruiva achou engraçado o modo como ele fez a pergunta -- Está bem bonito!


--Agora preciso arrumar um trabalho e apresentar a eles uma carta de emprego. Tenho prazo pra fazer isso e se não conseguir acho que voltarei pro regime fechado. -- explicava a situação -- Nem sei por onde começar, mas tô cheio de disposição! -- sentia um frio na barriga

 

--Pois é, e a gente aqui gastando tempo nesse trololó! -- Ed olhou para o relógio -- Tem muita coisa pra fazer ainda hoje e você vai ter que sair um pouco mais tarde porque já são quase dez da manhã!

 

Isa e o pai tinham pontos de interrogação na cabeça.

 

--Que foi, minha gente? -- a morena perguntou cruzando os braços -- O tempo urge, vambora!

 

--Mas pra onde que a gente vai? -- a bailarina perguntou o que Anselmo também queria saber

 

--Como pra onde? -- fingiu indignação -- Você vai dar uma carona pra gente até a ESSALAAM e depois vai trabalhar. Ou hoje ninguém dança balé nessa cidade? -- olhou para a mulher

 

--Você vai... vai me dar um emprego na oficina?? -- Anselmo perguntou embasbacado

 

--Olha, rapaz, eu vou te situar na realidade. -- olhou para o ruivo e começou a falar -- Meu contador já se aposentou, mas agora que tô me reerguendo, ele tá ralando de novo comigo na oficina pra me dar uma força. Só que é aquela coisa, o cara tá querendo descansar, sabe como é! E além do mais ele é mega bem casado, tem um filho maneiro e quer tempo pra família. -- pôs as mãos na cintura -- Um homem que foi gerente de banco por tantos anos há de saber cuidar da grana de uma oficina, não é possível! É galho fraco pra ti, né, não?

 

O homem sorriu animado para a filha. -- Ouviu isso? Mal pus os pés na rua e já consegui emprego! -- estava radiante

 

--Ai, Ed, que coisa linda de sua parte! Eu não pedi pra você fazer isso porque... -- não sabia como dizer

 

--Achou que eu não ia confiar e que nem tinha como bancar. -- disse o que achou que a bailarina havia pensado -- Só que eu confio e, -- olhou novamente para o sogro -- vai ter que se contentar em ganhar pouco! E ralar muito!

 

--Ganhar pouco? -- derramou uma lágrima -- Se soubesse o que tô sentindo agora! Dinheiro algum paga isso! E eu nunca fiz corpo mole pra trabalhar! -- abraçou-a novamente com bastante força -- Muito, muito obrigada!!

 

A morena ficou meio sem jeito naquele abraço de urso.

 

--Também te agradeço por tudo, amor! -- Isa abraçou-se aos dois -- Eu te amo! E amo você também, pai!

 

--Também te amo, princesa!

 

--Ô, gente... -- a mecânica falava bem humorada -- Assim eu vou morrer por asfixia... -- brincou

***

Lady estava em uma dinâmica de grupo disputando uma vaga de emprego com outros engenheiros. O nervosismo a dominava.

 

--Bom dia a todos! -- a psicóloga dizia sorridente -- Nós representamos uma conceituada empresa de consultoria de RH e meu nome é Karem. -- pôs a mão no peito -- Esta é Nádia, minha colega, -- apontou para a outra mulher que deu um tchauzinho rápido -- e nós estamos aqui atendendo ao pedido de uma empresa que procura um novo talento e pediu pra não ser identificada. O que faremos hoje é avaliá-los com as ferramentas das quais dispomos pra ver se algum de vocês se encaixa no perfil desejado.

 

“Ferramentas?!” -- Lady pensou intrigada -- "Ué? Mas eu não tô vendo ferramenta em lugar nenhum...” -- ficou desconfiada -- "Será que vão cortar a gente ou bater com martelo?” -- teve medo

 

--Começamos cedo porque nossa manhã será longa! -- Nádia advertiu

 

A engenheira sentiu uma coisa estranha e se preocupou. -- "Ai, meu Deus, acho que fiquei menstruada justo agora! Será que sujei a roupa?” -- pensou preocupada -- "Logo hoje que eu tô de calça clara...”

 

--A primeira atividade será a seguinte: vocês vão se agrupar em conjuntos de quatro pessoas e vão montar uma pequena empresa. À disposição terão apenas papel e canetinhas. -- sorriu -- Por favor, formem os grupos! -- bateu palmas para acelerá-los

 

--Ih, meu Pai! -- exclamou -- "Vou chamar pro meu grupo quem tá perto pra não ficar circulando pela sala!” -- olhou para os lados -- Ei, amigos, vamos ficar tudo junto? -- convidou uma moça e dois rapazes -- Pra facilitar a vida, né?

 

Eles concordaram e uniram as carteiras.

 

--E agora? -- um dos rapazes perguntou -- Vamos fazer uma empresa de que? Só com papel e caneta, pô?

 

--Essas dinâmicas de grupo são uma palhaçada tão grande! -- a moça revirou os olhos -- Eu tento, tento e nunca passo!

 

--Calma, amigos, vamos afastar essa coisa negativa do pensamento! -- Lady falou ao melhor estilo Lila -- Se é pra montar empresa, cada um pega suas canetinhas, rabisca o papel e faz aviãozinho. Seremos a Embraer de papel! -- propôs

 

--Boa! -- o outro rapaz exclamou

 

O grupo começou a pintar e dobrar as folhas fazendo os aviões.

 

--Vambora, gente, produz! -- Lady falava -- Vamos transformar essas folhas todas em avião!

 

--Que desperdício de papel! -- a garota reclamou

 

Ao final do tempo estipulado, a equipe de Lady contava com quase cem aviões coloridos sobre suas mesas.

 

Karem e Nádia passaram os olhos no trabalho de cada grupo e gostaram do que viram no grupo da engenheira maluquinha.

 

--Ah, então parece que vocês fazem aviões! -- Nádia exclamou sorridente -- E qual dos quatro vai vir aqui na frente pra falar sobre a empresa? -- olhou para os jovens

 

--Ela! -- os três apontaram para Lady

 

“Sinto que me dei mal...” -- a jovem mãe pensou engolindo em seco

 

--Então venha aqui, meu bem! -- Nádia foi até a frente de todos e acenou -- Venha nos explicar sobre sua empresa e o que ela faz! -- convidou

 

“Ai, meu Pai, e se eu estiver toda cagada? Como é que vai ser isso? Vou reprovar na dinâmica e a psicóloga ainda vai escrever: “reprovada porque se esvaiu em sangue!”” -- pensou em pânico

 

--Venha, querida! -- Karem insistiu no apelo

 

“Pensa rápido, Lady! Você tem filha pra sustentar!” -- agoniava-se -- Pois eu tenho uma idéia melhor, dona psicóloga! -- falava sem se levantar -- Minha empresa é do tipo que mostra serviço ao invés de ficar de conversinha por aí! -- pegou um punhado de aviões -- Nós fazemos avião, e o que avião faz? Voa! -- arremessou um deles no ar -- Voa, voa, voa!! -- continuava arremessando os aviões -- Voar, voar, subir, subir, ir pra onde for! -- cantava

 

“Essa garota é doida!” -- um dos rapazes pensava

 

As mulheres ficaram encantadas.

 

“Gente, que moça criativa, que atitude! Adorei!” -- Karem pensava

 

Depois que todos os grupos apresentaram seu trabalho, uma das psicólogas passou outra tarefa.

 

--Muito bem, meus amores, o que faremos agora será bem diferente. -- foi até a mesa principal e pegou uma cesta de vime que estava oculta por um pano branco -- Eu vou entregar um ovo a cada um de vocês, -- Nádia começou a fazer exatamente isso -- e os senhores permanecerão 1 minuto com esse ovo nas mãos sem derramar uma gota no chão. Após esse tempo, podem dispô-lo como quiserem.

 

“Sem derramar uma gota no chão?” -- Lady pensou olhando para o ovo -- "E por que derramaria?” -- não entendia -- "Eu, hein?”

 

Na sequência, Karem veio dando uma batidinha com um pedaço de arame grosso em cada ovo. -- Agora começou!

 

--Ali vocês têm recursos que podem ser úteis! -- Nádia apontou para outra mesa, onde havia fita crepe, esponjas e massa de modelar

 

Os candidatos levantaram-se apressados em direção a mesa e somente Lady ficou sentada.

 

“E agora, gente? Fazer o que?” -- desesperou-se

 

Temendo levantar-se e passar vergonha, Lady aumentou um pouco o buraco do ovo, respirou fundo e bebeu o conteúdo de uma golada só. Fez uma careta discreta, pegou as canetinhas e pintou a casca rapidamente com as cores que tinha à mão. Ao final do tempo, colocou o ovo de pé sobre sua mesa.

 

--Mas o que temos aqui? -- Karem perguntou com as mãos na cintura

 

--Eu não sou mulher de desespero e nem perco minha classe correndo apavorada! -- disfarçava -- Transformei o ovo em arte sem desperdiçar um recurso da natureza, até porque bebi tudo! -- falava fazendo um tipo -- E ainda me alimentei porque saí de casa cedo em jejum!

 

Nadia e Karem se entreolharam admiradas.

 

“Nossa, mas que pessoa pró ativa! Ela mantém a categoria mesmo nos momentos de tensão! E tudo sem descruzar as pernas!” -- Nádia pensou boquiaberta

 

***

 

Karem orientava a última atividade da dinâmica. -- E vamos a última tarefa do dia! -- falava com empolgação -- Já são quase duas da tarde e ninguém almoçou ainda. -- sorriu -- Nádia está deixando sobre a mesa de cada um de vocês um tecido colorido. Cada candidato receberá uma cor à revelia. O que queremos que façam é que usem esse tecido pra se expressar à vontade. Pode fazer bandeira, toalha de mesa ou seja lá o que for! Está com vocês! -- bateu palmas

 

Lady recebeu um tecido preto e ficou parada sem saber o que fazer da vida. Olhou discretamente para entre as pernas e viu que estava realmente suja. O nervosismo por estar ali influenciou que seu fluxo fosse considerável logo no começo do período.

 

“E agora? O que eu faço? O que vai ser de mim?” -- pensou agoniada -- "Abandonada, desempregada e toda cagada... Ô sina bandida, meu Pai!” -- lamentou-se

 

As psicólogas olharam para os relógios e encerraram o tempo da tarefa. Pediram que cada um apresentasse o que fez e os candidatos se esforçavam para impressionar. Ao chegar a vez de Lady, Nádia falou: -- E você, Lady? Reparamos que não se mexeu. O que tem a nos dizer? Qual a sua mensagem?

 

--A minha mensagem? -- respondeu com outra pergunta para ganhar tempo -- A minha mensagem é que... -- pensou -- é que estamos todas iludidas! -- abriu os braços -- Nós, as mulheres! -- apertou os próprios seios com força

 

--Como assim?? -- as duas psicólogas perguntaram em corinho. Todas as atenções voltaram-se para Lady

 

--Quero dizer que nós, as mulheres do ocidente, criticamos as muçulmanas por causa da burca e da opressão machista que as cerceia a liberdade, mas todas nós usamos uma burca, só que não de pano, como este tecido aqui! -- pegou o tecido e chacoalhou -- Nossa burca está em nossas mentes e no preconceito que nos torna desfavorecidas em relação aos homens! Nós alimentamos esse preconceito e perpetuamos a ignorância que nos sufoca! -- apertou o próprio pescoço -- Por que uma mulher cuja moral sexual seja como a da maioria dos homens é logo chamada de piranha, de puta? Por que os homens podem nos rotular e estamos sempre sendo classificadas por eles? Ninguém rotula um homem, a menos que seja gay! -- discursava olhando para todos -- E por que, se uma mulher é tida por puta, um homem se julga no direito de fazer com ela o que bem entende? Por que ele tem esse direito e por que é tão tosco a ponto de pensar assim? -- questionava teatralmente -- Por que uma mulher não pode manifestar seus desejos livremente sem que seja condenada por isso? Por que uma mulher não pode amar outra mulher? Que mal há nisso? -- continuava sua fala abusando de todo um gestual -- Desde quando o amor virou um crime? Desde quanto amar é motivo pra se ter vergonha? -- começou a se enrolar no tecido -- Cada pessoa, homem ou mulher, deve ter o direito de ser como é, sem que o julgamento dos ignorantes esteja ali, como um martelo da Inquisição, agredindo a todo momento! Desde que não faça mal aos outros, cada um deve ter o direito de viver como bem entenda, sabendo que arcaremos com as conseqüências de nossos atos, porque “Deus retribuirá a cada um segundo suas obras”19! -- deixou apenas os olhos à mostra e pegou a bolsa -- E é assim que quero me manifestar! Saio daqui com minha burca negra mostrando a verdade nua e crua pra quem quiser ver: nós, as mulheres do mundo todo, somos prisioneiras porque nos algemamos sem perceber! Que fique pra se pensar! -- pausou -- Como diria minha cantora Vanusa: ‘ninguém é mulher impunemente!’ -- correu para o banheiro

 

--Gente! -- Nádia falou -- Que mensagem forte, né? -- olhou para Karem admirada -- Eu não esperava por isso!

 

--Por mim, a selecionada é essa! -- Karem falou baixinho

 

--Vamos deliberar em particular depois que os candidatos se forem, mas meu voto ela já tem desde a primeira atividade!

 

***

 

Março chegava ao fim e Brito, após muitas investigações, descobriu o homem que comprou todas as seis relíquias que foram deixadas junto aos corpos das vítimas do psicopata místico. À despeito da própria competência, contou também com a colaboração preciosa de Suzana e Romeu, além da ajuda dos contatos que ambos possuíam, e com a astúcia de Tatiana.

 

Brito vestia-se impecavelmente bem e tomava uma água tônica, acompanhando discretamente todos os movimentos do homem que pretendia abordar. O contraventor estava em um luxuoso restaurante na zona sul do Rio, tomando um drinque com duas mulheres bonitas.

 

“Não entendo porque esses bandidos estão sempre cercados por belas mulheres!” -- o policial pensava -- "Até quando as garotas se prestarão a esse papel? Aposto que na cabeça dele, elas não passam de duas prostitutas sem valor!”

 

Após alguns minutos os três saíram do local e o policial acionou Macumba pela escuta. -- Estão saindo!

 

--Copiei! -- Macumba aguardava em sua moto. Vestia-se de motoboy

 

O trio entrou em um carro que os esperava na porta do restaurante.

 

--Carro com motorista! -- o motociclista exclamou impressionado -- E duas mulheres? -- balançou a cabeça -- Enquanto isso, o papai aqui fica sem nada! -- ligou a moto e seguiu o carro

 

Brito saiu do restaurante e entrou em seu carro. Comunicava-se com o colega para acompanhá-los à distância. Pouco tempo depois, Macumba informou que eles haviam entrado em um motel e o carro que os conduziu já havia partido.

 

***

 

O contraventor esbaldava-se com as duas parceiras em uma cama king size. Sem que esperassem, a porta da suíte se abriu.

 

--Mas o que é isso? -- ele gritou revoltado

 

--Meu Deus! -- uma das mulheres se cobriu

 

--Ai, mas quem é esse homem? -- a outra cobriu-se também

 

--Fiquem todos calmos! -- Brito caminhava tranquilamente em direção a cama -- Sou policial, estou armado mas não pretendo atirar em ninguém! -- sorriu, apresentou a identificação e endireitou a gola da camisa

 

--Ai, meu Deus! -- uma das mulheres exclamou apavorada, levantou-se e começou a se vestir com pressa. A outra fez o mesmo

 

--Não pode fazer isso! Quem pensa que é? -- o homem pegou o telefone -- Vou chamar a polícia agora mesmo! Não sabe com quem está lidando! -- ameaçou

 

--Chamar a polícia? Não ouviu o que eu disse? -- riu brevemente -- E de mais a mais, o que diria? Que um policial da divisão de homicídios o abordou só por causa do seu gosto por arte? -- o homem paralisou com o aparelho na mão -- Sei que sua coleção não tem um passado muito bonito. -- puxou um puff e se sentou -- Hum, gostosinho isso aqui! -- comentou para si mesmo e voltou a olhar para o outro

 

O colecionador colocou o telefone em seu lugar e ficou calado. Pensava quanto ao que fazer.

 

--As senhoritas, por favor, -- Brito olhou para elas -- retirem-se porque esta será uma conversa entre cavalheiros. Meu outro amigo as escoltará para que tomem um táxi. -- apontou para trás sem se virar. Macumba apareceu na porta e acenou

 

--Eu não sou um idiota qualquer ou um homem desinformado, senhor policial! -- respondeu com desdém ao se levantar e começar a se vestir -- Não sei como entrou aqui mas meus advogados o farão se arrepender por isso!

 

As mulheres se retiraram rapidamente sendo acompanhadas por Macumba.

 

--Posso dizer que a sorte jogou a meu favor, porque parece que quase todo mundo tem o rabo preso, não é? Encontrar um bom samaritano em uma situação como essa num motel... E com duas mulheres! -- sorriu -- Quanto aos seus advogados, eles têm pouco a fazer diante das provas inquestionáveis que tenho comigo! -- olhava-o com firmeza

 

--Provas de que? -- continuava se vestindo -- Nunca fui colecionador de arte, você é louco!

 

--Tenho provas inquestionáveis de que o senhor comprou todas as relíquias que foram usadas pelo psicopata místico nos seis crimes que cometeu até agora. -- cruzou as pernas -- Confesso que trabalhei arduamente pra localizá-lo mas... -- sorriu -- aqui estou! -- levantou uma das mãos -- É um prazer, senhor Paulo! Aliás, meu nome também é esse!

 

O homem congelou mais uma vez.

 

--Por que aceitou se desfazer de artefatos tão valiosos de sua coleção pra um psicopata? -- pausou -- Ou seria o senhor o próprio psicopata? -- perguntou à queima roupa

 

--Eu não! -- protestou em pânico -- Eu não matei ninguém! -- arregalou os olhos

 

--A partir de agora é o principal suspeito! -- afirmou calmamente -- A menos que queira colaborar e contar o que sabe.

 

--Mas não fui eu!! E não vou lhe dizer nem uma palavra! -- parou de pé diante do outro -- Novamente lhe advirto que meus advogados vão acabar com a sua raça! -- rosnou entre dentes

 

Brito endireitou a gola da camisa, olhou para o sujeito de cima a baixo e respondeu com a mesma calma de antes: -- Se eu fosse o senhor, baixava a bola, ficava mais humilde e pensava melhor na própria situação. -- olhava para o contraventor -- Um homem distinto, bem sucedido, casado e pai, de repente desenvolve um inexplicável apreço por peças de arte indiana, -- pausou -- roubadas, diga-se de passagem, e todas essas relíquias aparecem ao lado de vítimas de estupro e assassinato! -- balançou a cabeça -- E eu fiquei sabendo que o senhor comprou ao todo oito peças e por uma pequena fortuna. -- coçou a cabeça -- Deduzo que alguém planeja matar oito mulheres, então. -- esperava uma resposta

 

Paulo ajoelhou-se diante do policial e propôs em desespero: -- Quanto custa o seu silêncio? -- olhava nos olhos do outro -- Todos têm um preço e eu tenho muito dinheiro! -- sorria apavorado -- Quanto quer? Hein? É só me dar alguns dias e deposito o dinheiro na conta que quiser!

 

--Tentador! -- fingiu que pensava -- Mas não estou à venda! -- sorriu -- Existem policiais honestos, meu amigo! E somos muitos, só não damos Ibope! -- sem que Paulo esperasse, rapidamente segurou-o pelo colarinho -- Não abusa da minha paciência e abre o bico! -- rosnava furioso -- Posso tornar sua vida menos complicada se colaborar comigo!

 

--Eu conto tudo, eu conto! -- respondeu apavorado -- Fui apenas um laranja, não sabia sequer da origem daquelas relíquias! O verdadeiro comprador é outra pessoa, que eu nem conheci! Negociei com a advogada dele o tempo inteiro! -- suava frio

 

--E por que aceitou fazer esse papel? -- continuava segurando o outro com força

 

--Porque eu precisava obter algumas licenças que pareciam impossíveis e ela viabilizou as coisas pra mim! Não sei quem o cliente dela é e nem o que faz, mas o processo correu com uma rapidez espantosa! -- segurava Brito pelos pulsos tentando se libertar

 

--E como chegou até ela pra pedir uma forcinha com as tais licenças?

 

--Mas eu não a procurei, foi ela quem me achou! Parecia até que adivinhou do que eu precisava e se ofereceu pra me ajudar! Ai! -- contorceu-se de dor -- Tudo que eu precisava fazer era comprar aquelas peças e, acredite, deu um trabalho danado fazer isso! -- falava com dificuldade -- Nunca imaginei que as peças teriam o destino que tiveram!

 

O policial soltou o homem que caiu sentado no chão. -- E qual o nome dessa advogada? Vai dizer que também não sabe? -- perguntou ironicamente

 

--Nunca vou esquecer! -- endireitou a roupa -- Irina Meyer!

 

 

14:27h. 04 de abril de 2009, caminhando para Dingboche (4300m), Nepal

 

--Mas, bá, que cansaço! -- Lila reclamava com a mochila nas costas -- Falta muito, Sabrina? -- esperava ouvir um não

 

--Mais ou menos! -- sorriu -- Estamos contornando o Amadablam, uma das montanhas mais lindas do mundo, e você bem que poderia se distrair apreciando a paisagem! Afinal de contas, empreender a expedição pelo colo sul sudeste do Everest tem a vantagem de contar com visões fantásticas!

 

--Capaz, mas eu não tô me agüentando, daí. Preciso de um descanso! -- pediu

 

--Tudo bem, podemos parar aqui por uns instantes. -- parou de caminhar e jogou a mochila no chão -- Ainda tem gente bem atrás de nós e você até que tem desenvolvido bem! -- pôs as mãos na cintura

 

--Os americanos é que parecem estar numa disputa! -- Lila parou e jogou a mochila também -- Não sei porque correm tanto! -- começou a movimentar o pescoço

 

--Você verá que essa velocidade toda vai cair ao longo dos dias. -- bebia água -- Já vi isso acontecer várias vezes!

 

A mística também achou melhor se hidratar e assim o fez.

 

Maya, a sherpa que falava português, aproximou-se das duas e colocou sua carga no chão. Parecia que não sentia os efeitos da altitude e não demonstrava qualquer cansaço. Trajando roupas simples, sem qualquer aparato de modernidade, pegou sua garrafa de água e bebeu com vontade.

 

--Maya, -- Sabrina falava -- precisamos discutir a questão do oxigênio suplementar. Eu não imaginava que teríamos o desfalque de dez cilindros! Isso é muita coisa! -- olhava para a sherpa com preocupação

 

--Precisamos usar os recursos de modo cuidadoso e não deixar que a vaidade se sobreponha ao bom senso. -- respondeu humildemente -- Penso em uma estratégia que pode dar certo se todos fizerem sua parte e aceitarem recuar, se necessário.

 

--Ótimo! Quando chegarmos em Dingboche vamos discutir minuciosamente sobre isso com todos os escaladores e sherpas da excursão. -- respondeu com seriedade -- Temos que estipular regras, horários e tudo mais. Ainda temos muito pela frente, mas como não quero ninguém morrendo por causa de ansiedade pra chegar no cume, é bom massificar as regras pra evitar o pior!

 

Maya balançou a cabeça concordando. -- Muitos pensam que estão aqui para dominar a montanha, como se atingir o cume fosse a prova dessa vitória. Há também os que crêem que o inimigo é o escalador de uma outra expedição, que não pode chegar primeiro. -- pausou -- Não entendem que a vaidade e orgulho são as estradas que nos levam para as maiores quedas.

 

--Eu não tenho esse problema! -- a gaúcha se manifestou logo -- Penso que, -- começou com seu gestual -- “por mais que na batalha se vença a um ou mais inimigos, a vitória sobre si mesmo é a maior de todas as vitórias.”20

 

“Quero ver até quantos metros de altitude vai durar essa presepada mística!” -- Sabrina fez um bico e revirou os olhos

 

--É assim que pensa? -- Maya perguntou a Lila

 

--Mas, bá, é claro, tchê! -- respondeu convicta

 

--E age de acordo? -- perguntou novamente

 

--Capaz! -- falou desaforada -- Eu conheço a verdade da vida, Maya! Já estive na Índia em uma peregrinação que muito me ensinou! Conheço o modo de pensar que o Iluminado nos ensinou! -- postou as mãos para o céu

 

--"Pensar é fácil. Agir é difícil. Agir conforme o que pensamos, isso ainda o é mais."21 -- a sherpa respondeu calmamente ao colocar sua carga nas costas e partir

 

--Hum! -- pegou a mochila vendo que Sabrina também se preparava para voltar a caminhar -- Sei bem disso! -- resmungou de cara feia -- “Sherpa metida!” -- pensou despeitada -- "Acha que é mais iluminada do que eu só porque nasceu na Índia e faz essas caminhadinhas com uma trouxa nas costas!"

 

--Simbora, Lila! -- Sabrina ordenou -- E lembre-se que "os Homens distinguem-se entre si também neste caso: alguns primeiro pensam, depois falam e, em seguida, agem; outros, ao contrário, primeiro falam, depois agem e, por fim, pensam."22 -- partiu

 

--Mas até Sabrina querendo me dar lição, daí? -- resmungou contrariada


***

 

Juliana e Suzana caminhavam para o estacionamento quando a japonesa avistou alguns repórteres. Eles também a viram e comentaram coisas entre si com empolgação.

 

--Os repórteres! -- Juliana sorriu -- Não podem me ver que logo se apressam!

 

--Então vamos embora antes que eles cheguem! -- a delegada abriu a porta do carro para a mulher entrar

 

--Eu quero dar atenção a eles! -- respondeu de imediato -- Se está com pressa... -- olhou para a morena como quem a despacha -- Eu posso pegar um táxi!

 

Suzana ficou decepcionada. -- Tem se importado muito em estar na mídia ultimamente.

 

--Meu trabalho chama a atenção, querida, e as pessoas gostam de saber que alguém aqui luta por elas! -- desviou a atenção para os repórteres que chegavam

 

--Deputada, deputada, uma palavrinha sobre a questão da oficialização dos relacionamentos homossexuais! -- um deles falou

 

--A senhora também concorda com a reivindicação de alguns gays que desejam casar na igreja? -- outra perguntou

 

--E a questão da adoção? Tem despertado muita polêmica, deputada!

 

--Calma, queridos, eu vou responder a todas as perguntas! -- sorria -- Um de cada vez! -- olhou para Suzana e falou baixinho -- Pode ir! Vai! -- voltou a olhar para os repórteres -- Eu penso que estamos misturando pleitos que não se misturam quando se fala nessa reivindicação de casar em igreja! Não podemos exigir que um padre ou um pastor aceite casar dois homens ou duas mulheres! Temos, sim, que exigir nossos direitos civis! -- falava como se discursasse para uma multidão -- E que cada um celebre sua união como bem desejar! -- gesticulava -- O tema da adoção é outro assunto!

 

A morena gastou uns segundos olhando para Juliana até que decidiu entrar no carro e ir embora.

 

***

 

--Que droga! -- Suzana deu um soco na mesa -- O maldito acaba de assassinar a sétima mulher! -- passou a mão nos cabelos -- E a relíquia deixada foi exatamente uma das outras duas que faltavam aparecer!

 

--A única notícia boa é que sabemos qual será a oitava e última peça! -- Tatiana respondeu -- Será que esse conhecimento não nos ajuda em nada, uai? -- perguntou esperançosa

 

--Eu penso, penso e não consigo dizer que sim! -- passou a mão no rosto nervosamente -- Além do mais não sabemos se será mesmo a última vítima. O que Lucas tem em mente só ele e Deus sabem!

 

As duas conversavam em um restaurante de Goiânia.

 

--E a tal da Irina? Deixa eu te perguntar, Brito já foi atrás dela? -- perguntou curiosa -- Você disse que essa mulher vive assediando Juliana, então é fácil encontrá-la!

 

--Brito conversou com ela, sim, mas aquilo ali é uma víbora da pior espécie! -- falou controlando a fúria -- Juliana tinha o cartão de apresentação dela e daí foi mole chegar no escritório da safada!

 

--Mas e então? O que ela falou?

 

--Só te digo uma: o tal do Paulo, que Brito surpreendeu no motel, é quem tá ferrado! -- olhou para Tatiana -- Temos provas de que foi ele que comprou as peças mas nada há que comprove que ele diz a verdade quando afirma que serviu de laranja pro cliente daquela tal! -- pausou -- E o pior é que esse Paulo nem é um criminoso ou um contraventor como se pensava! Ele foi simplesmente um empresário ansioso que queria obter umas licenças pra fazer algumas obras, que não são ilícitas. -- balançou a cabeça -- Pra não descumprir o cronograma que fechou com uma empresa que está se estabelecendo no Brasil, o idiota tentou acelerar as coisas e se sujou à toa! -- bebeu um gole de água -- Aquele ali não passa de um quarentão chegado a uma galinhagem!

 

--Que inferno! -- a repórter reclamou -- Estamos na beira da praia e morrendo afogadas!

 

--E nada do paradeiro de Lucas! -- coçou a cabeça nervosamente -- No próximo domingo eu vou pro Rio e espero que a idéia de dona Olga dê certo!

 

--Qual é a idéia dela? -- perguntou curiosa

 

--Ela conta com a ajuda dos bons espíritos pra localizar e tocar o coração de Lucas. Acho que pode dar certo e tenho orado muito por isso. Pelo menos ainda poderemos salvar a oitava vítima da loucura daquele homem!

 

--Confio em Deus que vocês serão bem sucedidas! -- desejou com sinceridade -- De minha parte, já tenho informações suficientes pra uma boa matéria e pretendo soltar a bomba na edição do final de maio! Seria um sonho ter o caso do psicopata místico resolvido até lá, mas o importante é que a verdade seja mostrada ao público! -- cobriu uma das mãos da morena com a sua -- Não teria chegado tão longe não fosse por você e por seu Romeu! -- sorriu

 

--Não me agradeça, -- fez um carinho na mão da jovem -- o que importa é que, como você disse, a verdade seja revelada!

 

A jornalista ficou prestando atenção na delegada e perguntou com carinho: -- O que há com você? Não me parece a mulher focada e serena com quem me acostumei a lidar. -- pausou -- Algum problema? Sabe que se quiser desabafar tem uma amiga disposta a te ouvir!

 

Suzana pensou um pouco e decidiu falar a verdade. -- Eu tô muito mal, Tati! -- olhava para as próprias mãos -- Meu casamento... acho que Juliana e eu estamos cada vez mais seguindo por caminhos diferentes... -- lamentou

 

--Mas... mas como? Vocês são O Casal, deixa eu te falar! -- sorriu -- Suzana e Juliana são aquela dupla que a gente não imagina separada!

 

--Por muito tempo eu pensei assim, mas as coisas mudam. -- pausou -- Minha japonesa tem se encantado muito com o poder, com a fama, com o luxo... Hoje em dia ela se importa com coisas que nunca deu valor e dá pouca atenção ao que antes julgava essencial.

 

--Nossa... -- ficou pasma -- Mas, vocês estão vivendo uma crise?

 

--Sim. -- olhou para Tatiana -- Eu não deveria te dizer isso, mas... nesse ano ainda não tivemos qualquer intimidade. Acho que me entende.

 

--Entendo... -- balançou a cabeça -- Acha que ela... -- arriscou a pergunta -- pode estar tendo um caso?

 

--Creio que esteja bem perto disso! -- falou com tristeza

 

A jovem ficou calada olhando para Suzana e depois fez uma careta. -- Não... Juliana é uma mulher espiritualizada, consciente, honesta... Ela não faria coisas assim! -- falou com descrença

 

--"Às vezes os melhores nadadores morrem afogados e os melhores cavaleiros caem dos cavalos."23 -- a morena respondeu -- Ninguém está imune a coisa alguma, garota! É por isso que a gente precisa orar e vigiar sempre. -- suspirou -- Infelizmente pra mim, a japonesa está encantada por outra mulher. Por mais que ela negue, sei que já me traiu diversas vezes em pensamento; e sempre com essa mesma mulher!

 

--Chega dói ouvir isso... -- estava boquiaberta -- Sempre achei que o amor superava todas as coisas!

 

--Supera, sim! Mas as portas do coração precisam estar abertas. -- sentia vontade de chorar -- Juliana tem fechado as portas pra mim... Nesses casos, o amor se torna uma semente em terreno estéril.

 

--Mas... -- passou a mão no pescoço -- Mas quem é essa que virou a cabeça dela desse jeito? -- estava curiosa

 

--Irina Meyer!

 

***

 

Romeu estava na casa de Olga e Mariano. Ao saber das novidades, começou a reclamar e andar em círculos pela sala.

 

--Mas assim não dá! -- falava aborrecido -- Eu sei que vocês têm o trabalho de criar o menino e por isso sempre respeitei o modo como fazem a coisa, mesmo havendo muitos pontos dos quais discordo! -- passou a mão na cabeça -- Sempre achei que ele era bonzinho e meigo demais, só que essa história de balé foi a gota d’água!

 

--Romeu, eu entendo que você fique assim! -- Mariano buscava tranqüilizá-lo -- Eu mesmo tive que repensar muitas coisas pra aceitar isso, mas não há mal algum no fato do garoto desejar ser bailarino! -- sorriu -- E ele tem se destacado dos demais desde os primeiros dias! É um futuro artista!

 

--Uma futura bicha, você quer dizer! -- respondeu revoltado -- Você deveria ser mais observador! Olga criou uma sapatão, portanto não deve achar nada de mais ter um filho gay!

 

--Poderia falar de mim como se eu estivesse aqui, Romeu? -- ela pediu

 

--Mas é isso mesmo! -- olhou para ela -- E do jeito como criou Renan, ele escapou por pouco! Sorte do garoto que chegou na tua mão no começo da adolescência!

 

--Não venha jogar na minha cara que Seyyed é lésbica como se isso fosse devido a uma criação inadequada! Ela conduz a própria vida de modo muito correto e nunca me deu um desgosto sequer! Nem ela e nem Renan! -- respondeu com firmeza -- Você não tem moral pra querer me ensinar como se cria um menino!

 

Romeu entendeu o recado e se revoltou ainda mais. -- Não se atreva a falar mal do meu filho! -- olhou para ela de cara feia -- Não se atreva!

 

--A carapuça serviu? -- Olga perguntou desafiadora

 

--Olha como fala com minha mulher, Romeu! -- o contador se colocou entre os dois -- Você pode ter preparo físico mas eu sei bater pra machucar! -- encarou com ele

 

--Chega de toda essa bobagem! -- Olga afastou os dois -- Daqui a pouco Ricardinho chega aí e não vai ser bom pro menino ouvir que o avô acha que a masculinidade dele corre perigo por causa de um balé!

 

--Isso é o fim! Meu neto fazendo balé! -- estalou os dedos com nervosismo -- Daqui a pouco vocês vão pintar o quarto dele de rosinha!

 

--Que pena que você não aprendeu nada com o sofrimento! -- Olga comentou balançando a cabeça

 

--O que quer dizer? -- olhou para ela

 

--Você viu como terminou um rapaz que achava que ser homem era se permitir liberdades demais!

 

--Humpf! -- resmungou -- O azar de Silvio foi ter conhecido mulheres de mau caráter!

 

Olga sorriu indignada e balançou a cabeça negativamente.

 

--Vamos encerrar esse assunto! Eu também não quero que o menino te ouça dizer que ele vai virar gay! -- Mariano falou para o outro -- Se não concorda, ao menos respeite o direito dele gostar de dançar!

 

--Eu tenho que engolir, né? Ele não vive comigo! Mas aceitar, eu nunca vou! E nunca hei de assistir esse menino de saiote pulando num palco na ponta do pé! -- gesticulava

 

A campanhia tocou.

 

-- Devem ser eles! -- o contador sorriu e foi atender -- Agora chega dessa conversa, viu, Romeu?

 

--Eles? -- Romeu perguntou de cara feia -- O menino veio com quem?

 

--Oi, garotão! -- Mariano abraçou o menino -- Como foi hoje, filho?

 

--Foi difícil, pai! Manter o equilíbrio em certas condições é muito difícil! -- respondeu animado -- Mas a professora falou que eu fui bem!

 

--Olá, meu garoto! -- Romeu se aproximou sorridente com os braços abertos

 

--Oi, vô! -- correu para abraçá-lo

 

“Hum...” -- Mari fez um bico -- "Ô inferno da minha vida...” -- pensou contrariada

 

--Entra, Mari! -- o contador convidou -- Por que parou aí na porta?

 

--Estava me refazendo do susto! -- entrou desanimada

 

--Mãe, olha só o que eu sei fazer! -- executou um petit jeté (um tipo de salto)

 

--Nossa, que bacana! -- abriu os braços para ele, que veio a seu encontro

 

--Olá, Mari! -- Romeu cumprimentou sorridente -- Fiquei sabendo que meu neto começou no balé e logo pensei: são as influências daquela diabinha! -- sorriu

 

--Em primeiro lugar eu não sou nenhuma diabinha, e em segundo, foi uma decisão do próprio menino! -- foi até Olga e deu beijos de comadre -- Oi, querida!

 

--Oi, Mari! Obrigada por trazê-lo pra nós! -- sorriu

 

--Imagina!

 

--Agora vá tomar um banho pra lanchar! -- Mariano disse ao garoto

 

--Fui! -- correu para o banheiro

 

--E eu vou esperar meu neto! -- sorriu e olhou rapidamente para Mari -- Não estou com pressa!

 

--E você, Mari? -- o irmão perguntou -- Já vai ou lancha conosco?

 

--Camille vem me buscar de carro. -- ela respondeu -- Quando ela chegar, eu vou.

 

“Tomara que ela demore bastante!” -- Romeu desejou

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Música do Capítulo:

Lady Conversando:

Os Seus Botões. Intérprete: Roberto Carlos. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos

Você Não Vale Nada. Intérprete: Banda Calcinha Preta. Compositor: Dorgival Dantas

 

Lady na Dinâmica:

Sonho de Ícaro. Intérprete: Byafra. Compositores: Piska / Claudio Rabello


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Comentários para 32 - Sexta Temporada - FELICIDADE III:
PaudaFome
PaudaFome

Em: 12/05/2024

É tanta coisa acontecendo que a gente fica sem saber o destacaria Priscila e Lady Ricardo voltando o centro da Olga mas Juliana me preocupa e decepciona


Solitudine

Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
Olá querida!

Priscila e Lady são duas figurinhas! Ricardo voltou quando ninguém menos esperava...
Olga fez um trabalho gigante no centro. E Juliana... é o momento em que ela se perde nos encantos de Maya.

Beijos,
Sol


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Em: 03/04/2024

Falta pouco guria!


Solitudine

Solitudine Em: 10/04/2024 Autora da história
Eita, que Samira está fazendo escola! rs


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Samirao
Samirao

Em: 01/04/2024

Tô arredondando pra jake


Solitudine

Solitudine Em: 02/04/2024 Autora da história
Arredondando o que, garota? Já apagaram comentários de novo?


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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Ora ora ora. Só dois!


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Que bom!!!!!!


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Femines666
Femines666

Em: 14/03/2023

Os capítulos são grandes e maravilhosos! Acontece tanta coisa que a gente tem dificuldade em comentar é o máximo! 

Mas eu não gostei do Ricardo adulto, morro com Lady e Pri nessa relação doida (e que dinâmica foi aquela?? kkk), Ju e Su em crise não não não!!! Tati mata a família dela do coração! kkkk Ivone é o máximo e Seyyed super shows! O lance com Anselmo foi lindo! E Isa meu Deus!!! Me deixa doida de tesão!!! 

 


Resposta do autor:

kkkkk

Os capítulos de Maya são realmente grandes. Naquela época eu não tinha noção do tamanho razoável (será que tenho hoje? rs).

Como um seriado, busquei dar vida a muitas pessoas, muitas personalidades. Que bom que elas estão te agradando e divertindo.

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 15/09/2022

Poxa depois de um joguinho tão gostoso a ruiva me deixa de castigo só por causa da moto? Sacanagem... Cami na Ivone sempre me diverte mas a Ju tá meio mascarada né? Cararra Ricardo foi se embandeirar justo com a despirocada? Haha Lady é sempre Lady até  dinâmica de grupo hehe E eu sou sempre foda mesmo de castigo dei emprego pro sogro. Eu não existo! Hehe E o mistério sendo aos poucos desvendado. Esse Romeu é um bolha! Quero só ver até onde vai Lila no Everest


Resposta do autor:

Você não contou para ela antes... deu nisso! A bailarina é custosa, não pode dar essas ratas! rs

Juliana se perdeu sob os encantos de maya.

Lady é imprevisível; não importa onde, quando ou porque! rs

Você, de fato, é única!

Lila no Everest. Ela verá o que a montanha é capaz de fazer. Muitos costumam a desprezar isso, mas a natureza também responde e dá muitos "tapas nas fuças" da gente.

Beijos,

Sol

Responder

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Seyyed
Seyyed

Em: 15/09/2022

Ricardo só no toma, totoma hehe E as tretas de Lady e Priscila, perseguições, mistério, amooo! Só não tô curtindo a Ju do jeito que tá.  Puta merda autora!


Resposta do autor:

Uai e você ralha comigo? As personagens têm uma vida que eu só faço deixar fluir. rs

Aguarde e confie na caipira.

Beijos,

Sol

Responder

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Samirao
Samirao

Em: 14/09/2022

Depois responde sobre o conto novo!!


Resposta do autor:

Calma, menina! Na hora certa, você verá!

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 26/04/2020

Adoro a Lady, por isso sou uma entusiasta de um spin-off dela.

 

 Por que tomas? Romeu é nojento.

 

 

Bom domingo aí!


Resposta do autor:

Gabinha, spin off de Lady só depois do Tao concluso. CONVIDE-0 foi uma situação inusitada, dado o contexto da atualidade.

Beijos.

Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 26/04/2020

Ei Solzinha tudo bem?

 

Se a Lady aparecesse no meu trabalho,  com certeza iria me divertir muito, adoro ela!

 

Agora francamente Sol, que nojo do Do meu, ui!

 

Beijos


Resposta do autor:

Vai que um dia aparece uma Lady por lá? Cuidado com o que você deseja!

Entendi que falava de Romeu. Eu sei que seu amor por ele abunda no peito! kkk

Beijos.

Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 25/04/2020

Olá querida como vai?

 

A volta do filho pródigo, voltou se achando e enganando todo mundo, pelo visto não aprendeu nada.  Ricardo é o típico cara que quer se dar bem na vida às custas dos outros.

 

Pomba sem fé? Kkkkkkk... O que é? Lembro que perguntei isso na época.

 

Priscilinha era fofinha demais, bem que tentou juntar a mãe com a Priscila, mas naquela época a Priscila se escondia de tudo.

Lady e suas histórias, sabe que começo a ler e viajo nas histórias dela. Essa dinâmica de grupo foi incrível... Ahhhh... Lady Di Doidinha da Silva, você é demais!

 

Essa fase da Juliana foi tão sinistra, deu peninha da Suzana.

 

Tati passou por cada perrengue, ainda bem que ela sempre contou com ajuda espiritual.

 

Ed empolgada com a moto parecia uma criança, mas entendo, andar de moto é tão bom!! Eita pessoa legal essa mecânica, pow gosto dela.

 

Camille me diverte muito com as conversar com a Ivone, é demais!

 

Dona Soraia... Kkkkkkkkkkk....  “compreto é cem real”!

 

Irina sempre foi uma vaca !

 

Romeu um machista hipócrita.

 

Beijosss

 

 

 

 


Resposta do autor:

Gabinha!!!

Ricardo voltou ainda muito iludido e sem noção de realidade. Mas, como todas as personagens, vai aprender com a vida.

Também falei isso no CONVIDE-0, quando Yasirah ficou doente. Pomba sem fé é uma pessoa frouxa e sem ânimo.

Já vi que se Lady aparecesse no seu trabalho pedindo uma vaga, você dava! kkk

Suzana sofreu muita rejeição nesta fase em que Juliana andou cega e encantada pelo poder. A delegada não estava preparada para isso. Já Tatiana encara tudo que passou como ossos do ofício.

Pena que Isa não foi tão compreensiva quanto você quando soube da moto! kkkk  Seyyed é figurinha boa praça.

Camille com Ivone foi um pedido de muitas. Lembro que me pediram para ter Juliana e Camille no mesmo dia em consulta. Também fiz. rs

Quem pode com uma síndica dessas?

Irina é um caso complicado, não é? Mas não desenvolvi. Deixei só a pensar.

E Romeu... é seu muso! kkkkk

Beijos, Sol

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