Sexta Temporada - FELICIDADE II
Os crimes do psicopata místico, como ficou conhecido, eram notícia na imprensa nacional. A imprensa mostrava imagens chocantes e captava cenas de dor e desespero por parte das famílias das vítimas. Em sua palestra no centro espírita, Olga resolveu abordar o tema com outro enfoque.
--Hoje eu trouxe um texto muito interessante para refletirmos e acho que vem muito a calhar com todo esse rebuliço que os meios de comunicação vêm fazendo em torno do chamado psicopata místico. Aliás, toda a tragédia recebe da imprensa o mesmo tratamento há anos, porque sensacionalismo vende! -- desdobrou uma folha de papel -- O que temos aqui são palavras fortes do filósofo e doutor em teologia, José Lisboa Moreira de Oliveira. Não lerei o texto inteiro, somente o que considero mais importante. Vamos ouvir? -- pediu atenção
--O que será que ela planeja dessa vez? -- Paulo cochichou
--Sei lá. Boa coisa não deve ser. -- Baltazar respondeu de cara feia
Olga começou a ler:
"Há tragédias porque falta ética ou cuidado
Lamentavelmente a grande mídia se comporta como urubu diante da carniça. Vai atrás de sensacionalismos, buscando audiência com a exploração da miséria alheia. Desloca suas equipes de técnicos e de repórteres para flagrar choros, lamentos e cenas chocantes. Em nenhum momento, porém, esta urubuzada midiática é capaz de aprofundar a questão para ver o que, de fato, está por trás de tragédias tão cruéis. Falta-lhe sensibilidade ética para desencadear um processo sério de reflexão que ajude as pessoas a perceberem as reais causas de tantas desgraças. O máximo que faz é tentar encontrar um bode expiatório sobre o qual descarregar a culpa. Após alguns dias, quando as pessoas já nem dão mais bola para as notícias requentadas, tira o assunto do ar. Comporta-se como se nada tivesse acontecido. Volta à pauta o futebol.
Infelizmente, milhares de anos depois, o povo continua se comportando como a plebe romana. Dá-se por satisfeito com o "pão e o circo” oferecido pelos políticos corruptos e por sua mais fiel aliada, a grande mídia. Falta-lhe "miolo” para pensar, raciocinar, se revoltar e reagir. Em boa parte das pessoas há apenas "miolo mole”, contentando-se com as futricas de um bando de idiotas, os quais, confinados voluntariamente num moderno bacanal, trocam frivolidades e babaquices. E essa parte de desmiolados sente-se o máximo dando uma "espiadinha” nas idiotices de seus colegas sem cérebro. Chega ao cúmulo de pagar para ver tais bobagens, não se dando conta de que está aumentando as polpudas contas dos donos da grande mídia.
No Brasil os meios de comunicação pertencem ao povo. Os "donos” da grande mídia na verdade não são proprietários dela, mas apenas arrendatários. Recebem a concessão pública com a ordem expressa de utilizar tais meios para promover a educação, o lazer sadio, a cultura e a informação. Mas o que na verdade acontece é a inversão dessa ordem. Deseducam, não informam corretamente, promovem perversão em lugar de lazer sadio e chamam de atividade cultural o que é puro lixo. O povo não reage porque falta-lhe educação séria, ou seja, o senso crítico, a capacidade de pensar e de enxergar as coisas como elas realmente são. Por isso se contenta com programas ridículos e de baixaria. Cria-se assim um círculo vicioso: a mídia não educa e o povo não questiona a mídia porque não é educado.
Temos, porém, que reagir. Todos os indignados precisam encontrar uma forma de se manifestar e de protestar. Não podemos aumentar a fila dos conformados com a situação, dos que acham que não há mais jeito. Cada pessoa, cada rede social, cada grupo inconformado precisa encontrar uma maneira de expressar sua indignação e de comunicar isso a um maior número possível de pessoas. É preciso ampliar o círculo e inundar o mundo. Não podemos ficar parados.
Eu, pessoalmente, estou convencido de que a raiz de todos estes males está na falta de ética. Nós, seres humanos, perdemos a compostura. Não nos importamos mais com as outras pessoas. Cada um pensa somente em levar vantagem, em atropelar os outros. O resultado desse monstruoso processo é o atropelamento de todos por todos. Todos pagamos o preço da nossa insensatez, da nossa demência. Urge, pois, resgatar a ética em todos os ambientes e em todos os âmbitos da sociedade. Os pais precisam educar eticamente os filhos, a escola precisa levar seus estudantes a uma séria reflexão ética. As igrejas precisam diminuir ou até eliminar as gritarias e os louvores histéricos e levar os fiéis a refletirem seriamente sobre a questão ética. Sem ética não há futuro para a humanidade, não há futuro para o planeta Terra. Estaremos fadados à extinção. O nosso planeta continuará a existir ainda por alguns bilhões de anos, mas, se continuarmos sem ética, os humanos desaparecerão em breve junto com outras espécies vivas.
Precisamos reverter o método da grande mídia que explora de forma sensacionalista os acontecimentos trágicos e não faz uma reflexão ética séria sobre esses fatos. Precisamos difundir a ética por toda parte. E para difundir e permear o mundo de ética precisamos abolir o paradigma da competição e do consumismo. Precisamos propor o paradigma da inclusão e do cuidado, vendo a Terra como nossa única casa e cada pessoa como um irmão ou uma irmã.
Quando paramos para pensar em certas tragédias, percebemos que isso acontece porque não cuidamos uns dos outros. Há no mundo de hoje uma enorme falta de cuidado. Quando cuidamos preservamos, regeneramos e reforçamos a vida. Por isso hoje nos encontramos numa grande encruzilhada: ou cuidamos mutuamente uns dos outros ou todos iremos perecer. Não há alternativas.
E desta missão ninguém pode se esquivar. Cada um precisa sentir-se responsável e assumir sua tarefa. É claro que as responsabilidades são diferentes, de acordo com as funções que exercemos, mas ninguém pode se omitir, fugir e lavar as mãos. Nenhum de nós pode ficar esperando pelo outro ou pretender agir somente a partir da reação do outro.
Estamos conscientes disso e dispostos a agir dessa forma?”
Olga concluiu a leitura e olhou para as pessoas no salão. -- Gostaria muito que refletíssemos sobre esse texto e que todos respondêssemos à pergunta final com sinceridade. -- pausou -- Nós, as ditas pessoas de religião, falamos demais e agimos pouco. Estudamos muito e empregamos quase nada desse aprendizado na vida cotidiana. Está em tempo disso mudar. -- parecia implorar para que todos despertassem -- "Saber, e não fazer, ainda não é saber."11 -- citou -- Obrigado!
--Ela está sempre nos provocando! -- Paulo reclamou
--Está... -- Beatriz respondeu pensativa -- mas talvez esteja certa no que diz...
--Mas ela está certa! -- Marcelo ouviu e resolveu se meter na conversa -- É que "numa terra de fugitivos, aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo."12
***
Camille e Solitudine conversavam em uma lanchonete em São Paulo.
--Meu, tô adorando essa tigela de cupuaçu. Nunca tinha provado isso! -- a loura dizia empolgada
--Eu sou fã de uma boa tigela cupuaçu ou açaí. Sempre que venho pra cá faço questão de comer uma ou outra. -- saboreava -- E nessa lanchonete aqui eles fazem as tigelas no capricho!
--Valeu pela dica desse lugar. -- sorriu -- Da hora!
--Que bom que gostou. -- sorriu também
Passaram uns segundos em silêncio até que Camille falou: -- Você não tá legal... -- olhava para a outra -- Isso é muito nítido!
--É, eu ainda não tô... Mas isso passa. -- finalizou sua tigela
--É por causa da motoqueira, né? -- perguntou com jeito
--É. -- limpou os lábios no guardanapo -- Ainda não tô dando conta.
--Sabe que eu não entendi isso até agora? Não consigo entender como é que duas pessoas vinham tão bem, até que um dia uma delas acorda e decide: “Quero terminar!” -- calou-se e ficou sem graça -- Desculpe, eu não devia estar tocando em um assunto sobre o qual certamente você não quer falar! -- limpou os lábios também
--Acho que eu gostaria de falar sim. -- respondeu calmamente -- Não desabafei sobre isso com ninguém.
--Pode confiar em mim. Não vou expor sua intimidade.
--Eu sei. -- ficou calada por uns instantes e se apoiou sobre a mesa -- Esse tipo de coisa não se decide repentinamente, da noite pro dia. Samira vinha matutando há tempos... Eu notava que havia algo errado, mas dei um tempo pra que ela se sentisse à vontade pra falar.
--E por que acha que ela quis terminar? Você acreditou naquela conversa de que foi porque as duas são muito diferentes? -- perguntou desconfiada -- Acreditou naquele papo de que não tem outra mulher na parada?
--Acredito que não haja outra mulher mesmo. Ela respondeu com muita convicção e eu senti que era verdade. Acho que o problema foi que ela começou a se cansar de ter um relacionamento sério e estável, de um jeito como não estava acostumada.
--Humpf! -- fez um bico -- Então ela andava era sentindo falta de uma boa sacanagem! -- falou com revolta -- Eu sempre achei que aquilo ali era mina maluca!
--Não é isso! Eu quis dizer que um relacionamento se perde na rotina se as pessoas não se sentem satisfeitas. -- pausou -- Ela, na certa, esperava de mim o que não lhe dei. -- passou a mão nos cabelos -- Samira tava acostumada a ter as namoradas girando ao redor dela e eu não fazia isso. Sempre a tratei muito bem e dava atenção, mas não vivia em função dela, não fazia todas as vontades dela.
--Sei como é! Eu também não fazia todas as vontades de Letícia e ela ficava igual a uma gata num telhado de zinco quente por causa disso! Pulava na ponta do pé que nem periquito!
--Eu, hein! -- achou graça -- Eu também trabalho muito, viajo muito, e ela se sentia meio de lado em alguns momentos... -- suspirou -- Devo ter sido uma namorada ausente em momentos em que não deveria. -- lamentou -- E também tem outras coisas... Ela é sofisticada, toda linda, toda chique... Eu sou uma mulher simples, uma caipirona, não consigo me sentir bem em certos ambientes. -- brincava com a colher -- Confesso que ao longo da minha vida eu até tentei ser menos matuta mas não dá. Não é meu, entende? -- olhou para Camille -- Eu não sou uma mulher sofisticada, não importa por onde ande e o que faça. Eu não sou! -- pausou -- Samira também deve ter percebido isso após aquele período de encantamento e novidade... Aí, mais uma vez, viu que não combinava.
--Você fala como se fosse uma capial que anda por aí com calça pescando siri e uma palha no canto da boca! -- protestou -- Não há nada de errado com você! É uma mulher apresentável, simpática e que simplesmente não gosta de frescura! Se Samira não soube dar valor a isso, deixe ela pra lá!
--Eu tô me esforçando arduamente pra deixar pra lá e respeitar o direito dela de não me querer mais, só que é difícil... Também não quero ficar me humilhando... afinal de contas a gente tem que se amar, se dar valor... -- respondeu com tristeza -- Acredita que eu tava com tudo pronto pra pedi-la em casamento naquele dia? No dia em que terminou comigo?
--Casar?? Você é louca! -- cruzou os braços -- Por acaso não lembra daquele faroeste lésbico em que a conheceu? Quem freqüentava um troço daqueles não pensa em casar! Até hoje não deixo de me impressionar quando lembro daquela festa! Em poucas horas levei cantadas pra cem anos de vida! E com Letícia ali do meu lado e todo mundo vendo que tava rolando um clima entre nós!
--Aquela festa foi doida mesmo, uai! Num dei conta, não! -- riu -- Bang bang total! -- pausou -- Talvez você tenha razão quando diz que ela não gostaria de se casar. Pelo menos não comigo.
--Você e eu fizemos errado! Letícia e Samira não são namoradas pra nós. Somos pessoas sérias, românticas e elas querem outra coisa. A minha é a própria Nostradamus da sacanagem com pós graduação kamasútrica, e a sua é uma motoqueira doida e tarada, metida a grã fina!
--Não fale mal de minha habibit! -- ralhou zangada -- Ela não é assim! -- protestou
--Ah, meu, cai na real! Eu também não queria aceitar que Letícia e eu não dava pé, mas forcei a barra e deu no que deu! -- pausou -- Aliás, tenho uma sorte no amor que nem te conto! -- ironizou -- Letícia é tarada, Seyyed é casada, Fátima, quando não tá dentro d’água tá lá na caixa prego, e Ivone tem trauma!
--Ivone?! -- perguntou sem entender
--Minha terapeuta! Ela me ama, mas não rola. Não por ser uma coroa, mas por não se assumir. É um trauma, sabe? -- explicava -- Além do mais tem a coisa da ética. Não dá pra deixar esse amor acontecer!
Solitudine tinha pontos de interrogação na cabeça. -- Eu não posso dizer que tenha sorte no amor, mas também não diria que tenho azar. -- sorriu -- É a vida, fazer o que? Seja como for, minha felicidade não pode depender do fato de se ter um par.
--Concordo com você... -- ficou pensando -- Mas às vezes eu queria tanto alguém... -- olhou para o teto -- Depois penso em ficar na minha... -- olhou para a amiga novamente -- Todos dizem que pra esquecer um amor, somente um outro amor. Mas não é fácil!
--Claro que não.
--O que vai fazer? Tem procurado conhecer alguém?
--Tenho vivido minha vida e nem penso nisso de conhecer alguém. -- ficou pensando -- Sinto tanta falta de Samira que nem sei explicar... -- pausou -- Se um dia acontecer de surgir outra pessoa, será naturalmente. Nunca procurei criar situações.
--Acho que você tá certa... Eu procurei e achei... chifre na cabeça de cavalo!
--Antes na cabeça do cavalo do que na sua! -- brincou
--Ah, mas na minha também teve! -- fez um bico -- Você que não sabe! -- ficou calada e depois se lembrou de um assunto -- Mas agora que você tá abalada e ainda ficou sem beta de novo, como vai fazer pra terminar aquela história infeliz? -- perguntou à queima roupa -- Essa sexta temporada tem que sair logo!
--Ah, você tem acompanhado? -- perguntou empolgada
--Eu não!! -- respondeu de imediato -- Passei os olhos no site e aconteceu que olhei sua história. Mas não li! Não tenho tempo pra isso. E você também escreve demais, cada capítulo é enorme! -- pausou -- Aliás... aquela garota que é deficiente vai terminar com a outra maluca lá ou não? -- perguntou interessada -- Aquele final foi meio deprê! -- reclamou
--Pensei que você não estivesse acompanhando. -- respondeu achando graça
--E não tô! -- protestou -- Foi que ouvi rumores e fiquei curiosa.
Solitudine fez cara de descrença. -- Ouviu rumores? Como assim, ouviu? Rumores de quem, criatura? -- achou graça
--Mas olha, -- não respondeu -- eu tô disposta a te ajudar porque tenho pena de você. Desde que eu era da faculdade você escreve a mesma coisa e o povo já não te agüenta mais! -- pausou -- Posso ser sua beta daqui pra frente e te dar uns toques. -- ofereceu -- Sinto que tua reputação de escritora tá por um fio!
--Faria isso?? -- animou-se
--No meu tempo vago, que fique claro. -- esclareceu -- Tô trabalhando aqui no escritório de São Paulo o dia todo e minhas aulas do MBA acabam quase à meia noite! Tudo bem que são dois dias de aulas por semana mas minha vida é dura, meu, tem moleza não!
--Mas a minha também não tem! -- argumentou
--Você tem é que tomar vergonha na cara e acabar de escrever essa história! E eu, como escritora melhor e mais conceituada que você, tô aqui pra te dar a mão. -- mexia nos cabelos -- Se quiser...
--Eu quero! -- sorriu
--Ótimo! -- sorriu também e deu um tapa na mesa -- Agora vai!
***
Seyyed havia terminado o conserto da moto de Samira, que acabava de chegar para buscá-la. Estava no final do expediente e só esperava pela motociclista para fechar a oficina.
--E então? -- Samira perguntou sorrindo ao chegar -- Resolveu o problema? -- segurava dois capacetes
“Eita, que ela tá mais gata do que nunca!” -- pensou por uns instantes -- Com certeza! -- respondeu convicta -- O problema da sua moto foi que tinham usado peças de segunda linha ao invés das originais. Claro que não ia dar certo! -- cruzou os braços -- O conserto pode ficar mais barato mas se torna mais freqüente. Além do mais os riscos de acidentes são bem maiores. -- explicava -- Acho que não vale a pena!
--Eu não sabia disso. Os mecânicos não costumam a jogar aberto com os clientes como você faz! -- olhava para a moto -- Então posso confiar na minha Shadow 750 agora?
--Pode! E toda vez que precisar, sabe que a ESSALAAM tá aqui. -- pausou -- Agora me diga como vai levar a moto se veio pra cá de Harley?
--Mas eu não vou levar. -- olhou para Ed -- VOCÊ vai! -- estendeu um capacete para a mecânica -- Eu não trouxe um capacete extra à toa. -- sorriu
--Samira... -- balançou a cabeça -- Você sempre quer me complicar, né? -- passou a mão nos cabelos
--Não há segundas intenções aqui, tem minha palavra. -- dizia a verdade -- Preciso conversar com alguém. Minha confidente tá num congresso no exterior. -- continuava oferecendo o capacete -- Por favor? -- pediu
Seyyed pegou o capacete com receio. -- Isa me proibiu de andar de moto até o fim da vida... -- comentou de cabeça baixa
--E você não vai obedecer porque isso seria um crime. Ser motoqueira pode ser uma fase, mas ser motociclista é um estado de espírito! -- colocou o capacete -- Fecha tua oficina e vem comigo. Vamos sentir o vento bater no rosto! -- caminhou até a Harley
--Por que você sempre gosta de fazer o que não deve, hein, Seyyed? -- perguntou para si mesma
***
Samira e Seyyed estavam paradas, cada uma sentada em uma moto, apreciando a visão do mar ao final do dia.
--Lindo, né? -- Samira perguntou olhando para o horizonte
--É. -- sorriu -- Com todos os problemas que possa ter, o Rio de Janeiro é uma das cidades mais cênicas que eu conheço!
--Concordo... -- pausou -- Minha ex namorada costumava a dizer que a saudade tem a cor desse rastro dourado que o sol deixa no céu quando se põe... -- sorriu nostalgicamente -- Hoje eu acho que entendo o que isso significa...
--E é sobre ela que você queria conversar? -- olhou para a outra
--É... -- continuava mirando o horizonte -- Será que teria paciência pra me ouvir? -- perguntou receosa
--Você deu sorte porque Isa disse que iria chegar mais tarde hoje, então tenho tempo. Fique à vontade. -- respondeu -- "Eu é que vou ouvir muito quando ela souber que eu andei de moto e contigo ainda!” -- pensou com vontade de rir
--A gente se conheceu numa festa muito louca em meados de 2005. -- começou a falar -- Ela me chamou a atenção, sabe? E quando percebi que ela ficou toda sem graça, com medo, porque as meninas davam em cima na maior, eu achei muito fofo... -- lembrava -- Começamos a namorar e ela me fez sentir confiança pra acreditar no relacionamento. -- olhou para Ed -- Eu tinha plena certeza de que ela tava comigo! Entende o que quero dizer?
--Entendo. Eu vivo isso! -- sorriu
--Pois é... Nunca vivi com ninguém o que vivemos juntas. Foi intenso demais... -- respirou fundo -- Só que não era perfeito.
--Mas nunca é.
--Nós somos muito diferentes! -- argumentou -- Ela é uma pessoa simples, romântica, estudiosa, que não passa de uma criança grande! Ela fazia cada coisa e depois dizia que era caipirice! Me deixava doida! -- riu brevemente -- E trabalhava demais na minha opinião! Ela pensa que vai resolver os problemas do mundo mas não pode ser assim! Vive se metendo em situações delicadas porque fala certas verdades ou então porque se mete a lutar por umas coisas que... -- pausou -- Ela não tinha nada a ver com nenhuma das minhas ex namoradas. -- concluiu
--E foi por isso que você se apaixonou por ela e não por nenhuma outra. -- afirmou categoricamente -- A outra pessoa não precisa ser um espelho nosso pra gente se apaixonar. Acha que Isa é igual a mim? -- riu -- Mais diferentes que nós duas eu não sei se vocês são!
Gastou uns segundos calada. -- Eu saí com ninguém depois que terminamos. Aliás nem tenho a menor vontade de fazer isso.
--Então por que terminou? -- olhou nos olhos da outra -- Diz a verdade pra mim!
--Ela nem me procurou pedindo pra voltar. E quando eu disse que queria terminar, sequer derramou uma lágrima! No fundo, acho que não se importou muito, apesar das coisas que me disse...
--Responde a pergunta, garota! -- insistiu em tom de brincadeira -- Você não me enrola! -- sorriu
--Minha irmã sempre disse que ela não era o tipo de mulher pra eu me prender de verdade e...
--Por que você terminou com ela? -- insistiu mais uma vez -- Não foi por causa do que a sua irmã dizia. Se assim fosse, esse namoro não teria durado nem um ano.
Após uns segundos calada ela respondeu: -- Porque eu tive medo.
--De que? -- não entendeu
--Ela não era como minhas outras namoradas. Ela tinha uma vida sem mim e isso me incomodava. Eu sou ciumenta, eu quero atenção total, eu quero que minha namorada me acompanhe em tudo e não tenha programas sozinha! -- confessou -- Sei que nunca conseguiria isso dela, embora sentisse firmeza no compromisso que assumiu comigo.
--E nem deveria querer! -- respondeu de imediato -- Garota, presença constante e esse grude todo não garantem nada! Um casal tem que ter uma vida em comum, lógico, mas as pessoas precisam de seu próprio espaço! Isso é bom, é saudável. -- pausou -- No meu primeiro casamento, minha ex mulher queria que fosse assim, como você diz. E o ciúme dela junto com minha atitude vaidosa acabaram com a gente. A coisa chegou a um ponto insuportável!
--Sei que você tem razão, mas só com a cabeça! Já o coração...
--Pode aprender a saber também. Nada é imutável! -- argumentou -- Por que não procura por ela e conversa abertamente? -- propôs -- Fale a verdade pra ela! Negocie com ela essa coisa do tempo, se acha que a mulher trabalha demais. Tudo dá pra ser resolvido. -- pausou -- Quando Isa tava na faculdade a gente se via pouco. E agora que ela comanda esse projeto de balé nas comunidades e eu tô na maior ralação reconstruindo a oficina, a gente tem ainda menos tempo juntas! E nem rola de terminar por causa disso!
--Mas vocês são casadas e isso ajuda! Nós não!
--Casa, então! Tá esperando o que? -- não entendia
--Ela não quer casar comigo!
--Como sabe? Vocês conversaram sobre isso alguma vez?
--Não! Mas conhecendo ela como conheço, sei que se quisesse casar teria tocado no assunto. Tenho certeza de que nunca nem pensou nisso! -- colocou o capacete de novo -- Depois do nosso término, eu comecei a batalhar um curso pra fazer nos Estados Unidos e soube hoje que consegui. Viajo agora em maio e fico lá por um ano. É o melhor que tenho a fazer! Com a cabeça bastante ocupada não vou ficar pensando nessas coisas! -- ligou a moto -- Vamos? Não quero te causar uma desavença conjugal.
--Vambora. -- colocou o capacete também -- Eu acho que você tá dando mole, mas fazer o que? -- ligou a moto -- Em um ano muita coisa vai acontecer e você pode perdê-la!
Samira não respondeu e partiu com a moto.
***
Tatiana chegava em São Paulo ao final da tarde para uma reunião de trabalho.
Ao desembarcar deu de cara com Lady esperando a mala diante da esteira de bagagens.
-- Lady? -- sorriu -- Não sabia que você tava aqui em São Paulo, uai! -- abraçaram-se
--Ai, amiga, que surpresa boa! -- olhou para a outra -- Tenho uma reunião amanhã com fornecedores e mais um curso de três dias pra fazer. -- sorria também -- Como sou trainee tenho que ir em quase tudo e estudar pra aprender as coisas. E você? -- perguntou animada -- O que veio fazer aqui?
--Tenho uma reunião de trabalho amanhã e no final do dia já volto pra Goiânia. -- olhou para uma bagagem que chegava -- Deixa eu te perguntar, será que aquele trem que vem ali não seria sua mala? -- perguntou desconfiada
--Ih, amiga, é sim! -- constatou -- Pega, Lady, pega! -- disse para si mesma e correu para buscar a mala -- Pronto! -- puxou a alça -- Tem rodinha, viu? Nem faço força! -- foram andando -- Como desconfiou que a mala era minha?
--Não imaginei ninguém mais com a mala toda rosa da Barbie e o Garfield servindo de chaveiro. -- riu
--Ah, amiga, eu sou mãe, né? -- caminhavam -- Desde que me vi prenhe, meu espírito infantil aflorou que foi uma coisa! -- explicou
--E falando nela, como vai sua filha fofíssima? -- perguntou sorrindo
--Mais linda e fofa do que nunca! E tão esperta, amiga! Nem parece que é minha filha!
--Eu, hein, Lady! Isso é coisa pra se dizer? -- ralhou com a outra
--Mas é verdade. Acho que puxou a Priscila nisso aí! E tem que ver como é vaidosa! Só quer saber de maquiagem importada e perfume de marca.
--Você deixa ela se maquiar?? -- perguntou em choque
--Eu não! Mas é que ela vai em cima da maquiagem importada de Priscila que vai certeira! A gente tem que engabelar. -- comentava -- E outra coisa, a pequenininha já gosta de computador. Fica só de olho, doida pra usar. -- riu
--A nova geração se adapta muito rápido ao mundo digital. São outros tempos, não é? Já nasceram imersos nisso. -- parou de andar -- Lady, em que hotel vai ficar? Será que podemos pegar o mesmo táxi?
--Tô indo pra Paulista. Não gravei o nome do hotel, deixa eu ver. -- mexeu na bolsa
--Meu hotel também é na Paulista. -- sorriu -- Vamos jantar juntas hoje pra bater um papo? -- convidou
--Claro! A gente tem mil coisas pra conversar!
***
Tatiana e Lady haviam terminado o jantar e ficaram conversando no restaurante.
--Fico feliz em saber que seu casamento com Renan finalmente voltou às boas! -- a engenheira disse -- Vocês têm tudo a ver! Não dá pra imaginar um sem o outro.
--Devo muito a ele por isso. -- reconheceu -- Renan foi muito flexível e se sacrificou bastante por mim. Meu pretinho é o tesouro da minha vida! -- sorriu -- E pensar que pensei em abrir mão dele...
--Eu queria viver isso um dia, sabe? -- desejou -- Um casamento que desse certo... -- suspirou -- O divórcio é um processo muito doloroso...
--Divórcio?! -- arregalou os olhos -- Você casou com quem, uai? -- bebeu o último gole de sua água
--Com Priscila! -- respondeu convicta
A jornalista se engasgou e tossiu babando toda. -- O que???? -- pegou o guardanapo para se limpar -- "Eu fiquei doida ou foi ela que ficou??” -- pensou
--Você não sabia ainda, não? Priscila e eu fomos casadas mas ela pediu o divórcio. Durou pouco menos de dois anos e foi o melhor relacionamento da minha vida!
--Mas que conversa é essa, criatura?? Tem base isso??
--Tem toda base! -- afirmou naturalmente -- Fica quieta aí que eu vou te contar tudo como foi!
Lady narrou sua versão dos fatos deixando Tatiana boquiaberta.
--Mas então... meu Pai do céu, não pode ser... -- a jornalista dizia
Nisso, algumas lembranças vieram a sua mente:
“--Pára tudo!!! -- Priscila chegou apavorada e se chocou com a cena -- Tatiana, saia dessa cama imediatamente!
A outra levantou-se de um pulo e disse: -- Você não sabe o que aconteceu aqui!
--E nem quero saber! -- segurou a outra pelos ombros -- Por favor me escuta: seja lá o que aconteceu entre você e Renan, se está disposta a tentar uma coisa nova pode querer a barata de qualquer uma, mas não a da Lady, essa não!”
--Então era isso... -- concluiu -- Esse amor é coisa antiga...
--Antiquíssima! -- Lady concordava enfaticamente -- Vem desde a época dos deuses antigos, opressores e reis! Coisa de outras vidas! -- suspirou -- Mas... que pena que acabou!
--E eu que nunca imaginei que uma ou outra fosse lésbica! -- estava pasma -- Mas também, eu não imaginava que Isa fosse e no entanto...
--Só que desconfio que eu esteja virando hetero novamente.
--Por que?? Tem algum boyzinho te interessando?
--Não, nenhum. Mas digo isso por causa de um lance que me aconteceu quando viajei pra BH.
--E qual foi o lance? -- perguntou desconfiada
--Conheci uma professora universitária super interessante e charmosa que se apaixonou por mim logo de cara. Amor à primeira vista, sabe?
--Sei... -- continuava desconfiada
--Aí ela me convidou pra jantar e eu fui. Conversa vai, conversa vem, a mulher me convidou pra ir com ela conhecer seu hotel. E eu fui.
--E aí??
--Chegando lá, ela me convidou pra ir pro quarto dela e eu também fui. Papo vai, papo vem, aconteceu: ela veio me agarrar! -- contava -- Meteu a cara no meio dos meus seios fartos!
--E você fez o que??
--Dei um grito apavorado e saí correndo como louca! Entrei no elevador desesperada e gritando, apertei o alarme sem querer, derrubei um jarro enorme no chão... foi um fuzuê que nem te conto! No final, chamaram até a polícia!
--Meu Deus!! -- arregalou os olhos novamente -- Quem chamou a polícia? Por que? E no que deu isso??
--Ah, amiga, sei lá! Eu peguei o primeiro táxi que vi dando sopa e me mandei.
--Mas que coisa!
--Nem quando Sabrina tentou me seduzir eu me balancei. Por isso desconfio que tô voltando a ser hetero.
--Sabrina tentou te seduzir???? -- ficou chocada -- Num dou conta, não!
--Tenho Priscila como testemunha. Aliás, quando ela chegou e viu o clima que Sabrina queria que rolasse foi o maior estresse. As duas quase saíram no tapa! -- gesticulava -- As relações entre elas só melhoraram depois que Sabrina começou a ficar doente. Sabe como é, Priscila nunca bateria numa moribunda!
--Gente! -- não conseguia deixar de se surpreender
--Eu não sei o que há comigo, sabe, amiga? Penso que estou virando hetero novamente, mas em compensação nenhum homem mexe comigo... -- lamentava -- Acho que virei mesmo foi Priscilossexual. Excluindo minha filha, é lógico!
Tatiana teve que rir. -- Ai, ai, Lady... -- balançou a cabeça -- Eu sugiro que você converse com Priscila e se acerte logo com ela. Essa situação das duas é muito delicada e maluca! Além do mais depois que ela for pro Canadá as duas ficarão um ano inteiro sem se ver!
--E quem disse que dá pra manter um diálogo sobre isso com ela? -- respondeu cruzando os braços -- Priscila não discute a relação, amiga! Ela sempre muda de assunto e deixa aquela boca maravilhosa negar o que no coração abunda!
--Então... Fazer o que, né? -- riu novamente -- "Vivendo e aprendendo! Priscila e Lady, quem diria... O amor de fato prega peças...” -- pensou
15:00h. 01 de junho de 2008, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho, Rio de Janeiro
Flávia chegava com Celso e Clara para uma visita. -- Se segura aí, dona mãe! -- entrava na casa da loura -- Chegou visita! -- brincava
--Ai, que bom que vocês vieram! -- ficou animada -- Camille ainda tá em São Paulo e eu tava aqui sozinha morrendo de saudades da minha menina!
--Se era por falta de gente miúda, seus problemas acabaram! -- sorriu -- Trouxe logo dois pequenininhos!
--Mas eles não são uns amores? -- perguntou enquanto beijava as crianças -- Eu passei aspirador de pó no carpete hoje mesmo, Flávia, não vai fazer mal se eles quiserem brincar. Tô vendo o menino aí com um carrinho na mão e Clarinha deve querer ficar solta também, não?
A fisioterapeuta sentou-se no chão junto com os filhos. -- Sem fazer bagunça na casa da tia Mari, viu, turminha? -- advertiu com delicadeza
As crianças ficaram brincando perto da mãe.
“Quisera que Caroline e Michael um dia tivessem sido assim!” -- a costureira pensou ao se sentar no carpete também -- E então, Flávia? -- perguntou admirada -- Tô vendo Clarinha com uma prótese! Como tem sido a reabilitação dela?
--Excelente! -- respondeu orgulhosa -- Ela e o irmão fazem natação, tô trabalhando a coordenação motora e o equilíbrio dela e essa prótese aí nós colocamos na semana passada. -- sorriu -- E mal colocou já foi dando os primeiros passinhos!
--Já vi que é danada que nem a mãe! -- brincou
--Mas não me bajula, não, que eu também vim aqui pra reclamar! -- dizia -- Tô sentindo sua falta na minha academia!
--É muito trabalho no balé e a gente fica louca! Mas prometo que nessa semana eu apareço lá.
--Acho bom! -- fingiu estar zangada -- Nem eu, que tenho dois filhos pra criar, fugi da raia!
--Eu sei. -- sorriu -- Mas não abandonei o boxe, fique certa! -- pausou -- E o marido, como vai? Por que não veio com você?
--Ele tá bem, mas não veio por causa do trabalho. O bicho tá pegando, dona mãe!
--Imagino!
--E a loura Belzebu? Volta pra casa quando? -- acariciava a cabeça de Clarinha
--Só em agosto. Será que eu agüento até lá? -- brincou
--É, aquela danada faz falta! Também tô com saudades.
E de repente a campanhia toca.
--Quem será? -- Mariângela chegou na janela para ver quem era -- Oba! Mariano e Olga! -- olhou para a fisioterapeuta -- Só um minutinho!
--Eita, que hoje a casa vai bombar! -- brincou
Após os cumprimentos habituais, o casal sentou-se no carpete e ficou brincando com as crianças.
--Essas crianças são muito gotosas!! -- Olga mordeu com delicadeza a barriga de Clarinha -- Que linda!
--E você, garotão? -- Mariano fazia cócegas em Celsinho, que se divertia -- Não adianta fugir, que eu pego!
--E Ricardinho? -- Mari perguntou
--Saiu com Seyyed e Isabela. -- o contador respondeu -- Elas o levaram pra patinar no gelo, lá no Barra Shopping.
--E ele sabe? -- a fisioterapeuta perguntou surpresa
--Você tem que ver, Flávia! Ricardinho leva o maior jeito pra patinação! -- Olga respondeu -- Isabela ensinou a ele e o menino desenvolveu rapidamente.
--Legal! -- respondeu admirada -- Nem quando tinha duas pernas eu conseguia patinar no gelo, faz idéia hoje! -- riu
--Mari, eu pedi pra elas virem encontrar com a gente aqui. -- Mariano comentou receoso -- Fui abusado?
--Que nada! Eu adoro casa cheia! -- respondeu satisfeita -- Só vai ficar faltando mesmo minha Camille!
--Como eu disse, hoje a casa vai bombar! -- Flávia repetiu
No final da tarde, Ed e Isa chegaram com Ricardinho.
--Celsinho e Clarinha!! -- o menino exclamou sorridente -- Ih, que legal!! Clarinha ganhou perna!!
--Ganhou perna! -- Flávia riu
--Cadinho! -- Celso respondeu sorrindo e correu para abraçar o amigo
--Que maravilha! Casa cheia de criança! -- Ed falou empolgada -- E aí, Flávia? Tranqüilidade? Tô vendo que os filhos estão um espetáculo! -- beijou as crianças
--Oi, Flávia! Há quanto tempo! -- Isa saudou sorrindo -- Ai, mas ti lindos!! -- brincou com os pequenos
--Flashdance e MadMax! Que prazer em vê-las! -- levantou-se para beijá-las -- E você, garoto? Fiquei sabendo que o senhor patina muito! -- olhou para Ricardinho
--Foi Isa que me ensinou! -- abraçou a fisioterapeuta
--Que é isso que você traz aí nessa sacola? -- Mariano perguntou curioso ao filho
--É pra tia Mari! -- entregou o presente nas mãos da costureira
--Ai, obrigado, querido. -- beijou a cabeça dele -- O que seria isso? -- abriu a sacola e tirou um embrulho de dentro -- Ah... -- sorriu -- Que caneca linda!
--Ele comprou com o próprio dinheiro. -- a ruiva falou
--É de aniversário! -- ele explicou -- Tô atrasado mas pelo menos não esqueci!
--Obrigado, meu amor! Adorei meu presente! -- ficou toda prosa
--Esse menino tem a classe da mãe, o cavalheirismo do pai e a malandragem da irmã. -- a fisioterapeuta provocou
--Malandragem, não! Eu diria, jogo de cintura! -- Ed corrigiu bem humorada
--Pelo menos eu contribui com alguma coisa! Entrei com a patinação! -- Isa brincou
--E eu quero ser bailarino igual você! -- Ricardinho falou olhando para a ruiva
Nesse momento Mariano congelou. -- Ricardinho... não confunda patinação com balé, são coisas diferentes, meu filho. -- esclareceu nervosamente
--Eu sei! -- olhou para o pai -- E quero fazer balé! Quero ser bailarino quando crescer! Igual Isa!
--E por que não? Muitos meninos fazem balé e se dão bem na carreira. -- Seyyed falou
O contador corou e ficou tenso.
Olga percebeu o desconforto do marido com a situação. -- Bem, -- interrompeu a conversa -- já é tarde e ficamos aqui por longas horas dando trabalho pra Mari. Hora de ir! -- sorriu
--Mas já? -- a costureira reclamou -- E esses três nem esquentaram lugar ainda! -- referia-se a Ed, Isa e o menino
--Dona Olga tem razão. Amanhã é dia de trabalho e é melhor a gente ir. -- a bailarina concordou -- "Mariano tá a ponto de ter um treco!” -- pensou decepcionada
--Verdade! -- Flávia falou -- E eu que cheguei aqui mais cedo, lanchei, perturbei, tenho mais é que me mancar. -- olhou para os filhos -- Turma miúda, vamos nos aprontando! -- levantou Clara no colo -- Hora de dizer tchau a tia Mari e agradecer por tudo!
Mariângela ficou triste com a partida repentina de todo mundo.
***
Olga e Mariano estavam no quarto se preparando para dormir. Ricardinho já dormia profundamente.
O contador estava sentado na cama acompanhando os movimentos da mulher e esperando uma oportunidade para tocar no assunto que o incomodava.
--Por que não me diz o que está louco pra dizer, querido? -- Olga perguntou enquanto penteava os cabelos curtos -- As palavras estão prestes a fugir da sua boca e você não as articula. -- sorriu
--Não faça brincadeiras com um assunto sério, Olga! -- ele respondeu contrariado -- Você ouviu muito bem o que o menino disse!
--Ouvi e não achei nada de mais. -- começou a passar creme no rosto
--Nada de mais? -- riu sarcástico -- Não acha que já é suficiente ouvir as piadinhas dos que dizem que o garoto é gay, mariquinha, boiolinha e por aí vai? -- olhava para ela com o cenho franzido
--As pessoas que falam isso, criaturas ignorantes, diga-se de passagem, pensam dessa forma porque ele é educado, não bate nas outras crianças, tem modos, é carinhoso, ou seja, é bem diferente desse modelo triste de homem que foi inventado há tanto tempo. -- olhava-se no espelho -- Não estou nem um pouquinho preocupada em agradar quem pensa assim.
--Mas e o menino? Não é fácil pra ele desde tão novinho aturar essa provocação toda!
--Ele tem nós dois pra orientá-lo e ajudá-lo a suportar isso. -- fechou o vidro de creme e a porta do guarda vestido -- Todos na vida, em algum momento, temos que aturar provocações por uma razão ou por outra.
--Só que se ele se meter nesse negócio de balé aí é que vão pegar no pé mesmo! -- reclamou
--E nós estamos aqui pra defendê-lo e continuar orientando. -- sentou-se na cama do lado de Mariano
--Olga, pare de agir como se fosse tudo tão fácil! -- virou-se lado e ficou de frente para ela -- Não é assim que a coisa funciona!
--E como é que funciona, Mariano? -- cruzou os braços -- A gente convence o menino que a masculinidade dele é de cristal, e por isso ele não pode dançar balé, matricula o garoto numa escolinha de futebol e de jiu-jítsu e mostra pra todo mundo como nosso filho é macho? É assim que funciona? -- provocou -- Sinceramente eu esperava mais de você!
Levantou-se contrariado. -- Eu sabia que não ia terminar bem essa história desse menino sair com Isabela e ficar vendo balé aqui e ali! Eu sabia! -- andava pelo quarto -- Mas nunca disse nada porque senão você ainda ia ficar contra mim!
--Por que não achava que não ia terminar bem a história dele ir com Mari nas aulas de boxe ou com Seyyed na oficina? -- provocou
--Você não entende, não é? Ou então não quer entender! Você acha que tudo é muito natural, mas eu não tô preparado pra ser pai de um filho gay! -- falou mais alto
Olga ficou olhando para ele e depois de uns segundos perguntou: -- Você tem medo que eu falhe com Ricardinho como acha que falhei com Seyyed, não é isso? -- ele nada respondeu -- Ai, ai, querido... -- balançou a cabeça -- Será que com tudo que já viu na vida, não aprendeu que não são essas coisas que definem a orientação sexual de uma pessoa? -- olhou para ele -- Conheço homens brutos e bem machões que são gays, você e Renan são perfeitos cavalheiros e são hetero. Isabela foi criada no mundo da Barbie e é lésbica! Se seu raciocínio tivesse coerência, mulheres como Isabela e Juliana jamais seriam lésbicas. -- argumentava -- Eu nada fiz de esquisito com Seyyed e ela é homossexual. E não foi culpa da profissão! Ela é o que é! -- pausou -- "Como será que você reagiria se soubesse de Camille?” -- pensou curiosa
--Olga... -- passou a mão na cabeça
--Nosso filho tem alma de artista! Será que não vê? -- continuava falando -- Ele desenha bem, pinta bem, escreve historinhas, patina bem e gosta de dançar. O menino quer ser bailarino, eu acho isso lindo e não considero que ser masculino é sinônimo de ser grosseiro ou vulgar. Você mesmo é uma prova viva disso!
--Humpf! -- fez um bico
--Se Ricardinho for realmente gay, nós podemos impedí-lo de dançar balé, acostumá-lo desde cedo a ver revistas e filmes pornôs, matriculá-lo no futebol e na luta mais agressiva, que ele será gay da mesma maneira. Podemos levá-lo a um bordel na mais tenra idade, fazer dele um bronco, mas continuará sendo gay. -- pausou -- E se ele for homossexual será meu filho do mesmo jeito e vou amá-lo e me orgulhar dele independente disso! -- mexeu no travesseiro -- Você acertou quando disse que eu acho tudo muito natural. Com certeza acho! -- deitou-se
Mariano ficou perturbado e sem saber o que dizer.
--Se ele quiser mesmo fazer balé, eu vou falar com Isabela e vou procurar a escola que ela me sugerir. -- cobriu-se com o lençol -- Gostaria que você refletisse a respeito disso e não se transformasse naquele tipo de pai que vive com medo que a frágil masculinidade do filho se despedace.
--Eu só quero o bem dele!
--Eu também. -- respondeu de pronto -- Mas não use isso como pretexto pra se transformar em um destruidor de sonhos. -- fechou os olhos -- Boa noite.
O contador permaneceu de pé e ficou pensando no que ouviu. “Ela sempre faz tudo parecer tão fácil...” -- pensou
***
Juliana acabava de conversar com uma senhora que foi lhe pedir ajuda e decidiu ligar para Tatiana.
--Alô? -- a repórter respondeu do outro lado
--Alô, Tatiana! É Juliana, tudo bem? -- sorriu -- Tá podendo falar?
--Tudo bem e você? Claro que posso, uai! O que manda?
--Graças a Deus, também vou bem. -- pausou -- Tô te ligando porque acho que você vai gostar de saber do que acabo de descobrir!
--Diga!! -- ficou curiosa
--Uma senhora veio me pedir ajuda porque uma seita satânica tentou aliciar o filho dela pela internet. -- contava -- O menino pensava que um site que costumava a visitar era uma outra coisa, mas quando entendeu do que se tratava ficou muito assustado. Ela veio aqui pedindo pra eu estudar um projeto de lei que aborde satisfatoriamente a questão dos crimes cibernéticos! -- explicava -- Eu achei a idéia super oportuna! O assunto tem ganhado cada vez mais destaque nos debates. Agora preciso é estudar a respeito.
--Hum, mas essa informação me interessa e muito! Você tem o site, ela te deu algum detalhe?
--Ela disse que o filho gravou uns CDs com todas as informações que ele tinha sobre a tal seita e mais as conversas de MSN que teve com um dos administradores do site. Segundo ela, os CDs estão escondidos em casa e só não os trouxe porque não sabia se eu me interessaria pelo caso.
--Ah, mas eu quero ver isso aí! Tenho pesquisado muito na internet, descobri coisas chocantes mas ainda não fisguei nenhum peixe!
--Seja como for, eu orientei a pobre mulher a procurar a polícia e entregar a eles as cópias desse material. -- começou a arrumar suas coisas -- Quando perguntei se ela e o filho gostariam de conversar com uma repórter muito interessada em desmascarar essas coisas, ela prontamente respondeu que sim.
--E onde eu posso encontrá-la?? -- perguntou ansiosa
--Tenho o endereço e os telefones dela. Passo pra você por torpedo. -- levantou-se e pegou a bolsa
--Obrigada! Tenho certeza de que esse contato me esclarecerá coisas importantes!
--Ela é uma mulher esclarecida e quer pôr um fim nisso. Contou uma história muito coerente e não me pareceu estar inventando. Tenho certeza de que vai colaborar no que puder. -- respondeu confiante -- Agora tenho que ir. Tchau! Um beijo!
--Pra você também! Tchau! -- Tatiana desligou excitada
Juliana seguia caminhando pelos corredores. Pegou o celular para contatar Suzana. “Onde meu nenenzinho se meteu?” -- pensou curiosa
Repentinamente um súbito mal estar a fez sentir uma vertigem. Temendo cair no chão, jogou-se contra a parede e deslizou até se sentar.
--Deputada, algum problema? -- um homem apressou-se em ajudá-la
--Nossa, eu... -- ele a apoiou para que levantasse -- senti uma vertigem, uma coisa tão repentina que... -- passou a mão nos cabelos -- Obrigado!
--Isso é estresse! -- pegou a bolsa dela do chão -- Muito trabalho! Quer que eu a acompanhe?
--Pode deixar, tá tudo bem. -- recebeu a bolsa das mãos dele -- Eu vou indo devagarzinho. Já me sinto bem melhor agora! -- sorriu encabulada
--Se é assim... -- cumprimentou-a com a cabeça -- Tenha uma boa tarde! -- despediu-se
--Igualmente! -- respondeu e voltou a andar -- "Senhor, seja lá quem estiver tentando me afetar, imploro para que me permita ter forças para não me deixar abater.” -- orava mentalmente -- "Que eu me coloque em condições dos Espíritos de Luz me protegerem desse mal!” -- respirou fundo -- Eu não tenho medo! -- afirmou convicta
--E nem é pra ter! -- Lourdes lhe dizia, embora ela não escutasse -- Não está sozinha, meu bem! Nunca estará!
***
Juliana fazia ginástica na academia quando uma personagem conhecida chega para abordá-la.
--Deputada Juliana! -- sorriu -- Que mundo pequeno, não?
--Irina? -- olhou para ela com surpresa interrompendo seus exercícios -- O que uma mulher que não mora em Brasília faz aqui na malhação às oito e meia da noite? -- perguntou desconfiada
--Eu venho muito na cidade, passo dias aqui, sou vaidosa... -- bebeu um gole de água -- Uma das primeiras coisas que fiz foi me tornar sócia dessa academia.
--Sei. -- fez um bico e voltou a fazer abdominais -- "Imagino que você viva aqui na cidade à caça de gente pra comprar!” -- pensou
Sentou-se na prancha do lado dela. -- Não me surpreendo em encontrá-la aqui. Ter um corpo desses tem um preço. -- afirmou de forma insinuante
Juliana sentiu um incômodo arrepio. -- Se pretende substituir sua tática de tentativa de suborno pra sedução tá perdendo tempo! -- levantou-se da prancha -- Também não estou disponível pra isso! -- foi para outro aparelho
--Acho que sempre me expresso mal com a senhora. -- seguiu a japonesa e parou ao lado dela -- Posso lhe chamar de você, à propósito?
--Pode. E pode também me deixar malhar sossegada. -- respondeu secamente ao se posicionar no aparelho e começar o exercício
--Amanhã à noite haverá um jantar do nosso pessoal. -- insistiu -- Se estiver interessada em conhecer meu cliente e conversar com ele... -- sacou um cartão de apresentação -- Deixo novamente meu cartão.
--Traz cartão de apresentação pra academia? -- a enfermeira perguntou sarcástica sem receber o cartão -- Vejo que com você coincidências não existem!
Irina recolheu o cartão de volta e sorriu. -- Tudo bem, vou deixá-la malhar em paz. -- passou a mão nos cabelos -- É bom mesmo que cuide da saúde. -- cumprimentou-a com a cabeça -- Boa noite! -- afastou-se
Juliana acompanhou com os olhos a partida da mulher e pensou: “Essa Irina tem alguma coisa que... não sei explicar.” -- estava desconfiada -- "Não é simplesmente a advogada desonesta de um sujeito mau caráter...”
***
Camille descia do táxi em frente a sua casa. Finalmente voltava de São Paulo. Entrou com discrição e fez uma surpresa a sua mãe, que a recebeu emocionada.
Após um bom almoço e muita conversa, a jovem perguntou intrigada: -- Ô mãe, de quem é aquele carro que tá estacionado na garagem? Pensei que tinha alguém aqui com você, mas que nada!
A costureira sorriu e respondeu: -- Ele está aqui desde ontem. -- olhava para a filha -- Seyyed trouxe pra você!
--Como é?? -- não entendeu
--É seu! Ela adaptou os pedais pra você, por causa de sua perna mecânica, ajustou pra sua altura e fez outras coisas. Diz que é um tal de tuning, sei lá! -- deu de ombros -- Mas eu achei que ficou lindo!
--Ô louco, Ed me deu um carro?? -- arregalou os olhos
--É hora de você tirar a carta! -- apontou para o porta chaves -- A chave tá ali. Por que não vai vê-lo de perto? -- perguntou
--Ah, mas vai ser agora!! -- levantou-se apressada, pegou a chave e foi ver o veículo
Camille passou a mão pelo capô e abriu a porta. Entrou e sentou-se no banco do motorista. -- Meu, tá muito da hora isso aqui! -- reparava em todos os detalhes
--E esse tom de verde é muito bonito! -- a costureira falou ao se aproximar -- Eu também gostei muito!
--Eu nunca pensei em ter um carro nas minhas condições... -- segurou o volante -- Legal! -- estava que nem criança
--Agora eu quero que você corra atrás de tirar a carta! -- falou como quem dá uma ordem -- Não quero saber desse carro largado aqui na garagem!
--Ah, mas isso é que não! Vou ver isso a partir de hoje! -- saiu do veículo e fechou a porta -- Hora de pesquisar na internet!
--Hora de agradecer! -- corrigiu -- Você tem que ligar pra ela e agradecer por isso! Eu já agradeci!
--Não... -- olhou para a mãe -- Isso não deve ser feito por telefone. Um presente assim a gente tem que agradecer é pessoalmente! Amanhã é sábado e eu vou procurar por ela. -- sorriu -- "Então era esse o presente que ela pensava em me dar...” -- recordou da última conversa que tiveram
***
Ed trabalhava na oficina quando ouve uma voz conhecida.
--Eu não sabia que na ESSALAAM também se trabalhava aos sábados. -- a morena virou-se na direção de Camille -- Quando eu trabalhava aqui, nos finais de semana se tinha descanso. -- parou sorridente diante da morena
--Hoje em dia só eu trabalho aos sábados. -- sorriu também -- Quando a situação melhorar, volto a descansar mais.
A loura olhou tudo em volta. -- Deixou aquele espaço ali pensando no futuro? -- indicou com o queixo -- Quando voltar a restaurar carros antigos?
--Você agora lê pensamentos? Como diria uma grande ex colega de trabalho: “Ô louco!” -- brincou
--Você não deveria ter feito o que fez! O carro ficou lindo, mas com certeza foi um gasto que ainda não podia ter bancado. -- falou com preocupação -- Eu amei o presente, achei que foi lindo e super carinhoso de sua parte, mas...
--Mas, é feio fazer desfeita! -- interrompeu a fala da outra -- Tua mãe não te ensinou isso, não, garota? -- brincou
Camille riu. -- Você é o máximo, Ed! Mas não devia ter feito o que fez... -- cruzou os braços -- E a consciência ecológica, onde fica? E a consciência cidadã? -- brincou também
--Pois é... -- forjou uma cara de preocupação
--Se todo mundo comprar carro, como ficam as emissões dos gases de efeito estufa? E o caos urbano? Daqui a pouco o Rio vai ficar que nem São Paulo, no esquema do rodízio! -- continuava brincando
--Olha, eu pensei muito! -- continuava fingindo -- O transporte de massa é o investimento mais correto a se fazer, mas o Governo não provê uma infra estrutura logística que nos atenda bem. E a gente é formatado pra não reclamar, pra não exigir melhorias... Por outro lado, facilita-se a aquisição de automóveis dia a dia e a cultura consumista, que domina os meios de comunicação, nos convence de que ter um carro, além de resolver o problema da mobilidade, é status, sinal de sucesso, essas coisas... -- olhava para a loura
--Sei. -- continuava o jogo
--Mas aconteceu que eu comprei um carro usado em bom estado e não sei explicar. Garota, aquele carro chamava teu nome! -- fez um gestual -- Então, eu não tive escolha: camillezei o veículo inteiro e preparei a coisa mega customizada pensando em você! -- sorriu -- E dei ele de presente pra única dona que poderia ter!
“Ai, Ed, eu te amo!” -- pensou -- Por que sempre faz coisas assim, hein? Tem o dom de me deixar emocionada! -- sorriu
--Eu só queria te agradecer. Por tudo!
--Não me agradeça. -- respondeu com delicadeza -- E não precisa me dar presentes. Eu não vou recusar, pode ficar tranqüila, mas não faça mais isso! Não deve fazer!
--É que eu sou uma menina mal comportada e gosto de fazer algumas coisas que não devo. -- brincou sem malícia
--E há mais alguma coisa que não deve que você gostaria de fazer comigo? -- perguntou sem pensar -- "Meu, essa pergunta soou meio insinuante!” -- pensou arrependida -- "Mas de vez em quando eu digo cada uma...”
Seyyed ficou sem graça e não respondeu.
--Ed, você não sabe! -- Isabela chegava animada -- Mais dois alunos foram aprovados pra Escola de Dança do Theatro e... -- deu de cara com Camille e desmanchou o sorriso -- Oi, tudo bem? -- perguntou educadamente -- Vejo que já voltou pra casa. -- parou do lado de Seyyed
--Tudo bem e você? -- respondeu sem graça -- É, eu voltei ontem e vim agradecer pelo carro. -- explicou sua presença ali
--Ah, eu sei desse carro. -- abraçou a morena pela cintura -- Fui eu quem escolheu a estampa do estofamento. Ed não tem muito jeito pra esses detalhes estéticos. -- beijou a mulher -- Eu vim te buscar! Hora de terminar de trabalhar e voltar pra casa! -- sorriu para ela
--E quem sou eu pra contrariar? -- sorriu e beijou a testa da ruiva
“Por que ela não me beijou na boca?” -- pensou contrariada
A engenheira ficou olhando para o casal diante de si e reparou que Isabela estava, como sempre, muito bem vestida, maquiada e cheirosa. “Não dá pra competir com ela! Essa mulher parece que vive embalada pra presente!” -- pensou com uma pontada de inveja --Eu já vou indo! -- Camille decidiu encabulada -- Mais uma vez obrigada por tudo! -- sorriu sem jeito -- Obrigada às duas!
--Nós também temos coisas pra te agradecer, Camille. -- a bailarina falou com sinceridade -- Desejo que você curta muito com seu carro e que tenha todo o sucesso do mundo em tudo!
--E eu digo o mesmo! -- Ed complementou -- No que precisar, sabe que pode contar comigo! E as portas dessa oficina estarão sempre abertas pra qualquer conserto que for necessário.
--Eu sei. -- passou a mão nos cabelos -- Tchau! -- saiu quase correndo
A mecânica a acompanhou partir com o olhar e se encaminhou para fechar a oficina.
--Por que me beijou na testa ao invés de na boca? -- a bailarina cobrou enquanto a observava puxar as portas -- Parecia que você tava constrangida em me beijar na frente dela! -- reclamou
--A gente não precisa esfregar nossa felicidade na cara da garota, Isa. -- continuava puxando as portas -- Sabe que ela me ama.
--E será que você a ama também? -- cruzou os braços e perguntou de cara feia
--Pensei que já tivéssemos superado essa fase. -- respondeu tranquilamente
--Quer me responder? -- insistiu autoritária
--Sabe que sim. -- concluiu seu trabalho e olhou para a ruiva -- Mas não do jeito como Camille gostaria e não do jeito que te amo! -- falou com convicção
--Verdade? -- perguntou insegura -- Quando cheguei aqui me pareceu que havia algo no ar.
--Que mais eu tenho que fazer pra você me acreditar? -- caminhou decididamente até a mulher -- Eu não tô com você por necessidade ou por obrigação! -- puxou-a com força de encontro a si -- Eu tô contigo porque eu quero! -- afirmou com voz rouca -- VOCÊ é a única mulher que eu quero! -- olhava nos olhos da outra
Isabela sentiu um arrepio pelo corpo. -- Ai, Ed! -- gem*u dengosamente -- "Adoro quando ela vem assim com esse jeito de má!” -- pensou excitada
--Tá reclamando porque não te beijei? -- abraçou-a com mais força e caminhou de encontro a um carro que estava na oficina -- Tem dúvidas de que é você que eu quero? -- deitou a bailarina sobre o capô -- Até hoje não sabe que VOCÊ e só VOCÊ é minha mulher? -- reclinou-se sobre ela
A ruiva se excitava ainda mais com aquela atitude possessiva. -- Sou sua mulher, mas quantas você quer, hein? -- segurou-a com força pela gola do macacão -- Sei bem que você adoraria ter uma legião de mulheres ao seu redor! -- falava de modo insinuante
--Esse tempo já passou! -- segurou-a pelas coxas e encaixou-se entre elas -- Posso até achar uma ou outra mulher interessante, mas quem eu quero, -- apertou-a novamente -- é você! -- beijou-a com paixão
A ruiva entregou-se àquele beijo sentindo as mãos da amante buscando despir seu corpo com volúpia. -- Ah!!! -- soltou um gemido abafado pelos beijos
--Você é a mulher que eu quero! -- sussurrava no ouvido da outra -- Gostosa, deliciosa, cheirosa! -- mordia o pescoço da amante -- Agora reclama do que eu vou fazer contigo! -- mordiscou um seio
--Ah!!! Ah!!! -- gemia -- Tira esse macacão e me devora! -- pediu tentando libertar a morena de seu uniforme
Seyyed afastou-se dela momentaneamente e livrou-se do macacão de qualquer jeito. Isabela riu.
--Tá rindo, é? -- olhava para a ruiva com desejo -- Se eu fosse você ficava com medo! -- falou em tom mais baixo e novamente puxou a amante pelas coxas lambendo seu corpo desde o sex* até o queixo
--Ah!!! -- soltou outro gemido sufocado por um beijo furioso
Seyyed deitou-se sobre a bailarina, beijando e invadindo seu corpo com desejo, urgência e sensualidade. Ao ponto que usava a força para dominá-la também dosava suas investidas com um toque maroto que excitava a amante e a deixava louca.
Isabela deixava-se possuir gem*ndo alto e arranhando braços e costas da morena, pensando satisfeita que Seyyed era somente dela e de ninguém mais.
***
Brito apreciava uma exposição de quadros renascentistas, seguindo muito discretamente um dos homens que Romeu identificou como traficante internacional de obras de arte. Percebeu sem muita dificuldade que o bandido era homossexual e resolveu abordá-lo jogando um pouco de charme.
--É uma bela exposição, não acha? -- endireitou a gola da camisa -- Eu fiquei extasiado com o que vi aqui.
--Eu também. -- sorriu -- Aliás... é engano meu ou o cavalheiro tem um apreço especial pelos pintores holandeses?
“Hum, ele estava reparando em mim! Isso facilita as coisas...” -- pensou -- Certamente. -- sorriu também -- Considero que seus trabalhos conjugam força e delicadeza com maestria. -- estendeu a mão -- Meu nome é Paulo, é um prazer.
--Joseph! -- apertou a mão do outro -- Encantado! -- reparou em Brito de cima a baixo -- "Que tipão! Acho que me dei bem!” -- pensou assanhado
--Sabe que essa degustação de obras de arte me abriu o apetite. -- fazia um tipo -- Onde haverá um café agradável para dois amantes do belo fazerem um lanchinho enquanto conversam?
--Ah, eu conheço um lugar! -- respondeu de pronto -- Tenho certeza de que você vai amar!
***
Brito imprensava Joseph contra a parede em um beco escuro no Centro da cidade.
--Eu sei que você é um dos traficantes de artigos de arte que vendem peças roubadas do exterior pra colecionadores inescrupulosos do Brasil! -- rosnava furioso -- Tenho condições de te colocar atrás das grades agora mesmo, então vê se colabora comigo que é o melhor que você faz!
--Não sou... -- tinha dificuldades para falar -- um ignorante e... conheço meus direitos! -- tentava se libertar em vão -- Não pode fazer isso!
--Eu não sou um sujeito politicamente correto, cara! -- apertou com mais força -- Solta o verbo, malandro, não me aborrece que é pior! -- ameaçou
--Nunca... ah! -- sentia dores -- Nunca trabalhei... peças... indianas! Meu negó... -- tossiu -- Meu negócio são quadros!
Brito olhou para o homem desconfiado.
--Eu juro! -- estava a ponto de desmaiar -- Posso provar! Ai!! -- sua expressão era de sofrimento
O policial soltou o bandido, que caiu sentado no chão sentindo alívio. Endireitou a gola da camisa e advertiu: -- Sei onde te encontrar. Se estiver mentindo...
--Não estou! -- respirou fundo -- Eu só trafico quadros e é isso que meus clientes querem: quadros. -- levantou-se com dificuldade
Brito preparava-se para ir embora quando se deteve para dar mais uma advertência: -- Se qualquer um daqueles quadros da exposição desaparecerem, eu venho te pegar onde estiver! E vai ser muito pior do que foi hoje! -- falou de um jeito ameaçador e partiu
“É uma droga mesmo! Quebrei a cara!” -- endireitou a roupa -- "Um homem com uma pegada dessas entre quatro paredes...” -- pensou revirando os olhos -- "Ui, que loucura!”
***
Sabrina abriu a porta de seu apartamento para receber uma visitante.
--Namastê! -- Lila fez sua saudação indiana e entrou -- E então, guria, conta pra mim. -- parou no meio da sala e ficou olhando para a escaladora -- Como vai a saúde?
--Mais ou menos. Quando penso que vou melhorar tenho uma recaída sinistra! -- indicou a poltrona -- Senta? -- sentou-se
--Mas... -- sentou-se também -- Será que nós vamos mesmo pro Everest no ano que vem? -- perguntou ansiosa
--Calma, mulher! -- achou graça -- Eu continuo batalhando tudo pra expedição acontecer, mesmo não me sentindo cem por cento bem. -- pausou -- Ainda que estivesse nas últimas eu batalharia da mesma maneira, além do mais ainda estamos em setembro e até abril muita coisa acontece.
--Eu tenho me exercitado arduamente, -- falava com orgulho -- e já levantei trinta e três mil reais. -- sorriu -- Tenho certeza de que consigo a soma que tu me pediu, daí. -- cruzou as pernas -- Não vejo a hora de partir pra minha peregrinação mística! -- começou com seus gestuais -- Estou sedenta de Luz e quero loucamente chegar num lugar “esplêndido e único. Onde nos seus grandes espaços e nos seus profundos silêncios, o ser compreende que os problemas do espírito são muito mais importantes que os materiais.”13 -- mirou um ponto no nada
Sabrina balançou a cabeça. -- Sabe Lila, às vezes penso que você acha que a expedição vai ser um passeio. -- olhou seriamente para a mística -- Fique certa de que não será!
--Mas, bá, é claro que eu sei disso, guria! -- afirmou enfática -- Se não soubesse não estaria dedicada do jeito que estou!
--Eu pensaria melhor se fosse você. -- continuava olhando a gaúcha nos olhos
--E por que? Tu achas que não dou conta? -- perguntou um tanto desaforada
--Eu vou ser bem sincera contigo, mesmo sabendo que às vezes o excesso de sinceridade se confunde com a má educação. -- falava com seriedade -- A montanha não deixa ninguém se esconder. Caminhando por alguns dias em um país totalmente diferente do seu, se alimentando mal, suportando momentos de calor e frio intensos, uma quase insuportável incidência de radiação ultra violeta na cabeça, ventos fortes que mal te deixam ouvir sua própria respiração e altitude elevada, você não vai conseguir manter esse teatro místico que sustenta aqui, ao nível do mar!
--Teatro místico?! -- perguntou ofendida -- Sabrina, por favor, eu sou uma mulher espiritualizada que usa seus conhecimentos sobre as coisas do espírito pra...
--Enganar, iludir e se aproveitar do vazio que impera no coração da maioria das pessoas! -- interrompeu a fala da outra -- Você não tem nada de mística, Lila! Você finge o tempo inteiro. Finge tanto que talvez nem mais saiba quem é!
--Não tem o direito de me dizer essas coisas, guria! -- levantou-se contrariada -- Se não queres que eu me junte a vocês seja mulher e diga logo!
--Pra mim não faz diferença se você vai ou não! -- levantou-se também -- O que quero lhe dizer é que você deveria pensar melhor. A montanha forçará um encontro de você consigo mesma. Sem truques, sem fantasias. -- continuava olhando a outra nos olhos -- E acredite, é um processo doloroso. Quando eu vivi isso em 2002 escalando o Broad Peak, posso te dizer que foi uma experiência tão forte que me fez morrer. Essa aqui, -- bateu no peito -- que fala contigo agora é outra mulher desde aquela época. Será que você tá preparada pra isso? -- desafiou
--Não cabe a ti decidir! -- respondeu de cara feia
--E é por isso que te pergunto!
--É melhor eu ir embora. -- caminhou até a porta e ficou esperando a escaladora abri-la -- Já que não tens coragem de cortar minha ida por ti mesma, não espere que eu desista! Eu quero ir e eu vou!
Abriu a porta. -- Como quiser!
Antes de sair, a gaúcha ainda reparou em Sabrina e disse: -- Tu, de fato, tens atitudes estranhas que deixam as pessoas assim, de cara! Primeiro vais no apartamento da gente querendo seduzir Lady e foge da raia. Agora me vem com uma dessas! Francamente! -- foi embora
--Seduzir Lady?! -- perguntou revoltada -- Qual o problema dessas garotas??
***
Odete visitava Ana e reparava com tristeza naquela pobre criatura deitada na cama com os pulsos amarrados para não agredir a si mesma. Seu olhar era sem expressão, totalmente alheio à realidade. O rosto mostrava-se marcado por rugas de sofrimento e não de velhice. Mais magra e abatida, Ana sequer se parecia com a mulher da qual Odete podia se lembrar.
Após uma oração emocionada, beijou a testa da filha e partiu. Enquanto caminhava, pensava na fragilidade humana diante das vicissitudes vida e em como nos iludimos com coisas que passam.
Lembrava-se da discussão ferrenha que teve com Leila, que nunca visitou a irmã, e na reação sarcástica da família diante das explicação de Isabela sobre a ação de espíritos obsessores. Pensava na ignorância que nos domina e na falta de humildade que apresentamos frente ao desconhecido mundo imaterial que nos cerca.
“Muitos são orgulhosos por causa daquilo que sabem; face ao que não sabem, são arrogantes.”14 -- pensou
Buscava não se desesperar e ter a mesma fé que Olga lhe inspirava, mas não podia evitar de chorar naquele momento. Sabia que Isabela lutaria até o fim para ver a mãe recuperada e sentia que podia contar com pessoas, que apesar de não serem muitas, não a abandonariam. Constatou com certo constrangimento que tais pessoas eram todas ligadas a Seyyed, a homossexual que um dia pediu a Deus para afastar de sua neta.
“Perdoe meu Pai, por ter me permitido cegar por meus preconceitos!” -- orava mentalmente -- "Perdoe por um dia ter me envergonhado de minha neta! Perdoe por não ter aceitado quem ela é!” -- tirou um lenço da bolsa para secar as lágrimas -- "O sofrimento me ensina fatalmente a enxergar as pessoas pelo que realmente são e não pelos rótulos que dei a elas.”
Enquanto isso, Anselmo estava deitado em um colchão sujo e fedorento a urina, sofrendo por conta de uma forte gripe que o contaminou. Abraçado à Bíblia, pedia a Deus forças para continuar vivo e desejava que a semana passasse rápido para que pudesse receber a visita de Isabela no domingo.
“Por tantos anos eu a tive por perto e não me importei muito com sua presença.” -- ele pensava -- "Hoje eu conto as horas pra vê-la... É incrível como a gente só dá valor ao que tem quando tudo nos foge por entre os dedos...”
17:00h. 05 de outubro de 2008, Grupo Espírita Fény Az Út, Ilha do Governador, Rio de Janeiro
Os médiuns da casa estavam dispostos em um círculo, tendo Suzana e Cléa sentadas no centro. Seyyed, Isabela, Odete e Juliana faziam parte do grupo que também participava da reunião. No plano astral, Khazni, Lourdes, Valadão, Rodolfo, Patrícia e Vitória integravam, junto com outros espíritos, o contingente de desencarnados que colaboravam nos trabalhos sob a assistência dos Espíritos Superiores.
Ao comando de Olga, um potente campo de força envolveu os médiuns em um elevado nível de energias construtivas. Suzana concentrou-se e mentalizou sua tribo.
Liderados pela mãe da delegada, a qual irradiava intenso magnetismo, numerosos índios surgiram e se posicionaram no ambiente astral da casa espírita. Após receber as orientações do Emissários da Luz, a indígena invocou as energias da natureza e partiu sendo seguida por seus índios. O grupo se dividiu e visitou a muitas pessoas, dentre elas Ana, Anselmo, Neyan, Rubens, Sabrina e Lucas Damaso.
Utilizando-se do ectoplasma de Suzana, que é a energia que só os encarnados possuem, e de seus próprios recursos, os índios destruíram o campo enérgico de baixa vibração que envolvia o cérebro físico de Neyan e de Rubens, assim como eliminaram a carga negativa que havia se formado ao redor de Sabrina. Ao mesmo tempo fortaleceram Anselmo e Ana, trazendo para o ambiente da casa os dois obsessores daquela mulher.
Trouxeram também um grupo de cinco espíritos extremamente endurecidos no mal, os quais obsidiavam Lucas há muitos anos.
Cléia desdobrou-se e posicionou-se no meio da sala. Coordenou a aglutinação de energias que limpavam o ambiente e a aura de todos os participantes. Ao mesmo tempo, um fluxo poderoso de energias vindas do Alto invadiu o ambiente, destruindo todos os elementos de perturbação ainda existentes. Os espíritos obsessores, de início debochados, calaram-se apavorados com o que viam.
(Nota da autora: Todo esse trecho baseia-se na obra intitulada Aruanda, ditada pelo espírito de Ângelo Inácio)
***
--E agora dona Olga? -- Isa perguntava esperançosa -- O que vai acontecer com mamãe? Ela vai ficar bem, vai curar e voltar ao normal? -- olhava atentamente para a sogra -- E os outros?
Odete também aguardava ansiosa pela resposta.
--O caso de sua mãe é mais difícil do que imaginei. Os dois espíritos que a obsidiavam eram apenas a menor parte do problema. -- explicava -- Infelizmente Ana está ligada a outra entidade malévola de muito poder e precisaremos de mais investidas para libertá-la dessa prisão. No entanto, a notícia boa é que ela não irá mais tentar se matar ou se agredir. Nem mesmo terá surtos de agressividade.
--Mas ainda vai continuar louca? -- a ruiva perguntou desanimada
--Ainda vai sim. -- Olga respondeu com pesar -- Mas isso vai terminar, tenha fé!
--Eu acho que só o fato dela não precisar mais viver sedada e amarrada já é uma grande coisa! -- Odete exclamou -- E agora nós temos de ir naquela clínica e insistir pra eles não a manterem naquele estado de vegetal!
--Faremos isso! -- a ruiva respondeu balançando a cabeça
--Quanto a Neyan e Rubens, fisicamente também terão melhora e reagirão rapidamente ao tratamento médico. -- Olga continuou a esclarecer -- Sabrina recuperará a saúde a tempo de realizar seus intentos, Anselmo se sentirá fortalecido e Lucas... -- pausou -- O caso dele é o mais complicado de todos e ainda vai demorar pra ser resolvido. Existe não somente o fator espiritual, mas também o fator somático da psicose dele que não é tratada.
--E quanto aos espíritos obsessores que minha tribo trouxe pra cá, dona Olga? -- Suzana perguntou -- Eles foram cercados por um campo energético de contenção mas não entendi o que virá daqui por diante.
--Esse campo agirá no sentido de inibir sua ação no mal e ao mesmo tempo ajudá-los a não contrair mais dívidas por seus crimes. -- esclarecia -- Sua liberdade foi restringida porque não souberam dela se utilizar, mas não pense que acontece como nas cadeias que temos nesse planeta. Aquelas almas serão orientadas e instruídas no bem para que se libertem por si mesmas. Terão muito trabalho pela frente!
--Eu não canso de dizer, -- Ed interferiu com orgulho -- minha mãe não é pouca coisa, não, malandragem!
--Nossa mãe, meu bem! -- Juliana abraçou Olga -- Quando eu crescer quero ser igualzinha a senhora! -- beijou o rosto dela
--Meninas, não façam isso comigo... -- a mulher respondeu encabulada
--Eu também sou sua fã dona Olga! -- a delegada afirmou -- E uma outra coisa que me fez muito bem nessa reunião foi descobrir onde Lucas se encontra. Agora tenho uma deixa de onde procurá-lo! -- sorriu
--A minha diferença é esse psicopata! -- Juliana resmungou -- Ô praga na minha vida!
***
A cabeça doía um pouco, mas ele se sentia consciente depois de muitos anos de loucura. Neyan caminhou para o quintal e contemplou o dia que se descortinava diante de seus olhos como nunca havia feito na vida inteira. Olhava para as plantas e deslizava a mão por entre elas como se quisesse lhes agradecer a existência.
Parou no meio do caminho e abriu os braços com o rosto virado para o céu. Queria sentir a luz do sol banhar sua pele.
--Que maravilha! -- exclamou extasiado
Respirou fundo e abraçou a si mesmo, fechando os olhos e sentindo seu corpo sob suas mãos.
--Quase cinco anos perdidos... -- lamentou ao abrir os olhos -- Pareceu uma eternidade...
--Mas você está de volta agora e é isso que interessa! -- uma mulher respondeu
--Isa? -- virou-se espantado na direção dela
--Hora de ir pra casa, Neyan! -- ela respondeu sorridente
O coreógrafo emocionou-se mas segurou as lágrimas. -- Você nunca me abandonou... apesar de tudo. -- calou-se por uns instantes -- Por que?
--Somos artistas e arte deveria nos unir, não acha? -- respondeu se aproximando dele
--Eu... -- não mais conseguiu se segurar -- eu sinto tanto... Peço perdão por tudo que fiz! -- chorava emocionado -- Queria muito pedir perdão a você e principalmente a Joice!
--A mim não precisa mais. -- respondeu com sinceridade -- Mas quanto a Joice, -- apontou para uma pessoa -- pode falar com a mãe dela!
Ao ver Lúcia, o homem caiu de joelhos diante dela e chorou com mais pesar e emoção. -- Perdoe-me, senhora, eu imploro, eu preciso do seu perdão! Eu não queria que ela morresse, eu não queria! -- soluçava -- Eu era um homem amargo, frustrado pelo que passei na vida e morria de inveja dela! -- abraçou-se nas pernas da mulher -- Eu nunca pensei que um ato irresponsável teria conseqüências tão horríveis!! Perdoe, por favor, perdoe!!
Lúcia e Isabela também choravam. A mulher mais velha olhou para a outra como se pedisse ajuda.
--Neyan, levanta desse chão! -- a ruiva pediu e o ajudou -- Por favor, levanta!
Ele obedeceu mas não tinha coragem de olhar para a mãe da jovem. -- Por favor, senhora! Eu preciso do seu perdão! Por favor... -- chorava copiosamente
--Por muito tempo eu te odiei. -- ela começou a falar emocionada -- Mas depois percebi, vendo seu sofrimento ao longo dos anos, que “a natureza de nossas vidas imortais, está nas conseqüências de nossas palavras e ações.”15 Eu não preciso lhe penalizar com meu ódio ou meu rancor; você já pagou por seus atos impensados e foi escolha de minha filha desistir de viver. Triste escolha, lamentavelmente... -- tentava se conter -- Então decidi que não queria uma vida com mais dores do que a saudade por si só me proporcionava. -- segurou o rosto dele para que a olhasse -- Não vou dizer que gosto de você, porque não gosto, mas também não odeio. -- pausou -- Eu também preciso te perdoar, mas não sei se consigo. Não ainda. De toda forma, não te odeio. É o que posso te dizer agora!
--Se eu puder fazer alguma coisa... -- ele disse -- Alguma coisa pela senhora ou por sua filha...
--Trabalhe pra ela! -- Isa falou
--O que? -- o coreógrafo passou as mãos no rosto tentando secar as lágrimas -- O que quer dizer?
--Existe um sonho que se constrói em algumas comunidades nessa cidade. E esse sonho tem como principal homenageada uma bailarina maravilhosa que se chamava Joice. -- respondeu sorridente -- Faça parte desse sonho com a gente, dê o melhor de si nesse trabalho e tenho certeza de que ela gostará muito disso! -- olhou para Lúcia -- As duas gostarão! -- a mulher balançou a cabeça concordando
--Eu não entendo... -- sentia-se desnorteado -- Está me oferecendo um emprego?
--Não. Estou lhe oferecendo sua liberdade e um recomeço!
Acima dos três, Joice ouvia a tudo muito emocionada. Acompanhada por duas almas bondosas, olhou para elas e falou: -- Não sinto mais ódio! -- ela dizia com lágrimas nos olhos -- Acho que... após tantos anos de sofrimento, eu finalmente me sinto livre e feliz! -- sorriu -- Talvez seja verdade o argumento de que a arte nos une!
-- Você está livre, querida! Então faça o que sabe fazer de melhor! -- a amiga espiritual respondeu sorrindo -- Dance!
Joice colocou-se em posição e começou a dançar expressando em movimentos a felicidade daqueles que se libertam das prisões do espírito. A cada gesto de seu bailado, pétalas de rosas iluminadas surgiam no ambiente astral e caíam sobre Lúcia, Isabela e Neyan. A bailarina seguia feliz em sua dança, movimentando-se pelos espaços em um testemunho silencioso de alegria e reconhecimento de amor a Deus.
--Eu sinto como se ela estivesse aqui! -- Lúcia dizia emocionada -- Talvez esteja, não? -- perguntou a ruiva
--“Faça feliz quem está perto, e aqueles que estão longe virão.”16 -- ela respondeu igualmente emocionada
***
Camille e Aline conversavam em um barzinho na Lapa.
--Ai, amiga, você nem imagina! -- falava com um sorriso bobo -- Estou amando! -- suspirou
--Ah, tá de namorado novo? -- achou graça -- Vê se pega leve com ele pra não ficar desconjuntada e não fazer o cara quebrar o pinto. -- balançou a cabeça negativamente
--Isso não vai acontecer. -- respondeu naturalmente -- Até porque ele tá a muitos quilômetros de distância. -- olhou para Camille
--Ué, o cara pode estar viajando mas depois volta.
--Não, amiga, não é isso! É que ele mora nos Estados Unidos!
--Ô louco, que diabo de namoro é esse?? -- perguntou em choque
--E internet existe pra que? -- falou como quem esclarece o óbvio -- Nós nos conhecemos no Orkut e conversamos todas as noites. -- apoiou o queixo sobre as mãos entrelaçadas -- Ele é tão lindo... Um louro alto, de olhos verdes, forte... -- suspirou novamente -- Um pouco acima do peso, mas quem sou eu pra reparar? Também sou gordinha, né?
--Ô, Aline, se liga meu! Quem te garante que isso não é fake? Pode muito bem ser um velho coroco ou mesmo uma mina doida querendo te sacanear! -- advertiu
--Ah, mas não é! Quando a gente conversa as respectivas webcams estão ligadas e eu o vejo muito bem! -- sorriu -- Ele é exatamente como aparece nas fotos!
--Mas que... -- a loura achava aquela situação absurda -- Aline, quem te garante que o cara não é casado, pai ou então um tarado assassino desses aí? E nos Estados Unidos tem muito psicopata!
--Não seja preconceituosa! E eu sei que ele não é nada disso! -- ralhou -- Além do mais ele é brasileiro! -- abriu outro sorriso bobo -- Seu nome é Ricardo... Ricardão!
--Humpf! -- cruzou os braços -- E esse maluco aí faz o que? Deve ser como a maioria dos brasileiros no exterior, que saem daqui pra tentar a vida lá fora cheios das ilusões e terminam fritando bolinho, lavando privada, cuidando de filho dos outros e passeando com cachorro!
--Que nada! Ele é dono do próprio negócio! -- falou animada -- Tem um restaurante muito do bem sucedido de comida brasileira em Miami!
--Só acredito vendo! -- fez cara de descrença -- E como pode ser esse um namoro desse aí? Vocês nem se conhecem, não conversam, não têm uma experiência juntos...
--Claro que a gente tem! -- protestou -- Eu não disse que a gente conversa todas as noites?!
--Mas isso não quer dizer nada, criatura! Você só sabe dele aquilo que ele quer que você saiba! E ele também só sabe de você o que é do seu interesse!
--Ah, Camille, não bota areia! -- reclamou
--Não tô botando areia, tô te falando uma real! -- retrucou -- Eu, hein, namoro de internet! E não dá nem pra rolar uma intimidade, coisa sem graça!
--Quem disse? -- cruzou os braços desaforada -- A gente já fez amor e foi o máximo!
--Como é?? -- debruçou-se sobre a mesa -- Como é que pode, Aline??
--A gente marcou direitinho, ele pegou o laptop, se hospedou num motel e preparou tudo. Ligamos as webcams, conversamos, tiramos a roupa e...
--Ele meteu o pinto no buraco do CD, você sentou no pen drive e beijou o monitor! -- a loura complementou -- Que noite, viu? Ô louco! -- revirou os olhos
--Ah, amiga, vamos mudar de assunto! -- falou chateada -- Você não entende, não adianta explicar!
--Não mesmo! Esse negócio de sacanagem virtual não é comigo! -- afirmou convicta -- Não tô namorando, mas prefiro a solidão a me esfregar na CPU e passar o mouse no meu próprio peito!
--Hum, deixa eu te falar! -- mudou de assunto para não discutir com a loura -- Vi que sua amiga Fátima novamente arrepiou nos Jogos Paraolímpicos! -- sorriu -- Nove medalhas de ouro não é coisa pra qualquer uma! Abalou a China! Ela e o terremoto! -- fez uma piadinha infame
--Não foi à toa que os chineses renovaram o contrato! Agora ela só volta em junho... -- falou sentindo saudades
--E a professora Letícia? Nunca mais te vi com ela...
--Ah, é o trabalho! A gente mal tem tempo de se coçar, aí já viu! -- deu o assunto por encerrado -- Eu tô é contando nos dedos pro ano terminar e eu tirar minhas férias. Sabia que vamos conhecer tudo de Goiás? -- sorriu empolgada
--Mas você gostou mesmo de lá! -- comentou impressionada
--Eu adoro Goiás! E mamãe também. E ainda tem a família de Tatiana e a maravilhosa festa de réveillon em Goiânia... Meu, é muito da hora! -- falava -- E nesse ano nós vamos pra lá de carro! -- comentou orgulhosa -- EU vou dirigindo! -- bateu no peito
--Poderosa, hein? -- Aline brincou com a amiga -- Você tá com tudo, Camille! Só te falta um amor!
--Não... -- respondeu reticente -- Quem sabe numa outra vida? -- sorriu -- "Ou quando Fátima voltar, se voltar...” -- pensou
--Mas olha só quem vem lá! -- Aline segurou a mão de Camille e indicou com o queixo -- Letícia! Não morre tão cedo!
--Letícia?! -- olhou para trás com os olhos arregalados e viu a professora -- E não é? -- constatou -- "De novo? Mas é muito azar!” -- pensou contrariada
--Ei! Letícia! -- chamou -- Vem cá, amiga!! -- Aline gesticulava animada
--Pára com isso! -- a loura reclamou -- Deixa ela quieta, vai que tá esperando alguém? -- olhava para a engenheira com a cara feia
--Se tiver, quando o cara chegar ela fica com ele! -- continuou acenando -- Simples assim!
--Humpf! -- fez um bico -- "Simples assim... Você não sabe de nada, sua trouxa!” -- pensou
A professora viu que alguém lhe acenava e reconheceu as duas amigas. “Ora, ora...” -- sorriu -- "Depois de tanto tempo...” -- pensou e acenou de volta -- Tô chegando! -- respondeu
Aline puxou uma cadeira para perto da mesa delas e saudou a física cheia de simpatia. -- Oi, Letícia! -- cumprimentou -- Há quanto tempo!
--Pois é! -- sorriu para as duas e se sentou -- Como vão? Muitas novidades? -- cruzou as pernas
--Tudo bem, graças a Deus. -- Camille respondeu sem delongas
--Ah, eu tô namorando um cara dos Estados Unidos! -- Aline foi logo dizendo -- Tô amando que é uma coisa louca! -- sorria
--Que bom! -- sorriu também -- Ele tá morando aqui há pouco tempo ou há muitos anos? -- perguntou curiosa
--Ele não mora aqui, embora seja brasileiro. Mora lá mesmo e ainda não nos encontramos. -- explicou animada -- Um dia, quem sabe?
--Ah... -- respondeu desanimada -- Namoro pela internet... -- deduziu -- Isso é muito moderno pra mim! Sou das antigas, gosto mesmo é de um olho no olho e de uma coisa na coisa! -- sorriu
--Aline agora partiu pro virtual e é só bit que voa! -- a loura revirou os olhos
--Ah, pára! Vocês não entendem, mas esse amor promete!
--E você, Camille? -- a professora olhou para a loura -- Também está amando?
--Tô! Eu tô à mando de minha chefe, que me delega um monte de trabalho! -- respondeu sem vontade de manter aquela conversa -- E tá ótimo assim!
--Eu também tenho trabalhado bastante, sem tempo de me envolver com ninguém. -- começou a falar -- E depois do caso desse psicopata místico a polícia vive me solicitando, a imprensa... agora meu tempo é ainda mais reduzido! -- tentava impressionar a ex namorada -- Hoje foi que dei o grito de liberdade e vim aqui pra espairecer. Mesmo que sozinha. -- sorriu -- Por sorte encontrei vocês!
--Hum. -- a loura se limitou a dizer
--Ih, eu tô sabendo! -- Aline interferiu -- Já tem gente chamando você de CSI! -- deu um tapinha no ombro da física -- Conta pra gente, e o assédio, hein? Os homens devem cair em cima de você! -- piscou
--Nem tanto! -- sorriu fazendo um charme -- Tô ficando famosa mas continuo a mesma pessoa reservada de sempre.
--Reservada, você? -- Camille riu -- Essa foi boa! -- olhou para o relógio -- Bem, amanhã é dia de trabalho e tá na minha hora! -- sorriu para as duas
--Mas já? -- Aline perguntou surpresa
--Por que a pressa? -- Letícia perguntou nitidamente decepcionada
--Eu moro no Engenho gente, é longe daqui. Vocês num instante chegam em casa. -- levantou-se e deu beijos de comadre na amiga -- Até a próxima!
--Se cuida, hein? E não some!
--Você também, se cuida. -- deu beijos de comadre na ex -- Tchau, Letícia, tudo de bom.
--Tchau, Camille. -- respondeu um pouco chateada -- Tudo de bom pra você também.
A loura deixou na mesa o dinheiro correspondente a seus gastos e foi embora. Letícia ficou olhando para ela com saudades.
--Ela não precisava ter ido tão cedo! -- Aline comentou -- Ainda mais agora que tá de carro!
--Ah, é? -- perguntou surpresa olhando para a engenheira -- Camille agora tem carro?
--Tem, e todo personalizado! A prima dela deu de presente e caprichou fazendo um veículo sob medida, sabe como é? Muito maneiro!
--Prima?! -- perguntou desconfiada
--Seyyed, esqueceu? -- respondeu naturalmente -- Eu hein, você é desligada! -- sorriu
--Ah, Seyyed... -- repetiu aquele nome com má vontade -- "Não me diga que Camille agora resolveu ter um caso com aquela mecânica safada? Sempre achei que naquela bananeira ia dar cacho!” -- pensou contrariada
--Mas, vai, me conta melhor! -- pediu com interesse -- Como tá sendo pra você essa coisa de ficar famosa? Conheceu algum artista? -- olhava para a física aguardando uma resposta
--Bem, eu já conheci vários artistas, mas durante minhas viagens de avião e não por causa do que acontece hoje. Mas, me responda, o que quer saber ao certo? -- tentava entender Aline
A jovem começou a falar mas Letícia não prestava atenção. Ficou reparando nela e pensando em possibilidades. "Será que essa garota me dá mole?” -- estava intrigada -- "Gostar da coisa ela gosta, tanto que se deixava ch*par por Flávia e sua ventosa!” -- concluiu -- "Ah, mas é melhor não! Mulher bissexual é muito maluca! Vai que ela faz igual aquela outra em BH que gritou no meu ouvido, quase me deixou surda e ainda fez a polícia vir me interrogar no hotel?” -- lembrou-se com desgosto -- "Ah, não! Tô fora!”
***
Tatiana mostrava para Suzana o que já havia conseguido descobrir.
--Olha isso delegada! -- mexia no laptop -- Depois da entrevista que fiz com aquela senhora que Juliana me indicou, já consegui mapear quase mil sites que buscam aliciar os jovens pro mal através de mentiras e estratégias ardilosas.
--Mas é muita pouca vergonha nesse mundo! -- a delegada olhava atentamente
--Deixa eu te falar, não pense que todos os sites se usam de abordagens tão sutis! Há aqueles que mostram o que pretendem na cara de pau!
--Isso me revolta! -- protestou -- Em nome da tal da liberdade de expressão, pode-se jogar toda sorte de pouca vergonha na internet e fica por isso mesmo!
--Pois é! A sociedade precisa discutir se censurar certas coisas, ao invés de um retrocesso, não seria uma forma de combater diversos tipos de crimes! -- concordou -- Mas o que eu queria mesmo era mapear os locais onde as cerimônias do mal acontecem! Queria imagens, registros inquestionáveis! -- olhou para Suzana -- Queria localizar os feiticeiros malditos que matam pessoas pra fazer seus rituais macabros, só que ainda não consegui!
--A gente vai descobrir! Mas vai ser difícil porque essas coisas são extremamente camufladas. -- passou a mão nos cabelos -- Veja o caso de Lucas, por exemplo! Ele percebeu que o localizei e fugiu antes que eu chegasse. Parece que adivinhou que eu me aproximava! Deve ter ficado um feiticeiro ainda ‘melhor’. -- fez aspas com os dedos
--Claro que deve estar! Teve tempo ocioso na cadeia pra treinar e pensar no que não presta, não é verdade? -- voltou a mexer no computador -- Mas deixa eu te perguntar, o que Brito já descobriu? Infelizmente agora já são cinco mulheres estupradas e mortas pelo psicopata místico. -- abriu um arquivo -- Olha só essa matéria aqui! Vê se a foto não chega a ser desrespeitosa com as pobres vítimas? -- olhou para a delegada -- A imprensa faz umas coisas que chega dói!
--Humpf! -- fez cara feia -- Não gosto nem de olhar! -- olhou para a jovem -- Respondendo a sua pergunta, depois que Romeu localizou o traficante que trouxe as peças pro Brasil, Brito foi imprensar o cara e recebeu dele uma lista com os nomes de sete clientes. -- explicava -- Já abordou dois deles e viu que não são os homens que procuramos.
--Isso eu não entendi, uai! Então o traficante não sabe pra quem vendeu aquelas peças? Não acredito! -- esperava que a morena a esclarecesse
--O bandido não vendeu tudo pra um mesmo cliente e isso foi um complicador pras investigações. Os dois homens que Brito interrogou compraram uma peça cada um, mas ambos revenderam pra outras pessoas.
--E essas outras pessoas tinham seus nomes na lista que o traficante entregou?
--Um deles não. -- respondeu prontamente -- Pedi pra Macumba investigar esse aí e ele descobriu que o homem morreu no começo do ano passado.
--Então a peça dele foi vendida a alguém. -- concluiu
--Não foi vendida, foi roubada. O tal homem era solteiro, sem filhos ou quaisquer parentes. A polícia fechou o apartamento dele mas alguém o arrombou e levou quase tudo que tinha lá. -- pausou -- Isso é outra coisa que dificulta as investigações.
--Delegada, você não conseguiria fazer aquilo que Lucas fez quando o entrevistamos? Pegar um objeto e localizar pessoas através dele?
--Pra saber fazer isso, se você não tem esse dom naturalmente, é preciso muito estudo e prática, coisa que ainda não tenho. Não a esse ponto. -- esclarecia -- Evoluí muito na evocação, no desdobramento e na manipulação de meu ectoplasma, porém em coisas desse tipo que você fala, sou tão inexperiente quanto antes.
A jornalista balançou a cabeça em entendimento. -- Seja como for, estou confiante de que nós vamos chegar lá.
--Mas e quanto a você? Seus chefes não cobram pela matéria bombástica sobre as práticas do mal? -- perguntou curiosa -- Ainda não chegou aonde queria.
--Eu já expliquei a eles que preciso de mais tempo. -- sorriu -- Mas não sou boba! Aplaquei a sede editorial daquele povo com uma boa matéria sobre tráfico de obras de arte e técnicas de investigação quanto a autenticidade de tais obras. -- explicava -- Eles acharam que o momento foi oportuno, por causa do psicopata místico, e ainda contei com a preciosa ajuda da professora Letícia Avelar na parte das técnicas de investigação.
--Seu senso de oportunidade me deixa boba! -- riu brevemente
***
“Juliana e Irina se entregavam a um gostoso amasso em um sala vazia, iluminadas por uma luz prateada que vinha do exterior.
--Não, isso não pode ser! -- a japonesa afastou-se da outra repentinamente -- Isso não tá certo! -- sentia-se trêmula
--E desde quando você virou uma beata que só faz o que é certo? -- abraçou-a por trás e permaneceu beijando o pescoço e a orelha da enfermeira -- Essa não é você! -- sussurrava
Juliana fechou os olhos perdendo-se em sensações deliciosas mas logo se recompôs novamente e se desvencilhou da loura. -- Não me conhece a ponto de saber quem sou eu! -- argumentou
--Não? -- perguntou insinuante -- Sei que você é quente, forte pra desejar e fraca pra resistir ao desejo... -- envolveu o pescoço da outra com os braços -- Sei que gosta do poder e que não é a primeira vez que o experimenta... -- beijou-a
--Pare com isso! -- afastou-se desesperada -- Mal nos conhecemos, não me venha com essa...
--Sei mais de você do que possa imaginar. -- sorriu com malícia -- Não combina contigo essa postura de boazinha, que vem adotando nos últimos anos. -- caminhava como felina em direção a japonesa -- Você é como eu! Nunca está satisfeita...
--Eu não sou como você! -- afastou-se mais uma vez -- Não sou! -- sentia-se angustiada
--A quem pretende enganar? -- parou diante de outra e cruzou os braços -- Você não tá satisfeita! -- falava de um jeito hipnótico -- Quer mais, muito mais... -- olhou nos olhos da enfermeira -- E me quer!
Juliana sentiu um arrepio pelo corpo inteiro.”
--Ah!!! -- acordou sobressaltada
--O que foi? O que houve? -- Suzana deu um salto e ficou de guarda -- Quem foi? Cadê?? -- olhava rapidamente para todos os lados
--Calma, Su. -- passou a mão nos cabelos -- É que... tive um pesadelo! -- respirou fundo
--Ai, que susto! -- sentou-se do lado da amante -- Você tá toda suada! -- reparava no rosto dela -- Vamos pro banheiro pra lavar esse rosto, vem? -- levantou-se e estendeu a mão
--Tá! -- segurou a mão da delegada e se levantou. Foram para o banheiro
--E o que acontecia nesse pesadelo? -- a morena perguntou preocupada -- Você raramente passa por isso!
--Era aquela advogada que quer me subornar. -- lavava o rosto
--Fazendo o que? -- estava curiosa
--Ah, ela... -- pegou a toalha para se secar -- Não lembro direito... -- mentiu -- "Se eu disser a verdade ela vai ficar triste e cismada, tenho certeza.” -- pensou
--Cuidado com essa mulher! -- advertiu -- Peça a Deus pra ela sair do seu caminho! Essa mulher não é boa coisa! -- fez cara feia -- Especialmente porque ainda fica te dando cantadinha barata! -- deu um soco na mão -- E a droga é que ela só aparece quando eu não tô!
--Eu vou pedir a Deus mesmo! -- respirou fundo -- Amor, eu preciso de uns minutinhos aqui no banheiro, tá? -- pediu
--Tudo bem! -- beijou-a -- Te espero na cama! -- foi para o quarto
A japonesa fechou os olhos e depois abriu, mirando-se no espelho. “E o pior foi que eu acordei toda molhada...” -- pensou -- "Por que essa mulher mexe tanto comigo?” -- questionava-se -- "Ai, meu Deus, afasta ela de mim, por favor!” -- pediu
***
“Ao som de uma orquestra, Lady rodopiava no cume de uma montanha. Usava um vestido preto de mangas compridas, meias pretas e um avental branco. Na cabeça, um chapéu de pastorinha.
--The hills are alive, with the sound of music. Ai, ai, ai, ai… -- ela cantava com voz de soprano -- With songs they have, -- sorria embevecida -- sung for a thousand years… -- e tome de rodopio
--The hills fill my heart, with the sound of music. -- Priscila aparece vestida de militar alemã -- My heart wants to sing, every song it hears… -- cantava com voz de tenor -- Eita! -- tossiu -- Fazer voz grossa dá um troço na garganta! -- reclamou
--Oh, capitã Priscila! -- Lady segurou as duas mãos da amiga -- Não era bem assim que acontecia no filme, mas eu tô adorando tê-la aqui nesse alto de montanha pra cantar comigo! -- lançou-lhe um olhar apaixonado -- Que bom que veio pro meu cume!
--Lady, sua rebelde! -- a morena respondeu fazendo um charme -- Só teu cume interessa!
--Nossa, que coisa indecente! -- soltou as mãos da dentista e rodopiou
--Chega de tanto rodopio, Lady! -- agarrou a engenheira pelo braço -- Eu vim pra dançar contigo! -- puxou-a para junto de si com força e olhou em seus olhos -- Você sapateia? -- perguntou insinuante
--Amiga, eu tô querendo sapatear contigo faz tempo! -- respondeu quase babando
--Então se prepara, Lady, porque vai ser agora! -- preparou-se para beijá-la”
--Mas será possível? -- Priscila empurrou a engenheira com os ombros -- Que vexame, hein, Lady? -- reclamava olhando para a outra -- Segunda vez que você dorme e vem caindo pra cima de mim com esse bico medonho!
--Mas o que...? -- ela olhava ao redor abobalhada -- Onde estamos? Que montanha é essa aqui? Cadê a neve? Que calor é esse que faz em Salzburg?
--Salzburg?! -- perguntou sem entender -- Deixa de ser doida, mulher, a gente tá é no Cantagalo! -- respondeu impaciente -- Que vexame, viu? Priscilinha amarradona vendo as crianças de Isa dançando balé e você aí dormindo e roncando que nem uma porca!
--Mamãe domiu! -- a menina falou achando graça
“Oh, meu Pai, por que eu nunca sei where am I?” -- pensou constrangida
***
Lady voltava do quarto após colocar a filha para dormir.
--Como o dia de hoje foi cheio de novidades e brincadeiras, -- a engenheira dizia -- Priscilinha caiu na cama e dormiu em dois tempos! -- sentou-se na poltrona
--Eu adorei esse evento de final que ano que Isa inventou com os jovens de suas escolas de balé. -- a dentista respondeu -- Muito bonitinho de se ver e as crianças tiveram muitas brincadeiras e coisas construtivas pra se entreter!
--Cheia dos patrocínios como Isa está, ela consegue inventar qualquer coisa! -- comentou em tom desdenhoso
--Ela não tá cheia dos patrocínios, Lady! -- retrucou chateada -- De mais a mais, ralou e rala muito pra gerir aquele projeto. Tanto que raramente ela participa de algum espetáculo, ao contrário de como fazia antigamente.
--Calma, amiga, eu não tô diminuindo o trabalho ou o mérito dela... -- desculpou-se -- É que eu tô meio amarga mesmo... -- abaixou a cabeça
A dentista olhou para a outra com pena. -- Por causa da demissão, não é? -- perguntou com jeito
--É... -- respondeu desanimada -- Eu trabalhei tanto, me dediquei tanto como trainee e veja no que deu... a empresa preferiu aqueles três que não fizeram metade do que eu fiz!
A morena se levantou e foi se sentar ao lado da amiga. -- A vida por muitas vezes tem uns lances injustos mas nem sempre é assim! Nem sempre vai ser assim! -- tentava consolá-la -- Você terá seu valor reconhecido! Não se entregue desse jeito! -- falava com carinho -- Logo vai arrumar um novo emprego.
--O que vai ser de minha filha? -- perguntou preocupada -- Você vai pro Canadá, Lila vai pro Everest, como vou manter a menina estando desempregada?
--Você não vai ficar desempregada a vida toda, Lady! -- segurou as mãos dela -- E pode contar comigo! Vou dar uma força pra vocês, eu sempre dei quando precisou, não foi? -- buscou tranqüilizá-la -- Além do mais sabe que tem amigas aqui!
--Ah, Priscila, não venha me dizer essas coisas! -- levantou-se rapidamente -- Você tem mais é que cuidar da sua vida, fazer sua viagem e me deixar pra lá! Eu sei que sou uma vergonha, uma idiota louca sem noção da realidade! -- dizia com tristeza -- Meu ex chefe pensava assim, você pensa assim, todo mundo pensa assim! -- sentia vontade de chorar -- Não duvido que no futuro minha própria filha tenha vergonha de mim!
--Não diga isso!! -- levantou-se também e parou diante dela -- E Priscilinha não tem e nem terá motivos pra se envergonhar de você! Não pode pensar assim!
--Você me acha uma ridícula, que eu sei! Não seja fingida falando coisa bonita pra me consolar! -- começou a chorar
--Eu não tô sendo fingida! -- protestou
--Você tem nojo de mim! -- chorava -- Eu sei que tem!
--Não sabe o que penso de você, não sabe o que sinto por você! -- falava com firmeza olhando nos olhos da outra
--E o que é que você sente por mim, afinal? -- perguntou falando mais alto
A morena puxou Lady pela cintura e, sem pensar, beijou-a apaixonadamente.
“Nossa, que coisa boa!” -- a engenheira pensou e envolveu o pescoço da morena com os braços
https://www.youtube.com/watch?v=P748ipOBo7c
Sem interromper o beijo as duas foram seguindo para o quarto da dentista. Perdidas em sensações desconhecidas para ambas, parecia que algo mais que prazer finalmente era capaz de tocar suas almas.
“Olha você tem todas as coisas,
Que eu dia eu sonhei pra mim...”
Deitaram-se na cama e começaram a se despir sem pressa. A ansiedade do primeiro momento pouco a pouco dava lugar a um inexplicável desejo de se conhecer melhor.
“A cabeça cheia de problemas,
Não me importo, eu gosto mesmo assim...”
--Priscila, eu... -- tentava articular as palavras enquanto a morena seguia beijando seu pescoço
--Não fala nada... -- olhou para a outra e pediu com delicadeza -- Não tenta entender...
Lady puxou a dentista para um beijo carinhoso.
“Tem os olhos cheios de esperança,
De uma cor que mais ninguém possui...”
A morena se arriscou a experimentar a deliciosa sensação de se perder em carícias nos seios da mulher amada.
--Ah... -- Lady fechou os olhos e gem*u
“Me traz meu passado e as lembranças,
Coisas que eu quis ser e não fui...”
Priscila dava leves mordidinhas na barriga da amante enquanto acariciava os seios dela.
--Você é tão bonita e eu... tenho essa barriguinha sem graça... -- comentou envergonhada
--Isso não tem importância! -- respondeu olhando para a outra
“Olha, você vive tão distante,
Muito além do que eu posso ter...”
A engenheira inverteu as posições e ficou sobre Priscila capturando seus lábios. Deixou suas mãos percorrerem o corpo da morena que acariciava suas costas.
Da mesma forma que outra havia feito, seguiu beijando o corpo da amante e se deleitou nos seios dela.
--Ah... ah... -- a morena fechou os olhos e segurou uma das mãos de Lady
“Eu que sempre fui tão inconstante,
Te juro, meu amor,
Agora é pra valer...”
Enchendo-se de coragem, Lady seguiu sua exploração chegando até o sex* da dentista. Titubeante quanto ao que fazer, deixou que os instintos a guiassem e se entregou ainda mais ao que sentia.
--Ah!! -- Priscila gem*u surpresa e satisfeita
“Olha, vem comigo aonde eu for,
Seja minha amada, minha amante e meu amor...”
Antes de atingir o orgasmo, a morena interrompeu a parceira puxando-a gentilmente pelos cabelos e seguiu lambendo seu corpo lentamente, desde o queixo até o seios, quando novamente mudou as posições. Sem receios ou pudores, mergulhou entre as pernas da engenheira e provou do que ainda lhe era uma novidade.
“Vem seguir comigo o meu caminho,
E viver a vida só de amor...”
Sentindo que Lady beirava o clímax, interrompeu o que fazia e deitou-se sobre ela, roçando seu sex* contra o da amante. Colaram testa com testa e seguraram as mãos, entrelaçando os dedos e gem*ndo juntas com sofreguidão.
“Vem seguir comigo o meu caminho,
E viver a vida só de amor...”
Olha – na voz de Ivete Sangalo [a]
Chegaram ao clímax e se abraçaram com carinho e cumplicidade, desejando que aquele momento não tivesse fim.
“Nossa, que coisa linda!” -- Lady pensou embevecida
Enquanto isso, Lila chegava em casa após mais uma palestra. Estava radiante pois precisava de pouco para completar a verba necessária para a viagem.
“Mas, bá, tá tudo tão quieto!” -- pensou desconfiada
Foi até o quarto de Lady e viu que Priscilinha dormia como um anjo. Já o quarto de Priscila estava com a porta fechada.
“Hum...” -- coçou o queixo -- "Acho que as duas desobstruíram as perseguidas...” -- concluiu maldosamente
06:00h. 09 de janeiro de 2009, Aeroporto Internacional de Guarulhos, São Paulo
Ricardo pisava em solo brasileiro depois de mais de 20 anos de ausência. Trazia consigo apenas uma mochila nas costas e a mala grande que ganhou de um homem enquanto esteve no albergue de Nova Orleans.
Com o agravamento da crise que estourou em 2008 não conseguiu sequer pensar em permanecer nos Estados Unidos e cuidou de seu retorno ao Brasil o mais rápido possível. Contava com o apoio do pai para se reerguer e acreditava que, como filho único, herdaria todo patrimônio que Mariano tivesse.
Caminhava admirado com as mudanças que já podia constatar apenas no aeroporto e só então se deu conta de que teria dificuldades em chegar no endereço para onde deveria ir. Havia procurado pelos parentes na internet e encontrou Rodrigo e Vanda no Orkut, sabendo através deles que Mariano e Mariângela haviam se mudado de São Paulo e vendido os respectivos imóveis. Tentando obter mais detalhes, esperou em vão que os primos o ajudassem, mas nenhum dos dois continuou respondendo a suas postagens.
“Vou arriscar e ver se ainda me lembro de como chegar na casa de tia Rosa.” -- pensava enquanto puxava a mala -- "Vou pegando ônibus, perguntando aqui e ali e vai dar certo, that’s for sure!”
Após vários ônibus e muitas perguntas, Ricardo finalmente chegava em seu destino. Eram quase oito da noite. Cansado e suarento aproximou-se do portão e tocou a campanhia. Um homem desconfiado abriu a janela e foi logo dizendo com má vontade: -- Tem pão duro, não! Chispa daqui!
“Yes!!” -- pensou animado -- Tio Alípio? -- reconheceu -- Sou eu, Ricardinho! Filho de seu sobrinho Mariano! -- identificou-se
--Ricardinho?! -- perguntou descrente -- Meu sobrinho neto viciado que saiu vendendo tudo? Duvido muito, rapaz! -- ameaçou fechar a janela
Apesar do constrangimento em ouvir aquilo, Ricardo ainda argumentou: -- Take it easy, tio, sou eu sim! Cheguei dos Estados Unidos hoje e não tenho onde ficar. Rodrigo e Vanda me disseram que meu pai e tia Mari não moram mais na cidade e eu fiquei sem saber o que fazer!
“Mas será?” -- Alípio perguntou para si mesmo
Curioso, fechou a janela e foi abrir a porta. Caminhou até o portão e olhou fixamente para o rosto do outro homem.
--Sou eu mesmo, tio! Não é golpe! Please, believe me! -- tentava convencê-lo da verdade
--Hum... Deve ser você mesmo! Tem a mesma cara de bobo de quando era novo! Só me inventou essa de enfiar inglês onde não deve! -- olhou para o outro de cima a baixo -- Mas vou te contar, minha Nossa Senhora de Achiropita, você tá um caco, viu? -- fez cara feia
--Well... -- respondeu sem graça -- Tô com quarenta anos, tio! -- sorriu encabulado
--Quarenta anos de burrice! -- abriu o portão -- Pode dormir conosco essa noite, mas não quero saber de maconha ou outras porcarias do tipo aqui dentro!
--Eu tô limpo há muitos anos! -- dizia a verdade -- Aprendi a duras penas a me livrar das drogas!
--Humpf! -- fez sinal para que entrasse -- Mas que mala horrorosa! -- olhou para a bagagem dele -- De onde tirou esse lixo? Nos Estados Unidos as malas são assim? Parece até que saiu do bucho de algum boi!
--Foi presente de um amigo. -- respondeu constrangido -- "Oh, gosh, tio Alípio tá mais resmungão e grosso do que nunca!” -- pensou chateado -- O senhor sabe do meu pai? -- perguntou enquanto seguiam para dentro de casa
--Vamos entrar. Rosa e eu vamos contar o que sabemos e amanhã você chispa daqui! -- falava com mau humor
“Que recepção calorosa!” -- pensou revirando os olhos
Fim do capítulo
Músicas do Capítulo:
Lady canta em sonho:
The Sound of the Music. Intérpretes: Julie Andrews & Christopher Plummer. Compositores: Richard Rodgers / Oscar Hammerstein II. In: The Sound of the Music. Intérpretes: Julie Andrews & Christopher Plummer. Broadway Musical, 1965.
[a] Olha. Intérprete: Ivete Sangalo. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos. In: Elas Cantam Roberto Carlos. Intérprete: Ivete Sangalo. Sony & BMG Intertainment, 2009. 2 CDs, CD2, faixa 9 (4min34)
Comentar este capítulo:
Samirao
Em: 01/04/2024
Maya continua encantando!
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Que bom!
[Faça o login para poder comentar]
Femines666
Em: 14/03/2023
Esse psicopata é tão revoltante! Crimes sexuais me enojam e não tem justificativa! Mas você dá um mistério no seriado é bem legal. Em contrapartida Olga é de uma riqueza que me encanta! Ela é toda trabalhada num Sagrado Feminino.
Seyyrd e Isa no seu dilema. Aí se fosse eu.... Lady mata com a relação com a Priscila! kkkkk Adoro as partes espirituais
Resposta do autor:
Olá querida!
Eu também me revolto muito com crimes sexuais! Mas eu gosto da coisa do mistério.
Olga é uma pessoa muito rica!
kkkkk Queria viver o dilema de Seyyed, né? rs
Lady não é mole e deixa Priscila doida! kkk
Também adoro trazer as partes espirituais!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 15/09/2022
Cami fala umas.... juntou com a amiga despirocada, hehe Ladye mata!!! Haha
E o mistério continua muito bom. Mas não gostei da Ju tá se balançando pela outra . Filho do padrasto voltou? Que merda!
PRI E LADY AEEE DESOBSTRUÍRAM AS PERSEGUIDAS! hahahaha
Resposta do autor:
kkkkkkkk Você quis, está aí: Lady e Priscila e o amor acontecendo. Mas, aguarde que há muito pela frente.
Camille fala umas coisas que são muito únicas. E Lady tem suas pérolas. rs
O mistério continua! E Juliana deixou de ser vigilante e... vamos ver o que aconteceu.
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 15/09/2022
Cara, eu me emocionei muito com o lance da Joice. É lindo demais!!
Às vezes tenho vontade de meter a porrada no padrasto! Hehe
Esse lance da Cami, comigo é depois chegar a ruiva e pego ela de jeito na oficina puta merda! SEM mexe com todos os SEMtidos!@
Resposta do autor:
Joice sofreu mas a arte torna as coisas mais leves quando se permite.
Mariano tem seus momentos de homem das cavernas, realmente.
Adorei isso dos SEMtidos! Você tem uma criatividade que eu gostaria de ter conhecido quando escrevia o conto!
Obrigada por tudo!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 15/09/2022
Psicopata místico tô amando mais esse mistério. Você é demais mete coisas super da hora super atuais na história FODA!! #CAIPIRATHEBEST
Deu peninha Você com essa motoqueira. Sei bem como é isso. Aí depois, vem esse encontro da Lady com a Tati.hehaha
Resposta do autor:
Obrigada por, dentre outras coisas, me brindar até com um hashtag! rs
É, menina... quem nunca amargou uma desilusão?
Lady e sua narrativa paralela impressionando a opinião da amiga! Acontece!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Samira Haddad
Em: 25/04/2020
Gabs, habibi não vai te ensinar então eu digo. Ao final desse quadro onde a gente escreve o comentário tem um treco escrito Classificação e uma caixa do lado escrito nenhum. Você clica nesse nenhum e abre uma lista de opções de nota de 1 a 10. Escolhe 10 e constela! Uauaua
Resposta do autor:
Ai, ai.
[Faça o login para poder comentar]
Gabi2020
Em: 24/04/2020
Olá Solzinha!
Ainda me espanta ler sobre crimes sexuais, é de arrepiar. Gostei muito da carta que Olga leu, vale uma grande reflexão.
Muita peninha da caipira, vontade de levar pra casa e guardar.
“--Você fala como se fosse uma capial que anda por aí com calça pescando siri e uma palha no canto da boca! -- protestou -- Não há nada de errado com você! É uma mulher apresentável, simpática e que simplesmente não gosta de frescura! Se Samira não soube dar valor a isso, deixe ela pra lá! – Camille eu te venero!
Samira era mimadinha demais!
Toda vez que Lady fala desse divórcio dou risada... Kkkkkkkkk....
Priscilossexual?! Senhorrrrrrr
E lá vem o Mariano de novo com o machismo descabido dele.
Os verdes nos azuis... Sempre sai uma faiquinha quando se encontram.
Lady finalmenteeeeeeee.... Saiu o tão esperado beijo!! Que fofinha a primeira vez delas.
Resposta do autor:
Gabinha!
Crimes sexuais me revoltam como nem sei explicar!Melhor nem correr nesse assunto porque já vai me dando um sentimento péssimo.
Quanto ao outro comentário esqueci de concordar contigo: Letícia é tarada mesmo! kk
E sobre esta Samira do conto, sem comentários! kkk
Mariano dá umas ratas, não é? Mas Olga ama ainda assim. Porque amor é desse jeito mesmo. Só que ela sabe amar sem ser benevolente demais.
Eu sei que esses "verdes e azuis" é que enfeitiçam o povo! kkk
Esta foi talvez a primeira vez mais aguardada: Lady e Priscila.
Beijos!
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
Solitudine Em: 10/04/2024 Autora da história
Olá querida!
Convocou??? Quando eu penso que já vi de toda coisa! kkkk