Vários tipos de formatações mentais nos são diariamente impostas, sendo que a idéia de felicidade exibida pela mídia talvez seja uma das mais perigosas. Essa tal felicidade se conquista com a vitória absoluta e manifesta-se como uma espécie de sucesso que não consegue extravasar a esfera do que é material. De acordo com essa idéia, todos deveríamos tentar nos enquadrar em um modelo que se baseia somente em ilusões. Uma pessoa não precisa se superar em todos os aspectos para que possa viver bem e ser feliz; todos temos limitações, as quais serão transcendidas no seu devido momento. Nem todos conseguem ser alegres e extrovertidos, nem todos se encaixam nos padrões estéticos de seu tempo. Não existe um modelo de comportamento que deve ser seguido sem restrições, o que deveria existir é um necessário respeito a cada individualidade. O importante é aprender a olhar para dentro, se amar e respeitar, entrar em sintonia com a Onipresença do Universo e, conseqüentemente, ver a luz de Deus pulsando no coração de cada ser humano. Saber amar, saber ser amada e ter um propósito que não enxergue somente o seu reflexo no espelho, mas que compreenda que felicidade e amor são tesouros que crescem apenas se partilhados. Nós criamos nossas necessidades, nós determinamos o que nos é o bastante. Nós decidimos se seremos felizes ou não.
“Nada é bastante para quem considera pouco o que é suficiente."1
Sexta Temporada - FELICIDADE I
19:00h. 07 de janeiro de 2008, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro
Sabrina chegava para visitar as amigas. Lady abriu a porta para ela.
--Oi, amiga! -- a engenheira cumprimentou com beijos de comadre -- Vem, entra! -- a escaladora entrou -- E aí? Tudo pronto pro Everest? -- sorria com cara de cansaço
--Nem te conto, as coisas estão a mil por hora! -- sorriu e se calou prestando atenção na expressão do rosto de Lady -- Será que estou sendo inconveniente com essa visita? -- perguntou receosa -- Você parece tão cansada...
--Claro que não me incomoda! Fico feliz que tenha vindo, ainda mais que Priscila e Lila não estão em casa. -- respondeu com sinceridade -- É que eu tô cansada e ontem Priscilinha passou mal... -- apontou o sofá -- Vem, vamos sentar! -- convidou e sentaram-se
--Ah, meu Deus, e o que ela teve? -- a escaladora perguntou preocupada
--Febre, vômito e diarréia. Priscila e eu corremos pro posto de saúde mais próximo e foi um estresse danado lá. -- balançou a cabeça -- Mas graças a Deus agora ela tá dormindo, tranquila, sem febre, já tomou a mamadeira e passa bem.
--E o médico disse que era o que?
--Virose, né? -- fez um bico -- Você sabe que hoje em dia todos os problemas do mundo têm três causas básicas: globalização, El Niño e virose! -- afirmou enfática
--Eu acrescentaria uma quarta: terrorismo! -- Sabrina concordou
--Ah, é. -- revirou os olhos -- Mas essa coisa é mais pro pessoal do hemisfério norte! Pra nós aqui ainda não dá Ibope!
--Será que eu não deveria ir embora pra não acordar a criança? -- perguntou meio sem graça
--Não... -- sorriu -- Eu preparei o quarto bem gostosinho pra ela, tá entrando um ventinho bom pela casa, Priscilinha tá realmente cansada... Ela não vai acordar. Ainda mais que estamos falando baixo.
Sabrina ficou pensando em como Lady estava diferente daquela garota que vivia fazendo escândalos por conta de ex namorados. -- E Priscila e Lila, por onde andam?
--Priscila... Não sei porque ainda não chegou, tô estranhando isso! -- suspirou -- "Na certa, deve estar por aí se esbaldando com algum vagabundo...” -- pensou chateada -- Lila anda fazendo palestras no meio da high society pra conseguir a grana pra viajar contigo. Hoje foi pra um clube de ricaços de Niterói. A vida dela agora é viver contando lorota pra esse povo pra ver se junta o tanto de dinheiro que você disse que ela tinha que ter!
--Lila tem só até esse mês pra conseguir o dinheiro. -- riu brevemente -- Sabia que me dá até medo ter aquela maluca no grupo?
--Pois saiba que ela anda treinando também! Faz ginástica e sobe e desce as escadarias desse prédio carregando nas costas uma mochila de 90 litros cheia de pedras dentro dela.
--Eu hein! -- riu de novo -- E você? Está trabalhando? Como vai a vida? -- olhava atentamente para a outra
--No começo de dezembro arrumei um emprego temporário numa loja de roupas. -- passou a mão nos cabelos -- Sábado foi meu último dia lá. -- pausou -- Eu tô estudando pra concurso público e na quarta tenho uma entrevista que faz parte do processo seletivo de uma siderúrgica.
--Vai dar tudo certo, Lady! Priscila me disse que você era boa aluna... -- balançou a cabeça -- Há de conseguir algo a sua altura! -- desejou com sinceridade
--Deus te ouça! -- abraçou-se com o travesseiro
--Não fique tão desestimulada! É normal que a gente sofra um pouco no começo. Quando assumi a carreira de escaladora minha vida virou pelo avesso e hoje, no entanto, -- sorriu -- tudo é bem diferente pra mim! Mal posso crer que estou tão perto de realizar meu maior sonho!
--Ah, Sabrina, você é bem resolvida, desencanada, esperta, interessante... Não é o meu caso! -- olhava para um ponto perdido -- Minha alegria é minha filha e graças a ela eu não me sinto tão inútil e tão mal... -- suspirou -- E além de minhas dificuldades profissionais eu não tava preparada pra me divorciar...
--Divorciar?! -- perguntou surpresa -- Eu nem sabia que tinha se casado!
--Nem eu! Casei sem perceber e no melhor da coisa, veio a separação.
--Casou sem perceber?! -- a escaladora tinha pontos de interrogação na cabeça
--Ai, amiga, eu vou desabafar contigo porque tô precisada, viu? -- olhou para Sabrina -- Do contrário, eu enlouqueço de vez!
--Então conta, que eu tô curiosa! -- sentou-se mais perto de Lady
--Eu tinha um namorado chamado Príncipe Charles, o pai de Priscilinha. Tava tudo pronto pra gente casar e ir pra Indonésia. Mas aí aconteceu que fiquei grávida!
--E o safado não quis assumir e deu pra trás! -- concluiu
--Isso! -- pausou por uns instantes -- Busquei apoio na minha família mas só encontrei desprezo e rejeição!
--Mas uma reação dessas nos dias de hoje?! -- perguntou em choque
--Minha filha, não há crime pior pra uma mulher cometer do que ser mãe solteira! Você não sabe como as cabeças evoluíram pouco nesse sentido? Até a Suxa quando engravidou teve que ouvir desaforo de quem não tinha nada com a história!
--É, eu lembro disso! -- fez um bico
--Então, ensandecida e abandonada, pensei em fazer um aborto! E foi aí que aconteceu. -- lembrava -- Estava eu esperando em uma fria clínica abortiva escondida por essas ruelas do Rio de Janeiro, quando Priscila e Lila surgem pra me salvar daquela loucura! -- levantou-se gesticulando -- Priscila chegou poderosa, cheia dos argumentos e justificativas científicas, pra depois me convencer de vez com palavras carregadas de emoção! -- rodopiava pela sala -- Enquanto isso, Lila engabelava as atendentes com sua conversa mística. -- olhou para Sabrina -- Ao final daquilo tudo, aconteceu que Priscila e eu nos casamos sem perceber! E foi lindo!
--Como é?!! -- falou mais alto e logo se corrigiu -- Você e Priscila se casaram?? -- estava chocada -- E como assim sem perceber??
--Saímos de mãos dadas pelas ruas da cidade temendo nada e ninguém! -- gesticulava -- Eu, uma pobre e sonhadora parturiente desprezada pela sociedade e ela, uma poderosa dentista forjada no calor dos hospitais! -- sorria embevecida -- Coisa linda de se ver!
--Gente! -- estava pasma
--E foi um casamento bom, sabia? -- sentou-se novamente -- Priscila foi uma boa marida! Compreensiva, amiga, parceira...
--Mas... -- não conseguia acreditar -- gente, Priscila nunca me contou sobre essa relação de vocês! Tudo bem que não somos do tipo confidentes, mas... -- olhava atônita para Lady -- Eu tô boba! Nunca imaginei que Priscila fosse lésbica! Ela seria das últimas mulheres sobre quem eu pensaria isso!
--Mas essa coisa de ser lésbica é um troço enigmático, amiga! Se Lila não me conta eu tava até agora sem saber! -- deu um tapa na perna da outra
--O que?? -- não entendeu o comentário
--Priscila tem dificuldades pra lidar com a própria sexualidade. E mais um fogo que nada apaga. Meu problema com ela foi esse: infidelidade e fogo no rabo! -- pausou -- Ou melhor, fogo na passarinha dela!
--Ela te traía?
--Se me traía?! Háhá! Você não sabe da missa a metade! Não só me traía, como não aceitava traição! -- respondeu gesticulando -- Falou aqui, em alto e bom tom, que não queria saber de me ver namorando ninguém! Queria que eu fosse somente dela! Lila ouviu tudo e pode confirmar! -- afirmou convicta -- Mas enquanto isso, ela saía com um carinha! -- relembrava -- E debaixo das minhas barbas! -- passou a mão no rosto -- Que nem tenho, aliás!
--E você aceitava isso?? -- perguntou chocada -- "Humpf! E quem sou eu pra dizer isso? Eu saía com outras enquanto ainda estava com Patrícia!” -- pensou envergonhada
--Ah, minha filha, dei uma decisão nela. Eu virei e falei: ou ele ou eu!
--E aí?
--Deu eu! -- bateu no peito -- E vivemos uma fase maravilhosa! Cada coisa tão linda, tão romântica...
--Priscila, romântica?! -- perguntou descrente
--É uma faceta que ela não mostra pra qualquer uma, minha filha! -- respondeu orgulhosa -- Aposto que você nunca viu!
--Com certeza eu nunca vi a... -- riu brevemente -- faceta de Priscila! Mas continue, e aí?
--E aí que ela me deu o maior apoio na gravidez. O nome de Priscilinha não foi escolhido à toa! Foi minha homenagem e prova de amor! -- voltou a abraçar o travesseiro -- Sabia que foi ela quem fez meu parto, no meio de um engarrafamento medonho? -- lembrava -- E que coisa obstetra, viu? Ela me disse cada palavra meiga que eu fiquei até besta de amor!
--Eu é que tô besta com essa fofoca bombástica!
--Mas aí... Priscila não agüentou. -- suspirou -- Voltou pra vida bandida de sair com homens pela noite; esses vagabundos que têm por aí! -- falou com desprezo -- E quando novamente eu a chamei à decisão aí foi que o barraco desabou! Nessa que meu barco se perdeu...
--E veio a separação? -- concluiu
--Pois é... e tem sido difícil pra mim! Luto pra que Priscilinha não perceba que a família se desmoronou mas... Cedo ou tarde, ela vai entender! -- falou com tristeza
--Mas, deixa EU entender! Se vocês se separaram como conseguem conviver na mesma casa como se nada tivesse acontecido?
--Ah, minha filha, é uma coisa muito difícil! Todo dia é aquilo: nem um toque e eu querendo, dizer muito prazer. Nem um toque eu sonhando, sonhando com você! -- pausou -- Sonhando com ela, quero dizer!
--Olha, vou te contar! -- balançava a cabeça -- Nunca imaginei que Priscila fosse lésbica! -- estava pasma -- "E que fosse se envolver justo contigo, que ela detestava tanto!” -- pensou
--E eu nunca me imaginei lésbica! Doida que era atrás de um homem pra casar e veja no que deu! Bem que a cigana falou...
--É... A vida nos surpreende sempre... -- falou pensativa e depois olhou para o relógio -- Olha, já é tarde e é melhor eu ir. Você teve um dia pesado e eu não vim aqui pra atrapalhar. -- segurou as duas mãos de Lady -- Acredite que o melhor pras duas vai acontecer. Se for pra sua felicidade ficar com ela, você vai ficar e se não for, deixe passar e siga seu rumo. Mas não se prenda à tristeza porque isso amarra a vida da gente, eu bem sei!
--É, eu tenho orado muito pra ter forças.
--E continue assim. A oração e a meditação fazem muito bem. E você também precisa melhorar essa auto estima. Não se veja tão por baixo porque você é uma mulher bonita e muito interessante! -- tentava estimulá-la
“Hum... Algo me diz que estou sendo assediada!” -- pensou desconfiada
--Se Priscila e você realmente chegaram a um final, não fique se lamentando pelo que não deu certo. Olhe pro lado e certamente você encontrará alguém interessante querendo te conhecer melhor. -- sorria
“Hum... Sabrina só me dando cantada... Cheia de desejo me querendo...”
--Agora eu vou embora! -- preparou-se para se levantar mas uma dor a deteve -- Ai! -- gem*u levando uma das mãos a barriga
--O que foi? -- perguntou preocupada
--Nada de mais, é que... -- levantou um pouco a blusa -- desde dezembro voltei a sentir dores no local da cicatriz. -- mostrou para Lady -- Eu tive uns probleminhas quando escalei o K2 e acho que não devo ter me recuperado de todo. Já fui numa médica que me recomendaram mas acho que não resolveu. A pele parece que afinou de novo, sabe? Tinha até aberto um ferimento que cicatrizou por esses dias. -- colocou a mão da outra sobre a cicatriz -- Sente só!
E nesse momento Priscila chega em casa. Ainda do lado de fora derruba as chaves no chão. Quando se abaixou para pegá-las ouviu as vozes na sala.
--Nossa, que coisa grande! -- Lady falava -- E que pelezinha macia, delicada...
“Mas que conversa é essa?” -- a dentista pensou intrigada -- “Quem tá mostrando uma coisa grande pra Lady??”
--Eu tô sentindo que ela tá doida pra abrir de novo, Lady. -- Sabrina respondeu -- É só meter o dedo com mais força que já viu!
“O que??????” -- arregalou os olhos -- "Mas é muito descaramento!” -- pensou revoltada tentando abrir a porta -- "Escaladora indecente! Tarada!”
--Você precisa de alguém pra cuidar dela com mais cuidado, amiga!
--Agora eu já não sei a quem procurar. -- lamentou-se -- Você por acaso não...?
Enfurecida, Priscila entra em casa como um foguete. -- Mas que pouca vergonha é essa aqui?! -- fechou a porta de cara feia e encarou com as duas -- Que baixaria é essa??
Lady rapidamente retirou a mão da barriga da outra. -- Calma, Pri! Não é nada disso que você tá pensando! -- respondeu nervosamente
--Que negócio é esse, hein, Sabrina? -- pôs as mãos na cintura esperando explicação --Depois de fazer o que fez com Patrícia, você agora vem aqui pra tentar seduzir Lady??
“Ih, meu Deus! Então Lady não exagerou em nada do que falou!” -- pensou com surpresa -- Calma, eu só tava mostrando minha cicatriz pra ela!
--Mostrando a cicatriz? Então quer dizer que o negócio agora mudou de nome? -- respondeu descrente -- Que técnica de sedução mais chinfrim, hein, Sabrina? Francamente!
--Mas é verdade! Veja, eu posso te mostrar também! -- levantou-se e começou a mexer na blusa
--Não se atreva a me mostrar, sua safada! -- empurrou-a com força fazendo com que caísse sentada no sofá -- Deus me livre de ver essa sua... -- pensou no que dizer -- tal coisa grande que é só meter o dedo pra abrir! Eu hein, troço horrível!
“Priscila está com ciúmes!!” -- a engenheira pensou surpreendida -- "Então ainda resta alguma coisa do nosso amor!” -- concluiu ao se levantar -- Amiga, você está confundindo tudo! Aqui não aconteceu pouca vergonha alguma!
--Claro que não!!! -- Sabrina concordou enfática
--Embora eu sentisse que rolava um assédio! -- complementou
--Lady?! -- a escaladora se levantou revoltada
--Senta, safada! Fica quieta aí, bicha! -- Priscila empurrou a outra novamente e olhou para a engenheira com a cara feia -- E você devia ter vergonha, viu, Lady! Priscilinha passa mal ontem e você aí no desfrute com Sabrina no meio da sala!
--Olha só quem fala! -- ficou revoltada -- Eu fiquei aqui cuidando da menina o dia todo! Mas e quanto a você? Por onde andava que só chegou a essa hora? -- olhava desconfiada para a dentista -- Aposto que tava se esbaldando com esses vagabundos por aí!
--Gente, é melhor eu ir embora... -- Sabrina se levantava desconfiada
--Você fica aí! -- Lady a fez se sentar novamente
--Mas... -- a escaladora tentava protestar
--Tô esperando a explicação, dona Priscila! -- Lady cruzou os braços
--Eu tive um problema com o experimento e repeti tudo de novo. Saí do laboratório às seis e meia e peguei um baita engarrafamento!
--Sei! Sei que você gosta de ‘experimentar’ muito! Ou melhor, muitos! -- falou com deboche
--Olha, eu não tenho mais nada com esse papo... -- Sabrina levantou-se novamente
--Fica aí! -- Lady a empurrou de volta para o sofá -- Afinal de contas você é culpada por essa briga! Tava me dando cantada, agora assume teu desejo!
--Eu?! -- ficou indignada
--Acontece que eu tenho até as fotos do experimento aqui comigo e posso provar! De mais a mais ninguém nunca me viu de pouca vergonha nessa casa, especialmente depois que a menina nasceu! -- respondeu de cara feia
--Eu também não fico de pouca vergonha aqui! -- retrucou -- Ou em qualquer outro lugar! Sou mãe em tempo integral! Essa aqui, -- pôs as mãos sobre o próprio sex* -- morreu pro mundo!
--Ah, é? -- olhou para Lady indignada -- Pela conversa que ouvi antes de entrar em casa deu pra perceber como que essa aí, -- apontou -- morreu pro mundo! Já tava doida pra cuidar da... cicatriz de Sabrina!
--Que é isso, Priscila? -- a escaladora se levantou mais uma vez -- Eu vim visitar vocês, não sabia que Lady estava sozinha com a criança! -- argumentava
--Muito conveniente... -- a dentista olhou para a outra -- Quem não te conhece que te compre, Sabrina! -- empurrou-a para se sentar novamente
--Ela só me mostrava uma cicatriz que não quer fechar direito, viu, sua maldosa?
--Ah é! -- olhou para a engenheira -- Essa cicatriz aí passa por esse problema desde que Patrícia era viva! Eu lembro muito bem, viu? -- olhou para a escaladora -- Essa cicatriz sempre foi uma verdadeira boca faminta!
“Maldita hora em que eu vim pra cá!” -- Sabrina fez um bico e mais uma vez se levantou -- Priscila, eu não represento uma ameaça! Não pensei em me envolver com Lady, especialmente agora sabendo que foi tua mulher!
--Minha mulher???
--E exclusiva! -- Lady complementou com ênfase
-- Olha só gente, -- pôs as mãos nos ombros delas -- vocês tinham que resolver logo essa situação porque algo me diz que esse amor ainda não terminou! -- olhava para as duas
--O que?? -- a dentista perguntou em choque
--Vocês agora têm uma filha e deviam pensar nisso! -- a escaladora olhava para Priscila -- Chega de bagunça, criatura! É hora de ter responsabilidade e assumir essa mulher como sendo tua!
--Mas... -- olhou para Lady -- O que você andou dizendo pra ela?
--Tudo, Priscila! Eu desabafei, botei pra fora! Sabrina sabe que eu quis te dar um grande amor, mas você não se acostumou a vida de um lar! O que você quer é vadiar! Vai vadiar! -- virou-se costas e cruzou os braços
--E eu posso garantir que ela é fiel e nada aconteceu entre nós! Lady é samba de uma letra só, ela só pensa em você! -- a escaladora quase correu até a porta -- Quando Lila chegar relembrem a ela, por gentileza, que o prazo termina este mês! -- sorriu e abriu a porta -- Tchauzinho! -- foi embora com pressa
--Lady, o que é você tem na cabeça, hein? -- cruzou os braços -- Agora até Sabrina pensa que houve algo entre nós!
--Por que nega, hein, Priscila? -- deu um tapa no ombro da outra -- Diga que já não me quer! Negue, que me pertenceu! E eu mostro, a boca molhada e ainda marcada, por um beijo seu!
--Que beijo?? Eu nunca te beijei! -- protestou
--Porque você é uma covarde e isso seria demais pra sua auto imagem de mulher fatal! -- olhava nos olhos da morena -- Mas pensa que eu não sei que morre de vontade de fazer isso?
--Quem te disse que morro de vontade de te beijar? -- respondeu contrariada -- Você é muito sem noção, Lady!
--Ah, é? -- puxou a dentista para junto de si e ficaram com os rostos bastante próximos -- Diz que não sente nada! -- desafiou -- Diz! -- provocou
A dentista ficou atônita, sem saber o que fazer. Sentiu o coração acelerar e um nervosismo estranho. Aquela proximidade perturbadora com o corpo de Lady a deixava tensa. Nisso, um barulho interrompe a confusão estabelecida em sua mente.
--Gurias, só hoje consegui arrecadar... -- Lila estancou na porta da sala ao ver as duas daquele jeito -- Mas, bá, o que acontece aqui?? -- arregalou os olhos. Lady se afastou da dentista
--Eu mostrava a verdade nua e crua pra Priscila parar de negar a realidade! -- a engenheira afirmou resoluta olhando para a gaúcha -- E à propósito, Sabrina esteve aqui e pediu pra te lembrar que seu prazo termina este mês! -- olhou para a morena de soslaio -- Vou ficar com minha filha! -- foi para o quarto -- Essa sim é a única mulher que não tem medo de me amar!
A morena continuava bestificada.
--Priscila, pra quem diz que não é lésbica o quase beijo que vi aqui seria tri quente! -- parou diante da morena -- Lady estava prestes a se pendurar no teu bico e seria só pena que voa, daí!
--Lady enlouqueceu, foi isso que você viu! -- passou a mão nos cabelos desconcertada -- Eu cheguei aqui e a surpreendi no maior clima com Sabrina e no final... Ela me agarrou e queria me beijar! -- andava pela sala sem rumo -- Louca!
--E tu deves ter gostado da idéia porque não te notei nem um pouco interessada em detê-la! -- estudava as reações da outra
--Claro que não reagi! Eu fiquei foi em estado de choque! -- argumentou
--Sei... -- respondeu descrente -- Priscila, faz uma reflexão que teu caso é outro. Tu és lésbica e ainda não te conscientizou. Se precisar de um tratamento de chakras pra desobstruir a perseguida eu tenho como te ajudar! -- foi andando para o quarto -- Nada que uns setecentos e cinqüenta reais não resolvam.
--Humpf, pois sim! Desobstruir a perseguida, onde já se viu? -- fez um bico e se jogou sobre o sofá -- Eu não sou lésbica, nunca fui! De repente parece que todo mundo enlouqueceu! -- pensava em voz alta
Lembrou-se do modo como Lady a puxou e daquela situação inusitada em sua vida. Estava muito confusa.
-- Será? -- mil dúvidas passavam por sua cabeça
***
Priscila e Isabela passeavam pelo shopping de Botafogo.
--Então foi isso, Isa! Sabrina voltou a ser a tarada de outrora, Lady continua viajando na maionese e ela e Lila dizem coisas que me deixam confusa! -- Priscila relatava os fatos para a amiga -- O que você me diz? -- perguntou aflita
--Ai, Priscila... -- teve que rir -- Essa sua história com Lady virou uma novela mexicana das mais loucas!
--Ah, Isa, você só sabe zombar de mim quando eu desabafo! -- reclamou
--Não é isso! -- sorriu -- É que você e Lady são duas doidas e eu acho graça.
--Mas o que eu quero saber você não diz! -- olhou para a outra e falou mais baixo -- Acha que virei lésbica?
--Ninguém vira lésbica ou desvira, Pri! -- respondeu -- Eu já disse e repito: acho que com o tempo você e Lady se apaixonaram uma pela outra!
--Não pode ser! -- passou a mão nos cabelos -- Eu não sinto desejo por mulheres, continuo me sentindo atraída por homens, como posso ter me apaixonado por Lady?
--Não são as mulheres, querida. -- olhou para a morena -- Não é qualquer mulher. É uma só: Lady Dy da Silva!
--Mas... -- estava confusa -- não estaríamos confundindo homoafetividade com homossexualidade? Afinal de contas mulheres se amam, homens se amam e não precisa haver nada de sexual nisso!
--Priscila, responda com toda sinceridade: você me ama?
--Sim!
--Ama Tatiana, ama Patrícia?
--Sim! -- não sabia onde a ruiva queria chegar
--E já se sentiu atraída por alguma de nós?
--Claro que não! -- respondeu enfática
--ISSO é homoafetividade!
--Mas eu não me sinto atraída por Lady!
--Como não? Você disse que a proximidade dela contigo te deixou desnorteada.
--Porque eu não esperava por aquela atitude, foi isso!
--Hum. -- percebeu que passavam pelo corredor que dava acesso aos telefones públicos -- Vem comigo. -- entrou no corredor
--Aquela coisa de Lady vir se chegando e dizendo que eu queria beijá-la me deixou sem ação. Mas eu não queria! -- reclamava
Sem que esperasse, Isabela imprensou-a contra a parede e ficou bem próxima. Olhou em seus olhos e perguntou sensualmente: -- Quer me beijar?
--Eu, hein, Isa? -- desvencilhou-se dela revoltada -- O que deu em você? -- fez cara feia -- Tá ficando louca, é?
A bailarina sorriu. -- Só estava lhe provando que não foi por se surpreender com a atitude de Lady que você não reagiu. Também não esperava que eu fizesse isso e no entanto sua reação foi imediata e sincera.
--Ah, pára! -- saiu do corredor sendo seguida pela outra -- Você fazer esse teatro aqui e agora é bem diferente!
--Claro que é. Você não me quer, mas quer Lady.
--Mas... -- parou de andar e olhou para a ruiva -- Eu sequer consigo me imaginar... -- respirou fundo -- Amiga, eu não conseguiria fazer sex* com aquela louca, não tem nada a ver!
--Não mesmo? -- provocou
--Não... -- respondeu sem muita firmeza
--Priscila, se quer um conselho eu te dou um. -- pôs a mão no ombro da dentista -- Pense e reflita sobre seus sentimentos com muita sinceridade e depois tenha uma conversa séria com Lady. Você precisa resolver essa situação de uma vez por todas!
--Mas eu... Isa, Lady não é o tipo de pessoa com quem se consiga ter uma conversa séria! Ela vive num universo paralelo e entende tudo do jeito dela! Não dá pra rolar um diálogo maduro ali! Perto de Lady, Matrix é bobagem!
--Bem... se quer continuar a viver assim, é você quem sabe. -- voltou a andar -- Além do mais, lembre-se de que no ano vem você vai pro Canadá. Em um ano de ausência muita coisa pode acontecer aqui!
--E lá também, ué! -- respondeu de cara feia e seguiu atrás da amiga -- Mas, me diz. Você acha que sou lésbica? -- perguntou desconfiada
--Não perca seu tempo procurando um rótulo pra si mesma. -- olhou para a morena -- Desça do pedestal de gostosona inatingível no qual se colocou e tenha humildade pra assumir que mesmo com toda doideira e falta de noção dela, Lady te fez apaixonar. -- sorriu e olhou para frente -- E talvez tenha sido exatamente por isso. Você precisava de alguém que trouxesse um pouco de leveza a esse seu caráter sempre tão objetivo e firme.
“Será?” -- Priscila pensava -- Eu não consigo entender isso!
--Não precisa e nem deve! L’amour ne s’explique pas! (O amor não se explica!)
***
--A senhora tem certeza, doutora? -- o delegado perguntava sem entender
--Absoluta! -- Letícia respondeu convicta -- A peça que a polícia nos encomendou a análise trata-se de uma estátua do Deus Shiva, feita totalmente em bronze fundido por volta do século X, quando a Índia vivia sob a dinastia Chola. -- olhava para o homem -- Saliento que deve ser uma das poucas peças em bronze deste período fora da Índia.
--Então, em suma, é uma relíquia? -- Brito concluiu
--Certamente! -- olhou para o policial e depois para ambos, colocando seu relatório sobre a mesa do delegado -- Posso lhes garantir que nossas conclusões sobre a peça procedem e as análises foram feitas por três pesquisadoras distintas: minha melhor doutoranda, uma professora convidada do departamento e eu. A correlação entre nossos resultados foi de 98,75%, o que quer dizer que chegamos praticamente às mesmas conclusões. Trabalhamos com três técnicas distintas e complementares, usando os equipamentos mais modernos que temos à disposição. -- cruzou as pernas -- Particularmente estudei e trabalhei na Índia por um tempo e posso lhe dizer, sem falsa modéstia, que entendo das obras de arte daquele país, especialmente as que se vinculam à religiosidade oriental entre os séculos IX e XII.
--Mas, como pode isso? Da onde veio essa relíquia? -- o delegado tentava ver sentido naquela situação
--Olha, delegado, se me permite dar um pitaco em sua área de trabalho, eu diria que a peça deve ter sido traficada de algum museu indiano ou europeu e veio parar aqui no Brasil. -- pausou -- Aquisição de algum colecionador excêntrico... Não sei. -- especulou -- O que sei é que essa peça não fazia parte do acervo de nenhum museu brasileiro. Tenho um doutorando que além de físico é museólogo e pedi pra ele me fazer essa pesquisa. -- sorriu -- E meus orientandos atendem a meus pedidos com o máximo presteza e cuidado.
--Faz sentido... Mas, por que um colecionador excêntrico abriria mão de uma relíquia dessas pra deixá-la em um meio de mato ao lado de um cadáver?
--O que essa estátua poderia nos dizer, além do fato de trazer a imagem do tal deus Shiva? -- Brito perguntou enquanto conjectura possibilidades
--A estátua remete à dança de Shiva, que representa as múltiplas formas de manifestação de Brahman no Universo. Indo para um lado ainda mais místico, a dança representa os ciclos cósmicos de criação e destruição, vida e morte e a transitoriedade de todas as coisas.
--Você desconfia que o assassino tinha uma mensagem a nos dizer deixando aquela estátua na cena do crime? -- o delegado olhou para Brito
--Sim. -- endireitou a gola da camisa -- O psicopata que matou aquela moça queria nos deixar um recadinho e deve ser bem na linha que a professora nos falou. -- olhava para ambos -- Essa coisa de morte e destruição...
--Mas eu não entendo! -- o delegado se levantou enfurecido -- Ao contrário de suas suspeitas aquela moça não era lésbica e nem uma formadora de opinião. -- andava de um lado a outro -- Então não se enquadra no perfil que Lucas Damaso costumava a sacrificar. -- pausou -- Será um novo psicopata que apareceu? -- coçou a cabeça -- Ao mesmo tempo fica a pergunta: como explicar a presença de uma relíquia indiana em plena cena do crime? É muita sofisticação por parte de um criminoso!
--Se o senhor quiser, posso contatar dois amigos curadores que eu tenho. -- Letícia ofereceu -- Um deles é um indiano super bem relacionado e o outro é um holandês igualmente safo. Se essa peça veio de um museu indiano ou europeu eles terão como saber.
--Faça isso! -- olhou para ela -- Talvez tenhamos mais pistas com tais informações.
--Eu vou checar se houve alguma ocorrência relativa a roubo ou furto de uma estátua dessas em coleção de particulares aqui no Brasil. -- Brito falou -- Certamente não, mas é só pra descartar hipóteses!
--Muito bom! -- o delegado concordou -- Doutora Letícia, -- olhou para ela -- não vou mais tomar seu tempo. Sua ajuda foi importantíssima e peço que a senhora entre em contato com os tais curadores que nos comentou o mais rápido que puder.
--Farei isso com toda certeza. -- levantou-se -- E sempre que a polícia precisar, estaremos às ordens. -- olhou para Brito -- Obrigado por ter me recomendado. -- sorriu
--Foi idéia da Flávia. -- endireitou a gola da camisa -- Quando eu falei que precisávamos investigar aquela estátua, ela logo citou seu nome. -- sorriu
--Ah, sim, Flávia... -- respondeu tentando disfarçar a contrariedade -- Bem, foi um prazer. Passar bem! -- olhou para ambos e se despediu -- “Safada! Por que não meteu aquela boca de caçapa na estátua e ch*pou até descobrir do que se tratava? A ventosa dela não é tão boa?” -- fez um bico -- “Essa mulher vive de competir comigo mas numa hora dessas teve de me pedir arrego!” -- pensava ao sair da delegacia -- "Fisioterapeuta sem vergonha!”
***
Tatiana voltava dirigindo para Goiânia. Havia tido uma reunião em Brasília com os redatores chefes da revista Isso Vai!, na qual trabalhava como repórter especial, e estava feliz com o resultado.
Depois de muita insistência conseguiu convencê-los a investir na idéia de uma investigação jornalística sobre a magia negra e seus tentáculos. Também pretendia mostrar que muitos psicopatas cruéis ligavam-se à práticas do mal no mundo dos espíritos.
--Será uma empreitada pesada mas eu dou conta! -- falou para si mesma
A jovem também era repórter especial de um importante jornal brasiliense e não podia se queixar de seu momento profissional.
--Renan é que não vai gostar muito disso... -- riu -- Vem aí mais confusão!
Pensava em contar com a ajuda de Suzana e Romeu, bem como da extensa lista de contatos que ambos possuíam.
--Há muito trabalho pra fazer nesse mundo, muita coisa pra mudar... -- pensava em voz alta -- Eu quero fazer minha parte e sei que não tô sozinha nessa!
Valadão e Patrícia a acompanhavam em pensamento.
--Com certeza não está! -- ele afirmou sorrindo
--Não mesmo! -- Patrícia concordou
***
Isabela chegava em casa exausta.
--Amor? Já tá em casa? -- perguntou ao fechar a porta
--Aqui na cozinha! -- Seyyed preparava uma salada
--Oi! -- Isa foi até ela e a beijou -- Nossa, que salada bonita! -- olhou para a travessa
--E tem suco de melancia com água de coco. -- respondeu sorrindo -- Me dê dois segundos aqui e eu termino. -- beijou-a -- Então levo você pra tomar um banho gostoso e depois a gente vem comer.
--Hum, já vi que vou ter tratamento VIP. -- beijou o ombro da morena e sorriu abraçando-a pela cintura
--Claro! Comigo é assim! Mulher gostosa tem tratamento de rainha! -- beijou-a novamente
--Ah, é? -- arranhava o braço da outra suavemente -- Então quer dizer que basta você achar uma mulher gostosa que ela faz jus a esse tratamento de rainha? -- perguntou fazendo um dengo
--Se além de gostosa ela for inteligente, interessante, gatíssima, ruiva e bailarina... -- beijou-a -- aí eu não resisto...
A ruiva sorriu e mordeu o lábio inferior da amante.
***
--Então me conte, -- Ed estava nua e ajoelhada na altura dos quadris da bailarina sem se sentar sobre ela enquanto massageava suas costas -- como foi seu dia hoje, depois de mais uma escola inaugurada? -- sorria
Isa estava deitada de bruços, igualmente nua, com o rosto virado para o lado e apoiado sobre as mãos. -- Foi uma loucura e fiquei exausta! Só que nem acredito, Ed! -- sorriu -- Já estamos na quarta comunidade atendida pelo projeto! E temos mais um patrocinador. -- fechou os olhos -- Eu fico imensamente feliz em saber que mais jovens encontrarão na dança algo que os afaste da violência e das drogas. -- pausou -- É bom fazer parte disso. É como construir um sonho coletivo!
--E não é exatamente isso que você faz? -- massageava os ombros da ruiva -- Você tem sido a força a transformar inúmeros destinos sob as graças de Deus. -- falava com admiração e carinho
Isa ficou toda prosa. -- Se é o que sou, devo isso a você! -- sorriu novamente
--Não... ninguém poderia lhe dar o que já não tivesse no coração. -- continuava massageando
--Ai, que delícia... Ai... -- gem*u -- Que mãos maravilhosas...
--Ainda bem que os dedos que me faltam não diminuíram meu poder massageador. -- brincava -- Já pensou se eu fosse musicista? Em toda música haveria sempre duas notas a menos em cada trecho! -- riu brevemente
--Ai, Ed, pára com essas brincadeirinhas mórbidas! -- ralhou com ela e abriu os olhos
--Relaxa, minha gata... -- massageava um dos braços dela -- Eu tô legal com esse negócio. Já me aceitei na minha realidade atual: um talho na cara, dois dedos a menos e a perna meio defeituosa.
--Eu acho sua cicatriz super sexy. E não vejo problema algum no resto. -- Ed começou a dar atenção a seu outro braço -- Pra mim você continua um charme! -- pausou -- E não só pra mim, porque vejo mulheres ainda bastante interessadas em você! -- falou meio contrariada
--É, mas eu tenho dona. Já tô amarrada e casadíssima! -- voltou a massagear as costas da outra
--Acho bom! -- sorriu -- E a oficina nova? Como foi o seu dia? -- perguntou curiosa
--Meu dia foi puxado também, mas eu voltei pra casa animada! As obras estão quase terminando! Tô negociando a compra de dois equipamentos, que é o que posso ter por agora, e também tô comprando as ferramentas pequenas. Mariano e Julinho têm me ajudado na compra de material de apoio e outras miudezas. -- explicava -- A nova oficina será simples, mas com o tempo crescerá, você vai ver! -- seguia massageando ao longo da coluna da ruiva -- Começaremos com meus jovens especiais, dois mecânicos e Mariano. E tá muito bem assim!
--Ai, vai dar tudo certo, sim... Ah... -- gem*u -- Sabe que fiquei boba com a atitude de Juliana e Suzana? -- comentou -- Mas você também fez muito por elas... é bacana que tenham sido gratas.
--Eu não esperava nada delas. Não tinham obrigação de me ajudar. -- comprimia os quadris da outra -- Mas já que ajudaram, meu negócio é cair dentro!
--Ah... ai... -- gemia -- eu sei que seu negócio é cair dentro... -- respondeu com malícia
--Você, melhor que ninguém, devia mesmo saber disso! -- deslocou-se para a beirada da cama para massagear as pernas da bailarina -- Com tudo que eu me envolvo chego pegando firme! -- comprimiu uma das coxas dela
--Ai... -- gem*u -- Eu simplesmente ADORO sua pegada firme! -- sorriu -- Ah...
--Eu sei do que você gosta e como você gosta, minha delícia! -- seguia comprimindo as panturrilhas dela -- Afinal de contas, Isabela Guedes tá comigo desde o ano 2000! -- sorria
--Que sorte a minha... ai... -- sentia Seyyed massageando e beijando seus pés -- Você tá me deixando louca, sabia? Ah...
--O objetivo é esse... -- começou a beijar e morder as pernas da amante, ao mesmo tempo em que as apertava com força bem dosada
--Ai, amor... -- sorria com os olhos fechados
--Gostosa... -- continuava sua exploração -- eu quero você inteirinha...
--Você pode fazer o que quiser, amor... ai!! -- respirou fundo
--Mas eu sempre faço tudo que quero contigo! -- seguia beijando, mordendo e apertando as costas da ruiva -- Quem manda aqui sou eu! -- falou de um jeito possessivo para provocar
--Ah... -- sorriu e estremeceu de prazer ao sentir o peso da amante sobre si -- Ai, ai... -- as mãos e os lábios da mecânica pareciam incendiar seu corpo -- Ai, amor, me domina, vem... ai!! -- gemia
--Nossa, mas ela tá toda molhadinha... -- sussurrou no ouvido da bailarina quando sua mão invadiu o sex* da amante -- Adoro assim!
--Ai, ai!!! Ah!!! -- sentia a outra mão da morena apertando seu seio
Seyyed beijava e mordia pescoço, ombro e orelha da bailarina enquanto a penetrava com vigor e provocava um seio. Alternava-se entre movimentos rápidos e lentos, mas sempre com muita intensidade. Deixava propositadamente seu corpo pesar sobre ela para restringir sua liberdade, pois sabia que Isa gostava disso.
A ruiva mal conseguia pensar, apenas se deleitava naquele prazer que lhe dominava os sentidos. Segundos depois, gemia ainda mais alto chegando ao orgasmo.
Ed percebeu isso e continuou a penetrá-la e provocá-la, fazendo com que pela segunda vez sua mulher enlouquecesse de prazer.
--Ai, amor... ai... -- Isabela esparramou-se preguiçosamente na cama e respirou fundo -- Esse seu tratamento VIP é o máximo... -- sorriu satisfeita
--Mas ainda não acabou. -- virou-a de frente para si -- Eu só cuidei de suas costas. -- beijou-a -- Falta a parte da frente! -- mordeu o queixo dela
--Hum... -- arranhava lentamente o braço da morena -- Você é TUDO, Seyyed Khazni... -- beijou-a lenta e sensualmente
***
Seyyed acordou com a ruiva em seus braços. Estavam deitadas encaixadinhas como duas colheres. Levantou-se devagar para não acordá-la e foi ao banheiro. Segundos depois ouviu Isabela lhe chamar.
--Bom dia, linda! -- apareceu na porta -- O que foi? O que deseja? -- sorriu e sentou-se na beirada da cama
--Hoje não é dia de trabalho. -- ela respondeu preguiçosa -- Fica aqui na cama comigo... -- pediu toda dengosa
--E dá pra recusar um pedido desses? -- beijou-a e pegou um travesseiro sentando-se encostada na cabeceira -- Senta aqui, vem?
A bailarina sentou-se no colo da morena, de frente para ela, e ficou acariciando seus ombros. -- Acho que te arranhei um pouquinho demais... -- sorriu
--Sabe que eu gosto disso... -- acariciava uma das coxas da ruiva enquanto a outra mão repousava em sua cintura -- Sinal de que mesmo depois de tanto tempo eu não perdi o jeito com a minha gata! -- beijou-a sensualmente
--Hum... -- mordeu o lábio inferior da morena -- Você nunca vai perder o jeito comigo... -- sorriu -- Nós somos um caso antigo... -- beijou-a
--Ah, é? -- abraçou-a pela cintura e a beijou novamente
--É... -- mordeu o queixo da outra -- Eu até sonhei com isso... -- olhou para a morena e deslizou o dedo suavemente pela cicatriz no rosto dela. -- Foi um sonho tão diferente... Várias coisas misturadas, como se eu tivesse viajado entre passado, presente e futuro de modo caótico...
--Do que se lembra? -- continuava com suas carícias
--Começou com minha mãe. Sonhei que dois espíritos trevosos a mantinham prisioneira em uma espécie de campo de força, não sei explicar. E tinha mais um outro que sugava as energias dela e era uma coisa incrível! Parecia coisa de filme de ficção científica! -- mexia no cordão da mecânica -- Vovó e eu estávamos orando, aparecia sua mãe, Suzana... nossa, uma coisa rápida, confusa... Tanta gente...
--Deve ser exatamente isso o que está acontecendo com sua mãe. -- segurou o rosto da ruiva com as duas mãos -- Mas Deus vai nos ajudar e ela vai se libertar disso, tenha fé!
--Parece tão impossível de vê-la melhorar, Ed... E agora até vovó já anda passando mal do coração! Isso é de tristeza...
--É sim, mas vai dar certo! Pra todo mundo! -- beijou-a -- Tenha fé!
Isabela continuou: -- Depois sonhei com coisas que me pareciam estar no passado. -- Ed voltou a acariciar suas pernas -- Eu era uma grande artista, sabe? Metida e arrogante como só! E acho que não era brasileira. -- segurou uma das mãos da mecânica -- Aí aparecia você, mas não era você. Quer dizer, não essa aparência, mas eu sabia que era você. -- pausou -- Loucura, não?
--Não vejo nada louco nisso. -- respondeu enquanto entrelaçavam os dedos -- E o que eu fazia? -- perguntou curiosa
--Você era uma mulher poderosa, casada com um homem rico. Ambos iam me prestigiar nos meus shows. -- pausou -- Você me assediou e eu me interessei de cara.
--Sinal de que meu poder sedutor vem de longa data! -- brincou e sentiu um tapinha no ombro -- Ai! -- riu -- E eu tava casada só pra cumprir um papel social? Qual era a minha?
--Você tinha uma amante, sua safada! Era uma jovem escritora que se dizia celibatária.
--Como sabe disso?
--Eu vi vocês duas em uma situação que não deixava dúvidas. -- deu outro tapinha no ombro dela
--Ei, mas eu tô apanhando por causa de coisas de que nem me lembro? -- brincou
--Pra dizer a verdade, você tinha várias amantes ocasionais, mas a tal escritora era uma relação fixa.
--Hum... faz sentido! -- balançou a cabeça e levou mais um tapa no ombro -- Eita, que esse sonho tá acabando comigo! -- brincou
--Isso é pra você não se assanhar! -- deu mais outro tapa -- Pra não ter vontade de voltar com esses hábitos feios! -- mordeu o queixo dela -- Safada!
--Quer que eu não me assanhe e me morde assim? -- beijou-a -- Mas vai, conta o resto.
--Eu disputei você com ela e no final ganhei. Você largou seu marido e se preparou pra ir embora comigo, mas não pude encontrá-la no porto e perdemos o navio.
--Por que?? -- perguntou curiosa
--Porque na véspera da viagem apareceram uns homens que me pegaram, bateram e quebraram uma de minhas pernas. -- esclareceu -- Você não sabia disso e pensou que eu a tinha abandonado. Ficou desesperada!
--Nossa! -- arregalou os olhos -- Os caras fizeram isso a mando de meu marido?
--A mando de sua ex amante! Eu ouvia ela rindo da minha cara... -- mexia no pingente do cordão da morena -- Foi horrível...
--Mas e aí?
--Aí misturou tudo e eu me vi no futuro, dançando em um espetáculo maravilhoso! Não era aqui no Brasil... mas também não era na Europa. Quer dizer, eu acho!
--E eu? Cadê eu nessa conversa aí? -- beijou-a -- Não me diga que você tava junto com Divalina Lomba?
--Nada de Divalina! -- riu -- Eu via você na platéia babando por mim... -- beijou-a e sorriu
--Ah, mas que novidade! Minha vida é babar por essa ruiva deliciosa... -- puxou-a para um abraço forte -- É meu destino... -- beijou-a
--Promete que não vai me deixar? -- envolveu o pescoço dela com os braços -- Promete? -- parecia ter medo
--Nem penso em fazer isso! -- olhava nos olhos da outra -- Não confia em mim? Até hoje?
--Há momentos em que acho que seu coração não é meu de verdade... Me diz porque? -- havia uma certa aflição em seu olhar
Seyyed não esperava ouvir aquilo e não respondeu de pronto. -- Você consegue tudo que quer, Isa. Se acha que meu coração não é seu, faça ser! -- beijou-a com paixão
Ed e Isa se entregaram uma a outra mais uma vez.
***
Olga e Mariângela conversavam na casa da costureira.
--Tô quase acabando, Olga. -- sorriu para a cunhada -- Só falta mais um uniforme e ninguém na oficina de Seyyed ficará descamisado! -- desligou a máquina e se levantou
--Você foi mais rápida do que nunca! -- comentou admirada -- Com tanto trabalho nas escolas de balé e mais o seu boxe nem sei como deu conta em tão pouco tempo!
--Fala como se você também não fizesse um monte de coisas simultaneamente! Além do mais não são muitos uniformes. -- sentou-se na poltrona perto de Olga -- Tempo bem administrado rende!
--É verdade... -- cruzou as pernas -- E nós só temos a lhe agradecer pela sua boa vontade em cooperar com o projeto da oficina nova! -- sorriu
--Eu prometi a sua filha, não prometi? Palavra dada é sagrada!
--Khazni dizia algo parecido com isso. -- lembrou e ficou uns instantes calada até perguntar: -- Você já viu como as crianças que Flávia e Brito adotaram estão ainda mais lindinhas? Que coisinhas fofas!
--Ai, nem me fale! Celsinho e Clarinha são dois amores. -- sorriu -- E tão quietinhos, né? Parecem até dois bonequinhos!
--São crianças ainda muito tímidas e um pouco tristes, mas com os pais que ganharam, logo vão se soltar. Só Flávia vai deixá-los maluquinhos! -- riu
--Se vai! Alguém que fez Camille rir naquela época em que a menina só sabia reclamar e tinha ódio do mundo é capaz de tudo! -- lembrou
--Mari, falando em Camille... você sabe que Mariano viu o filho na TV, não sabe?
--Sei, ele me disse! Parece que meu sobrinho está passando por maus bocados nos Estados Unidos. -- olhou atentamente para Olga -- Mas, o que isso tem a ver com minha filha?
--Eu andei conversando com Mariano e ele está disposto a abrir mão da parte dele nesta casa. Por que não procura um advogado e coloca o nome de Camille na escritura?
A costureira ficou surpresa. -- Por que diz isso? Acha que Ricardinho pode voltar e querer que vendamos a casa?
--É melhor se prevenir. Se eu fosse você, veria isso o mais rápido. -- aconselhou
--Sabe, acho que você tem razão... -- concordou -- Vou conversar com Camille e pedir pra que ela corra atrás do inventário. Essa casa está no nome de papai e eu não entendo dessas coisas. -- balançava a cabeça -- Até a linha telefônica ainda tá no nome dele, aí é melhor aproveitar e passar tudo pro nome de Camille de uma vez.
--De minha parte, eu vou passar o apartamento em que Mariano e eu vivemos pro nome de Ricardinho. Seyyed e Renan concordaram. Ele já tem o de Silvio e ficará com mais esse patrimônio.
Balançou a cabeça concordando. -- Olga, deixa eu te fazer uma pergunta indiscreta. -- a loura falou cheia de cuidado -- Aquele imóvel de Ipanema está no nome de quem?
--De Isabela.
--Nossa! -- arregalou os olhos -- Sua filha tem coragem...
--Seyyed não tem apego por coisas materiais, Mari. -- afirmou orgulhosa -- Quando ela me contou que o apartamento era de Isabela eu fiquei muito preocupada. Conhecendo o modo de Ana pensar, tive medo que a menina se deixasse levar pela mãe e terminasse com minha filha por um motivo qualquer. -- lembrava -- Afinal de contas, já tinha em seu nome um excelente apartamento na zona sul... -- sorriu e balançou cabeça -- Mas eu me equivoquei absurdamente. Isabela amadureceu muito com o tempo, mudou bastante e eu tenho certeza de que ela ama Seyyed de verdade. -- olhou para a cunhada
--Isa ama sim. -- concordou -- Vira e mexe vejo rapazes e moças dando em cima dela mas parece que ela nem percebe. Absolutamente não se interessa. -- passou a mão no cabelo -- Já aquela tal de Letícia, não me convencia. -- afirmou enfática -- Muito simpática, muito engraçadinha, cheia de lesco lesco, mas aquilo ali não me enganava!
--Por que? -- perguntou achando graça
--Safada que era, Olga! -- respondeu enfática -- Eu reconheço uma pessoa sem vergonha a quilômetros de distância! Meu detector da sacanagem não falha! -- deu um tapa no sofá -- Tinha medo de que aquela professora magoasse minha menina. -- pausou -- Confesso que fiquei aliviada quando percebi que Camille terminou com ela!
--De fato, nunca mais vi aquela moça. -- comentou
--Camille encontrou com Fátima quando esteve em Salvador e eu desconfio que foi por causa disso que tudo deu pra trás! Ela voltou pro Rio abalada, procurou a professora e daí... danou-se!
--Mas Fátima não foi pra China? E tá lá até hoje, né?
--Ah, mas Fátima é o grande amor da vida de Camille. Mesmo assim não tem jeito...
“Ai, ai, Mari... Não é bem Fátima que é o grande amor de sua filha...” -- Olga pensou com um pouco de tristeza -- "Gostaria de lhe dizer isso, mas cabe a Camille fazê-lo.” -- suspirou -- Sabe, Mari, seu irmão sem dúvida é o grande amor da minha vida... -- falou -- E quanto a você? -- ficou olhando atentamente para o rosto da cunhada -- Quem foi seu grande amor? Será que me diria?
--Diria sim... -- pausou por uns segundos -- Foi um rapaz que tinha a minha idade e trabalhava como entregador de jornal. Benedito era o nome dele... -- mirou um ponto no infinito -- Ele era tão gentil, tão meigo... Um mulato muito bonitinho, forte, alto... -- suspirou -- Era semi analfabeto, mas sempre dava um jeito de ler os jornais. E era inteligente, sabe? Conseguia entender perfeitamente o que estava lendo, e quando achava que a notícia era tendenciosa ou mentirosa, ele dizia: “--Tudo conversa, só pra enganar nosso povo!” -- sorriu
--Presumo que tenha sido por se tratar de um mulato pobre e sem instrução que seu pai não deixou que você o namorasse. -- concluiu
--Sim... Antônio é que era o bom partido. E também descendia de italianos... -- olhou para Olga com tristeza
--E você tem idéia do paradeiro do Benedito?
--Morreu há anos atrás. Foi atropelado. Não se casou ou teve filhos.
--Sinto muito, querida! -- respondeu penalizada
--Eu rezo por ele. -- abaixou a cabeça -- Todos os dias.
--E por seu marido? Você reza? -- perguntou com delicadeza
--Não! -- respondeu com mágoa -- E nem nunca rezei. -- olhou para Olga -- Quem providenciou a missa de sétimo dia de Antônio foi Mariano. Eu não movi uma palha!
--Olha, Mari, -- segurou uma das mãos dela -- eu entendo que você tenha ficado frustrada com seu casamento e que as coisas que aconteceram em sua vida tenham feito com que você guardasse mágoas de seu marido, mas já é tempo de deixar passar. -- falava com delicadeza -- Antônio teve uma morte muito estúpida e vários motivos pra se arrepender e envergonhar. Você é uma pessoa maravilhosa, não vale a pena ficar colecionando mágoas e dores em seu coração.
--O que quer dizer?
--Perdoe-o! -- respondeu olhando nos olhos dela -- Vai fazer bem a você e a ele!
--Eu não sei se tenho essa grandeza toda! -- recolheu a mão que Olga segurava e se levantou rapidamente -- A lembrança dele... -- respirou fundo -- só me traz dor, revolta ou mágoa. Nada de bom! Além do mais não creio que ele sinta é nada por causa do que fez!
--Não diga isso... Ele está em situação muito pior que você! -- levantou-se também -- "O ofensor é sempre o mais infeliz.”2
--Não dá pra simplesmente apagar as coisas da memória, Olga! -- protestou -- Eu tive muitas experiências ruins com ele! -- falou com revolta
--Não me leve a mal, querida, mas “experiência não é o que acontece com a gente; é o que a gente faz com o que nos acontece.”3
--Fácil dizer!
--Eu sei que é! Eu sei... Mas sempre há uma decisão a ser tomada. -- parou diante dela e abriu a bolsa tirando de seu interior três folhas de papel dobradas -- Eu vim aqui hoje não somente para visitá-la, mas para lhe dar isso! -- entregou-lhe a carta -- Peço que leia com muita calma.
--O que é isso? -- perguntou curiosa segurando os papéis ainda dobrados
--Carta de Antônio. -- respondeu naturalmente
--O que??? -- arregalou os olhos
--Leia com calma, por favor. E pode ficar tranqüila, porque eu não li. -- beijou a testa dela -- Que Deus ajude pra que você um dia seja capaz de perdoá-lo e deixar as dores de lado. -- caminhou até a porta e a abriu -- E que você também nunca se esqueça de que “cada um é herdeiro de si mesmo.”4 E somente de si mesmo. -- foi embora
Mariângela permaneceu estática por alguns segundos até que teve coragem de abrir a carta e começar a ler. “Mas será isso verdade?” -- pensava em choque
“Querida Mari, depois de muitas tentativas finalmente agora consigo controlar um pouco mais as emoções e escrever pra você.” -- lia em voz alta -- "Não saberia explicar o quanto sofri ao me constatar solo, perso e morto. E a imensa vergonha que senti ao saber de tudo que aconteceu com você e nossa filha por causa de mim. Perdi tempo perseguindo aqueles maledettos bandidos e mais dores senti por conta disso. Mais tarde, quando a ira deu lugar à razão, pude refletir sobre minha vida e vi o impiastro de marido que sempre fui. Daquele momento em diante, não tem idéia de como o arrependimento passou a me torturar. E é incrível, porque você lembra das coisas e é toda hora, o tempo todo. Isso sim é estar no inferno!” -- parecia-lhe poder ouvir aquelas palavras saindo da boca do marido -- "Uma das coisas das quais mais me arrependo, foi de ter forçado você a fazer o que não queria naquela noite quando voltávamos da festa de meu primo Carlo Magno. Eu sabia que você não estava preparada, mas achava que eu tinha direitos e que minha vontade valia mais que a sua. Éramos noivos e eu julgava seus motivos tolos demais... Porém, ao perceber que chorava quando desceu do meu carro, percebi que tinha agido muito mal, só que não liguei, não quis dar importância. Hoje, ao me lembrar disso, uma dor imensa me invade a alma e eu sinto como se o peito se me rasgasse ao meio. Dor é a única sensação que conheço desde que meu corpo morreu.” -- parou de ler em estado de choque -- Meu Deus, mas eu nunca contei isso pra ninguém! -- olhou novamente para a carta e continuou a leitura -- "Sei que você vai bem, que ajuda os outros e faz tudo o que nunca teve oportunidade de fazer ao meu lado. Sei que Camille se tornou uma grande mulher, tem uma bela carreira pela frente e só me dá motivo de orgulho. Ela foi a única coisa boa que deixei no mundo e quero que ela saiba que eu a amo demais!” -- lágrimas rolavam-lhe pelo rosto -- "Quanto a você, pode acreditar que sempre te amei, mas não soube conquistá-la. Eu sabia que seu coração era de outro homem e nunca me conformei. Meu despeito fez de mim um mesquinho e nem parei pra pensar que se tivesse sido um bom marido talvez você pudesse ter me amado um dia...” -- estava muito emocionada -- "Eu sei de sua mágoa, posso senti-la e ela me faz sofrer di um male che fa solo male. Porém, não posso fazer nada mais que rogar por seu perdão pra essa alma infeliz e dizer que oro por vocês todos os dias. Fiquem com Deus!” -- terminou de ler
A costureira estava convencida de que aquela carta era mesmo de seu marido e por um momento lhe pareceu que ele não era o crápula que sempre julgou. A leitura apresentou-lhe um homem frágil e tomado por dores que pareciam bem maiores que as suas. Caminhou para perto da imagem da Virgem e se ajoelhou diante dela. Fechou os olhos e pediu com muita emoção e sinceridade à Sagrada Mãe, que Antônio e ela pudessem um dia encontrar a paz.
13:50h. 14 de fevereiro de 2008, Centro Empresarial Zavaros, 13º andar
Camille estava fora do Rio à serviço visitando um fornecedor. Uma entrega de produtos fora de especificação gerou um processo de análise de não conformidades e ela discordava de várias das conclusões apresentadas no relatório entregue por aquela empresa. Já havia enviado um e-mail explicando seu ponto de vista e propondo uma solução para o problema, porém não recebeu qualquer resposta. A nova gerente da loura havia pedido a ela que não saísse de lá sem um acordo e a engenheira sabia que seu sucesso naquela negociação seria mais um ponto ganho em suas metas do ano.
Após visitar as instalações do fornecedor e analisar alguns documentos, a loura esperava pelo superintendente na sala de visitantes há quase meia hora e a impaciência começava a tomar conta dela. Decidiu se levantar e beber uma água.
--Filtro vazio, que droga! -- reclamou sozinha e foi até a secretaria -- Com licença, -- falou com educação -- acabou a água do filtro e eu queria um copo...
--Acabou? -- a secretária levantou-se de um pulo -- Vou providenciar e trago um copo pra senhora!
--Eu espero aqui mesmo, se não se incomoda. À propósito, -- olhou rapidamente para a porta da sala do superintendente -- pela porta fechada deduzo que seu chefe ainda não terminou aquela tal reunião de cinco minutinhos que a senhora me comentou.
--É... não. -- respondeu meio sem graça -- Mas daqui a pouco ele vai lhe dar atenção. -- sorriu -- Com licença, vou providenciar sua água. -- saiu quase correndo
A loura se sentou e pôde perceber que o homem discutia com o funcionário que a acompanhou durante o dia. Pelo tom de voz que usava achou que se tratava de um sujeito bastante grosseiro.
“Que maravilha!” -- pensou revirando os olhos
Não entendia o que diziam ao certo mas logo notou que o motivo da briga era sua visita. Em um dado momento ouviu o funcionário dizer: -- A representante do cliente quer entender melhor sobre como você chegou àquelas conclusões no relatório!
--E por que você não explicou a ela? Tem que ser eu, caralh*?? -- o superintendente protestava -- Porr*! Que caralh*!!
--Foi você que escreveu! E além do mais, quem disse que eu entendi? Não saberia explicar seu raciocínio! -- argumentava -- E ela tem pontos de vista muito bem embasados!
--Ah, mas eu vou dizer o que pra essa mulher? Ela escreveu foi coisa naquele e-mail! -- pausou -- Caralh*! -- deu um soco na mesa
“O burro do superintendente tá com medo de falar comigo?!” -- não acreditava
A secretária chegou com uma taça e um guardanapo numa bandeja. -- Sua água! -- serviu cheia de mesuras
--Ô louco, água na taça? -- achou graça -- Obrigada! -- pegou o copo
--Por nada! -- ficou esperando com a bandeja na mão -- É que nosso chefe é um homem de muita classe e ele faz questão de uma elegância no trato social com as pessoas. -- respondeu orgulhosa
--Mas que merd*! Puta que pariu, caralh*!! -- o chefe gritou e socou a mesa -- Porr*!! É foda, viu? Caralh*!! Que caralh*!
--Meu... -- Camille devolveu o copo -- que homem de classe! -- respondeu ironicamente -- E que traquejo social!
--Porr*, caralh*!! -- gritou novamente
-- Puro requinte! -- complementou -- Um verdadeiro lord!
A secretária morreu de vergonha. -- Ah, -- sentou-se rapidamente largando a bandeja sobre a mesa -- é o estresse! -- justificou
--Eu não entendo! -- o funcionário estava intrigado -- Afinal de contas, como você chegou àquelas conclusões? Qual foi o método, o que você usou??
--O que eu usei?? Eu vou te dizer o que eu usei: -- pelo som podia-se perceber que se aproximava -- o cú! -- abriu a porta e deu de cara com Camille. Paralisou
--Chefe... -- o funcionário veio atrás e disse corado de vergonha -- essa é a representante do cliente: -- apresentou -- engenheira Camille Trevisani.
A loura se levantou.
--Ah!! -- abriu um sorriso forçado -- "O que ela faz aqui e não na sala de visitas?” -- pensou contrariado -- Hahahahahaha!!! -- deu uma gargalhada falsa -- Ai, engenheira Camille, não repare no nosso senso de humor! -- apertou a mão dela -- Aqui o clima é de descontração e alegria total! -- tentava disfarçar
--É, eu pude notar. -- novamente foi irônica
--Não repare no que ouviu, por favor... Espero que não me entenda mal... -- sorria encabulado
--De forma alguma! Cada um usa a parte do corpo que melhor lhe convém pra tomar suas decisões. Particularmente prefiro a cabeça, que é mais segura e eu posso mostrar em qualquer lugar. -- falava com naturalidade -- Eu gostaria que pudéssemos discutir um pouco sobre as conclusões de seu relatório porque elas não me pareceram muito coerentes. Agora que sei de onde saíram tudo se explica.
--Ah, eu... -- não sabia o que fazer e olhou para o funcionário -- Estêvão, prepare minha sala pra reunião, sim? Eu preciso... preciso... -- pensava no que dizer -- ir ao toalete! -- saiu quase correndo
--Por favor. -- Estêvão convidou Camille para entrar e ela assim o fez -- Peço que aguarde só um pouquinho mais enquanto eu preparo o projetor e o chefe foi... se recompor.
--Tudo bem! -- sentou-se contrariada
--Por favor, não repare no que ouviu. -- puxou o telão para baixo e começou a mexer no controle remoto do projetor -- É que tivemos de fazer uns cortes há pouco tempo... Decisões muito dolorosas pro chefe, sabe como é.
--Ah, mas eu tenho certeza que tomar qualquer decisão pra ele deve ser uma coisa um tanto quanto... dolorosa. -- abriu a pasta e tirou o laptop -- "Prefere usar o rabo a usar a cabeça, dá nisso!” -- pensou achando graça
Dez minutos haviam se passado e o homem não havia retornado à sala.
--Ô, Estevão, será que você poderia procurar por seu chefe? -- Camille pediu -- Eu tenho hora pra pegar o avião! -- reclamou controlando a fúria
--É, ele tá demorando mesmo... -- levantou-se -- Eu vou ver! -- saiu da sala
Segundos depois a secretária aparece na porta. -- Senhora Camille, o senhor Idiomar pediu mil desculpas, pois precisou se ausentar às pressas. No entanto, ele me pediu pra dizer que concorda com tudo que a senhora escreveu no seu e-mail, aceita sua proposta e espera que o prazo de dez dias úteis pro recebimento de uma nova remessa lhe seja satisfatório. Ele mandará um e-mail repetindo o que lhe digo agora e já me pediu pra providenciar a papelada referente ao novo fornecimento.
--Ô louco, mas mudou de opinião tão rápido? -- ficou pasma -- “Que fiofó sem personalidade!” -- pensou -- E Estevão, que fim levou?
--Estevão teve de resolver uns problemas e foi embora também. -- respondeu simplesmente
--Eu, hein? -- fechou o laptop e começou a guardar suas coisas -- Já que tudo se resolveu tão bem, eu já vou indo. -- levantou-se -- "Empresa maluca!” -- pensou
--Eu acompanho a senhora! -- ofereceu
Já no aeroporto, a loura recebeu uma ligação de sua gerente que andava curiosa para saber das novidades. Ficou surpresa com o modo como a loura resolveu tudo tão rápido e amigavelmente. Mais espantada ficou, quando ela disse que o fornecedor deveria ser desqualificado para futuras compras.
--Por que diz isso, Camille? -- perguntou sem entender -- Não temos muitos fornecedores desse tipo de produto no Brasil e eles até que foram bastante flexíveis nesse caso.
--Chefe, pode confiar. Meu relatório vai deixar tudo muito claro, mas posso lhe adiantar que a rastreabilidade dos documentos deles é quase nenhuma, o processo é conduzido de modo bastante amador e a equipe técnica é fraca!
--Que lástima! E eu aqui admirada com a presteza do atendimento. -- pausou -- Pelo menos o superintendente deve ser um cavalheiro, haja visto como lhe atendeu rapidamente!
--Humpf, cavalheiro! -- fez um bico -- Perdoe a liberdade, mas se eu ganhasse um real a cada vez que ele clamava por um caralh*, tinha ficado rica!
--O que?? -- perguntou horrorizada
--Além de ser o tipo do sujeito que usa o fiofó como ferramenta gerencial!
--Como é?! -- acabou achando graça
--Não acreditaria se eu lhe contasse... -- sorriu
***
Samira e a namorada haviam acabado de saborear um lanche. Estavam na casa da motociclista.
--O que tanto luta pra me dizer e não consegue, querida? -- perguntou com delicadeza -- O que lhe incomoda? -- olhava para ela
--Como sabe que tenho alguma coisa pra falar? -- Samira sorriu meio sem graça
--Você falou pouco, riu pouco e mal me olha nos olhos. Além do mais fica passando a mão na perna toda hora... -- sorriu -- Conheço você. Reparo muito em suas reações.
Samira se levantou e parou de costas para a outra mulher. -- Eu... eu acho que a gente devia terminar! -- não ouviu resposta e continuou -- Somos muitos diferentes, temos expectativas diferentes e... -- respirou fundo -- acho que não dá mais... -- virou-se de frente novamente
Solitudine sentiu uma dor imensa na alma enquanto o coração acelerava, mas não deixava seu desespero transparecer. Ao longo dos anos aprendeu a não demonstrar suas emoções quando não desejava fazê-lo. Permaneceu calada por alguns segundos até que perguntou: -- E o que aconteceu que te fez achar que é melhor terminar? Noto você estranha não é de hoje...
--Aconteceu tudo e nada ao mesmo tempo. Não tem uma razão específica! É o conjunto das coisas! -- falou como se estivesse nervosa -- Eu não sou boa com palavras, não sei dar explicações detalhadas como você gosta de fazer! Sabe disso! -- pausou -- Não dá mais pra mim!
--E terminamos simplesmente assim? -- não acreditava -- Depois de tudo que a gente viveu? -- olhava para a outra com decepção
--É... Simplesmente assim! -- estava tensa
Respirou fundo para ordenar os pensamentos e falou: -- Só me resta dizer que sinto muito por isso. -- levantou-se -- E que eu vou sentir imensamente a sua falta. -- percebeu que a motociclista derramou uma lágrima -- Pode ficar tranqüila que não vou ficar lhe perseguindo ou incomodando. -- pausou -- Se já conheceu alguém especial...
--Não há outra pessoa! -- afirmou convincentemente -- Não tô interessada em outro alguém, não tem nada a ver com isso. -- mordeu o lábio inferior -- É que... não dá mais pra mim!
Caminhou até a ex namorada e tocou o rosto dela com suavidade. -- Tudo bem... Eu vou embora, mas antes queria te dizer algumas coisas. Será que posso? -- percebeu que ela desejava ouvir -- Sei que somos muito diferentes e, sinceramente, não me surpreende que uma caipirona doida como eu não consiga atender suas expectativas... mas saiba que eu tentei. De verdade!
--Não dificulte as coisas pra mim... -- pediu chorando de forma contida
--Não tô fazendo isso. -- passou a mão nos cabelos da outra -- Só preciso que saiba que eu te amo de verdade! Não pelo que vejo, porque beleza física nunca foi o mais importante pra mim. Amo você pelo que é, pela beleza de sua alma, por sua intensidade. Você vinha sendo a tranqüilidade pra meu coração inquieto e o refúgio de meu espírito voluntarioso... -- sorriu com tristeza -- Sei que sou muito maluca, sei que sou uma pessoa esquisita, que trabalho mais do que você gostaria, que sou caipira demais da conta e não dou jeito naqueles ambientes sofisticados que você freqüenta. -- acariciava o rosto dela -- Sei que sua irmã nunca me aprovou e ela tem razão em alguns argumentos que lhe diz, mas tenha certeza de que você sempre me teve por inteira. Não faço nada pela metade, não sou mulher de enrolação e nunca tive medo de te amar sem reservas, mesmo sentindo que esse dia chegaria. -- beijou a testa dela -- Se posso te pedir alguma coisa, gostaria que não voltasse àquela rotina de antes. Você merece mais! -- foi até a cadeira, pegou a bolsa e caminhou até a sala
Ao abrir a porta percebeu que Samira a observava como se quisesse dizer alguma coisa, mas permaneceu quieta. Olhou para o rosto da motociclista como se quisesse guardá-la dentro de si e foi embora.
Descendo as escadas não pôde mais evitar que as lágrimas lhe escapassem. Um turbilhão de sentimentos revoltava-se violentamente em seu espírito. Queria muito que aquilo não estivesse acontecendo, mas não poderia reter em sua vida quem não desejasse nela permanecer. Espontaneamente lembrou de um monte de coisas e sentiu mais uma vez aquela tão desagradável sensação de rejeição. Já conseguia lidar melhor com esse sentimento, mas reconhecia que ainda era sua grande fragilidade. Sabia, no entanto, que aquela dor, mesmo que demorasse, também iria passar.
12:40h. 18 de março de 2008, Restaurante do Anexo da Câmara Federal, Brasília
Juliana terminava seu almoço sozinha. Suzana teve de resolver um problema e foi embora antes dela, após ter engolido a comida.
--Com licença. -- uma mulher abordou a japonesa, que levantou a cabeça para ver quem era -- Meu nome é Irina Meyer. Será que nós poderíamos conversar um pouco, deputada Juliana? -- perguntou sorridente
A mulher regulava uns trinta e poucos anos, era alta, magra, loura dos cabelos curtos e olhos castanhos. Seu olhar deixou a japonesa um pouco perturbada.
--É... claro. -- indicou a cadeira -- Sente-se, por favor. -- convidou -- Sobre o que se trata? -- perguntou curiosa
--Eu sou advogada e represento uma pessoa muito poderosa. -- deslizou dois cartões de apresentação em direção a Juliana -- É por isso que vim lhe procurar. -- sorriu -- A senhora interessou o meu cliente.
A japonesa viu que um dos cartões era de Irina e o outro do tal poderoso. -- E por que interessei a essa pessoa? -- perguntou desconfiada
--Porque em pouco tempo de mandato a senhora se tornou uma das deputadas mais populares desse país. -- cruzou as pernas -- Seu trabalho é muito bem conduzido e o modo apaixonado como defende suas propostas e aquilo que acredita são dignos de admiração.
--E...?
--Ele gostaria de patrocinar sua campanha para uma reeleição em 2010. -- sorriu
--E por que tanta generosidade? -- não entendia -- Não creio que alguém como seu cliente a fez sair de sua cidade pra vir me dizer isso pessoalmente apenas por razões ideológicas ou por pura simpatia.
--Sua fama de ir direto ao ponto não é desmerecida. -- debruçou-se sobre a mesa -- Sabe que nesse país as coisas acontecem com lentidão. O sistema é complexo demais, cheio de restrições e pode-se esperar muitos anos por um simples alvará ou por uma licença ambiental.
--E daí seu cliente considera que comprar deputados é um meio eficiente de acelerar as coisas. -- concluiu pela advogada
--O que é isso, deputada, por favor? -- fez um tipo -- Não veja a coisa por esse lado. -- ajeitou os cabelos -- A senhora está em um partido pequeno, com pouca verba... Não fosse o apoio dado pela repórter Tatiana Queiroz, que estava em alta em 2006, sua eleição teria sido impensável.
--Pois é. -- limpou os lábios com um guardanapo -- Se naquela época o fato do partido ser pequeno não me prejudicou, não será agora que vai me prejudicar. Como a senhora mesma disse no início da conversa, sou uma das deputadas mais populares desse país. -- sorriu com ironia
--Mas não confie nisso pra ser reeleita. Há muitas variáveis em jogo. -- olhava nos olhos da enfermeira
--Eu sei. -- pegou a bolsa e se preparou para se levantar -- Mas se não for reeleita ainda tenho um emprego no Silva Avelar me esperando.
--Não creio que depois de experimentar o poder e a política a senhora vai querer voltar a trabalhar como enfermeira em um hospital público! -- riu brevemente
--Não seria fácil mas... minha vida é um constate recomeço e a senhora não me conhece.
Quando ia se levantar, Irina pôs a mão sobre a sua. -- Não estamos falando de pouco dinheiro. -- encarou com a japonesa -- E não é só isso! A senhora pode ter muitas outras vantagens... -- sorriu
--Querida, -- recolheu a mão -- diga a seu cliente que ele terá de pensar em outra pessoa porque não estou à venda! -- levantou-se -- Sinto muito! -- sorriu sarcástica
--Creio que talvez minha abordagem a tenha ofendido. -- levantou-se também -- Mas não nos faltarão oportunidades para conversar melhor. Tem nossos cartões e sei como encontrá-la.
--Ah, com certeza a senhora deve saber de muita coisa aqui dentro! -- respondeu sarcasticamente -- "Isso aí deve saber até com quem o capeta perdeu a virgindade!” -- pensou
--Não é a primeira vez que vejo isso acontecer. -- respondeu um tanto desafiadora -- Com o tempo a senhora verá que não é diferente dos tantos outros que recebem um... suporte financeiro.
--"A natureza das Homens é a mesma. São os seus hábitos que os mantêm separados."5 -- respondeu e partiu
Ao sair do restaurante, jogou os dois cartões de apresentação no lixo.
***
Era noite e Juliana estava em casa terminando a redação de um projeto de lei que abordava a questão dos portadores de síndrome de Down e deficientes físicos de toda ordem. O trabalho versava sobre temas como acessibilidade urbana, ensino e inserção no mercado de trabalho. Para chegar ao texto que finalizava, contou com a ajuda de Flávia, Seyyed e Camille.
--Ai, agora falta pouco! -- falava consigo mesma -- Mas acho que preciso dar um tempo porque a cabeça tá cansada! -- fechou os olhos
--É isso aí! Agora é o meu momento de cuidar de você! -- Suzana falou
A japonesa abriu os olhos, sorriu e girou a cadeira para ficar de frente para a morena. Surpreendeu-se com a amante em seu mais fino jeito delegada de se vestir, segurando um imenso buquê de flores variadas. -- Ai, que lindo! E que mulher elegante é essa, gente?
--“Muitas flores pra você,” -- caminhou até ela e se ajoelhou -- "pela paz que você semeia, pelas verdades que você afirma, pela alegria que você transmite, pela justiça que você defende, pela beleza que só você tem!” -- recitava
--Nossa! -- recebeu as flores emocionada
--“Muitas flores pra você,” -- continuava recitando -- “pela doce simplicidade dos seus gestos, pelo seu abraço gostoso, pelo brilho do seu olhar, pela sabedoria que guia os seus atos, pelo amor que dedicas as pessoas, as plantas e aos animais!”
--Ai, meu nenenzinho... -- sorria
--“Muitas flores pra você, pela sua constante busca da felicidade e por encontrar nessa busca a própria felicidade.” -- sorria também -- "Pela sua sensibilidade, por tudo o que você é, essas flores são pra você!”
--E eu achei lindas!
--“Eu ainda acho que são poucas, pois você tem o dom de transformar a vida dos que se aproximam de você no mais lindo jardim!”6 -- beijou-a apaixonadamente
--Hum, eu amei isso!! -- beijou-a novamente -- E tudo que você me disse... lindo! -- sorria
--É meu jeito de demonstrar meu amor e admiração por você! -- respondeu sedutoramente
--Você se transformou em uma tremenda sedutora, Suzana Mello! -- beijou-a de novo e se levantou -- Agora eu vou cuidar das minhas flores e não demoro pra voltar aqui e deixar você me seduzir. -- foi para a cozinha
A morena se levantou com um sorriso nos lábios. “Ah, ela gostou!” -- pensou satisfeita -- "Mas ainda não acabou!”
Segundos depois a japonesa procurava por Suzana. -- Cadê minha nhambiquara safada? Por onde anda? -- circulava pela casa -- Meu nenenzinho! -- chamou
Sem que esperasse foi tomada por braços fortes em um poderoso abraço. -- Eu ainda não terminei de fazer minha declaração de amor! -- falava com o rosto bem próximo ao da amante
--Ai, e quem sou eu pra te interromper de novo, não é mesmo? -- envolveu o pescoço da morena com os braços -- "E que perfume maravilhoso é esse que ela tá usando?” -- sentia-se extasiada
Só então Juliana percebeu que a melodia charmosa de um tango invadia a sala.
https://www.youtube.com/watch?v=9gOhgl34FCk
--Ouve a música! -- Suzana sussurrou no ouvido da outra -- A letra é pra você!
--Gente! -- delirou quando a delegada curvou-a sobre seu corpo e apertou-lhe uma coxa
“Perseguiré...”
Começaram a dançar com os corpos colados e os rostos muito próximos. A morena guiava a parceira com segurança.
“Los rastros de este afán...”
A delegada ergueu a enfermeira pela cintura e deu um giro sem perder o contato visual com ela. Juliana segurava em seus ombros.
“Como busca el agua a la sed...”
Suzana colocou a amante novamente no chão e a abraçou com força.
“La estela de tu perfume...”
Dançava em passos sensuais que a japonesa acompanhava enfeitiçada. Os pés de ambas deslizavam sobre o chão.
“Perfume...”
As duas circulavam pela sala abraçadas e girando rapidamente.
“Me atravesó,
Tu suave vendaval...”
A delegada interrompeu bruscamente os movimentos de ambas e virou a amante de costas para si. Deixou que suas mãos percorressem o corpo dela desde as coxas até os seios.
--Ah! -- a japonesa gem*u fechando os olhos
“Rumbo a tu recuerdo seguí...”
Virou-a de frente para si e sussurrou em seu ouvido: -- Quero você!
Juliana ficou sem palavras enlouquecida pelo desejo.
“La senda de tu perfume,
No hay soledad,
Que aguante el envión,
El impulso antiguo y sutil...”
Beijaram-se com volúpia e começaram a se despir com desespero.
“Del eco de tu perfume...”
A delegada imprensou a amante contra a parede e penetrou-a com ansiedade, enquanto seus beijos mal lhe davam chance de respirar.
--Ah!! -- arranhava as costas da morena
“Perfume...
Del eco de tu perfume...”
Bocas famintas devoravam-se com urgência. E as mãos não paravam.
“Me atravesó,
Tu suave vendaval...”
Deslizaram lentamente até o chão. Suzana colocou a amante ajoelhada e ajoelhou-se por detrás dela. -- Você me enlouquece... -- mordia a orelha da japonesa
--Ah, meu animal... -- ergueu um braço e agarrou-a pelos cabelos da nuca
“Rumbo a tu recuerdo seguí,
la estela de tu perfume...”
A delegada continuava penetrando a outra mulher e forçando o peso de seu corpo sobre ela, enquanto se apoiava no chão com uma das mãos. Sabia que Juliana gostava daquela sensação.
--Ai, minha canibal!! Não pára!! -- pedia com a respiração ofegante -- Ah!!!
“Perfume,
Del eco de tu perfume...”
À beira do clímax, sentiu-se novamente tomada por mãos fortes que a deitaram de costas sobre o carpete. Suzana então mergulhou entre suas pernas e a fez goz*r de verdade.
--Ah, ah, ah!!! -- gritou
“Perfume,
Del eco de tu perfume...”
Perfume - BajoFondo [a]
***
Juliana e Suzana estavam deitadas na cama nos braços uma da outra.
--Amor, que declaração maravilhosa! -- sorria com os olhos fechados acariciando o braço da outra -- Eu não canso de me surpreender com você! Nunca imaginei que minha índia nhambiquara dançasse tango! -- suspirou -- E que coisa sensual foi aquela, meu Pai...
--É o único tipo de dança que eu sei dançar... Quer dizer, sei um pouco. -- acariciava as costas da japonesa
--Um pouco? -- riu discordando -- E como aprendeu? Tango é difícil! -- continuava acariciando o braço da morena
--Quando comecei a trabalhar conheci uma escrevente que dava aulas de tango e ela se propôs a me ensinar. A coitada gastou dois anos e meio tentando me dar algum molejo até que eu finalmente aprendi alguma coisa. -- beijou a cabeça da enfermeira -- Depois ela começou a namorar uma juíza e as aulas acabaram não entendi porque.
--Não entendeu porque? -- abriu os olhos -- Será que era só algum molejo que ela queria te dar, Suzana Mello? -- perguntou um pouco enciumada -- Vocês ficaram mesmo só nas aulas de tango?
--Claro que sim! -- respondeu convicta -- Nunca rolou nada entre nós. Nem me passava pela cabeça ficar com ela! -- pausou -- Pra dizer a verdade, eu só topei aquele negócio de tango porque o delegado Valadão disse que eu precisava de algo mais pra extravasar meu excesso de energia. E olha que eu praticava luta!
--Com certeza ele não se referia a dança. -- levantou a cabeça achando graça e olhou para a morena -- Mas eu agradeço a sua ex professora! -- beijou-a -- Adorei! Amei!
--Você é uma ótima parceira. Acompanhou muito bem uma dançarina enferrujada. -- beijou-a
--Você... não tem nada de... enferrujada, meu nenenzinho! -- respondeu entre beijos -- Eu te amo!
--Também te amo! E fico muito feliz que tenha gostado. -- sorriu -- Eu nunca tinha feito isso antes porque tive medo de pagar mico e você ficar rindo de mim.
--Claro que eu não faria isso! -- beijou-a -- E meu nenenzinho nunca paga mico! Não comigo! -- sorriu -- Sabe que adoro dançar...
Suzana inverteu rapidamente as posições e se deitou sobre a amante. -- Já que gostou tanto, que tal dançar de novo, hein? -- beijou-a com desejo enquanto abria as pernas da outra para se encaixar bem entre elas -- Quero mais de você!
--Hum... Ai! -- gem*u excitada ao se sentir invadida por Suzana -- Minha índia canibal safada! -- arranhava as costas dela
E o telefone começou a tocar.
--Ô, mas que droga! -- a delegada reclamou
--Deixa tocar, amor! -- Juliana puxou-a para um beijo intenso
O telefone não parava.
--Mas que praga! -- a morena interrompeu o que fazia -- Desculpa, Ju, mas eu não consigo continuar com essa peste tocando tanto! -- sentou-se na cama para atender -- Alô! -- respondeu mal humorada
--Espero que não seja uma bobagem! -- a enfermeira acariciava as costas da delegada
--Oi chefe, espero não estar te atrapalhando! -- Brito respondeu do outro lado
--Já atrapalhou! -- respondeu secamente
--Eu, eu... -- gaguejava -- poposso ligar amanhã...
--Agora vai, Brito! Diga o que é! -- continuava séria
--Me perdoe, é que se refere a Lucas Damaso e eu precisava lhe falar.
--Lucas Damaso?! -- ficou interessada -- O que houve?
--Mas aquele diabo já vem me perturbar de novo? -- Juliana revirou os olhos
--Deve saber que o corpo de uma mulher jovem foi encontrado no Campo de Santana no começo desse ano. Ela tinha um corte profundo no tórax e outro no abdômen, mas o legista informou que esse segundo corte foi feito depois, quando já estava morta. -- pausou -- A pobre também foi estuprada.
--Meu Deus! -- lamentou
--Junto ao corpo havia uma estátua indiana do deus Shiva. O laudo da Universidade Federal mostra que se trata de uma relíquia. -- explicava -- Não há registro de roubo dessa estátua aqui no Brasil e a doutora Letícia Avelar nos informou ontem que uma peça igual foi roubada do museu de Rotterdam no ano retrasado! Acreditamos que se trate da própria!
--Então podemos chegar a duas conclusões: o assassino queria nos deixar um recadinho quando abandonou a estátua junto ao corpo e é uma pessoa relacionada com colecionadores inescrupulosos de objetos de arte!
--Eu pensei a mesma coisa! O colecionador propriamente dito jamais abandonaria uma peça daquelas na cena do crime!
--Somente um psicopata sofisticado e que não se interessa muito por dinheiro! Como Lucas, por exemplo!
--Pois é, mas a vítima não se enquadra no perfil de mulheres que ele costumava a matar. Além do mais, o sacrifício foi diferente do que Lucas fazia. -- pausou -- Será que se eu lhe mandasse as fotos...? Assim, in off...
--Pode mandar que eu quero ver! -- pediu -- Claro que isso me interessa!
--E não acabou... Ontem encontramos o corpo de outra mulher que foi estuprada e morta na Quinta da Boa Vista. -- pausou -- E junto ao corpo foi deixada uma cerâmica antiga que representa a Roda da Vida. A professora Letícia esteve conversando comigo hoje e me explicou que a roda é um símbolo budista que remete ao ciclo de morte e renascimento, a que todos estamos submetidos, e ao caminho óctuplo pra libertação. Aliás, a peça já está com ela pra análise.
--Interessante como o psicopata mantém um vínculo com a religiosidade oriental! -- comentou desconfiada -- Esse não era o estilo de Lucas Damaso...
--Eu sei que Lucas não é o único psicopata do mundo, mas... Sei lá, chefe... Eu lembrei logo dele!
--Algo me diz que você tá certo... -- respondeu pensativa -- Apesar de tudo.
--Novamente a mulher não era lésbica ou formadora de opinião. Tampouco encontramos relações de semelhança entre ela e a outra vítima.
--Também quero saber desse caso, quero ver tudo o que puder me passar. -- pediu
Suzana ouviu vozes de criança ao fundo. -- Agora tenho que desligar, delegada. Celsinho acordou chorando. Ele tem tido muitas cólicas.
--Vai lá! Beijinho pras crianças e pra Flávia.
--Obrigada, chefe. E me perdoe mais uma vez. Diga a Juliana que eu peço perdão a ela também e mando minhas respeitosas lembranças. Tchau!
--Tchau! -- desligou e se deitou novamente
--O que aquele maldito anda aprontando dessa vez, hein? -- Juliana deitou-se sobre a delegada -- Não me diga que já andou matando por aí?
--Dois assassinatos... Não há provas de que foi ele, mas algo me diz que aquele psicopata já voltou a atacar, só que mudou de tática. -- olhava para a japonesa
--O que pensa em fazer, amor?
--Já não sou mais delegada na ativa, então tenho que mudar de tática também. -- pausou -- Também preciso conversar com Tatiana pra raciocinar em dupla... Além do mais agora que ela vira e mexe vem aqui em Brasília fica mais fácil!
--Hum... essa dupla é perigosa, viu? -- sentou-se sobre a outra -- Dá até medo... -- arranhava os braços dela
--Dá medo, é? -- sentou-se também -- Pois eu ainda nem terminei de fazer contigo o que tinha pensado ... -- voltou a beijá-la e explorá-la com as mãos fazendo cócegas
--Você é má, Suzana Mello... -- ria -- Muito má...-- sorriu e fechou os olhos
***
Patrícia estava aflita e revoltada. Sabrina teve de adiar a ida ao Everest para 2009 por problemas de saúde. Ferimentos misteriosos abriam chagas em seu corpo e cicatrizavam com dificuldade. A escaladora também era vítima de pesadelos e crises intestinais frequentes.
--Eu não aceito essa fuleiragem toda! -- Patrícia protestava -- Aquele assassino desgraçado mata gente inocente e faz magia pra acabar com a vida de Sabrina! Em pouco tempo ele vai conseguir matá-la! Eu não posso permitir isso! Alguém tem que fazer alguma coisa!
--Acalma teus anseios, minha jovem! -- sua benfeitora espiritual respondeu -- Você aprendeu com muito sofrimento que perseguir espíritos encarnados tem conseqüências graves para os obsessores.
--Mas é demais pra mim, Estela! -- cruzou os braços -- Isso que vocês chamam de livre arbítrio pra mim se chama é pouca vergonha! Todo mundo faz o que quer, é muita avacalhação!
--Isso não é verdade! -- um dos instrutores respondeu -- Você já observou com seus próprios olhos que o futuro é construído com o que fazemos do presente. Nada pode ser perturbado no equilíbrio da Criação sem que uma inexorável Força Restauradora se imponha sobre os causadores da perturbação. -- sorriu -- A Física Clássica terrena confirma isso desde os tempos de Newton.
--Mas por que ele pode continuar fazendo o mal desse jeito? -- protestava -- Eu quero destruir esse homem! Ele me matou no auge da juventude! -- falava com emoção e mágoa -- Não aceito que faça o mesmo com mulheres inocentes e muito menos com minha Sabrina!
--Ele está errado, nós sabemos, mas tenha consciência de que “jamais, em todo o mundo, o ódio acabou com o ódio; o que acaba com o ódio é o amor.”7 -- a benfeitora respondeu -- Talvez já esteja na hora de você entender algumas coisas.
--Entender? -- fez cara feia -- O que há pra entender?
--Felipe? -- a benfeitora olhou para o instrutor, que entendeu o que ela desejava
Os dois fecharam os olhos e posicionaram as mãos sobre a cabeça de Patrícia.
--Concentre-se, querida. -- ela pediu -- Hora de explorar um pouco do seu campo mental e visitar o passado.
A jovem sentiu-se tomada por um estranho torpor e de repente imagens de uma realidade perdida nos recônditos da memória se desenvolveram diante de seus olhos. Uma sequência de fatos aflorou em sua mente apresentando-se como um filme. Por um tempo que não saberia precisar quanto durou, a jovem foi entendendo gradativamente as ligações existentes entre ela e Lucas.
--Meu Deus! -- abriu os olhos emocionada -- Então... então... -- olhou para Felipe e Estela chorando -- Eu fiz dele o que é?! Eu o transformei em um psicopata? -- estava arrasada -- Eu... -- balançou a cabeça negativamente -- Principalmente eu...
--Você e ele têm dívidas um com o outro que parecem nunca cessar. -- Estela segurou o rosto da jovem e delicadamente secou suas lágrimas -- É hora de pôr um fim a esse ciclo de ódio. -- dizia com brandura -- É hora de deixar passar e superar todas dores, mágoas e rancores. -- sorria -- Você mudou, seu coração é puro. -- acariciava o rosto dela -- Pode ajudar Lucas a fazer o mesmo. Sua luta não é contra ele ou contra quem quer que seja. Nossa luta deve ser contra o mal e a ignorância que ainda reinam nas mentes e corações dos encarnados na Terra.
--“Uma coisa é mostrar a um homem que ele está errado e outra coisa é instruí-lo com a Verdade.”8 -- Felipe complementou carinhoso -- Você pode interferir para que ele seja instruído no bem.
--E como eu posso fazer isso? -- perguntou com tristeza -- Como?
--Você verá e aprenderá por si mesma. -- Estela respondeu -- No entanto não estará sozinha. Nós vamos ajudá-la.
--E nós também! -- Maria de Lourdes se apresentou -- Nós também vamos ajudá-la.
--Como dissemos a Tatiana, -- Valadão falou -- somos uma equipe, garota! -- sorriu
Patrícia olhou agradecida para seus amigos e sentiu-se confortada naquele momento. Mais uma vez reconhecia que estava enganada e entendeu que a vida não era uma sucessão de fatos aleatórios e sem razão de ser. Tudo se interliga de modo mais ou menos evidente, mais ou menos sutil.
--“Sempre que pensamos em mudar queremos tudo o mais rápido possível.” -- Felipe dizia -- "Mas não tenha pressa, pois as pequenas mudanças são as que mais importam. Por isso, não tenha medo de mudar lentamente, tenha medo é de ficar parada." 9
***
Lila conversava com Priscila, que desenhava com Priscilinha.
--Mas, bá, guria, tu não avalias o quanto foi bom pra mim essa mudança de planos! -- lia alguns papéis -- Não consegui levantar o dinheiro pro Everest dentro do primeiro prazo que Sabrina me deu, mas agora que a idéia é atacar a montanha no ano que vem, com certeza eu consigo! -- sorriu -- E ainda terei mais tempo pra ficar em forma!
--Você é uma sem coração mesmo, né, Lila? -- olhou para a mística -- Nossa amiga aí doente, de um jeito super esquisito, e você só pensa nos benefícios que o adiamento da viagem te trouxeram. -- balançou a cabeça negativamente -- É o fim!
--O fim! -- a menina repetiu
--Não é, meu amor? Não é o fim? -- deu um beijo na cabeça da criança
--Ora, Priscila, é claro que eu me comovo, daí. Mas tem que pensar no futuro! -- levantou-se da poltrona -- Sei que Sabrina vai sair dessa!
--Se Deus quiser, ela vai! -- desejou
--E eu dou minha colaboração! -- tentava provar que não era insensível -- Uma vez por semana tenho feito meu tratamento de alinhamento dos chakras em Sabrina pra acelerar a cura, só que alguma coisa acontece que me deixa toda arrepiada!
--Sei... -- não levava fé nos tratamentos de Lila
--Aliás, pensei que tu e ela tinham cortado relações depois daquela confusão com Lady. -- deitou-se no chão ao lado de Priscilinha
--Aquilo ali ficou no passado! -- respondeu querendo mudar de assunto -- Olha só como essa garotinha desenha bem!
--Bá, mas que desenho lindo! -- beijou a criança -- Ficou trilegal!
--Mamãe e tia Pi! -- mostrou
--Ela me desenhou toda chique, olha só! Até com bolsa! -- riu
--E essa aqui sentada? -- a gaúcha perguntou -- Sou eu?
--É! -- continuava fazendo suas garatujas
--Até nos desenhos infantis você não trabalha, Lila. -- Priscila provocou e riu
--Ela me desenhou meditando, Priscila, e não malandreando! -- balançou a cabeça com desgosto -- Tu e Lady não me entendem! Não conseguem perceber a minha busca! -- fez um salamaleque
--Eu sei bem tua busca qual é... -- fez um bico -- E falando em Lady, esse escritório de siderúrgica parece que esquece que a escravidão já terminou! Não bastava explorarem a garota até a última gota, ainda inventaram essa de mandá-la fazer não sei o que em Minas!
--Mas pagam o salário dela, isso é o que interessa! E agora ela pode bancar o salário da babá por si mesma, sem precisar da gente! -- levantou-se
--Cruzes, Lila, como você é mão de vaca! -- exclamou horrorizada
--Mão de vaca! -- a menina riu -- Tia Lila mão de vaca! -- repetiu
A gaúcha fingiu que não ouviu os comentários. -- Guria, vou deixá-la em companhia de tua piazinha e partir pra mais uma de minhas palestras. Hoje vai ser a céu aberto aqui no aterro e espero conseguir levantar mais fundos pra minha peregrinação espiritual. -- pegou a bolsa
--Humpf! Peregrinação espiritual... -- pegou um giz de cera que rolou para debaixo da poltrona -- Usa esse também, meu amor! -- entregou para a menina
Lila abriu a porta e saiu. -- Tchau!
--Tchau! -- Priscilinha acenou para a mística
--Tchau. -- a dentista respondeu -- A sorte dos sabidos é que o mundo é cheio de gente trouxa... -- resmungou
***
Lady acomodou-se no assento do avião e começou a ler o jornal. Revoltou-se com uma certa notícia e ficou resmungando sozinha. Tão distraída estava que nem percebeu que uma mulher havia sentado a seu lado.
--"Se você não for cuidadosa, os jornais farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo." 10 -- a mulher lhe falou
A engenheira olhou para ver de quem se tratava. -- Pois é, né? -- concordou -- A mídia é muito perigosa. -- fechou o jornal e o colocou no bolso do assento -- E esse jornal já me encheu!
--Qual o seu nome? -- perguntou interessada
--Lady Dy. E o seu? -- sorriu
--Letícia. -- estendeu a mão para cumprimentá-la -- É um prazer! -- sorriu também
--Você não me é estranha! -- apertou a mão dela -- Acho que já nos vimos em algum lugar! -- tentava se lembrar -- Mas onde?
--Eu sou professora de física da UFRJ. Não teria sido por lá que você me viu? Jovem como é, deve ser recém formada. -- jogava um charme -- E percebo que já deve ter conseguido um bom lugar no mercado de trabalho, a julgar pela estampa de executiva. -- reparou no decote da engenheira -- "Adoro mulheres de seios grandes!” -- pensou
“Primeiro foi Sabrina e agora é essa aí a tentar me seduzir!” -- pensou toda prosa -- Que nada, eu sou uma simples trainee. -- passou a mão nos cabelos -- E talvez tenhamos nos visto pela faculdade mesmo, porque sou egressa de lá. Fiz engenharia de produção.
“O curso de Camille!” -- pensou -- Será que você não conheceria uma jovem chamada Camille Trevisani? Ela também se formou nessa mesma carreira, só que há mais tempo que você.
--Claro que conheço! É minha grande amiga! -- exagerou -- E a mãe dela é minha costureira! Ajeitou meu vestido de noiva por várias vezes!
“Mas o mundo é realmente muito pequeno...” -- a professora constatou
-- Você é amiga da Camille? -- perguntou curiosa -- Que coincidência que temos alguém em comum!
--É, nós somos amigas. Mas faz tempo que não nos falamos... -- olhou discretamente para as mãos da outra e não viu aliança -- Então... você é casada, Lady?
--Não. No final eu rasguei aquele vestido, sabe? Fiquei tão revoltada com o pai da minha filha que... -- calou-se por uns segundos -- Deus me livre de viver louca pra casar como eu era! Tô fora! Aquela fase da minha vida acabou!
--E qual o nome da sua filha? Quantos anos tem?
--Priscila. Ela tem dois aninhos e é muito esperta! -- abriu a bolsa e pegou a carteira -- Vou te mostrar uma foto dela! -- abriu a carteira -- Olha só! -- mostrou
--Ah, mas que linda! -- sorriu -- Ela se parece muito com a mãe! Tem os mesmos olhos perturbadores... -- olhou para Lady sedutoramente
--Obrigada! -- respondeu encabulada -- "Nossa, que coisa descarada!” -- pensou
O piloto anunciou que o avião levantaria vôo. Alguns segundos após a decolagem Letícia voltou a puxar conversa.
--Esse briefing de segurança das companhias aéreas não muda, né? A gente até decora o que eles dizem. -- sorriu
--Fazia tempo que eu não viajava de avião. -- olhou para a professora -- Você viaja muito?
--Bastante. Participação em bancas de tese, congressos, simpósios, prestação de serviços, férias... Sou cartão diamante em dois programas de milhagem. -- exibiu-se
--Nossa, que coisa viajada! -- exclamou -- Sua família não reclama disso?
--Eu sou solteira e não tenho filhos. Mas, geralmente é difícil encontrar uma... -- resolveu deixar tudo totalmente às claras -- namorada que compreenda isso numa boa. Elas sempre pensam bobagens demais, sabe? -- piscou para ela -- Desconfianças injustificadas.
“Eu sabia que ela era lésbica e tava apaixonada por mim!” -- Lady concluiu -- Eu imagino. Mas se você não dá motivos, não tem porque a namorada desconfiar. -- respondeu -- Eu passei a desconfiar da minha ex marida porque ela me dava motivos. Sempre deu, pra dizer a verdade!
“Marida? Então ela é, pelo menos, bissexual.” -- deduziu -- E eu seria indiscreta se perguntasse porque essa marida agora é ex? -- perguntou interessada
--Porque ela não era fiel. Até hoje só quer saber de sair com esses vadios que tem por aí. Então quando eu a chamei à decisão...
--Ela não quis saber de se aquietar.
--Não! -- suspirou -- O que é uma pena porque eu acreditava na força daquele casamento, sabe? Era uma coisa, menina! Mas, no entanto... -- lamentou -- Um dia um caminhão atropelou a paixão... o nosso amor se transformou em bom dia! -- filosofava -- Qual o sentido da realidade? Será preciso ficar só, pra se viver?
--Eu entendo. Também tive um relacionamento sério com uma garota que me fez me apaixonar! -- pausou -- Eu me dediquei a ela e ela me traiu. Tanto com uma atleta olímpica, quanto com uma fisioterapeuta da boca de caçapa. Sem contar as outras mulheres internet afora. -- fez cara feia
--Gente! -- ficou penalizada -- Eu te entendo, amiga! Sei como dói a pontada de um chifre! -- gesticulava -- Fui o alvo perfeito, muitas vezes no peito atingida! -- fez cara de tristeza -- De minha parte, não vou mudar. Esse caso não tem solução. Sou fera ferida, no corpo, na alma e no coração! -- filosofou
--Mas não vamos perder nosso tempo com tristezas e lamentos. Elas foram paixões do passado e lá devem permanecer. -- caprichou no sorriso mais sedutor -- Conheço um restaurante maravilhoso em BH. Quando chegarmos na cidade, depois que cada uma se acomodar em seu respectivo hotel, podemos nos encontrar e sair pra jantar, conversar... -- falava com voz melosa -- Seria um imenso prazer desfrutar da companhia de uma mulher tão interessante quanto você!
--Bem, eu... -- não esperava por aquele convite -- eu... -- calou-se por instantes
--É só um convite pra jantar. Sem segundas intenções. -- mentiu descaradamente
--Ah, eu... -- calou-se novamente -- "Ora, Lady, que mal há nisso? É só um jantar!” -- pensou -- Eu aceito! -- respondeu finalmente
--Ótimo! -- abriu a bolsa para pegar o celular -- Me dê seu número, por gentileza? -- pediu -- Eu vou te ligar e a gente combina tudo diretinho.
--Te dou sim!
“Ah, mas eu vou te conduzir pra você me dar bem mais que só o número do celular, garota!” -- Letícia pensou cheia de malícia -- "Tô louca pra me perder no meio desses peitões!”
***
Tatiana, Suzana e Romeu estavam em uma reunião em Brasília. Conversavam em um restaurante bastante destacado.
--Então a história é essa. -- a delegada mostrava as fotos -- Já é a terceira mulher estuprada e morta em um parque. E novamente, uma relíquia indiana foi deixada na cena do crime, como se fosse um recadinho do assassino pra sociedade.
--Como sabe que são relíquias e não falsificações? -- Romeu perguntou
--A professora Letícia Avelar fez a análise das peças e confirmou a autenticidade. Ela também é especialista nesse tipo de arte e sempre nos traduz a mensagem que podem nos dizer. Todas se relacionam com nascimento e morte e a transitoriedade das coisas. -- explicava -- Além do mais os amigos dela no exterior confirmaram a origem das peças como artefatos roubados de museus estrangeiros.
--Que coisa! -- Tatiana exclamou
--Gostaria que você tentasse dar uma investigada nos traficantes brasileiros de obras de arte roubadas do exterior, Romeu. Não creio que sejam muitos. Chegando nesses caras, encontramos os colecionadores inescrupulosos que têm negociado com o psicopata.
--Isso não vai ser nada fácil! -- ele respondeu -- Mas será um passatempo e tanto pra um homem solitário e aposentado. -- sorriu -- "Mari gosta de balé e balé é uma forma de arte. Vai que ela se interessa em saber que investigo sobre isso?” -- pensou
--Por que acredita que Lucas esteja cometendo esses crimes, delegada? -- a jornalista perguntou curiosa -- O perfil não se encaixa.
--Eu sei e concordo plenamente, mas... -- olhou para ela -- Apesar de não haver provas que o liguem aos assassinatos, a ‘energia’ -- fez aspas com os dedos -- de Lucas está impregnada em cada crime. Eu sinto. Sei que é uma resposta subjetiva demais, só que é isso!
--Ninguém aqui pode duvidar de sua intuição. -- ela respondeu -- Mas se é ele, ou mesmo que fosse outro, qual a necessidade da presença das relíquias? E como ele consegue essas peças? Não tem dinheiro pra comprá-las!
--Isso tá me deixando intrigada! Eu não sei! Não mesmo! O que sei é que esses assassinatos são oferendas de magia negra! -- deu um soco na mesa -- Lucas também anda sumido, ninguém sabe onde está morando. Queria ter uma conversa com ele mas não o encontro!
--Que coisa horrível! -- Romeu exclamou -- Esse tipo de crime não pode continuar oculto! As pessoas têm que saber a respeito! Têm que saber que se mata gente por conta de magia negra nesse país!
--E é aí que eu entro com uma proposta pra ambos! -- Tatiana falou -- Desde aquela história da finada Àjé eu não consegui acreditar que essa conversa de magia negra se encerrava ali. -- olhava para ambos -- No período em que trabalhei no exterior, estive em Uganda e descobri muitas coisas sobre essas práticas do mal. Gente, magia é coisa das mais antigas, acontece no mundo inteiro e sempre foi um assunto tabu por várias razões! -- explicava -- Convenci os redatores da revista pra qual trabalho a investir no tema e tenho investigado exaustivamente.
--Quer nossa ajuda pra desmascarar a rede do mal que por acaso exista no Brasil? Esse pessoal que pega os outros pra matar em sacrifício? -- Romeu concluiu -- Se é isso, conte comigo!
--E comigo também! -- Suzana respondeu resoluta
A jornalista sorriu satisfeita. “Eu sabia que eles iriam querer me ajudar!” -- pensou -- Vocês sabiam que há pessoas que pagam fortunas pra obter vídeos reais de mulheres e crianças sendo estupradas e mortas, especialmente crianças?
--Minha nossa! -- Romeu exclamou -- Que coisa pavorosa!
--É triste ouvir isso... -- a morena respondeu chocada
--Eu constatei que muitos dos produtores desses vídeos descobriram nos pedófilos o mercado ideal! E sabe por que? -- a jornalista continuava -- Porque muitos deles pagam fortunas por tais vídeos, e sem pensar duas vezes!
--Não me diga que os produtores desses vídeos estão simplesmente praticando seus rituais macabros e aproveitando a doença dessa gente que gosta de ver coisas mórbidas pra ganhar dinheiro com isso? -- Suzana perguntou enquanto seu cérebro conjecturava possibilidades
--Pois é! -- a jovem respondeu -- Não sei se todos os miseráveis que fazem isso são magos do mal, mas te garanto que boa parte é!
--No que pensa, delegada? -- Romeu perguntou curioso -- Acha que o tal Lucas pode ter virado um cineasta macabro?
--Exatamente! -- deu um soco na mão -- Pensei exatamente nisso!
--Então, Suzana, de repente... as relíquias seriam um pagamento antecipado por tais servicinhos sujos? -- Tatiana perguntou
--Claro! Lucas não liga pra dinheiro! -- sorriu satisfeita com suas conclusões -- Ele pede as relíquias como pagamento e aproveita pra utilizá-las como pequenos recados enigmáticos! Isso sim, é a cara dele! -- olhou para os outros dois -- Ele gosta de ser diferente e de confundir a polícia!
--Então, algum colecionador excêntrico é, além de tudo, viciado nesse tipo de vídeo. -- Romeu concluiu -- Mas será que Lucas teria apenas um cliente com esse perfil?
--Talvez sim! E esse cliente considera que vale a pena se desfazer de suas relíquias por tais vídeos! -- a jovem respondeu enquanto raciocinava sobre o caso -- Vai ver, ele quer as duas coisas de Lucas: os vídeos e o sucesso obtido às custas de um pacto com o Mal!
--Deve ser bem por aí! -- a delegada concordou -- Vou mover céus e terra pra descobrir esse mistério e contatar todo mundo em que posso confiar. Só que dessa vez eu não vou me limitar a pedir ajuda somente a essas pessoas. Se Lucas mudou de tática, eu também tenho que mudar.
--No que pensa? -- a jornalista perguntou intrigada
--Eu sou médium, Tatiana. Tenho estudado e trabalhado muito no centro de dona Olga. -- explicava -- Se os feiticeiros das trevas podem contar com os espíritos dedicados ao mal, eu também, de minha parte, posso contar com os Emissários da Luz. -- sorriu -- Quem tem mais força?
“Tô começando a morrer de medo desse negócio aí!” -- Romeu pensou com os olhos arregalados
Fim do capítulo
Música do Capítulo:
Conversa de Sabrina e Lady:
Eu e Você Sempre. Intérprete: Jorge Aragão. Compositores: Flavio Cardoso / Jorge Aragão;
Nem Um Toque. Intérprete: Rosana. Compositores: Michael Sullivan / Paulo Massadas;
Vai Vadiar. Intérprete: Zeca Pagodinho. Compositor: Monarco;
Negue. Intérprete: Maria Bethânia. Compositores: Adelino Moreira / Enzo de Almeida Passos
[a] Perfume. Intérprete: BajoFondo. Compositores: J. Drexler / L. Supervielle. In: Let’s Talk About Love. Intérprete: BajoFondo. Surco Records JV, 2002. 1 CD, faixa 6 (5min24)
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jake
Em: 28/03/2024
Me divirto com Lady. Pri nem percebe que está apaixonada...Eita que começa os homicídios será que é Lucas ,já que estava seguindo Sabrina e faz Magia para ela morrer. ?Tati se metendo em mais uma investigação. Amo Mari e Olga juntas e e so emoções e lições.Samira terminou com VC poxa que triste.Le é Lady curiosa pra vê...Eita Pri vai matar Lady.
.
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Olá querida!
Priscila demorou a aceitar seu amor pela doidinha da Lady.
Lucas vai começar uma nova fase como você verá. E Tatiana sempre atenta!
Olga é excelente companhia para todo mundo, especialmente para Mariângela.
Samira foi. Hoje não há mais retorno. Estamos em caminhos distintos, sem ressentimentos.
kkkkk Priscila esteve a ponto de matar Lady várias vezes!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 07/10/2023
O objetivo agora é voltar 8 em tudo.tava assim antes das come comments pousarem aqui
Solitudine
Em: 11/11/2023
Autora da história
Voltar oito???
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Femines666
Em: 14/03/2023
Oi autora! Brigada pelas respostas! Meu final de semana foi uma loucura, nem pude ler! Agora entrei de férias e vou cair dentro!
Já fiquei feliz com a Felicidade. Capítulo maravilhoso! Suas personagens, até as "más" me encantam! Vamos em frente!
Resposta do autor:
Olá querida!
Fico felícissima em ler sua percepção! Obrigada!
Continue nessa viagem!
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 15/09/2022
E quem é essa que chega pra tentar cooptar a Ju? Cismei. A delegada tá toda moderninha mas tem que ficar esperta. Letícia e Lady??? Hahaha essa eu quero ver!
Resposta do autor:
Preste atenção nessa que chega para cooptar Juliana. Suzana vai prestar muita atenção!
Quem poderia esperar por Letícia e Lady, não? rs
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 15/09/2022
Começar uma temporada as gargalhadas com Lady e Priscila aprontando todos é muito foda! Haha depois vem eu pegando a ruiva AMOO , emoção com Mari e Cami numa visita técnica que deu o que falar. Chefe mais boca suja do que eu! Hahaha só que eu não decido com o c@! Hehe
Resposta do autor:
kkkk Ri muito aqui! Ainda bem que você decide mobilizando as partes certas do corpo! Somos duas! rs
Que bom que a temporada te trouxe alegria.
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 24/04/2020
Olá Sol!
Lady teve um amadurecimento muito grande ao longo das temporadas e dentro do mundo paralelo que ela vive, o amor pela Priscila é puro e verdadeiro.
Agora até pra contar uma história ela é engraçada... Kkkkkk... Gente sobrou pra Sabrina.
Na minha opinião faltou um pouco de auto confiança para Isa em relação a Ed, sempre se mostrou meio insegura, não dá para culpá-la, pois em alguns momentos Ed ficou realmente dividida.
Camille e suas observações irônicas... Kkkkkk...
Samira partiu em pedacinhos o coração da caipira, tadinha!
Suzaninha caprichou mesmo, que produção!
Letícia é uma tarada em tempo integral!
Lady e suas citações musicais, é impossível não ler cantando.
Beijos
Resposta do autor:
Gabinha!
Lembro que Samira ria muito deste papo com Sabrina por causa da cicatriz e dos resmungues de Priscila. kkkk
Sim, houve as vezes em que Seyyed deixou a ruiva insegura; ela que já era insegura por várias razões. E Camille... Tolerância zero! kkk
É, o coração desta caipira é uma tábua de tiro ao alvo cheia de buraquinho! rs
A delegada sabe surpreender!
Eu sabia que você gostava da trilha ladyana. No abcLés você disse uma vez que Lady cantava as músicas que muita gente gosta mas não assume! kkk
Beijos!
Sol
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Gagia
Em: 05/02/2018
Outra coisa que devo comentar. Entendi a transformação da Juliana também como algo a fazer Suzana pensar. Faltava remover um pouco do egoísmo da nossa delegada predileta e Irina cumpriu este papel. Engenhoso, diva.
Resposta do autor:
Você lê mentes... quem é a engenhosa aqui?
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Gagia
Em: 05/02/2018
Permita-me deter-me em um único momento, a morte da Sabrina. Ou será a vida? Ouvi a música em conjunto e assisti a cena. Eu vi tudo nos recônditos da mente. Viajei contigo e senti cada emoção. Lindo demais! Uma porta que se abre e o amor do outro lado...
E o holocausto no Everest salvou outra vida. Nossa Lila que virou Jaqueline. Não tão divertida, mas muito melhor. Maya abriu os olhos? Justo a ilusão? rs
Só mais uma... a sedução do poder. O quanto há verdades em tudo isso!
Resposta do autor:
A despedida de Sabrina foi outro momento muito marcante e significativo para mim. É como eu gostaria de partir...
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Solitudine Em: 10/04/2024 Autora da história
kkkkkkkkkkkkkk Não é frescura, criatura louca! Para fazer e-book eu tenho que dar as fuças para bater e isso não quero e nem desejo.