Quinta Temporada - LIBERDADE VI
Letícia e Samira conversavam em um bar na Cinelândia.
--Escuta aqui, Samira, eu vou desabafar contigo mas não quero saber de sacanagem! -- advertiu -- A coisa é séria!
--Você sempre me diz que a coisa é séria, Letícia... -- cruzou as pernas
--Mas dessa vez é séria demais! Faz muito tempo que a gente não se fala e você não sabe da missa a metade! -- pausou -- Camille me traiu e terminou comigo!
--Como é que é????? -- perguntou chocada -- Camille te traiu??
--Ele esteve em treinamento em Salvador, como você deve se lembrar. Adivinha quem apareceu por lá e faturou uma noite com a garota?
--A nadadora olímpica? -- arriscou
--A própria! -- fez um bico
--Tá, mas... foi simplesmente isso? -- perguntou desconfiada -- Você não estaria me omitindo certos detalhes importantes?
--Ah! -- brincava com o canudo -- Eu passei o carnaval com ela e nós tivemos uma discussão...
--Muito provavelmente por causa de sex*!
--Ah... é... mais ou menos...
--Sei... -- respondeu descrente
--Eu fui embora arrasada... E depois de um tempo a nadadora salafrária chegou na cidade!
--E então, Fátima apareceu, consolou a garota e... rolou!
--Bem por aí...
--Você também deu mole, né, Letícia? -- cruzou os braços
--Ah, qual é Samira? Levo chifre e sou culpada?? Fala sério...
--E você, por acaso, não teria procurado alguém pra afogar essas mágoas? Do jeito que te conheço acho meio difícil que tenha voltado da Bahia e se recolhido pra chorar sozinha!
--Bem, eu... -- olhou para a outra -- encontrei no avião aquela historiadora que foi no tributo, a Vanessa... ela veio sentada do meu lado, veja só!
--E aí...?
--Rolou!
--Então você a traiu ainda antes dela ter te traído! -- concluiu
--Não foi traição! -- protestou -- Não tinha sentimento! Ela sim, me traiu! Se envolveu com Fátima e ficou toda derretida... Aposto que fez com ela o que nunca fez comigo!
--Francamente, viu, Letícia? -- riu -- Você não vale nada!
--Que é isso? Isso é jeito de falar comigo? -- reclamou
--Mas é verdade! Tinha um bom relacionamento e tanto que fez que estragou tudo! Agora chora, filha!
--Ah, mas essa coisa não começou em Salvador... Eu pensei em tudo e vi que Camille me traía há tempos! E não era com Fátima!
--Hã???? -- fez uma careta -- Com quem era??
--Uma vez que ela tava lá em casa, a gente namorou um pouco e depois eu fui trabalhar e ela usou a internet. Depois de um tempo dormiu na frente do computador. -- falava -- Eu levei ela pra cama e quando fui desligar o computador vi que a caixa de e-mails estava aberta. -- olhava para a outra
--E aí você não resistiu e leu?
--Como se você não fosse fazer o mesmo no meu lugar! -- retrucou e continuou a narrar -- Vi que tinha deixado aberto o e-mail de uma amiga dela chamada Aline, e quando fui ler fiquei besta!
--O que tava escrito? -- perguntou curiosa
--Eu repassei o e-mail pra mim! Não joguei fora ainda. -- pegou o celular -- Deixa eu ler pra você: -- acessou a internet e abriu o e-mail -- "Amiga, -- começou a ler -- você tava certa o tempo todo. Novamente meu encontro com Flávia foi uma loucura!”
--Quem é Flávia?
--Uma fisioterapeuta amiga de Camille.
--Ah, então tá explicado, criatura! Flávia deve ter feito algum tratamento nessa tal de Aline. -- concluiu
--E você já viu alguém falar de um tratamento fisioterapeutico desse jeito? E eu não acabei de ler, ouve isso: “Você sabe que eu gosto de provar posições novas, né? Aí, já viu! E aquilo ali sabe tudo de corpo humano, amiga! Quando ela põe o cotovelo na minha bunda, meus gemidos invadem a casa inteira! Loucura total!”
--Cotovelo na bunda?! -- Samira perguntou intrigada -- Gente, que eu não conheço essa posição! E a mão, vai pra onde? -- interessou-se
--Sei lá! E olha que eu pesquiso esse negócio, viu? Posições inusitadas é comigo mesmo, mas essa aí eu desconheço! -- voltou a ler -- "E os ch*pões que ela me dá me deixam toda roxa. Aquela ventosa é danada pra ch*par!”
--Nossa, que mulher é essa? -- Samira riu -- E que boca louca, viu? Pra outra chamar de ventosa... -- balançou a cabeça
--Então, se ela afirma que Camille tinha razão o tempo inteiro é porque minha loura já andou nessa coisa de cotovelo na bunda e ch*pão alucinante com essa tal de Flávia! -- deu um soco na mesa -- E pensar que eu passei o natal com essa mulher. Fisioterapeuta safada, tarada, boca de caçapa!
--Ah, mas será que é isso mesmo? De repente a gente tá aqui viajando na maionese... -- bebeu um gole de refrigerante -- Essa tal de Aline é lésbica?
--É outra enrustida! Camille me disse que ela vive lendo contos lésbicos! -- pausou -- Falando nesses contos, lembra que eu te falei que Camille ficou louca porque uma tal de Luana disse que preferia sua namorada a ela?
--Ah, mas a minha caipira é muito melhor escritora do que Camille, tá, Letícia? Desculpe mas é a verdade.
--Você diz isso porque ela é sua namorada! Camille é muito melhor!
--Humpf! -- a motociclista fez um bico
--Mas criatura, o foco não é esse, presta atenção! Camille sabia até a altura da mulher! Ela na certa andou namorando essa tal de Luana! -- fazia cara feia -- Não havia razão pra ter tanta raiva só porque a fã, como costumava a dizer, preferia o texto de outra pessoa. -- pausou -- Esse negócio de escrever história na internet é um pretexto pra elas ficarem de paquerinha virtual! Seduzem as leitoras com conversa bonita!
--Então você quer insinuar que minha caipira também me trai? -- arregalou os olhos
--Se ela te trai eu não sei, mas que Camille me chifrava, tá me parecendo sim! -- olhava para a motociclista -- E ela já teve ter se arrumado com alguém porque eu pedi mil vezes pra gente voltar e sempre ouvi ‘não’! -- suspirou -- Aí eu desisti...
--De fato, há pouco tempo atrás, -- Samira se lembrava -- eu fui com minha namorada pra uma festa e lá pelas tantas ela puxou uma garota pela cintura e tascou-lhe um beijo na boca. Depois disse que fez isso pensando que era eu!
--Ué? Mas ela bebe desde quando? -- perguntou com estranheza
--Mas ela não bebe! Disse que achou que a outra era eu por causa da roupa e do cabelo. -- explicou -- Aí eu a coloquei de castigo, lógico! O que é uma droga porque também fico na saudade, né?
--E você acreditou nessa conversa? -- riu -- Francamente, viu, Samira? Tá dando mole...
--Ah, eu... -- passou a mão nos cabelos -- Ela não seria louca de me trair assim na minha cara! E além do mais não é porque você tava tomando chifre que eu também tenho que tomar! -- protestou -- Esse negócio foi uma verdadeira farra do boi, de tanto chifre! -- riu -- Se é que você realmente estava sendo traída, porque Camille não me parece ser dessas coisas!
--As pessoas fazem tipo, Samira! Quando eu era universitária namorei uma garota que se dizia muito pura e depois soube que ela fazia programa na Praça XV!
--Ah, então você é habituada a tomar chifre não é de hoje! Não deveria se incomodar mais com isso! -- riu de novo
--Eu não sei porque ainda perco meu tempo desabafando com você! -- jogou um guardanapo embolado na outra -- Da próxima vez procuro por Sabrina, viu?
--Calma, Lê, você se estressa fácil! -- continuava rindo
Letícia arremessou mais guardanapos sobre a outra. -- Ri! Quando a sua caipira aprontar também, eu vou fazer a mesma coisa! -- continuava de cara feia
Samira parou de rir e respondeu seriamente: -- Ah, minha filha, se eu descobrir que ela me trai... -- cruzou os braços -- ela não tá nem doida! -- fez cara feia
--E onde que ela tá agora? -- provocou
--Viajando a serviço!
--E você não foi junto por que?
--Porque eu trabalho, filha! -- afirmou enfática
--E como é que você sabe que ela não tá aprontando?
--Ah... -- calou-se e fez uma cara feia -- "Acho que vou ter uma conversinha muito séria com essa caipira quando ela voltar!” -- pensou
10:00h. 10 de setembro de 2006, Hospital Silva Avelar, Centro, Rio de Janeiro
Juliana estava na sala das enfermeiras fazendo anotações em sua prancheta quando Débora vem abordá-la.
--Oi, Juliana! -- cumprimentou sorrindo -- As eleições tão próximas e você aqui trabalhando? -- sentou-se do lado dela
--Oi, Débora! -- olhou para ela -- Eu nem sei se serei eleita. De mais a mais, mesmo que seja, vou trabalhar até ser empossada. -- sorriu
--Pois é... -- cruzou os braços -- Sua candidatura foi super turbinada pela internet. Principalmente depois que a jornalista Tatiana Queiroz declarou no blog dela que te apóia!
--Vamos ver no que vai dar isso... -- voltou a se concentrar em suas anotações
--Escuta, Ju. -- a japonesa olhou para ela -- Se você for eleita, será que não arruma nada pra mim, não? -- falava mais baixo -- Já ando cheia de ralar tanto e ser pobre. Se tiver uma vaguinha de secretária, política júnior, uma coisa dessas aí, me arruma? -- pediu esperançosa
A enfermeira sentiu-se constrangida com aquele pedido. -- Débora, eu nem sei direito como funciona essa coisa de ser deputada, mas... vou fazer tudo dentro da maior honestidade possível!
--E quem tá falando em coisa desonesta? Eu só quero uma chance de trabalhar pouco e ganhar bem!
Juliana respirou fundo e respondeu: -- Eu não vou criar oportunidades, Débora. -- olhava seriamente para a colega -- Pra ninguém! Se critico e pretendo combater a corrupção tenho que dar o exemplo!
--Eu sabia! -- levantou-se de cara feia -- Você virou santa não é de hoje, claro que não iria me ajudar! Nem foi empossada e já ficou metida! -- retirou-se revoltada
--Mas e eu posso com isso?
Horas depois, Juliana chegava em casa. Encontrou Guilherme esperando sentado no hall do prédio.
--Maninha! -- sorriu entusiasmado -- Quantas saudades! -- abriu os braços
“Sinto que vou me aborrecer!” -- pensou contrariada -- Saudades? -- perguntou descrente -- Pensei que eu era uma sapatão miserável que anda influenciando mal os jovens da família! -- parou diante dele e cruzou os braços
--Que é isso, minha irmã? -- fez cara de ofendido -- Aquelas palavras foram ditas em um momento de descontrole! Você é um modelo pra família toda! -- sorriu
--Sei... -- caminhou até o elevador e apertou o botão
--Ju, precisamos conversar. -- foi atrás dela -- Estou muito orgulhoso dessa sua candidatura e atuo como um verdadeiro cabo eleitoral pra você em diversos bairros. -- entraram no elevador -- E olha que nem ganho dinheiro pra isso, hein? -- piscou
--Sei... -- fez um bico
--Eu me enchi de esperanças pois sei que com seu caráter firme e sua nobreza de espírito, posso esperar pelo melhor pra esse país!
--O que é que você quer, hein, Guilherme? -- olhou para ele e saíram do elevador
--Eu? Nada! -- entraram no apartamento -- Quer dizer, quero servir a meu país e mostrar minha brasilidade com toda raça que puder!
--E como seria isso de mostrar sua brasilidade? -- colocou a bolsa sobre a poltrona e se sentou
--Ah... com um cargo de assessor de assuntos aleatórios ou empresário ou agente de publicidade... coisas assim... -- sentou-se -- Li no jornal que esse pessoal que trabalha pra político ganha é bem! -- sorriu
“Mas que diabo!” -- pensou revoltada -- Olha, Guilherme, perdoe te decepcionar mas eu não vou arrumar cargos molezinha e bem remunerados pra ninguém, tá?
--Mas você é egoísta mesmo, viu? -- levantou-se com raiva -- Puta que pariu, essa minha família é foda!
--Guilherme, você quer é vida mansa e isso ninguém vai te dar! -- levantou-se também -- Além do mais eu acho que vocês são muito engraçados! -- pôs as mãos na cintura -- Falam mal dos políticos, reclamam dessa corrupção vergonhosa que se vê por aí, mas na primeira chance que surge já querem arrumar um jeitinho de se dar bem!
--Como se você não estivesse entrando nessa pra se dar bem! -- respondeu desaforado
--Se você me conhecesse um pouquinho, saberia que tô entrando nessa pra fazer um trabalho sério e batalhar muito! -- foi até a porta e a abriu -- Você deveria era tratar de dar atenção aos seus filhos, especialmente o menino, que você largou pra lá e se limita a dar pensão! -- olhou para ele -- Agora, se não se incomoda...
--Eu vou embora daqui e não volto nesse prédio nunca mais! -- parou diante dela -- E nem faço campanha pra você de hoje em diante!
--Fique à vontade!
--Sapatão maldita! -- saiu furioso
--Em poucos minutos passei de modelo da família a sapatão maldita! -- teve que rir
Quando ia fechar a porta sentiu que alguém a empurrou em sentido contrário.
--Não feche, Juliana! Sou eu, a sua síndica preferida! -- Soraia falou empolgada
--Ai, meu Deus! -- abriu a porta novamente -- Vocês escolheram o dia de hoje pra me infernizar, é? Por isso que dizem que miséria pouca é bobagem! -- reclamou
Entrou. -- Ora, deixe de tanta reclamação! -- sentou-se e cruzou as pernas -- Vamos, sente-se, tá em casa, meu bem!
“Mas é muita cara de pau!” -- sentou-se de cara feia -- E a senhora? Não me diga que veio me pedir alguma coisa pra si porque acha que serei eleita deputada?
--Claro que não! Jamais faria isso! -- respondeu resoluta
--Uff!
--Mas minha neta seria uma assessora perfeita pra você! -- afirmou categoricamente -- Além do mais uma deputada lésbica tem que ter uma assessora lésbica!
--Pelo amor de Deus, dona Soraia... -- revirou os olhos
--E tem outra! Aquela menina, que continua Hugo, agora se pegou com uma separada mãe de filho grande. Acredita que a mulher já é até avó?
--Ah, dona Soraia, eu já lhe disse mil vezes que não tenho o que fazer no caso de sua neta!
--Claro que tem! Quando você for eleita e se mudar pra Brasília pode levá-la contigo! Assim ela ficará longe daquela velha gaiteira e ainda vai ganhar um salário polpudo!
--Não mesmo! -- levantou-se novamente -- Se era só isso, pode ir! -- abriu a porta -- Tô cansada, quero tomar um banho e fazer comida antes que Suzana chegue! -- ficou olhando para ela com a cara séria
--Vejo que o poder já subiu a sua cabeça! -- levantou-se insatisfeita -- Não esperava isso de você! -- caminhou até a porta
--Eu mereço, não é possível... -- resmungou
--Merece o que, linda? -- Hugo se aproximava da japonesa -- Sabia que vovó estaria aqui pra conversar com você! -- sorria
--Ué? -- olhou para a garota -- Eu não era uma sapata da terceira idade e sua avó não vinha aqui pra fofocar comigo? As coisas mudaram rápido, não? -- perguntou ironicamente
--Ah, mas eu estava enganada! Você é um espetáculo de mulher e vovó não poderia vir se aconselhar com ninguém melhor! -- fazia olhares sedutores
--Desista, minha filha! -- Soraia falou para a neta -- Eu já conversei com ela e a resposta é não! -- olhou para a japonesa -- Se prepare, pois vou aumentar o condomínio em 50%! -- foi descendo as escadas
--Veremos, dona Soraia, veremos! -- falou em voz alta
--Não ligue pra minha avó! -- cruzou os braços e encostou-se no portal -- Ela não entende de mulher, não sabe apreciar uma deusa, -- olhou-a de cima a baixo -- quando vê uma!
--Cresce e aparece, tá? -- preparou-se para entrar
--Por que essa reação de fuga, meu bem? -- empurrava a porta para impedir que fosse fechada -- Deixa eu entrar, vamos conversar um pouco... -- forçava uma voz sedutora -- Sou muito boa de... -- mexeu com a língua eroticamente -- conversa!
--Humpf! -- fez um bico
--Eu sei deixar uma mulher maluquinha! Sei fazer uma passarinha se contorcer de... -- sentiu uma dor forte no pescoço -- ai!
--E eu sei fazer uma franguinha como você se contorcer de dor! -- Suzana falava entre dentes -- Vaza daqui se não quiser aprender a ciscar pra frente! -- empurrou-a para longe
Hugo caiu no chão e se levantou com pressa, descendo as escadas apavorada.
--O que acontecia aqui, hein? -- a delegada colocou as mãos na cintura
--Hoje foi o dia que todo mundo tirou pra me pedir coisas com interesse em se dar bem! -- envolveu o pescoço da morena com os braços -- Aí você chegou e, -- sorriu -- me salvou, minha delegada valente!
--Hum! -- entrou em casa e puxou a japonesa para que envolvesse sua cintura com as pernas -- Então, eu cheguei na hora certa! -- fechou a porta -- Livrei minha japonesa gostosa dessa gente exploradora!
--Livrou sim! -- beijou-a
--Mas tudo tem um preço e você sabe bem! -- fingia seriedade
--Ah, é? E qual seria o preço? -- agia como se estivesse surpresa
Suzana caminhava para o banheiro. -- Eu também quero me dar bem!
--E o que você quer de mim? -- fingia inocência
A delegada colocou a amante sentada sobre o móvel da pia. -- Devorar você inteira! -- sussurrou no ouvido dela enquanto começava a despi-la e beijá-la com desejo
--Ai, minha nhambiquara safada... -- sorriu e fechou os olhos
***
Seyyed estava encerrando mais um dia de serviço. Não teve dificuldade em se habituar ao modo de trabalhar da oficina de Renan, que era muito parecida com a ESSALAAM. Também não teve dificuldades em se habituar com Goiânia; sentia apenas a falta de Isa, da família e do mar.
Estava vivendo na casa de Renan e Tatiana, o que lhe parecia muito estranho. Sentia-se uma invasora. A grande vantagem é que podia ir para lá andando e fazia essa caminhada todos os dias com sua bengalinha.
Quando se preparava para partir, deu de cara com Marciano que saía do carro.
--Ora, pois se não é ela! -- veio sorrindo mas logo mudou de expressão -- "A coitada ficou aleijada, uai!” -- pensou penalizado -- Meu menino me falou que você tava trabalhando aqui na Goiânia no lugar de seu irmão. -- estendeu a mão para cumprimentá-la -- Como vai?
--Bem, graças a Deus, e o senhor? -- Ed olhou para a mão dele e advertiu: -- Mas pega leve aí, seu Marciano. -- mostrou a mão -- Agora tô com dois a menos!
O fazendeiro riu e apertou a mão dela sem muita força. -- Comigo tudo bão, graças a Deus! -- ajeitou o cinto -- Deixa eu te perguntar, será que a gente podia bater uns dedinhos de prosa? Demora muito, não!
--Podemos... -- pausou -- Mas vou lhe convidar pra ir lá em casa porque já fechei a oficina.
--Eu tava pensando em um bar perto do parque. Que tal? É por minha conta! -- mexeu no bigode
--Tudo bem, então... vamos pro bar. -- sorriu
***
--Deixa eu te contar, eu vi a reportagem que a mulher de Renan fez pra denunciar essa pouca vergonha de traficante e droga. -- bebeu um gole de refrigerante -- Não tinha idéia que aquele produto do benzeno lá tava servindo de disfarce pra chegar tanta tranqueira nesse país! -- mexeu no bigode -- De onde a gente menos espera, vem uma surpresa ruim!
--É, o negócio era engenhoso e muito bem urdido! Tomara que se faça justiça e essa coisa toda tenha um fim!
--A menina teve que fugir, né? Quando é fé podiam matar a pobre ou o marido... -- balançou a cabeça -- Tá tudo errado mesmo...
--Pois é... -- respondeu e bebeu um gole de suco -- "Onde será que ele quer chegar?”
--Eu cheguei a ficar chateado com a menina por causa dos prejuízos que tomei tendo que trocar de produto, mas sabendo que tinha droga no meio a coisa muda de figura... -- pausou -- Meu sobrinho mais velho morreu da tal de overdose... -- olhou para a morena -- Eu vim te procurar pra dizer que você também pode contar com minha proteção! Meus homens vão tomar conta de ti.
--Hum... -- não sabia o que dizer -- Obrigado.
--Não me agradeça! Vocês deram oportunidade pro meu menino especial e me ajudaram a colocar nos eixos o outro que só dava dor de cabeça. O tempo que ele trabalhou lá com Renan foi muito bão, e agora tem me ajudado na lide com as fazendas!
--Fico feliz com isso. -- sorriu -- E seu menino especial trabalha muito bem. Ele tem me ajudado bastante.
--Ele nem pensa em sair da oficina! -- riu -- Só que tem um problema agora...
--Qual? -- perguntou curiosa
--Tá apaixonado por você! -- bebeu refrigerante
--Ah, é?? -- não imaginava
--Mas eu já conversei com ele. Falei assim, com muito jeito... -- abriu as pernas -- pra não magoar, sabe como é?
--Posso imaginar. -- respondeu com descrença
--Eu disse: “-- Menino, deixa eu te falar, tira Seyyed da cabeça! Ela é casada!”
--Tá certo! -- balançou a cabeça
--E continuei dizendo: “-- Ela é mulher macho, não quer saber de homem pra nada! Só pra trabalhar na oficina! Você tem que gostar é de mulher fêmea!”
A morena balançava a cabeça com vontade de rir. “É cada coisa que a gente ouve...” -- pensou
***
Marciano levou Seyyed para casa e foi embora. Ela tomou um banho, lanchou e ligou para Isa e a mãe para conversar um pouco. Tarde da noite foi para a varanda e ficou olhando para o céu. Era uma bela noite estrelada.
Sentou-se em uma cadeira de palha e ficou perdida em pensamentos a contemplar as estrelas. Podia se lembrar do Príncipe dos Poetas Brasileiros recitando: "Ora (direis) ouvir estrelas! Certo. Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto, que, para ouvi-las, muitas vezes desperto e abro as janelas, pálido de espanto...”
Uma saudade estranha invadia-lhe a alma. Ela não entendia do que sentia falta. Seria do passado? De quando todos estavam juntos e felizes? Seria dos que já partiram? Ou talvez da época em que seu corpo era perfeito? Muitas coisas haviam mudado em pouco tempo e nem toda mudança é bem recebida. Será que ela se ressentia por não saber se habituar à nova realidade?
A morena passou a mão sobre o rosto e se lembrou do tempo em que não havia uma cicatriz a testemunhar uma violência que lhe foi imposta. Olhou para a mão e para a perna e lamentou-se em silêncio pelas conseqüências de uma atitude impensada. Fechou os olhos e pensou no tempo em que a ESSALAAM era uma realidade, Silvio e Renan trabalhavam com ela, Tatiana podia viver com tranqüilidade e dona Lourdes estava presente. Lembrou da época em que o grande problema de Anselmo era se complicar com amantes e Ana era apenas uma mulher deslumbrada, ainda longe de se envolver com magia negra.
“Que pena...” -- lamentava em sua retrospectiva mental -- "que pena...” -- abriu os olhos e suspirou
Algumas mudanças chegam e se impõem sobre nossas vidas de uma tal forma que parecem irreversíveis. É uma tendência natural do ser humano lutar contra isso e buscar o passado para se refugiar. Às vezes transformamos o passado em algo até mais esplendoroso do que realmente foi e permanecemos iludidos vivendo a lembrança de coisas que não voltarão. Isso nos impede de transformar o presente em uma oportunidade rica e construir um futuro melhor.
--Não, eu prometi que não iria me lamentar! -- falava sozinha -- Não vou dar margens a pensamentos tristes! -- levantou-se
Olhou para o céu mais uma vez e admirou o pisca pisca errático das estrelas que nos cercam.
https://www.youtube.com/watch?v=39tzs3lNjlM
--“Mas não é a primeira vez que me sinto assim...” -- pensava -- "Há anos que uma nostalgia inexplicável toma conta de mim em alguma momentos, e eu sinto saudade de uma coisa que nem imagino... Ou será de alguém?”
“Siento que te conozco hace tiempo,
De otro milenio, de otro cielo...”
Olhos verdes brilharam em suas lembranças.
“Dime si me recuerdas aún,
Sólo con tocar tus manos,
Puedo revelarte mi alma,
Dime si reconoces mi voz...”
O vento suave parecia cantar...
A quilômetros dali, Camille estava em casa, olhando o céu pela janela e se lembrando de uma vez em que Seyyed beijara sua testa.
“Siento que me desnudas la mente,
Cuando me besas en la frente,
Dime si trago marcas de ayer...”
Lembrou de quando suas mãos acidentalmente se tocavam.
“Sólo con tocar tus manos,
Puedo revelarte mi alma,
Dime si reconoces mi voz...”
Seyyed e Camille uniram-se por segundos naquele exato momento, apenas pelo pensamento.
“Siento que te conozco,
Siento que me recuerdas,
Dime si reconoces mi voz...”
A loura fechou os olhos e chorou de saudade.
A mecânica pensou em Isabela. “É a mulher que eu amo, é a mulher que eu quero!”
“Siento que te conozco,
Siento que me recuerdas,
Dime si reconoces,
Mi voz.”
Marcas de Ayer - Adriana Mezzadri [a]
***
--Fazia tempo que você não vinha aqui! -- Ivone dizia ao se sentar -- Desde que foi pra Salvador não mais a vi.
--Minha vida agora é uma correria só, Ivone. -- Camille sentou-se
--Imagino que seja. -- olhava para a jovem -- E como vão as coisas?
--Meu, tenho cada coisa pra te contar que você vai ficar é besta! -- ajeitou-se na cadeira -- Mas antes de mais nada, queria te dizer que sou solidária na sua dor. Entendo que você não se assume por causa do teu trauma! -- pausou -- Não vou mais lhe cobrar pra que saia do armário!
--Ah! Agradeço pela sua compreensão. -- a psiquiatra achou graça -- "Ela realmente acredita que sou lésbica! Ô menina...” -- pensou divertida
--Bem, vamos começar que a conversa é longa! -- olhava para a outra -- Terminei com Letícia! Ela andou insistindo pra gente voltar, mas fui irredutível e acho que agora ela desistiu...
--E você de fato não deseja voltar pra ela?
--Não... Não dá mais! -- pausou e permaneceu uns segundos em silêncio -- Ontem eu estava sem sono e fiquei olhando o céu... -- dizia -- Senti uma saudade tão grande de Seyyed como nem sei explicar... -- olhou para Ivone -- Às vezes, amar aquela criatura louca me dói tanto... É como se me faltasse um pedaço... -- suspirou -- Que merd*!
--É realmente muito difícil desejar viver um relacionamento com alguém e essa pessoa não se dispor a isso. -- a psiquiatra respondeu -- Mas são as coisas com as quais nós precisamos aprender a lidar. Da mesma forma quando a companheira ou o companheiro morre, nós precisamos reaprender a viver.
--Eu tenho conseguido viver com isso até numa boa, mas às vezes tenho umas recaídas que... ô louco! -- balançou a cabeça
--E será que essa recaída não foi motivada pelo término de seu namoro com Letícia?
--Deve ser... -- esfregou as mãos no rosto -- Ai, Ivone, aquilo tudo foi uma confusão tão grande... -- olhou para a outra -- Letícia me deixava transtornada com aquela insistência pra experimentar posições novas, creminhos especiais, vibradores dos mais diversos... -- balançou a cabeça -- Meu, você tinha que ver! Era cacete de todas as cores, texturas e tamanhos! Acredita que tinha um até com cara de porco? Vê se eu vou deixar um porco fuçar minhas entranhas? Imagina!! -- cruzou os braços revoltada -- Ô louco!
--Nossa! -- Ivone riu
--Letícia é pior que Madonna na época daqueles clipes eróticos de ch*par dedo de pé de modelo e sabe-se lá mais o que! -- fez cara feia -- Ela é muito ligada na sacanagem e essa era a nossa maior diferença!
--Vocês têm expectativas diferentes em relação ao sex*.
--Põe diferentes nisso! -- afirmou -- Ela foi passar o carnaval comigo lá em Salvador. Alugamos um carro, passeamos pela Linha Verde, visitamos praias super lindas... A droga foi que Letícia levou na bagagem o kit sadomasô e aí não deu certo!
--Deduzo que o desentendimento que levou ao término do namoro começou daí. -- olhava para a loura
--Daí e de mais todas as outras discussões por causa de sex*. -- pausou -- Só que esse lance foi a gota d’água.
--Entendo...
--E você não sabe o que aconteceu! Levei Letícia pro aeroporto pra me despedir, pois afinal de contas sou uma mulher civilizada, e adivinha quem encontrei no banheiro? -- bateu uma palma
--Quem? -- perguntou curiosa
--Ninguém menos que Fátima! -- afirmou enfaticamente
--Meu Deus, que interessante! E o que ela estava fazendo na cidade?
--Foi participar de uma competição. -- debruçou-se sobre a mesa de Ivone -- E ficou no mesmo hotel que eu, acredita?
--É, esse encontro tinha que ser!
--Pois é! -- ajeitou-se na cadeira novamente -- E ela recebeu uma proposta muito da bem remunerada pra ir nadar na China. É mole?
--Estou boba! -- exclamou balançando a cabeça
--Ah, mas eu não contei tudo! Ela foi me procurar pra contar essa notícia. -- olhou para as mãos -- E me disse coisas que tocaram fundo em mim... -- pausou -- E eu precisava me sentir aceita, amada, valorizada... também achava que ela merecia de mim uma noite especial... -- olhou para a outra -- Então aconteceu...
--E como foi? -- perguntou com jeito -- Creio que não se tratou de apenas uma noite de sex* ou de uma forma de se vingar de Letícia...
--Claro que não! -- respondeu convicta -- Foi bonito, intenso, carinhoso... foi muito bonito... a cumplicidade que existe entre nós é... -- sorriu -- Fátima me faz muito bem...
--Vocês estavam se despedindo não é? E ao mesmo tempo você queria se desculpar pelo que aconteceu no passado.
-- É isso mesmo! -- ficou surpresa -- Ivone, vou te contar, viu? Fico besta em como você entende de sapatanice!
A psiquiatra riu. -- São muitos anos ouvindo e analisando pessoas, meu bem. Homo e heterossexuais.
--Sei... -- respondeu descrente -- E olha que ainda nem contei a parte bombástica da coisa!
--Qual é essa parte? -- achou graça
--Fiz com Fátima o que nunca tive coragem de fazer com Letícia.
Ivone tinha pontos de interrogação na cabeça.
--Aquela coisa, criatura! -- respondeu impaciente -- Comi melado e me lambuzei!
A psiquiatra riu gostosamente. -- Ai, ai, Camille... -- balançou a cabeça -- Você diz cada coisa. -- olhou para ela -- E o que lhe motivou a deixar acontecer?
--Não sei dizer. Acho que nem pensei e fui. -- pausou -- Na hora H eu gostei, especialmente por perceber que dava prazer a ela. Depois fui pro banheiro como quem não queria nada e lavei a boca com fé! Usei até um anti séptico bucal. -- fez cara feia -- Eu ainda não vejo essa coisa de cair de boca em periquita alheia com bons olhos...
Riu novamente. -- Tudo bem. Cuidar da higiene é muito importante e às vezes as pessoas se esquecem disso na hora do sex*. Sejam hetero ou homossexuais.
--E por que será que tive coragem com Fátima e não com Letícia? -- perguntou intrigada
--Porque Fátima não fez cobranças. Nunca fez. E Letícia não lhe inspirava confiança pra fazer algo que lhe parece muito... complicado.
--É, deve ser... -- pausou -- Acredita que ela encontrou uma palestrante do tributo no dia que voltou de Salvador e passou a noite com a mulher? -- fez cara feia -- Como confiar em alguém assim? Letícia pula na cama de alguém com uma facilidade que me assusta!
--Mas você há de convir que namorar com ela foi bom pra você sob vários aspectos.
--Isso é... Eu não guardo mágoas dela e ainda a admiro sob vários aspectos, mas não seremos amiguinhas de frequentar a casa uma da outra...
--Talvez no futuro vocês possam ser amigas sem maiores complicações.
--Talvez... O que eu sei foi que decidi que quero voltar a minha inoperância. Esse negócio de relacionamento é um troço muito complicado! Chega de mulher na minha vida, meu!
--Tem certeza disso?
--Absoluta! -- respondeu resoluta -- Letícia já era, Fátima foi pra China, Seyyed tá mais casada do que nunca e ainda passa a maior parte do tempo em Goiânia... Só me resta você, mas esse amor é impossível! -- olhava para o outra -- Me perdoe, Ivone, mas não dá! Vamos preservar a ética nesse negócio!
Fez força para não rir. -- Claro!
--E também não quero saber de você me alcovitando com ninguém, viu? -- advertiu
--Eu?! -- perguntou achando graça -- Nunca fiz isso!
--Sei... -- olhava desconfiada -- Você e aquela caipira não descansaram até me ver namorando! Aí deu no que deu!
--Nós?! Mas eu nem a conheço!
--E é bom que não conheça mesmo! As duas juntas eu não vou agüentar! Aliás, vou ligar pra ela e dar esse mesmo aviso: chega de alcovitice na minha vida! Coisa feia, ô louco!
--Pode deixar que eu nada direi. -- prometeu
--Mamãe é que sabe das coisas, viu? Ser celibatária é o melhor que se pode fazer! Depois dessa coisa toda eu já fiquei cheia de cabelo branco!! -- passou a mão nos cabelos
Ivone olhou para Camille procurando em vão pelos fios brancos.
14:20h. 01 de outubro de 2006, Thames Footpath, arredores da Tower Bridge, Londres, Inglaterra
Renan esperava Tatiana voltar de uma reunião. Já não agüentava mais. Contemplava a paisagem sem muito interesse.
--Demorei? -- ela o abraçou beijando seu rosto
--Que susto! -- olhou para ela e a beijou -- Nossa, eu não agüentava mais esperar! Já tá fazendo um frio louco!
--Vamos andando pra pegar o metrô! -- começaram a andar de braços dados -- Você podia ter me esperado dentro de algum dos restaurantes que têm por aqui!
--Eu não! Esses garçons indianos falam um inglês que eu não entendo! Não tava a fim de pagar mico hoje!
A jornalista riu. -- Ai, ai, meu pretinho...
--E então? A tal da reunião deu no que? -- olhou para ela curioso
--Renovaram meu contrato por mais seis meses. Continuo âncora de uma das maiores redes de jornalismo do mundo! -- sorriu -- Também já sei onde e como a gente pode votar. Juliana não vai perder nossos dois votos!
--Mas e nossa vida como fica? -- parou de andar e olhou para ela -- Nossa vida nesse país é muito complicada, Tati! Você não ganha bem e eu vivo de bicos aqui e ali consertando os carros desse pessoal que você me indica!
--Renan... não dá pra voltar pro Brasil agora... -- tentava argumentar
--Tudo nesse país é caro demais! A gente mora mal, come mal... E além do mais eu tenho pena de Ed sozinha tocando a oficina em Goiânia. Seus pais ainda estão em Pau d’Arco e Tamires nunca fica na cidade... Ed não tem companhia e isso é muito ruim! Como fica o casamento dela?
--Calma, meu amor! -- segurou o braço dele e voltaram a andar -- Se Deus quiser nada de mal há de acontecer no casamento dela. -- respirou fundo -- Mas agora eu não posso voltar. Nós não podemos!
O mecânico se limitou a suspirar. -- Eu não entendo essas coisas! No país dos outros você tem mais liberdade do que no seu!
--Mas isso não vai durar pra sempre, tenha certeza!
--Assim espero! -- começaram a cruzar a ponte -- Morro de saudades de mamãe, de Ed, Ricardinho, de todo mundo... e do Brasil, é lógico! -- pausou -- E que saudades de um prato de feijão com arroz!
Tatiana riu. -- Deixa eu te falar, nós vamos fazer uma viagem daqui a três semanas.
--Ah, é? -- perguntou espantado -- Pra onde?
--Pra Tchetchênia. -- respondeu naturalmente
--Tatiana!! -- parou de andar no meio da ponte -- Você embirutou de vez, é isso?? -- arregalou os olhos -- A gente vai fazer o que em um país devastado pela guerra??
--Vamos andando, homem! -- segurou o braço dele -- Ficar parada aqui no meio da ponte pegando esse vento frio, num dou conta, não!
--Vai me responder ou não? -- continuava em choque
--Sabe-se que de 1994 até hoje cerca de 25 mil crianças na Tchetchênia perderam um ou ambos os pais. E essas crianças vivem nos escombros, nos esgotos, em caixas de papelão...77 Chega dói pensar! -- olhou rapidamente para o marido -- Vou lá pra fazer uma reportagem sobre isso e denunciar o que se passa.
--Ah, então foi por isso que eles foram tão bonzinhos nos oferecendo asilo e um contrato temporário pra você! -- concluiu -- Eles querem é uma bucha de canhão pra mandar pra guerra, isso sim! -- protestou
--Não é isso! -- riu -- Dois outros repórteres irão conosco e mais uma guia russa. Nós vamos pegar um avião até Vladikavkaz, na Ossétia do Norte, e então seguir pra Grozni, capital da Tchetchênia. -- explicava -- Eles vivem momentos de tensão até hoje. Ano passado um ataque russo matou até o presidente!
--Humpf, que maravilha! E gostando de gente da nossa cor do jeito que esse povo gosta a gente tá é frito! E não vai dar nem pra se esconder. Seremos dois gatos pretos no campo de neve! -- continuava reclamando
Ela riu de novo. -- Eu os convenci de que você seria útil pois não teremos mecânicos de confiança por lá, e aí todos concordaram. -- explicava -- Nós vamos viver na casa de uma senhora em Grozni que mantém um orfanato com quarenta e nove crianças. Podemos ajudá-la durante nossa estadia.
--E quanto tempo vai durar isso, hein, Tatiana? -- perguntou desconfiado
--Ah... uns... quatro meses...
--O que???????? -- deu um grito
Chegaram até a estação de metrô.
--Mas, claro... se você não quiser ir... -- olhava para o chão -- eu vou só...
--Mas nem por cima do meu cadáver! -- protestou -- Se é pra ver a coisa ficar russa e morrer na guerra iremos os dois! Já larguei tudo pra te seguir, então... Quem tá na chuva é pra se molhar, né não? -- sorriu
Tatiana pulou no pescoço dele e o beijou. -- Eu te amo, meu lindo! -- sorria
--E esse amor vai acabar me matando! De um jeito ou de outro! -- brincou
Beijaram-se apaixonadamente diante dos discretos olhares dos londrinos.
***
Mariano havia acabado de voltar do colégio de Ricardinho e decidiu parar em um bar para beber um refrigerante. Enquanto se refrescava prestava atenção em uma reportagem sobre as conseqüências do furacão Katrina em Nova Orleans, nos Estados Unidos.
--Passado pouco mais de um ano, pouca coisa mudou. Ainda podem-se ver as marcas da destruição. -- a repórter dizia enquanto imagens da cidade eram exibidas
--Que coisa! -- Mariano exclamou -- Depois dizem que é só aqui...
--Pessoas como o brasileiro Ricardo Pereira Zanini falam sobre o que perderam. -- a repórter continuava a narrativa
--O que??? -- Mariano se engasgou com o refrigerante e se babou todo
--Calma, mermão! -- o dono do bar veio correndo com um pano na mão
--Eu levei o maior tempo pra conseguir conquistar alguma coisa aqui nesse país. Morei em vários lugares e finalmente parei em Nova Orleans porque me pareceu um lugar mais acolhedor e cheio de possibilidades... -- desabafava -- Eu já tinha um furgãozinho e vendia cachorro-quente pro pessoal, mas aí veio o Katrina e destruiu tudo! -- olhava para as câmeras -- Hoje eu tô vivendo em um abrigo do governo, mas não dá mais. Acho que vou pra outro lugar. Isso aqui vai demorar muito pra voltar a ser o que era!
Mariano continuava engasgado. -- É meu filho! -- passou um guardanapo nos lábios e apontou para a TV -- Meu filho!
--Muitos habitantes da região perderam tudo o que tinham e estão vivendo em abrigos públicos. -- a repórter continuava
--Mas tu foi fazer filho longe, hein, parceiro? -- o dono do bar respondeu após secar o balcão e se afastar
O contador sentia o coração bater acelerado. Fazia muitos anos que não via o filho e foi um verdadeiro choque ter notícias dele daquela forma. “Então ele tá morando em Nova Orleans?” -- pensava -- "Ricardinho envelheceu muito com os anos... sempre teve cara de menino mas agora parece mais velho do que realmente é...”
Queria muito reencontrá-lo mas julgava isso impossível.
***
Priscila chegava em casa. -- Lady, cheguei! -- anunciou em voz alta
--Olha a outra mamãe aí, neném! -- disse para a menina em seus braços -- Estamos no meu quarto, Pri! -- respondeu em voz alta
A dentista entrou no quarto e sentou-se no chão: -- Deixe eu trocar de roupa e tomar um banho que volto pra dar um beijinho nela! Agora estou com aquela ‘coisa’ hospitalar no corpo! -- sorriu -- O que aconteceu de interessante aqui hoje? -- perguntou curiosa
--Nós passeamos no aterro de manhãzinha, voltamos pra casa e ouvimos os sucessos da Suxa, eu contei historinha pra ela... e foi isso.
--Que bom!
--A única coisa ruim foi que por volta de umas onze e meia essa menina passou mal! E vou te dizer, Pri! Que criança de personalidade, viu? Ela chorou como se fosse a última vez!
--Nossa, e por que? -- ficou preocupada -- Tadinha da minha neném, gente! -- falou com voz de criancinha
--E quem sabia? Lila estava aqui comigo e ficamos loucas! -- comentava -- Ela até fez uma mentalização pra nossa Priscilinha, fez cromoterapia, alinhou os chakras, acendeu dois incensos, mas coisa alguma dava resultado!
--Imagino! -- fez um bico -- E como o problema se resolveu? O que a fez parar de chorar?
--Ah, eu tava com ela no colo cantando os sucessos Wanessa Camargo quando Priscilinha meteu a boquinha no meu peito. Aí me deu aquela intuição, coloquei ela pra mamar e acabou-se o choro!
--Mas pelo amor de Deus, hein, Lady? -- levantou-se revoltada -- A menina tava era com fome!
--E como eu ia saber disso? Os bebês não vêm com manual de instruções, amiga!
--Coitada dessa criança! -- revirou os olhos -- Vê se não deixa Priscilinha passando fome! -- foi indo para o banheiro -- E você cantando os sucessos de Wanessa Camargo? Eu digo e repito: coitada dessa criança!
--Priscila chega do trabalho estressada! -- Lady resmungou -- Como é que eu ia saber que minha enviadinha queria mamar? -- olhou para a bebê -- Perdoa mamãe, viu, minha lindinha! É que eu sou nova nisso de ter neném. -- beijou a mãozinha dela
Minutos depois Priscila estava sentada na cama de Lady com a criança nos braços. Nisso Lila chegou.
--Gurias, trago boas novas! -- entrou no quarto da jovem mamãe -- Estou formada! -- sorria
--Que bom, Lila! -- Lady bateu palmas empolgada
--Até que enfim, né? -- a morena respondeu -- Liga pro teu pai avisando. Pelo menos ele vai saber que não gastou dinheiro em vão.
--É, eu vou ligar... mas não hoje. -- sentou-se na cama também -- E como vai a nossa fofinha? Como vai? -- sorria para a menina -- Mas, bá, Priscila, -- olhou para a dentista -- como essa piazinha chorou daí!
--Claro, né? Passando fome! -- olhou para Lady
--Eu já me expliquei!
--Fui nervosa pra defender minha monografia. Meditei no ônibus e foi o que me valeu.
--Não acredito que você ficou fazendo aum no ônibus! -- a morena respondeu chocada
--Vocês que cismam com isso de ‘aum’! Eu meditei sim e foi o que me deu paz.
--Meu destino é viver cercada de loucas! -- olhou para o neném -- Por favor, Priscilinha, seja minha esperança de que nem tudo tá perdido! -- pediu
--E como foi a defesa, Lila? Eu nem sei qual foi o tema de sua monografia.
--Lady, pois o tema foi: -- levantou-se da cama e gesticulou olhando para cima -- Os desafios do ensino da língua portuguesa frente à impossibilidade das palavras em descrever adequadamente o aspecto transcendental da realidade pulsante.
--Nossa, que coisa semântica! -- Lady exclamou
--O título era isso tudo? -- Priscila perguntou espantada -- Minha nossa!
--E foi maravilhoso! -- respondeu enfática -- Gurias, nem sei descrever a emoção da banca e de minha orientadora enquanto eu explicava que -- fazia seus salamaleques -- nossas palavras e conceitos nascem no reino dos sentidos e do intelecto, os quais são incapazes de perceber o fenômeno da Vida Maior em sua pujança absoluta!
--Nossa, que coisa forte! -- Lady se impressionava
Lila se empolgou e continuou a falar: -- “Cestas de pescaria são utilizadas para pescar; quando o peixe é pego, os Homens esquecem as cestas; as armadilhas são utilizadas para caçar lebres; uma vez que estas são pegas, os Homens esquecem as armadilhas. As palavras são utilizadas para expressar idéias; mas quando se apoderam das idéias, os Homens esquecem as palavras.”78
--Eu nunca entendo essas suas citações!
--Humpf! -- Priscila fez um bico -- E a banca gostou disso aí? -- perguntou descrente
--E eu não disse? Todos foram ao delírio! Quando eu citei o famoso estudioso da semântica, Alfred Korzybski, e falei: -- fazia caras e bocas -- “o mapa não é o território”, a comoção foi generalizada!
--Tem gosto pra tudo! -- a dentista retrucou -- Mas o importante é que você está formada!
--E com serviço até o final do mês! Minha orientadora e minha banca se interessaram por meus tratamentos áuricos e afins, ainda mais que fiz um precinho camarada... -- sorriu -- Sabe como é, professor ganha pouco e a categoria tem que se unir, daí!
--Mas você vai ficar a vida toda enrolando o povo? -- Lady perguntou de cara feia -- Hora de procurar emprego e trabalhar como se deve!
--Olha quem fala! -- olhou para a outra desaforada -- Tu disseste que ia trancar um período e trancou dois! Só te formas no ano que vem e ainda fica querendo me dar lição, tchê?
--Pera lá, minha filha! -- Priscila se levantou furiosa com o bebê nos braços -- Ela não destrancou a matrícula porque a menina ficou doente! Como é que ia ser? Lady precisou ficar em casa pra cuidar da bebê!
Lady suspirou orgulhosa. “Minha marida me defende!” -- pensou embevecida
--E de mais a mais ela sempre foi estudiosa, boa aluna e com boas notas. Se andou mal das pernas foi porque sofreu por conta daqueles namorados bomba que ela arrumava.
“Naquela época eu não sabia que o amor morava ao lado...” -- pensou balançando a cabeça -- "Ô sina bandida...”
--Eu vou tomar um banho! -- a mística olhou para as duas -- Com licença! -- saiu do quarto
--Pode fugir, mas vai ter que arrumar emprego, viu? -- a morena falou em voz alta -- Onde é que já se viu! Lila querendo se comparar com Lady! -- resmungava
--Ai, Pri, não se aborreça! -- Lady foi até ela e ficou acariciando seu braço -- Eu prometo que me formo no ano que vem e arrumo um emprego! Eu disse que ia fazer meu projeto de fim de curso, não disse? E fiz e defendi!
--Eu confio em você! -- a dentista olhou para ela -- Lila pensa que me enrola mas eu tô de olho nela!
--Releve, amiga! Ela tem inveja de nossa felicidade! -- olhou para a criança -- E da nossa bebê!
--Sei lá! Lila é esquisita, ela parece que não gosta de ninguém! E, aliás, sabe que eu nem sei qual é a dela? -- olhou para Lady -- Acho que ela não gosta nem de homem e nem de mulher! Lila é moneysexual.
Lady riu. -- Vai saber... -- olhava para a morena -- "Essa era a hora em que eu deveria dizer a Priscila que ela é lésbica, mas será que ela tá preparada?” -- pensou cheia de dúvidas
***
Isabela chegava em casa após mais um dia de trabalho. Começavam os ensaios de um musical do qual faria parte em novembro, junto com a Companhia de Dança de sua universidade. Estava exausta.
--Oi ruiva! -- Ed cumprimentou. Estava sentada na poltrona
--Oi amor!!!!!!! -- correu até ela para sentar-se no colo e beijá-la -- Que surpresa maravilhosa! -- sorriu
--Tava morrendo de saudades, sabia? -- beijou-a de novo -- Que tal tomar um banho comigo e jantar? -- sorria -- Preparei uma refeição leve pra nós e tô mais do que disposta a cuidar da minha ruiva com todo carinho.
--Ai, que delícia! -- mordeu o lábio inferior -- Eu quero! -- envolveu o pescoço da amante com os braços
--Então, vambora! -- levantou-se com a bailarina no colo
--Ed? -- arregalou os olhos -- Você não pode fazer isso!
--Eu vou andando devagarinho me roçando na parede... -- ia para o banheiro -- não vou fazer feio, não! -- sorria
--Você nunca faz feio, Ed! -- beijou o rosto dela -- Nunca!
***
Seyyed acordou e surpreendeu Isabela na cozinha preparando o café da manhã. Vestia uma camisola sensual e parecia não usar roupas íntimas. A morena encostou-se na porta e ficou olhando maliciosamente para a ruiva.
A bailarina caminhou até a fruteira para pegar duas bananas e só então percebeu que estava sendo observada. -- Oi, Ed! Bom dia! -- sorriu e descascou as frutas -- Não vi que estava aí.
--Sabe, Isa... às vezes eu acho que você pensa que porque me acidentei, -- caminhava lentamente até a ruiva -- fiquei mais devagar... -- olhava para ela de cima a baixo
--Eu não penso isso. -- virou-se de costas para ela para cortar as frutas -- E se pensasse, depois da noite de ontem já teria mudado essa idéia...
--Pois não parece! -- abraçou-a por trás e sussurrou no ouvido dela -- Porque do contrário não se vestiria assim na minha frente...
--Ai, Ed, deixa de ser safada... -- fez um dengo
--Eu quero você agora! -- continuava sussurrando
A bailarina ficou arrepiada. -- A gente tem que tomar café... -- sorria
Sem que esperasse a mecânica puxou-a com força e a colocou sentada sobre a mesa. -- Agora! -- falou com decisão
--Ai, Ed... -- ficou excitada
A morena beijou-a com desejo e arrancou a camisola da amante apressadamente. Isabela puxou a blusa de Ed para despi-la e empurrou seu short para baixo com os pés.
--Ah! Eu adoro que você me devore desse jeito... -- inclinou o tronco sobre a mesa
--Gostosa... -- mordia e beijava os seios da amante com ansiedade
--Ai, amor... -- fechou os olhos e sorriu -- Você é o máximo...
Ed seguiu beijando, mordendo e lambendo o corpo da ruiva até chegar no sex* dela, onde se deteve por pouco tempo.
--Ai... -- gem*u decepcionada
--Calma, minha gata. -- mordiscou um mamilo -- Eu quero mais de você... -- lambia a pele da parceira
--Ai, amor... -- segurou-a pelos cabelos -- Você me deixa doida... -- sorria
Seyyed segurou-a pela coxa e penetrou-a com os dedos. -- Eu quero ouvir você gem*r! -- sussurrou no ouvido dela
--Ah!! -- abraçou a morena com força, arranhando suas costas -- Ah!!
Ed não parava de beijá-la e mordê-la, alternando sua atenção entre os seios, o pescoço e os lábios da ruiva. Penetrava-a com força, mas com cuidado para não machucá-la. Sabia o jeito certo de provocar sua mulher.
--Ah, ah, ah, ah!!! -- gemia enquanto arranhava as costas da morena
--Quer goz*r, minha delícia? -- perguntou com um sorriso safado
--Ai, Ed... -- gemia -- Não pára, vai... -- pediu ansiosa
--Eu vou dar o que você quer! -- beijou-a e mergulhou entre suas pernas
--Ahh!!! -- deitou-se na mesa
Em poucos segundos Isabela chegou ao orgasmo. E a campanhia tocou.
--O que?! -- a mecânica perguntou em choque
--Gente! -- a ruiva se sentou com dificuldade -- Ai, Ed... -- suspirou -- quem será? -- perguntou espantada
--Vamos ver! -- começou a se vestir enquanto a campanhia continuava tocando -- Calma aí! -- falou alto e entregou a camisola de Isa nas mãos dela
--Eu não tô esperando ninguém! -- a bailarina se vestiu
--Eu vou ver quem é! -- foi caminhando para a sala
Isa se levantou e respirou fundo. “Nossa, quando ela me pega assim...” -- sorriu -- "eu fico até mole...” -- passou a mão nos cabelos
Ed olhou pelo olho mágico e viu um rapaz. Abriu a porta desconfiada. -- Sim?
--Oi, morena! -- sorriu -- Eu sou o novo síndico e queria falar com a Isa.
--Isabela, você quer dizer! -- respondeu com seriedade -- E eu moro aqui também, pode falar comigo. -- estava com a cara feia
--Ah, é? Eu nunca te vi por aqui... -- ficou sem graça
--O que deseja, hein? -- estava impaciente
--É... eu vim trazer a notificação da reunião do condomínio. -- mostrou um pedaço de papel
--Tá entregue! -- pegou o papel da mão dele -- Só isso? -- continuava de cara feia
--Só. Bom dia! -- encaminhou-se para ir embora
--Bom dia! -- fechou a porta e foi para o banheiro lavar o rosto
Ao entrar na cozinha, Isa perguntou a ela: -- Quem era, amor? -- preparava a mesa para o desjejum
--O novo síndico querendo te dar isso! -- mostrou o papel e o colocou sobre a mesa -- Sujeitinho saliente, viu? -- sentou-se de cara feia
--Ele dá em cima de mim. -- comentou naturalmente
--Ah, mas eu notei! -- fez um bico
--Mas ele não tem a menor chance! Nem ele e nem ninguém! -- sentou-se no colo da morena
--Não mesmo? -- envolveu a cintura da ruiva com os braços e olhou para ela com insegurança -- E a Divalina Lomba? Tem entrado muito no teu Orkut?
A ruiva riu. -- Divalina Lomba... eu não agüento esse nome! -- balançou a cabeça -- Diva posta um ou outro comentário pra mim de vez em quando, mas desde aquele vexame no restaurante tudo mudou.
--E você ainda tem o costume de sonhar vendo as coisas que ela divulga?
--Minha vida mudou, Ed. E mudou muito. -- acariciava o rosto da morena -- Uma carreira no exterior já não é minha prioridade. E isso não é o fim do mundo pra mim.
--Não mesmo, Isa? -- prestava atenção no rosto da amante
--Juro que não. Meus sonhos agora são outros.
--E quais são?
--Oferecer um sonho às pessoas! E uma visão de mundo mais romântica. -- sorriu
--Nossa, que lindo! -- respondeu emocionada -- Eu fico imensamente feliz em ver a mulher maravilhosa na qual você se transforma dia após dia!
--Você me pediu pra transformar o destino contigo, não foi?
--Foi! -- acariciou o rosto dela -- Eu te amo, Isabela Guedes!
--Também te amo, Seyyed Khazni! -- beijaram-se com carinho
***
Dezembro chegava e Juliana cuidava das coisas que iria levar para Brasília. Já havia decidido que não iria solicitar auxílio moradia, pois viveria em uma residência funcional com sua companheira.
--Suzana do céu, quando eu soube que um salário de deputada será algo por volta de R$ 26.700,00 e mais as cotas, 79 quase caí pra trás! -- mexia no armário -- Pra quem viveu a vida toda ganhando um salário de enfermeira!
--Essas cotas são pra que? -- a delegada estava deitada na cama observando a amante
--Pra um monte coisas. Tem a cota pro exercício da atividade parlamentar, que deve ser usada pra pagamento de passagens aéreas, telefonia, manutenção de escritórios, locação de transporte, combustíveis, hospedagem, contratação de segurança e por aí vai. Essa cota varia com a origem do parlamentar. -- continuava vasculhando o armário -- Tem também a verba destinada à contratação de secretários, a cota gráfica pra divulgação do trabalho, pra confecção de cartões, pastas... e mais uma cota pra assinatura de até cinco periódicos específicos.80
--Nossa! No final deve ser um baita de um salário! -- arregalou os olhos
--Pois é. -- olhou para a morena -- Juro que farei de tudo pra gastar esse dinheiro da forma como deve ser! E vou honrar cada centavo ganho com muito trabalho honesto!
--Eu acredito em você! -- sentou-se -- Sei que vai fazer um bom trabalho e ser uma deputada exemplar! -- sorriu -- Você vai ficar famosa nesse país, meu amor! Aposto que vai criar diversas propostas de lei!
--Com certeza! Vou infernizar a vida de quem não quer nada! -- falou com decisão
--Acho que nunca vou esquecer o dia em que soubemos que você foi eleita. -- a delegada sorriu -- Selma e Ruy enlouqueceram, dona Olga chorou emocionada, Ed e Isa ficaram eufóricas, enquanto Mariano e Ivo tentavam controlar Ricardinho e Mariana que faziam a maior bagunça! -- olhava para a japonesa -- Foi um dia inesquecível!
--Se foi! -- a enfermeira sorriu -- E graças a Deus tudo se resolveu bem! Não fui demitida e acabou aquela fofocada toda! -- colocou as mãos na cintura -- A única tristeza é que Débora não fala mais comigo e Guilherme fala mal de mim pra todo mundo!
--É assim mesmo, meu amor. Ossos do ofício.
--É... -- ficou pensativa e sorriu -- Sabe que também estou feliz porque vai ser a primeira vez, em anos, que vou passar natal e ano novo com vocês?
--Eu também tô feliz, mas só quero ver isso aí! Brito arrumou aquela casa maluca no Recreio e disse que até dia 20 ele põe tudo nos eixos. -- fez um bico -- Só quero ver!
--Dê um voto de confiança a ele, meu bem! -- beijou-a -- A festa vai ser muito boa, sim! -- voltou a se concentrar em suas coisas
--Eu vou acompanhar isso aí de perto. É muita gente convidada e se a casa não ficar pronta a tempo vai ser um fiasco! Os pais de Tatiana virão dessa vez, Tamires também confirmou e só Tânia e o marido é que estão devendo responder se podem vir.
--Fiquei feliz que Ivo, minha cunhada e Mariana também passarão as festas com a gente! -- olhou rapidamente para Suzana -- Ricardinho vai ter companhia pra brincar!
--Brito disse que Flávia e dona Mari querem levar um saco de areia pra treinar. Vê se eu posso com isso? -- riu
--Hum, novidade: a avó de Isa também vai. Ela falou que a avó se recusa a passar o final de ano com gente que abandonou a filha dela.
--Eu entendo... -- balançou a cabeça -- Ed me contou que Isa visitará o pai e a mãe no dia 23. Aliás é nesse mesmo dia que ela virá de Goiânia. -- suspirou -- É uma barra, viu?
--Eu sinto muito por Isa e Ed. -- Juliana respondeu pesarosa -- Elas estão passando por uma fase triste!
--E se Deus quiser vão sair dessa fase muito bem! Nós tivemos a nossa e superamos!
--Ed já pagou aos mecânicos? -- perguntou curiosa
--Já. Agora ela paga é ao banco, porque teve de pegar dinheiro emprestado.
--Vai dar tudo certo, se Deus quiser! -- olhou para cima e depois para a morena -- E Tatiana? Quando é que ela e o marido voltarão pro Brasil, hein? Dona Olga nem tem idéia!
--Nem eles dois têm! Mas acho que estarão de volta lá pra meados do ano que vem. Tatiana me mandou um e-mail ontem pra dizer que renovaram o contrato dela por mais seis meses. -- sorriu -- Sabia que os dois irão pra Uganda no começo de janeiro?
--Minha nossa! -- arregalou os olhos -- Não bastasse terem ido pra Tchetchênia agora me inventam mais essa de Uganda?
--Tatiana vai investigar os bastidores da guerra que se desenrola por lá. Recrutamento de crianças, essas coisas tristes! E ela gosta de viver perigosamente... Renan é que vai na onda! -- riu -- Coitado!
--E coitada de dona Olga que ainda não sabe dessa novidade!
--Falando nela, nós já combinamos tudo! Uma vez por mês eu virei pra continuar nossos trabalhos no centro.
--Fico feliz que esteja tão dedicada! -- sorriu -- Já ouvi comentários que você é uma excelente médium!
--Estou sendo bem orientada...
A enfermeira prestava atenção na delegada -- Mas por que eu noto uma tristeza no olhar de minha nhambiquara safada apesar de tudo? -- perguntou preocupada -- O que houve, hein, meu nenenzinho? -- fez beicinho
A morena abaixou a cabeça -- Eu tô feliz com o seu sucesso, mas me sinto envergonhada... Uma mulher como você precisa ter alguém melhor do seu lado e não uma delegada aposentada e transplantada...
“Hum... tadinho do meu nenenzinho... Ela se sente insegura!” -- a japonesa pensou -- Mas você sabia que essa coisa toda de ter sido eleita me despertou pra um detalhe muito importante? Serei um alvo! -- fingia seriedade
--Um alvo? -- continuava de cabeça baixa
--Claro! Os bandidos vão querer me pegar!
--Ah, não! -- protestou de cara feia
--Aí eu vou precisar de segurança! -- concluiu -- E também não posso contar com a segurança de qualquer empresa dessas aí que eu nem conheço! Tem que ser gente de confiança!
--De confiança! -- balançava a cabeça
--Então eu fiquei pensando, sabe? -- olhava para a morena -- Eu preciso, assim... -- fingiu que pensava -- de uma pessoa experiente no combate ao crime, que entenda de investigações, que tenha uma rede de contatos, que saiba como se comportar em situações de estresse, de perigo...
--De perigo... -- pensava
--E tem que ser mulher, porque não quero homem nos meus calcanhares!
--Homem não! -- concordou resoluta
--Então a conclusão foi imediata: preciso de uma delegada! -- afirmou enfática
--É!!! -- levantou a cabeça empolgada
--E quem melhor que a MINHA delegada particular? -- sorria para a morena
--É isso aí! -- Suzana levantou-se da cama excitada -- Eu vou ser sua guarda-costas! Quem quiser te fazer mal vai se ver comigo! -- falava ameaçadoramente
--Ah, mas eu sei! -- caminhou sensualmente até a morena -- Eu vou ser uma deputada chiquerérrima e você, -- envolveu o pescoço da amante com os braços -- minha protetora implacável cuidando de mim às 24 horas do dia! -- sorriu maliciosa
“And I,
Will always,
Love you,
I will always love you,
You, my darling you…”
--Dia e noite, -- levantou-a no colo e a colocou deitada na cama -- noite e dia! -- beijou-a
--Hum, minha guarda-costas... -- beijaram-se novamente
“I hope life treats you kind,
And I hope you'll have,
All you've dreamed of,
And I wished you joy,
And happiness,
But above all this, I wish you,
Love…”
Despiram-se uma a outra, lentamente, saboreando cada instante de pele nua como se fosse uma descoberta. Não importava que se conhecessem tão bem; a cada dia era como se fosse um novo amor.
“And I, will always love you
I will always love you
I will always love you
I will always love you
I will always love you
I, I will always love you, you…”
I Will Always Love You – Whitney Houston (MARAVILHOSA!!!) [b]
Juliana e Suzana se amaram com carinho e paixão por longos e deliciosos instantes, até que adormeceram nos braços uma da outra com milhares de idéias borbulhando em suas mentes. Sabiam dos desafios e das mudanças que se apresentariam invariavelmente diante de si, mas tinham fé em Deus, tinham uma a outra e tinham amigos. Não precisavam de mais. Elas estavam prontas para o que viria pela frente.
***
Isabela e Odete seguiam andando pelo jardim da clínica psiquiátrica onde Ana estava internada. Já tinham visto a mulher sentada em um banquinho e falando sozinha gesticulando com afetação.
--Lembre-se vovó: tente não chorar na frente dela e finja que é uma condessa. Mamãe tem uns acessos de fúria terríveis e não convém contrariar quando ela está bem -- Isa advertia -- Não fique chocada com o fato de que ela não a reconhecerá mais. Perdeu a lucidez e saiu da realidade totalmente.
--Não sabe como estou me esforçando pra não chorar desde que saí de casa! -- vinha de braços dados com a neta -- Será que esse tratamento vai dar certo? E o que estão fazendo no centro de Olga? De minha parte rezo todos os dias e fiz uma promessa pra Virgem Maria.
--Tenha fé! Vai dar certo! -- pararam perto de Ana -- Majestade!
Ana virou-se bruscamente para ver de quem se tratava. Olhou para a ruiva e sorriu. -- Ora, se não é Princesa Bela que sempre me visita! -- olhou para Odete -- Vejo que veio acompanhada.
A bailarina olhou para a avó e as duas fizeram uma reverência. -- Esta é a Condessa Odete, que está passando uns tempos em meu castelo. Falei de Vossa Majestade para ela e a Condessa se interessou em conhecê-la. -- sorria
--Oh, sinto-me honrada! -- saudou a mãe com um gesto de cabeça -- Seja bem vinda a meu reino Condessa Odete! -- apontou o jardim com orgulho
--É magnífico! -- respondeu sem saber o que dizer
--Vamos, sentem-se! -- mostrou o banquinho -- Hoje tive problemas com alguns súditos que se rebelaram, mas já está tudo sob controle. -- sentaram-se
--E como tem passado, Majestade? -- Isa perguntou
--Bem... mas ontem tive dor de cabeça. -- pôs a mão na testa -- Procurei por meu rei por toda parte e não o encontrei. Não sei por onde anda! -- fez cara feia demonstrando nervosismo
--Vossa Majestade me disse que ele está em campanha pra conquistar novos reinos. -- a ruiva tentou tranqüilizá-la -- Por isso não o encontrou.
--Então foi isso, não é? -- olhou para a filha -- Sim, foi isso! -- balançou a cabeça -- É por isso que não o encontro aqui! E reinar sozinha é complicado...
--É preciso ter muita competência pra administrar tamanho reino sozinha, mas Vossa Majestade tem competência de sobra! E nós estamos aqui para servi-la no que precisar! -- sorria
--Eu sei Princesa Bela, -- segurou a mão da ruiva -- eu sei! -- olhou para Odete -- E quanto a Condessa? Onde está o Conde?
--Sou viúva... Majestade. -- olhava para Ana com tristeza
--Entendo esse olhar... Dói perder o homem amado, não? É por isso que temo por meu rei! -- levantou-se rapidamente -- Acho que tem alguém me perseguindo! -- olhava para todos os lados
--Por que Majestade? -- Isa se levantou também
--Ouço vozes! -- puxou a ruiva para junto de si e começou a falar mais baixo -- Elas sussurram coisas na minha cabeça. Às vezes gritam, às vezes choram! Elas me mandam fazer coisas!
--Que coisas? -- Odete se levantou apavorada e com os olhos arregalados
--Mandam que eu me machuque, que me corte, que peça por sangue... -- segurava as mãos de Isa com força -- Mandam que eu faça coisas que nem me atrevo a dizer...
--Não ouça o que essas vozes dizem, Majestade! Não são elas que mandam na senhora, é a senhora que dá as ordens aqui!
--As vozes... elas me dizem... -- olhava nos olhos da filha -- que você mente! -- mudou a expressão do rosto
Odete rapidamente separou Ana e Isa. -- Elas é que mentem, Majestade! -- falava receosa -- Essas vozes são coisa do mal!
Ana soltou uma gargalhada diabólica e olhou para a filha com ódio. -- Eu sei que seus amiguinhos naquele centro idiota querem tirá-la de nós! E querem nos converter, acho até graça! -- sua voz tinha uma entonação diferente -- Mas ela será nossa refém até seus últimos dias e depois que esse corpo morrer. -- bateu no peito -- Será nossa por toda eternidade! -- gargalhou novamente
--Vovó, chama os enfermeiros. -- falou em voz baixa sem perder contato visual com Ana -- E rápido!
Odete vacilou um pouco mas partiu quase correndo.
--Vocês não têm mais poder do que Deus! -- respondeu com firmeza -- E eu não vou desistir dela! É minha mãe e eu a amo!
--Ah, que bonitinho! -- respondeu debochadamente -- A pequena sapatão dançarina ama a mamãe! -- sorria -- Ana já era, seu pai já era e você também! Nunca será uma bailarina famosa! Sua carreira será marcada pela mediocridade daqui pra frente!
--Isso não me importa mais! -- respondeu controlando a emoção -- Nós vamos libertar minha mãe de vocês e vamos ajudar pra que vocês também se libertem!
Novamente Ana gargalhou com vontade. -- Você é patética! -- respondeu sorridente -- Olha só como a gente controla a sua mamãe! -- mudou de expressão novamente e começou a se contorcer e se debater com fúria caindo no chão
--Meu Deus! -- gritou apavorada -- Mamãe, não, pelo amor de Deus, não! -- tentava segurar os braços da mulher mais velha que parecia dona de uma incrível força -- Não, por favor, não! -- gritava e chorava -- Meu Deus, por favor, misericórdia, misericórdia! -- pedia
Os enfermeiros chegavam correndo sendo seguidos por Odete. -- Rápido, rápido!! -- um deles gritou para os outros
Ana foi imobilizada pelos funcionários da clínica, mas não parava de gritar e blasfemar furiosamente. Um enfermeiro aplicou-lhe uma injeção e ela foi se acalmando devagar. Odete chorava nervosamente e Isabela acompanhava cada gesto da mãe com um enorme pesar.
Antes de fechar os olhos desacordada, Ana lançou um olhar suplicante para a ruiva e balbuciou: -- Me salve...
A bailarina abraçou-se com a avó e fechou os olhos pedindo a Deus para que ajudasse sua mãe a se libertar de uma tristeza tão grande quanto aquela. Isabela sofria como nunca imaginou que um dia pudesse sofrer, mas não perdia a esperança de que aqueles momentos de tribulação seriam superados. Ela podia ouvir no fundo de sua mente, uma voz doce a lembrá-la de que nenhuma ovelha se perderá no rebanho de Cristo Jesus.
E sua fé a mantinha firme e de cabeça erguida.
***
Camille e Aline conversavam em um barzinho.
--Então é amanhã que vocês vão acampar na tal casa no Recreio? -- olhava para a loura -- Eu bem que gostaria de passar um final de ano cercada de gente boa e tendo o mar como meu quintal... -- suspirou -- Ultimamente papai só sabe ir pra casa do meu tio, todo ano... e todo ano eles discutem e todo ano saem no pau e todo ano meu dia primeiro é passado em alguma unidade de atendimento de emergência esperando meu pai receber atendimento...
--Ô louco! Que coisa! E por que é assim? -- estava espantada
--Papai é vascaíno, meu tio é flamenguista e ambos são fanáticos. Acho que não precisa de mais explicação... -- fez uma cara de cansaço
--Eu hein? Brigar por causa de futebol! Enquanto isso os jogadores estão no bem bom e sem nem saber disso... Ou sem se importar se viessem a saber!
--Vai dizer isso pra eles... -- pausou -- E falando em homens, você ainda está com o tal do namorado misterioso?
--Não tinha nada de misterioso! -- retrucou -- E não! Terminamos já faz um tempo.
--Sozinha?
--Completamente!
--Eu também... não chove na minha horta! -- cruzou os braços -- Esses homens são um vexame! Metade só quer saber de mulher magra, jovem e bonita e a outra metade é gay! -- reclamou
--Calma, Aline... -- pedia -- Gente interessante e valiosa é complicado de se achar, enquanto que gente maluca parece até bolacha: em todo canto se acha! É melhor você demorar e no final encontrar alguém bacana pra namorar do que se pegar com um bisco!
--Pois eu tô de um jeito tal que até um bolachinha eu bem que gostaria de achar, viu? -- suspirou novamente -- Mas... minha baiana tá com pouca roda... Pouca roda? Que nada! Minha baiana tá é peladona mesmo! -- afirmou enfática
--Meu, então você tá bem! Uma baiana pelada vai fazer sucesso! -- brincou
--Ah, não te contei a novidade! -- lembrou -- Fui promovida!
--Oba, uma coisa pra gente comemorar! -- levantou o copo -- Bate aqui! -- Aline brindou com ela -- Ao seu sucesso!
--Sozinha, porém poderosa! -- sorria
--É isso aí! -- as duas beberam um bom gole do suco
--E você? Como vai no trabalho?
--Graças a Deus, tudo certo! -- respondeu animada -- Tem um monte de coisas pra eu fazer e não canso de me sentir desafiada! Meu chefe disse que se eu conseguir bater as metas no ano que vem serei promovida! E ainda corro o risco de ter meu nome na lista dos que serão contemplados com um MBA!
--Maravilha, amiga! -- levantou o copo novamente -- Solteira e poderosa você também!
--Tintim! -- brindaram de novo
O celular de Aline tocou e ela pediu licença para atender. Enquanto isso, a loura prestava atenção no ambiente. Ficou surpresa quando viu que Letícia chegava acompanhada por uma bela mulher.
“Ela não perde tempo...” -- pensou
A professora era toda cheia de cuidados e atenção com sua companhia. Sentaram-se em uma mesa destacada próxima a janela e Letícia ficou de frente para Camille, porém não tinha percebido isso ainda.
“Conheço aqueles olhares...” -- pensou com uma certa decepção -- "Ela agia comigo da mesma maneira... Fingida!”
--Ai, amiga, que saco, viu? -- Aline exclamou ao desligar o telefone -- Esse pessoal me enche o saco atrás de patrocínio!
--Como é? -- foi desperta de seu transe pelo desabafo da amiga -- Não entendi.
--Eu agora também trabalho com os patrocínios da empresa. Faço parte do grupo que analisa os pedidos e delibera se vale a pena ou não patrocinar. -- explicava -- Não sei quem deixou essa informação vazar, que agora um monte de gente me perturba por causa disso! Você tem que ver a cara de pau desse povo! Pedem recursos pra cada coisa que você nem acreditaria se eu lhe dissesse! -- revirou os olhos
Uma luz se acendeu na cabeça de Camille. -- E qualquer pessoa pode submeter uma proposta? -- perguntou animada
--Sim, basta seguir o protocolo. Se aprovada, enviamos a proposta para outras instâncias da empresa e, dando tudo certo, o projeto recebe nosso apoio.
--E dando tudo certo, demora muito pro apoio efetivamente acontecer?
--Um pouco... -- respondeu desconfiada -- Por que? Não me diga que quer patrocínio pra alguma coisa? -- riu
--Eu não, mas minha mãe trabalha em um projeto social em uma comunidade... -- sorriu -- Aline, me ensina o caminho das pedras porque vou falar pra uma pessoa tentar buscar esse apoio aí! -- pensava em Isabela
--Tá, eu ensino! -- sorriu -- Vamos ver, vai que dá certo? -- piscou -- Depois me diz o que é porque fiquei curiosa!
--Aline, mas eu não acredito! -- a companhia de Letícia abordava a engenheira -- Eu fui lavar as mãos e voltando da toalete vi você aqui e não acreditei! Há quanto tempo! -- abriu os braços
“Aline conhece a nova namorada de Letícia???? Mas é muito azar!” -- a loura pensou revirando os olhos
--Amiga, que surpresa boa! -- Aline se levantou e a abraçou -- Como vai? -- sorria
--Ótima! E você?
Letícia continuava na outra mesa e ficou prestando atenção ao que se passava. Deu de cara com a ex namorada. “Paula conhece a amiga de Camille?? E Camille tinha que estar justo aqui?? Mas é uma coisa, mesmo!” -- pensou contrariada
--Bem nos negócios e mal no coração. Mas ninguém pode se dar bem em tudo, não é? -- brincou
--Que é isso, garota? É só uma questão de tempo! -- olhou para a loura -- Desculpe, meu nome é Paula! -- estendeu a mão -- Prazer!
--Igualmente! -- Camille apertou a mão dela
--Paula é minha ex professora de sapateado! -- Aline explicava -- Acabou que ficamos amigas! Depois eu não tive mais tempo de continuar nas aulas e perdemos o contato.
“Que diabo! Seyyed tem uma bailarina, Letícia arrumou professora de dança... Será que Fátima vai se pegar com alguma chinesa dançante também?” -- pensou contrariada -- "Isso já virou perseguição!”
--Ah, mas a gente tem que colocar a fofoca em dia! Vou chamar minha amiga pra sentar aqui com vocês! Um minutinho! -- foi falar com Letícia
--Não, espere! -- a loura chamou mas já era tarde -- "Eu não podia ter um final de ano tranqüilo?” -- pensou decepcionada
--Que surpresa boa, viu amiga? -- Aline se sentou empolgada -- A Paula é muito legal! Vocês vão se amar! -- olhou para a mesa da outra -- E a amiga dela, não é aquela sua amiga Letícia? -- olhou para a loura -- Ai que coincidência maravilhosa!!
--Ô... -- Camille revirou os olhos
***
--Então eu escorreguei no chão e a risadaria foi geral! Justo naquele dia, estava usando a tal da calcinha cheia de boquinhas vermelhas! -- Paula terminava de contar uma história que levou todo mundo às gargalhadas; menos Camille
--Ai, Paula, essas suas histórias são demais! -- Aline secava as lágrimas
--E como são! -- Letícia afirmou sorrindo -- Paula é tudo! Uma mulher que não tem pudores bobos! -- jogou a indireta para a loura -- O tipo de gente que se solta, faz tudo e mais um pouco... no palco!
--Humpf! -- fez um bico
--E você, Camille? -- Paula olhou para ela -- Já pensou em sapatear? Tive uma aluna que usava uma perna mecânica também e ela sapateava muito bem!
--Ah, eu andei sapateando por aí, sabe? Mas parei com esse negócio! Estou dando um tempo! -- olhou rapidamente para Letícia -- É extremamente difícil arrumar parcerias decentes pra um sapateado com um mínimo de dignidade!
--Você sapateava?! -- Aline perguntou em choque
--Nem queira saber, amiga! Nem queira saber...
Paula não entendeu a resposta da loura. -- Bem, eu não sei o que houve mas... podia tentar comigo!
Letícia arregalou os olhos. -- Melhor não! Talvez Camille ainda esteja se habituando a algumas coisas e por isso torna-se difícil pra ela... -- olhou rapidamente para a ex -- sapatear como se deve!
--Obrigada pela oferta Paula, mas... é que eu tô dando um tempo no sapateado mesmo! -- retrucou -- Quanto ao seu comentário, Letícia, -- virou-se para a professora -- tudo depende da companhia com a qual se sapateia, porque... -- sorriu -- eu estive com uma professora que me deixou totalmente à vontade, sem cobranças, sem exigências... -- cruzou os braços -- e aí eu me soltei e fiz tudo e mais um pouco... no palco!
“O que?????” -- a professora pensou tentando disfarçar a revolta enquanto esvaziava o conteúdo de seu copo com um gole só
--E olha que ela era cega! -- olhou para Paula
--Nossa, uma professora de sapateado cega! -- Paula ficou boquiaberta -- Eu quero conhecer essa mulher! -- exclamou empolgada
--Não!!! -- Letícia respondeu nervosamente. Aline e a dançarina olharam surpresas para ela -- Eu quero dizer... -- calou-se por uns instantes -- "Pensa mulher, pensa!!” -- não sabia o que falar -- Você já trabalha tanto! Se colar com essa professora, aí já viu! Não poderemos mais usufruir de sua companhia maravilhosa! -- sorriu
“Letícia ficou com ciúmes da professora cega!” -- Paula pensava -- "Eu sabia que ela já andava caidinha por mim!” -- sorriu -- Ora, Letícia terei sempre tempo pra quem me interessa!
--Camille, você vive me surpreendendo! Saber que você sapateava com uma professora cega me deixou passada! -- Aline comentou
--E eu! -- Letícia resmungou
--Mais surpresa estou eu! -- Paula respondeu sorrindo -- Quem poderia imaginar que minha amiga e ex aluna, -- olhou para Aline -- tem uma amiga que Letícia conhece! Mundo pequeno, não?
--Até demais! -- a loura respondeu
--É... Aline, me tira uma dúvida. -- Letícia olhou para ela -- E Flávia? Tem se encontrado com ela?
“Onde é que Letícia quer chegar?” -- Camille pensava
--Não mais! Eu agora ando comportada e não tenho aprontado estripulias. De mais a mais o namorado dela voltou e ela tem mais é que curtir a presença dele. -- respondeu naturalmente
“Então quer dizer que Flávia é bissexual? Na ausência do namorado fica de sacanagem com outras mulheres? É um tipinho muito da sem vergonha aquela ali!” -- Letícia pensou revoltada
--Quem é Flávia? -- Paula perguntou curiosa
--Ah, minha filha, é uma mulher fantástica! -- segurou no braço da outra -- Ela tem mãos poderosas e faz cada massagem, cada coisa! Tinha que ver os ch*pões que ela me dava com aquela ventosa! Eu ficava toda roxa e gritava como louca, mas a sensação de prazer que vem depois... um nirvana!
A dançarina conhecia o uso de ventosas no trato fisioterápico e deduziu tudo corretamente. Sabia que Aline era dada a contusões. -- Ah, mas me dá o telefone dela que eu quero conhecer essa mulher! -- pediu empolgada
“Mas Paula é muito da cara de pau!! Pedindo o telefone de outra na minha frente?? Ah, mas aquela boca de caçapa não vai me chifrar com mais uma, não!” -- Letícia pensou revoltada -- Nem pensar!!! -- protestou furiosa -- Nada disso, Paula! Nada disso!!
--Por que, Letícia? -- Camille perguntou curiosa -- "Não me diga que essa louca pensa que tive ou tenho um caso com Flávia?” -- achava graça -- "E será que ela pensa que Aline também tem?”
--É, por que? -- Aline perguntou
--Por que? -- a dançarina queria saber
--Ah, porque... -- sorriu -- Porque se você precisar, eu mesma te faço massagem! Dizem que tenho mãos poderosas! -- mostrou as mãos
A loura fez um bico.
--Mas você não tem ventosa! -- Aline protestou
--Bem... tudo depende do nome que se dê! -- a física respondeu -- "Se é pra ch*par, eu ch*po com fé!”
“Letícia é realmente muito ciumenta!” -- Paula pensou -- "Não sabia que já estava tão apaixonada! E olha que é nosso primeiro encontro!”
--A conversa tá muito boa, mas eu tenho que ir! -- Camille se levantou -- Foi um prazer te conhecer, Paula, prazer te rever, Letícia, mas eu preciso ir. -- olhou para a amiga -- Até o ano que vem, Aline! -- brincou
--Tem certeza? Ah, fica mais! -- Aline lamentou
--Está na minha hora. -- deu tchauzinho -- Feliz natal e feliz ano novo pra vocês! -- sorria
--Pra você também, querida! -- Paula respondeu sorrindo -- No dia que quiser sapatear de novo pode contar comigo! E foi um prazer conhecê-la também!
“Deus me livre! Chega de sapateado na minha vida!” -- pensou resoluta
--Tudo de bom, amiga! Ano que vem a gente se vê! Feliz natal e feliz ano novo! -- Aline se levantou para abraçá-la
--Boas festas pra você, Camille! -- a física desejou com sinceridade
A loura foi ao banheiro antes de partir. Letícia percebeu isso e foi atrás dela enquanto Paula e Aline continuavam conversando.
Quando saiu da cabine, a engenheira viu que sua ex namorada a aguardava.
--Então quer dizer que com Fátima você fez tudo e mais um pouco? -- perguntou magoada
--É só isso que te interessa, não é, Letícia? -- lavou as mãos -- Vai dar atenção a sua namorada, vai? -- não olhava para a outra
--Ela não é minha namorada! É nosso primeiro encontro! -- aproximou-se da loura -- E pode ser o último se você quiser! -- tentava seduzi-la
--Fico até triste em ver como você é cara de pau! -- pegou papel toalha para secar as mãos -- Se está aqui com outra mulher deveria ter um mínimo de respeito por ela, não acha?
--Eu te amo, Camille! -- olhou nos olhos dela -- Eu passo por cima de tudo, relevo todas as suas traições... Eu te amo, será que não vê isso?
--Todas as minhas traições?! -- perguntou sem entender
--Paula não significa nada pra mim! -- afirmou resoluta -- Você é a mulher que eu amo!
--Você não ama ninguém, Letícia! -- respondeu com firmeza -- Ainda não aprendeu o que amor significa! -- jogou os papéis no lixo -- Passar bem! -- saiu
A professora deu um soco na parede.
Fim do capítulo
Músicas do Capítulo:
[a] Marcas de Ayer. Intérprete e Compositora: Adriana Mezzadri. In: Marcas de Ayer. Intérprete: Adriana Mezzadri. Insignia Records, 2004. 1 CD, faixa 4 (3min51)
[b] I Will Always Love You. Intérprete: Whitney Houston. Compositora: Dolly Parton. In: The Bodyguard Original Soundtrack Album. Intérprete: Whitney Houston. Arista & BMG Intertainment, 1992. 1 disco vinil, lado A, faixa 1 (4min31)
Comentar este capítulo:
Samirao
Em: 26/03/2024
Quem lê ama!
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Obrigada!!!!!!!!!!!!
[Faça o login para poder comentar]
Femines666
Em: 11/03/2023
Não aguentei e dei uma fugidinha pra vir aqui. Ai, o drama da Seyyed. Quisera eu ter uma Isa e uma Camille me querendo! Precisava nem de uma Ivone pra me tratar kkkk Lila, Lady e Priscila são demais eu morro de rir! E esse papo da Camille com Aline, Letícia e a outra , morri de rir!!
Também sinto falta de uma parceria prum sapateado como se deve! kkk
Resposta do autor:
O site tem uns trem doido que os comentários repetem até fora de ordem. Deve ser o fluxo das informações com muitas meninas comentando.
Fico feliz que você tenha insistido para postar!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Femines666
Em: 11/03/2023
Não aguentei e dei uma fugidinha pra vir aqui. Ai, o drama da Seyyed. Quisera eu ter uma Isa e uma Camille me querendo! Precisava nem de uma Ivone pra me tratar kkkk Lila, Lady e Priscila são demais eu morro de rir! E esse papo da Camille com Aline, Letícia e a outra , morri de rir!!
Também sinto falta de uma parceria prum sapateado como se deve! kkk
Resposta do autor:
kkkkkkkkk Gostou do drama da Seyyed? rs
Essas parceiras para um sapateado estão mesmo escassas! rs
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Alexape
Em: 11/12/2022
Onde se acha uma Ivone pra se consultar? Era tudo que eu precisava!
Seriado fantástico! Você é um talento que tem que ser mapeado! Ai, seu pudesse!
Resposta do autor:
Olá querida!
É uma pena mas não tenho uma para recomendar! A que eu tinha se aposentou! rs
Obrigada! Fico muito feliz com um retorno tão positivo!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 14/09/2022
Só uma última antes de voltar pro trampo quem eu quero? Tem horas que parece a ruiva em outras a loura complicado. Pode ser as duas? Hehe
Resposta do autor:
Quem você quer? Essa pergunta atormentou você por quase o conto inteiro. Mas, vamos com calma. As duas não. rs
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Seyyed
Em: 14/09/2022
Não resistir...
Letícia entendendo tudo errado e ainda queimando teu filme! Haha E Cami na Ivone, não guento! Esse condomínio da Ju é demais! Hahaha Podr falar eu não me aperto e por onde passo arranco suspiros mesmo ferrada hehe Priscila, Lady e Lila hahaha Não guento isso de marida! Haha E olha o boyzinho querendo ciscar no meu terreiro. É ruim! Morri com o papo de Cami no barzinho. Chuuupa Letícia! Haha Ju deputada. Quem diria? Adorando, amando!
Resposta do autor:
Letícia ficou mordida com as atitudes de Camille e, pensando no passado recente, entendeu tudo errado. Daí, para aborrecer Samira, jogou lenha na nossa fogueira. rs
O condomínio da Juliana parece com certos outros que existem por aí. kkk
Lady e a história da marida não era fácil! kkk
Seu terreiro tem dona certa!
Feliz que você continua na empolgação até aqui!
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Gabi2020
Em: 23/04/2020
Olá querida amiga tudo bem por aí?
Eita que a Letícia tem uns pensamentos nada a ver do tipo: “Transei e não houve sentimento e por isso não é traição.” Por favor né? Evolua minha filha!
Gente a caipira era míope? Como assim? Tadinha da Samira... Ah se fosse comigo!
Por mais conversas com Samira!!
Ô dó da Juliana! Tanta gente interesseira credo...
Ed e Camille sofrendo pelo que não tiveram... Triste.
Que música linda!! Amei, aliás a trilha sonora da história é magnífica.
Ivone é f.
Lady e Priscila, o casal mais improvável da história... Elas se complementam, demais!!
Casalzão da porra a Isa e a Ed!
Encontro de ex dificilmente dá certo e Camille tem ex com o orgulho ferido, que não aceita perder.
Agora que foi divertida a conversa foi, passou pela ventosa, pela Flávia e pela sapateadora cega... Kkkkkk....
Beijosss
Os. Não brigue com Samira por querer te ajudar.
Resposta do autor:
Gabinha!!!
Mandei email para você agora mesmo. Estou vendo uns trem aqui na internet e aproveitei para deixar as coisas no Outlook e neste site em dia. Samira está conversando com as parentas dela por zap.
Sabia que esse pensamento de Leticia tem muitos adeptos? Especialmente no meio dos homens.
A caipira deu rata, isso sim!
Toda vez que o povo pensa que alguém vai se dar bem, não falta quem venha pedir algo. Uns até de coração puro porque precisam de emprego, mas outros realmente querendo vida fácil.
Você gosta da trilha sonora? Foi escolhida à dedo. Agradecida.
"Casalzão da porra a Isa e a Ed" - você dizendo isso? Minha nossa!!
Acredita que eu ria enquanto escrevia essa coisa da sapateadora cega? Caipira é boba que só! kkkk
Beijos,
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Estas conversas de Samira com Letícia me divertem. E o grande encontro no barzinho também. Até hoje gargalho com o papo do sapateado com a professora cega e a ventosa de Flávia. uauauaua
Pronto amore desculpa. Pode apagar o outro. Foi o último comentário, prometo
Resposta do autor:
Pronto, apaguei.
Eu sei que você gosta deste episódio. Particularmente também me divirto.
Agora chega de mutreta, tudo bem? Behebbik ya.
Sol
[Faça o login para poder comentar]
Deixe seu comentário sobre a capitulo usando seu Facebook:
Solitudine Em: 20/06/2024 Autora da história
Ai, ai...