Quinta Temporada - LIBERDADE V
Camille havia acabado de se despedir de Letícia, que esteve em Salvador passando o carnaval com ela. Antes de sair do aeroporto passou no banheiro e levou um susto ao se encontrar com uma pessoa conhecida.
--Fátima?! -- perguntou surpreendida -- Gente, eu não acredito!!
--Camille? -- a nadadora virou-se na direção da loura -- Mundo pequeno! -- abraçaram-se -- Chegando ou partindo? -- sorria
--Eu tô em treinamento aqui, só vou embora no começo de abril. É que hoje eu vim trazer uma pessoa que voltou pro Rio... -- segurou as mãos dela -- E você? O que faz em Salvador?
--Vou participar de uma competição de uma semana que começa depois de amanhã e ficarei na cidade por mais uns dois dias. -- estava feliz por ter encontrado a loura
--E você veio sozinha? Onde estão os outros nadadores, seu pessoal, sua mãe? -- reparou na mala de Fátima -- Aliás, deixe que eu levo sua mala. Vamos sair do banheiro? -- propôs
--Claro, não é dos lugares mais agradáveis pra se conversar. -- foram andando -- Respondendo a sua pergunta, alguém cometeu um maravilhoso engano e me reservou um vôo em horário bem mais cedo que o dos outros. Não houve como trocar e então, aqui estou eu!
--Por que diz que foi um engano maravilhoso? -- perguntou sorridente
--Do contrário não teríamos nos encontrado!
A engenheira sorriu lisonjeada.
--E mamãe não virá. Ela está com dengue e minha tia cuidará dela.
--Ô louco! -- olhou para a nadadora -- E ela tá bem? -- perguntou preocupada
-- Sim, ela tem se recuperado bem, graças a Deus!
--Isso é um vexame, viu? Cidades como São Paulo e Rio e o povo pegando dengue! Ultimamente Osvaldo Cruz deve se revirar no túmulo todo ano!
Fátima riu. -- De fato é, mas cadê que tomam as providências devidas?
--Em que hotel você está, Fátima? Posso ir com você até lá e depois vou pro meu.
--Fiesta.
--Ah! -- surpreendeu-se -- Então estamos no mesmo lugar!
--Veja só Camille! Parece que alguém lá em cima queria que nos encontrássemos aqui! -- brincou
“E Letícia morrendo de medo que isso acontecesse em São Paulo... Meu, que vida louca!” -- a loura pensava
Enquanto isso Letícia se encaminhava para seu assento no avião.
--Ei, com licença. -- abordou a mulher a seu lado quando se sentou -- Você não é Vanessa Figueroa, a historiadora e crítica de arte? -- perguntou sorrindo
--Sim, sou eu. -- respondeu desconfiada -- Perdoe-me mas de onde nos conhecemos?
--Meu nome é Letícia Avelar. Eu estive no Tributo a Patrícia Feitosa e ouvi sua palestra. -- esclareceu -- Maravilhosa, devo salientar.
--Ah, obrigada. -- sorriu -- Eu adorei aquele tributo porque aprendi muitas coisas.
--Eu mais ainda.
--E o que você faz da vida, Letícia?
--Sou física e dou aula na Universidade Federal. Aí é aquela coisa de vida de professora: alunos, orientandos, projetos e lá se vai. Certamente você deve conhecer essa rotina muito bem.
--Sim, eu sou professora da Estadual do Rio. -- reparava em Letícia -- "Nossa, que mulher charmosa...” -- pensou com interesse -- O que fazia em Salvador? Passando o carnaval?
--Sim, eu estava com... -- pensou antes de continuar -- uns amigos na cidade. E você?
--Vim visitar meus pais que moram em Itaparica.
--Então esse sotaque gostoso de ouvir é baiano? -- jogava um charme
--Baianês que se misturou com o carioquês há muitos anos. Deu no que deu! -- brincou
--A mistura ficou ótima. Sempre gostei de um tempero baiano. -- sorriu maliciosamente
“Sinto que essa noite promete!” -- Vanessa pensava com empolgação
“Eu preciso de uma noite de sex* sem compromisso pra desestressar! Aquela discussão com Camille acabou comigo!” -- Letícia pensava
***
Camille e Fátima conversavam no bar do hotel.
--Então quer dizer que agora você tem uma namorada? -- Fátima perguntava enquanto bebia um suco -- Desistiu daquela idéia de ser inoperante? -- riu
--Pare de me tirar... -- pediu fazendo dengo
--Não estou, é que você diz coisas que eu acho engraçadas... -- sorriu -- Fico feliz que esteja namorando, é bom pra você.
--É, mas... Ontem tivemos uma discussão... -- passou a mão nos cabelos -- A gente não costuma a brigar, mas quando acontece é sempre pelo mesmo motivo!
--E eu seria indiscreta se perguntasse qual o motivo?
--Sexo! -- pausou -- E não me pergunte nada mais, por favor! -- bebeu suco
--Imaginei que fosse isso. Você ainda está se soltando, se descobrindo... A pessoa tem que ter paciência.
--Nem todos são como você, Fátima... -- respondeu espontaneamente, quase sem pensar
--Que bom que não! -- brincou -- O mundo seria sem graça demais... -- sorriu
Camille ficou olhando para ela e contemplando os traços de seu rosto assimétrico. Fátima era uma pessoa tão bonita, que o que lhe faltava em perfeição de formas passava quase despercebido.
--Eu fui uma idiota em ter deixado você sair da minha vida... -- lamentou e em seguida balançou a cabeça como se estivesse acordando de um sonho -- Mas vamos mudar de assunto! Conte-me sobre sua rotina! Tenho curiosidade em saber como vive uma atleta olímpica! -- pediu
“É a primeira vez que Camille me diz coisas como essas! Será que haveria uma chance? Não, Fátima, ela tem namorada, esqueça!” -- pensava -- Bem, o que posso dizer? Faço dez treinamentos semanais em piscina. Em quatro dias, faço um treino na manhã e outro na tarde. Na quarta e no sábado, entro na piscina uma vez. Fora da água, faço exercícios de prevenção duas vezes e musculação três vezes por semana, em dias alternados. Na quarta, passo por um trabalho de recuperação com fisioterapia e crioterapia, pra suportar treinamentos fortes.59
--Ô louco! -- admirou-se -- E é assim até perto das competições?
--Não. Quanto mais próximo de cada competição, a carga de esforço diminui e aumentam os trabalhos de estratégia.59
--Se alguém quiser te namorar vai ficar na saudade, viu? A menos que você tenha um caso com a preparadora técnica!
--Já tentamos mas não deu certo. A inevitável mistura de trabalho com relacionamento traz muitos conflitos.
--Ô louco, viu? Só dá tarada na minha vida! -- reclamou
--E por que eu sou tarada? -- riu
--Ah! Vocês não podem ver uma mulher dando sopa que é só créu!
A nadadora riu novamente.
--Fátima! -- o fisioterapeuta da equipe se aproximava -- Procuramos você por toda parte, por que não atendeu o telefone? -- estava chateado
--Boa noite, Rogério. -- ela respondeu calmamente -- O telefone está desligado e eu esqueci de mudar isso. Acho que esqueci de olhar para o display. -- brincou
--É... oi! -- cumprimentou Camille que balançou a cabeça -- Precisamos conversar agora. -- pausou -- Sinto muito!
--Fazer o que? -- levantou-se -- Minha pequena, infelizmente tenho que ir. Mas quero vê-la novamente antes de sair da cidade.
--Tudo bem. -- bebeu último gole do suco -- E com certeza nos veremos!
Enquanto isso Letícia e Vanessa faziam sex* alucinadamente em um quarto de motel.
--Ah, ah, ah!!! -- Vanessa gemia
--Gostosa! Você é muito gostosa!! -- falava com voz rouca
Letícia usava um acessório que Camille não quis experimentar e penetrava a parceira vigorosamente com ele. Vanessa estava de quatro e gemia alto sendo também estimulada pelas mãos da física se alternando entre os seios e o sex*.
--Aaaaah!!!! -- gritaram juntas
Após o clímax as duas deitaram na cama de barriga para cima, lado a lado.
--Fazia tempo que eu não tinha uma noite quente assim. -- Vanessa comentava com os olhos fechados -- Já perdi as contas de quantos orgasmos tive com você nessas horas loucas... -- sorria
--E eu! -- sorria também -- Precisava disso...
--Está solteira há quanto tempo? -- deitou-se de lado para olhar melhor para a parceira
--É... -- virou o rosto para o lado -- não estou... -- falou a verdade
--Não está? -- sentou-se na cama
--Relaxa, vai! -- pediu -- Meu relacionamento não tá legal, ontem mesmo a gente teve uma discussão séria!
--Então os amigos com quem passava o carnaval na verdade eram a sua namorada? -- perguntou chateada
--Tá, eu menti nisso aí, confesso, mas... -- sentou-se também -- eu precisava conhecer alguém e...
--Burra fui eu de não ter sacado logo! -- levantou-se da cama -- Por que alguém sem namorada teria um kit sex* dentro da mala, hein? -- buscou as roupas para se vestir
--Espera,Vanessa! -- levantou-se e foi até ela -- Não fica com raiva de mim, eu não sou nenhuma canalha e...
--Ah, não? -- perguntou com deboche -- Você passa o carnaval com a namorada em Salvador, age como se fosse solteira, faz sex* comigo e depois vem com essa conversa fiada e me diz que não é uma canalha? -- riu -- Você é o tipo de mulher que eu não quero ver na minha frente nunca mais! -- vestia-se com pressa
“É Letícia... the dream is over...” -- foi se vestir também
***
Lila estava na faculdade assistindo a uma aula de ensino da língua portuguesa. Estavam no segundo dia letivo.
--Eu gostaria de ouvir vocês a respeito do que pensam sobre a língua portuguesa que estudamos aqui na Academia, com toda sua erudição peculiar, e o português falado pelas pessoas nas ruas. -- a professora instigava a turma -- Até que ponto a linguagem falada pode ser considerada ‘errada’ -- fez aspas com os dedos -- por conta de suas simplificações e neologismos? A comunicação interpessoal é um processo dinâmico, mas e a linguagem, como evolui? Como ficam os códigos e as regras gramaticais diante de fenômenos como a internet, por exemplo, e a comunicação no ciberespaço? -- olhou para a turma e se deteve em Lila -- Você!
--Eu?! -- perguntou surpresa
--Seu nome é...?
--Na tua pauta é Jaqueline, mas na realidade é Lila. -- levantou-se sorridente -- Lila Moksha, uma serva da Luz! Namastê! -- fez a saudação indiana
Alguns alunos da turma riram.
--Tudo bem, Lila. -- a professora falou sorridente -- Venha até aqui e deixe-nos conhecer sua opinião.
--Mas, bá, com todo prazer! -- apresentou-se diante da turma e começou a falar -- Linguagem culta ou linguagem coloquial? -- fazia seus gestuais -- Qual delas será a mais certa, qual delas cumpre melhor o sagrado dever de comunicar? Seria a fala culta, porque segue as regras elegantes dos Imortais, ou a fala modesta das gentes nas ruas, que desabafa o peso dos corações opressos? A professora pede minha opinião, minha versão sobre a verdade, pois eu digo: “A verdade é singular. Suas versões são inverdades.”60
--Oh! -- a professora exclamou surpresa
--Essa aí é a maior 171! -- uma aluna cochichou com a outra -- Parece até o seu Rolando Lero da Escolinha do Professor Raimundo!
--Ih, mas ela tá convencendo!
--Eu penso que a linguagem deve mostrar o que se passa na alma do indivíduo, deve ajudá-lo a descortinar as sucessivas camadas de seus corpos para que sua luz se veja a partir de todos os lugares, em qualquer ponto! -- continuava gesticulando -- Aquele luz que vem do interior e por isso não projeta sombras, mas é apenas o brilho da realidade transcendental! – fez um olhar sorumbático -- Por que a língua não pode mudar? Por que as regras devem ser tão rígidas? “A constância é contrária à natureza, contrária à vida. As únicas pessoas completamente constantes são os mortos.” 61 -- jogou-se no chão
--Gente! -- a professora estava extasiada -- Ela é tão cênica!
--Eu diria cínica. -- uma garota falou baixinho
--A língua tem que nos ajudar a conquistar aquilo que nós queremos da vida. -- levantou-se -- Então me digam, o que a gente quer da vida? O que? -- olhava para a turma -- O que? O que?
--O que? -- a professora perguntava
--O que? Pois eu digo o que eu quero! -- fazia seus salamaleques -- “Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo. Não estou aqui pra que gostem de mim. Estou aqui pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho!”62 -- deslizou as mãos pelo próprio corpo
--Nossa! -- uma aluna exclamou admirada
--Porque “eu sou essa gente que se dói inteira porque não vive só na superfície das coisas”. 63 -- apertou os próprios seios
--Que coisa profunda! -- um rapaz comentou com a colega
--Eu não acho que nosso papel, de futuros educadores, seja o de podar a dinâmica da linguagem e condenar o léxico que o povo cria todos dias! Não... nós devemos cuidar de manter a pureza sim, mas da beleza despretensiosa dessa “flor do Lácio, inculta e bela” que é ao mesmo tempo “esplendor e sepultura, ouro nativo que na ganga impura, a bruta mina dos cascalhos vela!”64
--Menina, você fala com uma intensidade que transborda pelos poros! -- a professora comentou empolgada
--Sua perguntas diziam respeito aos limites entre o erudito e o popular, mas o que são os limites? Hein? O que são? O que são? -- olhava para a turma -- “Os limites são convenções esperando ser transcendidas”.65 -- levantou os braços e olhou para cima
--Oh!! -- a turma delirava
--“Uma pessoa pode transcender qualquer limite se, em primeiro lugar, conceber fazê-lo”. -- abriu os braços -- “Minha vida vai muito além de minhas limitações.”66
--Meu Deus, estou estupefata! O que é isso que você transmite nessa fala tão apaixonante, menina?
--Bá, professora, mas isso não sou eu, é a mensagem que carrego no peito! -- fazia seus gestuais -- Eu era Jaqueline e vivia perdida nas sombras, agora sou Lila, -- lançou um olhar de santa -- e vivo para semear a mensagem dos Iluminados! -- olhou para os colegas -- Aliás, eu dou aulas de pompoarismo tântrico, faço sessões de cromoterapia, cristalografia, massagens diversas, tratamento de chakras, limpeza de aura e muito mais por precinhos módicos em pagamento parcelado.
--Depois da aula nós conversamos! Não some, não! -- a professora se interessou
--Eu também quero saber mais! -- uma das alunas falou
--E eu! Eu também! E eu! -- outros alunos disseram
Lila voltou para seu lugar sorrindo e pensou: “Sabe que voltar pra faculdade foi realmente uma boa idéia?”
***
Suzana e Tatiana estavam reunidas em seu QG montando as últimas peças de seu intrincado quebra cabeças.
--Deixa eu te falar, quando seu Romeu entrou em contato comigo ontem dizendo que todos os laboratórios foram mapeados eu quase morri de felicidade!! E Tamires conseguiu todos os documentos que a gente precisava pra detalhar o esquema das trans*ções financeiras dessas empresas de fachada sempre fazendo a mesma coisa: remetendo dinheiro pro exterior e injetando a grana de volta no Brasil!! -- sorria
--E quem são os donos? -- a delegada perguntou excitada
--Aquele sujeito que nós acompanhamos no baile funk daquela vez e um amiguinho dele.
--E o promotor de Nova York? Como vão as coisas por lá?
--O trabalho dele já fez aparecer todas as personagens envolvidas nessa lavanderia descarada! Só mais um pouquinho e eles prenderão todo mundo que tá lá! -- debruçou-se sobre a mesa -- Sabe o que ele me falou? Que vai contatar todos os países ligados a Interpol pra que os brasileiros envolvidos nessa safadeza sejam presos no dia em que pisarem em qualquer um deles! Se tentarem fugir daqui, vão ter que escolher muito bem aonde vão pousar!
Esfregou as mãos. -- Esse é dos meus!! -- estava animada
--Vocês iam adorar se conhecer, com toda certeza! -- pausou -- E a feiticeira? O que pôde descobrir sobre ela?
--Temos imagens muito reveladoras de traficantes fazendo visitinhas na casa dela. Não eram os chefões do esquema, porém já se esclarece muita coisa. Lemos também conseguiu aproximação com um rapaz que trabalha lá e anda com a consciência meio pesada. O garoto nos garantiu que quando a bomba estourar ele prestará depoimento contanto tudo que sabe. Em troca, vamos dar um jeito de escondê-lo muito bem. -- olhava para a jovem -- E você não sabe, mas não só os traficantes andaram por lá fazendo encomendas. Quando ele abrir o bico, a casa vai cair!
--Minha nossa! Tudo tá colaborando com a gente, delegada! -- levantou-se -- Às vezes eu me sinto como se houvesse uma espécie de mão amiga a nos guiar, sabe? Luzes pra nos clarear os caminhos nessa escuridão!
Patrícia e Valadão entreolharam-se e sorriram com cumplicidade.
--Talvez haja mesmo, garota! -- Suzana olhava ao redor -- Houve momentos em que me parecia que alguém me fazia um carinho, e não me surpreenderia se soubesse que isso realmente aconteceu. -- sorria
--Certamente, Suzaninha! -- Lourdes balançava a cabeça
--É... a gente não os vê e não os ouve, mas eles estão aí. -- Tatiana também olhava ao redor -- E eu agradeço muito por tudo! -- sorria
Lourdes, Valadão e Patrícia sorriram e desapareceram.
--Mas, e quanto a vida, menina? -- a delegada olhou para a amiga -- Conversou com Renan?
--Ai, conversei. -- andava pelo recinto -- Ele me contou umas coisas que me deixaram louca!
--Quer dividir ou...?
--Eu PRECISO dividir! -- respirou fundo -- Ele disse que estava muito confuso e carente e por isso se permitiu dar trela pra uma mulher que andava lhe assediando na oficina. Eles saíram pra um barzinho, conversaram, trocaram beijos e foram pro motel. -- olhou para a delegada -- Mas na hora H, ele se arrependeu e não rolou nada. -- passou a mão nos cabelos -- Em compensação, a mulher o denunciou por agressão na delegacia e ele já foi depor umas duas vezes. Os irmãos dela foram na oficina tomar satisfação e deu uma zica danada!
--Graças a Deus ele não deixou a coisa evoluir. Mas, me diga, Renan bateu mesmo na mulher? -- desacreditava
--Nada! Ela ficou foi ofendida e quis sacanear. -- cruzou os braços -- Bem feito! Pra deixar de ser saliente! -- fez cara feia
Suzana riu. -- Desculpe, mas você me lembrou a minha japonesa e eu tive que rir. -- pausou -- E aí, Tati? Vocês então não se acertaram?
--Ah, eu... -- encostou-se na parede -- Eu não aceito traição, mas relevei isso porque afinal de contas reconheço que ele mudou a vida por mim e no final ficou sozinho em uma cidade que não é a dele... Além do mais, um homem que foi menino de rua guarda traumas que ficam pela vida inteira... -- pausou -- Eu contei tudo a ele e disse que quando o circo pegar fogo vou sair do Brasil por uns tempos... Se ele quiser vir comigo...
--Mas... e a oficina, fica como? -- perguntou espantada
--Seyyed está desempregada...
--E como ficaria o casamento dela, garota? -- arregalou os olhos
--Eu não sei! -- fechou os olhos -- Além do documentário que estou finalizando pra apresentar ao Presidente no dia 08 de março, eu não sei de nada mais... -- olhou para a delegada -- E no seu caso? Como acha que vai ser?
--Certamente vão dar um jeito de me pegar no pente fino. Em algum momento vão. Só que com a repercussão que vai dar, Brito e Macumba poderão finalmente voltar e Lemos e Jailson terão um pouco mais de paz. -- pausou -- Eu tô aqui pra enfrentar o que vier! -- olhava para a outra
--E Juliana? Como vai a história da demissão?
--A briga tá feia! Ela continua trabalhando, mas o processo tá correndo. Ruy vai representá-la e tem se envolvido pesadamente no caso. -- sorriu -- Só que o efeito colateral dessa coisa toda é que minha mulher vai se candidatar a deputada federal!
--E tem meu voto, uai! -- sorriu -- Desde já vou fazer a propaganda dela pra todo mundo que conheço.
--É garota... -- balançou a cabeça -- quando eu penso em tudo o que vivi até aqui parece mentira... Aconteceu tanta coisa que... -- riu
***
Isabela e Priscila almoçavam juntas no Shopping de Botafogo.
--Há quanto tempo que a gente não almoçava juntas, hein, amiga? -- Priscila falou -- Mas também a vida de todo mundo é uma correria... -- deu uma garfada
--Pois é! A gente fica maluca! -- riu enquanto cortava o peito de frango
--Como vai o trabalho com a comunidade? -- olhou para ela
--Estou a ponto de surtar, porque tá sendo um começo difícil, mas não vou desistir. Tenho 39 alunas e consegui duas amigas como voluntárias.
--Ai que bom! -- bebeu um gole de suco
--Ontem convidei dona Mari pra me ajudar no projeto. Ela ficou radiante! -- riu -- Eu preciso de toda ajuda possível, ainda mais quando começarem os ensaios do espetáculo que vou estrear em junho com o pessoal da EEFD.
--Daqui uns dias você se unirá a Sabrina e integrará o seleto grupo das entrevistáveis em horário nobre. -- piscou para a ruiva
--Não... tenho um longo caminho pela frente. -- deu uma garfada
Elas comeram em silêncio por alguns instantes até que a dentista perguntou: -- Então com isso deduzo que você desistiu de vez de ir pro exterior?
--A vida me impôs um desvio de trajetória, Priscila. Além do mais, minhas prioridades mudaram consideravelmente. -- bebeu o último gole de suco
--E Seyyed? Conseguiu emprego em algum lugar?
--Que nada! Ninguém quer empregar uma mulher deficiente física como mecânica... -- respondeu com tristeza -- Só de vê-la chegar com sua bengalinha, eles já viram a cara.
--Nem o pessoal que já conhecia ela?? -- perguntou indignada
--Não... Esses aí têm medo de dar oportunidade e depois ela montar um novo negócio e levar os clientes deles embora. Além do mais, há aqueles que consideram que Ed já era! -- balançou a cabeça -- É na hora da necessidade que se conhecem os verdadeiros amigos!
--Coitada dela... -- lamentou
--Eu morro de pena, mas tenho muito orgulho! Ela não abaixa a cabeça e não reclama jamais! -- sorria -- Tenta todos os dias, não consegue, mas não desiste. E continua lutando pra se recuperar. Flávia crê, que apesar das negativas dos médicos, Ed consiga um dia se recuperar quase que completamente do braço e da perna. E eu também creio! -- deu uma garfada
--E ela vai ter que pagar mesmo aquela grana pros ex funcionários? -- terminou de almoçar e limpou os lábios
--Vai... -- balançou a cabeça -- E não vai recorrer. Ela disse que ficará zerada mas pagará cada centavo.
--Vocês... precisam de uma força, Isa? -- perguntou com jeito
--Não, querida! -- sorriu -- Temos o meu dinheirinho de bailarina, o aluguel do apartamento e mais a ajuda que Renan e Camille dão pra Ed.
--Camille?! -- arregalou os olhos
--Pois é... -- finalizou a refeição
--E tua sogra? Deixaram a mulher assumir a diretoria do centro ou a pouca vergonha continua?
--Ela assumiu porque não houve jeito! Quase fizeram um levante! Ou era dona Olga ou saía quase todo mundo de lá! -- riu
--Bem feito! -- a morena exclamou satisfeita
--E ela chegou fazendo arruaça! Tá mudando um monte de coisas e colocando o pessoal pra estudar!
--Estudar?!
--É, minha filha, tá pensando que não tem o que? Só tem! -- pausou -- Agora fale de você. Seus pais já se recuperaram do baque de você não ir pro Canadá?
--Acho que já. Mamãe finalmente entendeu meus motivos e me disse até coisas muito bonitas. -- sorriu -- E aconteceu que quando eu cheguei com Lady pra passar as festas de final de ano lá em casa eles acabaram gostando disso. Compraram coisinhas pro enxoval da menina e tudo! Papai arrumou até um carrinho de bebê super legal com meu tio!
--Que bom!
--E digo mais! Não é que descobri que Lady e mamãe têm os mesmos gostos musicais? Vivendo e aprendendo. -- riu
--E aquela maluquinha, como anda, hein? A pequena Priscila vai nascer agora neste mês de março, não é?
--É e nós andamos a mil naquela casa! Mas graças a Deus Lady está sendo uma gestante sem complicações. Não passa mal, não tem desejos... no máximo um enjôo um dia ou outro! -- riu -- A doideira dela é ouvir música de criança noite e dia, só que, graças a Deus, só canta junto quando eu não tô em casa!
--Sabe o que me ocorreu agora? -- cruzou os braços e sorriu -- É a primeira vez em anos que ouço você falar bem de Lady sem uma queixa sequer!
--As coisas mudam. Nosso relacionamento mudou. -- riu -- Acredita que ela veio me pedir pra não sair com ninguém porque agora também sou mãe?
--E você aceitou? -- perguntou desconfiada
--Aceitei, né? Eu pedi pra ela fazer o mesmo! Do contrário Lady me apareceria com algum namorado bomba lá em casa e aí seria um caos!
--Sabe... às vezes acho que Lady se apaixonou por você, Priscila. Só resta saber se é recíproco!
--Eu, hein, Isa?! -- objetou revoltada -- Você é maldosa! Cruzes! -- jogou uma bolinha de guardanapo na ruiva
--Calma, Pri. -- riu -- Não está mais aqui quem falou!
--Que coisa! -- fez cara feia
--Tá bom! -- balançou a cabeça -- Desculpe! Agora me conte de Lila. Ela não passou final de ano no sul, então o que fez?
--Participou de uns eventos de umas ricaças aí e lucrou muito! E agora que voltou pra faculdade tem clientes a dar com pau. O telefone toca noite e dia! -- revirou os olhos -- Ô gente besta, viu?
--As pessoas andam muito desorientadas, Pri. Precisam de Deus e então se refugiam nessas pequenas coisas. Aí, colocam-se em posição de fragilidade nas mãos de gente picareta como Lila.
--E o pior é que ela entende das coisas que faz, sabe? Só que se aproveita!
--Deixa ela... -- pausou -- Mas, pelo menos ela não é do mal. Pior é quando a pessoa, com uma fome de poder e glória desmedida, procura por coisas pesadas e extremamente comprometedoras... -- mirou um ponto no infinito
--Em quem está pensando?
--Em ninguém em especial, amiga... -- mentiu -- Em ninguém...
19:00h. 08 de março de 2006, Fundição Progresso, Lapa, Rio de Janeiro
O evento de comemoração do Dia da Mulher contava com a presença de um número muito maior de participantes do que se imaginava. Vários segmentos da sociedade se faziam representar, além de membros de todos os partidos políticos da coligação do PCons. Porém, as presenças mais relevantes eram a do Presidente da República e da Primeira Dama.
Quase todas as palestras já haviam acontecido e faltava apenas a de Tatiana para que fosse iniciado o coquetel de confraternização.
--Eu tô tão nervosa! -- Tatiana dizia para Olga
--Calma, meu bem! -- segurava as mãos dela -- Sua irmã, Seyyed, Isa, Priscila, Sabrina, Lady, Lila, Mari, Juliana, Suzana e Flávia estamos todas aqui pra te dar uma força! -- sorria -- Até Romeu veio! -- pausou -- Pra tristeza de Mari! -- riu
--Nós também estamos aqui, mulher! -- Patrícia dizia -- Tudo vai dar certo!
--Ela não nos ouve, filha! -- Lourdes pôs a mão no ombro da jovem -- Mas poderá sentir nossos bons fluídos!
--Tudo isso pra mim é tão curioso, dona Lourdes! -- Vitória exclamou -- Como tenho aprendido depois de desencarnada!
--A vida é um eterno aprendizado, meu bem! -- a idosa falou -- Todos nós temos o que aprender!
--Eu vou cuidar da segurança! -- Valadão falou -- Qualquer coisa, pensem em mim que eu venho! -- afastou-se
Tatiana fez uma breve, porém interessante, palestra sobre a condição das mulheres negras no país até que exibiu seu último slide que na verdade era um link para o documentário que preparou.
--Senhoras e senhores, -- olhava para o público -- na verdade minha presença aqui não se justifica pela apresentação que acabei de fazer, mas por este documentário que eu gostaria que fosse visto com muita atenção, especialmente pelos membros da classe política e pelos colegas de imprensa que aqui estão! -- olhou para Tamires e Suzana que lhe sorriram -- O que vão assistir nesse momento, representa um trabalho investigativo de longa data e acho que eu não seria atrevida ou pretensiosa demais se dissesse que as revelações que veremos agora, abalarão a história recente desse país. -- preparou tudo e clicou no botão que iniciava a exibição
Suzana e Juliana deram-se as mãos. Selma e Ruy nem respiravam e as amigas da jornalista mantinham-se atentas ao telão.
As pessoas aguardavam ansiosas...
***
Ana estava sozinha em casa deitada na cama. Pensava na vida.
Desejava ardentemente ver a filha sair da condição em que se encontrava, a qual julgava extremamente infeliz e indigna dela. Desejava ver Anselmo livre da agonia em que vivia, pois o homem lhe parecia um lunático. Ao mesmo tempo temia que o luxo do qual desfrutava estivesse com os dias contados.
--Tudo porque Isa não quis saber de se desgrudar daquela maldita mecânica aleijada! -- pensou com raiva
Lembrou-se da proposta de Àjé. Desde que a feiticeira lhe falou sobre o tal sacrifício de sangue nunca mais havia ido procurá-la, mas agora a idéia já não soava mais tão absurda em sua mente. Isso porque uma dupla de espíritos infelizes a influenciava e vampirizava diariamente, fazendo com que seus valores se perdessem mais e mais. Da mesma forma, sua saúde ia se esgotando sem que ela notasse.
Parecia-lhe que, de quando em vez, vozes falavam em sua mente, sempre lhe sugerindo coisas e pedindo muito. Às vezes tinha ódio de Isa e nem queria vê-la, em outras se arrependia por isso. Havia momentos em que olhava para Anselmo na cama e desejava matá-lo, depois essa vontade enfraquecia aos poucos.
“Será que estou enlouquecendo?” -- questionava-se
Em determinadas ocasiões, sentia-se recebendo bons fluídos e uma sensação de conforto era nítida em sua alma. Lembrava-se de sua infância e de quando era uma jovem sonhadora e romântica, passeando de mãos dadas com Anselmo na beira da praia. Lembrava-se do nascimento da filha e da emoção que sentiu quando a viu pela primeira vez. Em seguida, uma confusão mental se estabelecia em sua mente e ela sentia-se perdida como não saberia explicar.
Lembrou-se de Olga e sentiu um imenso ódio dela. Aquela mulher, que lhe parecia tão sem graça, pobre e cafona, tinha tudo o que ela mais desejava: um amor e um relacionamento invejável com a filha. Mais importante, tinha paz.
--Não, eu não vou perder meu tempo com esses pensamentos dor de cotovelo! -- levantou-se quase de um salto -- Depois de amanhã procuro Àjé e vamos conversar quanto ao que fazer! -- falava com raiva
Seus dois obsessores sorriam satisfeitos.
***
Camille estava em seu quarto de hotel. Havia acabado de estudar e dava o dia por encerrado quando de repente ouve alguém bater em sua porta.
Curiosa olhou no olho mágico e abriu a porta empolgada. -- Entra, Fátima! -- sorriu
--Não a incomodo? -- entrou receosa
--Claro que não! -- puxou uma cadeira -- Vem, senta!
--Não, eu não quero me sentar. Tenho umas coisas pra te dizer!
--O que é? -- perguntou curiosa
--Não sabe o que aconteceu! O preparador técnico da seleção chinesa está na cidade. Ele veio só pra me ver e fez uma proposta: um contrato de dois anos e meio na China! -- sorria -- Com a ressalva de que nas paraolimpíadas eu representarei o Brasil!
--Meu!!! -- a loura ficou empolgada
--A China investe pesado em todo tipo de atleta e eles querem tirar a primazia dos Estados Unidos! E pagam bem, viu?
--Que noticia da hora, Fátima! -- sorria
--Eu acho que mamãe não vai se opor a morar comigo lá nesse período! -- pausou -- Uma das fisioterapeutas da equipe chinesa é brasileira. Vive em Beijing com família há alguns anos, então mamãe terá com quem conversar na minha ausência!
--Eu nem sei o que dizer! -- estava pasma -- É bom pra sua carreira e vai te ajudar... -- suspirou -- A pena é que ficará longe por um tempo...
--E é por isso que vim aqui, não somente pra te dar a notícia em primeira mão. -- segurou uma das mãos da loura -- Sei que tem namorada e também não desejo trazer confusão pra sua vida, mas queria que soubesse que, -- tocou o rosto dela -- eu a amo! E meu amor por você é puro, intenso e despretensioso... -- falava com muita sinceridade -- Aceito você como é e considero, apesar de cega, que você é a mulher mais linda que já conheci na vida!
Camille não resistiu àquela declaração tão verdadeira e segurou o rosto da nadadora, puxando-a para um beijo apaixonado.
--Faz amor comigo, Fátima! Eu preciso de você!
--Eu queria te amar bem devagar.
--Do jeito que quiser.
As duas beijaram-se novamente e a loura as guiou até a cama sem interromper o beijo.
Fátima se afastou da outra e começou a se despir lentamente, como se quisesse mostrar-se inteiramente a sua parceira.
--Deixa eu... despir você? -- a nadadora pediu -- Gostaria de vê-la...
--Por favor... -- sorriu
Ela então se aproximou novamente e despiu a jovem como quem desembrulha um presente há muito esperado. Suas mãos percorriam o corpo da outra com carinho, ternura e respeito.
Camille gostava daquela sensação e não ficava envergonhada, ao contrário, sentia uma aceitação que lhe parecia irrestrita.
Quando ambas estavam completamente nuas, a loura sentou-se e removeu a prótese. Fátima ajoelhou-se diante dela e beijou-lhe as mãos.
--Não será como da outra vez? Não irá se arrepender? -- acariciava o rosto da engenheira
--Aquele tempo já passou. Não haveria porque me arrepender de você. -- respondeu confiante
Beijaram-se novamente e Fátima deitou-se sobre a loura. Ajeitaram-se na cama e nadadora seguiu beijando e provocando o corpo da amante, despertando na parceira um tipo de prazer que não conseguia sentir com Letícia. Quando a amante mergulhou entre suas pernas, não somente seus sentidos eram satisfeitos, mas também sua auto estima. Entendia-se aceita por uma pessoa que não lhe exigia o que ainda não estava preparada para dar. Fátima exigia nada, ela amava sem esperar qualquer coisa. E amava com intensidade.
Camille segurou uma das mãos que lhe provocava um seio e gemia em abandono, confortável sob o toque e as carícias daquela mulher que lhe parecia um bálsamo para suas dores da alma. Atingiu o clímax e sorriu espontaneamente.
A nadadora continuava beijando seu corpo e apalpando sua pele em seu processo todo particular de ver sem os olhos.
--Querida. -- a loura tocou o rosto da amante
--Diga, pequena. -- sorriu
--Deixe-me amá-la como merece. -- puxou-a para junto de si e a beijou sem pensar no que fazia
Inverteram as posições e Camille seguiu desvendando o corpo de Fátima com muito carinho e paixão, despertando os gemidos dela, que parecia extasiada não só de prazer mas de surpresa. Aquela sensação inesperada e bem vinda que somente quem ama sem cobranças é capaz de conhecer.
Esquecendo de todos os seus medos e pudores, a jovem loura invadiu o sex* da outra mulher com seus lábios e deixou-se envolver em carícias que a levaram a um orgasmo intenso e muito desejado.
2006
O documentário de Tatiana repercutiu sonoramente em todos os telejornais brasileiros, causando choque e revolta na população e caindo como uma bomba sobre muitas pessoas. Ministros, políticos e organizações civis mostraram-se indignados e exigiram providências.
O conteúdo das denúncias apresentadas no evento do Dia da Mulher também foi notícia fora do país, coincidindo com a conclusão das investigações da Promotoria de Nova York. A imprensa internacional enviou equipes de reportagem para várias cidades brasileiras e mídias tão diversificadas quanto a BBC News, CNN, The New York Times, USA Today, Al Jazeera, Le Monde, Le Fígaro, Il Messagero, El Pais, Clarin, Wochenpost, Financial Times e Sunday Mirror, divulgavam diariamente informações sobre o que ficou conhecido como The Drug Empire.
A Polícia Federal empreendeu uma operação na qual foram cumpridas 71 prisões preventivas e 110 mandados de busca e apreensão. A Força de Segurança Nacional foi convocada para atuar em todas as cidades nas quais havia laboratórios de produção de crack instalados e mapeados. Uma Comissão Parlamentar de Inquérito, a CPI das Drogas, foi instaurada em caráter de urgência.
E os fatos aconteceram em cascata, dando a impressão de que o tempo corria mais veloz.
Anselmo estava em casa rezando ajoelhado diante de uma imagem da Virgem Maria quando ouve fortes batidas na porta. Levantou-se para atender consciente do que se tratava.
--Sim? -- deu de cara com três homens armados e sentiu o coração disparar
--O senhor é Anselmo Guedes? -- um dos homens perguntou seriamente
--O próprio. -- respondeu com lágrimas nos olhos
O policial apresentou sua identificação. -- O senhor está preso pelo crime de associação para o tráfico de drogas! -- fez sinal para os colegas que o algemaram
Ele fechou os olhos e pediu mentalmente: “Senhor, dai-me forças pra passar por isso, eu Lhe imploro!”
Enquanto era conduzido pelos policiais diante dos olhares surpresos da vizinhança, Anselmo relembrava fatos marcantes de sua vida. Viu cenas da infância modesta passada no subúrbio, pensou no progresso profissional, lembrou-se da emoção que sentiu quando se casou com Ana e da alegria que lhe dominou no dia do nascimento de Isabela. Enquanto as lágrimas começavam a cair, lembrou-se ainda do relacionamento com Gisele e de suas expectativas frustradas. Pensou nas consequências da aventura com Marizé e no infeliz momento em que aceitou se envolver com o tráfico. Lembrou-se de suas falhas como marido e pai, nas palavras duras ditas a Isabela, em tudo o que perdeu e no que perdia naquele momento.
Dentro do carro, olhando sem ver a paisagem que se sucedia, questionava para si mesmo a diferença entre reputação e caráter.
"As circunstâncias entre as quais você vive determinam sua reputação.
A verdade em que você acredita determina seu caráter.
A reputação é o que acham que você é.
O caráter é o que você realmente é.
A reputação é o que você tem quando chega a uma comunidade nova.
O caráter é o que você tem quando vai embora.
A reputação é feita em um momento.
O caráter é construído em uma vida inteira.
A reputação torna você rico ou pobre.
O caráter torna você feliz ou infeliz.
A reputação é o que as pessoas dizem de você junto à sua sepultura.
O caráter é o que os Anjos dizem de você diante de Deus!"67
Em outro local, dois homens entram correndo em uma sala.
--Retire sua candidatura agora mesmo! -- um deles afirmou entre dentes ao socar a mesa do colega com raiva
--E por que? -- respondeu de cara feia
--Porque você tá queimado, idiota!! Seus amiguinhos do peito dançaram e seu nome apareceu na história! -- arremessou um jornal sobre ele -- Não vamos permitir que você arraste algum de nós pro buraco!
Leu as manchetes e respondeu furioso ao se levantar: -- Mas eu não tava sozinho nessa!
--Não? -- o outro debochou -- Pois a gente mal te conhece! -- sorriu sarcástico
Àjé preparava um jogo de cartas, sentada tranquilamente em sua cadeira de palha. Luizinho entra esbaforido em sua sala acompanhado por mais dois homens.
--Mas o que está havendo aqui? -- perguntou em choque
--Sua puta! -- o traficante berrou apontando-lhe um fuzil. Os outros homens repetiram seu gesto -- Vamo te esculachar!
A mulher olhou apavoradamente para suas estátuas. -- Não é possível! -- começou a chorar -- Eu lhes fui fiel por anos, eu fiz tudo o que me ordenaram, eu... -- sentia desespero e decepção
--X9 vai pra vala! Puxou o pino! -- gritou
Eles atiraram furiosamente contra ela.
Pouco tempo depois Ana entrava apressadamente na sala da feiticeira.
--Àjé, nós precisamos conversar! -- deteve-se no caminho -- Meu Deus!!!!!!!! -- exclamou apavorada
Àjé e seus ajudantes estavam todos mortos e empilhados sobre as estátuas quebradas.
--Não, não!!! -- chorava em desespero -- Nãããããããõoooo!!!!!!!! -- gritou ajoelhando-se no chão
Horas mais tarde, homens mascarados e fortemente armados invadem uma casa em uma zona retirada da cidade.
--Que porr* é essa? -- Luizinho pega o fuzil e aponta contra os invasores
--Ai, meu Deus! -- sua mulher começou a chorar
--Você não serve mais! -- atiraram contra eles
Os homens de confiança do traficante tiveram o mesmo fim.
Tatiana chegava escoltada no aeroporto do Galeão. Encaminhando-se para o balcão da companhia aérea deu de cara com Renan.
--Meu Deus! -- parou e levou a mão aos lábios
--Eu comprei a última passagem! -- sorriu emocionado -- Olha, eu até fiz curso, mas meu inglês é meio fraco...
--Meu pretinho! -- lançou-se nos braços dele e beijou-o com paixão
--Eu não acredito, Seyyed! -- Isa andava nervosamente pela sala -- Eu não acredito que você vai pra Goiânia!! -- olhou para ela com cara de choro
--Renan foi embora, Isa! -- respondeu olhando nos olhos da ruiva -- Os pais de Tatiana vão passar uns tempos em Pau D’Arco, Tamires foi pra Campina Grande, Camille trabalha em outra empresa, eu não tenho nem a quem pedir pra tocar a oficina! -- riu brevemente -- Quem vai fazer isso? Seu Marciano? Os mecânicos? -- balançou a cabeça -- Tem que ser eu!
--Você não pode ir embora agora! -- foi até ela. Estava agoniada -- Meu pai foi preso, minha mãe enlouqueceu, eu tô maluca com tanta coisa e tanto trabalho... não pode me deixar sozinha aqui! -- quase chorava -- Como é que eu vou fazer com minha mãe?
--Mas, meu amor! -- segurou-a delicadamente pelos braços -- Se eu não for o que vai ser daquela oficina? Sabe que não podemos encarar mais um prejuízo! -- secou uma lágrima que escorria dos olhos dela -- E você não tá sozinha! Tem minha mãe, seus parentes, nossas amigas...
A bailarina chorava.
--Não chora, amor! -- pediu -- Nem que meu dinheiro vá embora com tanto gasto de passagem aérea ou de ônibus eu vou sempre vir pra cá!
--Nosso casamento não vai resistir a isso, Ed. É muita coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo! -- chorava -- Você vai ficar longe de mim!
--“A ausência só mata um amor quando ele já está doente na data da partida”.68 Nosso amor é forte, Isa! Já deu provas disso! Confie em mim!
--Me beija, Ed! -- pediu emocionada
--Eu te amo, minha linda! -- beijou-a tomando-a nos braços com carinho
Interromperam o beijo somente quando o ar lhes faltou.
--Eu tô com medo, Ed. -- segurava o rosto da morena com as duas mãos e mantinha seu rosto muito próximo ao dela -- Eu não sei o que fazer com minha mãe e temo pela vida de papai. -- olhava em seus olhos
--A gente vai saber o que fazer. -- mantinha-se abraçada com a ruiva -- Vai terminar tudo bem, da melhor forma pra todo mundo, vai sim! -- beijou-a -- Confia em Deus, Isa. E confia que eu vou estar do seu lado, porque eu vou! -- colou testa com testa
--Eu confio! -- beijou-a -- Eu confio! -- beijaram-se novamente
Priscila tentava andar com o carro. Estavam em um enorme engarrafamento.
--Que droga! A gente avança um metro e pára! -- reclamou
--Ai, Pri! -- Lady gritou -- A bolsa!!
--Mas já esqueceu a bolsa de novo, Lady?? -- olhou para ela de cara feia -- Segunda vez em duas semanas!
--Não, amiga! -- segurou o braço da outra -- Vai nascer! A enviadinha vem aí, ai, ai, ai, ai, ai, ai! -- olhou para a morena em pânico
--Ai, meu Deus! -- arregalou os olhos
--Vai nascer, vai nascer!!! AHAHAHAHAHAHAHAH!!! -- gritou com raça
--Calma, Lady!! -- abriu a porta do carro e deu a volta para abrir a porta do carona -- Deita no banco de trás, vai! -- pediu enquanto a ajudava a se levantar
--Mas e agora? -- perguntou assustada com a mão na barriga -- Ai, que sensação esquisita! Ai, ai... -- gemia -- Parece que eu preciso botar pra fora!
--E com certeza precisa! -- a morena abriu a porta de trás e guiou a amiga para que se deitasse no banco do carro.
--O que você vai fazer? -- perguntou ao se sentar novamente
-- Seu parto! -- afirmou com decisão
--O que?? -- falou com os olhos arregalados -- Mas, amiga, você tira dentes de bocas e não bebês de passarinhas!!!
--Conversa é essa de passarinha, Lady?! -- fez cara feia -- Sou a melhor opção que você tem agora. -- segurou o rosto dela com as mãos -- Deite aí e confie em mim! -- pediu olhando nos olhos da outra
“Nossa, que coisa obstetra!” -- pensou abestalhada e se deitou -- Ai, ai, ai, meu Pai, socorre essa pecadora que dá a luz no engarrafamento!! -- gritava -- Abre os caminhos, meu Pai, nos ajude, ai, ai, ai!!!
--Controla a respiração, Lady. -- removeu a calcinha dela -- Tipo cachorrinho, vai, assim comigo! -- respirava do jeito que a outra deveria fazer
Lady obedecia e gemia.
--Ei, vocês precisam de alguma coisa? -- uma mulher chega correndo -- Eu trouxe um cobertor limpo! -- mostrou
Outras pessoas saíram de seus carros e vieram ajudar.
--Ah, mas a gente precisa, sim! -- olhava para todos -- Panos, água, uma tesoura... Luvas cirúrgicas cairiam bem, mas aí já seria pedir demais! -- voltou a atenção para Lady
--Ai, ai, meu Pai!! -- gemia e respirava como a morena orientou -- Ai, ai, ai, tá chegando a hora!! Ai, ai, ai, ai!!!! Meu neném já vem e pede pra ir pra fora!!!!!
--Eu, hein? -- a dentista fez um bico
--É... -- um homem se aproximou com duas caixas -- você pediu luvas cirúrgicas... -- sorria -- De que tamanho?
--Gente, não creio! -- a dentista empolgadamente pegou um par pequeno
--Oitenta centavos o par! -- ele complementou
“Será parente de Lila?” -- pensava enquanto via que a pequena Priscila começava a aparecer -- Vai, Lady, coragem e força que tá dando tudo certo!
--Ô, meu Pai, ajuda essa mulher que dá a luz no engarrafamento! -- uma mulher gritou olhando para o céu
“Lady tá fazendo escola!” -- a morena pensou achando graça -- Vamos lá, Lady, coragem! Eu tô aqui ajudando você, vai dar tudo certo!!
--Ai, ai, ai, ai, meu Pai!!! Ajudai-me, animai-me, amparai-me!!! -- gritava ensandecida -- Guiai-me!!! Aime, aime!!!
--Vai, vai, vai!!! -- todos gritavam
Lourdes e Valadão assistiam Priscila com suas preces. “Senhor, nós imploramos, ajudai para que nada de mal aconteça a Gisele e sua mãe!” -- pediam fervorosamente
--AHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!!!! -- Lady solta um de seus mais tenebrosos agudos
E um choro de criança se fez ouvir.
--Ai, meu Deus! -- Priscila cortou o cordão umbilical emocionada e segurou o bebê com carinho -- Olha ela, Lady! -- entregou a menina nos braços da mãe -- Ai, amiga, que emoção! -- chorava -- E foi meu primeiro parto!
--Meu bebê! -- Lady abraçou a criança com cuidado -- Minha Priscilinha... -- chorava -- "Graças a Deus e a minha Priscilona...” -- pensou com emoção
--Ai, que fofurinha... -- uma mulher falou
--Que lindinha! -- outra exclamou
--Ah, meu Deus... -- um homem dizia
Priscila ajoelhou-se ao lado de Lady que se sentou com a filha nos braços. -- Que coisa linda! Eu nunca tinha vivido algo assim... -- chorava
--Nem eu, Pri... -- chorava também -- "Ai, agora somos uma família de fato...”
--É... senhora? -- um homem cutuva o ombro da dentista
--O que? -- passou a mão nos olhos e olhou para ele
--Oitenta centavos o par! -- abriu a mão esperando o dinheiro
A campanhia da casa de Juliana e Suzana toca com insistência.
--Mas que coisa! -- a morena atende e a japonesa vem atrás
Quatro homens armados se apresentam.
--Delega Suzana Mello? -- um deles perguntou
--Ela mesma! -- respondeu confiante
--A senhora está sendo indiciada por corrupção ativa e oferta de vantagem a testemunha. -- outro declarou -- Venha conosco, por favor. Precisamos tomar seu depoimento.
--Não! -- Juliana se colocou a frente da amante -- Ela não vai com vocês pra lugar algum! Ela não é criminosa!
--Senhora... -- um dos homens começou a falar
--Deixa, amor. -- beijou a cabeça dela -- Essas acusações não têm respaldo. -- explicou com carinho e olhou para os homens -- Vamos embora! -- foram andando
Juliana seguia atrás falando: -- Se alguma coisa acontecer com ela eu infernizo a vida de vocês até a morte! Por que não vão pegar bandido, hein? Por que?
--Senhora, procure se acalmar! -- um deles pediu
--Acalmar nada! Isso tudo é uma grande pouca vergonha! -- continuava protestando -- Tá tudo errado!!
Abriram a porta do carro para Suzana entrar. Ela então olhou para a japonesa e disse: -- Vai dar tudo certo! -- segurou seu rosto e a beijou. Os homens abaixaram a cabeça constrangidos
Juliana acompanhou o carro com o olhar e ficou chorando na porta.
Dias depois, a japonesa mobilizava a imprensa com o apoio de seu partido político e desabafava para um grupo de repórteres. -- É um absurdo o que acontece nesse país! Uma inversão de valores! -- gesticulava -- A jornalista Tatiana Queiroz dos Santos apresentou um trabalho muito bem respaldado e não omitiu quaisquer provas! Ela teve que sair do país pra zelar por sua própria segurança e sua família mais próxima teve de se esconder da mesma maneira! Agora a imprensa, vocês, -- olhava para os repórteres -- a acusam de sensacionalismo barato! Barato, o que? Nada saiu barato nessa história! -- lutava para não chorar -- A delegada Suzana Mello, minha companheira e eu não escondo isso de ninguém, foi indiciada por corrupção ativa e oferta de vantagem a testemunha! E por que? Porque foi acusada de colaborar com Tatiana nas investigações que mostraram a podridão que por ora se vê! E eu digo, eu sei que Suzana nunca roubou nada ou corrompeu ninguém! Ela passa por isso porque os valores estão totalmente invertidos!! Em anos como delegada de polícia eu quero ver alguém provar que ela tenha se envolvido em uma cafajestagem sequer! Eu desafio!!! -- pausou -- Mas não vai ficar assim, a gente vai lutar até o final pra que justiça seja feita! Temos apoio de muita gente! -- gesticulava -- É incrível como que nos Estados Unidos as empresas de fachada em território americano foram desmanteladas, os doleiros e todos os responsáveis pela pouca vergonha foram presos! Todos aqueles que foram identificados como envolvidos na safadeza foram presos! Enquanto isso, aqui no Brasil, já teve quem escapasse de ficar atrás das grades! -- olhou para uma das câmeras -- E o que é pior: gente HONESTA como Suzana Mello é vítima de calúnia! EU -- bateu no peito -- sofro o risco de ser demitida por retaliação! É o fim da picada!!
--Ei, à propósito, -- Ruy grita e chama a atenção dos repórteres -- essa que vos falou é Juliana Okinawa, nossa candidata do PCons a deputada federal. -- sorriu
Camille batia na porta entreaberta da sala de Letícia. -- Posso? -- perguntou desconfiada
--Oi! -- a professora se levantou sorridente -- Vem, entra, menina! Que surpresa maravilhosa! -- foi até ela -- Deixa eu fechar essa porta!
A loura entrou e ficou parada no meio da sala. -- Hoje eu sabia que não teríamos atividades em Salvador, então aproveitei pra voltar pro Rio. Como é sexta-feira vou pegar o final de semana aqui... -- olhou para a outra -- Vim direto do Galeão pra cá.
--Ah, então almoça comigo! -- pegou a bolsa -- Aí a gente conversa melhor! -- aproximou-se dela -- Mas, antes de qualquer coisa, -- falou mais baixo -- me beija porque a gente não se cumprimentou direito! -- puxou-a para perto de si
--Não posso, Letícia! -- afastou-se da professora -- Tenho uma coisa séria pra conversar com você! -- estava tensa -- Nem sei se quero almoçar.
“Nossa, mas o que será? Não me diga que vai ser transferida pra outra cidade?” -- pensou intrigada -- Tá bom, então... vamos sair daqui e conversar. -- abriu a porta
As duas seguiram caminhando em silêncio até o elevador.
--De fato, eu... -- Letícia falou enquanto esperavam -- também tenho uma coisa séria pra conversar contigo.
Entraram no elevador.
“O que será? Só faltava querer me dar um ultimato pra testar aqueles acessórios pornôs que ela gosta de usar!” -- a engenheira se preocupou
Saíram e caminharam até um pequeno jardim. Sentaram-se em um dos bancos e a professora virou-se de lado para olhar para a jovem.
--E então? -- sorriu -- Qual é o assunto tão sério? -- mal disfarçava a curiosidade
--Fátima esteve em Salvador por conta de uma competição. -- olhava para baixo -- E no mesmo hotel que eu.
--E...? -- perguntou apreensiva
--Ela me contou de uma proposta que recebeu para nadar na China. -- olhou para a namorada -- E aconteceu...
--Aconteceu?? -- não queria entender
--Fizemos amor... -- falou em voz baixa
--O que??????? -- levantou-se furiosa -- Eu sabia, eu sabia que na primeira oportunidade que você tivesse com aquela nadadora isso ia acontecer! -- andava em círculos -- Não tomei chifre em São Paulo pra tomar em Salvador! -- chutou uma pedra -- Que merd*!
--Dá pra falar baixo? -- olhava para todos os lados -- Alguém pode ouvir isso e esse é o seu lugar de trabalho! -- pediu apavorada
--Você quer o que afinal, hein, Camille? -- parou diante dela -- Ama Seyyed, louva Fátima e passa o tempo comigo porque não pode ter nem uma e nem outra? -- falava com mágoa
--Não é nada disso, Letícia! -- levantou-se também -- Nós duas tínhamos discutido pelo mesmo motivo de sempre, eu tava muito pra baixo e Fátima veio falando umas coisas... -- passou a mão nos cabelos -- Eu precisava me sentir amada, aceita e... precisava dar a ela a noite que merecia...
--Ah, que romântico! -- respondeu debochadamente -- Então você está querendo insinuar que eu fiz você se sentir mal amada e rejeitada? -- estava com raiva -- Daí a Santa Fátima apareceu, fez você ficar feliz e de lambuja lavou a égua? Até porque, você andava devendo uma boa trans* pra ela! -- riu sarcástica
--Não admito que fale comigo assim! -- aproximou-se dela -- E vê se diminui o tom de voz!
--Ah, claro, você não pode sair do armário! -- afirmou debochadamente -- Mas fique tranqüila porque quase ninguém vem aqui!
--Eu posso ter demorado a vir te procurar pra contar a verdade, mas acho que merecia mais respeito de sua parte... -- preparou-se para ir embora -- Tchau, Letícia!
A professora se desesperou. -- Calma! Fica, por favor! -- segurou o braço dela -- É que eu fiquei com raiva... -- pausou -- Vamos conversar direito... Você há de convir que eu não posso receber bem uma notícia dessas... ninguém no meu lugar receberia!
--E você? -- desvencilhou-se da amante -- O que tem pra me contar, afinal? -- olhava para ela
--Eu... -- voltou a andar em círculos -- quando eu voltei de Salvador, depois do carnaval... -- olhou para o chão -- sentei do lado de uma daquelas palestrantes do tributo que a gente assistiu... a Vanessa... -- olhou para a loura -- ela estava no meu vôo...
Camille ficou calada esperando.
--Eu tava super chateada com a nossa briga, frustrada com suas constantes negativas e... -- pausou -- passei a noite com ela...
--Meu, mas que sacanagem, viu? -- ficou revoltada -- Não se pode confiar em ninguém, que inferno, ô louco! -- cruzou os braços
--Ah, Camille, você não pode falar nada! Você me traiu, mas eu não te traí! -- retrucou
--Ah, não? -- perguntou debochada -- Por que? Transou de pernas fechadas e beijou sem língua?
--Pra mim foi uma coisa sem significado, eu precisava descarregar a tensão, só isso! -- justificava -- Você se envolveu, teve sentimento! Isso sim é traição!
--Faça-me o favor, viu? Que discursinho ridículo! Parece até papo de homem machista!
--Fala se eu tô mentindo?
--Ah, Letícia, quer saber? Esse nosso namoro virou uma pouca vergonha dos diabos! É uma putaria que não acaba mais! -- fez cara feia -- É melhor terminar! Do jeito que tá é uma zorra total!
--Terminar?! -- arregalou os olhos e correu até ela -- Peraí, Camille, sem radicalismos! -- segurou-a pelos braços -- Olha, a gente se perdeu em algum momento mas dá pra consertar tudo! -- sorriu -- Eu quero você, não desejo perdê-la!
--Letícia...
--Eu te amo!
--Que ama o que? -- libertou-se dela revoltada -- Nem você me ama e nem eu te amo!
--Camille... -- respondeu decepcionada
--A gente se encantou uma com a outra e foi isso! Sejamos realistas, Letícia, não temos nada a ver!
--Como não?! -- foi até a outra novamente -- Temos tudo a ver! O que tá estragando é apenas uma falta de sintonia sexual que pode ser consertada se a gente permanecer insistindo e...
--Chega de tanta insistência! -- olhava nos olhos da outra -- Eu não quero mais!
--Não tome decisões assim! Estamos nervosas, magoadas, não é o momento pra decidir nada! -- riu nervosamente -- "Chifre trocado não vai doer!”69
--Eu, hein, Letícia, que conversa!!
--Camille... -- estava agoniada
--Chega, Letícia! Eu aprendi muito com você e não nego que me fez muito bem, mas esse relacionamento já deu o que tinha que dar! -- decidiu -- Acabou!
A professora ficou atônita olhando para a loura que partiu sem olhar para trás.
“The dream is over... again...” -- pensou com vontade de chorar
Olga fazia uma palestra no grupo espírita.
--Eu gostaria de contar duas histórias pra vocês e acho que elas ilustrarão perfeitamente a mensagem que quero transmitir. -- olhava para todos -- "Diz a Sabedoria Indígena que quando não cumprimos o que prometemos, o fio de nossa ação, que deveria estar concluída e amarrada em algum lugar, fica solto ao nosso lado. Com o passar do tempo, os fios soltos enrolam-se em nossos pés e impedem que caminhemos livremente. Ficamos amarrados às nossas próprias palavras.” -- pausou -- "Por isso os nativos têm o costume de "por-as-palavras-a-andar", que significa agir de acordo com o que se fala; isso conduz à integridade entre o pensar, o sentir e o agir no mundo, e nos conduz ao Caminho da Beleza onde há harmonia e prosperidade.”70 -- caminhava entre os presentes -- Nós freqüentamos essa casa, conhecemos a mensagem de Cristo Jesus, expressa nas Sagradas Escrituras, e conhecemos a mensagem de Kardec, expressa no Pentateuco da Codificação. Isso quer dizer que sabemos o que fazer e fomos orientados quanto ao melhor caminho a seguir, mas eu pergunto: realmente nos comportamos do modo como nosso discurso bonito alardeia? Quantos fios estão enrolados ao redor de nossos pés? Respondam isso a si mesmos e com sinceridade. -- olhava para as pessoas -- Não adianta ler todos os livros, estudar os segredos da vida espiritual até a exaustão ou vir no centro todo final de semana se não empreendermos uma reforma íntima em torno de nossos pensamentos e atitudes. E creiam, -- advertiu -- a toda ação é precedida um pensamento. Pensamentos constroem, e formam a psicosfera do indivíduo atraindo o bem ou o mal, conforme aquilo com que sintonize. -- continuava caminhando pelo salão -- A outra história que quero contar é sobre a autoridade moral. -- pausou -- "Na Índia, um jovem recebeu a recomendação de não comer mais açúcar para não agravar sua saúde. Sua mãe fez de tudo, mas não conseguia mudar o comportamento dele. Desesperada ela viajou com o filho uma grande distancia para encontrar Gandhi para que ele convencesse o menino.” -- narrava -- "Chegando da longa viagem e falando com o seu guru a mãe implorou: “-- Por favor, Mahatma, diga ao meu filho que ele pare de comer açúcar.” Gandhi fez uma pausa e disse: “-- Traga seu filho de volta em duas semanas.” Confusa, a mulher agradeceu e disse que faria o que o Mahatma pediu. Duas semanas mais tarde, ela retornou com seu filho. Gandhi olhou o jovem nos olhos e disse: “-- Não coma mais açúcar.”” -- voltou para o púlpito -- "O menino então prometeu que atenderia seu pedido. Agradecida, mas sem entender, a mulher perguntou: “- Mahatma, por que o senhor me pediu para trazê-lo em duas semanas? O senhor poderia ter dito a ele, como fez agora, há duas semanas atrás e nos pouparia desta nova viagem.” Gandhi respondeu: “-- É que há duas semanas atrás, eu ainda comia açúcar.””72 -- algumas pessoas riram -- Vejam que Gandhi deixa claro que quando comia açúcar não tinha autoridade moral para pedir que o jovem mudasse de hábitos. Da mesma forma, como pode um médium evangelizar um espírito endurecido no mal se ele mesmo não tem uma conduta ajustada para servir de exemplo, ou seja, não tem autoridade moral? -- provocou o público -- Por causa disso, alguns me dizem que um médium homossexual seria naturalmente desprovido de tal autoridade, pois vive em condição de desalinho. Eu discordo totalmente dessa colocação, pois a desarmonia não se encontra na orientação sexual do indivíduo e sim no comportamento sexual. Condenar o homossexual simplesmente por isso é preconceito injustificável e descabido no seio de uma comunidade que se diz espírita-cristã. -- pausou -- As perguntas que faço são as seguintes: a autoridade moral é conquistada pelo indivíduo por uma questão de comportamento ou não? Os heterossexuais estão em um patamar superior simplesmente por serem heteros? -- sorriu -- Enfim, fica para vocês pensarem.
--Eu disse que Olga iria querer colocar gays e lésbicas trabalhando no centro! -- Beatriz cochichou com Paulo
--Quero só ver onde isso vai parar... -- ele fez cara feia
Mariângela conversava com Flávia na academia de boxe.
--Dona mãe, o que tá acontecendo? -- a fisioterapeuta perguntou enquanto socava o saco de areia -- Depois da denúncia de Tatiana foi um tal de gente sendo presa, gente sendo solta, gente sendo morta, gente fazendo demagogia na TV, gente protestando... -- olhou para a loura -- Eu tô até tonta! -- parou de bater
--Pois eu quero mais é ver esse circo pegar fogo e a pouca vergonha acabar! -- socava com fúria -- Se Deus quiser esse tumulto vai perturbar as autoridades e justiça será feita! -- parou e olhou para Flávia -- E seu namorado vai voltar! -- sorriu
--Era o que eu mais queria, viu? -- suspirou -- Mas volta pra pancadaria! -- voltou a socar
--Volta pra pancadaria! -- repetiu e voltou a bater no saco
--Eita, que dá até medo dela! -- riu -- E o balé na comunidade, como vai?
--Dando um trabalho danado, mas eu tô gostando. Já são quatro professoras voluntárias e quarenta e sete alunos! -- sorriu empolgada
--Maravilha! Só não vai trocar as bolas e bater no povo lá pra chegar dançando aqui! -- riu
--Fique tranqüila. Comigo a coisa é profissional!
--E como vai o seu admirador? -- provocou -- Tô sabendo que Romeu é o cara! -- riu
--Cara de pau, isso sim! -- deu um soco tão forte que fez o saco se romper e despejar areia no chão
--Assim não dá, dona mãe! -- a fisioterapeuta pôs as mãos na cintura -- Terceiro saco em menos de um mês?
--Não provoca minha fúria, Flávia! -- advertiu -- Meu cruzado é animal! -- socou o ar
--Ô, meu Pai, criei um monstrinho...
Lila estava na faculdade. Era final de tarde e uma colega distribuía as senhas para o atendimento místico.
--Vamos lá, guris, todo mundo concentrado comigo. -- ligou o rádio e deixou tocar a música Sabhyatâ, de Karmix (maravilhosa!!) -- "Mentalize um campo florido, uma cachoeira de água cristalina, o esplendor do verde de uma floresta e ponha-se a ouvir uma música calma e suave. Faça uma viagem interior e harmonize-se para a vida."72 -- respirava profundamente -- Inspire e expire... -- falava com voz hipnótica -- Agora, abstrai: aummmmmmmmm, aummmmmmmmm, aummmmmmmmm!!!
--Aummmmmmm, aummmmmmmmm, aummmmmmm!! -- todos repetiam
--Aummmmmmmmmmm, aummmmmmmmmm!
--Aummmmmmmmm, aummmmmmmmmm!! -- e o povo repetia
--Pronto! -- abriu os olhos -- Próximo grupo! -- chamou
--Mas já acabou? -- uma moça protestou
--Mas, bá, a demanda é muito pesada e eu preciso dar conta de todos sem exaurir minhas reservas espirituais. Não é à toa que tô dando desconto e nem cobro pelos incensos! -- explicou calmamente
Sabrina estava com uma colega dividindo um quarto de pousada em Kathmandu, Nepal.
--Pra mim chega, Sabrina! -- Bruna dizia nervosamente -- Depois do que aconteceu aqui eu nunca mais quero saber desses quatorze cumes na minha vida! -- andava de um lado a outro
--Calma, Bruna! -- pedia -- Não pode desistir do sonho assim!
--E dá pra ficar calma? -- parou diante da amiga e cruzou os braços -- Você já parou pra pensar quanta gente morreu no Everest nessa temporada? E gente boa, Sabrina, gente que entende de montanha e que já esteve no topo do mundo mais de uma vez!
--Eu sei e foram perdas terríveis, uma lástima! -- segurou a amiga pelos braços -- Mas foi uma sucessão de fatos que nos servem de lição e aprendizado pra gente não repetir os mesmos erros! -- tentava convencê-la -- A gente não pode desistir por causa disso! Devemos aprender com o que aconteceu, isso sim!
--Pois o meu aprendizado foi esse: -- desvencilhou-se da outra -- estou fora! -- andou até a janela -- E você deveria fazer o mesmo!
--Não... -- balançou a cabeça -- Agora só me faltam três cumes! E nesse ano ainda faço mais uma escalada. -- riu -- Eu não vou desistir! Deixo o K2 pro ano que vem e em 2008 será a vez do meu Everest e a conclusão do projeto! -- sonhava
--Sabrina, pelo amor de Deus!!! Em uma única estação morreram dez pessoas! Por pouco essa desgraça não se igualou à tragédia de 1996 no Everest!
--Não vai ser assim conosco! Essa tragédia nos fez aprender muita coisa! Eu posso dizer que aprendi muita coisa!
--Que maldita vaidade é essa, hein? -- olhou para a outra escaladora -- Tudo pra ser a primeira mulher do mundo, a mais jovem e a lésbica a completar esse maldito projeto dos quatorze cumes? -- perguntou horrorizada -- Puta que pariu, Sabrina, que merd*!
--Você não entende... -- passou a mão nos cabelos -- Essas montanhas me chamam... e eu vou!
--Não tem medo de morrer, não?
--Não! -- respondeu com convicção -- E se eu morresse nas montanhas, morreria feliz.
--Garota, a vida é uma coisa muito séria pra ser desperdiçada por causa de vaidades tolas!!
--Eu sei... Não estou em um processo suicida. Apenas persigo um objetivo. -- caminhou até a janela e observou os cumes nevados do Himalaia -- "Acredito que a morte é apenas uma porta. Quando uma fecha, outra se abre.” -- sorriu -- "Se eu pudesse imaginar um paraíso eu imaginaria uma porta se abrindo e, atrás dela, ela estaria lá...” -- pensou em Patrícia -- "me esperando.”73 -- sorriu
10:00h. 05 de agosto de 2006, Jardim Botânico, Rio de Janeiro
Camille, Mariângela e Flávia passeavam pela grande alameda ladeada de palmeiras do parque mais antigo do Brasil.
--Fazia muito tempo que eu não vinha pra cá, louras! -- a fisioterapeuta dizia -- Gostei do convite! -- sorria -- Faz muito bem pra gente ter um contato com a natureza!
--É bom respirar ar puro em meio a essa beleza aqui! -- a costureira falou -- Quando morávamos em São Paulo eu gostava de passear no Ibirapuera sempre que podia.
--O Ibirapuera é muito da hora mesmo! -- Camille exclamou -- Mas o Jardim Botânico tem um quê especial!
--Claro, maluquete! Fica no Rio! -- provocou as paulistanas
--Você está em minoria, Flávia. Cuide do que fala. -- Mariângela brincou enquanto socava a mão
--Eu não digo que criei um monstro? -- riu
--Flávia, na verdade nós convidamos você aqui porque queríamos te dar um presente. -- parou de andar e ficou de frente para ela
--Presente esse que você vai amar! -- Mariângela parou ao lado da filha
--Presente?! -- não entendia -- Nossa, mas nem é meu aniversário, natal, nem nada disso... -- riu -- O que estão tramando?
Camille olhou para a mãe e as duas afastaram-se como se fossem uma cortina que se abre. Flávia então pôde ver que Brito estava parado no final da alameda, nervosamente ajeitando a gola da camisa.
--Ai, meu Deus!! -- a fisioterapeuta gritou emocionada
--O que está esperando, Flávia? -- Camille brincou -- Vai lá, meu!
--Flávia! -- Brito gritou e começou a correr de encontro a ela
--Ai, ele voltou, ele voltou!! -- ela deu pulinhos e começou a correr também
Quando os dois se encontraram, abraçaram-se entusiasmados e felizes. Não conseguiam controlar o choro e seus beijos ansiosos falavam por milhares de palavras.
--Ele foi embora em março de 2004! -- Mariângela comentou com a filha -- Foi uma espera longa pra Flávia...
“Eu espero desde primeiro de setembro do ano 2000...” -- Camille pensou e se limitou a suspirar
--Quanto tempo, amor! -- ele disse ao segurar o rosto dela -- Quanto tempo... -- sorria
--Você voltou mesmo? Ou veio só pra me colocar água na boca e depois ir embora? -- perguntou preocupada
--Voltei! -- respondeu sorridente -- Posso viver aqui sem medo do pior acontecer!
--Mas e como fica sua situação? O que vai te acontecer?
--Eu estava sendo processado, mas depois dessa coisa toda que aconteceu retiraram as queixas. Terei de prestar serviço comunitário por um ano e meio mas isso não me incomoda nem um pouco! -- beijou-a -- No mais, continuarei sendo o que sempre fui: um policial honesto e dedicado a fazer o que é certo!
--Graças a Deus que você voltou! -- abraçaram-se novamente
--Mas, espere! -- olhou para ela e ajeitou a gola da camisa -- Temos um assunto sério pra tratar! -- olhou para Camille e Mari -- E temos até duas testemunhas! -- tirou uma caixinha do bolso e abriu -- Será que a dona do melhor gancho direita que já vi na vida casaria comigo? -- pediu esperançoso olhando para ela -- Será que teria essa coragem?
--E eu lá sou mulher de ter medo? -- puxou-o para outro beijo apaixonado
--Ô, mãe, deixa eu fazer uma proposta: -- a jovem olhou para a costureira -- vamos embora que esses dois estão à beira do acasalamento! Não quero estar aqui quando a polícia chegar!
--É melhor mesmo! -- Mariângela deu o braço à filha e foram andando
Enquanto isso, Flávia e Brito continuavam a se beijar apaixonadamente sob as bênçãos das palmeiras imperiais.
***
Isabela aguardava pelo pai. Era a primeira vez que o visitava desde que foi preso.
Anselmo apareceu e seu olhar deu uma festa quando viu a filha. Ela se levantou e o observou atentamente enquanto vinha a seu encontro. Estava mais magro, abatido e parecia alguns anos mais velho.
“Meu Deus, como o sofrimento desgasta a pessoa...” -- lamentava mentalmente
--Você veio! -- parou diante dela e sorriu -- Ah, minha princesinha veio!! -- não acreditava
--Queria ter vindo antes, mas...
--Tudo bem, não precisa se desculpar! -- sorria -- Sente-se, vamos conversar! Temos pouco tempo! -- sentaram-se
--Como vão as coisas aqui, pai? Você tá abatido, parece cansado... -- estava preocupada
--Isso aqui é uma loucura, filha! Centenas de homens desocupados e amontoados com tempo de sobra pra pensar no que não presta! -- falava baixo -- E eles misturam homens que roubaram uma caixa de leite com assassinos frios e marginais perigosos! Não dá pra regenerar alguém dessa forma! -- olhou para todos os lados
--Mas você tem nível superior e ainda assim se mistura com a maior parte dos presos? Não deveria estar cumprindo pena em regime de prisão especial?
--Aconteceu tanta coisa que eu nem consigo entender direito! Usaram muitas justificativas e argumentos e acabei não fazendo jus a prisão especial. Peguei sete anos de pena, pra cumprir quatro deles em regime fechado... Foi mais do que a delegada imaginou que fosse. -- pausou -- Com a pressão da opinião pública e mais esse fuzuê todo, acho que servi de bode expiatório...
--Vamos ver o que dá pra fazer, pai. Mudar de advogado seria a primeira providência. -- olhava para ele -- E você... sofre algum tipo de violência por parte dos presos? -- perguntou com jeito
--Sim e não. Minha vida aqui não é nada boa... -- pausou -- Eu freqüento o grupo de orações e com eles vivo meus únicos momentos de paz.
--Pelo menos consegue ter esses momentos. -- pausou -- Graças a Deus! -- olhou para ele -- Nossos parentes tem vindo lhe visitar?
--Nunca recebi visita até o dia de hoje. -- respondeu com tristeza -- Quando soube que alguém me esperava cheguei a acreditar que fosse um traficante revoltado querendo me ameaçar.
--Meu Deus, mas será possível?! -- exclamou revoltada e gastou uns segundos em silêncio -- Também eu não deveria me espantar com isso! Somente vovó Odete tá me dando um apoio. O restante da família nem sequer me telefona pra saber se preciso de alguma coisa!
--E viviam na cobertura ou então telefonando atrás de Ana ou de mim!
--As amigas de mamãe também desapareceram... -- balançou a cabeça revoltada -- É nessas horas que a gente vê quem é quem!
--E falando nela, como vai sua mãe? -- perguntou preocupado -- Muito zangada comigo?
--Mamãe enlouqueceu, pai... -- respondeu com muita tristeza
--Como assim, enlouqueceu?? -- estava em choque
--Não sei o que houve ao certo, mas na época em que você foi preso ela entrou em estado de choque. Eu tava trabalhando quando me ligaram pedindo pra ir buscá-la em Bonsucesso. Encontrei com ela ajoelhada em uma praça e gritando como louca. -- olhava para as próprias mãos -- Depois disso nunca mais voltou ao normal, mas o pior aconteceu depois que os bens em seu nome foram seqüestrados por determinação judicial e ela ficou sem casa. Daí enlouqueceu de vez e perdeu a razão completamente. Pensa que é rainha da França e tem ataques de muita agressividade. -- passou a mão sobre os olhos para secar as lágrimas que se formavam -- Não pude mantê-la em casa comigo, mesmo com toda ajuda que estava recebendo, e tive de interná-la em uma clínica indicada pela psiquiatra de Camille. Isso já faz um mês... -- olhou para ele
--Pobre Ana... -- lamentou emocionado -- Foi muita pressão pra ela... Será que tem cura, será que ela se recupera dessa?
--Eu oro fervorosamente pra isso e o nome dela está no nosso centro espírita não é de hoje. Também tem um grupo, orientado por dona Olga, que proporciona a ela um tratamento espiritual -- pausou -- Aliás, seu nome também está lá pra oração.
Ele ficou feliz em saber que oravam por seu nome, mas ao mesmo tempo voltou a si para analisar a situação que ele, a mulher e a filha estavam passando. -- Oh, minha filha, é muito sofrimento pra você! -- olhou penalizado para ela -- E quem tem lhe ajudado a enfrentar isso além de minha sogra? Seyyed?
--Ed é companheira de todas as horas, mas está vivendo em Goiânia. Renan foi embora com Tatiana pra Londres e deixou a oficina com ela. -- sorriu -- A cada duas semanas ela vem pra passar o final de semana comigo.
--Mas, minha nossa! -- exclamou -- Parece que a vida de todo mundo virou de cabeça pra baixo!
--Virou completamente! -- concordou -- Meus sogros, Juliana, Suzana, Priscila, dona Mari e até Camille têm me dado uma força. -- pausou -- "E eu que nunca imaginei que um dia iria precisar de Camille...” -- pensou
--Que bom que, apesar do descaso de praticamente nossa família inteira, você não está sozinha! -- afirmou balançando a cabeça -- Mas, me diga, o apartamento em que vivemos antes de Ana e eu nos mudarmos pra cobertura também foi seqüestrado?
--Foi, mas agora já está liberado. A compra dele foi considerada legal. -- pausou -- Eu o coloquei pra alugar pra poder ajudar a pagar a clínica de mamãe. Só o aluguel do meu apartamento com Ed não deu conta de pagar esse primeiro mês e tive que completar com mais dinheiro.
--E essa clínica é tão cara assim? -- perguntou horrorizado
--Nem queira saber! Paguei somente um mês e quase caí pra trás. E é muito difícil achar uma clínica psiquiátrica que trate os pacientes com um mínimo de humanidade. -- passou a mão nos cabelos -- Ivone me garantiu que eu não encontraria um lugar melhor...
--Imagino... -- suspirou -- E você? Como tem ido? -- sorriu
--Tive que cancelar minha participação em um espetáculo que aconteceu há pouco tempo, mas tenho dado minhas aulas para adultos e mais as aulas na comunidade. -- sorriu -- Acho que terei de ficar afastada dos grandes eventos por um período... -- respondeu com uma certa tristeza
--Ah, meu amor... -- lamentou -- Isa, me escute! -- ajoelhou-se diante dela -- Eu sei que não fui um bom pai pra você e nem um bom marido pra sua mãe, mas eu juro que se pudesse voltar no tempo, eu faria tudo diferente! -- segurou as mãos dela -- Eu fui ausente na sua vida e acreditei que pagar as contas e colocar as coisas dentro de casa era o suficiente pra cumprir com minhas obrigações. Hoje vejo o quanto estava enganado... -- lutava para não chorar -- Eu perdi muitas coisas por minha própria culpa e ainda me envolvi com essa podridão toda a ponto de hoje merecer vir parar nesse lugar horrível! -- olhava nos olhos dela -- Sei que por tudo isso e pelas coisas que lhe falei no passado você não tem motivos pra ser orgulhar de mim, do contrário, só pra se envergonhar, mas... se não for lhe pedir demais... -- começou a chorar contidamente -- perdoe seu pai, filha! Por favor, será que poderia?
Isabela começou a chorar também. -- Eu pensei muito antes de vir até aqui... por tudo! -- pausou -- Suzana me contou -- falava baixo -- que sem a sua ajuda jamais se teria descoberto o esquema da forma como aconteceu. E ela me contou também que você se arriscou pra ajudar nas investigações de Tatiana e que aceitou não fugir e ser preso...
--Eu cooperei com elas porque minha consciência já não agüentava mais... Só que aceitei ser preso pra não correr o risco de ser assassinado! Não vou mentir quanto a isso! -- chorava
--E foi preciso muita coragem pra fazer o que você fez, pai! -- respondeu emocionada --
“Não estamos na obra do mundo para aniquilar o que é imperfeito, mas para completar o que se encontra inacabado.”74 -- sorriu entre lágrimas -- Sei que você está se completando, e nunca tive tanto orgulho em ser sua filha como tenho agora!
--Ah, minha princesa! -- abraçaram-se emocionados
Após tantos anos de distanciamento, as barreiras finalmente começavam a ser superadas.
***
Olga e Ricardinho chegavam na casa de Juliana e Suzana.
--Oi! -- o menino pulou como pipoca quando a delegada abriu a porta -- É eu e mamãe! Visita! -- sorria
Riu e o colocou no colo. -- Olá, meu amor! Mas que visita boa! -- beijou a cabeça dele e olhou para Olga -- Como vai? -- beijou a testa da mulher mais velha
--Bem, graças a Deus e vocês? -- ela respondeu sorridente -- Chegamos em hora ruim?
--Não, nunca! Vamos entrar, por favor! -- deu passagem para Olga e entrou com o menino no colo -- E graças a Deus também estamos bem.
--Quem chegou, tia? -- Mariana veio correndo -- Ih, meu neném! -- sorriu ao ver Ricardinho
--Oi! -- ele sorriu para a garota -- É eu!
--Olá, queridinha! -- Olga sorriu
--Oi, vovó! -- correu para abraçá-la
Suzana colocou o menino no chão. -- Por que não brinca com Ricardinho enquanto converso com dona Olga, hein, Mariana? -- olhou para a menina -- Acho que ele vai gostar de brincar de casinha! -- sorriu
--Vem, Ricardinho! -- Mariana deu a mão a ele -- Vamos brincar! Você vai ser meu filho! E me obedece porque eu sou mais velha e entendo das coisas.
--Mas eu já tenho mãe... -- foram andando para a varanda
Olga e a delegada riram.
--É mole? -- Suzana balançava a cabeça -- Por favor, sente-se! -- as duas se sentaram
--Onde está Juliana, meu bem? Trabalhando? -- olhava para a delegada
--Não, hoje é folga dela. Está na sede do PCons em uma daquelas reuniões intermináveis... -- olhou para o relógio -- Daqui a pouco ela chega aí.
--E o processo de demissão dela, o processo que moveram contra você... como vão essas coisas? -- perguntou preocupada
--O diretor do hospital foi afastado. A polícia descobriu algumas coisas interessantes sobre a ligação dele com aquela máfia dos remédios. O processo tá rolando, Ruy não dá mole e eu acho que vão ter que engavetar isso aí mais cedo ou mais tarde. Não procede, dona Olga, é coisa armada, sabe?
--Que bom!
--E no meu caso, continua a agonia mas também acredito que não vai dar em nada. Cadê as provas sólidas que mostrem minha corrupção e minha ‘compra’ de testemunhas? É uma aporrinhação mas... vai dar em nada, se Deus quiser. Só queriam mesmo era sujar meu nome e mudar o foco da conversa.
--Se Deus quiser, tudo vai se resolver bem! -- cruzou as pernas -- Além do mais que a candidatura de Juliana vai de vento em popa! -- sorriu
--Pois é! -- sorriu também -- Efeito colateral positivo de toda essa confusão!
--Mas, querida... eu vim aqui não só pra fazer uma visita mas também porque gostaria de lhe fazer uma proposta muito séria. -- olhava nos olhos da delegada
--Nossa! -- ficou surpresa -- E qual seria?
--Estamos desenvolvendo os médiuns pra trabalhar de uma forma ativa, bastante ativa, eu diria. Você não tem idéia de quantos magos das trevas existem na psicosfera desse planeta. Encarnados e desencarnados.
--Posso imaginar...
--A Terra passa por um longo e sofrido período de transição que começou por volta da Primeira Grande Guerra Mundial. Esse planeta deixará de ser um mundo expiatório pra ser um mundo regenerado, dando cumprimento às profecias do mestre Jesus e dos grandes profetas. Porém, existem muitos espíritos interessados em adiar essa transição. Espíritos equivocados no mal e iludidos a ponto de acreditar que podem impedir o que é inexorável! -- explicava
--Deduzo que tais espíritos têm feito a festa diante do estado de coisas nas quais nos encontramos...
--É uma bola de neve, meu bem. -- pausou -- Eles buscam causar desequilíbrio e perturbam a vida dos encarnados, que, por nossa vez, alimentamos pensamentos e atitudes viciosas que só fortalecem a ação de tais espíritos. Daí o mal vai crescendo e presenciamos coisas como essa violência desmedida, corrupção, vulgaridade e tudo mais que contamina a sociedade por inteiro. -- cruzou as pernas -- Vocês fizeram um grande e importante trabalho desmantelando esse esquema de drogas no Brasil, mas o crack, ainda assim, será o grande câncer desse país e isso não tardará muito a acontecer. Os espíritos do mal chefiam esse processo e muitas vidas serão consumidas por conta dessa droga infeliz. Ricos e pobres, cultos e iletrados, mulheres e homens, idosos e jovens... Veremos todo tipo de gente sendo arrastada pra ruína por conta desse mal!
--Minha nossa!!
--Os magos das trevas atuam nas sombras e seus representantes encarnados também. Pouco se noticia sobre o assunto, mas a prática de magia negra cresce no mundo inteiro75 e nós, os ‘bonzinhos’ -- fez aspas com os dedos -- ainda queremos acreditar que podemos demover e evangelizar espíritos cultos e tão endurecidos no mal apenas recitando as palavras de Jesus Cristo e Kardec.76 -- sorriu -- Não é suficiente!
--O que se pode fazer? -- perguntou aflita
--Combater o mal em nós mesmos com a mudança de nosso padrão comportamental e, especificamente para os médiuns, estudar e se desenvolver pra exercer uma mediunidade mais ativa. É uma guerra, minha querida! Precisamos do apoio dos exércitos do Bem pra poder lutar contra o império de sombras que se estabelece diariamente nesse planeta! O tempo urge!
--E no que eu posso ajudar? -- ainda não entendia
--Você é indígena, tem sensibilidade, conhece sobre as práticas xamânicas de sua tribo. Precisamos de sua ajuda para convocar os índios guerreiros no Além e com a ação deles destruir o mal que foi plasmado em diversos lugares.
--A senhora então... está me convidando pra ser médium do centro?
--Com toda certeza! E pra estudar bastante, eu acrescentaria.
--Mas eu sou lésbica...
--E...?
--As pessoas aceitarão isso?
--Nosso centro é uma casa de Deus, meu bem. Há algo mais que eu precise dizer? -- sorria
--Então se é assim... -- sorriu -- eu aceito!
Fim do capítulo
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Samirao
Em: 26/03/2024
Nos tempos do ABC teve 2000 COMMENTS! Mas o Lettera não lembra e não recomenda
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Como assim não recomenda?
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Femines666
Em: 11/03/2023
Infelizmente vou ter que parar porque recebi iFood e agora visitas. Mas tô amando a Liberdade. Eu sou muito free pra isso! Beijos estalados
Resposta do autor:
Olá querida!
Dê atenção as coisas da sua vida e depois volte. Obrigada por tamanha empolgação!
Beijos,
Sol
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Esse reencontro em Salvador hein? Que must! E a bichinha loura caiu de boca na vida! Uauauauau
Eu não suporto esse Romeu! Nojento
Resposta do autor:
Houve uma leitora que disse exatamente isso! Lembro dela.
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Gabi2020
Em: 23/04/2020
Olá moça rica como vai? Lembro das velhinhas que você ajudava e ainda ajuda. Fez bom, não pode deixá-las ficarem andando pelas ruas.
Essa questão da Camille e Fatima, resisti muito, pois queria a Camille com a Seyyed, confesso que fui injusta com a nadadora. E tinha essa qustão da Xena e Gabrielle (nunca gostei desse seriado, a Ju é apaixonada pela Xena). Mas sempre achei que o casal principal da história seriam as duas e que Isa e Fatima seriam secundárias e em algum momento iriam partir, me enganei redondamente.
Analisando os diálagos de Camille e Fatima, vejo uma profundidade e um amor, que na época da história não percebi ou melhor, não quis perceber. Que bom que estou tendo essa nova chance de leitura e mudar meus conceitos.
Beijosss
Resposta do autor:
Gabinha!
Gostei muito de saber isso! Muito mesmo! Mais ainda gosto que esteja lendo. Ou melhor, re lendo.
Enquanto isso, Samira está comentando aqui só para me dar estrelas nos capítulos recém divididos. Posso? kkkk
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 23/04/2020
Olá Sol!
Esses encontros de Camille e Letícia bem interessantes né? Letíica já começou mentindo e Camille só disse: "Vim trazer uma pessoa..." Porém se redimiu ao falar que tem namorada, já a tarada da Letícia...
Olha na época não achava legal a Camille e a Fatima, mas hoje... Que lindas, que entrega!
Será que chifre torcado não dói? Kkkkkk... Rindo, mas com respeito.
Lila, Lila... Tem um papo que consegue enrolar todo mundo.
Isa foi perspicaz em perceber o sentimento de Lady pela Priscila e a reação da morena foi a esperada, a negativa imediata.
Toda ação tem uma reação, Anselmo e Ana que o digam.
Ow o parto da Lady foi ao estilo dela... Com direito a gritos, vendedor ambulante e platéia.
Beijos
Resposta do autor:
Gabinha!
A maioria não fica encantada com Camille e Fátima. A nadadora cega foi uma imensa quebra de paradigma e aquela coisa do "verdes e azuis" enreda as leitoras. Ainda mais que a maioria lembra de Xena e Gabriele. Quem assistiu àquele seriado teve alta probabilidade de ter desejado ver ao menos um beijo bem dado.
Lila sabe tirar dinheiro do povo. Ela não dá ponto sem nó.
O parto de Lady foi digno de uma frase ladyana: Nossa, que coisa inusitada! kkkk
Beijos,
Sol
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Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
Obrigada!!!!!!
Beijos,
Sol