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  • Quinta Temporada - LIBERDADE IV

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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 15534
Acessos: 10812   |  Postado em: 12/04/2020

Quinta Temporada - LIBERDADE IV

 

 

 

Isabela chegava em casa e encontrou tudo quieto. Estranhou aquilo e foi procurar por Seyyed.

 

--Ed? -- chamou

 

--Estou aqui no quarto! -- respondeu

 

Chegando lá encontrou a morena apoiada em sua bengala e olhando os CDs na escrivaninha. Usava uma camisola e parecia recém saída do banho.

 

--O que houve, hein, amor? -- foi até ela e a beijou -- Tão quietinha aí... -- acariciou o rosto dela

 

--Como foi seu dia? -- a morena replicou sem responder a pergunta

 

--Bom, mas corrido. Sabe que até agora não acredito que hoje é dia 31? E ainda tivemos uma entrevista inesperada pra falar sobre o sucesso do musical no Pavão Pavãozinho... -- reparava na outra -- O que aconteceu, Ed? Você parece que chorou... -- estava preocupada

 

--Chorei sim, mas sem desespero. -- afastou-se dela e foi até a janela -- Agora que finalmente me livrei daquele colar cervical e melhorei um pouco mais da perna e do braço, posso desfilar por aí, andando lentamente com minha bengalinha. -- sorriu -- As pessoas foram gentis comigo, mas os motoristas de ônibus são uma coisa! -- revirou os olhos -- Mas isso não me impediu de fazer o que eu queria!

 

--Você saiu sozinha?! -- perguntou surpresa

 

--Fui visitar minha oficina. -- encostou-se na parede -- Quer dizer, o que sobrou dela. Eu ainda não tinha feito isso. -- passou a mão nos cabelos -- Tinha que ver com meus próprios olhos!

 

--Ed! -- balançou a cabeça -- Não devia ter feito isso! Saindo sozinha, sem avisar a ninguém...

 

--Eu precisava, Isa! -- interrompeu a fala da outra -- Tem idéia de que aquela oficina representa o trabalho e os sonhos de uma vida inteira? -- olhava para a ruiva

 

A bailarina suspirou e perguntou: -- E como foi pra você? -- parou em frente a amante

 

--Uma das piores dores que já senti. -- olhava para um ponto perdido -- Aqueles escombros formando um verdadeiro mosaico de concreto com aço retorcido, o terreno interditado até hoje, os olhares acusadores do vizinho do lado... -- riu brevemente -- Não sobrou praticamente nada! Só o gancho da minha ponte rolante...

 

--E por que hoje? -- perguntou com delicadeza -- O que aconteceu que te levou a querer ir até lá?

 

--A mulher de Rubens veio aqui hoje cedo. Nem sei como chegou até nós... -- pausou e olhou para a ruiva -- Trouxe um dinheiro que achou não sei como nas coisas do marido, que ainda está de coma. Engraçado que a polícia não tinha encontrado nada quando foi lá... -- pausou -- Ela falou que agora tem certeza de que ele plantou aquelas bombas na oficina.

 

--Meu Deus, Ed! -- cobriu os lábios com as mãos -- E você? Fez o que? Falou o que? -- perguntou curiosa

 

--Mandei que ela voltasse com o dinheiro pra casa porque eu não queria nem um tostão. Também disse a ela que não vou acionar a justiça pra processá-lo, uma vez que está à beira da morte no hospital. Aí ela chorou, me agradeceu, disse que ia levar aquele dinheiro pra polícia e foi embora. -- pausou -- E então eu saí. -- abaixou a cabeça -- Sabe...? Diante daquela imagem desoladora, pensei em tudo em que vivi pra construir a oficina da forma como ela era, em tudo que vivi naquela casa, nas pessoas que trabalharam comigo ali... -- sorriu e balançou a cabeça -- Rubens era um mecânico bêbado e desorientado que vivia pedindo esmolas aqui e ali. -- lembrava -- Eu dei oportunidade a ele, fiz dele um restaurador de automóveis antigos, confiei nele e no entanto...

 

--Sempre lhe disse que as pessoas são ingratas. -- a ruiva respondeu -- Temos esse problema sério... Pelo menos a maioria de nós... -- sentia pena de Seyyed

 

--Aí, perdida em meus pensamentos, -- continuava desabafando -- eu me sentei no meio fio, com a maior dificuldade, claro, e fiz uma viagem no tempo... Depois olhei pra mim mesma. -- desencostou da parede e caminhou para perto dela -- Olhe pra mim você agora! -- apoiava-se com a bengala -- Um cicatriz na cara, dois dedos a menos nessa mão, -- balançou a mão direita -- o braço meio estranho, a perna esquisita exibindo essa cicatriz escandalosa... -- apontou para a perna

 

--Ed... -- sentia vontade de chorar

 

--E mais os processos dos ex funcionários... -- sorriu -- Sabia que Rubens é o único mecânico que não está me processando? Também seria um pouquinho demais, né? -- balançou a cabeça -- Somente os meus jovens especiais e a substituta que Camille tinha arrumado não me causaram problemas, do contrário...

 

--Ed, eu... -- não sabia o que dizer

 

--Tamires me disse ontem que muito provavelmente eu vou ter que pagar uma grana ao pessoal porque sou sócia de Renan e a oficina dele vai bem.

 

--Isso é tão absurdo!! -- a bailarina exclamou revoltada

 

--Acho que o dinheiro que todos me deram vai embora nessa fofoca aí. Pelo menos boa parte dele... Mas deixe estar. -- caminhou até o rádio -- “Há alguns que se fazem ricos, e não têm coisa alguma, e outros que se fazem pobres e têm muitas riquezas.”45 Eu não quero ser pobre do que vale à pena!

 

--Mas você nunca vai conhecer esse tipo de pobreza! -- Isabela a acompanhava com o olhar

 

Ed pegou um CD e o colocou para tocar. Uma suave melodia se fez ouvir.

 

--Sabe, Isa, eu tomei umas decisões na minha vida. Mais do que nunca tô consciente de certas coisas. -- olhava nos olhos da amante -- Eu poderia ficar aqui me lamentando e passar o resto da minha vida sentindo pena de mim mesma, mas não sou mulher disso! “Nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal resolvido sem soluços.”46

 

--Eu sei disso... -- sorriu surpreendida

 

--“Só há um tempo em que é fundamental despertar. Esse tempo é agora.”47 -- tirou a camisola e a calcinha -- Eu não me iludo mais, Isa. -- continuava olhando intensamente para ela -- Aprendi finalmente a diferença entre amor e desejo! E por você eu sinto as duas coisas! Não há mais dúvidas em meu coração!


--Nossa, Ed... -- sentiu o coração acelerar -- Você tá falando de um jeito... -- sorria

 

--Eu tô toda ferrada, você sabe disso. Meus amigos de outras oficinas acham que eu já era, ninguém quer me dar uma oportunidade, mas isso não vai me derrubar! -- estava totalmente nua -- E você também tem os seus problemas de família, nada pequenos... -- aproximou-se dela -- A gente tem que dar um jeito nas nossas vidas, mas eu sei que juntas, -- puxou-a de encontro a si -- a gente vai conseguir! -- olhava-a com firmeza -- Você é minha mulher e a gente é capaz de fazer qualquer coisa!

 

--Ai, Ed... -- envolveu o pescoço dela com os braços -- Você me deixa toda arrepiada quando age assim...

 

--Passa o ano novo aqui comigo! Só você e eu e mais ninguém! -- pediu com voz rouca

 

--Só você e eu... -- concordou -- "Ai, quando ela faz assim me deixa louca...” -- pensava excitada

 

--"O Amor é uma força que transforma o destino."48 -- colou testa com testa --Transforma o destino comigo, Isa!

 

--Ai, amor! -- puxou-a para um beijo apaixonado

 

https://www.youtube.com/watch?v=ov9SFaXuQk8

Ed e Isa caminharam até a cama e se deitaram sem interromper o beijo. A mecânica despia a ruiva lentamente e percorria seu corpo com as mãos como se quisesse provar a outra mulher que ambas se pertenciam inexoravelmente.

 

E a música Hob Kbeer invadia o quarto...

 

“Não amor,

não escondas de meu coração tudo o que pensas...”

 

--Você me quer apesar de tudo? -- beijava e mordia os lábios da bailarina -- Hum?

 

--Quero, meu amor... claro que quero! -- respondeu olhando nos olhos da morena -- Ai... -- sentia o prazer do peso da amante sobre seu corpo

 

“Mira-me nos meus olhos,

e diga que me quer,

acalma minha loucura...”

 

--Eu te amo, Isa! -- beijou-a

 

--Também... te... amo, Ed! -- respondeu entre beijos

 

“E diga que entre nós,

não haverá distancia...”

 

Seyyed seguiu beijando e lambendo delicadamente o corpo da amante, como se fizesse uma declaração de amor a cada gesto e carícia.

 

“Desejo um amor imenso,

como tu, de imenso,

deixa-me escutar tua voz,

e não me proíba mais de amar...”

 

A mecânica mergulhou entre as pernas da ruiva, enquanto suas mãos apertavam-lhe os seios provocando.

 

--Ah... -- a bailarina gemia e se contorcia na cama

 

“Leva-me por caminhos e trilhas,

faze realidade tua metade neste destino,

fala-me, reconforta-me,

e deixa-me enternecida...”

 

A morena beijava e mordia a coxa da bailarina, que levantou a perna e sorriu para ela.

 

--Vem aqui, amor! -- pediu com delicadeza -- Me beija, Ed, me beija...

 

Ed atendeu seu pedido e beijou-a com paixão.

 

“Tuas preocupações são minhas preocupações,

e teus pensamentos são meus pensamentos,

(...) me consumirei em teu fogo...”

 

A mecânica penetrava a amante com os dedos, enquanto devora-lhe os seios com desejo e carinho.

 

--Eu quero você pra sempre, Ed... ah... -- gem*u de olhos fechados

 

“Peça-me o que quiseres,

e estarei a teu lado...”

 

--Fico com você por todo tempo que me quiser... -- sussurrou no ouvido da ruiva

 

--Ah, ah, ah!!! -- Isa goz*va e segurava a amante pelos cabelos

 

“Desejaria que me respondesse,

dizendo que ficaremos juntos sempre.

Desejo um imenso amor...”

Hob Kbeer (tradução: Imenso Amor) - Yara [a]

 

 

05:00h. 02 de janeiro de 2006, Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro

 

Anselmo fingia que se alongava após uma corrida. Tatiana fazia o mesmo. Ambos agiam como se não se conhecessem.

 

--Eu trouxe o que me pediu. -- ele falava com voz baixa -- Usei a camerazinha que vocês me deram e tem muita coisa aí. -- fez sinal com o queixo mostrando uma pequena bolsa no chão -- Também trouxe umas cópias de documentos que podem te ser úteis.

 

--Fique tranqüilo. Ninguém vai saber que contamos com sua ajuda, pode acreditar.

 

--E quando essa bomba vai estourar, hein? -- perguntou preocupado -- Penso nisso noite e dia!

 

--Ainda não sabemos. E também precisamos que sejam descobertos todos os laboratórios.

 

--Espero que não demore muito. Eu já não agüento mais!

 

--Ninguém agüenta! -- pegou a bolsinha de Anselmo e deixou a dela no lugar -- Agora eu vou indo.

 

--Cuidado, menina! -- advertiu

 

--Cuide-se também! E que Deus nos ajude! -- foi embora rapidamente

 

***

 

Tatiana não vivia mais no apartamento de Sabrina com medo de comprometer a escaladora. Desde dezembro estava em uma espécie de pensionato em Santa Teresa. Naquela tarde, ela estava em seu quarto montando uma espécie de documentário que resumia os resultados das investigações que vinham fazendo até então.

 

Comprou um jornal desconhecido para ajudar um ambulante quando voltou do encontro com Anselmo mas ainda não havia lido.

 

--Ai, mas eu cansei, viu, fi? -- falava para si mesma -- Eita, que vida cachorra por demais da conta é essa que eu tô levando... -- suspirou

 

Desde a conversa com Lucas Damaso, a jornalista ficou pensando nas emoções que lhe foram despertadas com as coisas que ele disse. Será que tudo o que estava fazendo, todo aquele o sacrifício e dedicação, seria apenas motivado por um desejo ambicioso de conseguir fama e sucesso na carreira? Será que a obrigação moral da qual se sentia investida não seria um disfarce para mascarar as exigências de seu ego? Será que ela realmente não queria, mais do que tudo, mostrar sua competência a todos aqueles que um dia a discriminaram e diminuíram?

 

Levantou-se da cadeira e ficou andando em círculos pelo quarto. “Não pode ser só isso! Não pode ser!” -- pensava -- "Tudo começou com meu desejo de ajudar os funcionários das Fazendas Calabreza! E depois veio aquela descoberta do Polígono da Maconha e mais o que a delegada me falou...” -- sacudiu a cabeça como se quisesse expulsar aqueles pensamentos -- Eu quero de verdade tentar fazer alguma coisa pra acabar, pelo menos temporariamente, com esse império de sangue que escraviza tanta gente e mata tantas pessoas pelos motivos mais fúteis! -- falava para si mesma -- Claro que quero o sucesso, mas não é só isso! Não, não é!

 

A lembrança do rosto de Renan veio a sua mente. Conseguia ver nitidamente aqueles olhos negros, cheios de tristeza, dizendo-lhe mil coisas que ele não verbalizava. Sabia que com suas atitudes ele se sentia abandonado. -- Meu pretinho...

 

Lembrou-se dos pais. Sabia que estavam sofrendo, que se preocupavam, que choravam com medo que algo de mal lhe acontecesse. Não queria ser motivo de dor para eles. -- Será que um dia me perdoarão? -- perguntou a si mesma com vontade de chorar

 

Queria ter passado o final de ano com eles ao invés de sozinha. Queria ter ido no casamento de Tânia, que agora morava em Curitiba com o marido e da qual ela nem pôde se despedir. Queria conversar com Tamires. Queria viver ao lado de Renan novamente...

 

--Ô, meu Deus, me ajude, por favor! -- pediu ao se ajoelhar no chão -- Eu preciso de uma orientação quanto ao que fazer, porque não sei, tenho medo... Por favor, me oriente a encontrar o momento certo de divulgar tudo o que temos! E que não seja em vão, eu Lhe imploro! -- fechou os olhos e fez uma oração

 

Nesse momento Patrícia aparece no quarto, mas ela não vê ou sente.

 

--Tenha fé, minha amiga. Tenha fé! -- a jovem dizia -- O momento certo se aproxima! Pegue o jornal e leia! Você vai ver que a hora tá chegando!

 

Tatiana respirou fundo, passou a mão nos olhos e se levantou.

 

--Leia o jornal, Tati! Leia! -- Patrícia continuava lhe inspirando

 

A repórter sentou-se novamente e olhou para o jornal que havia comprado. Como estava desanimada, teve vontade de jogá-lo no lixo.

 

--Não faz isso, Tati! -- Patrícia insistia -- Ave Maria, mulher, lê esse jornal!

 

--Vamos ver o que tem de interessante nesse trem aqui! -- começou a ler -- Só vida de artista... -- fez um bico

 

--Oxi, vê até o final! Vai lá pro final! -- Patrícia dizia

 

Folheou as páginas sem empolgação até que uma notícia lhe chamou a atenção. -- Hum...

 

O PCons estava organizando um evento para o Dia da Mulher que aconteceria na Fundição Progresso. Dentre outras personalidades, a cerimônia ainda contaria com a participação de ninguém menos que o Presidente da República.

 

--Esse vai ser o momento, Tati! Procura a delegada e fala com ela! -- Patrícia influenciava-lhe quanto ao que fazer -- Juliana não presta atenção aos eventos do PCons e por intermédio dela a delegada não vai saber de nada disso!

 

--Embora seja pequeno esse PCons atrai a simpatia de um monte de gente! São professores, estudantes, feministas, homossexuais, ecologistas, livres pensadores... -- Tatiana falava consigo mesma -- Um evento como esse, ainda mais em um ano de eleições... -- pensou -- Gente, essa é a oportunidade que nós esperávamos!! -- exclamou empolgada -- Tenho que falar com a delegada e pedir pra Juliana dar um jeito de eu ser uma das palestrantes! -- decidiu

 

--Isso!! -- Patrícia comemorou

 

--Se me matarem lá... paciência! Pelo menos a bomba já vai ter estourado no momento certo!

 

--Ninguém vai te matar, mulher, se aperreie, não! Você vai ter proteção, é só se cuidar! -- continuava falando embora a jornalista não a ouvisse -- Mas logo no começo de março você vai entregar tudo o que tem à Justiça, apenas tendo o cuidado de distribuir cópias pra Tamires, Lemos, Coimbra, Priscila e meu irmão antes disso.

 

--Depois que organizar essa bagunça, -- olhou para o material sobre a mesa -- eu tenho que distribuir cópias de todas essas provas pra minha irmã, Lemos, Coimbra, Priscila e... hum, Pedro! Depois entrego à Justiça e vou pro evento.

 

--Vixi, mulher arretada! -- Patrícia se empolgou

 

--Seu Romeu tem que descobrir a localização de todos os laboratórios antes disso!

 

--O delegado Valadão tá inspirando ele e os contatos que ele acionou! Vai dar tempo, mulher, tenha fé! Eles vão descobrir tudo!

 

--Vai dar tempo... -- Tatiana balançava a cabeça -- Vai dar tudo certo, vai sim! Se Deus quiser! -- respirou fundo -- Mas eu vou procurar Renan pra uma última conversa porque quando tudo isso começar... as coisas fugirão completamente do nosso parco controle! -- fechou os olhos e suspirou -- Que Deus nos ajude!

 

--"Ora e pede. Em seguida, presta atenção. Algo virá por alguém ou por intermédio de alguma coisa doando-te, na essência, as informações ou os avisos que solicites." 49 -- Patrícia falou antes de desaparecer

 

***

 

Juliana fazia curativo em um idoso quando dois rapazes entram na enfermaria para visitar um outro velhinho.

 

--E aí, coroa? -- um deles perguntou -- Leva alta quando, hein?

 

--Não sei, meu filho. Ainda nem operei. -- respondeu desanimado -- Quem é esse rapaz com você? -- perguntou curioso

 

--Um colega.

 

A japonesa olhou discretamente para os dois. “Hum... sinto que vou me aborrecer!” -- pensou contrariada

 

--Eu tava conversando com meu pai e a gente achou melhor vender teu carro, vô. -- parou em frente ao leito do idoso -- E também não tem mais sentido que você more sozinho naquele casarão. A gente vende e você vai lá pra casa.

 

--Ah, não, eu não quero! Posso muito bem viver na minha casa! Eu pago uma enfermeira pra cuidar de mim! -- protestou

 

--Com que dinheiro? Com tua aposentaria? Aquilo ali mal paga minha conta de celular! -- riu -- Cai na real, coroa, você já era!

 

A japonesa sentia o sangue lhe ferver. “Não se meta, não se meta, não se meta!!!” -- recitava mentalmente -- Pronto, seu Silas. Terminei seu curativo. -- sorriu para ele

 

--Obrigado, enfermeira! -- agradeceu sorrindo

 

--Vocês não podem vender meu carro e minha casa sem meu consentimento! -- falou com revolta

 

--Amanhã meu pai vem aqui com o tabelião e a gente resolve tudo. Não tem o que discutir, vô, isso é decisão tomada!

 

--Mas quem você e seu pai pensam que são? -- tentou se levantar mas não conseguia -- Eu sou seu avô e pai dele, me devem respeito! -- falava com desespero

 

“Juliana, fique na sua! Isso é um problema de família! Não se meta, não se meta, não se meta!!!” -- continuava tentando se controlar enquanto fazia anotações na prancheta

 

--Vai ser melhor pro senhor, coroa! Pensa bem! É isso ou asilo! -- o outro rapaz resolveu se meter na conversa

 

--Fique fora disso, rapaz, porque nem te conheço! -- respondeu rispidamente

 

--Qual é vovô, fala direito com meu amigo, porr*! -- deu um soco no leito do idoso

 

“Ai, mas eu já tô que não me agüento!!!” -- a japonesa pegou os comprimidos que aquele homem deveria tomar e foi até ele -- Com licença! -- olhou para os rapazes com a cara feia -- Tome, seu Arlindo. -- olhou para o idoso e estendeu o copinho com os comprimidos -- Hora de tomar seus remédios.

 

--Eu preciso mesmo, minha filha. -- pegou o copinho -- Estou muito nervoso.

 

A enfermeira pegou a garrafa de água e encheu outro copo. -- Tome, beba. -- ofereceu a água para ele -- E vocês dois. -- olhou para os rapazes -- Não deviam aborrecê-lo desse jeito! Seu Arlindo anda com a pressão descontrolada!

 

--Se vocês tivessem competência no que fazem isso não acontecia! -- o neto dele respondeu desafiador

 

--Se ele tivesse uma família decente talvez nem estivesse aqui agora! -- olhou para o idoso -- Quer mais água?

 

--Não, obrigada, querida. -- devolveu o copo a ela que saiu de perto deles

 

--Enfermeira babaca! -- o outro rapaz resmungou em voz baixa mas Juliana pôde ouvir

 

“Você já está quase terminando aqui, Juliana! Vá embora e não se meta mais nisso!!!” -- continuava aconselhando a si mesma

 

--Então é isso, coroa! Vamos vender as paradas todas e acabou. Quero saber quando você opera pra poder agitar tua mudança lá pra casa. E dê graças a Deus porque outras pessoas no lugar da gente iriam te jogar num asilo sem pensar duas vezes!

 

--Eu não quero morar com vocês! Além do mais sua mãe não gosta de mim! Aquela bruxa vai fazer de minha vida um inferno!

 

--Agora deu pra isso, é? -- o rapaz perguntou em voz alta -- Falando mal da minha mãe, porr*?

 

“Ah, mas é muito abuso!!” -- a enfermeira estava tão furiosa que mal podia escrever na prancheta

 

--Felipe, vamos embora! Depois você e seu avô conversam com calma! -- o outro rapaz pediu

 

--Ah, mas eu só saio daqui quando ele pedir desculpas pelo que falou! -- segurou o braço do avô -- Pede desculpas agora!

 

--Você tá me machucando! -- o idoso falou magoado -- Me solta!

 

--Felipe! -- o colega exclamou surpreso

 

--Mas que abuso é esse, rapaz? Solta o braço do teu avô! -- um dos pacientes pediu nervoso

 

--Pede desculpas, coroa! -- continuava insistindo com aquilo

 

--Me solta, me solta! -- o idoso começou a chorar

 

--Solta ele! -- outro paciente gritou -- Ah, mas se eu pudesse andar quebrava tua cara, seu viadinho!

 

--Pede desculpas agora, velho filho da p...

 

--Êpa!!!! -- Juliana gritou -- Olha lá o que vai falar, seu psicopata! -- bateu com a prancheta na cabeça de Felipe -- Solta ele, seu covarde!! -- continuava batendo com força -- Solta ele, enviado do capeta, solta!!

 

--Quebra ele no pau, enfermeira! -- outro paciente gritava

 

--Pára, sua louca, filha da puta, maldita! -- Felipe soltou o avô e tentava controlá-la, mas ela não lhe dava tréguas

 

Em pouco tempo um tremendo tumulto se formou na enfermaria.

 

Enquanto isso, o colega de Felipe correu para chamar os seguranças.

 

***

 

--Juliana Okinawa Mitsui... -- o diretor do hospital repetia o nome dela -- Mesmo sendo novo na direção deste hospital, que é enorme, eu já tinha ouvido falar no seu nome...

 

--Hum... -- fez um bico

 

--Sempre associado a confusão ou alguma fofoca!

 

--O que?! -- perguntou revoltada

 

--Parece que você tem o mau hábito de viver desacatando as pessoas... -- olhava para ela com a cara feia -- Até mesmo nossos visitantes mais ilustres!

 

--Eu não desacato os outros, apenas não permito que certas coisas aconteçam! Aquele rapaz estava a ponto de bater no avô e se eu fosse esperar os seguranças chegarem era capaz do homem já estar todo machucado ou morto! -- pausou -- E se os tais visitantes ilustres aos quais se refere são na verdade um certo político que não se reelegeu, digo que ele veio aqui tirar onda de santo e recebeu o que merecia!

 

--Sua conduta reprovável não começou hoje, Juliana! -- respondeu com energia -- As denúncias contra você vêm de longa data!

 

--Denúncias??

 

--Sim, posso citar algumas que a ouvidoria me entregou. -- pegou umas folhas de papel impressas -- O senhor Luis Teixeira de Castro reclamou que você o desrespeitou usando palavras de baixo calão, o doutor Télcio Pimentel da Rocha afirma que você o acusou de roubo e ainda chamou uma delegada de polícia para intimidá-lo, a senhora Leda Rodrigues reclamou do tipo de atendimento prestado a sua mãe durante uma parada cardio respiratória...

 

--Isso é mentira! -- respondeu nervosamente -- Nunca houve denúncia contra mim na ouvidoria! Nunca houve!

 

--A senhora Gisele Soares Valadão a acusou de tê-la constrangido publicamente, -- ele continuava -- o funcionário contratado Ricardo Pinto Magalhães deu queixa porque você o ofendeu com palavras de baixo calão...

 

--Ah, mas isso tudo é uma grande armação! -- protestava furiosa -- Eu sei que Gisele nunca me denunciou, tenho mais do que certeza! E esse funcionário aí jamais viria se queixar de mim! Ele tava na minha mão!

 

--A lista continua e eu estou apenas resumindo! Temos aqui também a denúncia de agressão sofrida pela mãe da senhora Rosandra Assunção Mathias, que lhe processou, e a queixa de uma família inteira que lhe acusa por desacato! Parece que até um jovem menino foi vítima de sua língua ferina!

 

--Eles não se queixaram na ouvidoria, que eu sei! A única verdade nisso tudo é o processo movido por essa Rosandra, mas até isso não foi adiante! A mãe dela foi presa e ela sabia muito bem que o teto da família era de vidro!

 

--Dois residentes também deram queixa de seu comportamento ofensivo e até o ex diretor desse hospital fez observações a seu respeito!

 

--Que mentira deslavada!! A única pessoa que pode realmente ter feito observações a meu respeito é o ex diretor porque ele nunca engoliu o que aconteceu no dia da visita do político que ele apoiava! Mas ainda assim me causa estranheza que essas tais observações nunca tenham chegado ao meu conhecimento! -- controlava-se ao máximo que podia, pois sabia que estava sendo vítima de uma armadilha -- As pessoas nem sequer sabem onde fica a ouvidoria desse hospital!

 

--O jovem Felipe Lanes de Alencar deu queixa também e informou que vai processá-la. -- balançou a cabeça com desgosto -- Ora, Juliana, até a equipe do RJ TV esteve aqui hoje por sua causa!

 

--Eu tenho testemunhas a meu favor! Bati nele, sim, mas porque ele agredia um idoso! O que ele fazia era certo, por acaso?

 

--Olha, Juliana... -- colocou os papéis sobre a mesa -- embora você negue, as denúncias estão todas aqui! -- pausou -- Você já abusou demais e não tem jeito! -- cruzou os braços -- Será demitida!

 

--Demitida?! -- levantou-se indignada

 

--Por conduta escandalosa e ofensa física em serviço a particular.

 

--Não cometi conduta escandalosa e a ofensa física tem uma ressalva: “salvo em legítima defesa própria ou de outrem!” -- argumentou -- Eu conheço muito bem os casos nos quais se aplicam demissão! E conheço o artigo 132 da lei que pretende usar pra me demitir!

 

--Então procure seu advogado, minha querida, ou defenda-se por conta própria já que entende tanto de leis. -- respondeu debochadamente -- Porque você está fora!

 

A japonesa sentia uma imensa vontade de gritar e dizer muitas verdades, mas se conteve. Sabia que tudo aquilo havia sido armado para ser usado contra ela no momento certo. Era uma retaliação por conta da denúncia feita sobre o esquema dos remédios. Ninguém havia conseguido provar que fora realmente ela, mas Juliana havia se tornado a suspeita mais óbvia.

 

Respirou fundo e se limitou a dizer. -- Vou cuidar disso agora mesmo! Com licença! -- retirou-se da sala do diretor -- “Um momento de paciência pode evitar um grande desastre; um momento de impaciência pode arruinar toda uma vida.”50 -- pensou enquanto seguia pelos corredores

 

***

 

Suzana e Lemos estavam em Bonsucesso procurando a casa de onde a morena vira Ana saindo há tempos atrás. A delegada confiava apenas em sua memória pois não tinha a menor idéia de que rua seria aquela. Tampouco conhecia bem o bairro. Lemos dirigia o carro de vidros filmados no qual eles estavam.

 

Em poucas horas de busca conseguiu avistar a pracinha. -- Era aqui onde eu estava naquele dia... -- falou

 

--E agora? Qual é a casa? -- ele perguntou

 

Olhava para todas as ruas ao redor até que reconheceu o lugar. -- Ali! Com certeza é ali! -- indicou a casa

 

--Ótimo! -- Lemos respondeu parando o carro debaixo de uma árvore -- Agora que já sei aonde é, vou dar meu jeito pra ter esse lugar monitorado noite e dia. Converso com o Falcão e sei que ele vai encarar essa!

 

--Calma! Primeiro temos que confirmar se essa casa é de uma feiticeira ou não. Pode ser um feiticeiro.

 

--Acho que já confirmamos! -- olhou para a casa

 

Àjé vinha da rua com uma bolsa de compras e abriu o portão para entrar.

 

--Às vezes é tão fácil que perde a graça, não é? -- Lemos sorriu

 

--Vamos embora, cara. -- Suzana também sorria -- Não vamos dar mole pra ela sacar qual é a nossa!

 

Lemos ligou o carro e partiu.

 

--Hum, deixa eu te fazer uma pergunta. -- o policial falava -- Ontem o delegado e uns colegas encontraram os corpos daqueles caras lá no lixão de Gramacho. A denúncia anônima que deu a dica foi sua, não foi, chefe?

 

--Foi. Depois da conversa que Tatiana e eu tivemos com Lucas, fiquei pensando e intui que Léo e João deveriam ter sido sacrificados lá. -- pausou -- Ele disse que o local era enorme e já que este lixão recebe 80% dos resíduos sólidos da região metropolitana do Rio...

 

--Essa história tá ficando cada vez mais macabra, viu, chefe? Eu não vejo a hora de tudo isso terminar e a gente ver esses safados mofando na cadeia! -- exclamou com raiva

 

--A vida real não é como nos filmes, Lemos. -- olhou para ele -- Alguns safados serão presos, outros não. Alguns mofarão na cadeia, outros ganharão liberdade rapidamente. Alguns morrerão quando a bomba estourar e outros vão se voltar contra nós. Seja como for, essa luta não acabará tão cedo...

 

***

 

Juliana entrava decididamente na sede do PCons. As primeiras pessoas que encontrou foram justamente Selma e Ruy.

 

--Garota, você não morre tão cedo! -- Ruy exclamou -- Nós vimos você no RJ TV! O que foi aquilo?

 

--Eu também queria te dizer que já arrumei pra sua amiga Tatiana palestrar no nosso evento do Dia da Mulher. -- Selma dizia -- Ela vai falar sobre a condição das negras no Brasil! -- sorriu

 

--De agora em diante vocês não precisarão viver me infernizando em casa, na porta do hospital ou seja lá onde for! Vim pra dizer que vou me candidatar! -- afirmou enfaticamente

 

--O que?! -- Selma pôs a mão sobre o coração -- Jura???

 

--Juliana, você tá passando bem? -- Ruy perguntou em choque

 

--Armaram uma arapuca pra mim no hospital e querem me demitir. -- respondeu com seriedade -- Isso foi demais! Quero me candidatar e lutar contra essa pouca vergonha toda que se vê por aí!

 

--Ai, meu Deus, que emoção!! -- Selma dava pulinhos

 

--Eu fico todo arrepiado, espia só! -- mostrou o braço

 

--Eu sei que a coisa é complicada, que o sistema é cruel e que existem muitos entraves, mas também sei que há gente boa envolvida na política e eu quero me juntar a esse pessoal. Podem lançar minha candidatura a deputada estadual que eu tô dentro! -- falava com determinação

 

--Só se for agora! -- Ruy respondeu excitado

 

--Deputada estadual, não... -- Selma segurou-a pelos ombros -- Deputada federal!

 

--Federal?! -- a japonesa perguntou arregalando os olhos -- Mas já mudou?

 

--Ô, Selma, segura a onda aí! -- o advogado pediu olhando para a amiga -- Federal é mais complicado! Você não acha que um cargo de deputada estadual é mais provável pra ela conquistar do que um de federal?

 

--Também acho! -- a enfermeira concordou

 

--Leva fé em mim, gente! -- a mulher olhava nos olhos de Juliana -- Minha intuição está me dizendo que a gente deve cair de cabeça na tua candidatura como deputada federal! Posso ouvir uma voz dizendo aqui nos meus ouvidos que o caminho é esse! -- sorria

 

Maria de Lourdes olhava para a japonesa e sorria também.

 

***

 

Isabela visitava o morro do Pavão Pavãozinho para conversar com a representante da associação dos moradores. Uma idéia vinha amadurecendo em sua cabeça desde que soube que o pai andava envolvido com o tráfico de drogas.

 

--Ora, se não é Isabela! -- Iolanda veio recebê-la de braços abertos -- Que bom te ver! -- abraçou-a com carinho

 

--Eu digo o mesmo, dona Iolanda! -- sorriu e olhou para ela -- Será que podemos conversar um pouquinho?

 

--Claro, meu bem! -- puxou uma cadeira -- Sente-se e fique à vontade! Aceita um cafezinho? -- sorriu

 

--Não, obrigada! -- sentou e cruzou as pernas

 

Após uma rápida conversa sobre o musical de dezembro e as festas de final de ano a bailarina foi direto ao assunto que a levou até ali.

 

--Sabe, dona Iolanda... uma idéia tem permanecido insistente na minha cabeça já há um tempo e ela só faz amadurecer dia a dia. -- olhava para a mulher mais velha -- Eu consigo vislumbrar o projeto inteiro e me parece perfeitamente viável, embora saiba que será um longo caminho.

 

--Projeto? -- Iolanda perguntou curiosa -- Sobre o que se trata? -- debruçou-se sobre a mesa

 

--Quando estive no festival de Havana, em 1998, duas bailarinas cubanas fizeram uma apresentação sobre um projeto muito parecido com o que vou lhe mostrar agora. -- abriu a pastinha que estava em seu colo e tirou duas folhas de dentro -- Veja só!

 

Iolanda olhava para o que a ruiva havia esquematizado nos papéis.

 

--Eu gostaria de iniciar aqui com vocês um projeto social com aulas de balé pra crianças e adolescentes. O critério de escolha será a habilidade pra dança e a exigência que faremos é que a criança ou jovem esteja regulamente matriculada e freqüentando aulas nas escolas de ensino formal.

 

--Interessante! -- falou com empolgação

 

--Se vocês concordarem com a proposta, eu começo a dar as aulas sozinha mesmo, usando algum espaço que vocês me disponibilizem. Paralelamente vou buscando a colaboração de outras colegas de trabalho e também o apoio de patrocinadores pro projeto. Se isso der certo, também vou buscar contar com a participação de assistentes sociais, médicos, dentistas, psicólogos e nutricionistas. Daí, a partir do momento que os alunos entrarem no balé, passarão a ter acompanhamento sistemático da parte desses profissionais. E o atendimento poderá ser extensivo às famílias 51, por que não?

 

--O projeto poderá atender até a outras comunidades no futuro! -- Iolanda exclamou animada -- Gente, que coisa maravilhosa seria!!

 

--Eu já andei conversando com algumas professoras da Escola de Dança do Teatro Municipal e elas me disseram que, se os resultados forem bons, os alunos poderão até ter condições de ingressar na escola e, quem sabe, fazer carreira no país ou no exterior! -- concluiu sorridente

 

--Eu adorei essa idéia! -- Iolanda bateu palmas -- Consigo ver perfeitamente na minha cabeça aonde você vai dar essas aulas!

 

--Mas, já aprovou? -- a ruiva perguntou surpresa -- Não vai conversar com as outras pessoas da associação ou...?

 

--Está aprovadíssimo!! -- ela sorria -- Depois do musical que você e seus amigos fizeram aqui, ninguém vai se opor! -- respondeu eufórica -- Se tiver um tempinho e me deixar chamar algumas pessoas pra irmos acertando os detalhes, a gente pode resolver tudo logo hoje! Tem tempo?

 

--Tenho! -- estava animada -- Tirei o dia pra isso!

 

--Vamos criar uma escola de balé nessa comunidade e vai ser uma coisa maravilhosa! -- levantou-se -- Vou chamar os outros agora! Me dê dois minutinhos, meu bem! -- encaminhou-se para a porta

 

--À vontade!

 

--Hum! -- parou no meio do caminho -- E o projeto teria um nome? E nossa escola de balé? Já pensou em algo?

 

--O nome do projeto ainda não me ocorreu, mas a escola... -- levantou-se -- Eu queria que a escola homenageasse uma bailarina muito especial.

 

--E qual seria o nome dela? -- perguntou curiosa

 

--Joice Avelar dos Santos.

 

***

 

Priscila chegava em casa. Lady havia acabado de sair do banho.

 

--Lady? -- perguntou ao abrir a porta -- A casa tá quieta!

 

--Oi, amiga! -- apareceu na sala -- Acabo de sair do banho e colocar a toalha no varal! -- sorriu -- Sabia que eu tô usando agora a nova linha de xampu da Suxa? Tô adorando! E vem com negocinho pra fazer bolha de sabão!

 

--Você tava fazendo bolha de sabão no banheiro? -- colocou a bolsa sobre a poltrona

 

--Eu tava e me diverti a beça! -- sentou-se -- Cantei quase todos os sucessos da rainha loura! Aliás, tenho pensado nisso! A gente tem que mudar a trilha sonora dessa casa pra uma coisa mais infantil!

 

“Ainda bem que eu cheguei depois da cantoria!” -- pensou enquanto se sentava para tirar os sapatos -- E como foi seu dia, afinal? -- olhou para Lady -- Já recebeu todos os resultados?

 

--Meu dia foi ótimo! Tenho notícias maravilhosas e mais uma outra surpreendente pra te contar! -- sorria

 

--Conte! -- ficou curiosa

 

--Passei em tudo, em todas as matérias! -- continuava sorrindo

 

--Ai, graças a Deus! -- exclamou satisfeita -- Agora só te falta um período!

 

“Eu sabia que ela ia ficar orgulhosa de mim!” -- pensou animada -- Pois é, mas agora eu tô pensando em trancar, amiga!

 

--Trancar?!

 

Pôs as mãos sobre o ventre. -- Minha enviadinha vai nascer em março! Como eu posso ir pra faculdade com uma recém nascida dentro de casa? Tenho que cuidar do bebê! Ser mãe é padecer no paraíso, né, Pri?

 

--Lady, quer parar de chamar a menina de enviadinha? -- fez cara feia -- Ela já tem nome e esse negócio de enviadinha pega mal pra caramba! -- levantou-se e ficou andando descalça pela sala -- Você tem razão, eu não tinha pensado nisso! Trancar esse período que vai começar é necessário mesmo, não dá pra ser diferente, mas já que vai ficar em casa cuidando do bebê não deixe de estudar! -- olhou para ela

 

“Priscila até que é uma marida compreensiva!” -- pensou satisfeita -- Eu já sei o que vou fazer como projeto final de curso e vou aproveitar que ficarei em casa pra escrever tudo. Até o final de fevereiro continuo indo pra faculdade só pra colher mais resultados pro trabalho. Aí vão faltar só cinco matérias pro meu último período.

 

“Até que Lady tá tendo noção das coisas!” -- Priscila pensou surpreendida -- Isso, faça assim mesmo que no final desse ano você se forma e arruma um emprego! -- parou com as mãos na cintura

 

“Gente, já estamos até fazendo planos pra vida a duas!” -- concluiu feliz -- A outra notícia maravilhosa foi que o pessoal da faculdade me deu um monte de fraldas e lenços umedecidos! Uma colega me trouxe de carona e você tem que ver meu quarto! Parece até o depósito de um supermercado pra bebês! -- continuava a contar novidades

 

--Ai, que bom! Essas coisas são caras e necessárias! -- sorriu -- Aos poucos estamos preparando tudo pra chegada da pequena Priscila! Todo mundo tem nos ajudado e agora só falta o berço e o carrinho!

 

--Ah, mas agora vem a noticia surpreendente! Lila me deu o berço! -- levantou-se

 

--O que?! -- perguntou em choque

 

--E novinho em folha! Ela chegou aqui com dois homens que montaram ele, falou comigo rapidamente e saiu pra fazer uma sessão dupla de pompoarismo tântrico com uma mulher. -- segurou a mão dela -- Vem ver só!

 

--Ah, mas eu quero ver isso! -- foram para o quarto de Lady -- E o berço é bonito! -- começou a olhar atentamente para o móvel -- Será que não é roubado, não? -- passava a mão na madeira

 

--Que nada! Tem nota fiscal e tudo, olha só! -- apontou para a nota em cima da escrivaninha

 

--Ué? -- olhou espantada para Lady -- Será que Lila engabelou o dono da loja com algum daqueles tratamentos sem cabimento que ela inventa?

 

--Eu acho que não! O preço escrito na nota é bem normal pra um berço. -- sentou-se na cama

 

--Tô passada com isso! -- colocou a mão sobre o peito

 

--Ela disse que eu podia ficar tranqüila quanto a esse presente porque me devia uma!

 

--Ah, claro, depois de ter roubado seu anel... Se bobear comprou com o dinheiro da venda! -- sentou-se ao lado de Lady -- Safada! -- olhou para as sacolas no chão -- Nossa, você não exagerou! Quanta fralda! -- riu

 

--Nossa Priscilinha não vai ficar descamisada, amiga! -- sorriu para ela

 

--Eu diria, desfraldada! -- sorriu também

 

--Mas agora, dona Priscila, -- levantou-se e parou diante da morena com as mãos na cintura -- temos que ter uma conversinha muito séria! -- fez um olhar enigmático -- "Coragem, Lady! Bota pra fora!” -- pensava

 

--Sobre o que? -- perguntou desconfiada

 

--Você continua saindo com aquele carinha, que eu sei! Ele te liga e ontem mesmo te deixou na porta do prédio, que eu vi! Não negue! -- falava com seriedade -- "Chega de tanta traição!” -- podia ouvir Alcione cantando em sua cabeça:

 

“Ou ele,

Ou ele ou eu,

Muitas vezes pensei,

Ensaiei pra dizer,

Mas na hora H, não me atrevo a falar

Pra não te aborrecer...”

 

--Mas eu não nego, ué! Por que negaria? -- não entendia

 

“Que cara de pau! Ah, mas eu vou botar moral na coisa! Não quero saber de marida infiel!” -- pensava -- Você não quer que eu namore, mas fica aí no desfrute? Que negócio é esse?

 

--Eu, hein, Lady? -- levantou-se de cara feia -- Não quero que você namore porque você é doida e basta arrumar um homem pra só fazer besteira! -- olhava para a outra -- Tem que cuidar da menina e da vida, que sem a ajuda dos seus pais, não fica nada fácil!

 

--Não tente me enrolar, Priscila! Se eu tenho que ter um comportamento, você também tem! Afinal de contas, agora somos uma família e você tem que ter responsabilidade! -- fez cara feia -- "Se minha barata te pertence a tua também é só minha!” -- pensou decidida

 

“E assim vou levando,

Sem saber até quando,

Vou poder suportar,

A certeza de que,

Pra você sou um caso,

Sem ter hora e lugar...”

 

--E mais essa agora... -- cruzou os braços indignada

 

--É isso aí! Você disse que me ajudava com a menina, não disse? Cadê teu compromisso? Você até agora não mostrou! Mostra aí, que eu quero ver!! -- bateu palmas -- "Ela só mostra mesmo nos meus sonhos!”

 

--Cadê meu compromisso?! -- revoltou-se -- Eu não fui pro Canadá por causa disso e você tem coragem de me fazer essa pergunta?

 

--Eu sei, mas se eu não posso namorar, você também não pode! Chega dessa vida bandida, Priscila! Agora você também é mãe! -- virou-se de costas para a dentista -- "Às vezes um casal precisa de um diálogo forte!” -- balançava a cabeça

 

“Ou ele,

Ou ele ou eu,

É a resposta que eu mais gostaria de ter...”

Ou Ela Ou Eu – Alcione [b]

 

A morena respirou fundo e acabou cedendo. -- Tá bom, Lady. Eu não queria nada sério com ele mesmo... Vou dispensar!

 

--AHAHAHAHAHAHAH!!!! -- gritou e agarrou a dentista em um abraço de urso -- "Agora sim, essa relação engrena de vez!”

 

--Ai, Lady, chega! -- desvencilhou-se dela

 

--Ih, olha amiga! -- pôs a mão da outra sobre seu ventre -- Ela se manifestou! Sente só! -- sorriu

 

--Eu senti!! -- riu -- Que legal!!

 

Lady cobriu a mão da morena com a sua própria e olhou para ela. -- Agora tudo vai ser diferente, não vai? Ela vai nascer, a gente vai criar ela e vai dar tudo certo, não é? -- perguntou esperançosa

 

--Vai sim, Lady. -- olhou para a amiga com um sorriso terno -- Vai sim!

 

E nesse momento Lila chega trazendo um chocalho nas mãos. -- Lady, olha aqui um brinquedo tri legal pra tua piazinha... -- deu de cara com as duas naquela cena carinhosa -- "Hum... olha o amor acontecendo, daí... mas, bá, que agora é até mãozinha no ventre!” -- pensou desconfiada

 

 

16:00h. 05 de fevereiro de 2006, Grupo Espírita Fény Az Út, Ilha do Governador, Rio de Janeiro

 

Olga estava reunida com seus companheiros no centro. O dirigente havia acabado de desencarnar e discutia-se sobre quem iria sucedê-lo.

 

--Não tem o que discutir, na minha visão! -- Cléia dizia -- Valdecy deixou bem claro que Olga deveria assumir o seu lugar!

 

--Eu também considero que a escolha foi muito pertinente. -- Marcelo afirmava -- Olga é antiga no grupo, trabalhadora atuante e conta com a simpatia de todos!

 

--Fico honrada com essas palavras. -- ela agradeceu -- E mais ainda ao saber que Valdecy recomendou meu nome!

 

--Ah, mas isso tem que ser discutido melhor! -- Onofre protestou -- Valdecy estava muito mal quando fez essa indicação e não teve tempo pra ponderar bem!

 

--Como não teve tempo? -- Valter retrucou -- Conhecendo ele como conhecia, acha que Valdecy simplesmente cismou e falou? Ele devia estar pensando no assunto e na certa foi orientado pelos mentores da casa!

 

--Duvido muito! -- Gustavo interrompeu -- Não creio que os mentores da casa tenham lhe dito coisa alguma!

 

--Eu também penso que temos de conversar melhor! -- Beatriz falou -- Nada contra você, Olga, -- olhou para ela -- mas dirigir uma casa espírita não é coisa fácil!

 

--E não é mesmo! Eu sou o vice dirigente há anos e sei disso muito bem! -- Paulo argumentou de cara feia

 

--E eu disse que era fácil em algum momento? -- Olga perguntou -- Nunca fui mulher de coisas fáceis! Quem conhece um pouquinho de minha vida deveria saber disso!

 

--Você estaria disposta a assumir essa responsabilidade, Olga? -- Valter perguntou olhando para ela

 

Olga sabia que muito trabalho a esperava e deduziu que sua missão mostrava-se para ela naquele momento. -- Sim! -- respondeu convicta -- Estou totalmente disposta!

 

--Ora, por favor! Como pode isso de uma mulher à frente de um trabalho como esse? Nunca tivemos mulheres à frente do grupo! -- Aluísio falou sem pensar

 

--O problema é esse, Aluísio? -- Cléia protestou -- Você ainda vive nesse tempo? Não acredito no que tô ouvindo!

 

--Francamente, viu? -- Marcelo reclamou

 

--Não é nada disso, pelo menos não pra mim! -- Paulo dizia -- Olga não tem condições de administrar essa casa!

 

--E eu poderia saber por que não? -- ela perguntou contrafeita

 

--Humpf! Se você não soube nem criar sua filha direito, como poderá saber orientar um grupo inteiro de pessoas?

 

--Como é?! -- sentiu o sangue lhe ferver mas se conteve -- O que quer dizer com isso??

 

--Ah, Olga... -- Onofre interferiu -- Todo mundo sabe que Seyyed é...

 

--Lésbica? -- interrompeu a fala dele -- E isso é uma falha de caráter, por acaso?

 

--Se você tivesse conduzido a coisa de outro modo ela... -- Gustavo falou

 

--Ela teria sido uma mulher frustrada, que passaria a vida fingindo ser uma coisa que não é! -- interrompeu-o também -- O papel de mãe é esse? É criar filhos infelizes, porém politicamente corretos?

 

--A doutrina diz que os indivíduos devem sublimar suas tendências na prece e na prática da caridade construtiva! -- Paulo argumentava

 

--A doutrina diz, -- levantou-se -- assim como a Bíblia, que nosso papel nessa Terra não é julgar os outros mas tratar a todos como irmãos! E eu não me lembro de ler sobre Jesus segregando um ou outro na hora de congregar seu apostolado! Do contrário, ele escolheu até um publicano e ao seu lado seguiam várias mulheres! -- olhou para Aluísio - Aliás, quando ressurreto, ele apareceu primeiramente às mulheres, diga-se de passagem! -- voltou a atenção para todos -- Está no Livro dos Espíritos, questão 661, que "as boas ações são a melhor prece, por isso que os atos valem mais que as palavras." -- citou -- Minha filha, além de orar, sempre ajudou a muita gente! Não à toa recebe tanto apoio hoje! Ela fez mais coisas pelos outros do que muitos aqui dentro fizeram a vida toda!

 

--Ela é uma pessoa boa, mas não é normal, Olga, e você poderia ter evitado isso! -- Beatriz respondeu de cara feia

 

--“A normalidade é tão somente uma questão de estatística.”52 -- respondeu de imediato

 

--Chega de tanta retórica! Você não tem condições de ser uma líder espiritual! -- Paulo argumentou ao se levantar

 

--E você tem? -- ela desafiou

 

--Não mesmo! -- Cléia se levantou também -- Sempre foi um antipático e preconceituoso!

 

--Ah, então isso é uma revolta feminista! -- Onofre exclamou com deboche

 

--Olga é a pessoa mais indicada! -- Valter se levantou e afirmou com decisão -- Não há feminismo na minha opinião!

 

--Concordo integralmente! -- Marcelo disse -- E isso que acontece aqui agora é ridículo!

 

--Gente, por favor! -- Beatriz interferiu -- Se Olga for nossa dirigente daqui a pouco teremos gays e lésbicas atuando como médiuns nessa casa!

 

--E por que não? -- ela perguntou -- Às vezes acho que vocês nunca leram Kardec como pretendem insinuar!

 

--Aí já é demais! -- Baltazar protestou -- Eu tava quieto mas não deu pra segurar! -- olhou para Olga -- Pega leve, tá bom? Eu jamais aceitaria isso!

 

--Você fez um transplante no ano passado não foi, Baltazar?

 

--Ah! -- riu brevemente -- E o que isso tem a ver, Olga?

 

--Sabe de quem era o órgão? -- olhava para ele -- Preocupou-se em saber de quem seria?

 

--Não! E daí? -- cruzou os braços esperando a resposta

 

--E daí que eu “nunca vi em nenhuma fila de espera para doação de órgãos algum candidato perguntando se o órgão que receberia provinha de negro, branco, mulato, gay, mulher, judeu, católico, protestante ou muçulmano. Na hora da necessidade é que vemos como todos se igualam perante a fragilidade da condição humana. Por que, então, não se ver como igual e respeitar o próximo quando a saúde vai bem?”53 -- Baltazar ficou sem ação

 

--Perfeito! -- Marcelo quase bateu palmas

 

--Nunca o ser humano teve tanto acesso a Deus e nunca ficou tão distante como agora. Nunca houve tantos templos, tantas religiões, tantas definições e ideologias e mesmo assim o ser humano se afasta cada vez mais do seu Criador. Por isso a carência afetiva, as doenças nervosas, a violência que se espalha, o consumismo que gera as diferenças sociais tão brutais. E nada sacia o ser humano, quanto mais ele acumula, mais vazio vai se tornando. 54 -- olhava para todos -- E nós deveríamos estar aqui lutando contra esse processo ao invés de fortalecê-lo, não acham?

 

--E o que tem a ver esse discurso perdido no meio do nada? -- Paulo perguntou impaciente

 

--Vocês reclamam que o centro perde freqüentadores! Mas olhem pra nós! Nós que representamos os administradores da casa! -- levantou os braços -- Estamos aqui nessa discussão porque muitos de vocês têm preconceito comigo! E em todos esses anos eu nunca soube disso! -- passou a mão nos cabelos -- Vocês querem levar a palavra de Deus pra vida das pessoas agindo assim? -- provocava -- Olhem pra suas vidas, como vocês tratam os seus, olhem pra suas casas, revejam suas atitudes diárias. Os atos falam mais do que as palavras e tudo que fazemos, são as verdadeiras orações que levamos a Deus!55 Por isso, antes de fazer aquela palestra repetida, velha e cansada que vocês fazem em todas as reuniões, busquem pensar no exemplo que dão com suas atitudes e palavras! Como querem atrair pessoas simpáticas à doutrina se fazem questão de torná-la excludente?

 

Todos ficaram quietos.

 

--Acho que já falei demais! -- pegou a bolsa -- Vou pra casa!

 

--E eu a acompanho! -- Valter disse -- Mas não me surpreendo com o que vemos aqui! -- olhou para todos antes de sair -- "Grandes espíritos sempre enfrentaram violenta oposição de mentes medíocres.”55

 

--Eu também vou e deixo um recadinho: -- Cléia falou -- se Olga não assumir a direção, eu deixo essa casa hoje mesmo!

 

--Então seremos dois! -- Marcelo apoiou

 

Paulo espumava de ódio.

 

***

 

--Eu não acredito nisso, Olga! -- Mariano reclamava andando de um lado a outro pelo quarto -- Não bastasse viver sempre metida em tanta coisa pra fazer você ainda quer assumir a direção do centro? Mesmo sabendo que tanta gente não te quer nessa posição?

 

--É o que eu tenho que fazer, Mariano! É o que eu quero fazer! -- respondeu convicta -- E fale baixo porque Ricardinho não está acostumado com a gente discutindo! Ele pode ouvir!

 

--Ah, como se você se importasse com ele! -- respondeu com deboche -- Com que tempo vai cuidar dele? -- olhou para ela com a cara feia

 

--Eu não vou abandonar o menino e contava com sua ajuda! Aliás, eu esperava que você me desse um colo depois da decepção que sofri no centro! Ouvi coisas que não queria e percebi que pessoas que eu pensava que eram minhas amigas na verdade não são!

 

--Colo?! -- riu -- Não se faça de vítima, Olga! Como achou que eu poderia te apoiar nisso? Marido algum apoiaria!

 

--É, os homens costumam ser menos companheiros nessas horas... Só que eu pensei que você fosse diferente... -- respondeu decepcionada

 

--O que foi? Está decepcionada? Vai partir pras mulheres também?

 

--O que?! -- lágrimas brotaram em seus olhos -- Não acredito que me disse isso!

 

--Se você não voltar atrás nessa decisão maluca de assumir essa responsabilidade, acabou! -- falou mais alto

 

Ela não acreditava no que ouvia.

 

--Eu não vou tolerar isso! Ser casado com uma mulher que não cuida de mim, não cuida do nosso filho, não cuida da casa... Eu não vou aceitar! -- falava exaltadamente

 

--Então... -- ela respirou fundo -- acho que chegamos a um fim, porque eu não vou voltar atrás!

 

--Você não me ama, não é? -- estava decepcionado

 

--Amo, mas meu amor por você não me faz te ser submissa!

 

--Então você prefere o centro? Sem nem mesmo saber ao certo se vão te deixar assumir a direção?

 

--Eu preferi não me curvar diante de seus caprichos! -- respondeu com firmeza

 

--Então, eu sou caprichoso, companheiro ruim, o que mais? -- sorriu -- Quer saber? Eu vou embora!

 

--Vai embora?! -- não entendeu

 

--Isso mesmo! -- abriu o armário e pegou uma pequena mala -- Vou pra casa de Mari! -- começou a colocar algumas roupas dentro da mala

 

--Está saindo de casa... -- duas lágrimas escaparam de seus olhos

 

--O que acha? -- respondeu sem olhar para ela

 

--E quando o menino perguntar por você o que eu direi? -- sentia-se perdida

 

--Você é boa pra mascarar a realidade com histórias bonitas. Se soube fazer de Silvio uma belezinha, saberá fazer o mesmo de mim sem muito esforço!

 

Aquelas palavras doíam muito no coração de Olga.

 

--E quando a gente se separar de fato. -- fechou a mala -- Eu vou lutar pela guarda do menino porque ocupada como será, não vai dar conta dele. -- olhou para ela -- E seus outros filhos, hoje em dia, mal dão conta de si mesmos! -- saiu do quarto passando por ela com pressa

 

Olga foi até a sala a tempo de vê-lo abrindo a porta.

 

--“As palavras nos permitiram elevar-nos acima dos animais; mas é também pelas palavras que não raro descemos ao nível de seres demoníacos.”56 -- disse a ele sob um choro contido

 

Mariano nada respondeu e partiu. Ao sair de casa começou a chorar.

 

Olga pegou o telefone. Precisava de apoio, pois se sentia muito sozinha e triste. -- Alô, Juliana. -- chorava -- Por favor, meu bem. Vem aqui... -- os soluços interromperam sua fala

 

--Calma, dona Olga! -- a japonesa respondeu preocupada -- Eu vou agora mesmo!

 

Suzana não sabia do que se tratava mas já se levantou para trocar de roupa.

 

Khazni estava perto de Olga orando por ela. “Você nunca ficará sozinha, querida, ya habibi!”

 

 

20:30h. 07 de fevereiro de 2006, Praça Teresa Batista, Pelourinho, Salvador

 

Aline dançava alucinadamente ao som do ensaio do Olodum enquanto Camille tentava sobreviver.

 

--Ai, amiga!!!! -- gritava -- Solta e requebra com o Olodum, vai, vai!! Uhu!!! -- bebeu um gole de caipivodka -- Pode falar, pode rir de mim, oi, oi! -- cantava

 

--Isso é coisa de doido! -- respondeu falando alto -- Não gosto desses amontoados de gente, muito menos com esse povo me dando trombada o tempo quase todo! -- olhou para um homem do seu lado -- Ih, essa mão boba aí, meu! -- reclamou de cara feia

 

--Qual é seu nome, neném? -- ele perguntou

 

--Quero nada contigo, não! Passa pra próxima! -- respondeu impaciente

 

--Olodum é muito bom, é tuuuuudoooo!!! Uhuuuuuuuuuu!! -- Aline requebrava como louca -- ÔÔÔÔÔÊÊÊÊÊ!!

 

--Eu, hein! -- a loura balançou a cabeça

 

--Aí, loura gostosa! -- um homem chegou abraçando-a pela cintura -- Vamos trocar uma idéia? -- fez um bico para beijá-la

 

--Eu não quero trocar é nada! -- empurrou-o -- Já chega assim cheio das mão, ô louco! -- fez cara feia -- Eu tenho compromisso, viu?

 

--Um cara deixar uma loura dessas aqui sozinha... -- olhou-a de cima a baixo -- E cadê teu namorado?

 

--Tá em casa! -- continuava de cara feia

 

--Gatinho no pedaço, amiga? -- Aline olhou para o homem -- Não quer ele me dá que eu pego! -- sorria embriagada

 

--Ih, gordinha... Foi mal, mas não rola! -- ele saiu de perto das duas

 

--Tá vendo, amiga? -- olhou para a loura com cara de tristeza -- Até os caras pipa voada não me querem! Nem pra sacanagem eu tô prestando... -- abraçou-se com Camille -- Ai, eu quero morrer!

 

--Ô, Aline, espera aí! -- tentava se desvencilhar dela -- Assim você me derruba!

 

--Ôpa, casal lésbico! -- um homem barbudo se aproximava -- E aí? Rola uma trans* a três? -- piscou

 

--O que?!! -- Camille gritou -- Vai tomar no rabo, meu!

 

--Qual é, garota? -- ele perguntou falando grosso

 

--Qual é você! -- outro homem surgiu e o empurrou -- Vaza daqui, mermão!

 

O barbudo reparou que o outro era mais forte e foi embora de cara feia.

 

--Um cavalheiro!!! -- Aline sorria

 

--Meu nome é Heitor. -- olhou sorridente para a loura -- E o teu? -- piscou

 

--Joselita! -- ela mentiu -- E eu tô indo embora com minha amiga! Obrigado pela ajuda! -- pegou a outra pelo braço -- Vamos sair daqui! -- falou quase no ouvido de Aline

 

--Ah, não!! O Olodum é tuuudooo!!! Uhuuu!! Saravá tum, tum é o Oloduuuuummm!! -- gritava

 

“Mas essa criatura paga cada mico!” -- revirou os olhos

 

--Joselita, espere! -- o rapaz falou -- Eu ajudo vocês a sair daqui! -- segurou o braço de Aline

 

--Hum, que gentil! -- ela sorriu para ele abobalhada

 

--Pode deixar que eu a levo sozinha! -- a engenheira puxou a amiga para mais perto de si

 

--Eu vou junto, loura linda! Aí a gente conversa! -- puxou a garota também

 

--Ah, pode ficar despreocupado que a gente se vira sozinha e eu nem sou de muita conversa. -- puxou de novo

 

--Por que isso, linda? A noite tá só começando e você vai precisar de um homem pra te ajudar. -- sorriu e puxou Aline mais uma vez

 

--Preciso de ajuda, não, meu! Ô louco, cara teimoso! -- puxou o braço da outra novamente

 

--Gente, cês tão me deixando tonta!!! -- Aline advertiu

 

--Ah, sem estresse, gatinha! -- puxou novamente -- A gente pode se dar muito bem. De repente até nós três. -- piscou para a loura

 

--Mas será possível? Que merd*! -- e mais um puxão

 

--Ô gentem... -- Aline via o mundo girar

 

Camille e Heitor discutiam e continuavam puxando Aline para um lado e outro como se fosse uma boneca de pano. No auge da confusão, a jovem não resiste mais e despeja todo o conteúdo de seu estômago sobre o rapaz.

 

--Ai, que merd*! -- ele soltou o braço da engenheira e olhou para si mesmo enojado -- Puta que pariu!

 

--Agora vem comigo! -- Camille cochichou para a outra -- Abre espaço aí, minha gente! -- ela gritava -- Carrego uma arma letal em minhas mãos! -- seguia abraçada a Aline que de quando em vez despejava mais um pouco sobre a multidão -- Cuidado, perigo, perigo, perigo!!! -- gritava

 

--Eca! -- uma moça reclamou ao ser atingida

 

--Ai, que nojo! -- um homem tentava se limpar

 

--Abre espaço aí, minha gente! Abre espaço aí!! -- a loura continuava gritando -- Do contrário não me responsabilizo!

 

E tome de Aline passar mal...

 

***

 

Camille chegou no hotel depois de mais um dia de treinamento e foi direto para o quarto de Aline, que se hospedava no mesmo local. A amiga a atendeu com uma cara péssima.

 

--Ai, amiga! -- deu espaço para a loura entrar -- Que dia de cão, viu? Não consegui me concentrar no trabalho direito, foi uma droga!

 

--Claro! -- sentou-se em uma cadeira -- Bebeu que nem uma condenada ontem, o que você queria?

 

--Ah, mas se você e o gostosão não tivessem ficado me puxando igual um trapo velho pra cá e pra lá eu não tinha passado por aquele vexame! -- deitou-se na cama -- E que dor de cabeça, viu? Já tomei remédio e não passa! -- pôs a mão sobre a testa

 

--Conta outra, Aline! Você iria vomitar depois, mas sentiria as mesmas coisas que sente agora. -- olhava para a amiga -- Mas eu até preferi que tivesse sido daquele jeito porque tava doida pra sair dali e você era o trunfo que eu tinha nas mãos!

 

--Você é uma sem coração, viu? -- ajeitou-se para se sentar -- E vou te contar! Eu ali, sofrendo por causa de homem e os caras te abordando aos montes! Pra mim, nada! -- olhou para a loura -- Você nunca se interessa por ninguém, é?

 

--Eu namoro, Aline. E não gosto de ficar com bêbados! -- respondeu enfática

 

--Namora?! Quem?! -- não acreditava

 

--Você não conhece. É da faculdade. -- calou-se rapidamente -- Mas não mude o assunto! O ponto é que você está aqui pra trabalhar e queima seu filme com essas coisas. Não pode entrar nessa de encher a cara porque terminou com o namorado!

 

--Eu não terminei, foi ele quem terminou! -- fez cara de tristeza -- E a gente tava indo tão bem...

 

--E será que não foi uma briguinha passageira? Vocês terminaram há pouco tempo!

 

--Não é passageiro! Acabou de vez mesmo! Ele tá com raiva de mim e me culpa pela fratura peniana.

 

--Como é?! -- perguntou chocada

 

--Pois é, amiga... -- suspirou -- Nós dois fomos fazer a posição do Baco invertido e aí aconteceu: fratura peniana! Ele disse que foi porque estou além do peso... -- lamentava

 

--Mas... -- pausou -- Não, eu não quero saber como isso aconteceu!

 

--E é por isso que eu bebo, amiga! Pra esquecer! -- falou mais alto e fechou os olhos -- Se apaixonar é uma droga, viu? O corpo se enche de dopamina e uma sensação cachorra de alegria e felicidade abunda no teu peito! -- abriu os olhos -- Depois a dupla oxitocina e vasopressina faz com que o companheirismo te pareça mais intenso e você então prepara o dedo!

 

--Pra enfiar aonde?! -- Camille perguntou com os olhos arregalados

 

--Em lugar nenhum, sua doida! -- jogou um travesseiro nela -- Pra receber o anel de casamento! -- riu -- Só você pra me fazer rir numa hora como essa!

 

--Eu, hein! -- pegou o travesseiro e o colocou no encosto da cadeira -- O que anda lendo, hein?

 

--Já li muito sobre a química da paixão! Estava apaixonada, né? Queria entender o que se passava no meu corpo, aquele fogo todo a me queimar nas partes!

 

--Humpf! -- fez um bico -- Você tava melhor quando se limitava a estudar e ler seus contos lésbicos!

 

--Mas era uma leitura boa! Muito poética, aliás. -- pausou -- E não foi aquele anatomista espanhol, o descobridor dos neurônios, que começou com toda essa poesia ao dizer que eles “são as misteriosas borboletas da alma, cujo bater de asas poderá algum dia - quem sabe? – esclarecer os segredos da vida mental?”57

 

--E aí, você e seu namorado se separam e a senhora se dedica a se tornar uma serial killer de borboletas?58 -- levantou-se -- Francamente, Aline! Pare de matar seus neurônios com bebedeira! -- puxou-a pelo braço -- Levante daí e vamos caminhar pela orla. Ainda está claro, esta cidade é muito bonita e você não pode perder tempo se lamuriando em um quarto de hotel!

 

--Você não entende! -- levantou-se de má vontade -- Nunca sofreu por amor, não sabe o que eu sinto!

 

--Nunca? -- encarou com ela -- Se soubesse o que já senti! Se soubesse como me sinto de quando em vez... Sei muito bem o que é sofrer por amor, minha cara!

 

--Então você... -- olhou para Camille com curiosidade -- você ama alguém? De verdade?

 

--Amo! -- respondeu convictamente pensando em Seyyed

 

--E não é seu namorado?

 

--Infelizmente não.

 

--E por que vocês não...?

 

--Porque quando nos conhecemos, já havia uma terceira pessoa. -- pausou -- Quer dizer, eu sou a terceira pessoa.

 

--Casado?

 

--Completamente. -- respondeu com tristeza

 

--Ai, amiga... -- ficou sem graça -- Pôxa, me desculpe. Às vezes eu tenho atitudes como se só eu tivesse problemas, né?

 

--Não se desculpe. Acho que todos nós somos um pouco assim quando sofremos.

 

--E o que você faz em relação a isso? Namora um e ama outro...

 

--Eu abri mão.

 

--Abriu mão do seu amor? Mas como? Me ensina isso porque eu preciso aprender!

 

--Não tem o que ensinar, Aline. -- sorriu -- Às vezes, por muito amar, você abre mão de quem mais ama... -- calou-se por uns instantes -- Mas não me enrola! Troca de roupa e vamos caminhar!

 

***

 

Mariano assistia TV sem prestar atenção ao que se passava. Parecia estar vivendo em outro mundo. Mariângela pegou o controle remoto e desligou o aparelho, sem que ele nem percebesse.

 

--Acho que precisamos conversar, meu irmão. -- ela falou

 

--Mari? -- surpreendeu-se -- Há quanto tempo está sentada aí? -- perguntou sem graça

 

--Há tempo o suficiente. -- cruzou os braços -- Você chegou nervoso e chorando aqui no domingo à noite e eu não perguntei nada, só lhe abracei. Desde então parece uma múmia e mal fala uma palavra ou outra. -- olhava para ele -- O que aconteceu entre você e Olga? Estranho que ela não veio te procurar!

 

--Ela deve estar muito ocupada pra pensar em mim. -- respondeu com mágoa

 

--Não vai me dizer o que houve? Não quer falar?

 

Ele respirou fundo e se levantou. -- Olga foi indicada pra ser a nova dirigente do centro espírita que freqüenta e isso gerou um bafafá danado! Parece que muitos foram contrários por causa de Seyyed. -- andava pela sala

 

--Como assim, por causa de Seyyed? -- acompanhava o irmão com o olhar

 

--Porque ela é lésbica.

 

--E o que tem a ver?

 

--Ora, Mari, lembre-se de que no passado você nem queria que eu conversasse com ela pela mesma razão. -- olhou para a costureira

 

--E disso muito me arrependo. Foi ignorância de minha parte. -- abaixou a cabeça

 

--Da mesma forma eles se opuseram ao nome dela por ignorância.

 

--Sim, mas e aí? -- voltou a olhar para ele -- Ela deixou de ser boazinha nesse momento e disse poucas e boas, não disse? Ah, se fosse eu ia só dando soco com a mão bem fechada!

 

Achou graça do que ouviu. -- Ela não deu soco mas falou algumas coisas... E chegou em casa arrasada!

 

--E aí? Não entendo até agora porque você veio pra cá. Não que eu esteja reclamando, mas... qual a relação entre um fato e outro?

 

--Qual a relação, Mari? -- olhou para ela indignado -- Olga quer assumir a direção do centro, será que não entendeu?

 

--E você resolveu ter preconceito com a religião dela a essa altura do campeonato? -- levantou-se revoltada -- Pelo amor de Deus, meu irmão!

 

--Não é nada disso, criatura! -- respondeu impaciente -- Eu não quero que minha mulher seja dirigente de centro!

 

--E por que não?

 

--Porque ela é minha mulher! Porque ela é mãe! Como eu fico? Como fica Ricardinho?

 

--Ah! -- riu por estar indignada -- E ela por acaso deixa de ser sua mulher e mãe do menino por causa do centro? Eu não freqüento esse centro mas tenho certeza de que não poderiam ter indicado alguém melhor! Nunca na minha vida conheci uma pessoa como aquela criatura!

 

--Olga tem obrigações, Mari! Ela não pode simplesmente se arvorar em assumir responsabilidades que não lhe convêm!

 

--Não convêm a ela ou a você? -- respondeu desafiadora

 

--Que pergunta é essa?! -- estava irritado

 

--Quer saber? -- parou diante dele -- Você está agindo como a maioria dos homens e eu vou dizer, vocês são um bando de egoístas inseguros que não aceitam quando a mulher tem mais relevo que vocês na sociedade! -- estava exaltada

 

--Ai, não, eu não quero ouvir mais um discurso feminista! -- encaminhou-se para sair da sala

 

--Feminista ou não você vai ouvir sim! -- segurou-o pelo braço -- Quem você pensa que é? -- estava furiosa

 

--Mari? -- olhou para ela assustado

 

--É isso aí! -- largou o braço dele -- Quando você trabalhava fora, ela podia ser dona de casa e cuidar das suas coisas que não havia problema, não é? Sempre que a gente precisou de apoio, ela esteve do nosso lado e você gostou bastante disso! Mas agora que ela precisa de seu apoio, cadê você, hein, Mariano? Você faz grosseria com ela, como deduzo que tenha feito, e corre pra cá! E por que? Porque é demais pro seu orgulho de macho aceitar que sua mulher tem responsabilidades sérias enquanto você fica cuidando da casa e do menino! Mas se fosse o contrário, tenho certeza de que Olga não fugiria pra casa de Seyyed, porque ela, assim como nós, mulheres -- bateu no peito -- sabemos ser companheiras de nossos pares!

 

O contador não tinha palavras para se defender.

 

--Ela não tá indo pra sacanagem ou pra gandaia, não, Mariano! Ela vai cuidar dos outros, vai fazer um trabalho sério e de repente fazer daquele centro uma casa de Deus de verdade, como deve ser! Você deveria apoiar e se orgulhar disso porque não se acha uma mulher como Olga em qualquer esquina! -- falava com paixão -- Sua atitude está sendo infantil e ridícula! Que exemplo pra Ricardinho, viu? -- olhou para ele com desgosto -- Sua bobeira tá magoando Olga, ele e você desnecessariamente!

 

--Você está sendo passional porque ela é mulher! No fundo você está me comparando com Antônio e...

 

--Eu nem pensei em meu marido quando lhe disse o que ouviu! Pensei em Olga, em Ricardinho e no vexame que você tá dando! -- caminhou até o corredor -- Quer ficar aqui? Pode ficar, é bem vindo apesar de eu não concordar com seus motivos. Mas te aconselho a pensar bem, porque se eu fosse Olga, quem não queria mais seria eu! -- foi para o quarto

 

Mariano passou a mão na cabeça e ficou pensando nas palavras da irmã.

 

“Até meu irmão me dando uma dessas, quem poderia imaginar?” -- a costureira pensava decepcionada -- “É por isso que eu digo e repito: não quero mais saber de homem nem mijando ouro!”

 

***

 

Juliana e Ivo estavam sentados em um banco de praça enquanto Mariana brincava com outras crianças. Conversavam.

 

--Então Henrique me fez um grande resumo do que vocês ouviram no tal do tributo. -- Ivo dizia -- Ele se deu ao trabalho de comprar um livro sobre homossexualidade e me mandar pelo correio. Se chama Além do Rosa e do Azul, de Gibson Bastos.

 

--E você leu? Esse livro é ótimo! Acho que todas as pessoas deveriam ler o que ele nos traz!

 

--Li sim e tenho aprendido muito. Minha mulher aprendeu bem mais rápido... Ela devorou o livro em um dia! -- olhava para a filha -- Acho tudo isso tão incrível, sabe? Mariana é uma criança, ela gosta de brincar, é super menininha e no entanto... já sabe que gosta de meninas... -- suspirou

 

--Na idade dela eu não sabia... -- também prestava atenção na garota -- mas quando a gente sente aquele despertar... Não há mais dúvidas!

 

--E será que ela não pode estar enganada? É só uma criança! O que ela sabe da vida?

 

--Ela é uma criança mas e a alma, quantos anos tem? -- olhou para ele -- Ela até pode estar enganada, mas o importante é o modo como vocês agirão, independentemente de qualquer engano da parte dela!

 

--Eu sei. -- olhou para a japonesa -- E novamente tenho que te pedir desculpas por ter te culpado...

 

--Tudo bem... É um hábito dos seres humanos sempre buscarmos alguém pra culpar quando as coisas não saem como gostaríamos.

 

--Mariana sentiu muito sua falta. Eu já não sabia o que dizer a ela. -- sorriu -- E ela queria muito te contar que continua sendo a xerife da turma!

 

--É, eu tô sabendo! -- riu -- E também senti muito a falta dela. Suzana e eu sentimos, na verdade.

 

--Ela também perguntava pela delegada. Disse até que queria tirar umas dúvidas profissionais com ela.

 

--Dúvidas profissionais?! -- perguntou achando graça

 

--É. Afinal de contas ela é xerife, Suzana é delegada e as duas representam autoridade.

 

--Ah! -- riu -- Essa menina é uma graça! -- balançou a cabeça sorrindo -- Mas, já que vocês deixaram ela ir lá pra casa hoje, será o momento de ter a conversa profissional com Suzana.

 

--Quem me preocupa é Guilherme, viu? Desde que o filho deixou escapar que gostava do coleguinha o barraco desabou!

 

--Henrique me disse que ele foi pedir dinheiro pra pagar um tratamento psiquiátrico pro filho deixar de ser gay, vê se pode?

 

--Ele também me pediu dinheiro pra isso! Mas o que me preocupa mesmo é que agora Guilherme não quer mais saber do menino. Diz que só vai pagar a pensão e olhe lá. -- voltou a reparar na filha -- Mamãe tanto que pediu, mas ele repete o mesmo erro de nossos pais. E nem dá pra conversar com ele porque parte logo pra ignorância e começa aquele chororô de falta de dinheiro que você conhece bem!

 

--Guilherme é uma pessoa muito difícil. Ô geniozinho brabo, viu? -- também olhava para Mariana -- Eu já fui pavio curto mas melhorei muito. Agora é quase impossível me tirar do sério! -- afirmou resoluta

 

--Quase impossível?! -- olhou para ela surpreso

 

--Leva fé nisso aí! Sou outra mulher, meu filho! Juliana repaginada!

 

--Nossa... -- virou o rosto na direção de Mariana mais uma vez -- deve ser mesmo, porque naquele dia da conversa com mamãe você deu lição na gente sem fazer esforço!

 

--Tudo mudou, Ivo. Agora eu sou bastante zen.

 

--Que bom! -- exclamou admirado

 

Nesse momento, Mariana sobe as escadas de um escorrega em forma de tubo e três garotos grandes seguem atrás mexendo com ela.

 

--Mas o que é aquilo lá??? -- a japonesa se levantou revoltada -- Não me diga que aqueles enviados de Satanás estão indo pro escorrega só pra mexer com a menina??

 

--Quem?? -- Ivo perguntou sem saber de quem a irmã falava

 

Juliana correu rapidamente até o escorrega e pegou um dos garotos pelo tornozelo. -- Desce daí, sua peste! -- falava alto

 

--Ai, meu Deus! -- Ivo correu atrás dela

 

--Ei, me solta!! -- o garoto protestou

 

--Desce!! -- empurrou ele para baixo, que foi forçado a descer de qualquer jeito

 

--Tia, eles tão querendo ver debaixo do meu vestido! -- a menina falava lá do alto -- Pára! -- gritava com os meninos que a perturbavam

 

--O que está acontecendo aí? -- Ivo chega esbaforido

 

--Ah, mas isso não vai ficar assim, não!!! -- a enfermeira sobe as escadas correndo e entra no tubo

 

--Que mulher maluca é essa?? -- a mãe do garoto que Juliana forçou a descer corre até o filho e o abraça fazendo um drama -- Coitado do meu filho!

 

--Juliana, desce daí! -- Ivo pedia

 

--Larguem ela, seus maníacos do parque!! -- ouvia-se a enfermeira gritando

 

--Mas que...? -- Ivo estava agoniado

 

--Me solta, me solta!! -- um menino gritava

 

--Sua maluca, me solta!! -- outro também se manifestava

 

--O que ela tá fazendo com nossos filhos?? -- duas outras mulheres chegam correndo

 

--Ai, ela me mordeu!! -- mais um grito

 

--Morde ele mesmo, Mariana! Arranca os pedaços!! -- a japonesa incentivava

 

--Vocês estão ouvindo isso?? -- uma das mulheres perguntou horrorizada

 

--Tia, eu vou escorregar!!

 

--AHAHAHAHAHAHAHAH!!!!!!!!! -- vozes misturadas se confundem em um mesmo grito

 

Ivo e as mulheres correm desesperados para o outro lado do escorrega esperando que todos aparecessem. Mariana cai na areia e se afasta rapidamente.

 

--Tudo bem, filha? -- Ivo puxou-a para junto dele -- Cadê sua tia?

 

Juliana cai logo em seguida agarrada com os garotos.

 

--Sua louca! -- a mãe de um deles pegou o filho pelo braço e o levantou -- Você tem o que na cabeça, hein?

 

--Maluca! -- a outra mãe abraçou-se com o garoto

 

--Vocês é que são loucas! -- levantou-se espanando a areia da roupa -- E muito das sem vergonhas! -- gesticulava -- Quando esses filhotes de Jack estripador estavam perturbando minha sobrinha, as madames aí nada fizeram, mas bastou eu chegar e acabar com a galhofa que vocês logo apareceram!! É por isso que tem tanto marginal por aí!

 

--Calma, Juliana! -- Ivo pediu constrangido

 

--Mas é isso mesmo! -- olhava para as mulheres -- Eles vão aprontando, aprontando até que encontram fumo pro cachimbo e amanhecem com a boca cheia das formigas!! Aí, os safados dos pais que nunca deram disciplina, vão chorar no enterro e dar desmaio! É nessas horas que eu digo: morre bicha!

 

As mulheres foram embora com medo da japonesa e Mariana olhava para a tia admirada como quem se encontra com Xena.

 

--Meu cabelo tá direito, filha? -- perguntou para a menina enquanto se ajeitava

 

--Tá sim! -- respondeu sorridente -- Tá linda!

 

--Então vamos embora! -- estendeu a mão para ela que logo a segurou -- Essa praça, por hoje, já deu o que tinha que dar! -- foram andando

 

--Juliana repaginada bastante zen? -- riu sozinho -- Ai, minha irmã... você é muito louca!

 

***

 

Renan entrava em um quarto de motel com uma mulher.

 

--E então? -- ela falou -- Vamos tomar um banho? -- envolveu o pescoço dele com os braços e sorriu

 

--Melhor, não é? -- respondeu meio sem graça

 

--Então vamos juntos! -- puxou-a para junto de si e o beijou com desejo

 

O mecânico lembrou-se de Tatiana e de repente sentiu-se muito mal com aquilo.

 

--Não, pare! -- afastou-se dela -- Não, eu sou casado, isso não é certo! -- caminhou perturbado até o meio do quarto -- Não é certo...

 

--E cadê tua mulher? -- a morena foi até ele e o abraçou pela cintura -- Nem sabe por onde ela anda...

 

--Não, escuta! -- virou-se de frente para ela e se desvencilhou de seus braços -- Olha, Márcia, você é linda, interessante, legal, mas... -- pausou -- Eu amo a Tati, não tem jeito!

 

--Amor e prazer são duas coisas distintas. -- tirou o vestido ficando apenas de calcinha -- Se o amor está com ela, -- sorriu -- o prazer não precisa estar!

 

--Não, Márcia! -- pegou o vestido lançado no chão e devolveu a ela -- Eu não quero, não vai acontecer! -- esfregou as mãos no rosto -- Nem deveria ter deixado que a coisa chegasse até aqui, mas não vai passar disso! Vamos embora! -- andou até a porta -- Vista-se e vamos.

 

Ela riu incrédula e se vestiu com raiva. -- Mas você é um viado mesmo, viu? Por isso que dizem isso e eu não acreditava! -- balançou a cabeça com desgosto -- Nunca um homem me disse não! -- olhou para a virilha dele -- Nem excitado você está! Tem certeza de que tem mesmo um pau no meio das pernas? -- perguntou com deboche

 

--Acho engraçado que quando é a mulher que diz não vocês querem que a gente seja gentil, mas quando é o contrário... -- respondeu aborrecido

 

--Quando é o contrário, -- andou até ele -- é porque o homem é viado!

 

--Tchau, Márcia! -- saiu do quarto com raiva

 

--Volte aqui! -- ela foi correndo atrás dele -- Você pelo menos vai me deixar em casa!

 

Renan saiu do motel quase cantando pneus.

 

--Que situação ridícula! -- Márcia reclamou -- Ir pro motel com um viado e dar viagem perdida!

 

--Foi bom que isso tivesse acontecido, sabia? -- olhou para ela rapidamente -- Mais fica evidente pra mim que você não chega nem aos pés da minha Tati! -- calou-se -- "Difícil achar quem chegue...” -- pensou com tristeza

 

--Ah, é! A santa Tatiana! Defensora dos pobres e desfavorecidos! -- olhou para ele -- A essa altura, ela já deve ter pulado em todas as camas que quis e você aí pagando de otário, viu, fi?

 

--Ela não é desse tipo!

 

--Sabe? Deixa eu te falar, de repente ela te largou por causa da tua viadagem! -- provocou

 

Renan parou o carro bruscamente. -- Sabe como voltar pra casa sozinha? -- perguntou debochado enquanto abria a porta do carona -- Porque não vou mais te levar! -- olhou para ela com a cara feia -- Desce do carro! -- ordenou

 

--Aqui?! -- respondeu revoltada -- Você tá louco!

 

--Desce do meu carro agora! -- gritou

 

--Ah, é? -- desceu de cara feia -- Eu vou te denunciar a polícia e vou dizer que me bateu e me largou no meio da estrada, seu covarde! -- deu um soco no ombro dele e fechou a porta com raiva

 

--Pode dizer! -- ligou o carro e foi embora -- Mas que merd*, viu, Renan? -- reclamou consigo mesmo -- Pra que você foi se meter nessa? -- olhou pelo retrovisor e viu a silhueta de Márcia caminhando na escuridão -- E se acontecer alguma coisa com ela, meu Deus? -- ficou preocupado -- Droga! -- parou o carro e deu marcha ré

 

Márcia percebeu que ele se aproximava. -- Ai, graças a Deus!

 

O mecânico parou o carro perto dela e abriu a porta. -- Vem, Márcia. -- falou com uma expressão séria -- Mas chega de discussão, entendeu? É boca fechada até tua casa! E daí cada um segue seu caminho em paz!

 

Ela entrou e fechou a porta. -- Tudo bem. -- calou-se -- "Mas que eu vou prestar queixa na delegacia, isso vou!” -- pensou revoltada

 

***

 

--E a senhora só me conta isso hoje, mãe?? -- Ed protestava revoltada

 

--Você já tem seus próprios problemas para resolver, minha filha. Eu não queria aborrecê-la com mais coisas. -- Olga respondeu calmamente

 

--Olha só pra senhora! Toda triste, chateada... -- levantou-se do sofá resoluta -- Ah, mas eu vou lá agora!!

 

--Lá aonde?! -- Isa se levantou com os olhos arregalados. Olga também

 

--Falar com Mariano! -- caminhava com sua bengala até a porta -- Ele pensa o que? Eu disse a ele que se um dia magoasse minha mãe, cabeças rolariam e vai ser hoje! -- estava furiosa

 

--Seyyed! -- Olga ralhou -- Volte já aqui!

 

--Eu não te obedeço hoje, mãe! -- continuava andando -- Cadê a chave dessa porta, hein? -- procurava

 

--Seyyed, pode ir mudando de idéia! -- Isa foi até ela

 

--E também não te obedeço, Isa! Se eu não tiver forças pra bater em Mariano com minhas próprias mãos, com certeza umas boas bengaladas ele vai levar!! -- cuspia marimbondos

 

--Nem socos e nem bengaladas! -- Olga segurou-a pelo braço -- Pare com isso porque você não vai a lugar algum!

 

--E não vai mesmo! -- Isa segurou-a pelo outro braço

 

--Ah, vocês se aproveitam de que agora eu sou café com leite, mas isso não fica assim, não! Ah, que não fica!!

 

--Mari veio aqui pra buscar Ricardinho e me disse que falou poucas e boas pro irmão. Basta isso pra que pense melhor! -- Olga guiava a filha de volta ao sofá

 

--E a senhora vai querer ele de volta depois dessa, mãe? -- fez cara feia

 

--Se ele vier se desculpar e me convencer... -- ela respondeu -- Eu é que não vou atrás dele, por mais me morra de vontade de fazer isso!

 

--Humpf! -- a morena fez um bico

 

--Você me deu uma segunda chance, Ed. Eu te dei uma segunda chance. -- a ruiva lembrava -- Por que Mariano não pode ter a dele?

 

--Por mim ele tava bom pra levar uns cacetes, isso sim! -- sentou-se novamente -- O que será que estará dizendo pra Ricardinho agora? Só quero ver se vai ficar colocando minhoca na cabeça do menino!

 

--Acho que não! -- Olga se sentou -- Eu espero!

 

--Mas afinal, dona Olga, -- a bailarina se sentou ao lado da mecânica -- a senhora está como dirigente do centro ou não?

 

--Ainda deliberam. E ainda há choro e ranger de dentes naquela casa. -- brincava desanimada

 

--É tanta pouca vergonha, que me dá raiva... -- pausou e ficou pensando -- Aqui, Renan também tinha que saber disso! Ele ia do Galeão direto pro Meyer pra cacetar Mariano!

 

--Deixe seu irmão fora disso, minha filha! Ele já está sofrendo demais com os problemas com Tatiana!

 

--E como vão as coisas, hein? Eu nunca mais conversei com minha amiga, não sei.

 

--Ele me ligou ontem. Queria desabafar sobre algumas coisas que aconteceram... Tatiana mandou um e-mail marcando um encontro com ele no final desse mês. Será uma conversa definitiva ao que pude entender.

 

--Isso é outra coisa que me revolta. A garota faz o certo e vive como criminosa. -- balançou a cabeça -- Tá tudo errado...

 

--Calma, meu amor. Menos revolta e mais esperança! -- Olga falou -- Não desista do ser humano. Pode demorar, mas as coisas vão mudar. Mesmo que nossas gerações não sintam os efeitos dessas mudanças, outras virão e conhecerão uma realidade melhor.

 

Olhou para a mãe. -- E Mariano sacaneia uma mulher dessas? -- balançou a cabeça contrariada -- Aí é que me revolta mais!

 

--Calma, minha morena braba! -- Isa segurou seu rosto e beijou-lhe a bochecha -- Não demora muito Mariano virá se desculpar com sua mãe. -- olhou para Olga -- Com certeza ele virá, dona Olga. Essa família de vocês sabe como conquistar as pessoas! -- segurou a mão de Ed

 

Olga sorriu e quis mudar de assunto. -- Como vão seus pais, minha querida? Sabe que temos orado por eles.

 

--Ah, dona Olga a situação é complicada... Meu pai vive na rua ou então na igreja, eu nunca o vejo. E mamãe... tem sido cada vez mais difícil conversar com ela. -- suspirou -- Eu não sei o que fazer...

 

--Tenha fé! Deus vai nos ajudar a saber o que fazer e como fazer! Como irá orientá-los também!

 

--Que a senhora fale pela boca de um anjo!

 

Nesse momento a campanhia toca.

 

--Quem será? -- Ed perguntou desconfiada

 

--Não sei, não espero visitas. -- levantou-se e foi atender

 

Isa e Ed ficaram olhando. Olga ficou surpresa ao constatar quem era e abriu a porta. Ricardinho entrou correndo e a abraçou.

 

--Mamãe!!!

 

--Oi, meu amor! -- levantou o garoto no colo e beijou a cabeça dele

 

--Oi, Olga. -- Mariano ficou parado na porta todo sem graça

 

--Ah, mas era contigo mesmo que eu queria falar!! -- a morena se levantou revoltada

 

--Calma, amor! -- a ruiva se agarrou com ela

 

--Ed, Isa... -- acenou para as duas envergonhado -- Oi!

 

--Eu tô doidinha pra acertar... -- a bailarina cobriu a boca da mecânica com as mãos

 

--O menino não pode ouvir isso, Ed! -- ralhou com ela em voz baixa

 

--É melhor eu voltar em outra hora... -- ele preparou-se para ir embora

 

--Não, Mariano! -- Isa pediu -- Ed e eu vamos lá pro playground brincar com Ricardinho -- olhou para a criança -- Vamos brincar, queridinho?

 

--Vamos! -- ele respondeu -- Pode mãe?

 

--Pode, querido. -- colocou-o de volta no chão

 

--Pode, pai? -- olhou para o contador

 

--Pode, filho! -- respondeu sorrindo

 

--Vem? -- a ruiva estendeu a mão e o menino correu para segurá-la -- Vamos nós três lá pra baixo brincar!

 

Ao passarem pela porta, Ed encarou com Mariano de cara feia. -- Tô de olho em você, viu, cara? -- sussurrou ameaçadora -- Qualquer coisa grita, mãe! -- foi embora

 

Olga teve vontade de rir do comentário da filha.

 

Mariano entrou e fechou a porta. -- Acho que tem muita gente decepcionada comigo, não é? -- perguntou envergonhado

 

--Acho que sim. -- respondeu calmamente

 

--Me perdoe, Olga! -- ajoelhou-se rapidamente diante da mulher -- Eu fui um idiota! -- segurou as duas mãos dela -- Fui machista, ignorante, burro e tudo o mais que se possa pensar! -- seus olhos estavam marejados -- Mas eu me arrependi muito! Mari me chamou à realidade e ela tava certa em cada palavra que me disse! Por favor, me perdoe! Eu te amo e me orgulho de ser seu marido! Fico do seu lado e lhe apóio pro que der e vier, inclusive pra ir no centro e dizer poucas e boas praquele pessoal safado que embarga você lá! -- sentia medo de perdê-la -- Por favor, você é o amor da minha vida e eu amo passar meus dias a seu lado. Peço perdão e retiro tudo que eu disse! Foram palavras ditas sem o devido cuidado, palavras que nunca deveriam ter saído da minha boca! Me perdoe, Olga, por favor, eu faço qualquer coisa!!

 

--Qualquer coisa mesmo? -- ela perguntou fingindo seriedade

 

--Qualquer coisa!

 

--Então se levante daí e me beije! -- sorriu

 

Ele obedeceu e a beijou apaixonadamente

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo:

 

[a] Hob Kbeer. Intérprete: Yara. Compositor: Tareq Abu Joudeh. In: Twassa Feyi. Intérprete: Yara. Melody Music / EMI Arabia, 2005. 1 CD, faixa 4 (4min33)

[b] Ou Ela Ou Eu. Intérprete: Alcione. Compositores: Carlos Rocha / Flávio Augusto. In: Nosso Nome Resistência. Intérprete: Alcione. RCA, 1987. 1 disco vinil, lado B, faixa 2 (3min45)

 

Aline cantarola: 

Requebra. Intérprete: Olodum. Compositor: Craig Negoescu


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Comentários para 26 - Quinta Temporada - LIBERDADE IV:
Samirao
Samirao

Em: 20/06/2024

Arredondando habibem! Múltiplos de 5!! Huahuahua


Solitudine

Solitudine Em: 20/06/2024 Autora da história
E pelo que estou vendo, continua ligadona que dói! kkk


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Samirao
Samirao

Em: 26/03/2024

Maya tem que ser redescoberta!


Solitudine

Solitudine Em: 02/04/2024 Autora da história
Fique tranquila. Cada coisa no seu tempo.

Beijos,
Sol


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Joanna
Joanna

Em: 21/04/2023

Nada como uma argumentação bem estruturada "ninguém pergunta a origem de um órgão doado". Perfeita esta colocação.

E algo de capítulo anterior, acho hilário a Camille dizer para Ivone que ela é apaixonada por ela. Kkkk


Solitudine

Solitudine Em: 22/04/2023 Autora da história
Olá querida!
Fico muito feliz em vê-la firme e forte seguindo nas temporadas de Maya.
Olga é sempre muito precisa e humana em suas colocações. Tipo de pessoa que deixa os outros sem fala! rs
Camille acabou melhorando tanto da auto estima que agora pensa que nem a psiquiatra escapa imune aos seus encantos! kkkk
Espero que continue lendo, gostando e que volte sempre para me dizer o que tem achado.
Obrigada por vir!
Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Rumo aos 10 últimos!


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Vamos lá!


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Femines666
Femines666

Em: 11/03/2023

Menina parece até uma coisa que fui falar da síndica da Ju e deu problema aqui no prédio! kkkk

A barra que a Seyyed passou Oh céus!

Tô viciada nessa série! Quase matei o síndico porque veio me atrapalhar de ler! kkk


Resposta do autor:

kkkkkkk Síndicos e condomínios: as pragas da minha vida (também!) rs

Continue viciada pois esse vício não faz mal a saúde!

Beijos,

Sol

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Alexape
Alexape

Em: 11/12/2022

Que capítulo de tirar o fôlego!!!! Aplausos, aplausos ??‘? 

E Lady, haja diálogo forte! Queria eu presenciar uma cena dessa! Eu divertir é claro!


Resposta do autor:

Olá querida!

Estou feliz com essa empolgação toda!

Lady realmente é uma unamidade! kkk

Beijos,

Sol

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Samirao
Samirao

Em: 13/11/2022

Esse é mais um para arredondar! Huahuahua 


Resposta do autor:

Claro! kkkkk

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Samirao
Samirao

Em: 10/09/2022

Amoree!!! Vim pra arredondar huahuahuahua


Resposta do autor:

Você e seus arredondamentos! kkkk

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

Esse capítulo começa muito foda! E com cada frase... ai


Resposta do autor:

Olha a boca, menina! kkk

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 22/04/2020

Olá Solzinha!!

 

Que barra que a Ed passou hein? Fiquei com  muita pena mesmo, felizmente a Isa esteve o tempo todo ao lado dela, muito tocante a noite delas, foi de arrepiar.

Isa amadureceu tanto, agora me lembro o motivo de gostar da bailarina.

 

Patrícia continuou ajudando mesmo depois de tudo o que aconteceu, pense numa personagem que eu gostava muito.

 

 

Juliana bateu foi pouco naquele moleque abusado, eu se tivesse no lugar dela , tinha batido mais!

Agora vejam só, ela defendeu o idoso que estava sendo agredido e foi demitida... Ê Braseeelll...

 

Lady merece um seriado!

“--Eu sei, mas se eu não posso namorar, você também não pode! Chega dessa vida bandida, Priscila! Agora você também é mãe! -- virou-se de costas para a dentista -- "Às vezes um casal precisa de um diálogo forte!” -- balançava a cabeça.”

 

Homens... Ô raça complicada, infantil e dependente (sem generalizar), Mariano foi a grande decepção desse capítulo.

“-- Quando você trabalhava fora, ela podia ser dona de casa e cuidar das suas coisas que não havia problema, não é? Sempre que a gente precisou de apoio, ela esteve do nosso lado e você gostou bastante disso! Mas agora que ela precisa de seu apoio, cadê você, hein, Mariano? Você faz grosseria com ela, como deduzo que tenha feito, e corre pra cá! E por que? Porque é demais pro seu orgulho de macho aceitar que sua mulher tem responsabilidades sérias enquanto você fica cuidando da casa e do menino! Mas se fosse o contrário, tenho certeza de que Olga não fugiria pra casa de Seyyed, porque ela, assim como nós, mulheres -- bateu no peito -- sabemos ser companheiras de nossos pares!” Perfeito!!!!

 

Beijos

 

 

 

 

 

 

 

 


Resposta do autor:

Gabinha!

Seyyed e Isa viveram momentos muito punks. Muitas tribulações na família, no trabalho e na vida de um modo geral. Mas o Amor tornou o fardo mais leve.

Houve algumas leitoras que reclamaram comigo porque Patrícia morreu logo no início. Mas eu queria trabalhar a coisa da homofobia com ela, a qual sofria preconceitos mais fortes devido a sua apresentação. Lésbicas como Isabela e Juliana, por exemplo, mais encaixadas nos estereótipos do dito feminino, não passam pelo mesmo nível de rejeição e intolerância, embora já a sintam bem.

O desrespeito aos idosos não é só uma coisa do Brasil. Acho que é uma tônica forte no mundo ocidental. Não que no oriente não haja, mas a cultura de respeito com o idoso é maior, sem dúvida.

Essa imensa rata de Mariano foi baseada numa coisa que vi acontecer na vida real com um determinado casal e daí adaptei para o conto. Bem comum, bem usual e fruto de uma sociedade machista que ainda tem muito o que evoluir (e não estou me prendendo ao Brasil. Há países bem mais machistas).

Beijos.

Sol

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