Quinta Temporada - LIBERDADE II
Flávia massageava as costas de Aline que gemia de dor. -- Ai, Flávia, calma! -- reclamou -- Assim eu não agüento!
--Fica quieta aí, doidona! Quem mandou fazer estripulia com o namorado novo? Deu nisso! -- riu brevemente -- E se prepara pro pior! Hora de massagear o piriforme! -- dobrou o braço
--Piri quem? Aiaiaiai!!!!!! -- gritou ao sentir o cotovelo de Flávia apertando suas nádegas
--Eita, que parece a Xena! -- brincou -- É só assim que se atinge o piriforme, filha. Ele está abaixo dos grandes e dos pequenos glúteos; não tem jeito! -- continuava comprimindo
--Eu vou fazer xixi nas calças, aiaiaiaiai!!! -- gritava
--Vou pegar a ventosa! -- parou de massagear e abriu a maleta
--Ventosa?! -- perguntou desconfiada
--Isso aqui é bom pra caramba! Vamos desmanchar todas essas contraturas! -- comprimiu a ventosa contra a pele de Aline e começou a succionar o ar com a pistola
--Ai, mas isso é horrível!! -- reclamava -- Eu vou ficar cheia de marcas! -- protestou
--Calma que daqui a pouco eu termino! Você vai ficar marcada mas não vai se arrepender! Considere a ventosa como um ch*pão que cura! -- riu
Depois de mais alguns minutos de sofrimento para Aline, a fisioterapeuta encerrou a massagem.
--Gente, eu... -- a engenheira se levantou abestalhada -- Comi o diabo que amassou o pão mas me sinto bem melhor! Ui! -- respirou fundo
--Vê se quando for praticar uma posição do Kama Sutra se prepara melhor, viu? Você tava toda desconjuntada! -- riu
--Ai, amiga, é a empolgação, sabe? -- pegou a carteira -- Namorado novo, a gente quer impressionar... aí se estrepa! Nunca pensei que combinar a tal da flexão invertida com o arco sagrado fosse uma coisa tão perigosa! -- estendeu o dinheiro para a outra
--Eu hein! -- riu -- Obrigada! -- a fisioterapeuta recebeu -- Mas e o cara? Como ficou? -- perguntou curiosa
--Ih, ele tá que não se agüenta nem se levantar! Tá usando uma bengala por enquanto! Mas os braços também estão em petição de miséria!
“Nossa Senhora, que sex* animal foi esse!” -- pensou estarrecida
--E você, Flávia? Uma mulher que entende de músculos e ossos como você deve fazer loucuras na cama. -- piscou
--Que nada! Meu namorado é policial e anda escondido porque corre perigo de vida. Eu não o vejo há um tempo que me parece eterno... -- suspirou
--Espera por ele? -- perguntou com pena da outra
--Espero... -- guardou suas coisas na maleta -- Não sei se realmente ele voltará um dia, ou se voltará solteiro mas... eu espero! -- preparou-se para partir -- Vou indo!
--Ele voltará pra você, amiga! -- fez um carinho no braço dela -- Tenho certeza de que tudo vai terminar bem! -- sorriu
--Se Deus quiser! -- sorriu também
Aline guiou Flávia até a porta e se despediu da fisioterapeuta. Depois ligou para o namorado. -- Alô, benzinho! Flávia é mesmo ótima, ela colocou tudo meu no lugar! Por que você também não a contrata pra deixar de ficar desconjuntado? -- pausou -- Não, ela não é careira e pode atender em casa. É só ligar e marcar! -- pausou -- Isso, eu vou te dar o telefone dela e você marca. Quando ficar bom, vamos tentar aquela posição da mola junto com a dos bailarinos. -- sorriu -- Agora vai! -- exclamou excitada
***
Rubens voltava do hospital com a esposa. O filho e a nora se recuperavam do acidente que sofreram.
“E acabou que nem precisei daquele dinheiro...” -- pensou arrependido
O mecânico não havia ido ao encontro de Àjé e andava consumido por muitos remorsos. Já havia prestado depoimento na delegacia e agiu conforme foi instruído pela feiticeira.
Caminhavam de mãos dadas até que Suzana se interpõe no caminho deles. -- Com licença! -- pediu -- Será que poderíamos conversar? -- olhou para Rubens
--Quem é você? -- a esposa dele perguntou desconfiada
--Delegada Suzana Mello. -- mostrou o documento -- Preciso conversar com seu marido! -- afirmou enfática
--Ele já prestou depoimento e nós acabamos de voltar do hospital onde nosso filho e nora estão internados! -- protestou
--Eu falo com você! -- o mecânico afirmou e olhou para a esposa -- Pode me esperar no carro? -- pediu
A mulher se retirou contrariada. Entrou no carro e ficou olhando para os dois.
--Eu tô sabendo do teu depoimento e não acreditei em uma palavra sequer! -- a delegada falou entre dentes e se aproximou dele -- Seyyed é como se fosse minha irmã e se você tiver alguma coisa a ver com o que aconteceu naquela oficina, eu vou te perseguir até o final da tua vida ou da minha! -- ameaçou
O homem engoliu em seco. -- Eu... eu não tenho nada a ver com aquilo, eu... -- suava frio -- trabalhava lá e precisava daquele dinheiro! Ainda mais com um filho no hospital...
--De repente pode ter ganho mais dinheiro que o seu salário plantando umas bombinhas aqui e ali! Ed me disse que andava te estranhando nos últimos tempos! -- falava com seriedade
--Eu não tenho nada com aquilo. E não ganhei um centavo sequer! Pode até quebrar meu sigilo bancário e não verá nada além do que ganho! A conta de minha esposa tampouco tem dinheiro! -- argumentava nervosamente -- "Graças a Deus não tirei o dinheiro da mochila!”
--Eu também andei investigando sobre os dois elementos que tiveram problemas com Seyyed e soube que eles desapareceram! Será que você não saberia do paradeiro deles?
--O que?? -- perguntou surpreso -- Como é isso??
--Léo e João estão desaparecidos há quase 60 horas. As famílias prestaram queixa e ninguém imagina o que teria acontecido. Cada um saiu de casa com uma conversa diferente.
“Meu Deus, o que terá acontecido?” -- pensou apavorado -- Eu não tenho idéia! Não vejo aqueles caras desde que saíram da oficina. Nunca fui amigo deles! -- mentiu
--Tudo bem! -- sorriu sarcástica -- Eu vou descobrir a verdade. Em anos como delegada nunca perdi uma pista! Não vai ser agora! -- cumprimentou-o com a cabeça -- Melhoras pros seus parentes e passar bem! -- afastou-se dele e foi embora
Rubens suspirou aliviado e foi para casa com sua esposa, porém estava extremamente tenso. À noite, inexplicavelmente, um inesperado infarto levou-o ao hospital onde deu entrada em estado de coma.
Àjé havia trabalhado ativamente em seus feitiços...
****
Camille e Letícia estavam em um motel. A loura provocava os seios da professora com a boca enquanto a penetrava com os dedos freneticamente.
--Isso, Camille, isso! Ai... -- Letícia gemia -- Do jeito que eu gosto! Ah... -- fechou os olhos
Percebendo que a parceira se aproximava do clímax, a loura beijou-a com paixão e aumentou ainda mais o ritmo da penetração. Letícia gozou rapidamente.
--Ah... -- sorriu -- Você está cada vez melhor! -- beijou-a -- Só falta mais um pouquinho pra ficar perfeita! -- reverteu as posições e deitou-se sobre ela -- Só um pouquinho! -- beijou-a e foi seguindo uma trilha de beijos pelo pescoço da jovem
“Aposto que ela pensa naquela safadeza gósmica que é o sex* oral!” -- a engenheira pensou contrariada
Letícia olhou para a amante e falou sensualmente: -- Tenho uma coisa pra te mostrar! Espera um pouquinho! -- levantou-se e foi até onde estavam suas bolsas. Voltou com um livro nas mãos -- Olha só! -- deitou-se do lado dela e abriu o volume
Camille deitou-se de bruços para ver. Apoiava-se com os cotovelos. -- Menina! -- arregalou os olhos -- Um livro pornô!
--Não é um livro pornô. -- riu -- É uma fonte de idéias! -- mostrava as ilustrações -- Olha essa posição! -- olhou para a loura -- Que acha? -- beijou a bochecha dela
--Eu acho uma sacanagem da grossa, isso sim! -- mudou de página -- Ô louco!
--Ah, essa é gostosa! -- respondeu sorrindo
--Aposto que já experimentou todas as posições desse livro! -- olhou para Letícia com a cara feia
--Bem... -- coçou a cabeça -- todas, não, mas uma parte delas...
--Humpf! -- virou a página de novo -- Minha Nossa Senhora de Achiropita! -- exclamou surpresa -- Eu não acredito que alguém possa gostar disso aqui! Não dá pra relaxar com esse arreganhamento surreal!
--Bem... -- tentou argumentar
--E essa? Ou suporta o peso com os braços ou goz*! Isso é fake! -- fez cara feia -- Ô louco, com as costas arqueadas assim você fica é rendida!
--Essa aí eu nunca experimentei... -- comentou a respeito -- Mas essa aqui é totalmente factível!
--É, mas pra que? A coluna fica totalmente torta! Deve dar uma dor danada! -- olhou para ela -- Acredita que uma amiga minha foi inventar moda com isso e ficou toda bichada? Teve até que fazer massagem com minha fisioterapeuta pra não ficar inutilizada!
--Não exageremos... -- riu
--E quem disse que é exagero? -- passou para outra página e apontou a foto -- Uma mina que ficasse nessa posição aqui... Ai, mas eu não tentaria isso nem por dinheiro!
--Pôxa, Camille, você reclama de todas as posições! -- Letícia pegou o livro e o fechou -- Geralmente as mulheres sempre têm alguma curiosidade! -- levantou-se e guardou o livro na bolsa -- Você é a única que põe defeito em tudo e não quer provar nada! -- estava chateada
A loura ficou envergonhada e deitou-se de lado cobrindo o corpo com o lençol. -- Eu não sou como as outras mulheres que conheceu, Letícia. -- afirmou em voz baixa -- Não gosto dessas coisas, não me sinto bem!
--Porque você é pudica demais! Cheia de frescura, cheia de coisa! -- olhou para ela com as mãos na cintura -- Você acha o que? Que somente as posições que a gente faz são aceitáveis e as outras são impuras e passíveis de punição divina? -- perguntou de cara feia -- Cai na real, Camille, você é muito sem noção! Sexo pra você é uma coisa extremamente limitada!
--Eu não gosto... -- olhava para as cobertas -- Você disse que teria paciência comigo... Agora fala nesse tom agressivo...
A professora reparou em como Camille estava encolhidinha na cama. Parecia uma menininha entristecida que nem de longe lembrava a mulher de personalidade que era. Subitamente arrependeu-se pelo tom que usava. -- Perdoe, Camille, eu... -- foi até ela e se deitou ao seu lado -- fui grosseira com você. -- beijou-a -- Perdoe-me, por favor! -- pediu
--Eu quero ir embora! -- estava triste
--Querida, não! Vamos ficar um pouco mais e...
--Eu quero ir! -- olhou para ela -- Por favor!
Letícia respirou fundo e se levantou. -- Vamos, então. -- foi para o banheiro
A loura sentou-se na cama e ajeitou a prótese ao corpo. Estava se sentindo muito mal e queria sumir dali o mais rápido.
As duas vieram caladas e Letícia não sabia como puxar assunto com a namorada. Deixou-a na porta de casa e a loura se limitou a dizer um tchau desanimado. Ficou olhando para ela e só foi embora quando a viu entrar em casa. “Ai, Camille, Camille... por que você é tão complicada, hein?” -- pensou antes de partir com o carro
--Oi, filha! -- Mariângela ficou surpresa em vê-la -- Pensei que dormiria na casa de Letícia! -- estranhou
--Eu ia, mas mudei de idéia! -- respondeu desanimada
--O que foi? -- perguntou de cara feia -- Ela fez alguma coisa errada com você? Diga, menina, porque se ela fez eu... -- levantou-se
--Não, mãe. -- interrompeu a fala dela -- Eu vou dormir. -- beijou a testa da mãe -- Boa noite! -- foi para o quarto
“Ah, mas se aquela professora tarada fez alguma coisa com a menina eu pego ela no trabalho mesmo! Vai apanhar na frente de tudo que é aluno!” -- pensou esfregando as mãos -- "E ainda dou-lhe uma pernada de bailarina que ela vai cair no chão estatelada!”
Camille vestiu a camisola e deitou-se. Ficou pensando na necessidade que Letícia sentia em inovar e variar durante o sex*, necessidade da qual ela não compartilhava. “Será que é um defeito meu? Será que é um defeito dela? Mas a maioria das pessoas gostam de inventar essas modas...” -- pensava -- "Por que eu não gosto? Por que não me sinto à vontade? Será que Seyyed também é assim? E Fátima, será que é?” -- suspirou -- "Eu tenho que conversar sobre isso com Ivone... Ou não... Sei lá!” -- virou-se de lado -- "Ter um relacionamento bem que podia ser uma coisa menos complicada...”
Letícia estava agoniada e decidiu ligar para Samira. Precisava conversar com alguém. “Não é a melhor pessoa pra eu desabafar mas só tem essa! Aposto que vai me sacanear!” -- pensava enquanto aguardava que ela atendesse
--Alô, Letícia! O que houve? Me ligando a essa hora, aconteceu alguma coisa? -- perguntou preocupada
--Aconteceu... Tá podendo falar?
--Tô! O que foi? Aposto que tem a ver com Camille!
--Pois é! A gente tava no motel, naquele clima gostoso, aí eu fui inventar de mostrar um livro de posições sexuais pra lésbicas...
--E ela não gostou e não quis experimentar! -- concluiu
--É... -- pausou -- Eu falei com ela com uma certa rispidez e sei que a magoei. Resumindo, acabou a noite. Ela quis ir pra casa e eu vim pra cá sozinha...
--As pessoas não são perfeitas, Letícia. E são diferentes também! Se quer ficar com ela, tente ter mais paciência. Acho que você ainda não se tocou que sex* pra ela não é igual ao que é pra você!
--Eu não sei o que e como fazer! Ela não se solta, sabe? Tem muitos pudores, muitos receios... Não sei se foi a criação ou outra coisa, sei lá! Só sei que não quero deixá-la, mas também não estou satisfeita!
--Ah, Letícia, eu continuo achando que sex* não deveria ser a razão principal pra vocês se desentenderem, especialmente se você gosta do que faz com ela, mas... sei lá! Na minha opinião parece que você reclama de barriga cheia!
--Se eu te contasse os detalhes... -- pausou -- "Camille nunca nem teve coragem de fazer sex* oral em mim e nem sequer aceita me beijar depois que faço nela. Toda vez tenho que ficar lavando a cara!” -- pensou contrariada
--Ter um relacionamento sério não é uma coisa fácil! -- afirmou com conhecimento de causa -- Você tem que ter essa noção!
--De fato estranhei que não tenha rido da minha cara até agora! Você e minha amiga andam mal? -- perguntou curiosa
--O problema da sua é pudor no sex*, né? O da minha é a falta de tempo! Aquela criatura trabalha como uma tarada, você tem que ver! E conversa com o computador, conversa com os livros, é uma danação!
Riu. -- Ela sempre foi de falar sozinha... Mas e aí? Então vocês não têm programas juntas, não fazem nada interessante?
--É claro que gente faz coisas interessantes, mas ela não tem tempo pra mim como eu gostaria que tivesse... -- lamentava -- Só que eu busco ter paciência... -- pausou -- Ah, e ainda tem outra: continua escrevendo aquela história na internet e fica pesquisando, conjecturando... -- comentava -- Aquela ali é muito doida, Letícia! -- riu
--Você é ciumenta, que eu sei! -- provocou -- Ela te dá motivos pra ter ciúmes?
--Não... Minha caipira é bem comportada nesse sentido, mas eu queria que trabalhasse menos e terminasse logo de escrever a história! Ela não faz planejamento, é uma loucura total! Acredita que ela discute com as personagens? -- riu de novo
--Com as personagens? Humpf! Um dia desses Camille fez um fuzuê por causa de uma leitora! -- acabou rindo -- Acho que elas ficam tudo doida com essa coisa de escrever história, viu?
--Pois é! -- suspirou -- Mas eu gosto daquela caipira danada e tenho paciência por causa disso! Se gosta de Camille, tenha paciência, a menos que não ache que ela valha a pena!
--É claro que vale! Se não valesse eu já tinha passado pra outra! -- pausou -- Eu tô aqui com o coração na mão, não tem idéia!
--Ai, que fofo! Letícia Avelar se consumindo por amor! Nem parece aquela que se dizia possuidora de um espírito vagabundo! -- brincava -- Coração de ninguém, a águia das noites cariocas!
--Ah, mas eu sabia que você ia me sacanear! Tinha certeza! -- reclamou contrariada
--Eu não tô sacaneando, tô lembrando de coisas passadas!
--Ah, Samira, vá se danar!
--Calma, mulher! -- ria -- É que eu acho engraçado ver Letícia, a predadora, se rendendo aos charmes de uma lourinha poderosa e complicada. Camille com certeza é alguém que eu admiro! Vou pegar umas dicas com ela pra tentar dar um jeito na minha caipira!
--Tchau, Samira! -- desligou sem esperar ouvir resposta -- Eu desabafo com ela porque sou sem vergonha! -- falou para si mesma
***
Suzana e Juliana almoçavam fora e conversavam.
--Hum, eu esqueci de te dizer! Isa e Ed se mudam pro apartamento de Ricardinho amanhã. -- a delegada falava -- O avô dele entregou as chaves domingo passado. -- olhou para Juliana -- Isa arrumou uma inquilina pra ficar lá em Ipanema. Parece que é uma bailarina russa, amiga de Ana Fluminense, que vai passar um ano no Brasil. A mulher já chega nesse sábado!
A japonesa ficou olhando para o rosto da amada e falou: -- Sabe, a vida é mesmo engraçada, né? -- cortava o peixe -- Você tinha a maior cisma com Ed e ela te doou um rim. Ficaram amigas de verdade... -- sorriu -- Eu odiava Isabela e hoje a admiro e sou sua amiga. Quem poderia imaginar? -- deu uma garfada
--Pois é. A vida dá voltas... -- comia
--Lembra daquela minha visão? Aquela em que você não aparecia? Quase tudo se concretizou, menos o fato de você sair da minha vida, e graças a Deus não saiu, e eu trabalhar numa coisa que nada tinha a ver com um hospital. -- bebeu o suco
--Penso que Deus me deu uma chance quando, naquele dia, com o revólver em punho apontado pra minha cabeça, o malandro tentou me matar mas não tinha munição. -- lembrava -- Aquilo foi nascer de novo pra mim! -- sorriu
--Graças a Deus! -- olhou para cima -- Só dona Lourdes e eu sabemos o quanto sofremos com medo de você morrer! -- olhou para ela de novo e ficou pensando -- Dona Lourdes... -- suspirou -- Que saudades daquela velhinha danada! -- riu
--Eu também morro de saudades dela! -- balançou a cabeça -- Certamente dona Lourdes é a ausente mais presente da minha vida! -- bebeu um gole de suco
--E da minha! -- concordou -- Sabe que não tenho nem mais raiva de Gisele? Não vou dizer que gosto dela, mas já não tenho aquela birra. Acendo a velinha pra ela sem reclamar faz tempo! -- deu uma garfada
--Isso é bom! -- pausou -- Eu também não tenho mais ódio de Lucas Damaso. Somente pena. -- deu uma garfada
--Estamos livres, meu bem! -- sorria -- Totalmente livres!
--Quanto a sua visão, -- olhou para ela -- acho que quando se candidatar e for eleita ela vai se concretizar no que diz respeito a seu trabalho! -- piscou para ela
--Eu não vou me candidatar! -- bebeu o suco e limpou os lábios no guardanapo -- Esse negócio de política ainda me dá arrepios!
--Ah, mas um dia você vai! Algo me diz! -- limpou os lábios -- Você anda pensando nisso, que eu sei!
--Eu ando pensando em muita coisa! Uma delas é em Tatiana, a proposta que ela te fez. Eu adoraria que aceitasse, mas ao mesmo tempo não tenho coragem de te pedir isso! Não acho que estaria sendo canalha se dissesse sim... -- pausou -- Como andam as investigações, aliás?
--Ela conversou com Romeu e ele vai acionar um pessoal da velha guarda pra poder descobrir onde estão os laboratórios de crack. Ela também conversou com um jurista e o cara a orientou a buscar documentos referentes às empresas de fachada nas Juntas Oficiais e Cartórios do Rio e de Nova York. E ela já tá correndo atrás!
--E como vai ter acesso aos documentos que estão nos Estados Unidos? -- perguntou curiosa
--O jurista acionou um amigo dele, que é correspondente da revista Olhe! em Nova York. O repórter vai ajudar em troca de também colher os louros desse baita furo de reportagem que vem por aí! -- sorriu -- Eu tenho que te contar: essa garota tem futuro, viu? -- balançou a cabeça admirada
--E quando a titica for jogada no ventilador, Brito vai poder voltar e seus amigos poderão ter mais paz! -- passou a mão nos cabelos -- Não vejo a hora disso acontecer! Flávia muito menos!
--E eu! Tenho saudades do meu amigo... -- pausou -- Falando em investigações, outra coisa que tá me deixando cismada foi aquela sacanagem que fizeram na oficina de Seyyed. -- olhou seriamente para a enfermeira -- Sabe o que me parece? Léo, João e Rubens receberam de alguém aquelas bombas e Rubens foi quem as plantou lá!
--Mas a troco de que?? Eu não entendo! Mero desejo de vingança? -- cruzou os braços -- Eles sabiam que eram os suspeitos mais óbvios e Rubens ainda trabalhava lá!
--Eles foram usados por alguém! Só não sei quem e porque! Devem ter ganhado muito dinheiro! -- reclinou-se sobre a mesa -- Léo e João estão desaparecidos, sabia? E não parece que tenham fugido!
--Gente! -- exclamou surpresa
--E Rubens passou mal e está em coma. Engraçado que isso aconteceu no dia em que o abordei... -- coçou o queixo -- Muito conveniente, não?
--Mas... -- não sabia o que pensar -- que coisa estranha!
--Isso me lembrou a inexplicável morte de José na prisão, lembra? Parada cárdio-respiratória que aconteceu depois que ele abriu o bico!
--Nossa, eu realmente não sei o que pensar! -- pausou -- Hum, vamos pedir sobremesa? -- propôs
--Claro! -- chamou o garçom
Após terem ordenado seu pedido, Juliana comentou: -- Mas seja como for, coitada da Ed, né? -- apoiou o queixo sobre as mãos -- Além do prejuízo que tomou, ainda operou a perna, atura gesso no braço e mais aquele colar cervical! A pessoa fica limitada em seus movimentos como um verdadeiro robô! -- fez uma expressão penalizada
--Pois é! Mas a safada já me disse que o pior de tudo é não poder fazer amor com Isa até perto do natal! -- riu -- O médico disse que a única movimentação intensa que ela poderá fazer enquanto isso é a fisioterapia!
--Não fale dela porque a senhora também teve muita dificuldade em respeitar o seu período de repouso pós operatório e pós retorno de Roraima. -- olhava para a morena
--Ah! -- sorriu sensualmente -- Quando a gente tem mulher gostosa é isso ai!
--Delegada safada! -- soprou um beijinho para ela -- Sabia que você quase me matou de prazer ontem à noite? -- sorriu
--Meu coração também anda fraco por sua causa. -- sorriu -- Quanto mais me conhece parece que melhor fica! -- segurou a mão dela e a beijou
--Hum... -- sorria -- Eu te amo, sabia?
--Eu também te amo! Muito! -- olhava em seus olhos. Continuavam de mãos dadas
No mesmo restaurante, Isa terminava de almoçar em companhia de Diva.
--Essa é sua última chance, Isa! -- limpou os lábios no guardanapo -- Eu nunca fiz o que estou fazendo com você! -- olhava fixamente nos olhos dela -- Aceite minha oferta e mude de vida! Você merece muito mais do que pode ter aqui!
--Já lhe expliquei que não poderia aceitar o seu convite porque sei o que vem junto! Sou casada e assim pretendo continuar! -- limpou os lábios também -- E além do mais sabe que agora tudo mudou!
--Eu pago uma enfermeira pra ficar com Seyyed em tempo integral! Ela te manterá a par de tudo, dia a dia... -- ofereceu
--Não aceita ouvir um não como resposta, Diva? -- a ruiva perguntou com seriedade -- Isso já deixou de ser pelo meu talento ou por sua paixão! É simplesmente o seu orgulho!
Diva sentiu as bochechas arderem. Sabia que Isa estava certa, mas não admitia isso. Em toda vida, nunca tinha ouvido uma resposta negativa de uma mulher a suas propostas.
--Eu sou uma artista de sucesso, Isa! -- tentava convencê-la -- Nascida e criada na zona sul do Rio conheci a fina flor do balé brasileiro desde jovem! Sempre fui o destaque de todas as temporadas nas quais estrelei. -- cruzou as pernas e silenciou por uns segundos -- Vou te contar uma história. -- pausou -- Eu tive um grande amor na juventude, sabe? Era uma mulher simples, um tanto rude, mas um grande coração. Nós nos conhecemos por mero acaso... -- lembrava -- Quando aconteceu de ficarmos juntas, Emily Crawford, a grande coreógrafa daqueles tempos, o nome que mais brilhava no cenário internacional, veio pro Brasil. Ficaria aqui por dois meses. -- sorriu -- Nós nos conhecemos em um debate sobre dança contemporânea e a coisa foi explosiva! Ela gostou de mim... -- olhou para Isa -- Quando estava pra voltar pro seu país, ela me convidou pra largar tudo e ir embora com ela; fiquei louca! Eu pensava: “E o que faço com minha namorada? Eu a amo, ela me ama, sei que ela não vai desistir de mim tão fácil!” -- passou a mão nos cabelos -- Então numa noite em que fizemos amor, eu virei pra ela e disse: “--Você é muito bruta e sem jeito! Tentei continuar contigo, mas não dá! Não te quero mais!” -- gesticulava -- E terminamos. -- pausou -- Ela nunca veio me pedir pra voltar! -- sorriu -- Faz mais de vinte anos...
--Cruzes, Diva! -- arregalou os olhos -- Não acredito que tenha feito isso! -- exclamou horrorizada -- Se espera que eu faça uma coisa dessas com Ed, perde seu tempo!
--O que quero dizer é que se eu tivesse ficado aqui, não seria Diva Bustamanti, a número um do mundo! Emily me abriu portas e o resto eu conquistei com meu talento. -- olhava fixamente para a ruiva -- Não vê que espero fazer o mesmo por você?
--Eu te agradeço, mas dispenso! -- olhou na direção do garçom -- É melhor irmos embora!
--Não, Isa, espere! Vamos tomar ao menos um chazinho! -- pediu
--Suzana, olha aquilo ali! -- Juliana cutucou a amante -- Isa almoçando com uma bonitona! E a mulher tá cheia de charme pra cima dela! -- fofocava
--Cadê? -- virou-se para trás -- Não consigo ver a mulher direito!
--Ah, mas eu vou pedir a conta! Elas estão bebendo alguma coisa e logo vão embora! -- chamou o garçom -- Quero ver quem é!
--Acha que Isa tá traindo Ed? -- olhou surpresa para Juliana
--Eu não, mas aquela mulher tá doidinha pra fazer ela mudar de idéia! Daqui onde estou posso ver claramente a cara de safada que ela tem!
O garçom chegou e a japonesa pediu a conta.
Minutos depois...
--Então, já tomamos o nosso chá, -- a ruiva acenou para o garçom -- hora de ir!
--Você parece doida pra se livrar de mim, não é? -- perguntou magoada
--Não me entenda mal, Diva, -- olhou para ela -- mas já tomei minhas decisões e elas não vão mudar! -- respondeu convicta -- Seu convite e sua insistência me orgulham e me deixam lisonjeada, mas... não dá!
Juliana e Suzana pagaram a conta e se levantaram. Isabela e Diva também. A japonesa e a delegada apressaram o passo para alcançar as outras duas.
--Isa! -- a enfermeira chamou, fazendo com que a ruiva se virasse para ver quem era -- Que coincidência! -- sorriu ao se aproximar
--Juliana, Suzana, como vão? -- deu beijinhos de comadre nas duas
“Suzana?” -- Diva pensou apavorada
--Deixe eu apresentá-las a coreógrafa Diva Bustamanti. -- olhou para Diva -- Estas são minhas grandes amigas, Juliana e Suzana. -- sorriu
--Você... -- a delegada ficou pensando -- eu conheço você... -- olhava desconfiada para ela -- "Mas será?” -- pensava
--Claro que sim! -- jogou os cabelos -- Sou uma celebridade internacional, quem não me conhece? Só as pessoas fora do mundo! -- disfarçava
“Humpf, que mulherzinha besta!” -- a japonesa pensou
--Não... -- lembrou-se -- meu Deus, você é Divalina!
--Divalina?! -- Juliana e Isa perguntaram ao mesmo tempo
--Ah, mas deve haver algum engano! -- ficou nervosa -- Meu nome é Diva Bustamanti e eu nunca te vi, minha querida! Nem sei quem sois!
--Nunca me viu?? -- ficou zangada -- Deixa de conversa! Você é Divalina Lomba, ganhava a vida lavando roupa pra fora e dançando quando te davam chance! -- olhou para ela seriamente -- Lembro disso muito bem!
--Você lavava roupa pra fora?! -- a ruiva perguntou em estado de choque -- "Gente, quem diria!” -- pensou abobalhada
--Nem pra fora, nem pra dentro! -- respondeu furiosa mantendo o olhar em Suzana -- Você é louca! -- Diva se desesperava -- Eu nunca lavei nem um copo! Sou Diva Bustamanti, nascida e criada na zona sul do Rio do Janeiro! Saí daqui pra viver no exterior há mais de vinte anos!
--Ah, mas então é você mesma! -- teve certeza -- Nascida e criada na zona sul, sei... -- riu -- Só se for do sul do Maranhão, que é da onde tu veio!
A japonesa deduziu tudo. -- Então foi você que disse que ela era ruim de cama, né, sua maldita? -- perguntou de cara feia -- Não sabe o que perdeu! -- abraçou a delegada -- Mas agora ela é minha! -- falou possessivamente -- E vê se pára de dar em cima da Isa, porque ela é casada e eu já percebi qual é a tua!
--Isa, suas amigas são muito inconvenientes, viu? -- olhou para a ruiva completamente desconcertada -- Vou embora! Passar bem! -- saiu como um foguete
--Gente! -- a ruiva deduziu que Suzana era a mulher da qual Diva lhe falou -- Então quer dizer que a orgulhosa Diva Bustamanti na verdade é Divalina Lomba, nascida e criada no sul do Maranhão? E lavava roupa pra fora? -- riu -- Ai, meu Deus, isso parece até anedota! -- balançou a cabeça -- Acho que Ed vai gostar de saber disso...
***
Sabrina havia saído à noite com amigos. Tatiana aguardava Renan que chegou escondido no apartamento da escaladora.
--Oi, meu lindo! -- abraçou-o com força -- Quantas saudades!!
O mecânico fechou os olhos e respirou fundo para sentir o perfume dela. -- Que saudade!
--Você comeu alguma coisa, está com fome? Posso fazer algo pra você! -- ofereceu
--Comi na casa de mamãe, fique tranqüila. -- pausou -- Cheguei ontem à noite.
--Vamos sentar? -- eles assim o fizeram -- E como vão as coisas? -- perguntou sorridente
--Bem, na medida do possível... -- olhou para ela -- Até quando essa conversa será tão formal? -- perguntou
A jornalista ficou sem graça. -- Eu não sei o que fazer, amor. -- confessou -- Nem sei por onde começar...
--Por que não começa me dizendo se está de feliz de viver como se fosse uma foragida? -- provocou -- Você não pôde ir no casamento de Tânia, não pode visitar seus pais, não pode visitar Ed... -- sorriu sarcástico -- E praticamente vive como se não tivesse um marido!
--Renan, eu...
--Você gosta do que está vivendo? Não me respondeu! -- insistiu
--Não gosto mas é necessário por enquanto!
--E vai ficar pior depois que a bomba explodir! -- levantou-se e foi até a janela -- Acha que vai poder voltar pra casa depois disso? -- olhou para ela -- Hein?
--Sei que não... -- abaixou a cabeça -- Mas também sei que isso não vai durar eternamente! -- olhou para ele
--É, mas vai durar tempo! -- andava pela sala -- Eu sinto sua falta, acho que a hora mais triste do dia é a hora de voltar pra nossa casa e encontrá-la vazia... -- pausou -- Eu tenho sofrido bastante! -- olhou para ela
--Eu não deixei de te amar, meu lindo! -- levantou-se e foi até ele
--Mas eu não sou sua prioridade, não é? -- perguntou à queima roupa
--Renan...
--Sabia que tem mulheres que ficam dando em cima de mim? -- perguntou -- Umas são até muito atiradas! Eu sou homem, posso não resistir por muito tempo!
Tatiana sentiu o sangue ferver mas manteve o controle. -- Não imaginava que você fosse desse tipo, mas já que sua macheza toma conta de você, -- fez cara feia -- pode fazer o que quiser! -- afastou-se e ficou de costas para ele
Após uns segundos calado, o mecânico falou: -- Eu não me sinto tentado... Falei apenas pra te irritar. Queria que se importasse comigo...
--Mas eu me importo! -- foi até ele novamente -- Eu te amo! -- olhava em seus olhos
--Então desiste disso e pára com essa loucura de querer salvar o mundo! -- segurou-a pelos braços -- Você é minha mulher, quero que fique do meu lado!
--Eu não vou parar, Renan... -- afirmou -- Na verdade, agora eu investigo sozinha! -- mentiu
--O que? -- soltou-a e não entendeu -- Como assim?
--Eu propus a Suzana que vou assumir tudo! Não é necessário que ela, Juliana e eu fiquemos com o pescoço na forca! -- explicou -- Eu vou assumir tudo isso sozinha e tenho trabalhado por minha conta!
--Mas você enlouqueceu?? -- gritou e voltou a andar em círculos -- Por que está se sacrificando assim?? Por que??? -- segurou-a pelos braços novamente -- Isso é só pra ganhar notoriedade, não é? Você não pensa em mim, na sua família, no sofrimento da gente, você só pensa nessa maldita carreira, não é??
--Pare com isso! -- libertou-se dele -- Não quero apenas ser a responsável pelo furo jornalístico do ano! -- olhava-lhe nos olhos -- Sinto que isso é como se fosse uma missão de vida pra mim! Eu preciso fazer isso, Renan, e vou fazer! -- afirmou resoluta
--Por que, Tati? -- perguntou emocionado -- Eu não vou passar a vida te esperando...
--E nem eu te pediria isso... -- emocionou-se também -- Eu te amo, mas acho que não sou a mulher que você esperava...
--Ou talvez eu é que não seja o homem...
--Não é você... -- balançou a cabeça -- certamente não... Sou eu!
--Por que eu te amo e te odeio ao mesmo tempo? -- deu um soco na parede -- Às vezes te acho tão egoísta! Eu mudei minha vida por sua causa! -- falava exaltado -- Ed, Camille e eu tivemos o maior trabalho de fazer aquela oficina acontecer pra eu poder morar em Goiânia e ficar perto de você, que desde o começo dizia que queria morar lá depois de formada! -- falava com muita mágoa -- A gente investiu muito, gastou muito dinheiro...
--Eu nunca te pedi isso! Nunca! Foi uma decisão sua abrir a oficina lá. -- falou em voz mais alta -- E eu fiquei muito feliz e apoiei!
--Pra que, né? -- riu com sarcasmo
--Nada é em vão, Renan! Você gerou emprego, é dono de seu próprio negócio e se não fosse isso, Seyyed estaria totalmente enrascada depois do que aconteceu! Além do mais você não ficou sozinho! Minha família ama você!
--ELES, pelo menos sim! -- calou-se -- Você não!
--Não diga isso... -- passou a mão no pescoço -- Nós apenas temos expectativas de vida diferentes...
--Isso quer dizer que... -- chorava -- acabou? -- mordeu os lábios
--Não sei o que quer dizer... -- chorava também -- mas sei que te amo e quero que seja feliz!
Renan foi até ela e parou receoso diante da esposa. Tatiana segurou suas mãos e os dedos se entrelaçaram. Eles ficaram chorando contidamente e se olhando sem nada dizer, até que a repórter puxou-o para junto de si e começaram a se beijar angustiosamente.
Roupas iam sendo jogadas pelo chão e os dois seguiam sofregamente até o quarto que a jovem ocupava.
Beijos intensos e carícias ansiosas confundiam-se com lágrimas que deixavam um gosto salgado em suas bocas. Deitaram na cama e fizeram amor sem pensar em coisa alguma. Dias depois, Tatiana escreveria em seu caderno de memórias: “Nossos corações diziam um até mais silencioso, nossas almas sentiam a dor da separação, por antecipação, e nossos corpos se amavam segundo a angústia velada dos que se despedem contra a vontade.”7
*********
--Ai, não, não, não!!! -- Ana gritava e andava em círculos pela sala -- É muito desgosto nesse peito de mãe! -- olhou para Isa -- Depois de conquistar o Brasil, de conquistar o mundo e de receber duas propostas irrecusáveis, Isabela Guedes, minha única filha, volta pro subúrbio!!! E dessa vez ainda é pior do que morar no Meyer! -- fazia um drama -- Eu não acredito nisso, menina! Você chegou no fundo do poço!
--Eu?! -- riu -- Ai, mãe, não fui bem eu quem chegou no fundo do poço! -- levantou-se do sofá -- Além do mais nós precisamos de dinheiro e alugar o apartamento de Ipanema era uma decisão óbvia!
--Humpf! -- fez um bico -- E ainda vendeu o carro!! -- pôs as mãos no peito -- Imagine só, Isabela Guedes, filha de socialyte, andando de ônibus! -- olhou para a filha apavorada -- Meu Deus, Isa, você não anda de Kombi, não, né? Você não come biscoito de polvilho com mate gelado, não, né? Ah, meu Deus, isso é muita humilhação!
--Mãe, nós não temos mais condições de manter carrão! Vou ficar andando de ônibus, sim, e não vou morrer por causa disso! Mais tarde eu compro um carro popular.
--Eu não acredito que esteja encarando essa queda vertiginosa assim, tão numa boa! Ninguém gosta de perder, filha! -- provocou
--Eu não gosto do que estou vivendo, mãe! Claro que não! -- pausou -- Mas temos que conter gastos e é isso aí. -- olhou para ela
--Você não vai resistir por muito tempo! -- balançou a cabeça -- Não vai!
--Você diz isso!
--Humpf! -- pôs as mãos no peito novamente -- E você vai mesmo participar do tal musical na favela?? Faça-me o favor! -- gesticulava -- Uma menina que dançou na Europa, nas grandes capitais brasileiras, na Turquia, agora vai dançar no Pavão Pavãozinho?? -- fez uma careta -- Isso é muito desgosto pra uma mãe!
--É um musical de final de ano e o objetivo é a integração! Qual o problema? Há muita gente boa e honrada nas favelas! -- respondeu com segurança
--Eu só quero ver! -- olhou para ela -- Isa, pelo amor de Deus, não me ande por aí com a bunda e os seios à mostra! E nem deixe ninguém te chamar de ‘neim’! Eu odeio isso! -- a ruiva simplesmente riu -- Não me chegue aqui cheia dos pobrema e mascando chicrete, não me faça uma vergonha dessas! -- gesticulava
--Eu, hein, mãe? -- riu
--E nem vá rodar no pau por aí, isso seria pra me matar!!
--Rodar no pau?! -- não entendia
--É, menina, essas danças de ficar tirando a roupa e rodando no pau que nem lacraia quando sai do ralo! -- gesticulava -- Aquilo é mais que o fundo do poço! Pior que isso, somente a tal da jaula das Poderudas! Não se meta nesse troço também!
--Jaula das Poderudas?! -- continuava sem entender -- Eu hein, mãe, você me vem com cada coisa! -- riu de novo -- Nossa situação pode ter ficado complicada mas nem por isso vou sair por aí topando qualquer coisa!
--Essa família se desmorona! Você que largou tudo pra viver no cortiço e seu pai parece até que virou padre! Só vive rezando pelos cantos e vira e mexe tá na igreja! Coisa ridícula! Daqui uns dias vai querer cantar e gravar CD!
--Papai deve estar buscando o caminho dele, mãe! -- foi até ela e segurou sua mão -- Por que não busca o seu? -- falava com carinho
--O que quer dizer? -- recolheu a mão furiosamente -- Eu não quero saber de ir pra igreja e nem de ficar rezando feito uma beata louca!
--Não precisa ir pra igreja pra ter o seu encontro com Deus. -- olhava nos olhos dela -- Você precisa largar essa vida de viver em magia, mãe! Isso vai te fazer mal! Será que não percebe a pessoa na qual se transformou?
--Você acha que é quem, Isabela? Acha que é alguém?! -- empurrou a filha e perguntou furiosa -- Eu sou sua mãe, me deve respeito! -- gritou
--E eu sempre te respeitei!! -- respondeu com calma -- Eu te amo, mãe! Quero o seu bem!
--Você é uma idiota, é isso o que é! Haja visto o que faz com a própria vida! -- ficou de costas para a ruiva
--Mãe, vamos para o grupo espírita que Ed e eu freqüentamos? -- ofereceu -- Você precisa de bons fluídos, precisa de amor, de paz...
--Eu sei do que preciso! -- berrou furiosa e avançou contra a bailarina -- E não é de você aqui pra me dizer o que fazer! -- parecia estar possessa
--Calma, mãe! -- a ruiva estava assustada -- Calma! -- começou a orar mentalmente
--Vá embora daqui! -- pegou a filha pelo braço e a arrastou grosseiramente até a porta -- Vá embora! -- empurrou-a para que saísse -- Suma daqui! -- gritava como louca
--Eu não vou te abandonar! -- respondeu emocionada antes de ter a porta fechada em sua cara
A bailarina respirou fundo e foi embora. No caminho, pensava que já era hora de pedir ajuda no centro espírita. Orava sempre pela mãe e punha seu nome na irradiação, mas percebeu que o momento exigia mais. Não tinha dúvidas de que Ana estava sob influências e começou a sentir uma dor de cabeça muito forte depois daquela reação explosiva da mãe.
“Mamãe precisa de muita ajuda!” -- pensava -- "Vou falar com dona Olga!” -- decidiu
Horas depois Anselmo chegou em casa e tentou estabelecer com Ana o mesmo tipo de conversa que a filha havia tentado. Da mesma forma a reação da mulher foi explosiva e ele quase foi surrado por ela.
******
Seyyed e Isabela estavam em casa. Era domingo e Olga, Mariano, Ricardinho e Renan as visitavam. Os dois homens estavam na garagem do prédio para o mecânico ver um problema no carro do contador e Isabela tomava banho.
--Ed, é Robocop! -- o menino falou brincando
--É, né, safado? -- riu também -- Ai, que eu não posso rir... -- gem*u
--Conta pra ela da escolinha, meu filho! -- Olga pediu
--Eu ganhei tes estelinha! Ó! -- mostrou um desenho
A morena pegou a folha e olhou. -- Nossa, que desenho bonito! Por isso que ganhou tanta estrela! -- sorriu -- Tô vendo aqui você, com mamãe e papai. E esses três aqui voando? -- perguntou
--Vovó, mamãe e papai! -- respondeu orgulhoso
A mecânica entendeu que se tratavam de Maria de Lourdes, Vitória e Silvio. -- Que lindo! -- achou interessante e bonita aquela lembrança
--E tem você e Isa!
--Ah, essas duas aqui? -- riu -- Gostei!
--A professora nos chamou por causa desse desenho. -- Olga falou -- Ela disse que ficou emocionada. -- sorriu
--Ah, mas meu irmãozinho não é mole! -- falou orgulhosa -- Menino inteligente! -- devolveu o desenho a ele
--É teu! -- a criança falou
--Ah, é? -- sorriu -- Eu vou pedir pra Isa colocar em um lugar bem bonito. -- estendeu o papel para a mãe -- Coloca ali na mesa, por favor, mãe? -- pediu
--Claro! -- ela assim o fez e depois abraçou o menino -- Ele é um amor! -- beijou a cabeça dele -- O único menino da turma que não bate nas outras crianças!
--Eu acho ótimo, mas prepare-se pro que virá! -- advertiu -- Do jeito como as pessoas são machistas e ignorantes, sabe do que irão chamá-lo!
--Nós estamos preparando ele pra um monte de coisas na medida do entendimento que a idade permite! -- beijou a cabeça dele de novo -- Não me preocupo com o preconceito das pessoas. Quando ele se tornar um bom homem, todos dirão que sabiam disso o tempo inteiro! -- riu
Nesse momento Isa saiu do banho e Mariano e Renan entraram em casa novamente.
--E aí, Renan? Resolveu ou não? -- provocou
--Claro, Ed! -- respondeu convicto -- Eu sou cobra criada! A professora foi boa! -- sorriu
--Depois quero que veja o meu carro também, Renan! -- Isa pediu -- Algo errado acontece quando dou partida. Tenho que acelerar pra ele não morrer!
--Deve ser entupimento de alguma passagem no coletor de admissão, cara. -- a morena falou -- E muito provavelmente a primeira.
--Como sabe disso? -- Isa perguntou admirada
--Pelo barulho que o carro faz. -- respondeu tranquilamente -- E pela vibração.
--Você é a melhor, Ed! -- Mariano exclamou admirado ao se sentar -- Sem ofensas, Renan, -- olhou para ele -- mas sua irmã é...
--O máximo! -- ele concordou -- Mas um dia eu fico igual! -- sentou-se também
--Fica não, se não vai perder dois dedos! -- brincou
--Boba! -- a bailarina beijou a cabeça dela e se sentou no braço da poltrona onde a morena estava
--Mas, você não tinha vendido o carro, Isa? -- Olga perguntou curiosa
--Eu vendi sim, e Ed vendeu o dela. Na verdade esse carro é da minha vó que me emprestou por uns tempos à pedidos de mamãe.
--Posso pintar? -- Ricardinho apontou para o gesso do braço da irmã
--Pode, querido! -- sorriu -- E pinta bem bonito!
Olga pegou a caixa de giz de cera do menino e deu nas mãos dele. -- Muito cuidado pra não machucar ela, viu, filho? Não faça força em cima dela! -- a mãe orientou
--Tá! -- Ricardinho se concentrava em sua tarefa.
--Mariano, vamos falar sobre a realidade. -- Ed puxou o assunto -- Já almoçamos, papeamos, agora é hora de ver o tamanho do problema. -- pausou -- Tô sabendo que você calculou tudo, então me diz, quão ferrada eu tô? -- segurou a mão de Isabela -- Quanto eu perdi?
--Eu vim preparado pra essa conversa. -- foi até sua mochila e pegou um caderno voltando a se sentar -- Está tudo aqui. -- olhou para ela -- Posso?
--Vai fundo! -- pediu
--Você está sendo processada por três clientes que não tinham seguro automobilístico. Suzana diz que dá pra sair dessa...
--Hum... -- ela ficou pensativa
--Você também está sendo processada por dois vizinhos. A casa de um deles apresenta várias rachaduras por causa da explosão e o muro do outro caiu. -- pausou -- Suzana disse que também dá pra contornar isso aí, até porque você foi a mais prejudicada!
--Sei...
--Quanto aos funcionários... Bem, foi perda total na oficina e você está... -- pausou -- oficialmente falida. -- falava com jeito -- Não terá obrigação de pagar a eles, embora alguns estejam questionando isso por causa da oficina de Goiânia...
--Mas é um absurdo! -- Renan protestou -- Ed não tem como pagar nada a eles e se eu fizer isso vou ficar como? -- reclamou -- Seremos dois quebrados!
--E daqui a pouco é natal... -- a morena falou com tristeza -- Quanta gente vai ter um final de ano triste...
--Ah, Ed, eu sei! Mas eles estão apelando demais! Eu vou conversar com Tamires sobre isso e ver o que se pode fazer! Não tenho condição de arcar com seu pessoal, senão eu quebro! -- o mecânico reclamava -- Nós não armamos isso, foi uma armação que fizeram pra gente, isso sim!
--Mas ainda tem a sua parte no empréstimo que fizeram pra abrir a oficina em Goiânia... -- o contador salientou -- Essa dívida tem que ser paga, não tem jeito!
--Eu vou assumir a tua parte no pagamento do empréstimo, Ed. Fica tranqüila que essa dívida você não terá! -- Renan afirmou resoluto -- E também vou te dar uma força, pode ficar sossegada!
--Que é isso, garoto? É muito dinheiro! A projeção de Camille era de terminar de pagar no ano que vem ou no próximo, e isso com as duas oficinas operando! Só com uma...
--Eu vou assumir essa conta, Ed, não tem discussão! -- insistiu -- As coisas em Goiás vão bem! Pode demorar, mas um dia eu pago! -- pausou -- E também vou depositar um dinheiro na tua conta todo mês!
--Renan... -- ela protestava
--Você e mamãe me ajudaram a vida toda! É minha hora de retribuir!
--Obrigada, querido! -- Olga agradeceu
--Não me agradeça, mãe. Se eu agisse diferente era pra levar uma surra! -- sorriu
--Ed, eu não queria ter que dizer isso, mas... -- a ruiva interferiu -- Deixe Renan ajudá-la porque o plano de saúde não cobriu sua operação e nossos gastos com hospital foram consideráveis... -- acariciava a cabeça dela -- E tem os remédios, o tratamento... virão aí mais gastos...
“O que eu fui arrumar, meu Deus!!” -- Ed pensou com raiva de si mesma
--E em relação a oficina em si, considerando o valor do imóvel, equipamentos e tudo mais... -- Mariano pausou receoso -- A sua perda aproximada é de...
Todos ficaram em silêncio.
--Mariano! -- a mecânica interrompeu -- Não diz agora, não! -- mudou de idéia -- Acho que eu preciso de um tempo maior pra digerir isso... Deixa eu tirar o gesso do braço e melhorar um pouco mais da perna! -- pausou -- Aí vou poder socar ou chutar alguma coisa em protesto! -- brincou
--Você é muito boba, Seyyed! -- Isa beijou-a várias vezes no rosto -- Eu te amo! -- sussurrou no seu ouvido
--Eu não tenho condições financeiras de te ajudar, Ed, -- Mariano falou -- mas faço o que precisar. E quando melhorar e começar a erguer uma nova oficina eu trabalho de graça, sem problema algum! -- ofereceu
--Que é isso? -- estava emocionada
--Eu também não tenho condições financeiras pra te ajudar, minha filha, mas sabe que sua mãe está pra você nessa e em todas as vidas! -- Olga olhou para ela emocionada
--Eu sei, mãe!
--E eu também! -- Isa falou sorrindo
--Eu nem sei o que dizer...
--Cabei! -- Ricardinho falou mostrando o desenho
--Ih, que lindo! -- a ruiva falou
--Vou tirar uma foto pra Ed poder ver! -- Renan fotografou com o celular e mostrou a irmã
--Ele desenhou a família toda! -- sorriu. Ela deduzia quem cada garatuja representava
A campanhia tocou.
--Deve ser Mari e Camille! -- Mariano se levantou para atender e acertou
Após os devidos cumprimentos, as duas louras juntaram-se ao grupo e conversaram sobre o emprego de Camille. Passadas poucas horas, mãe e filha pararam de pé diante de Seyyed.
--Eu não vou apanhar, não, né? -- a morena brincou e elas riram
--Eu tô sabendo da tua dívida pelas estimativas do meu tio... -- Camille falou sem rodeios -- Eu conversei muito com mamãe e tomei uma decisão. -- olhou para a mãe -- Com total apoio dela.
--Total! -- Mariângela complementou
--Eu vou depositar uma parte do meu salário pra você todo mês. -- a engenheira afirmou olhando nos olhos da morena -- E faço o que precisar pra te ajudar a montar outra oficina!
--Eu não entendo dessas coisas mas costuro uniformes pra você e pros funcionários. É só tomar as medidas...
--Gente, eu... -- Ed estava boquiaberta -- vocês, vocês... -- riu nervosamente -- Eu, eu não quero representar um peso na vida de todo mundo, não, pelo amor de Deus! Agradeço muito mas não posso aceitar isso!
--Pode e deve! -- a jovem loura afirmou -- Eu lhe prometi que se um dia precisasse de mim, não ficaria sem minha ajuda! Vou cumprir! -- lembrava -- Não esqueço do dia em que me deu o dinheiro que faltava pra eu comprar a minha prótese!
--Nós lhe somos gratas, Seyyed! -- Mariângela disse -- Sei que no começo fomos preconceituosas e ignorantes, mas isso mudou completamente! Nós lhe devemos muito, somos gratas e lhe amamos. Eu te sinto como sendo da minha família!
--Nossa, eu... -- lutava para não chorar -- eu... -- apertou a mão de Isa -- gente, eu nem sei o que dizer! -- balançava a cabeça
Olga estava emocionada e olhou para Mariano sorridente.
--Então não diga nada! -- Camille respondeu -- Nós te amamos muito, Ed!
Isabela olhava atentamente para a loura e percebeu o modo apaixonado como Camille disse aquela frase. Prestava também atenção em Seyyed, em suas reações, e reparou satisfeita que a morena já não demonstrava aquele encantamento de outrora pela jovem engenheira. Sabia que sua esposa amava Camille, mas percebeu que algo havia mudado naquele amor.
“Seyyed é minha!” -- sorria por dentro -- "Agora, finalmente, ela é toda minha!” -- ficou feliz
--Ó! -- Ricardinho deu uma moeda para Ed -- Um real!
--Ele também quer te ajudar, querida! -- Olga falou sorrindo -- Ganhou essa moeda hoje!
--Esse é meu irmãozinho! -- sorriu emocionada
*****
À noite, naquele mesmo dia, Suzana e Juliana faziam uma visita às amigas.
--Que foi, delegada? -- Ed brincava -- Cara séria, o que houve? E você, Juliana? Tá muito calada!
--Aconteceu alguma coisa, gente? -- Isa perguntou desconfiada
Estavam sentadas na mesa da sala. Haviam acabado de lanchar.
--Acho que estamos pensando em como dizer. -- a japonesa sorriu -- Fala você, amor! -- olhou para a amante
--O que? -- a morena perguntou -- Tô curiosa!
Suzana levantou-se e foi até sua bolsa que estava na poltrona. Tirou um envelope de dentro e voltou para a mesa parando de pé ao lado de Juliana. -- Pra você! -- estendeu-o para Ed
--Ué? -- pegou o envelope e deu para Isa -- Abre pra mim, amor? -- pediu
--Claro! -- abriu o envelope e tirou uma folha de cheque de seu interior. Arregalou os olhos e entregou a folha para a morena -- Meu Deus! -- levou a mão aos lábios
Ed leu o valor escrito e ficou chocada. -- Meu Deus, gente!! -- quase gritou -- É muito dinheiro, eu não posso aceitar!! -- olhou para as duas -- Não podem fazer isso!!
--É todo o dinheiro que a gente tinha junto. -- a japonesa confessou -- Não estamos fazendo isso sem pensar, Ed.
--Você me deu um rim! -- Suzana exclamou com lágrimas nos olhos -- Salvou minha vida, isso não tem preço!
--Também não esqueço de tudo que fez por mim, Ed. -- a enfermeira falou -- Você merece!
--Não damos mais porque não temos! -- a delegada disse -- E até dona Lourdes contribuiu, porque ela tinha dinheiro na conta quando morreu. Nós é que nunca mexemos nele. -- pausou -- Até agora!
--Tenho certeza de que se estivesse viva, ela não iria se opor. -- Juliana afirmou -- Como diz Flávia, somos suas fãs, Mad Max! -- brincou
--Vocês querem me matar do coração, é? -- não pôde conter o choro -- Mais cedo minha família quase me matou de tanta emoção, agora são vocês!
--Eu também tô emocionada! -- Isa falou -- Não esperava que alguém tivesse coragem de fazer isso por nós! -- sorriu
--A gente não esquece das coisas, Isa. -- Suzana falou -- Eu te disse, Ed, -- olhou para ela -- que quando seus pés tropeçassem, eu estaria do teu lado pra te segurar! Cumpro com minhas promessas!
--Eu sei... eu lembro que me disse isso... -- passou a mão nos olhos
--“Na prosperidade nossos amigos nos conhecem; na adversidade nós conhecemos nossos amigos.”8 -- Juliana citou e segurou a mão de Ed -- Quando você tava bem, era maravilhosa com todo mundo. Agora que precisa de ajuda, as pessoas voltam pra você! -- sorriu
18:00h. 25 de outubro de 2005, Riocentro, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Sabrina estava a frente de uma assembléia composta por mais de cem pessoas. Depois de quase um ano de preparação acontecia o assim chamado Tributo a Patrícia Feitosa.
--Boa tarde a todos! -- sorria ao microfone -- É com muito prazer que dou início ao nosso Tributo a Patrícia Feitosa! -- foi interrompida por aplausos e assobios -- Depois de cinco anos sem ela, nada mais justa que essa homenagem a pessoa maravilhosa que Patrícia sempre foi! E nós vamos homenageá-la da forma como tenho certeza que ela gostaria de ser homenageada: vamos falar sobre homossexualidade e homofobia com muita seriedade, consciência e tocando em todos os aspectos possíveis, sejam eles científicos, filosóficos, jurídicos, espirituais, enfim! Vamos aprender e debater com nossas convidadas especiais. -- pausou -- Espero que gostem! -- sorria extasiada -- Vamos compor a tribuna!
Fotos de Patrícia estavam expostas em cartazes espalhados pelo pavilhão. Na entrada, um imenso banner apresentava a programação das palestras.
Priscila, Lady, Lila, Suzana, Juliana, Henrique e os dois filhos, Olga, Seyyed, Isabela, Mariângela, Camille, Letícia, Samira, Selma, Ruy, parentes e amigos de Patrícia estavam presentes, ocupando as primeiras fileiras. Tatiana estava escondida de todos e usava uma peruca para se disfarçar.
(Nota da autora: apresenta-se aqui uma pequena – embora não pareça - coletânea de informações sobre a homossexualidade. Tentei colocar a coisa de forma acessível e interessante. Abri mão de muitas referências pesquisadas para me concentrar nos trabalhos mais abrangentes e de leitura amigável. Quem não quiser ler tudo, pode ler apenas os comentários das personagens entre os textos expositivos, pois a compreensão da história não ficará comprometida. Meu objetivo aqui é dividir informações esclarecedoras, estimular o questionamento e a pesquisa da parte de vocês e prover argumentos que poderão utilizar em discussões sérias. Gostaria muito que vocês lessem, mas a decisão é individual)
Após a abertura oficial e palavras de ordem, a historiadora e crítica literária Vanessa Figueroa foi chamada para palestrar. Ela falou um pouco sobre si mesma, projetou a folha de rosto de sua apresentação em um telão e começou a expor:
--Bem, fazendo uma breve retrospectiva histórica, -- apresentou o primeiro slide no telão -- posso dizer que o conceito de homossexualidade que temos aqui, no ocidente, é fruto de uma conflitante mistura entre as culturas grega e hebraica.9,10 -- pausou -- Na Grécia Antiga, era uma prática muito normal que um homem iniciasse sua vida sexual com um amante mais velho, visto como um sábio, um modelo a ser seguido.9,11 Para vocês terem uma idéia, em Esparta, o jovem que não tivesse um amante era castigado e ainda multado se preferisse um rico a um pobre. As relações eram prescritas pelo governo.11 -- passava alguns slides -- No entanto não se sabe muito sobre as relações homossexuais envolvendo mulheres na sociedade grega além de alguns exemplos que datam da época da poetisa Safo.12 Percebam a primeira herança: o machismo influenciando no espaço do homossexual na sociedade. -- pausou -- Na cultura hebraica, onde os doutores da lei religiosa sempre tiveram muitas influências sobre a sociedade, o sex* era visto com uma única e sagrada finalidade: a de procriar!9 O povo hebreu deveria ser o mais numeroso possível para que pudesse dominar os outros povos, seguindo o que foi preconizado no livro da Gênesis, onde Deus anunciou a Adão: “Crescei e multiplicai-vos, enchei e dominai a Terra.”13 -- passou outro slide -- A relação homossexual era considerada um pecado e um crime, sendo severamente punida, o que não impedia que acontecesse. -- pausou -- E vocês hão de se perguntar: “--Mas por que ela está falando isso? O que tem a ver?” Quero que entendam as bases nas quais se fundamenta o arcabouço psicológico do coletivo no qual estamos inseridos.
--Esse pensamento hebraico antigo não é muito diferente do que vemos hoje em dia. -- Sabrina, que mediava o debate, comentou
--Certamente! -- olhou para a escaladora e sorriu -- E esse pensamento fundamenta a maior parte dos preconceitos contra os homossexuais até hoje. -- voltou a olhar para o público -- Com o caminhar da Igreja Cristã muita coisa mudou, mas mantiveram-se com a sexualidade os mesmos preconceitos judaicos. A Igreja, através de seus representantes, já chegou a considerar a masturbação, o coito interrompido e as relações homossexuais como comportamentos piores que o incesto, o estupro e o adultério, pois os primeiros impossibilitam a reprodução!9
--Gente, mas que absurdo! -- Isa exclamou
--E sempre houve casos de relações homossexuais nos mosteiros... -- Ed comentou -- E nos conventos...
--Durante o periodo Justiniano, -- Vanessa continuou -- dois éditos trataram da homossexualidade com rigor e proibiram essas práticas durante toda a idade Média. A Igreja ainda, através da Santa Inquisição, foi a maior perseguidora dos homossexuais e das mulheres de um modo geral, condenando a prática de sex* que não tivesse por finalidade a procriação, no caso dos primeiros, ou acusando de bruxaria mulheres que trouxessem algum ‘desconforto’ à sociedade.11,14
--Já pensou se até hoje tivesse isso de inquisição? -- Lady cochichou com Priscila -- Acho que Lila já teria virado churrasco há tempos!
--Que nada! -- respondeu em voz baixa -- Ela era capaz de fazer aquelas citações sem sentido e enrolar todo mundo! Aquilo ali deu nó no rabo do capeta, minha filha!
--O pensamento propagado pelo Cristianismo Romano e pelas Igrejas Protestantes contribuíram para que, ainda hoje, ao se refletir sobre a sexualidade humana as pessoas considerem a orientação homossexual como uma direção de vida pecaminosa, anormal e passível de trazer muitos distúrbios. -- Vanessa continuava -- E tudo isso à despeito do entendimento científico de que a sexualidade humana não pode ser entendida somente em função da reprodução.9
--Não mesmo! -- Juliana exclamou
--Eu que o diga! -- Suzana cochichou no ouvido dela
--Nhambiquara safada! -- deu um tapinha na coxa da delegada
--Não pensem que a maioria dos Estados seja governada por um entendimento realmente laico, porque isso não é verdade. A religião, ou melhor dizendo, o entendimento equivocado de certos religiosos, ainda dita as regras na hora de elaborar, discutir e aprovar legislações sobre temas que, de uma forma ou de outra, envolvam ‘a moral e os bons costumes’. -- fez aspas com os dedos
--Interessante como o nome de Deus ou a tal da moral e dos bons costumes sempre serviram de justificativa pra um monte de atrocidades e injustiças! -- Olga comentou
--Cruel, né, mãe? -- Ed respondeu -- Geralmente quem mais prega essa moral é quem menos a tem!
--E pensando especificamente no Brasil, o que podemos dizer? -- Vanessa pergunta -- Vamos voltar ao tempo do Brasil-Colônia. -- mudou os slides -- Há notícia de diversos casos envolvendo relacionamentos homossexuais no Brasil colonial. Os chamados Cadernos do Nefando registravam em especial os casos de sodomia, e explicavam que o mais temido não era derramar o sêmen no chamado "vaso proibido", mas sim a continuidade de uma alternativa sexual que promovia a destruição do matrimônio, pregava o livre prazer e impedia a procriação.15,16 -- pausou -- Não havia, claro, lugar específico para o sex* não permitido. Por incrível que pareça, o local com mais privacidade era o mato. -- riram -- Mary Del Priore, em seu texto intitulado "Deus dá licença ao Diabo" informa que até as igrejas eram palco de práticas sexuais, com a conivência dos padres que delas participavam. 15
--Que coisa né? Não se fala disso por aí! -- Juliana protestou
--Ronaldo Vainfas informa que a Igreja não se preocupava com os atos nefandos das classes inferiores e de cor, já que sua salvação espiritual era de pouca ou nenhuma importância. Também temos pouquíssimos relatos envolvendo mulheres as quais, por seu escasso número, não podiam faltar aos homens.15 Nos registros da Inquisição temos apenas os nomes de Felipa de Souza, primeira lésbica sentenciada pela Igreja, em 1591, e Quitéria Sequa, mulher do Alcaide de Ilhéus, cuja referência encontra-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Portugal.18. -- passou slides e se dirigiu a platéia -- Além dos nomes constantes nos registros portugueses, temos poucas informações sobre lésbicas no Brasil colonial,15,17 a menos de citações a respeito da Imperatriz Leopoldina, que trocou cartas de amor com Maria Graham, uma escritora inglesa que lhe serviu de dama de companhia, Nise, uma mulher cantada por Gregório de Mattos e Maria Úrsula de Abreu Lancastre, alistada sob o nome de soldado Baltazar Couto Cardoso.18 -- pausou -- A escassez de dados prossegue ao longo de nossa história até chegarmos aos anos 60. Temos muito mais informações sobre gays e travestis do que sobre lésbicas! -- sorriu -- Até hoje há pessoas que não acreditam que exista homossexualidade feminina; pensam que é um tipo de sex* que não conta!
--Não conta! É ruim, hein? -- Ed protestou
--Até nisso vigora o machismo! É um inferno! -- Mariângela protestou
--É assim porque a gente deixa, mãe! -- Camille respondeu -- E as mulheres ainda transmitem o legado da ignorância na criação dos filhos!
--Nesse meio tempo, porém, não faltaram tratamentos médico pedagógicos, agregados à religião, como remédios para a “inversão sexual”.17 -- a historiadora continuava -- Uma opção de tratamento muito comum era o confinamento em hospícios psiquiátricos. -- mostrou várias fotos -- Mas, à despeito do sofrimento e da incompreensão a que fomos submetidos, nós, homossexuais, buscamos espaço para viver nossos relacionamentos.17 -- pausou -- O historiador James Green destaca que entre as décadas de 30 e 60 houve alterações significativas na composição e no desenvolvimento das subculturas homossexuais em grandes centros urbanos, como Rio de Janeiro e São Paulo, porque tais centros acabavam por atrair migrantes homossexuais de todo o Brasil, os quais buscavam, sobretudo, escapar à pressão familiar.17
--Isso acontece até hoje! -- Samira pensava em voz alta
“Sabe que esse assunto daria uma boa reportagem?” -- Tatiana mentalmente fazia planos futuros
--Nos anos 40, multiplicaram-se as opções de vida noturna, com bares e pontos de encontros exclusivos; praticamente para homens. -- destacou -- O carnaval abriu as portas para que travestis glamorosos encantassem a imprensa e o público durante os bailes.17 -- sorriu -- Mas, apesar de poder circular livremente e de desenvolveram uma rede de sociabilidades bastante animada, qualquer manifestação de afeto em público era reprimida.17 -- pausou -- Hipocrisia pura, não? -- perguntou para o público -- E no nosso caso, mulheres, as transexuais femininas nem de longe goz*vam do mesmo status que os travestis. Certamente não por culpa deles, mas dos homens endinheirados que tinham interesse em deles obter vantagens sexuais.
--Pouca vergonha! -- Ruy desabafou -- Aposto que esses mesmos homens deviam pousar de bons moços em sociedade, ao lado da mulher e dos filhos!
--E ainda deviam falar mal dos gays! -- Selma complementou
--E nesse contexto podemos falar um pouquinho sobre literatura! -- mostrava novos slides -- Cenas de homossexualismo feminino foram sugeridas em romances como Vertigem, de 1926, Melle Cinema, de 1932, e em outras obras, menos importantes, que apresentam personagens do tipo “as viciadas”, lésbicas em tempo integral, e “as eventuais”, ou seja, heterossexuais que, de tempos em tempos, se entregavam a uma mulher.17 -- olhou para a platéia -- Aí eu pergunto: será essa uma visão estereotipada e preconceituosa? Considero que sim! -- pausou -- Aliás, divagando aqui um pouquinho, acho que “é importante não fazer do homossexual um estereótipo tosco, sexualizado ao extremo. Aliás, este é um dos pontos que um dia pretendo desenvolver em pesquisa: o que, afinal, caracteriza a literatura GLS? O conteúdo sexual? O simples fato de haver personagens gays? Enfim, notável que é uma questão identitária transferida à literatura...”19
“Ela tem que ler meus contos! Aí vai ver o que é literatura lésbica de categoria!” -- Camille pensou
--Para além da literatura, pouco sabemos sobre o universo amoroso das lésbicas e mesmo o célebre Luís Mott, autor de livro renomado sobre o assunto, reconhece a falta de notícias sobre o universo amoroso das homossexuais femininas.17 Isso não aconteceu sem razão! -- esclarecia -- O preconceito contra a mulher homossexual era brutal: perda dos filhos, no caso das casadas; insegurança econômica, no caso das ‘sustentadas’, brutal pressão familiar para que arranjassem namorados, noivos e maridos. Mulheres brilhantes, como a conhecida arquiteta Lota Macedo Soares e a poetisa americana Elizabeth Bishop, tiveram de viver sua relação às escondidas; e olha que falamos de mulheres que goz*vam de prestígio diante da sociedade. -- pausou -- Muitas burguesas fugiram para o interior. Petrópolis, no Rio de Janeiro, acolheu alguns casais, ao que se sabe. Não foram poucas as espancadas pelos pais, maridos ou até mesmo pelos filhos, todos revoltados com a situação. Não foram poucos os suicídios em que um bilhete deixado aos parentes revela o desespero das jovens, massacradas e perseguidas pela intransigência familiar.17
“Isso me lembra muita coisa...” -- Samira pensou com tristeza
“Coitada da minha filha...” -- Mariângela pensava -- "Mulher sofre, viu? Ô louco!”
--Foi preciso esperar o fim da década de 70 para as “enrustidas” começarem a atuar politicamente e a falar de seus amores.17 -- sorriu -- Gostaria de fazer um breve estudo de caso tomando como base a história do romance português Amar, Goz*r, Morrer, escrito para homens, vendido em 1897 a 3 mil réis na livraria Cruz Coutinho, localizada no Rio de Janeiro. Esse enredo, visivelmente inspirado nas narrativas pornográficas do Antigo Regime francês, não apenas apresentava cenário e personagens mais próximos à cultura luso-tropical como também oferecia espaço às questões que andavam nas bocas e nas mentes de vários homens de letras no Brasil.20 -- sorriu -- O romance trata da história da jovem Amélia, que se inicia sexualmente com sua mãe adotiva, uma jovem e fogosa condessa. Cenas de sex* descritas deixam claro, porém, que o clímax verdadeiro só se atinge com a penetração do membro do homem. -- pausou -- Certamente pra elevar o ego dos leitores, não? -- risos na platéia -- Depois de muitos prazeres a condessa adoece e aconselha a jovem a sair daquela vida bandida e buscar um homem pra saciar seu fogo! -- sorriu -- Interessante destacar que os sintomas vividos pela condessa assemelhavam-se aos inúmeros exemplos citados pelos médicos e juristas de finais do século XIX, em seus tratados e teses científicas, sempre empenhados em informar os males decorrentes de uma sexualidade doentia, desviante e invertida.20 Percebemos daí uma mensagem clara: homossexualidade como sinônimo de doença! O homossexual deixa de ser um pecador para virar um doente, a quem era preciso tratar.
--Mas, bá, desse tipo de tratamento o homossexual não precisa, mas todos os seres humanos necessitam de apoio energético e fortalecimento áurico! -- Lila ofereceu ao se levantar -- Posso fornecer esse apoio ao custo módico de setecentos e vinte reais por pessoa, mais um real por incenso queimado! -- sorria
--Mas já aumentou?! -- Lady perguntou escandalizada
--Senta criatura! -- Priscila fez a mística se sentar -- E não me faz passar vergonha!
Vanessa riu e continuou: -- Vários intelectuais membros da classe médica, como Ferraz de Macedo, ocasionalmente escreveram sobre o tema, combinando a tradicional aversão moral e religiosa ao homoerotismo com teorias do tipo: a homossexualidade se deve a distúrbios psicológicos; origina-se graças à falta de “escapes normais”; atribuí-se à “criação moral imprópria”. Listavam-se as diferentes características dos “penetradores” e dos “penetrados”. Era a moralidade e não a medicina, o remédio para lutar contra essa “aberração da natureza”. Ferraz de Macedo apresentou um verdadeiro ‘guia’ para detectar homossexuais.17 -- chegou ao último slide -- Por incrível que pareça, os ‘conhecimentos científicos’ do século XIX ainda influenciam a mentalidade de muitos pesquisadores atuais, donde encerro com a recomendação do apóstolo Paulo que disse: “Aprender tudo, reter o que for bom.”21
Vanessa recebeu muitos aplausos.
--Que aula! -- Suzana batia palmas
--O que tanto escreve, mãe? -- Seyyed pergunta -- Não posso virar o pescoço pro lado mas só ouço esse seu rabisca-escreve. -- riu
--Informação pra levar pro pessoal do centro! -- ela respondeu
--Olá, boa noite! -- Ivone sorriu -- Meu nome é Ivone Pinho Siqueira, tenho 65 anos e sou médica, psiquiatra e psicóloga especialista no estudo da homossexualidade. Tenho mais de trinta e cinco anos de experiência e já atendi centenas de mulheres e homens que buscavam se entender e trabalhar melhor sua própria identidade sexual. Sou kardecista e estudo o entendimento da doutrina a respeito dessa temática há muito anos. -- pausou -- Sempre quis ser médica mas o que me guiou para o estudo da alma foi um drama pessoal. Minha irmã mais velha, Irene, tinha 16 anos quando se apaixonou por uma moça da mesma idade. Elas mantiveram um relacionamento às escondidas e quando isso foi descoberto gerou-se um tremendo distúrbio nas duas famílias. -- respirou fundo -- Elas foram separadas contra a vontade, meu pai internou Irene para um tratamento de ‘cura’ -- fez aspas com os dedos -- da homossexualidade e ela se matou na própria clínica aos 17 anos. Isso aconteceu no dia do meu aniversário de 15 anos! -- relembrou
--Ah, tadinha... -- Juliana lamentou -- E eu que não sabia disso!
--Pobre Ivone! -- Camille olhou para Letícia -- Então deve ser por isso que ela não se assume! -- cochichou -- Trauma!
--Ela é lésbica?! Como sabe? -- perguntou curiosa
--Ela me quer! -- respondeu aos sussurros -- É apaixonada por mim! O que segura esse amor é a ética!
Letícia ficou em choque.
--Eu vou aproveitar a deixa da Vanessa e falar sobre essa associação da homossexualidade com doença, ressaltando, porém, que o Conselho Federal de Medicina, o Conselho Federal de Psicologia e a Organização Mundial de Saúde, já de muito tempo, deixaram de reconhecer a homossexualidade como uma doença. -- começou a apresentar seus slides -- A teoria e a prática psiquiátricas sobre esse tema mudaram bastante nos últimos 30 anos. Durante muito tempo, Psiquiatria e Psicologia a consideravam como doença ou sintoma de alguma doença.9 -- mostrou novas imagens -- O termo homossexualidade foi criado por um psiquiatra húngaro chamado Karoly Benkert, em 1869. Seu objetivo era salvar da prisão as pessoas condenadas por homossexualidade, já que a legislação alemã punia com prisão os homossexuais. -- outro slide -- Mostrando tratarem-se de pessoas doentes, argumentava que precisavam de tratamento e não de cadeia. O termo heterossexualidade surge posteriormente, devido à necessidade de tratar do assunto em vocabulário científico.9 -- olhou para o público -- A homossexualidade passou a ser estudada a partir de homossexuais em tratamento psiquiátrico e por parte de profissionais impregnados por uma visão distorcida e preconceituosa sobre o assunto. Fácil é concluir no que deu! -- provocou -- Quem disse que a ciência é desprovida de valores? Quem disse que é neutra?
--Não mesmo! -- Letícia respondeu -- A história da Física Moderna que o diga!
“A ciência e o que está nas entrelinhas... Hum, outro tema e tanto pra uma boa reportagem!” -- Tatiana continuava se empolgando
--Durante quase um século essa visão distorcida imperou no meio acadêmico, até que se começou a estudar os casos de homossexuais que não se encontravam em terapia e mostravam-se totalmente bem inseridos em seu contexto social.9 Com isso, luzes foram se acendendo e a alcunha de doença deixou de aceita por profissionais sérios. Tampouco são aceitos ou recomendados quaisquer tratamentos ‘corretivos’ da homossexualidade.
--Interessante saber disso! -- Henrique falou para Juliana
--Por isso te convidei! Você tem que entender o caso do seu filho pra não cometer erros! -- ela respondeu
--Eu te disse que não era doença, pai! -- Lúcio afirmou resoluto
Henrique apenas balançou a cabeça.
--Existe uma associação muito intrincada e sutil entre muitas das pesquisas que visam mostrar se homo ou bissexualidade são orientações sexuais normais ou não e os interesses em recusar a essa parcela da população o gozo de seus direitos no seio da sociedade. São questões que tocam o âmago jurídico legislativo no que se refere a constituição familiar, transmissão de bens e concessão de benefícios sociais.9 -- mostrou algumas pesquisas alardeadas pela mídia -- Muito cuidado com essas pesquisas estrondosamente anunciadas por aí, pois nem sempre os métodos utilizados são validados pela ciência. -- pausou -- É preciso entender quais as razões que motivaram a realização da referida pesquisa! É preciso entender também que na história da Humanidade a Ciência teve de se desmentir e voltar atrás repetidas vezes.
--Como no que se refere a natureza dual da luz e à validade absoluta da Mecânica Clássica! -- Letícia exclamou
--Ou no caso alumínio versus aço na indústria alimentícia! -- Camille comentou
--Ou o caso de quem matou Odete Roithman! -- Lady lembrou -- O tempo todo eu apostei no Fagundes!
--E o que novela tem a ver com Ciência, criatura?? -- Priscila perguntou revoltada
--Tudo! Pensa que é fácil fazer novela? Que nada! -- afirmou enfaticamente -- Tem que ver a que eu tô assistindo agora! Só assunto forte!
A dentista fez um bico.
--Hoje em dia entende-se que a sexualidade humana vai muito além da função de procriar e abrange, além do sex* biológico, a identidade de gênero, o papel sexual e a orientação sexual.9 Todos aqui entendem o que é o sex* biológico, nítido através da percepção dos órgãos sexuais do indivíduo. -- passou slides -- A identidade de gênero é a identificação psicológica da pessoa com seu sex* biológico. Há homossexuais que sentem essa identidade e outros não; estes são os transexuais. -- continuava -- O papel sexual é a convenção social para o que é considerado como feminino ou masculino. Muitas pessoas, hetero ou homossexuais, não se identificam com o papel esperado para seu gênero e isso lhes traz muitos problemas devido à intolerância com o que é diferente. -- pausou -- Os papéis sociais estão muito atrelados às questões de gênero e são construções humanas que variam no tempo e no espaço. Sempre se modificando, eles variam de país para país, e muitas vezes andam de mãos dadas com preceitos religiosos conservadores. Basta um comportamento específico, e uma pessoa pode ser excluída de um grupo e/ou enquadrada em outro, segundo o julgamento da coletividade com a qual convive.9
--Esse foi o caso de minha irmã! -- Pedro, irmão de Patrícia, falou para si mesmo -- Seu comportamento diferente a tornou uma excluída no meio dos nossos! -- lamentou
--E a orientação sexual se caracteriza por uma duradoura atração emocional, afetivo-sexual e romântica que um indivíduo sente por outro. Não se trata de uma escolha. -- olhou para o público -- No entanto, o comportamento sexual, ou seja, como eu reajo ao meu impulso sexual, isso sim é uma escolha. O comportamento sexual sofre a influência de nossas crenças e valores, da educação e de nossa saúde física e mental.9
“E eu que achava que muita coisa era pura pouca vergonha!” -- Mariângela pensou
--Por exemplo, uma pessoa pode manter um relacionamento homossexual sem ser homossexual, como também pode manter um relacionamento heterossexual sem o ser e em ambos os casos sem ser bissexual. Mas que confusão, por que as pessoas desenvolveriam tal comportamento? -- perguntou -- Por várias razões como pressão social gerando medo ou reprimindo, falta de parceiros do sex* oposto, momentos de fragilidade emocional, falta de entendimento sobre o sex* e por aí vai!
“Pois é! Eu namorei Augusto por reprimir a mim mesma!” -- Camille pensava
--O homossexual, por vivenciar ou desejar vivenciar relações que desaprovam a moral imposta pelas religiões à sociedade, costuma a passar por sofrimentos psíquicos muito intensos e as pessoas atribuem essa fragilidade a sua orientação sexual. -- balançou a cabeça negativamente -- Mas a verdade é que não é a orientação sexual do indivíduo a geradora do distúrbio, e sim a não aceitação do indivíduo pelo grupo social do qual faz parte. Daí surgem as condições para que até mesmo um grave quadro depressivo se instale.9,22
--Eu tenho uma dúvida! -- Lúcio, sobrinho de Juliana interrompe -- Ih, pode perguntar?
--Claro, fique à vontade! -- Ivone sorriu
--Quando se definiu cientificamente o termo homossexual e mais tarde o termo heterossexual, creio que a sociedade aprendeu a ver um como o inverso do outro, ou seja, pra se identificar um gay bastaria ver se o seu comportamento do cara é feminino. Quer fizer, de acordo com o conceito social do que é ser feminino. Só que eu não concordo com isso. Também não concordo com a coisa de que tem que ter um ‘ativo’ dominando um ‘passivo’. -- pausou -- Tô errado? -- perguntou sem graça
--Meu sobrinho, Ivone. -- Juliana gritou orgulhosa -- Menino inteligente, viu?
A psiquiatra riu. -- Não, você não está errado. Existe preconceito mesmo entre os homossexuais e uma visão estereotipada das coisas. Um gay não tem obrigação de ser ‘feminino’ e nem uma lésbica tem obrigação de ser ‘masculina’. Tampouco tem que haver esse domínio que você falou, isso não é condição obrigatória, mas muitos casais não conseguem abrir mão desse modelo. -- pausou -- A pessoa deve se apresentar da maneira como melhor lhe convém, não precisa seguir um modelo de comportamento estereotipado por ser gay ou lésbica. E o importante é buscar a felicidade numa relação justa em termos de respeito mútuo e direitos. -- sorriu olhando para o jovem -- Você tocou em um ponto muito importante, porque muitos homossexuais se consideram superiores aos seus parceiros por assumir o papel ‘ativo’, sejam homens ou mulheres. Existe machismo entre os iguais, porque os ‘ativos’ usualmente têm ou desejam um status maior. -- mostrou um slide que falava sobre isso -- Nesses casos, valoriza-se mais a posição assumida no ato sexual do que o sentimento que estimula as pessoas ao ato propriamente dito.9
--A gente não tem isso lá em casa! -- Isa cochichou para Ed -- Eu gosto que você faça o que faz na cama, mas quem manda sou eu! -- provocou
--Fazer o que? -- ela riu -- E agora nem na cama eu tô valendo! Não agüento uma gata pelo rabo, mesmo já tendo tirado o gesso do braço e fazendo fisioterapia.
--Deixa dezembro chegar que você vai poder voltar a ação! -- beijou o ombro dela -- E a fisioterapia 0800 de Flávia vai te deixar nos trinques!
--Não vejo a hora... -- suspirou
--Bem, eu poderia falar por horas a fio mas aí ninguém iria agüentar. -- riu -- Como espírita, termino dizendo que eu mudei muito minha visão acerca da homossexualidade com o tempo. Cheguei a pensar que era um desajuste entre campo mental e corpo físico e hoje vejo que não é bem assim. A reencarnação em condições invertidas tem a sua função divina e de aprendizado e isso não deve e nem pode ser diminuído. Não é a orientação sexual do ser humano que pode lhe trazer distúrbio mas sim o modo como cada um escolhe viver sua própria vida. -- sorriu -- E lembrem-se da recomendação de Paulo: “Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém.”23 Obrigada!
--Foi muito esclarecedor. -- Henrique disse para Juliana -- Está sendo bom pra mim estar aqui!
--Pena que Ivo não veio. -- ela disse -- Ao invés disso ele bate na minha porta e me acusa de tornar Mariana homossexual com meu exemplo! -- riu -- Eu mereço!
--Enquanto isso Guilherme anda às voltas com o filho, pois justo o menino machão que ele fez questão de ensinar tanta sacanagem mostra-se gay! -- olhava para ela -- Acredita que ele me ligou pra pedir dinheiro pra um tratamento psiquiátrico pro garoto?
--A vida de Guilherme é pedir dinheiro! -- revirou os olhos -- Seja pro que for!
Em seguida, foi a vez da teóloga Francisca Ribeiro proferir sua palestra.
--Boa noite a todos, meu nome é Francisca Ribeiro, fui criada sob uma disciplina religiosa bastante rígida, sou formada em teologia e sou mãe de um filho gay. Imaginem o impacto que senti ao descobrir isso! -- pausou -- Mas essa situação, que no primeiro momento me pareceu catastrófica, foi muito importante pra que eu estudasse mais das Escrituras e pouco a pouco finalmente entendesse o que lá se escreveu. Tive de me despir de meus tolos preconceitos, para entender que Deus não amaldiçoaria meu filho; era eu quem estava fazendo isso com ele!
“Hum, isso muito me interessa!” -- Mariângela pensou
--Eu tenho que prestar atenção nisso aí! Vai que meu enviadinho é gay! -- Lady falou para Priscila
--Lady, a criança ainda nem nasceu e você nem sabe se é enviadinho ou enviadinha! -- Priscila retrucou
--Seja como for, uma boa mãe tem que se prevenir!
--Coitada dessa criança... -- a dentista resmungou
--Podemos ler bem claramente nos Atos dos Apóstolos que “abrindo Pedro a boca, disse: Reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas.”24 É preciso dizer mais o que? -- pausou -- O Levítico sempre é citado quando se quer justificar, com a bênção de Deus, a condenação aos homossexuais, mas acho interessante que este mesmo livro também proíbe, em Lv 11:12, que se comam certos frutos do mar, em Lv19:19 é proibido que se cultivem plantas diferentes num mesmo jardim ou que se use roupa tecida com fios diferentes. Lv 19:27 também proíbe que se raspe a barba e se corte o cabelo, aí eu pergunto, os religiosos obedecem esses preceitos? Não! E por que? Por que entendemos que são proibições esdrúxulas para nossos dias. -- pausou -- No entanto, no que concerne à sexualidade, a maioria das igrejas ainda mantêm a tradição judaico-cristã de ver o sex* como tendo a finalidade única de servir à perpetuação da espécie, à despeito do que diz a Ciência. Por que não evoluímos nisso? Será que todos os religiosos só fazem sex* pensando em procriar? Alguém aqui acredita nisso? -- alguns riram -- Assim como eu, vários outros teólogos entendem que a Bíblia não condena o homossexual em si, mas sim o estupro homossexual, o ritual cananeu envolvendo prostituição homossexual, que alguns judeus passaram a adotar, e o comportamento homossexual por parte dos heterossexuais. No Novo Testamento, Jesus não faz qualquer condenação aos homossexuais.9 -- sorriu -- Muitos adeptos do Cristianismo parecem ignorar que nos Evangelhos não há uma declaração sequer, nenhuma atitude de Jesus que incite, inspire ou aprove o preconceito velado ou a discriminação declarada contra quem quer que seja. Ao contrário, Cristo combateu aberta e arduamente o preconceito. Ele andava com aqueles considerados pecadores e de má vida, conversava com samaritanos, rejeitados pelo preconceito judeu, e tinha amizade com pessoas consideradas indignas, tanto pela sociedade quanto pela religião oficial.25
--É verdade! -- Olga concordou -- Incrível como usam o nome de Jesus pra tudo e não seguem seus exemplos!
--No âmbito religioso, em quase todos os segmentos existe preconceito, velado, em alguns casos, e absurdamente ostensivo em outros, a tal ponto que proliferam brigas, perseguições e ataques declarados. É possível argumentar que há preconceito em qualquer contexto social, o que em certa medida é correto. Porém, o interessante é a prática, quase exclusiva do meio religioso, de transferir a Deus, aos textos sagrados e à autoridade sacerdotal ou eclesiástica a responsabilidade pela conduta preconceituosa, numa intenção espúria de revestir a atitude reprovável de contornos espiritualizados ou santificados.25 -- pausou -- É com muita vergonha que assumo que já fui assim, só que mudei. É o que diz meu filho: “As idéias só se transformam com o tempo e nunca subitamente.”26
--É um longo caminho de fato... -- Suzana concordou
--"As leis da sociedade avançam ainda a passos lentos, no que tange a abolir a manifestação social do preconceito humano, principalmente quando ele está disfarçado em meio a religião, fundamentalismo e partidarismo político. Às vezes tenho a impressão de que os religiosos, de uma maneira geral, inventaram motivos, reinterpretaram textos considerados sagrados ou se especializaram em debates e embates com pessoas que vivem de forma peculiar ou que, de algum modo, são diferentes da maioria das pessoas ou daquilo que se convencionou chamar de normal".25-- pausou -- "O mundo é plural. Nada no universo é repetitivo, nada é padronizado de maneira absoluta, pois o brasão do universo é a diversidade na unidade ou a unidade na diversidade. Encontramos dimensões, seres, coisas e, enfim, todo o sistema de vida do mundo diversificado e iluminado pela pluralidade".25
--Que pena que eu só entenda isso hoje. -- Roberto, pai de Patrícia dizia emocionado -- Que pena...
--Podemos ver também na Bíblia que está escrito: “E vós, senhores, fazei o mesmo para com eles, deixando as ameaças, sabendo também que o Senhor deles e o vosso está nos céus, e que para com Ele não há acepção de pessoas.”27 Novamente a mensagem: Deus não exclui, Deus integra. -- pausou -- Quando meu filho me disse que era gay, eu discuti com ele, tentando convencê-lo de que seria amaldiçoado, de que estava sob influências malignas e que nunca seria feliz daquele jeito. Comecei a persegui-lo, e ele, por sua vez, adotou um comportamento agressivo com atitudes provocativas e escandalosas somente para me chocar. Trilhamos um longo caminho de dores até percebermos que o que nos faltava se resumia a duas coisas: tolerância e respeito. -- desabafou -- Pais, tenham paciência com o que lhes é diferente e respeito por seus filhos. Respeitem sua orientação sexual, mesmo que vocês não a entendam. Isso não quer dizer que tenham que concordar com tudo que eles fazem, mas aceitem o direito que cada indivíduo tem de viver sua sexualidade como melhor lhe satisfaz. Filhos, tenham paciência com seus pais, não exijam deles o que ainda não podem lhes dar e não lancem sua sexualidade diante deles como se quisessem agredi-los. O respeito é fundamental. Filhos de pais homossexuais, a despeito da provocação de seus colegas, entendam que seus pais serão sempre seus pais e que eles lhes amam muito. O amor tem força, o amor supera tudo! Basta deixar que aconteça.
“O amor supera tudo...” -- Tatiana suspirava pensando em Renan
Mariângela e Camille se olharam emocionadas e deram-se as mãos.
--Eu te amo, filha! Não me interessa quem você ame e como ame, será sempre minha filha da qual muito me orgulho! -- tinha os olhos marejados
--Também te amo, mãe! -- abraçaram-se emocionadas
Lúcio olhou para Henrique, que lhe beijou a cabeça. Laís, sua irmã gêmea, envolveu seu ombro com o braço.
A palestrante foi muito aplaudida e a ela segui-se a palestra de Everaldo Serra, dirigente de um centro espírita carioca.
--Boa noite a todos. -- sorria -- Eu fiquei emocionado com o convite e mais emocionado ainda com o que ouvi nestas palestras que tivemos o prazer de assistir. Espero fazer jus a sua atenção. -- pausou -- Não só nas religiões ditas dogmáticas encontramos preconceito contra o homo e o bissexual. A Casa Espírita também dá exemplos, mais ou menos velados, de preconceito que se manifesta na proibição de certos centros a que homossexuais exerçam atividades de evangelização ou que realizem atendimento mediúnico. Já li na internet, em páginas ditas espíritas, algumas coisas que me fizeram questionar se algum dia aquelas pessoas realmente leram Kardec. Já ouvi palestras que me constrangeram, dado seu caráter conservador. Belas palavras, idéias obsoletas. -- pausou -- Mas o que realmente diz a Doutrina Espírita quanto a questão da sexualidade? -- olhava para as pessoas -- A doutrina considera que o impulso sexual, que se expressa na sexualidade, é uma força criadora inerente a cada ser. Canalizada através dos órgãos sexuais possibilita a perpetuação da espécie, criando novas oportunidades de encarnação, e a troca de energias entre os casais, promovendo prazer e felicidade, estimulando-os para que desenvolvam sua missão perante a família e a sociedade. A doutrina também diz que essa energia pode ser sublimada através da fraternidade e de criações que contribuam para manifestações do bem na sociedade.9 O Livro Evolução em Dois Mundos, ensina que quando nos entregamos às sensações do sex* periférico, mantendo-nos psiquicamente ligados ao prazer de forma egoísta, sem nos preocuparmos em não lesar os outros, necessitamos de inúmeras reencarnações para purificar nossas impressões e resgatar nossos débitos. Qualquer alteração imposta a nossos corpos fluídicos por mau uso de nossas potências divinas, precisará ser revertida por intermédio de tratamento fluídico, modificação de nosso padrão comportamental e mental e resgates reencarnatórios.28 -- esclarecia -- Em suma, não é a orientação sexual do indivíduo que pode comprometer sua evolução, mas o comportamento sexual!
“Ih! Tô frita!” -- Letícia pensou
--Eu demorei tanto tempo pra aceitar isso... -- Camille falou para si mesma
--De acordo com a palestra de nossa irmã Francisca, entende-se que a imposição de um sentimento de culpa tem sido usada como uma poderosa ferramenta para controlar as pessoas de fé através dos tempos... Daí eu pergunto: é desse modo que a religião auxilia uma pessoa em seu amadurecimento espiritual e na conquista do autoconhecimento? -- olhava para o auditório -- Fazer com que o homossexual sinta-se culpado por sua condição não o ajuda a se transformar em relação a seus desejos e nem o orienta como deve lidar com seus sentimentos, pois medo e temor não promovem autoconhecimento, mas ao contrário, impedem que o indivíduo seja feliz.9,29
--Então quer dizer, -- uma moça perguntou -- que um heterossexual promíscuo está em situação muito pior que um homossexual de vida regrada?
--Mas ninguém está em situação comprometedora por ser homossexual! O que traz distúrbio, repito, é o comportamento vicioso não importando a orientação! -- respondeu -- O uso desregrado da energia sexual, expresso através de um comportamento promíscuo que se observa especialmente nos homens heterossexuais, cria dores e sofrimentos para si e para o próximo.9 Muitos não se dão conta disso, enquanto encarnados, pois se anestesiam sob ideologias que lhes são favoráveis, porém, pode-se ler no livro No Mundo Maior, de André Luiz, que os desvarios do sex* lançam os espíritos incautos em pesados infortúnios e desequilíbrios. -- pausou -- Quanto mais presos ao instinto, mais priorizamos as sensações físicas e usamos a energia sexual somente através dos órgãos sexuais. Nosso maior desafio é usar essa força criadora com equilibro, subordinando-a à razão.9
--E o que acha da recomendação de muitos espíritas e espíritos que o homossexual deve se abster do sex*? -- Ruy perguntou -- Tem que saber, né? -- sorriu sem graça
--Castidade imposta nunca trouxe benefícios a ninguém! É preciso ter condições espirituais e emocionais pra se assumir uma vida casta e isso vale para homo e heterossexuais. Lendo-se as palavras de Jesus na Bíblia, Kardec, ou quais outras mensagens oriundas de espíritos superiores não encontro justificativa para tal aconselhamento. Em minha visão, trata-se de uma idéia que se origina em interpretações pessoais construídas através de afirmações de alguns espíritos para alguns médiuns.9 Não pense que a morte do corpo mata os preconceitos e ignorâncias que temos; certamente não! Por isso Kardec sempre nos aconselhou a examinar os escritos criteriosamente e estudar sempre, coisa que os espíritas não estão fazendo!
--Então, não é a orientação sexual que revela a evolução do espírito e sim o seu comportamento frente ao sex*? -- Priscila perguntou curiosa
--Certamente! -- respondeu convicto -- Encerro essa palestra fazendo minhas as palavras de André Luiz: “Erro lamentável é supor que só a perfeita normalidade, consoante às respeitadas convenções humanas, possa servir de templo às manifestações afetivas.” -- sorriu e agradeceu a todos, voltando para seu lugar sob uma salva de palmas
Suzana foi convidada a iniciar sua apresentação e se levantou após ter sido beijada por Juliana. Estava nervosa.
--Boa noite, meu nome é Suzana Mello e eu cuidei do caso Patrícia Feitosa, chefiando as investigações que possibilitaram a captura e a prisão dos envolvidos naquele crime hediondo. Um crime onde fanatismo, desejo de vingança e homofobia se misturaram com magia pesada. -- pausou -- A seita fundada por Lucas Damaso, que foi a principal responsável pelo assassinato da jovem Patrícia e pelo assassinato várias de outras mulheres lésbicas, não existe mais, porém, a homofobia propagada por ela permaneceu presente, como já estava, no seio da nossa sociedade.
“Não desistimos enquanto aquela cambada não foi toda presa!” -- Tatiana se lembrava -- "E Patrícia sempre nos inspirando...”
--Mas, vamos começar do começo. -- sorriu -- A palavra homofobia surgiu na década de 60 e significa ter-se uma aversão irreprimível, repugnância, ódio e preconceito contra os homossexuais, e ela se manifesta em atitudes discriminatórias ou violentas contra os objetos dessa aversão. Crimes praticados contra homossexuais são, na sua maior parte, crimes de ódio, e devem ser referidos como crimes homofóbicos, tendo como motivo a não aceitação e ódio por parte do agressor em relação à vítima por ser gay, lésbica, bissexual ou transexual.30 -- passou outro slide -- A Constituição Federal Brasileira não cita a homofobia diretamente como um crime, porém define como “objetivo fundamental da República”, art. 3º, IV, o de “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sex*, cor, idade, ou quaisquer outras formas de discriminação”. É essencial ter consciência de que a homofobia está inclusa no item “outras formas de discriminação” sendo considerada crime de ódio e passível de punição.31 -- olhava para a platéia -- Através da Lei Estadual 10.948/2001, o estado de São Paulo estabeleceu diferentes formas de punição a diversas atitudes discriminatórias relacionadas aos grupos de pessoas que têm manifestação sexual perseguida por homofóbicos.31 -- andava pelo auditório segurando o microfone e o passador de slides -- Apesar de todas as resistências e da lentidão na tramitação dos processos na Câmara, creio que nos anos vindouros teremos uma legislação mais forte, uma lei anti-homofobia que criminalizará atos de violência, de segregação ou discriminação contra a minoria LGBT. Isso porque os números vão acabar se impondo sobre nossos parlamentares. -- mudou o slide -- Constantemente assistimos a uma série de ataques brutais impostos contra homossexuais ou mesmo pessoas supostamente homossexuais. -- pausou -- O Brasil, simplesmente, ostenta o título de país mais homofóbico do planeta e ainda está muito longe de ser superado no ranking mundial. A cada três dias dois homossexuais são assassinados. Nosso país concentra 44% das execuções homofóbicas de todo o mundo! O risco de um homosexual ser assassinado é 800 vezes maior que nos Estados Unidos!32
--Meu Deus!!! -- Olga exclamou em choque -- Meninas, por favor! -- olhava para Seyyed e Isa -- Cuidem-se!!
--Ih, mãe! Do jeito que eu tô até os homofóbicos me fariam caridade! -- brincou
--Isso é coisa séria, Seyyed! -- deu um tapa na coxa dela
--Ai, mãe! -- esfregou a mão na perna -- Essas suas mãozinhas machucam quando querem!
--Primeira providência, Priscila! O enviadinho ou enviadinha tem que aprender a falar inglês desde a mais tenra idade! -- estava com os olhos arregalados
--Aprender idiomas é sempre importante, mas por que diz isso? -- perguntou sem entender
--Porque se for homossexual e a barra ficar pesada aqui pode fugir pros Estados Unidos!
--Ô, Pai, dai-me forças! -- revirou os olhos
--Ruy, quando Juliana se candidatar ela tem que se engajar nessa luta contra a homofobia! Serão três temas de campanha: melhorias na saúde, cuidados com a terceira idade e direitos dos homossexuais! -- Selma falava enfaticamente
--Calma, Selma! Primeiro temos de convencê-la a se candidatar!
--A lista de homicídios homofóbicos é liderada pela Bahia, -- continuava -- seguida por Pernambuco, São Paulo, Alagoas e Paraíba. Esses dados colocam o Nordeste como a região mais perigosa. Proporcionalmente Alagoas é o Estado mais violento do Brasil. Raros são os criminosos efetivamente punidos. -- mudou de slide -- A proposta de criminalização da homofobia ainda é muito controvertida. Divide opiniões, mesmo no movimento LGBT. Hoje ela é uma qualificadora de homicídio, além de compor as circunstâncias que definem a fixação e influenciam a majoração da pena. Muitos entendem que tais imposições legais já seriam suficientes para a repressão, eu defendo, porém, que a questão deva ser melhor aprofundada para que seja concebida legislação específica pra prevenir e punir a criminalidade homofóbica.33
--Ah, mas com certeza! -- Juliana se exaltou -- Do jeito que tá não pode continuar! -- cruzou os braços
--Olha lá! -- Selma cutucou Ruy -- Sente a fúria da japonesa! Ah, meu filho, mais um pouco e a gente convence ela!
--O professor Luiz Mott, antropólogo da Universidade Federal da Bahia, considera que as estatísticas que recebemos não representam o universo amostral dos crimes homofóbicos, mas sim a ponta de um iceberg de violência e sangue. -- a delegada continuava -- Em média, em apenas 25% dos casos notificados os assassinos são identificados, sendo que em 73% deles não há informação sobre a captura dos criminosos. Notem o alto índice de impunidade!33
--Cuidado, filho! -- Henrique advertiu -- Tome muito cuidado!
--Eu já fui vítima de homofobia, pai, não se lembra? Só que ficou tudo por isso mesmo e eu que tive de sair do colégio...
--Quando eu penso nisso!! -- Juliana cuspia fagulhas dos olhos
--Ed, e aqueles trastes que te agrediram, hein? -- Isa perguntou -- Viu que apareceu na TV que eles estão desaparecidos? Eles e mais um terceiro lá!
--Humpf! Na certa se meteram em confusão e acabaram sendo mortos! Aquele tipo de cara tem vida curta, Isa!
--Outro ponto digno de nota, -- Suzana falava -- é que os dados revelam um alto índice de homofobia entre os jovens!33 Nos Estados Unidos, 30% dos adolescentes que cometem suicídio são homossexuais que não suportam a pressão e a perseguição dos colegas.9 Mais uma vez a questão do bullying entra em cena, só que de mãos dadas com uma atitude homofóbica! -- mostrou seu último slide -- Leio pra vocês o que disse o presidente do Grupo Gay da Bahia, Marcelo Cerqueira: -- lia o que estava escrito no slide -- “há quatro soluções emergenciais para a erradicação dos crimes homofóbicos: educação sexual para ensinar à população a respeitar os direitos humanos dos homossexuais; aprovação de leis afirmativas que garantam a cidadania plena da população LGBT, equiparando a homofobia ao crime de racismo; exigir que a Polícia e Justiça investiguem e punam com toda severidade os crimes homo/transfóbicos e finalmente, que os próprios gays, lésbicas e trans evitem situações de risco, não levando desconhecidos para casa e acertando previamente todos os detalhes da relação. A certeza da impunidade e o estereótipo do gay como fraco, indefeso, estimulam a ação dos assassinos.”33 -- olhou para a platéia -- Como delegada de polícia eu vi situações realmente difíceis de imaginar, investiguei uma vasta gama de crimes hediondos, sou sobrevivente de um genocídio, acho que começou daí... -- pausou -- Mas certamente o caso Patrícia Feitosa mexeu muito comigo e eu levei as investigações às últimas conseqüências. Posso dizer que foi um caso que mudou a minha vida! -- emocionou-se -- E quanto mais eu sabia sobre a Patrícia, mais lamentava o que aconteceu, porque ela era uma lutadora, uma pessoa interessada em mudar a sociedade pra melhor! Ela era aquele tipo de gente que sabe que não vai mudar o mundo, e nem tem essa pretensão, mas que investe em mudar aquilo que está ao seu redor. -- olhou para Sabrina -- E ela mudou muita coisa e muitas pessoas! -- voltou a olhar para o público -- Obrigada! -- enquanto a delegada voltava para seu lugar na platéia, fotos de Patrícia apareciam no telão
Tatiana, Priscila e a família da jovem choravam de saudade.
--Ai, amiga, chora não! -- Lady abraçou Priscila -- Vem, querida, eu te dou colo!
“Hum... Olha o amor acontecendo...” -- Lila pensava
Sabrina tomou a palavra e se dirigiu ao público. -- Nossa, eu tô fazendo força pra não chorar! -- sorriu -- Antes de encerrar, eu queria apenas compartilhar o que aprendi recentemente lendo dois artigos muito interessantes sobre homofobia. Na verdade um se baseia no outro e eu li os dois pra poder entender bem o contexto. -- pausou -- Os textos são provocadores e diziam mais ou menos assim: -- pegou um papel e começou a ler -- “Do ponto de vista da psicanálise, quando as minhas reações são excessivas, deslocadas e difíceis de serem justificadas é porque emanam de um conflito interno. Por que afinal me incomodaria meu vizinho ser homossexual e beijar outro homem na boca? De forma simples, o que acontece é: ‘Estou com dificuldades de conter a minha própria homossexualidade, então acho mais fácil tentar reprimir a homossexualidade dos outros, ou seja, condená-la, persegui-la e reprimi-la, se possível até fisicamente, porque isso me ajuda a conter a minha”.34,35 -- olhou para o público -- Interessante, não? -- sorriu -- Temos de convir, de fato, que educar é a ferramenta mais apropriada pra lidar com os desafios ou as doenças da alma humana. A civilização não será de forma alguma uma civilização verdadeira enquanto o preconceito fizer parte das relações entre o povos e entre os indivíduos. -- pausou -- Sabe, precisamos de apoio jurídico, mas não é através de regras impostas ou convencionadas, de leis e decretos aprovados por políticos e autoridades que se limpará da alma humana a nódoa do preconceito. Sobretudo é através do intenso investimento em educação e da força do amor que as coisas modificarão.25 Gente, é preciso quebrar esse ciclo de ódio! -- falava com sentimento -- Eu odeio o homofóbico porque ele me odeia, eu odeio o religioso porque ele não me aceita... não, gente, não pode ser assim! Claro, nós não vamos amar essas pessoas e nem vamos colocar o pescoço na guilhotina, mas devemos ter prudência e não alimentar o ódio! Esse planeta está saturado de tanto ódio e tanta coisa ruim que a humanidade cultiva! É hora de fazer uma limpeza! -- lágrimas começaram a rolar -- Eu aprendi a amar Patrícia Feitosa depois que ela morreu, o que é uma pena, mas esse amor já me ensinou muito e o exemplo dela também. Agradeço de coração a presença de cada um vocês e fico imensamente feliz em poder prestar essa homenagem! -- começava a tocar a música Now We Are Free -- Essa é a música da Patrícia! -- sorriu -- Encerro citando uma passagem bíblica que considero muito bem poder nos servir de norte. Paulo recomendou aos cristãos, diante das perseguições que sofriam, que eles agissem de tal maneira, “usando uma linguagem sã e irrepreensível, que os adversários não tendo nada de mal a dizer deles, se sentissem envergonhados.”36 -- calou-se e fez uma reverência ao público
Sabrina foi aplaudida de pé por todos os presentes.
--Cada vez mais ela me surpreende! -- Priscila falou enquanto aplaudia -- Adorei esse tributo!
--Parabéns, amiga! Foi bom por demais da conta! -- Tatiana falava baixinho para si mesma
Os familiares de Patrícia foram abordar a escaladora, Henrique e os filhos se abraçaram, bem como Mariângela e Camille.
--Eu vou usar todo esse conhecimento pra combater o preconceito no nosso centro, Seyyed! -- Olga dizia -- Precisamos dar uma saneada psíquica na nossa amada casa de trabalho!
--Mãe, aquele centro só vai mudar no dia em que a senhora for a dirigente dele! -- afirmou enfática -- Aí, o que já é bom, ficará excelente! -- sorriu
--Queria tanto que mamãe tivesse vindo! -- Isa lamentava -- Até o último minuto acreditei que ela viesse...
--Sua mãe ainda vai voltar pra Luz, Isa, creia no que lhe digo! -- Olga falou -- Trabalharemos arduamente pra isso! -- segurou as mãos da ruiva e beijou a testa dela
Fim do capítulo
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jake
Em: 26/03/2024
Oie Sol .Que cap ! Esse tributo foi incrível...sem palavras ....Parabéns!!!
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Olá querida!
Fico feliz que tenha lido os textos do tributo! Obrigada!
Beijos,
Sol
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Femines666
Em: 11/03/2023
É cada capítulo e cada temporada melhor que a outra. Esse tributos foi uma aula de feminismo! E ainda deu pra rir muito com Ana e o medo da Isa rodar no pau! kkkkkkk Sapatão não no roda pau ow!
Resposta do autor:
Olá querida!
O tributo foi uma grande troca de experiências. Fico feliz que tenha lido e gostado!
kkkkkkkkkk Uai, a gente não roda, mas vai que outras sim? E quem vai julgar? rs
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 14/09/2022
Você é despirocada igual Mari, Aline... Divalina Lomba, puta merda! Gargalhadas haha
Letícia vacilou
Leva a mal não mas minha família é fodaaa até emociona. Hehe
Resposta do autor:
Você e esse trem de despirocada! kkkkk
Letícia vacilou sim. Ela ainda estava muito imatura para o amor e para ouvir um 'não' de alguém que deseje.
Sua família é sim!!!
Beijos,
Sol
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Em homenagem às tapiocas que me fez hoje mais te constelo
Resposta do autor:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
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Gabi2020
Em: 23/04/2020
Ei moça!
Não esquecerei de Divalina Lomba, pode deixar.
E de fato no tributo além da pérola da Camille , teve Lady sendo Lady... Kkkkkk... O engraçado é que vendo a foto dela, acho que combinou tanto o nome e a personagem.
Beijos
Resposta do autor:
Quando eu fiz os desenhos, você disse que identificaria em quem me baseei. Não acertou todas. Será que hoje em dia acertaria?
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 22/04/2020
Olá Sol!!
Ai ai ventosas, eita treco ruim demais!! Deus me livre! Andei fugindo da fisioterapia e agora com a quarentena, só Deus sabe quando volto.
Letícia e Samira com problemas com suas devidas namoradas, uma acha a sua cheio de medos e a outra a namorada não tem tempo... Porque não conversam? Achei a Letícia meio agressiva e parece que o sexo é o principal da relação e não é bem assim, já a Camille tem seus meios e receios, cabe à mais experiente equilibrar isso. Quanto à Samira, é só pegar a caipira de jeito e trancar ela num quarto, problema resolvido... Kkkkk...
Divalina? Senhorrrrr.... Kkkkkkk.... É verdade foi ela que fez a Suzaninha sofrer, que filha da mãe! Depois ficou cheia de dedos pra cima da Isa, sem vergonha mesmo.
Renan sofreu tanto e o bichinho sempre foi tão bonzinho!
Engraçado a mãe da Isa conhecer tantas coisas da favela né? fala mal, mas sabe de tudo, hipócrita do c.
Quem tem amigos, tem tudo... Caiu um cisco aqui com esse gesto dos amigos e da família da Seyyed.
Lindo e muito informativo o tributo para Patrícia, estava indo tudo muito bem, até que a Camille me solta uma pérola:
"
--Pobre Ivone! -- Camille olhou para Letícia -- Então deve ser por isso que ela não se assume! -- cochichou -- Trauma!
--Ela é lésbica?! Como sabe? -- perguntou curiosa
--Ela me quer! -- respondeu aos sussurros -- É apaixona por mim! O que segura esse amor é a ética!
Letícia ficou em choque." Kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk....
Belíssimo esse capítulo, parabéns! Aplaudindo de pé!
Beijos
Resposta do autor:
Gabinha!
Eu gosto das ventosas. Mas elas me deixam cheias de círculos roxos na pele onde sugaram. Se Letícia visse, diria que a boca de Flavia é muito simétrica! kkkk
Letícia tem expectativas dentro de um relacionamento bem diferentes de Camille.
"Quanto à Samira, é só pegar a caipira de jeito e trancar ela num quarto, problema resolvido.." - e quem disse que ela não usa de tais métodos? kkkk
Divalina Lomba! Não esqueça o sobrenome!
Renan sofreu muito sim. É um rapaz de ouro, como diriam as velhinhas aqui.
Seyyed sempre foi boa pessoa. Aí quando precisou, teve apoio.
O tributo foi um compilado de alguns estudos que fiz e podiam ser colocados no conto sem confusão.
Sabe o que lembrei? Neste tributo, alguma leitora tinha destacado isso e outra escreveu: Pior foi Lady lembrando de novela no meio do assunto sério!
Obrigada, Gabinha
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Solitudine Em: 20/05/2024 Autora da história
kkkkkkkk Lady sempre apronta das suas!
Que bom que gostou do tributo. A ideia era compartilhar informações.
Beijos,
Sol