É muito comum acreditar-se que ter liberdade é adotar uma atitude quase que totalmente descompromissada diante de vários aspectos da vida. Especialmente na juventude nós acreditamos que podemos ser livres sem arcar com as conseqüências dos atos praticados em nome desta liberdade. Por outro lado, as religiões, que cumprem um papel ancestral de manter o comportamento das massas sob controle, definem onde terminam direitos e deveres. Não à toa, em muitos países, religião e lei caminham juntas. Ter uma religião significa seguir por um determinado caminho, indicado como uma via de libertação das almas, embora por muitas vezes, a mesma religião acorrente e restrinja os vôos do espírito à mediocridade dos raciocínios conservadores. Ter religiosidade, ao contrário, significa empreender uma auto descoberta, buscar o auto conhecimento e a união com o Todo, o qual é muito maior que a soma de Suas partes. Da mesma forma, também se percorre um caminho, mas não há correntes que pesem em sua trajetória. Não se perde tempo com julgamentos ou idéias pré concebidas. Cada conceito é analisado à luz da razão e com o coração puro. Há consciência de que a vida devolve o que recebe e que não existem atos sem conseqüências. Descobre-se progressivamente o verdadeiro sentido da liberdade: e isto se chama progresso.
“Qualquer caminho é apenas um caminho e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena o seu coração (...). Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias... Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma.”1
Quinta Temporada - LIBERDADE I
02:00h. 01 de outubro de 2005, Edifício Rubro Negro, Flamengo, Rio de Janeiro
Lady dormia alvoroçada por conta de um sonho inusitado.
“Caminhava saltitante em meio a relva, cheirando flores e usando o dedo como um puleiro para Clint, a maritaca austral. Usava um cândido vestidinho de gestante e sandálias de salto baixo.
--Nossa, que coisa meiga! -- suspirou embevecida
Tatiana, Lila e Isabela saltitavam ao seu redor vestidas de fada.
--Fogo do mal... sangue... -- Clint sussurrava -- ÊÊÊÊÊÊÊÊ!!!
--Nossa, que coisa maligna! -- olhou assustada para a ave
--Eu te disse que esse bicho não era de Deus, fi! -- Tatiana relembrou
De repente, eis que Charles sai de um buraco no chão.
--Lady, o que faz no meio de mato com esse papagaio possuído no teu dedo? Onde estão suas malas? -- perguntou contrariado
--Isso não é papagaio, é maritaca austral! -- esclareceu -- E não posso ir! -- pôs a mão sobre o ventre -- Estou prenhe!
--O que??? Você é louca! -- deu um tapa na mão dela fazendo Clint voar para longe
Lady rodopia desvairada e pára encostada a uma árvore. -- I’m crazy but you like it! Loca, loca, loca!! -- respondeu confiante
--Chega de lesco lesco! Saiba que vou te deixar! -- olhava-lhe de lado
--Nãoooo!!! -- Lady se esfrega na árvore como lagartixa -- Não me deixe, meu Príncipe! -- caiu de joelhos -- Carrego em meu ventre um filho teu! Ou filha, sabe Deus! -- olhou para ele -- Se você é meu enviado, -- pôs a mão na barriga -- aqui está um enviadinho!
--Acabou! -- gritou -- Garota, eu vou pra Indonésia, viver a vida sobre as obras, construir tudo, até cinema; o meu destino é viajar! -- pulou novamente dentro do buraco
--Nossa, que coisa louca! -- exclamou surpresa
Nesse momento a paisagem muda bruscamente e Lady se vê em outro lugar, parada diante dos pais.
--Oh, meu Pai, where am I? -- perguntou com as mãos na cabeça
--Lady, que trajes são esses? -- a mãe perguntou chocada
--Mãe, eu acho que estou... ligeiramente grávida! Mamãe não fique pálida, a coisa não é ruim...
--A única mãe solteira da família... -- a mulher mais velha lamentou
--Você vai fazer um aborto! -- o pai gritou
--Nossa, que coisa tirana! -- rodopiou pela sala
Tatiana, Lila e Isabela aparecem barrigudas e vestidas como gestantes. A barriga de Lady cresce repentinamente, ela começa a dançar e as amigas repetem seus passos ao fundo.
E a música invade a sala:
“Papa don’t preach...
I'm in trouble deep,
Papa don't preach…
I've been losing sleep…”
--Lady, você fará um aborto, sim!!! -- o homem berrou novamente
As quatro jovens amigas rodopiam com ch*petas na boca.
“But I made up my mind,
I'm keeping my baby,
I'm gonna keep my baby, mmm…”
Papa Don’t Preach – Madonna [a]
--Oh, não meu pai! -- Lady pôs as duas mãos no ventre -- I'm gonna keep my baby!
--Mmm! Ô,ô!! -- Tatiana , Isa e Lila cantam em coro
--Como vai criar esse bebê sem um marido, Lady? Como fará sem um homem do seu lado? -- sua mãe perguntou chorando
--Oh, tem razão! -- esfregava-se pelas paredes ensandecida -- Que sina bandida, meu Pai, ai, ai, ai!!
As atendentes da clínica surgem repentinamente e agarram Lady pelos braços.
--Vamos, senhorita! -- uma delas falou -- Sua hora chegou!
--Minha hora? Eu não quero morrer, não! -- exclamou com os olhos arregalados
--Não tenha medo! -- a outra dizia -- Tudo vai dar certo!
--Não, não!!! Eu não quero, não!!! Socorro!! Help me, help me!! -- gritava
Quatro médicos aparecem vestidos de branco e usando máscaras cirúrgicas.
--Não há porque temer! -- um deles falou esfregando as mãos
--E agora? Quem poderá me defender? -- Lady clamava por socorro
E sem que esperassem, Priscila surge toda vestida de couro usando uma Pashmina vermelha e segurando um gigantesco martelo de brinquedo. -- Eu!
--Amiga!!! -- exclamou animada
--Não contavam com minha astúcia! -- a morena respondeu
(NOTA DA AUTORA: Menção ao inesquecível seriado Chapolin Colorado)
--Na época dos pais opressores... -- Lila aparece vestindo uma saia marrom e um bustiê verde. Os cabelos louros, como sempre, cheios de tererês
--“Uma terra sem lei clamava por uma heroína!” -- Tatiana surge vestida como Lila
--Priscila! Uma poderosa guerreira forjada no calor dos hospitais! -- Isa vem com a mesma roupa das outras duas
A morena martela as atendentes que soltam os braços de Lady. -- Toma, papuda! -- exclamou orgulhosa
--“A força...” -- Isa rodopiava na ponta dos pés
Priscila martela os médicos que caem um a um no chão.
--Ai... -- Lady suspira
--“A paixão...” -- Lila fazia seus gestuais
Um dos médicos aponta um bisturi para a dentista.
--“O perigo...” -- Tatiana dizia
--Nossa, que coisa arriscada! -- Lady falava apavorada
Priscila desarma o médico e enxota todos eles da casa dos pais de Lady.
--“A coragem dela mudará o mundo...” -- Lila, Isabela e Tatiana falam em coro
Tema de abertura do seriado Xena – A Princesa Guerreira
--Quem é essa médica?? -- uma das atendentes pergunta apavorada
--Êpa!!!!!!! Médica, não! -- a morena exclama -- Eu sou Priscila, a dentista guerreira! -- bateu no peito -- E se especializando em implantodontia, por favor! -- complementou
--Gurias, -- Lila se aproximava das atendentes -- vamos embora daqui e cuidar das coisas da alma. Nada que quinhentos reais por cabeça não resolvam! -- sorria -- Deixemos o casal a sós!
--Casal?! -- Lady e Priscila exclamaram com os olhos arregalados
E de repente tudo muda e Lady aparece em uma boate cheia de mulheres. Todas, inclusive ela, usavam apenas suas roupas íntimas.
--Nossa, que coisa indecente! -- Lady se cobre com as mãos envergonhada
E eis que Priscila surge do meio do mulherio, usando saltos altos e cinta liga. Vinha seguida por Lila, Tatiana e Isabela, que se vestiam da mesma forma.
“Fui eu quem bebi, comi...”
--Priscila, mas você tem um corpão, viu? -- Lady comenta surpresa
“Chegou com mais três amigas, cinta-liga,
Perna dura, dorso quente,
Toda língua e me encoxou,
Me apertou, me provocou e perguntou:”
--“Quem é tua dona? Quem é tua dona? É, é!!” -- Priscila imprensava Lady contra a parede
--Nossa, que coisa safada! -- arregalou os olhos
“Fui eu quem bebi e comi...”
--Agora seremos uma família! Eu, você e o enviadinho! -- a morena dizia olhando nos olhos de Lady
--Amiga, eu... ainda não sei se tô preparada pra essa coisa lésbica!
“Fui eu quem bebi e comi...”
Eu Comi a Madonna – Ana Carolina [b]
--Lady, -- Tatiana interferiu -- solta essa barata, amiga!
--Solta, solta, solta!!! -- Isa e Lila cantavam batendo palmas
--Lady, tua barata me pertence! -- Priscila se preparou para beijá-la”
--Ah!!!! -- Lady acordou apavorada e suada -- Ai... -- respirou fundo -- Que sonho profundo, intenso e cheio de significado, gente! -- pôs a mão no peito -- Foi uma verdadeira retrospectiva de fatos recentes e marcantes da minha vida! -- passou a mão nos cabelos -- Tenho que ter uma conversa muito séria com Priscila, pra entender esse relacionamento feminil que se desabrocha! -- deitou-se novamente e ficou pensando -- Mas sabe que Priscila não é de se jogar fora? -- virou-se de lado e fechou os olhos -- Que corpão!
*****
“Seyyed estava em um lugar escuro, lamacento e cercado por árvores queimadas. Relâmpagos rasgavam o céu furiosamente e o estrondo dos trovões era ensurdecedor. Uma chuva pesada caía e o campo de visão tornava-se bastante restrito.
Sofria bastante com fortes dores na nuca e por todo o lado direito do corpo.
--Ai! -- tentou se levantar mas não conseguiu -- Por que tudo me dói? -- não entendia
A morena se arrastou até uma árvore e se apoiou em seu tronco para poder ao menos se sentar. A mão direita pinicava e doía muito.
--Droga! -- olhou para o braço inchado -- Tá faltando dedo aqui ou eu tô louca? E tô coberta de lama podre, argh! -- fez careta -- Mas... -- pensou -- afinal de contas o que aconteceu? -- começou a desconfiar que havia morrido
Gemidos de dor e gritos de desespero ecoavam pelo ambiente, confundindo-se com o barulho da chuva e dos trovões.
--Você realmente complicou as coisas à toa! -- um homem falou
--Não!! -- ela fechou os olhos -- Ah, não, eu realmente desencarnei! -- virou o rosto para o lado e deu de cara com Silvio, que também estava sentado -- Pelo menos encontrei um rosto amigo! -- afirmou sorrindo com tristeza
Silvio apresentava-se com aparência semelhante à época em que estava doente. Usava uma espécie de capa de chuva.
--Não, você não desencarnou! -- sorriu -- Mas foi por pouco, viu? -- pegou uma capa de chuva e a protegeu como pôde -- É muita água, né?
--O que faz aqui, Silvio? Ainda não recebeu atendimento? -- perguntou preocupada -- Você ainda tá abatido!
--Olha só você! -- balançou a cabeça -- Toda ferrada e ainda se preocupa comigo! Esta é Seyyed... -- riu brevemente -- Eu passei muito tempo aqui, nesse lugarzinho meigo onde nos encontramos. Não sei dizer na escala de tempo da Terra quanto isso durou, mas pra mim pareceu uma eternidade! -- relembrou -- Só que as orações de dona Olga, as suas e mais as da minha mãe quebraram meu galho e fui socorrido. Foi a própria mamãe que veio me buscar com alguns socorristas. -- pausou -- E eu que achava que oração não servia pra nada... -- sorriu -- Acredita que meu moleque ora por mim todos os dias? É tão bonitinho... Tua mãe que ensina!
--Minha mãe não é pouca coisa, não, cara! -- sorriu e ficou tentando se proteger melhor da chuva, embora o fato de estar sentada no chão não ajudasse muito -- Mas, então o que fazemos aqui? -- perguntou intrigada -- Caraca, tudo meu dói! -- reclamou -- A nuca então...
--Você veio pra cá porque foi quase uma suicida, Ed! -- ele esclareceu -- Se você não estivesse tão bem na fita aqui em cima teria se ferrado de verde e amarelo, mas o pessoal deu uma mãozinha pra você cair naquela vala podre e não bater as botas dessa vez. -- pausou -- Só que você se complicou um pouco... -- respirou fundo -- Os emissários da Luz precisavam de alguém pra falar contigo. Do jeito como está seu psiquismo, não teria como entrar em contato com os espíritos superiores. -- sorriu -- Então, eu me ofereci, e aqui estou! Vim te fazer cair na real!
--Como as coisas mudam, não é? -- piscou para ele -- Agora é você quem me puxa as orelhas!
--Escuta, Ed, sem brincadeiras! -- ficou sério -- Vem aí um período punk na tua vida e você não pode fazer besteira de novo! Você vinha bem pra caramba, não estraga tudo, vai? -- pediu -- Você fez muita coisa boa na vida, ajudou muita gente, por isso aliviaram tua barra, mas não inventa moda! Encara o que vier como sempre fez Seyyed Khazni! Seja lá o que for!
Ela ficou calada ouvindo.
--Nesse momento, tem um monte de gente orando por você. -- segurou a mão dela com delicadeza -- Vai acordar e não demora muito.
--Eu não vou dar mole de novo! -- olhou seriamente para ele -- Tem minha palavra! Nunca mais vou me lamentar por coisa alguma e nem baixar a cabeça. -- reparou novamente naquele ambiente -- Estar aqui agora já me ensinou muita coisa.
--Confio em você! -- sorriu -- Eu te amo, garota! De verdade! -- beijou o rosto dela”
****
Tatiana e Suzana estavam reunidas no botequim abandonado que lhes servia de QG. Tentavam montar o quebra-cabeças com base nas informações trazidas por Anselmo.
--De acordo com Anselmo, existem treze laboratórios de produção de crack no Brasil ligados à rede que investigamos, mas ele não sabe exatamente onde se localizam. -- Suzana falou -- Porém, confirmou que estão mesmo espalhados por São Paulo, Rio, Espírito Santo, Paraná e Rio Grande do Sul.
--Bem, apesar de vaga a informação é valiosa! -- Tatiana respondeu -- Que mais ele disse?
--Que a maior parte da receita proveniente da venda de drogas, seja crack, maconha, cocaína ou o escambal, passa pelo controle dele e de um outro cara. Ambos trabalham em uma empresa de fachada que, pretensamente, é uma empresa de cabotagem. O detalhe é que só têm um navio. -- riu sarcasticamente
--É uma vergonha! -- balançou a cabeça negativamente -- Deduzo que o trabalho deles seja reduzir a visibilidade do dinheiro do crime! -- pausou -- De quebra, também facilitam esquemas como aquele do desvio de remédios. -- ficou pensando -- Mas a compra dos químicos a base de benzeno não era feita por eles...
--Não! Eles tinham outra empresa de fachada que teve de ser eliminada por causa do escândalo dos remédios. Mas o caso do benzeno já havia deixado a tal empresa na corda bamba!
--Hum... -- coçou o queixo
--Pra reduzir a visibilidade desse dinheiro, Anselmo e seu colega fracionam e convertem a grana em outros valores por meio do sistema financeiro, bancos, bolsas de valores e casas de câmbio. A bolada aí vai parar na conta de um doleiro chamado Glielmo, conhecido como italiano, que também administra um escritório de fachada em Niterói.2
--E então, provavelmente a empresa do tal doleiro remete o dinheiro pra ser lavado no exterior! -- Tatiana deduziu
--Isso! O cara tem uma conta num banco estatal de Nova York, assim como a empresa de Anselmo também tem. Lá no exterior o doleiro e sua rede praticam uma cascata de operações financeiras intensas e rápidas. Depois a grana segue pras Ilhas Virgens Britânicas, um conhecido paraíso fiscal no caribe.2 -- explicava -- Ou seja, vai pra mais outra empresa de fachada, a qual também tem conta no mesmo banco norte americano.
--Na certa fazem essas trans*ções pra afastar ao máximo o dinheiro de sua origem verdadeira! -- ela afirmou enfaticamente -- Chega dói na alma tanta cafajestagem!
--Pois é... -- respirou fundo e começou a andar em círculos -- Depois de um tempo, que varia de acordo com um monte de fatores, a empresa nas Ilhas Virgens, que já está com o dinheiro ‘lícito’, -- fez aspas com os dedos -- adquire cotas da empresa de Anselmo, como se estivesse investindo no país. Aí o dinheiro volta e a pilantragem divide o bolão entre si. -- pausou -- O doleiro ajuda pra que o repatriamento do dinheiro aconteça de forma bem... honesta!2 -- pronunciou essa palavra com sarcasmo
--Entendo o que quer dizer!
--Anselmo arrumou as peças pra gente montar 90% do quebra-cabeça, mas ainda nos falta saber três coisas: -- olhou para a jornalista -- onde estão os laboratórios de crack, quem é o dono da empresa de fachada no Brasil e quem é o dono da empresa nas Ilhas Virgens! -- pausou -- O cerco tá se fechando, a gente não pode demorar muito e eu não tenho estrutura pra desvendar isso em tempo hábil! -- voltou a circular pelo recinto
Tatiana ficou pensando e depois de alguns segundos calada teve um insight: -- Suzana!! -- exclamou empolgada
--O que?? -- respondeu se animando por antecipação
--Deixa eu te contar que lembrei de um lance que aconteceu na festa de aniversário de dona Lourdes e Ricardinho! -- levantou-se -- Aquele tal de seu Romeu, o avô do menino! Lembra dele?
--Sei, o que tem ele? -- continuava empolgada olhando para a outra
--Sabe que ele arrasta um caminhão pela dona Mari, né, fi? Naquele dia, ele tava se exibindo dizendo que foi agente espião na década de 70! Eu ouvi isso!
--Hum... -- a delegada sorriu
--Ele teve uma discussão com seu Mariano, que é totalmente anti ditadura, e no final disse que gostaria muito de provar que o que aprendeu naquela época poderia ser muito útil pro país, em termos de combate a marginalidade! -- sorriu excitada -- Ele deve conhecer muita gente por causa daquela época e...
--Seria o homem certo pra descobrir onde estão os laboratórios! -- concluiu e deu um soco na mão -- Garota, você é demais!
--Uma das minhas colegas de faculdade é filha de um baita jurista da velha guarda! Ele pode ajudar a gente na coisa de descobrir informações sobre as empresas de fachada!
--E se desse certo, todas as nossas dúvidas seriam esclarecidas e o quebra-cabeças seria solucionado de uma vez por todas! -- Suzana estava a ponto de gritar de alegria
--E será um dos maiores furos de reportagem da história desse país!! -- Tatiana deu pulinhos
Após segundos de euforia, a delegada voltou à razão. -- Mas espere aí, garota! -- olhou seriamente para ela -- Isso aqui é vida real, não é como nos filmes!
--Onde quer chegar, delegada? -- perguntou desconfiada -- Disso eu sei!
--A gente vai pagar um preço alto por isso! -- afirmou com certa tristeza -- Sofreremos perseguições sinistras! -- pausou -- Veja o caso de Anselmo, por exemplo. Pra continuar vivo vai ter que ser preso!
--E a prisão dará segurança a ele como??
--Eu garanti a Anselmo que a coisa toda vai rolar como se ele nunca tivesse aberto o bico, pra que a marginalia não dê cabo da vida dele, mas a condição é pesada: o cara vai preso! -- pausou -- Muito provavelmente ele será condenado por um período de três a cinco anos de reclusão em regime semiaberto pelo crime de associação para o tráfico de drogas. Por ser réu primário e de bons antecedentes a Justiça vai enxergar esses atenuantes, mas o cumprimento da pena certamente será iniciado em regime fechado. Além do mais ele jamais porta drogas ou armas, então a coisa alivia. -- voltou a andar em círculos -- Nós seremos perseguidas a ponto de ter de deixar o país! Juliana, você e eu... -- suspirou
--Eu venho pensando nisso... -- respirou fundo -- e tenho uma proposta a te fazer! -- olhou para a delegada
Suzana tinha pontos de interrogação na cabeça. Parou de andar e ficou calada olhando para a jornalista.
--Oficialmente, você investigou esse processo somente até sua aposentadoria. Oficialmente, Juliana não tem ligação com a denúncia da máfia dos remédios. Eu fiz a reportagem sobre as Fazendas Calabreza e o material não divulgado sobre o Polígono da Maconha está em meu poder. Eu gravei a conversa daquele homem com os traficantes. Eu conheço Isa e fiquei desconfiada com o pai dela, por isso investiguei e descobri as coisas que Anselmo faz. -- pausou -- Eu vou falar com seu Romeu, e o que ele descobrir será passado a Federal. Eu vou falar com pai da minha amiga e daí por diante sigo o que ele me recomendar.
--Agora sou eu quem te pergunto: -- cruzou os braços -- onde quer chegar?
--Você não tem qualquer ligação, além da época em que era delegada na ativa, com o que será apresentado às autoridades em sua devida hora! -- propôs -- Se isso não for ferir demais o seu ego, e falo com todo respeito, a investigação fica sendo toda minha! É a velha história da jornalista jovem que busca um furo de reportagem pra alavancar a própria carreira! -- sorriu
--Você tá louca?? -- perguntou enfurecida -- Não tenho vaidades em relação a isso, porque faz muito tempo que perdi a ilusão de que meu trabalho seria devidamente valorizado, mas o que me propõe... isso é loucura!! -- aproximou-se dela -- E acho que ninguém vai acreditar nisso!
--Vamos arriscar e ver. Uma história pode ser contada de várias formas, delegada. -- sorriu desafiadora -- Eu sei contar histórias!
--Se fizer isso, e for convincente, todos os ódios se voltarão contra você!!
--Delegada, eu sei disso muito bem, mas pense comigo! Se eu fizer isso, ao invés de três vidas desarrumadas, será apenas uma: a minha! -- sorriu sarcástica
--Tatiana...
--Eu já tô no fogo mesmo! Sei que meu casamento está por um fio, mas daqui não tem volta! Eu tô disposta a correr esse risco e não acho que me custe livrar sua pele e a de sua mulher! -- segurou as mãos dela -- Você se sacrificou pelos outros a vida toda! Deixe-me fazer isso agora! Sua vida vai bem, você tem uma mulher que te ama, tem uma família...
--Você também tem!! -- protestou
--Mas pra você isso é novo! Pra mim, não!
A morena soltou as mãos da jovem e andou mais um pouco pela sala. Encostou-se na parede, cruzou os braços e perguntou sem meias palavras: -- Está fazendo tudo isso por ambição? Somente pra ser uma grande repórter?
Ela pensou antes de responder e confessou: -- Eu pedi a Deus que o preço desse trabalho, que considero uma missão de vida, não fosse perder o homem que amo, mas depois pensei em uma coisa que ele me disse: sempre virá outra investigação. -- pausou -- Eu amo Renan, amo minha família, mas nunca me senti como me sinto hoje! -- olhou para um ponto perdido no infinito -- Eu sempre quis viver isso que vivo atualmente! --pausou -- Você alguma vez se sentiu como se te faltasse alguma coisa? -- olhou para Suzana -- Sempre achei que era um amor, um casamento. Talvez pela criação, não sei... Mas mesmo depois de casada, esse vazio continuou e hoje eu entendi que "não há amor que supra a falta de nosso Eu; ele não tem essa função!”3
--Então... -- a delegada concluiu -- esse tremendo furo de reportagem, que vai alavancar sua carreira, vai te ajudar a preencher esse vazio? Acredita nisso?
--Creio fortemente que sim! -- respondeu convicta -- Eu sei que Renan não vai me entender e que provavelmente nosso casamento vai terminar, mas a dor e a raiva dele vão passar... Certamente ele encontrará alguém que lhe dê o que precisa. Sei que minha família também vai me condenar por isso e talvez todos duvidem do amor que sinto por eles, mas... -- sorriu -- Tudo tem um preço! E estou certa de que isso também vai passar!
--Estará sacrificando muito, garota! -- respondeu com delicadeza -- Tem certeza do que me propõe? Pra mim é uma proposta dos céus, mas não quero que minha felicidade seja sua tristeza!
--Não será!
--Está abrindo mão do homem que ama!
--Meu pretinho é muito carente, ele precisa de uma mulher independente do tipo mãezona. Eu quis ser essa mulher, mas acho que não sou...
13:30h. 03 de outubro de 2005, Theatro Municipal, Centro, Rio de Janeiro
--Oi, Ana. -- Isabela aparece na porta da sala da bailarina -- Será que poderia conversar com você? -- perguntou encabulada. Estava nitidamente abatida
--Claro! -- Ana estranhou a aparência da jovem -- Entre, por favor! -- indicou a cadeira e a ruiva se sentou -- O que há com você, menina? Nunca te vi assim!
--Eu cometi um grande erro, Ana... -- suspirou -- Às vezes a gente faz as coisas sem pensar, achando que as conseqüências serão pequenas e no entanto! -- pausou -- Nem sei por onde começar...
--O que aconteceu? -- perguntou preocupada -- Algo a ver com a proposta que te fiz?
--Eu fiquei louca com sua proposta! Emocionada, orgulhosa, empolgada... -- passou a mão nos cabelos -- E no mesmo dia recebi uma proposta de Diva Bustamanti...
--Diva Bustamanti? -- arregalou os olhos -- Ela não faz propostas! Os artistas é que imploram uma chance a ela!
--Não pense que estou sendo esnobe, mas eu juro. Ela me procurou e me propôs de fazer parte de sua Companhia de Dança e Escola.
“Essa menina vive me surpreendendo!” -- Ana pensou
--Eu escondi isso de minha mulher. Fiquei com medo da reação dela, não sabia o que decidir, o que fazer... Aí, enquanto eu conversava com minha mãe, Ed chegou em casa sem eu saber, ouviu tudo e interpretou errado: pensou que eu iria deixá-la. -- relembrava com tristeza
--Deus! E o que ela fez? O que aconteceu?
--Ela pegou a moto e saiu correndo como louca! -- emocionou-se -- Eu havia me decidido a recusar a proposta de Diva e aceitar a sua. Mas queria conversar com Ed pra gente ver como fazer. Não acho que pra ser uma grande bailarina preciso decretar um fim ao meu relacionamento!
--Não mesmo! Eu sou casada e não abandonei minha carreira por conta disso! -- pausou -- Mas, me diga, o que aconteceu com sua companheira?
Esforçava-se para não chorar. -- Ed sofreu um acidente de moto na Niterói-Manilha! -- não conseguiu se conter e começou a chorar -- Ela perdeu o controle da direção, deslizou pela pista molhada e foi projetada em um valão podre enquanto que a moto seguiu e se espatifou contra um caminhão. -- chorava -- Ela tá cheia de escoriações pelo corpo, quebrou a perna direita, perdeu dois dedos da mão direita quebrando pulso e... -- suspirou -- teve uma fratura do atlas.4 -- cobriu o rosto com as mãos e chorou copiosamente
--Oh, meu Deus! -- Ana se levantou e abraçou a jovem -- Ah, querida, eu sinto muito! -- beijou a cabeça dela
Isa chorou por alguns minutos. A outra bailarina ficou em silêncio acariciando sua cabeça.
Depois de um tempo calada resolveu continuar: -- Ela ainda tá sendo avaliada, Ana... -- continuava chorando -- Eu não sei o que esperar...
--Eu vou pegar uma água com açúcar pra você!
--Não, por favor! -- buscou se conter e passou as mãos sobre os olhos -- Eu não vim aqui pra chatear você com meus problemas.
Ana pegou uma caixa de lenços de papel e estendeu para a ruiva, que agradeceu e pegou alguns para secar o rosto.
--Você não me chateia! Somos humanas, a vida não é só trabalho! -- pausou -- E onde ela foi internada?
--Ela tava no Azeredo Ensina, em Niterói, e a gente só ficou sabendo porque a mãe de um jovem especial, que estagiou na oficina, trabalha lá e entrou em contato... Imagina que Ed tava sem documento nenhum... -- pausou -- Mas o hospital quase não tinha recursos e nós providenciamos a transferência dela pro Copa Corp. -- suspirou -- A sorte dela, graças a Deus, foi ter sido lançada naquele valão, porque do contrário... Graças a Deus a equipe da SAMU também não demorou a chegar... -- limpou o nariz -- Você tinha que ver como ficou a moto!
--Eu vou fazer uma visita! -- pausou -- Vocês estão precisando de ajuda, Isa? Eu sei que o Copa Corp cobra uma pequena fortuna...
--A gente tá dando conta... -- deu um sorriso triste -- Obrigada por oferecer ajuda!
--Depois dessa imagino que não vá mais querer seguir conosco! -- Ana deduziu
--Não posso, Ana... -- olhou para a mulher mais velha -- E Ed ainda nem sabe do que aconteceu!
--Meu Deus, e ainda tem mais?? -- perguntou em choque
--A oficina dela simplesmente foi consumida por um incêndio muito suspeito. A perícia da seguradora está investigando, mas já me adiantaram que tudo indica que foi coisa criminosa.
--Gente! – exclamou boquiaberta
--Os funcionários estão loucos e três clientes que não tinham seguro automobilístico dizem que vão processá-la. Ainda tem uns vizinhos da oficina reclamando de prejuízos em seus imóveis... -- pausou -- Graças a Deus, os modelos antigos já haviam sido entregues. -- olhou para cima -- Graças a Deus!
--Eu nem sei o que dizer!
--Acho que nós falimos, Ana...
--Querida, eu... -- suspirou -- Minha nossa, eu realmente não sei o que dizer! -- olhava penalizada para a ruiva
--Eu me sinto responsável pelo acidente dela...
--Mas você não é! -- afirmou enfática -- Ela foi, me perdoe, muito impetuosa e por isso aconteceu! -- ajoelhou-se diante dela -- Pelo amor de Deus, você não tem culpa de nada!
--Mesmo que não tivesse acontecido o acidente, esse evento triste com a oficina já seria um motivo forte o suficiente pra eu ficar. -- olhou para Ana -- Meus pais também precisam de ajuda, e sei que tá na hora de nossas relações se estreitarem. -- limpou os olhos novamente -- Ana, eu sinto que tenho um longo trabalho pela frente e não posso fugir disso. Não vou abandonar o balé, até porque é ele quem vai nos sustentar, mas não é o meu momento ainda. No futuro, talvez, mas não agora! -- afirmou convicta -- Eu amo Seyyed! Quero e devo ficar com ela!
A bailarina experiente mirou a ruiva com muita admiração e se levantou. Segurou-a pelas mãos e a fez se levantar também. -- Escute, Isa, estou muito admirada com você! Não sabe o quanto! A maioria das pessoas no seu lugar iria embora sem olhar pra trás e você demonstra pra mim uma sobriedade e força de caráter muito rara de se ver nos dias de hoje! -- emocionou-se -- Sua vez chegará, eu sei! Seja no clássico ou no contemporâneo, ela chegará! Enquanto isso, pode contar comigo pro que der e vier! Eu vou sempre indicar seu nome em tudo o que puder, vou falar de você pra mídia, vou fazer de tudo pra que te surjam oportunidades sempre, porque você merece como ainda não vi outra merecer! -- sorriu com os olhos marejados -- De hoje em diante, será a filha que não tive!
--Ai, Ana... -- abraçaram-se emocionadas
12:50h. 04 de outubro de 2005, Hospital Copa Corp, Copacabana, Rio de Janeiro
Olga estava na enfermaria orando ao lado da filha. Isabela, Mariano, Renan, Juliana e Suzana oravam junto. Mariângela havia ficado na casa do irmão para buscar Ricardinho na escola e orava de joelhos diante de uma imagem da Virgem Maria. Camille estava no trabalho mas não conseguia se concentrar. Fechou os olhos e começou a orar por Seyyed.
Khazni, Maria de Lourdes, Vitória e um imenso contingente de espíritos de luz estavam presentes na enfermaria, igualmente velando pela morena.
Ed também orava, mas não conseguia se concentrar muito por causa das dores que sentia. O braço direito estava engessado e a perna direita, recém operada, havia sido imobilizada.
Minutos depois o médico chega com o resultado dos últimos exames.
--E então, doutor? -- Olga pergunta ansiosa -- O que nos diz??
--Nós cogitamos a hipótese de que a compressão axial, causada pelo impacto da cabeça dela na lama, houvesse transmitido um esforço considerável para as facetas articulares do atlas pelos côndilos occipitais, provocando uma conseqüente fratura tipo explosão.5
“Mas essa história de faceta me persegue!!!” -- a morena pensou contrariada
--Porém, a tomografia mostrou que houve apenas uma fratura isolada do arco posterior. Excluímos por completo a possibilidade de fratura do arco anterior.5 -- fez cara de enigma
--E isso quer dizer o que??? -- Isa perguntou agoniada
“Pois é, eu não entendi patavina!” -- Ed continuava contrariada
--São ótimas notícias!! -- Juliana exclamou sorridente
“Minha japonesa sabe muito!” -- Suzana pensou orgulhosa
--Claro que são! -- o médico concordou -- Tais fraturas são estáveis e a imobilização por meio de colar cervical, durante oito a dez semanas, até a remissão da dor, é suficiente para contornar o problema. Minha experiência mostra que a consolidação ocorre na grande maioria dos pacientes.5 -- sorriu
--Isso quer dizer que ela vai ficar boa sem seqüelas?? -- Renan perguntou empolgado
--Sim e não. Ela não teve os nervos atingidos e não sofrerá complicações sérias na coluna por conta do que houve. -- o médico respondeu -- A recuperação da perna e do braço levará tempo, sendo necessário o acompanhamento com fisioterapeuta. Muito provavelmente haverá alguma deficiência de caráter permanente ou uma restrição na liberdade de movimentos. -- pausou -- E, bem, considere que perder dois dedos foi um mal menor...
--Obrigado, meu Deus! -- a mecânica agradeceu em voz alta. Os outros acabaram fazendo o mesmo. Olga e Isabela beijaram suas bochechas ao mesmo tempo, uma de cada lado do leito
--Você deve agradecer mesmo porque teve muita sorte! -- o médico disse -- Parece mentira o que aconteceu!
--Tem muita gente que ora por ela, doutor! -- Mariano respondeu -- A Virgem Maria também intercedeu, que eu sei! -- afirmou convicto
--Com certeza! -- a mecânica respondeu sorrindo -- E quando eu volto pra casa? -- perguntou excitada
--Segura a onda, aí, Ed! -- Suzana ralhou -- Abaixa esse fogo!
--Calma, você ainda precisa se recuperar melhor. Mas, do jeito como seu quadro evolui, logo sairá daqui. -- sorriu, cumprimentou a todos com a cabeça e se retirou da enfermaria
--Calma, pois sim! -- fez um bico -- Tô doida pra sair daqui!
--Como você se sente, meu bem? -- Olga perguntou zelosa
--Parece que levei uma surra de quatorze homens.
--Por que quatorze? -- a ruiva perguntou achando graça
--Porque o décimo quinto coordenava a pancadaria pra coisa sair bem feita. -- pausou -- Olha, nunca pensei que fosse agradecer a Deus por cair de cabeça no cocô! Quem disse que ir pra m... é ruim? -- brincou
--Já tá safada, falando besteira! -- a delegada ria
--Paciência, mulher! -- Renan sorria -- Você logo sai daqui!
--Esse gesso pinica! Dá vontade de coçar lá dentro!
--Eu vou trazer um coçador pra você, Ed. É muito útil nessas horas! -- Juliana falou -- Mas vê se não faz mais besteira com moto, pra não se machucar de novo! E pára de dar mau exemplo pra Suzana e Ricardinho!
--Ah! -- a morena riu -- Ai! -- gem*u -- Não me faz rir que dói!
--Me comparando com criança?! -- a delegada protestou
--Eu nunca que vou deixar Ricardinho dirigir moto! -- o contador olhou para Olga contrariado
--Mas eu não deixava ela andar de moto, começou a fazer isso depois de adulta! -- justificou-se
--Gente, vocês falam de um jeito! -- Renan comentou achando graça
--Pois é! -- a mecânica também se divertia
--Vocês com esse negócio de moto... -- a japonesa falou olhando para a delegada -- Tô de olho, hein, Suzana? Tô de olho! -- fez cara feia
--Você tá proibida de andar de moto, viu, Ed? -- Isa decidiu -- Até o fim da vida!
--Mas... -- tentou argumentar
--Não tem ‘mas’! -- cruzou os braços -- Acabou esse negócio de moto!
--Hum... -- a morena fez beicinho
--Dona Olga, eu preciso ir, me perdoe. -- Suzana falou -- Já é quase uma da tarde e eu tenho que resolver uns assuntos! -- beijou a cabeça dela -- "Deixe eu ir antes que Juliana também me proíba!” -- pensou
--Não se desculpe, meu amor! -- ela respondeu sorrindo -- Eu é que devo lhe agradecer!
--Também preciso ir, dona Olga. -- Juliana também a beijou da mesma forma -- Tenho que voltar pro hospital. Dei uma fugidinha mas agora...
--Eu sei. Agradeço muito às duas! -- Olga respondeu
Suzana e Juliana despediram-se de todos, porém Renan não cumprimentou a delegada. Seyyed percebeu isso.
--Eu também preciso, ir, amor. -- a ruiva olhou para Ed -- Vai haver uma reunião na EEFD e fui convidada. É sobre um trabalho pra dezembro.
--Fica tranqüila, querida. -- sorriu -- Tá tudo bem!
--A senhora e Mariano podiam ir também, mãe. -- o mecânico ofereceu -- Já passaram noites em claro, estão longe do menino agora... Eu fico aqui com Ed. Depois vocês voltam.
--Eu tô bem, mãe. Vocês precisam descansar um pouco, ver o menino, tomar um banho... -- sorriu -- Podem ficar tranquilos!
--E você, meu amor? -- Olga segurou o rosto do filho -- Está tão abatido, triste...
--Não se preocupe comigo, mãe. -- ele respirou fundo -- Tudo vai dar certo pra todo mundo. Confio em Deus.
--É, eu tô cansado mesmo! -- Mariano falou -- Vamos indo, querida? -- olhou para a esposa
Olga, Mariano e Isabela se despediram dos dois mecânicos e partiram.
Renan ficou sentado olhando para a irmã e pensando em como a morena reagiria quando soubesse da destruição da oficina. “Coitada...” -- estava penalizado
--Como vai a vida, garoto? -- a morena perguntou olhando para cima. Não podia mexer o pescoço
--Tô bem, Ed. -- pausou -- Não acha que devia ficar quieta e descansar? Já fez muita bagunça por hoje, especialmente na hora de almoçar! -- brincou
--Sugar comida com canudinho é triste e ruim, tá pensando que é moleza? -- brincou -- Eu posso estar falando desse jeito lesado mas consigo manter uma conversação! Você não tá legal e percebi que não quis cumprimentar Suzana!
--Humpf! Claro! -- cruzou os braços -- Por causa dela, Tati se meteu em uma confusão ainda maior! Fiquei muito magoado! -- fez cara feia
--Do que tá falando? Qual a relação de Suzana com aquelas fazendas malucas? -- não entendia
--É muito maior do que isso, mas também não sei detalhes. É bom que você também não saiba! Quanto menos gente souber, melhor. -- olhava para a irmã
--Se Tatiana e Suzana investigam alguma coisa juntas, do que conheço de tua mulher, ela entrou na jogada amarradona! -- pausou -- É o que ela gosta de fazer, cara! Se não fosse com Suzana, seria com outra pessoa, mais cedo ou mais tarde!
--Não sabe como me sinto, Ed! -- lutava para não chorar -- Eu me sinto a coisa menos importante da vida dela!
--Você não é! Ela te ama, cara, isso é nítido! -- pausou -- Mas a garota tem um sonho e tá correndo atrás dele! -- pausou -- Eu sei bem como se sente, porque Isa também tem um sonho... e ela desistiu dele por minha causa! -- respirou fundo -- Ela tá aqui porque acha que tem uma obrigação moral comigo. Eu forcei uma barra, mesmo sem querer. -- pausou novamente -- Vou me sentir culpada por isso pelo resto da vida... -- lamentou
--Não diga isso! -- pediu penalizado -- Fala como se você fosse um peso morto na vida dela!
--Falo a mais pura verdade, Renan! -- afirmou com tristeza -- Elas sonham alto! Elas não são como nós! -- pausou -- Nós gostamos de ter a nossa vida, de cuidar das nossas oficinas e voltar pra casa felizes no final do dia. Elas não são assim, elas querem ganhar o mundo e não há nada de errado nisso! -- pausou -- Elas querem chegar no topo das respectivas carreiras e querem chegar lá na batalha, na categoria!
--Mas pra que isso? Não bastava ter um emprego bom? -- reclamou
--Não queira que ela pense de acordo com a sua lógica! -- falou devagar -- Faça o que seu coração mandar, mas não seja impulsivo, reflita. Não queira ser o dono dela, não seja orgulhoso, não mande que ela escolha entre o trabalho e você. -- pausou -- E seja lá o que acontecer, não tente se destruir se for contrariado! Olha só pra mim! Podia ter morrido de bobeira... -- emocionou-se -- Você viu como Isa tá abatida, triste? Não é só por mim, mas pelo que ela teve de abrir mão! -- pausou -- Não faça como eu! Deixe a vida seguir seu rumo e que aconteça o que for melhor pra ambos! -- pausou novamente -- E não guarde mágoas de Suzana! Ela é uma pessoa boa e nada fez pra te prejudicar! -- pediu
Renan ficou pensando em tudo o que ouvia.
***
Ana estava reunida com Àjé.
--De repente parece que a coisa fugiu do nosso controle! -- Ana reclamava -- Isa recebeu duas propostas maravilhosas e recusou a ambas! -- cruzou as pernas -- Seyyed perdeu a oficina e ainda se machucou toda pra completar a situação! -- fez cara feia -- Anselmo anda muito esquisito, vira e mexe tá rezando, tá em igreja... Não sei, não, acho que ele vai fazer alguma bobagem! -- pensou -- Se é que já não fez!
Àjé olhava para ela calada.
--E você? Não me diz nada? -- perguntou revoltada -- Faço tudo o que me manda, no final a coisa termina desse jeito e você ainda fica aí, muda, me olhando? -- cruzou os braços
--Não é minha culpa se a companheira de sua filha e seu marido andem metendo os pés pelas mãos! -- afirmou tranquilamente -- As oportunidades surgiram, se Isabela não quis aproveitá-las...
--E como é que a gente reverte isso? -- debruçou-se sobre a mesa da feiticeira -- Seyyed tem que melhorar logo e recuperar o prejuízo! E Anselmo tem que ter mais firmeza!
--Você quer muita coisa! -- riu brevemente -- Sua ‘genra’ -- fez aspas com os dedos -- está endividada até o pescoço! E seu marido é quase um neurótico! -- olhou nos olhos da outra -- Acha que pode ter tudo assim tão rápido e fácil?
--Não, mas acho que se pode encontrar uma solução! -- encarou com ela também -- A menos que você não seja tudo o que diz ser! -- desafiou
Àjé franziu o cenho e respondeu de cara feia: -- Duvida de mim? -- perguntou entre dentes -- Eu sei o que pode fazer, mas será que estaria disposta? Você dá chiliques pra matar cabritos, faz idéia se eu lhe disser o que terá de fazer!
--E o que é? Não me diga que agora tenho que matar um touro? Aí, minha filha, eu não dou conta!
A feiticeira riu e se levantou. -- Ai, ai, Ana... você é louca! -- balançou a cabeça -- Touro... Não está na Espanha, mulher!
--O que seria? -- insistiu
--Os magos das trevas precisam de sangue, já lhe expliquei isso. -- encarou com ela enquanto acendia um cigarro -- E nenhum sangue é mais poderoso que o humano!
--Ah, então é isso? -- respirou aliviada -- Eu já lhe disse uma vez e repito: todo mês posso fornecer um carregamento daqueles! A menopausa tá longe da minha vida! Sou jovem, conservada e saudável!
--Idiota, não é desse tipo de sangue que falo! -- berrou e permaneceu uns segundos calada. Ana estava agarrada na cadeira e com os olhos arregalados -- Eu me refiro ao sangue carregado de fluído vital, esse que circula por nossas veias! -- cuspiu fumaça -- Precisamos de um sacrifício de sangue! -- afirmou com voz gutural
--Como é????? -- perguntou em choque -- Você diz... igual a filme? Aquela coisa de múmias, cânticos satânicos, virgens enroladas com pano branco e arrancar o coração do infiel com uma espada?? -- estava apavorada
--A realidade não é tão cinematográfica assim, mas... -- sorriu -- Precisamos sacrificar alguém... -- pausou -- Pelas suas mãos!
“Minha nossa, essa mulher é o Bicho Ruim de saias!” -- pensou ao se levantar -- Olha... É melhor eu voltar em outra hora porque me lembrei de um compromisso e... -- engoliu em seco -- Depois a gente conversa! -- deu um sorriso forçado -- Tchau! -- foi embora quase correndo
Àjé a acompanhou com o olhar e riu. -- Você vai mudar de idéia. -- sorriu -- Sei que vai! -- deu um trago -- E quando mudar, é você mesma que eu vou sacrificar! -- cuspiu uma fumaça negra
Um dos ajudantes da feiticeira, que apenas esperava que Ana partisse, foi abordá-la: -- Minha Senhora, os homens estão esperando no portão dos fundos. Querem o dinheiro que prometeu! -- falou medindo palavras
--Mande-os entrar! -- ordenou -- Já posso recebê-los. -- apagou o cigarro
--Com sua licença! -- retirou-se
Logo João, Léo e Rubens estavam diante de Àjé.
--Senhora, -- João começou a falar -- fizemos tudo exatamente como nos pediu. A oficina não existe mais e o seguro não vai cobrir o prejuízo. -- sorriu
--E eu garanti pra que Seyyed fosse embora e não saísse ferida. -- Rubens esclareceu -- Também plantei os explosivos e ela nem percebeu.
--Eu sei. -- ela sorriu -- Meus guias me mostraram tudo. -- apontou para as duas estátuas de sua sala
“Cruzes!” -- Rubens pensou apavorado -- "Essa mulher me dá arrepios!”
--O dinheiro está ali, naquela mala. -- apontou -- Podem conferir e levar. Já dividi em três partes iguais.
--E quanto a nossa proteção? -- Léo perguntou -- Não queremos ser presos!
--Fiquem tranqüilos! -- sorriu -- Daqui a dois dias estejam neste local. -- entregou um papel nas mãos de Léo onde havia um endereço escrito -- Quero os três lá às onze da noite em ponto!
--Nossa, mas o que vou dizer a minha esposa? -- Rubens perguntou surpreso
--E eu? Todos aqui somos casados! -- João reclamou
--E eu ainda moro em Macaé! Não é mole ficar dando jeitinho pra vir pro Rio sem dar na pinta! -- Léo falou contrariado
--Se não quiserem contar com minha proteção... -- deu de ombros
--Tá, a gente dá um jeito! -- João respondeu
--Agora, se não se incomodam. -- sentou-se novamente -- Preciso me concentrar um pouco.
Os homens tiraram o dinheiro da mala e cada um guardou sua parte na respectiva mochila. Despediram-se e foram embora.
O ajudante retornou. -- Senhora, será que eu poderia...?
--O que quer saber? -- olhou para ele de cara feia
--Estes homens que acabaram de sair daqui... -- pausou -- vai usá-los na continuação dos trabalhos que Luizinho lhe pediu?
--Certamente! -- afirmou com um sorriso maligno -- Pro que Luizinho e seus homens me pedem preciso de pessoas com características específicas. Preciso de gente violenta, sem valores morais, ou então de pessoas movidas pelo ódio, por vingança, inveja... Esses homens vibram em faixas energéticas baixíssimas e se colocam como verdadeiros banquetes para os vampirizadores do mal. -- pausou -- Tornam meu trabalho mais fácil!
--E quanto a Ana? Ela não chega a ser como aqueles playboyzinhos ou como esses homens de agora. Afinal de contas, não passa de uma mulher iludida que realmente quer fazer o melhor pra família.
--Meus guias a querem! -- respondeu simplesmente -- Eles mandam e eu obedeço. Foram eles quem me orientaram a achar esses três mecânicos patéticos. Queriam que a filha dela não aceitasse as propostas que recebeu e com isso Ana se desesperaria e se disporia a um sacrifício de sangue. -- pausou -- E a genrinha dela ainda me fez o favor de tornar o que era ruim numa coisa ainda pior! -- sorriu
--Senhora! -- ajoelhou-se diante dela e começou a falar baixo -- Às vezes penso se o que fazemos não nos trará gravíssimas conseqüências...
Àjé esbofeteou bruscamente o rosto do rapaz. -- Idiota! -- berrou -- Como se atreve? -- olhou para o jovem caído no chão com um olhar fulminante -- Meus guias são poderosos e me prometeram poder, dinheiro e vida eterna! Sou fiel a eles, sei que não me abandonarão jamais!
O rapaz se levantou assustado.
--Se está com medo e querendo desistir, acho bom pensar duas vezes! -- alertou -- Os guias não aceitam os traidores!
--Perdoe, Senhora. -- desculpou-se temeroso -- Foi só um momento de fraqueza. -- pediu licença e partiu
A feiticeira não imaginava que os infelizes espíritos com os quais mantinha consórcio não viam nela mais que uma serviçal descartável. Ela não imaginava, apesar de seu imenso conhecimento sobre magnetismo e manipulação fluídica, a carga de sofrimentos atrozes que a aguardavam por anos a fio.
***
Anselmo orava emocionada e fervorosamente em uma igreja.
Havia entregado tudo o que sabia a Suzana e aceitou a possibilidade de ser preso para escapar com vida e proteger sua família.
“Senhor, eu Lhe suplico,” -- pedia mentalmente -- "não permita que uma vez preso os bandidos me peguem e me matem! Por favor, eu Lhe imploro! Permita que a delegada seja realmente verdadeira quando disse que não vai deixar transparecer que eu a ajudei, por favor! Eu aceito ser preso, embora a vergonha e o pavor tomem conta de mim, mas Lhe imploro por minha vida, eu Lhe suplico!” -- chorava -- "Imploro que nada de mal aconteça a Ana ou a Isa ou a qualquer pessoa de minha vida por causa de meu comportamento reprovável! Enquanto viver, sustentarei a mentira de que minha mulher não sabia de meu envolvimento com o tráfico, pois não acho que ela mereça passar por mais sofrimentos do que eu lhe causei com minhas traições!” -- respirou fundo -- "Senhor, faça com que Ana desperte pra vida, desperte pra Sua Luz e seja uma pessoa melhor. Eu a tornei endurecida, eu a tornei fútil, foi tudo culpa minha! Ela sempre foi fiel a mim e sempre girou ao meu redor. Eu a transformei na pessoa que é, por favor, permita-me ter tempo de me redimir com ela e ajude-a a se encontrar de fato! Que ela volte a ser a mulher que conheci no passado! E por favor, permita-me um dia ser um pai decente, pois muito me arrependo pelos anos de ausência, embora estivesse sempre tão perto!” -- continuava chorando -- "Eu peço por Gisele, pra que esteja bem, e que ela saiba que eu a perdôo, de todo o coração!” -- benzeu-se -- "Amém!”
Maria de Lourdes estava de pé, parada atrás dele, irradiando seu espírito para que tivesse forças para enfrentar o que viria. Outros iluminados também o assistiam. Embora ele não imaginasse, não estava só. Agora, devido à mudança ocorrida em seu interior, Anselmo fazia jus à vincular-se ao Alto e certamente receberia o apoio do qual precisava, sem no entanto poder se evadir às dívidas que contraiu.
"A Justiça Divina jamais embaraça ou impede o esforço daquele que deseja recuperar-se de quaisquer comprometimentos; antes oferece os recursos hábeis para que o desenvolvimento espiritual se expresse da melhor maneira possível, porque o amor viceja em todas as ocasiões e circunstâncias, facultando a realização dos magnos objetivos existenciais."6
21:40h. 06 de outubro de 2005, Edifício Max Planck, Copacabana, Rio de Janeiro
Camille estava no apartamento de Letícia. Mariângela havia se comprometido a dormir na casa do irmão e a loura preferiu ficar com a namorada para não ficar sozinha. A professora mantinha-se concentrada preparando uma proposta de projeto de pesquisa enquanto a jovem engenheira estudava o material do seu curso de formação.
Olhou para o relógio. “Ô louco, já são nove e quarenta! Amanhã é dia de trabalho!” -- pensou -- "Por hoje é só!” -- começou a guardar o material -- Letícia, posso usar a internet? -- pediu
--Claro, querida! -- sorriu para ela -- Já disse que aqui você fica à vontade!
--Aliás, -- foi até a física e sentou-se do lado dela -- queria te agradecer por ter paciência comigo... -- sorria
Letícia interrompeu o que fazia e segurou o rosto dela. -- Eu imagino o quanto esteja sofrendo por causa do que aconteceu com Seyyed e a oficina. E além de tudo você está sendo treinada, precisa estudar, fazer provas... é muita pressão, eu sei. -- beijou-a
--Tá sendo difícil manter a concentração... -- acariciava os braços da outra -- Eu tenho muita pena de Seyyed, penso em como vai reagir quando souber de tudo... A oficina era um lugar tão bacana pra se trabalhar... -- lamentou -- Quem mais vai empregar os jovens especiais?
--É... -- suspirou e segurou as mãos da loura -- apesar de morrer de ciúmes dela eu reconheço que é uma barra pesadíssima!
--Ela tá falida, Letícia. E cheia de dívidas! -- pausou -- Havia tantos equipamentos sofisticados ali, a estrutura de restauro de carros antigos, carros de clientes... Graças a Deus que todos os modelos antigos já haviam sido entregues! E graças a Deus nós transferimos o ferramental que veio dos Estados Unidos pra oficina de Goiânia... -- pausou -- E o mais importante, graças a Deus ninguém se feriu!
“Camille ama aquela mulher...” -- pensou -- "Será que um dia conseguirei conquistá-la de fato?”
--Eu te agradeço de verdade por sua paciência comigo... Sob todos os aspectos!
--Se também pensa no aspecto sexual da nossa relação ao dizer isso... -- passou a mão nos cabelos dela -- Eu acho que a gente ainda tem que se entrosar mais uma com a outra e isso não é uma coisa impossível de acontecer... Tô disposta a ter paciência contigo, pode acreditar. -- sorriu
--Fico feliz que não tenha desistido de mim por causa de meus receios e pudores...
--Gosto de você, minha loura! -- beijou-a -- E reconheço que você também tem paciência com minhas ausências e correções de prova e orientação de alunos e participação em bancas... Meu trabalho toma muito do meu tempo, eu sei.
--É o preço de se namorar uma sumidade! -- beijou-a -- Alguém que participa das reuniões da Agência Internacional de Energia Atômica não é qualquer desavisada! -- brincou e olhou para o material no qual a professora trabalhava -- Tô te atrapalhando, né? O que faz aí?
--Uma proposta de projeto de pesquisa pra enviar pro Museu de Arte Moderna do Rio. Ofereço a eles uma oportunidade de investigar suas obras de arte sem destruí-las. É bem interessante e podem-se obter muitas respostas. -- sorriu -- Já fiz muito isso com estátuas, fósseis, cerâmicas antigas, quadros e tudo mais. Na Índia tive um campo vasto pra treinar essa prática e adquirir conhecimento.
--Meu, que coisa interessante! -- sorriu -- Mas por que você vive oferecendo projetos de pesquisa? Você coordena tantos! Como pode dar conta de tudo isso? -- perguntou surpresa
--Desde a década de 90 o Governo cortou muito da verba destinada a pesquisa e extensão nas universidades públicas. Nós precisamos correr atrás do dinheiro porque senão se torna impossível sustentar os laboratórios e as equipes altamente especializadas que temos lá. E precisamos comprar material, equipamentos... Sem a grana desses projetos, a pesquisa não se sustenta! -- explicou
--Mas... nesse caso como pode ser mantida a pesquisa de longo prazo? Aquela que, aparentemente, é uma viagem na maionese mas que gera o conhecimento que mais tarde se transformará em um bem à sociedade?
--Temos cada vez menos realizado tais pesquisas. É uma bola de neve, querida. A universidade vende projetos pra manter as pesquisas e pra que se tornem atraentes os projetos precisam dar frutos a curto ou, no máximo, a médio prazo. Com isso, esse tipo de pesquisa que você comenta vai ficando em segundo plano. Os estudantes de graduação, mestrado e doutorado preferem se dedicar aos temas que chamam dinheiro, até pra que sejam vistos pelas instituições que contratam nossos laboratórios e arrumem emprego no futuro. E por aí vai...
--Nenhum deles quer ser professor ou continuar no laboratório?
--Claro que quer, mas cadê que abre concurso? E quando abre é pra uma vaga e olhe lá! Quanto a contratar alunos e formar uma equipe, eu até contrato mas não posso oferecer a eles um plano de carreira porque nunca sei se terei projetos e verba o suficiente. É justamente pra tentar segurar os talentos no laboratório que corro atrás de tantos trabalhos.
“Corre atrás, consegue e dá conta! Letícia é tão inteligente!” -- pensou orgulhosa -- E com isso nós temos grandes dificuldades pra montar e manter no país grupos de pesquisa fortes como existem na Europa, nos Estados Unidos, na Índia... -- cruzou os braços -- E aqui tem tanta gente boa! -- fez cara feia
--Com todas as dificuldades o Brasil ainda consegue se destacar em várias áreas do conhecimento! Fico imaginando se nossos governantes fossem mais comprometidos com o país, como seríamos poderosos no cenário da pesquisa internacional. Veja o exemplo da China! -- sorriu -- Não demora muito, com a forma agressiva como os chineses vêm investindo em ciência e tecnologia, aqueles malucos dominarão o mundo!
--Pensei que esse governo atual tivesse melhorado a situação do ensino de nível superior no país... Que decepção, viu?
--Melhorou, mas ainda falta muito pra dizer que tá bom. E a gente, da área de exatas, nem tá em situação tão periclitante se formos comparados a cursos como Letras, Filosofia, Música, Artes, Dança... pra eles é que a coisa é braba mesmo!
--Imagino! Não se valoriza a cultura nesse país! -- pausou -- Bem, chega de te atrapalhar. Já é tarde e você tá querendo concluir sua proposta... -- beijou-a e se levantou -- Vou usar a internet.
--Fique à vontade. -- voltou a se concentrar no trabalho
Buscando pensar em outras coisas, Camille decidiu pesquisar sobre seu Ibope no mundo lésbico. Queria massagear seu ego.
“Nossa! Meus contos já têm leituras de montão!!” -- sorriu orgulhosa -- "E olha quantos comentários!! Sou autora preferida de uma pá de mulher!” -- pensava eufórica -- "Eu cheguei pra abalar a vida desse povo!”
Decidiu comparar-se com as outras autoras. “Humpf! Elas têm muito mais leituras, mais comentários e mais fãs do que eu... Que sacanagem!” -- lembrou-se de Solitudine -- "Ah, mas eu devo me comparar com quem começou a escrever na mesma época que eu! Vamos ver o Ibope daquela caipira!” -- acessou a história da outra -- "Coitadinha!” -- riu -- "Ela não me faz frente!” -- clicou nos comentários -- "Vamos ler o que escrevem pra ela. Devem ser votos pra que termine logo o único conto que tem.” -- riu
Começou a ler os mais recentes. “Ih, a motoqueira doida é a nova beta dela! Agora é que danou-se!” -- riu de novo
Letícia olhou desconfiada para a loura. “Do que será que ela ri?”
De repente, um dos comentários a pega de surpresa.
Luanab said:
“P.S.: Eu sou mais fã sua que da Crisálida; que ela leia isso e se morra”!
--O que???????? -- gritou -- Luana, eu não acredito nisso!!! Não, não, não!!! Como pôde?? Depois de tudo você teve coragem de fazer uma coisa dessas comigo, sua ingrata!!!
--Que é isso, menina? -- Letícia reclamou assustada
--Como Luana pôde ter me traído desse jeito?? Traição das mais imperdoáveis!!! Ô louco, não se pode confiar em ninguém! -- saiu do site revoltada e desligou o computador -- Traidora!!! Você cospe em uma conterrânea, sua ingrata! -- deu um tapa no mouse -- Tô danada!! Tô danada!!! -- gritava
--Quem é Luana?? -- a professora perguntou ao se levantar -- "Não acredito que Camille me trai no mundo virtual!” -- pensou preocupada
--É uma droga, viu? -- levantou-se e ficou andando pela sala -- A gente se dedica a agradar essas mulheres e olha o que recebe: uma bela facada pelas costas! -- fazia um drama -- Um metro e oitenta e três de pura traição!!!
--Quem é Luana?? -- Letícia parou diante dela -- Está tendo um caso virtual com essa mulher?? Quem é Luana, Camille? Eu quero saber! -- cruzou os braços de cara feia -- Você sabe até a altura dela!! Tô vendo muita intimidade nisso aí! -- protestou
--Que caso, criatura? Eu nem a conheço! Sei a altura dela porque escreveu dizendo! -- passou a mão nos cabelos -- Luana era uma de minhas fãs mais fiéis!!
--Fã??
--Esqueceu que sou escritora? -- pôs as mãos na cintura
--Ah! -- começava a entender
--Eu nunca matei uma personagem sequer! Elas chegam vivinhas da Silva até o final de cada conto! A caipira, ao contrário, é uma psicopata! Já matou um monte!! -- reclamava -- Um foi assassinado logo no começo da história, outros se danaram por doença, uma senhora morreu do coração, outra morreu nem sei de que, matou um policial, uns malucos foram sacrificados pro capeta e sabe-se lá quem mais vai bater as botas! É uma coisa horrorosa!! Aquela história é uma mistura cafona de Ghost com Sexto Sentido e um toque de Premonição!
--E por que você lê, então? -- perguntou rindo
--Eu não leio! -- protestou -- Só fiz o favor a ela de passar os olhos naquela porca miséria! E fiz isso querendo ajudá-la! -- pausou -- Acompanhei somente até o final da quarta temporada mas jurei a mim mesma nunca mais olhar pra uma linha sequer!
--E ela escreveu até qual temporada? -- perguntou curiosa
--Vai lançar a quinta ainda. É um bocado lerda, viu? -- fez um bico
Letícia riu. “Ô, menina maluquinha...” -- pensou
--E agora, depois de toda minha dedicação, Luana me apunhala pelas costas e declara sua preferência por aquela... aquela caipira sem noção! -- balançou a cabeça com desgosto -- Acredita que ela escreve a mesma história desde que eu era da faculdade? -- perguntou indignada
Letícia riu gostosamente. -- Então era isso? Ai, ai, Camille, você é muito louca!
--Você não entende, não é? Acha que tudo é brincadeira! -- reclamou
--Pare de se comparar com os outros, querida. Minha amiga demora a escrever porque ela é como eu: faz várias coisas ao mesmo tempo. Além do mais, agora tem que dar atenção a Samira. -- sorriu -- O que há de errado no fato de alguém gostar mais do trabalho dela que do seu? Ninguém é unanimidade!
--Ah, mas... -- cruzou os braços e fez um bico -- eu sou muito melhor do que ela!
--Melhor e pior são conceitos relativos, meu bem. Você não precisa ser melhor que ela ou que qualquer uma outra. Basta caprichar no que faz e daí as coisas vão acontecendo naturalmente. -- puxou-a pela cintura -- Além do mais você tem uma fã que não vai te apunhalar pelas costas... -- beijou-a sensualmente
--Pára, Letícia! -- deu um tapa no braço dela e sorriu -- Amanhã é dia de trabalho...
--E qual o problema? Hum? -- beijou-a novamente -- Sabia que, -- afastou-se dela e foi até o sofá -- isso aqui é um sofá cama? -- puxou a parte de baixo -- Fofinho... -- voltou para junto dela
--Letícia... -- foi novamente agarrada e beijada -- Ai... -- soltou um gemido
A professora conduziu-a até o sofá sem interromper o beijo. Em pouco tempo estava deitada sobre a loura.
--Ai... -- sorria -- você é muito tarada, viu? -- sentia que mãos ágeis tratavam de despi-la
--Sou sua maior fã! -- mordia o pescoço da outra -- E só sua!
--Mas, você... Ah!! -- fechou os olhos e gem*u sentindo a provocação dos dedos da amante e seus lábios devorando um seio -- Ai, Letícia... -- sorriu
***
Mariano telefonava para Romeu.
--Alô? -- o pai do mecânico atendeu
--Oi, Romeu, desculpe a hora. É Mariano, como vai? Eu liguei várias vezes ontem e hoje e como não vinha tendo sorte, resolvi arriscar tarde da noite... -- desculpava-se
--Estou bem, graças a Deus! E Seyyed, como vai? Ainda não fui visitá-la porque estava fiscalizando a obra que meu irmão contratou. Acabou tudo só hoje, por isso você não me encontrou! -- pausou brevemente -- Também queria saber de meu neto!
--Seyyed vai bem e logo receberá alta. Ricardinho está ótimo de tudo e vai muito bem na escolinha, graças a Deus e a Virgem Mãe. -- pausou -- Eu queria falar com você sobre o apartamento de Silvio. Pode ser?
--Apartamento de meu neto, você quer dizer. -- corrigiu
--Isabela quer alugar o apartamento delas em Ipanema e morar com Seyyed em outro local. Ela me pediu pra te perguntar se você alugaria e por quanto.
Romeu estranhou o pedido. -- Por que ela quer fazer isso? -- perguntou
--A ESSALAAM foi destruída em um incêndio criminoso, Romeu. -- o contador afirmou com tristeza -- Seyyed perdeu tudo que tinha lá. A situação dela é complicada!
--Mas quem fez isso?? -- perguntou revoltado
--A polícia tem tomado o depoimento dos funcionários e investigado, mas até agora nada se concluiu. O que se sabe é que alguém que conhecia a oficina plantou bombas por lá. Bombas de um tipo que já foram encontradas em poder de traficantes.
--Meu Deus, que absurdo! E Ed sempre foi uma pessoa tão boa! -- estava indignado -- Eu não vou alugar o apartamento pra elas! Podem ficar lá de graça e pelo tempo que quiserem! Silvio e eu devemos muito a Ed e Olga! E eu também te devo, pois afinal de contas você cria meu neto!
--Eu vou transmitir o que você disse a Isa, então.
--Elas podem ir quando quiserem. Eu vou aí no final de semana pra visitar Seyyed e meu neto e entrego as chaves. Elas só precisarão é levar os móveis porque o apartamento está quase vazio. Vendi quase tudo que meu filho tinha!
--Tudo bem, eu vou avisar a Isa. -- pausou -- À propósito, também te liguei porque tem uma pessoa te procurando. Não sei qual é o assunto mas deixarei que ela saiba que você virá.
--De quem se trata? -- perguntou curioso
--Você vai saber. Ela me perguntou por você ontem.
“Hum...” -- ficou excitado -- “Será a minha Julieta querendo me fazer uma surpresa??” -- pensava em Mariângela -- "Será que ela finalmente se rendeu ao meu charme?” -- sorriu
16:00h. 07 de outubro de 2005, Barra Shopping, Barra da Tijuca, Rio de Janeiro
Juliana passeava com Mariana, filha de Ivo, pelo shopping. Desde a conversa que teve com os irmãos, costumava a sair com a menina sempre que pudesse.
--E então, meu bem? Você até agora não me disse o que quer de presente de aniversário! -- segurava a mão da menina
--Ah, tia, eu tô sem graça. Afinal de contas você e tia Suzana já vão me dar uma festinha de presente! Não quero que achem que sou mercenária!
A japonesa riu. “Minha sobrinha é uma criança tão esperta e boazinha!” -- pensou orgulhosa -- Claro que não vou pensar isso, sua boba! -- beijou a cabeça dela -- Eu que pedi pra você escolher um presente, nem foi você que falou nada!
--Então eu tenho que pensar. Não é fácil escolher presente!
--Que tal fazer um lanche? Enquanto mastigamos você pensa! -- sorriu para ela
--Tem razão! Eu raciocino melhor de barriga cheia! -- sorriu também
Foram para a praça de alimentação e escolheram o que comer. Durante o lanche conversavam.
--Tia, minha mãe bem me deu presente ontem! -- bebeu um gole de suco -- Ela comprou um vestido e sapatos novos! -- exclamou empolgada
--Nossa, só ganhou presente bom! -- mordeu o sanduíche -- Já tem até a roupinha que vai usar na sua festa!
--Eu já experimentei e fiquei bonita! Vou arrasar! -- comia
--Com certeza vai! -- sorriu -- Você é uma japonesinha linda!
--Você acha? -- perguntou feliz
--Claro que sim! -- passou a mão na cabeça dela enquanto bebia um pouco de suco
--E meu pai bem me deu ontem também uma boneca linda e um livro!
--Ai, que bom! Vejo que ontem foi um dia daqueles! -- brincou
--Tia, eu ainda brinco de boneca. Gosto de brincar! Tia Luiza que diz que eu tô velha pra isso. Diz que eu sou boba... Você acha? -- perguntou preocupada
--Eu não! Você é muito é da inteligente! -- respondeu de cara feia -- Criança tem que brincar! Eu, hein? -- franziu o cenho -- "Eu não gosto daquela tal de Luiza não é à toa!” -- pensou revoltada -- "Vai ver tem inveja da minha sobrinha porque os filhos dela são tudo trouxa!”
--Ela disse que eu já tô uma mocinha e nem me pinto! Também falou que minha mãe só me dá roupa de nenenzinho! -- dava queixa da tia
--Você é uma criança e tem que se vestir e se comportar como tal! Não ligue pro que ela diz! -- fez um bico -- "Aí, depois se a menina começar a se vestir com o rabo de fora e começar a andar toda maquiada, a cachorra da tia vai colar com outras mulheres pra chamar a menina de assanhada e falar mal das garotas de hoje em dia!” -- pensava com raiva
Depois de uns segundos calada a menina decidiu: -- Hum! Tia, já sei o que quero: uma agendinha eletrônica pra marcar meus compromissos!
A enfermeira achou graça. -- Tudo bem, então veremos uma pra você.
--Pode ficar sossegada que minhas coisas duram! É que eu sou xerifa da turma e tenho responsabilidades!
--Xerifa?! -- riu
--É. Na minha escola cada turma tem um xerife; na minha sala sou eu! -- comia
--E o que faz uma xerifa? -- perguntou curiosa
--Faz as coisas que a professora pede e toma conta da sala. Resumindo, bota moral na coisa, sabe? -- explicou -- Pra ser xerifa tem que ter nota boa. Eu tenho, aí não perco o poder! -- bebeu suco -- Todo mundo me respeita!
--Agora veja só! -- achou graça -- "Essa aí é uma pequena Suzana!” -- pensou sorridente -- Se uma menina prestes a fazer nove anos tem esse poder todo, o que se dirá quando ficar grande? -- brincou
--Quando eu crescer quero ser professora de faculdade! -- comia
--Nossa! -- terminou de lanchar e limpou os lábios -- Então você gostaria de dar aulas?
--Eu dou aula, tia! -- exclamou orgulhosa -- Explico a tarefa de casa pros colegas!
--Meu Deus, que menina inteligente! -- sorriu orgulhosa
--Mamãe quer que eu seja médica ou advogada, mas eu não quero. -- comia
--Você ainda é muito nova. Com o passar do tempo vai descobrir o que realmente quer.
--Tia... -- terminou o lanche -- queria te contar uma coisa! -- limpou os lábios
--O que? -- olhava para ela
--Sofro por amor! -- falou baixinho para não ser ouvida por outras pessoas
--Ah, é? -- controlou sua vontade de rir -- E quem está te fazendo sofrer por amor? -- perguntou em voz baixa
--Uma colega chamada Taís! -- quase sussurrou
“Oh, oh!” -- Juliana pensou preocupada
--Ela é tão legal! -- sorriu -- É da minha idade, bonita, do cabelo preto cheio de trancinha, pele preta... Eu adoro ela!
--E como sabe que sofre por amor? -- perguntou com jeito -- De repente você só gosta dela como coleguinha!
--Eu queria namorar ela! -- respondeu convicta
--E o que é namorar na sua opinião?
--É andar de mãos dadas, dividir os brinquedos, fazer as tarefas de casa juntas, passear, se abraçar...
--Ah, mas isso você pode fazer com qualquer coleguinha! -- sorriu
--E dar beijo na boca! -- complementou
--Isso aí já não dá pra fazer com qualquer colega... -- coçou a cabeça -- "Gente, que situação! O que eu digo?” -- questionava-se
--Hoje eu perguntei se ela queria namorar comigo. Bem na hora do recreio, sabe? A gente tava brincando de pique esconde. -- pausou -- Ela ficou zangada e disse que se eu falasse aquilo de novo, ela ia contar pra professora e pra mãe dela... -- suspirou -- Fiquei tão triste!
--Ah, eu... -- continuava sem saber como agir -- "E agora, o que eu digo, o que eu faço??” -- pensou nervosa -- Eu acho que você deveria fazer um esforço e deixar ela pra lá. -- olhava para a sobrinha -- Senão pode ter uma confusão muito grande e você vai deixar de ser xerifa!
--Ah, isso não! -- protestou
--Escute, Mariana. -- segurou uma das mãos dela -- Quando a gente gosta de alguém e a pessoa não gosta igual, a gente deve deixar a pessoa em paz. -- pausou -- Além do mais, você é menina, essa Taís também é, e se a família dela ou a professora souberem do que você falou, eles vão brigar com você. E os seus pais também vão. -- falava com carinho -- Eu entendo o seu sofrimento, mas a gente não pode se meter em encrenca à toa!
Mariana abaixou a cabeça. -- Entendi. Mas que eu gosto dela, eu gosto!
--Eu sei! -- levantou o rostinho dela segurando pelo queixo -- E é justamente por te entender tão bem que não quero que sofra. -- acariciava a cabeça da criança -- Você ainda é muito nova, muita coisa vai acontecer na sua vida! -- sorria -- Um dia vai gostar de alguém que também goste de você, mas por enquanto, -- fez cócegas na barriga dela -- abaixe esse fogo porque ainda é muito pequena pra pensar em namoro! -- brincou
A menina riu. -- O meu primo é da minha idade e também pensa em namoro! Juninho bem já me disse isso! -- falava do filho de Guilherme -- A Tainá é que não pensa... -- pausou -- Mas também ela só tem sete anos! É muito criança! -- concluiu
--Ah, é! -- riu -- E Juninho quer namorar quem? Você? -- perguntou sorrindo
--Eu não! Ele quer namorar é um garoto chamado Fabrício que estuda no colégio dele! Mas o garoto nem sabe que ele existe...
“Ai, meu Deus!” -- Juliana pensou preocupada -- "Será que cada um dos meus irmãos tem um filho homossexual?” -- perguntava-se -- "Por que eu sinto que Ivo e Guilherme ainda vão me responsabilizar por isso??”
****
Priscila acabava de chegar da faculdade. Lady estava sentada no sofá abraçada ao travesseiro.
--Aummmmmmmm!! Aummmmmmm!!! -- Lila meditava sozinha
--O que houve, Lady? -- perguntou desconfiada colocando as bolsas sobre o sofá
--Ouvi umas músicas românticas, pensei, chorei... -- fungou
“Ah, então é por isso que Lila medita! Lady já deve ter feito um berreiro medonho!” -- deduziu
--Eu tô numa fase tão reflexiva, sabe, amiga? -- gesticulava -- Acho que a gravidez me faz sentir vontade de ouvir o meu Eu interior, aquela voz que diz...
--Aummmmmmm!!! Aummmmmmm!!!
--Eu estive pensando na minha vida amorosa, sabe? -- olhou para a morena -- Lembrei dos meus primeiros namorados, que você nem conheceu, e mais dos tantos outros que vieram depois: Silvio, Kawai...
--O kaozeiro e o surfista faminto! -- revirou os olhos -- "O que valeu foi que aquele idiota carregou o papagaio do Cão e eu fiquei livre daquele bicho possuído!” -- pensou
--Carlão, Marquinhos, Antunes...
--O enrustido que me admirava, o enrolão fazedor de filho e o reclamão do táxi! -- fez um bico
--Fernando, Diego, Melquíades...
--Ah, peraí, o coroa Somebody Love foi teu namorado, mas Diega da praia foi ficante! E aquele tal de Melquíades nunca nem teve nada contigo! -- retrucou
--Foi amor menino, tá? Você não entende... -- reclamou -- Era um sentimento puro!
--Sei! -- fez um bico
--Salatiel...
--Aquilo ali era o Demo em pessoa. Deus me defenda! -- benzeu-se -- Eu olhava pra ele e só conseguia pensar em...
--Aummmmmmmmmmmmmm!!! Aummmmmmmmmmmmmm!!
--E no final, Charles... -- suspirou -- Burra fui eu em acreditar que Lady Dy e Príncipe Charles pudessem dar certo em algum lugar do mundo... -- abaixou a cabeça -- Ele foi tão egoísta, sabe? Depois eu fiquei pensando e vi tudo o que não queria ver... -- olhou para a morena -- Ele queria se casar comigo só pra não ir sozinho pra Indonésia, ainda mais que acha que as mulheres de lá são feias... Não considerava que minha carreira era tão importante quanto a dele e, o pior de tudo, falou do bebê de um jeito tão... -- começou a chorar -- Era como se eu fosse uma golpista querendo me aproveitar dele. Tinha que ver como falou do bebê, era como se fosse um... um lixo... -- chorava
--Vem aqui, Lady! -- abriu os braços e a amiga deitou no colo dela -- Não fique pensando nesses homens, muito menos em Charles. Eles não te amaram de verdade! Foram um bando de aproveitadores que se criaram às suas custas por conta de seu sonho de casar! -- beijou a cabeça dela
Lady chorou por uns minutos e ficou quieta. De repente falou: -- Eu nunca mais quero saber de casar na minha vida! Acabou! Casamento nunca mais! Agora que sou mãe, que carrego uma vida em meu ventre, só consigo ouvir a voz do meu útero me dizendo...
--Aummmmmmmm!! Aummmmmmmmmmm!!
--Não diga isso! Você ainda não encontrou a pessoa certa, mas não quer dizer que essa pessoa esteja tão distante de você. -- pausou -- Viva sua vida e dê tempo ao tempo.
Lady pensou -- "Eu sabia que aquele sonho era profético!” -- concluiu
--Concentre-se em você, na sua gravidez e tenha fé! A gente vai saber se virar bem!
“Ih, ela quer formar família!” -- pensou
--Vamos nos unir e tudo vai dar certo! -- a morena falou
Lady sentou-se novamente e olhou para a dentista. -- Você desistiu mesmo de ir pro Canadá? -- perguntou receosa
--Não desisti, apenas adiei. -- sorriu -- Fica pro meu doutorado!
--Não vai se arrepender por isso? Quando eu fizer das minhas loucuras você vai...
--Vou te dar uma bronca e só. Sem arrependimentos. -- pausou -- Ainda bem que Lila parou de meditar, detesto ficar ouvindo aum! -- reclamou
--E quanto a você? -- passou a mão nos olhos -- Quer falar sobre o aborto que fez? -- perguntou com delicadeza -- Já desabafou sobre isso alguma vez?
--Depois que aconteceu nunca desabafei... -- pausou -- Eu tive um caso com um dentista francês que fez um intercâmbio aqui. Quando ele já havia ido embora descobri que estava grávida e achei que isso iria estragar minha carreira. -- abaixou a cabeça -- Eu conversei com uma colega e ela me arrumou um lugar pra fazer o aborto. -- pausou -- Eu fiquei muito indecisa e me desesperei. Procurei por Isa pra pedir ajuda, ela me aconselhou a não fazer, mas no final... eu fiz! -- relembrava -- Ela foi comigo no dia e me apoiou bastante, especialmente depois da crise de choro que tive ao ver meu bebê reduzido àquela massa sem vida! -- emocionou-se -- Não há um dia da minha vida em que não me lembre disso... -- suspirou
--Sinto muito! -- segurou a mão dela
--Eu nunca disse pros meus pais e nem pro Clermond. -- pausou -- Eu sabia que meus pais fariam um rebu por causa disso e não quis me arriscar a ouvir o francês dizendo que era um golpe meu. Tenho ódio dessa postura ridícula dos homens, que só fazem droga, mas sempre pousam de vítimas... -- suspirou -- Mas hoje eu me arrependo por ter me rendido ao preconceito dos outros e a meu medo de encarar uma gravidez. Uma criança mudaria tudo, mas não tinha porque estragar minha carreira... Ai, se eu pudesse voltar no tempo...
--Você não pode voltar, mas salvou uma vida! -- sorriu -- Na verdade, salvou duas vidas! Obrigada por ter me impedido de fazer...
--Sei lá o que me deu, mas eu tinha que fazer aquilo... -- sorriu em retribuição e entrelaçaram os dedos
--E eu nunca vou esquecer!
Lila chega na sala e se surpreende com as duas de mãos dadas, se olhando e sorrindo. “Ih, meu Deus, olha o amor acontecendo!” -- pensou -- "É melhor eu voltar pro meu quarto!” -- encaminhou-se para dar meia volta
--Lila, volte aqui! -- Priscila olhou para ela e ordenou -- Temos que ter uma conversa definitiva sobre as regras dessa casa daqui por diante! -- soltou a mão de Lady e se levantou
--Mas, bá, e o que seria? -- perguntou desconfiada
--Agora tudo vai mudar! É o momento de se tomar vergonha na cara! -- pegou Lila pelo braço e a fez se sentar
--É isso aí! -- Lady apoiou
--Lady, preste atenção! -- olhou para a amiga -- Não quero saber de você com namorado! Trate de estudar e se formar logo! Não ouse repetir matéria alguma nesse período! -- pôs as mãos na cintura -- E trate de juntar dinheiro pra montar o enxoval do seu bebê. Fique tranqüila que vou te ajudar!
“Nossa, que coisa decidida!” -- Lady pensou admirada -- "E ela me quer exclusiva! Que fofo!”
--Você também vai ajudar, Lila! -- olhou para a gaúcha
--Eu?! Mas eu não tenho nada com isso, gurias! -- arregalou os olhos
--Se mora nessa casa, tem sim! E escuta outra: ano que vem trate de destrancar tua matrícula e voltar a estudar! A senhora vai se formar! -- fez cara feia
--Mas eu não sei o que quero da vida, daí!
--Quanto falta pra se formar? -- Lady perguntou curiosa
--Duas matérias e a monografia.
--Ah, minha filha, então você vai se formar, sim senhora! Vai honrar seu próprio esforço e mais o dinheiro dos teus pais! Aqui nessa casa ninguém nada pra morrer na praia! -- Priscila decidiu
“Nossa, que coisa firme!” -- Lady continuava babando
--Mas, e minhas aulas?? Como é que eu vou ter dinheiro??
--Você estuda e no tempo vago dá aula! -- respondeu tranquilamente -- Trambiqueira como é, vai acabar arrumando um jeito de ganhar dinheiro até na faculdade!
“Hum, mas eu não tinha pensado nisso, tchê!” -- a mística se empolgou
--Eu vou continuar com meu trabalho e minha especialização, e assim cada uma vai se virando como pode! E todo mundo vai se ajudar!
--Sem egoísmo, viu Lila? -- Lady olhou para a mística -- Agora somos as três mosqueteiras!
Lila revirou os olhos.
--Dito isso, vou tomar meu banho. -- pegou as bolsas -- E mais uma coisinha: -- olhou para Lady -- hoje foi o último dia de berreiro nessa casa! -- foi para o quarto
--Mas, bá, Priscila é tão mandona e controladora! -- reclamou -- Tu vais agüentar isso? -- perguntou para Lady
--Priscila tem força, minha filha! É a força da mulher brasileira! -- afirmou orgulhosa --Nós agora somos uma família! Eu, ela e meu enviadinho! -- pôs a mão na barriga -- E você também; como agregada, é claro! -- complementou
--Humpf! -- fez um bico -- Eu só peço que vocês não fiquem se agarrando na minha frente! -- levantou-se e foi para o quarto
--Se agarrando?! -- perguntou chocada -- Eu, hein? -- fez cara feia e ficou resmungando -- Nós somos amigas do peito, nada de segundas intenções! Não é porque Priscila é inteligente, interessante, decidida, bonita, morenaça, pernuda, dona de um corpão que eu vou ficar aqui pensando em... -- calou-se -- Ô, Lady, que papo é esse? -- perguntou para si mesma desconfiada
***
Seyyed havia acabado de chegar em casa acompanhada por Olga, Mariano, Ricardinho e Isabela. Após a morena ter tomado banho e feito um lanche, Olga foi embora com o marido e o menino pois sabia que a filha tinha muito o que conversar com a ruiva.
Ed estava deitada na cama com o tronco e a perna apoiados em dois travesseiros. Por causa do colar cervical não podia mexer o pescoço e só podia olhar para cima ou para frente. Isa havia acabado de arrumar tudo o que deveria e foi para o quarto.
--Ainda bem que hoje é sábado. -- sorriu -- Hoje e amanhã estarei totalmente disponível pra você! -- sentou-se na beirada da cama
--Isa, nós precisamos ter uma conversa bem séria. -- falou calmamente
A bailarina respirou fundo e respondeu: -- Acho que sim...
--Por que escondeu de mim as propostas que recebeu? -- perguntou sem rodeios -- Eu jamais te pediria pra não aceitar...
--Eu sei! -- afirmou enfática -- Mas é que... -- levantou-se e começou a andar -- Eu fiquei tão lisonjeada, eufórica, perplexa... -- olhou para a outra -- Sabe quando você espera por uma coisa a vida toda e quando ela acontece você simplesmente não sabe o que fazer? -- suspirou -- Eu tive medo da sua reação. Tive medo que no final quisesse terminar comigo só pra não me servir de empecilho!
--Mas você disse que tinha tomado uma decisão, eu ouvi! -- lembrou
--E deduziu tudo errado! -- interrompeu a fala dela -- Eu não disse que ia te deixar! Minha decisão era conversar com você sobre como conciliar o que Ana me propôs com a vida que temos! Não acho que tenha que decidir entre você e minha carreira!
Seyyed passou a mão no rosto ferido e falou: -- Eu me desesperei com a hipótese de você me deixar!
--E aí quis morrer? Quis desafiar a morte? -- sentou-se na cama novamente
--Talvez... Foi uma reação imatura, precipitada e... orgulhosa. Era demais pro meu ego aceitar que minha mulher não me queria mais... -- admitiu envergonhada -- E agora veja no que deu! -- sorriu -- Fiquei toda danada!
--Você vai melhorar logo... -- tentava consolá-la
--Eu procurei por isso, não foi? E podia ter sido pior... Podia ter ficado tetraplégica, já pensou? -- riu brevemente
--Não faça piadas com isso! Não tem graça! -- fez cara feia
--Mas é a verdade, Isa! -- afirmou e ficou uns instantes calada -- Você acabou recusando as duas propostas, não foi? -- perguntou com tristeza
--Sim... -- olhou para as cobertas e ficou deslizando uma das mãos sobre elas -- não tinha condições de ir...
--E eu vou me sentir mal por isso pelo resto da vida! -- disse com tristeza -- Eu juro que não queria que fosse assim! Não queria forçar essa barra...
--Você não forçou! -- pausou -- Ed, -- olhou para ela -- eu não vou mentir, foi uma decisão muito dura pra mim, não sei se terei outras oportunidades iguais no futuro, mas tudo o que aconteceu me fez pensar na vida. -- pausou -- Meus pais e eu sempre fomos estranhos íntimos e não deveria ser assim! Pensei nas coisas que me falou sobre dar valor a família que tenho e analisei o quanto eles estão se destruindo! Eu não posso assistir isso acontecer e não fazer nada! Minha mãe se envolveu com magia negra, meu pai se meteu em contravenção, isso é muito sério!
--Se você aceitasse uma das propostas poderia sair com eles daqui e...
--E nada seria resolvido! -- interrompeu-a -- Aprendi com você que dívida não se transfere! -- pausou -- Eu tinha mesmo que ficar, Ed! É hora de fazer algo por meus pais e por você!
--Isa, você não me deve nada! -- estava agoniada por não poder se movimentar como gostaria -- Não tem obrigações comigo! Não é justo que alguém como você viva com uma mulher aleijada!
--Deixou de ser mulher por causa disso? -- perguntou desafiadora
--Não quero dar trabalho pra você! -- afirmou enfática -- Isa, eu tô aleijada, tô machucada e isso é um problema meu! A cruz é minha, você não precisa carregar também! -- pausou -- Eu dou meu jeito pra cuidar da minha vida e da oficina! Aprenderei a me virar com dois dedos a menos, é moleza! Você tem que viver a sua vida e cuidar dos seus pais, o que já uma barra pesada o suficiente!
--Ed... -- respirou fundo -- tem uma coisa que você ainda não sabe. -- levantou-se -- Eu não sei quando seria o momento certo pra te dizer, então... -- olhava nervosamente para o chão
--O que foi, Isa?? -- perguntou assustada -- Repito o que disse no hospital: não quero que me escondam as coisas! Fale, seja lá o que for! -- pediu
--A oficina passou por uma situação sinistra no mesmo dia em que você se acidentou... -- pausou -- "Meu Deus, como é que eu vou contar?” -- pensava preocupada
--Que situação sinistra?? -- perguntou angustiada -- Fala, Isa, eu quero saber!!
--Ela... -- olhou para a morena -- ela explodiu e pegou fogo! -- prendeu a respiração
--O que??????? -- arregalou os olhos -- Mas como?? -- tentou se levantar e sentiu dor -- Ai! -- gem*u
--A perícia do seguro constatou que plantaram bombas caseiras lá dentro. Por sorte ninguém saiu ferido mas... -- pausou -- a perda foi total e o seguro não vai cobrir!
Ed calou-se e lembrou da advertência do pai.
“--Muitas coisas acontecerão e é necessário que esteja preparada. Tenha em mente que nunca estará sozinha, Seyyed! Você tem muitas pessoas do seu lado. -- acariciava o rosto da filha -- Suas dívidas são altas, mas o bem que já espalhou sobre esta Terra atenua o peso do fardo que deve carregar. Será beneficiada pelo amor que desinteressadamente entregou aos outros.”
Começou a chorar, mas era um pranto contido.
--Amor... -- sentou-se do lado dela e a olhou carinhosamente
--Não fique comigo, Isa... -- pediu com humildade -- Você não precisa passar por isso! As dívidas são minhas, os resgates são meus, você não precisa sofrer também! -- tentava olhar para ela -- Eu vou morar com mamãe, você é dona desse apartamento, pode e deve ficar com ele!
--Ed!! -- exclamou escandalizada
--Não é justo que viva com uma mulher aleijada e falida! Eu não vou me matar e nem cometer mais loucura alguma! -- chorava -- Saia de minha vida porque não lhe farei bem...
--Não me peça isso... -- chorava também
--Você ama a dança! Você vive a dança, ela faz parte de sua essência! Se ficar comigo terá de se privar de muitas coisas. -- tentava controlar as emoções para continuar falando
--Eu não quero te deixar! -- afirmou entre lágrimas
--Não vou te culpar, nem guardar mágoas! -- chorava mais -- Siga em frente, cuide dos seus problemas, que já são muitos, e não se prenda a mim! Eu não quero ser um estorvo na sua vida, eu...
--Eu te amo, Ed!! -- afirmou com muita firmeza -- E se fico do seu lado não é por pena, mas porque minha vontade é essa!
--Isa, por favor...
--EU TE AMO, SEYYED! -- falou em voz alta e carregada de emoção -- Eu QUERO ficar com você! Não me mande ir embora! -- tocou o rosto dela -- Não me importa que esteja ferida e tenha perdido dedos, não me importa que esteja sem a oficina! Você está aqui! E é você que eu quero! Sua alma está íntegra, independentemente do seu corpo! Eu amo sua alma, será que ainda não entendeu isso? O resto... é o resto! -- reclinou-se para beijá-la e segurou a mão dela, a qual beijou também
A morena ficou estarrecida diante de uma prova de amor tão inquestionável quanto aquela. Sentiu-se muito mal por todas as vezes em que fraquejou e um tanto indigna de merecer tamanha dedicação, mas selou em seu coração o compromisso de se doar àquela mulher com todas as suas forças. Não porque a fragilidade de sua situação assim exigisse, mas por ter finalmente despertado de suas ilusões. Seyyed percebia que não havia em sua personalidade uma característica que ela devesse eliminar, como sempre acreditou, mas que lhe bastava completar-se com o que ainda não possuía.
Mais uma vez, ficava muito claro que o amor, não o amor sensual e passageiro, mas aquele sentimento que não exige, não cobra, apenas doa e entrega, é a única força capaz de vencer todas as batalhas da vida.
***
Camille voltava da padaria e abria o portão quando foi pega inesperadamente.
--Surpresa!!!!!!!! -- duas pessoas disseram
--Meu Deus! -- arregalou os olhos
--Há quanto tempo, prima! -- Ligia a apertou em um abraço -- Ih, mas tá cada vez mais linda! -- apertou a bochecha dela -- Poderosa!
--E então? -- Mateus deu um tapinha no braço dela -- Há quanto tempo!
--É... quanto... -- estava em choque
--Camille, Camille, Camille!!! -- Michael e Caroline pulavam e cantavam
--Eles te adoram, é incrível! -- Ligia dizia -- Já têm onze anos e o amor não passa! -- sorria
--Acho que querem minha alma! Ou meu sangue! É isso que os espíritos ruins desejam! -- balbuciava abestalhada -- Sangue...
--Mas ela fica tão emocionada que bate a boca e não produz som! -- Mateus falou sorrindo -- Vamos entrando! -- carregava as malas -- Hora do lanche!
Ligia e os filhos seguiram atrás. Carregavam um monte de bolsas e uma prancha de surf.
“Meu Deus, eu não acredito! Miséria pouca é bobagem, ô louco!” -- pensou agoniada enquanto abria a porta da casa
--Camille, você... -- Mariângela vê-se surpreendida com Ligia e sua família tomando conta da sala -- Ué? -- perguntou aparvalhada
--Oi, tia! -- Ligia a abraçou -- Quanto tempo, hein? -- sorriu -- Como sempre, toda linda!
--Onde eu ponho as malas? -- Mateus perguntou sorridente -- Dessa vez a gente trouxe tudo o que vai precisar! Até pra pegar uma onda! -- apontou a prancha
Michael e Caroline avançaram para a nova máquina de costuras de Mariângela.
--Pra que é isso aqui? -- a garota perguntou -- Dá pra matar um gato com essa agulha!
--Matar um gato? Imagina! Matar um cachorro! -- Michael opinou
“Eu sempre disse que eram futuros psicopatas!” -- Camille pensava -- "Todos eles começam assim: matando os bichos!”
--Vocês dois, afastem-se dessa máquina! -- a costureira ordenou de cara feia -- Isso custou dinheiro! -- deu um tapa na mão de cada um
--Nossa, tia! -- Liga exclamou sem graça
--Vocês querem ficar aqui por quanto tempo, hein? -- Mariângela cruzou os braços
--Por um mês... -- Mateus respondeu reticente
--Um mês???????????????? Um mês?????????? -- a jovem loura arregalou os olhos
--Olha a emoção aí de novo! -- Ligia riu
--Emoção coisa nenhuma! Camille não suporta vocês aqui! -- Mariângela confessou
--Mãe?! É você mesma? -- ficou surpresa
--Tia?!
--Nada de tia, Ligia! Vocês não ficam aqui nem uma semana, faz idéia um mês! Mateus, -- olhou para ele -- trate de pegar seu laptop e alterar a data de retorno de suas passagens pra amanhã! -- falou resoluta
--Amanhã?! -- os quatro perguntaram ao mesmo tempo
--Mas nem dá tempo de ir na praia! -- Caroline reclamou
--Acabou isso de chegar aqui sem avisar e determinar por quanto tempo se fica! A filha da minha cunhada passa por problemas sérios, Camille precisa estudar e eu não quero vocês aqui pra nos atrapalhar! -- falava com energia
--Mãe! -- Camille estava maravilhada
--Tia, eu... -- Ligia pôs a mão no peito e fez uma cena -- Nunca pensei que me faria uma desfeita dessas!
--Desfeita, não, minha filha, acabou-se a bagunça!
--Olha, -- Mateus tentava aliviar a barra -- eu acho que a senhora ficou assim porque devem ter feito fofoca porque Caroline e Michael foram expulsos do colégio. Mas isso só aconteceu porque a diretora era muito conservadora. -- defendia os filhos -- O que tem de mais colocar fogo na sala de aula? Ninguém nem morreu!
--E eu nem sabia disso! -- pôs as mãos na cintura
Mateus se arrependeu por ter falado e Ligia tentava consertar a situação. -- Eles não colocaram fogo, assim, fogo na sala, mas na lata de lixo! E daí, por causa de uma maldita cortina de renda, o fogo se propagou pela sala! Eu reclamei com a diretora! Escola não é lugar pra ter renda! Parece até coisa de macumba, eu hein!
--Eles são crianças, -- Mateus justificava -- isso é normal!
--Ah, é! -- a engenheira falou -- De fato é normal que os psicopatas sejam chegados a um braseiro. Lembra o inferno e eles se sentem em casa!
--Nada disso me interessa! E é bom que vocês dois fiquem sabendo que faço boxe! -- olhava para Ligia e Mateus -- Se Caroline ou Michael quebrarem uma coisinha sequer nessa casa, o coro vai comer! -- gesticulava -- Meu cruzado de esquerda é lendário! -- deu um soco na mão -- Animal!
--Mas... -- Mateus estava bobo -- teria coragem de espancar nossos filhos?
--Eles não! -- pausou -- Os pais deles! -- fez um olhar ameaçador e deu outro soco na mão
Michael e Caroline olhavam para um jarro na mesa de centro.
--Não se atrevam a colocar as mãos nesse jarro!! -- Ligia e Mateus advertiram energicamente. Os filhos recuaram assustados
“Eu mal posso acreditar...” -- Camille pensava satisfeita -- "Mamãe botou moral na coisa!” -- sorria -- “E eu que não queria que ela fizesse boxe! Bendito esporte!”
Fim do capítulo
Músicas do Capítulo:
Sonho de Lady:
Loca. Intérprete: Shakira. Compositores: Shakira / Edward Bello / Armando Pérez / Dylan Mills
De Repente California. Intérprete: Lulu Santos. Compositores: Nelson Motta / Lulu Santos
Ligeiramente Grávida. Intérprete: O Espírito da Coisa. Compositor: Cláudio Barreto
[a] Papa Don’t Preach. Intérprete: Madonna. Compositores: Brian Eliot / Madonna. In: True Blue. Intérprete: Madonna. Sire / Warner Bros, 1986. 1 disco vinil, lado A, faixa 2 (4min29)
[b] Eu Comi a Madonna. Intérprete: Ana Carolina. Compositores: Ana Carolina / Mano Melo / Alvin L / Antônio Villeroy. In: Dois Quartos. Intérprete: Ana Carolina. Sony & BMG, 2006. 1 CD, faixa 9 (2min17)
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jake
Em: 25/03/2024
Olá Sol Pri botando ordem na casa, Parabéns . Lady e seus sonhos .Lila sobrou até pra tu fia.rsrsr. Caraa,Isa que prova de amor nossa me deixou sem palavras. E Ana esqueceu que a conta vai chegar, destruindo a vida da própria filha e Ed.D. Mari botando pra correr Mateus e família rsrsr. Camile é sua implicância com a Caipira rsrsr.
Amei ....Parabéns!!!
Solitudine
Em: 02/04/2024
Autora da história
Olá queridíssima!
Priscila tenta colocar ordem no meio daquela loucura! Lady e Lila são duas doidas que a deixam de cabelos em pé!
Eu te disse que Isa iria amadurecer e ela demonstrou isso. rs Ana ainda vai demorar um pouco mais.
Mariângela demorou mas enfim situou os parentes inconvenientes.
Pois é, menina, Camille implicava tanto com a caipira! rs
Beijos,
Sol
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Femines666
Em: 11/03/2023
Recomeçar a saga por hoje! De novo fiquei encantada com o textinho de abertura. Já amando a Liberdade!
"Liberdade pra dentro da cabeça,
Liberdade pra dentro da cabeça..."
Resposta do autor:
Que bom que a Liberdade te fisgou ainda mais!
Eu adoro essa música! Natiruts!
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 14/09/2022
Dona Mari aprendeu com Olga que ser boa não é ser besta. Até que enfim! Mateus e Lígia vão pro #tbt hehehe Cami tem vezes que me diverte, Lady mais ainda. A ruiva tá dando show. Ela é muito foda! Aí como eu queria ser Seyyed memo depois do acidente hehe também deixa confessar que te ler também é cultura. Ou seria curtura. Sotaque de caipira é assim né?
Resposta do autor:
Verdade, Mariângela achava que porque era família, tinha que tolerar tudo, até os abusos. E não é por aí.
Isabela, assim como Camille, estava em um caminho. Todas elas, sendo bem justa. É que algumas personagens cresceram de modo mais notável.
Seyyed é uma pessoa admirável. Entendo você. rs
Está bem no sotaque! kkk
Obrigada pelos elogios.
Beijos,
Sol
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Seyyed
Em: 14/09/2022
A temporada já começa foda, divertida, misteriosa e tensa. Me ferrei muito puta merda! Pelo menos não morri! Minha sogra é que já não sei no que vai dar. A ruiva coitada Pisou tanto agora toma! Hehe
Resposta do autor:
Você até que se deu muito bem depois de ter se acidentado em alta velocidade e numa moto. Reclama não, viu, fi? rs
Sua ruiva estava bem mais madura nessa época.
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 23/04/2020
Solzinha!
Minha escritora preferida sim, minha e de mais um monte de gente. Favoritei você no site, só pra você saber.
Estava relendo uns comentários meus e me acho prolixa às vezes, mas é que são tantas emoções e nem sempre é possível passá-las num simples comentários. Caso tenha dúvida e só me dizer que traduzo... Kkkkk...
Beijosss
Resposta do autor:
Pode ser prolixa à vontade!!!! (mas eu não acho que seja)
Agradeço pela favoritação. Samira idem.
Obrigada,
Sol
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Gabi2020
Em: 21/04/2020
Solzinha!! Fala minha escritora favorita, tudo certo?
Lady e seus sonhos malucos... Kkkkkkk... Gente fico passada que até em sonho ela é maluquinha.
“ - Lady, tua barata me pertence! -- Priscila se preparou para beijá-la”... Senhorrrrr.... Kkkkkkkk....
Gosto muito dessa parte espiritualista (nem sei se essa palavra existe), traz muito aprendizado. E quem diria Silvio dando uma leve lição de moral da Seyyed.
Não lembrava dela ter perdido dois dedos. Agora cá entre nós , vocês autores adoram um drama né? KKkkk... Não é uma crítica tá? É só uma observação e sei que esse acidente precisou acontecer, mas tadinha da mecânica.
Tatiana me intrigava sabe? Fazendo tudo o que fez , correndo riscos, arriscando o casamento, fazendo o Renan e toda a família sofrer, mas vendo essa paixão que ela tem pelo trabalho dá pra entender, tem pessoas que preenchem o vazio dentro de si de várias formas, seja amando, estudando, fazendo esporte, tendo filhos ...A Tati é com o jornalismo investigativo, é que a move , é o gatilho para que ela seja feliz e por mais que muita gente não entenda, essa é a vida dela e o que ela escolheu. Palmas pra ela, aliás ela não merece palmas e sim o Tocantins inteiro... Kkkkk.... Piada ruim de tiozão!
Ana Fluminense foi tão acolhedora com a Isa, era o que ela estava precisado de colo e carinho.
Ô vontade pegar a Isa e a Seyyed, trancar numa sala e falar: ‘Só vão sair daí, depois de cada uma dizer o que pensa e sente!” Elas ficam brincando de adivinhação... Senhorrrrr....
Camille não se doa por inteiro na relação com Letícia, que por sua vez se contenta com pouco, até que ponto isso valeu a pena? Nenhuma das duas estavam felizes.
“--E ela escreveu até qual temporada? -- perguntou curiosa
--Vai lançar a quinta ainda. É um bocado lerda, viu? -- fez um bico”. Como assim Solzinha? Não diga isso... Kkkkkkk....
Melhor do que os diálogos da Lady são os pensamentos dela... Kkkkkkk....
Minha admiração pela Isa só aumentou depois dessa conversa tensa.
Eita que escrevi demais!!
Beijos
Resposta do autor:
Gabinha!
Escritora favorita? Oba!!!
Lady sonha de acordo como a própria interpretação dela de realidade, que é muito louca, não é? kkkk
Sim, a palavra espiritualista existe. Que bom que gosta!
Seyyed perdeu dois dedos e ficou com cicatriz na perna. Dramas fazem parte da vida, não tem como não colocá-los. O que tendo fazer é dar a eles uma visão por um prisma diferente. É o que busco fazer na realidade também (nem sempre com sucesso).
A Tatiana estava no conto para trabalhar exatamente o que você falou. Percebeu bem.
Tenha paciência com Isa e Seyyed. Estavam no momento de cada uma.
Camille criticava a caipira mas era uma fiel leitora (e concorrente)! kkkk
"Minha admiração pela Isa só aumentou depois dessa conversa tensa".- eu sabia!!!! kkkk
Beijos,
Sol
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Gagia
Em: 05/02/2018
Estiveste em todos os continentes do planeta? Tuas descrições ultrapassam as buscas do Google.
Oh, sei que meus comentários não estão necessariamente no local exato mas tu me deixaste como no Zen. A mente esvaziou e se encheu e completa não preciso de palavras pois captei ideias. rs
Resposta do autor:
Não em todos os continentes. Falta-me a Antártida!
Gostei da menção ao Zen! rs
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Gagia
Em: 05/02/2018
O ponto alto foi o Tributo a Patrícia Feitosa. Ali deste aulas. Procurei todos os livros que citas, encontrei alguns e agora estou a ler. Obrigada por tudo pois o entendimento tem me feito ver a vida com outros olhos!
Resposta do autor:
O tributo foi um grande momento de resumir informações valiosas na tentativa de interessá-las. Feliz que tenha te convidado ao estudo.
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Solitudine Em: 20/06/2024 Autora da história
kkkkkkkkkkkkk Gostou?
Beijos,
Sol