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  • Primeira Temporada - MUDANÇAS V

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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 18130
Acessos: 10632   |  Postado em: 12/04/2020

Primeira Temporada - MUDANÇAS V

 

 

10:00h. 30 de dezembro de 2000, Hospital Silva Avelar, Centro, Rio de Janeiro

 

O celular de Juliana toca. Era Suzana.

 

--Olá Suzana! -- atendeu naturalmente

 

--Oi, Juliana... pode falar? -- perguntou sem graça

 

--Por enquanto sim.

 

--Está em casa?

 

--Trabalhando. Saio hoje às seis da tarde.

 

--Eu nunca entendo estes seus horários... -- riu brevemente

 

--Dou plantão de dia em algumas ocasiões e de noite em outras. A gente vai negociando com os colegas.

 

--Zangada? -- perguntou receosa

 

--Não... cansada. O dia hoje começou brabo! -- desabafou -- Mas não tô zangada com você, embora eu fique chateada com o hábito que tem de sempre sair correndo...

 

--Não fique... -- silenciou -- Eu... Juliana você é muito mulher pra mim e eu fico...eu...

 

--O que você quer, Suzana? -- perguntou calmamente -- Você quer tentar alguma coisa comigo ou o que? Não tô zangada, mas queria te entender.

 

--Eu... tem muita coisa aí, Juliana... eu não queria passar vergonha contigo mas tudo que eu faço é pagar mico...bem, pelo menos, é melhor pagar os micos que eu pago do que pagar outros na cama. -- calou-se -- “Eu não acredito que você disse isso, Suzana!!” -- fechou os olhos

 

--Por que tem essa cisma tão grande com seu desempenho? -- perguntou curiosa -- Suzana, pelo amor de Deus, você tá sozinha há vinte anos por causa disso. Não acha que já perdeu tempo demais?

 

--Acho... -- respondeu com tristeza -- Mas eu não sei o que fazer...

 

--Comece parando de fugir de mim. -- sorriu

 

--Mas... você me deixa... -- pausou -- Podia ir mais devagar... -- passou a mão nos cabelos -- “Não acredito que disse isso também!” -- pensou

 

--Tudo bem... prometo que vou me comportar... -- continuava sorrindo -- Sabia que eu não vou trabalhar no réveillon? -- perguntou sensualmente

 

--Nem eu.

 

--E por que a gente não se vê? -- continuava melosa

 

--Eu... eu vou sair de moto com o pessoal hoje depois do expediente. A gente vai dirigir até Itaúnas e passar o ano novo lá, na casa de um colega do motoclube.

 

--Ah... -- respondeu decepcionada -- E eu que nem sabia que você era de motoclube. -- revirou os olhos

 

--Sou. E o clube se chama Sede de Sangue.

 

--Cruzes! Que diabo de clube é esse, criatura? -- perguntou chocada

 

--Calma! -- riu -- É porque todos nós somos pessoas de pavio curto, como se diz. Mas ninguém é bandido, tenha certeza.

 

--Que bom! -- riu -- Não queria sair com uma psicopata.

 

--Posso te procurar quando voltar? -- perguntou receosa

 

--Pode... -- suspirou

 

--E você? Vai fazer o que na virada?

 

--Não sei... “Eu contava em ficar com você, sua trouxa!” -- pensou chateada

 

--Ah, você vai arrumar uma coisa legal...

 

--Chefe, corre que tem um monte de gente aqui fazendo tumulto!! -- Brito chegou tenso

 

--Tenho que desligar, Juliana... é... feliz ano novo! -- sorriu

 

--Pra você também. E se cuida! Moto é coisa perigosa!

 

Ela riu. -- Um dia te levo comigo pra você perder a cisma. Mas antes tenho que comprar outro alforje.

 

Juliana não entendeu o que ela queria dizer. -- Ah, tudo bem.

 

--Tchau!

 

--Tchau, delegada! -- ouviu o telefone sendo desligado do outro lado -- Ai, Juliana pra onde você vai agora neste réveillon, hein? -- suspirou -- Quem mandou contar com o ovo no fiofó da galinha? Deu nisso...

 

***

 

Seyyed, Olga, Mariano, Mariângela e Camille saíram do Rio, em dois carros, às 13:00h do dia 30. O trânsito fluiu bem melhor que o imaginado e não demoraram muito a chegar em Búzios. Ed sabia o caminho da casa do namorado de Flávia e Mariano seguia seu carro. Quando chegaram, Fabio estava na porta recebendo um pequeno carregamento de carvão para churrasco.

 

--Salve gente! Chegaram na hora certa! -- sorriu -- Fizeram boa viagem?

 

--Graças a Deus. E vocês? -- Ed respondeu de dentro do carro

 

--Como vai, Fabio? -- Olga perguntou sorrindo

 

--Beleza pura! Segura aí que vou abrir a porta da garagem. -- olhou para o carro de Mariano -- E aí, beleza?

 

--Tudo bem! -- Mariano respondeu. Mariângela acenou sorrindo

 

--Nossa, que casa que ele tem! -- Mariângela exclamou surpresa -- Que praia é essa? -- olhava para todos os lados

 

--Olga disse que o nome é João Fernandinho. Bonito aqui, né? Bem melhor que o Guarujá. -- Mariano exclamou

 

--Flávia se deu bem com esse cara! -- Camille exclamou mais para si que para os outros -- Que casona, meu!

 

--Pra você ver! E ela é tão especial quanto você. -- Mariângela disse para a filha

 

--Vocês e essa estória de especial! -- revirou os olhos

 

Os carros entraram na garagem e todos foram saltando de dentro. Flávia apareceu trazendo bolsas de compra.

 

--E aí meu povo! -- sorriu -- Veio todo mundo... -- olhou para Camille -- Muito bom!

 

--E tô muito feliz com isso! -- Mariângela abraçou a filha sorrindo. A loura fez cara feia

 

--Vamos lá galera! Vão se acomodando em casa e arregaçando as mangas porque hoje e amanhã vai ter trabalho pra todo mundo. -- a fisioterapeuta ordenou

 

Mariano correu para ajudar Fabio com o carvão e algumas outras bolsas pesadas. Ed, Mariângela e Olga levaram as coisas deles para dentro, seguindo o caminho de Flávia. Camille seguia para a casa, destacada de todos, locomovendo-se lentamente com as muletas.

 

“Pois sim que eu vou trabalhar...” -- pensava

 

--Ô maluquete! -- Flávia gritou lá de dentro -- Enrola não que tem muita batata pra você descascar hoje! Exercício pras mãos!!

 

“E mais essa!” -- Camille se apressou para se refugiar no banheiro

 

***

 

O grupo trabalhou bastante para ajeitar a casa e preparar a ceia durante o que sobrou do dia 30 e ao longo da véspera do ano novo. Camille tentou fugir mas não deu jeito. Flávia marcava em cima dela. E ainda fez fisioterapia.

 

Mariângela e a filha se esforçavam para ter o menor entrosamento possível com Olga e Seyyed. Mariano, ao contrário, era todo cheio de atenção com as duas.

 

Camille lutava para não prestar atenção ao que quer que a mecânica estivesse fazendo, mas era inevitável. Irritava-se consigo mesma e tentava não transparecer.

 

Por volta das 15:00h ouve-se o som da campanhia.

 

--Ué? O pessoal chegando a essa hora? -- Fabio perguntou surpreso para a namorada

 

--Vem muita gente? -- Mariano perguntou

 

--Flávia tem umas amigas boxeadoras que têm casa aqui perto e vão passar a virada conosco. Com elas virão os respectivos maridos ou namorados, os filhos... mas tá cedo pra esse povo chegar.

 

--Relaxa que eu acho que sei quem chegou. E tem nada a ver com elas... -- Flávia foi abrir a porta

 

Todos ficaram na expectativa.

 

Não deu muito e Juliana aparece carregando sua malinha. -- Oi gente! -- saudou sorrindo

 

--Oi! -- todos responderam

 

--A senhora sabia disso, mãe? -- Ed perguntou desconfiada -- Isa vai adorar quando souber... -- revirou os olhos

 

--Eu não. -- olhou para a filha -- Mas por mim, ela é bem vinda.

 

Juliana foi para outro cômodo com Flávia para que guardasse suas coisas.

 

--A ruiva não veio mas em compensação... veio a ex. Agora sim! -- Camille disse a mãe em voz baixa -- Temos em casa um covil de sapatões!

 

--Fica quieta que eu não quero confusão na casa dos outros! -- pediu a filha quase aos sussurros

 

***

 

Juliana ajudou bastante nos preparativos finais. Não buscou aproximação com Seyyed mas ainda assim filmava todos os seus movimentos. Camille percebeu e se irritou com isso.

 

À despeito de uma ou outra coisinha, o clima na casa era bastante agradável e festivo. Todos foram se arrumar por volta das nove, cearam logo em seguida e por volta das onze as amigas de Flávia foram chegando com as famílias.

 

Perto da virada estavam todos nas areias da praia. Aconteceu uma pequena queima de fogos e as pessoas começaram a se cumprimentar. Ed abraçou a mãe, Mariano abraçou a irmã e a sobrinha. Depois o casal se abraçou e se beijou ternamente.

 

“Gente, que estranho ver mamãe beijando alguém...” -- Ed pensou sorrindo

 

Fabio levantou Flávia no colo e ficou pulando. Camille acabou rindo.

 

Renan ligou para desejar feliz ano novo. Isa também.

 

--Oi querida! -- Ed atendeu sorrindo-- Feliz ano novo!!!

 

--Feliz ano novo!! Tô com saudades... -- a bailarina respondeu melosa

 

--Eu também!! -- continuava com um sorriso bobo nos lábios -- Como tá a festa aí? Ouço um monte de gente falando ao mesmo tempo.

 

--Na família do meu pai é assim mesmo. -- riu -- E meus primos tão namorando sério, trouxeram as respectivas, que trouxeram os pais... O salão de festas do prédio tá bombando!

 

--É... seus primos estão namorando sério... será que você também tá? -- perguntou brincando

 

--Sabe que sim... -- sorriu e mordeu os lábios -- Eu te amo, Ed...

 

--Também te amo. E queria muito beijar essa sua boca linda nesse momento.

 

--Eu adoraria... mas não fique me atiçando porque não quero dormir na vontade... -- pausou -- Quem tá aí com vocês? A estraga raça da sobrinha do seu Mariano e a mãe dela decidiram ir ou ficaram em casa?

 

--Acabaram vindo. Dona Mariângela parece estar gostando, mas Camille... aquela garota parece que não gosta de nada... nunca!

 

--E quem mais tá aí?

 

Não teve coragem de falar de Juliana naquele momento. -- Outras amigas de Flávia. -- foi o que se limitou a dizer

 

--Quando volta? -- perguntou curiosa

 

--Pretendo sair daqui amanhã por volta de umas quatro da tarde. Fabio me pediu pra dar uma olhadinha no carro dele.

 

--Hum... já tão te explorando! -- respondeu contrariada -- Quando a gente se casar eu vou cortar o abuso desse povo que vive te pedindo pra dar olhadinhas nos carros e consertar coisas de graça! -- afirmou enfática

 

--Quando a gente se casar?? Quer dizer que a minha bailarina gata quer se casar comigo? -- perguntou sorridente

 

--Calma, ainda tô pensando... -- respondeu dengosa -- Eu não posso me casar com alguém sem pensar muito a respeito. Mesmo que esse alguém seja você...

 

--Hum... não maltrata esse coração bandido... -- sorriu

 

O celular de Juliana também tocou. -- Gente!! Suzana, que surpresa! -- sorriu empolgada

 

--Aqui o sinal não tá muito bom mas eu consegui ligar... feliz ano novo! -- sorriu

 

--Feliz ano novo pra você também. -- passou a mão nos cabelos -- Fez boa viagem?

 

--Fiz. -- pausou -- E você? Onde está? Ouço uma barulheira danada... -- riu

 

--Na casa de veraneio de uns amigos. Estamos em Búzios. É que tem um monte de gente aqui, fizeram uma pequena queima de fogos... essas coisas. -- riu

 

--Eu sabia que você ia arrumar uma coisa legal pra fazer. -- pausou -- Bem, eu... vou desligar...

 

--Adorei que tivesse ligado! -- sorria

 

--Eu... tinha que ligar. -- pausou -- É, tchau! -- desligou imediatamente

 

Juliana ficou rindo.

 

Mariano e Olga estavam abraçados olhando os fogos explodirem no céu.

 

--Querida, quando vamos anunciar? -- ele perguntou

 

--Melhor amanhã, no almoço. -- respondeu sorrindo

 

--Como será que reagirão? Será que sua filha vai aceitar?

 

--Eu amo Seyyed, mas ela não é minha dona. Assim como nunca fui dona dela. E tenho certeza de que não vai se opor.

 

--Acho que minha irmã e Camille não vão gostar muito... por causa do preconceito delas... mas terão de se acostumar.

 

--Deixe que o dia de amanhã cuide de si mesmo, querido. -- olhou para ele -- Uma coisa de cada vez. -- sorriu

 

--Uma coisa de cada vez. -- sorriu e beijou-a

 

Ed havia acabado de desligar o telefone. Juliana se aproximou dela.

 

--Estou feliz por sua mãe. Aquele senhor parece ser um bom homem. -- sorriu

 

--Parece sim, mas eu tô de olho nele. Depois, lá no Rio, vou ter uma conversa com ele. Ainda não tive tempo de fazer isso desde que soube que estão juntos. -- olhou para o casal

 

--Não seja boba. -- deu um tapinha no braço da outra -- Dona Olga merece ser feliz. -- sorriu

 

--Não vou embaçar a onda dela, Juliana. Só vou dar um toque no Mariano pra ele ficar esperto e não vacilar. Se magoar minha mãe...

 

--As pessoas magoam, Ed. Mesmo quando não têm essa intenção. -- olhou fundo nos olhos dela

 

A mecânica sabia o que a outra queria dizer e ficou constrangida. Nada respondeu.

 

--Estranhei uma coisa. -- continuou falando -- Onde está a ruiva?

 

--Na casa dos parentes do pai. Ela passou o natal com os parentes da mãe, agora é a vez da outra metade da família, que é enorme, diga-se de passagem.

 

--Sabe, eu tô saindo com uma pessoa... -- esfregou o pé na areia -- Você deve saber quem é: a delegada que tá a frente das investigações do caso do assassinato de Patrícia Feitosa. -- queria ver a reação da ex -- O nome dela é Suzana Mello.

 

--Sério?? -- Ed se surpreendeu -- Nossa... -- riu brevemente -- Bem... legal, bom pra você. -- sorriu para ela -- Dizem que é uma mulher muito honesta e comprometida com a justiça.

 

--Ela é... -- sorriu -- E uma excelente amante. Eu vou ao céu! -- mentiu

 

--Que bom, Juliana. Eu desejo de verdade que você seja feliz! -- pausou -- E a gente podia ser amigas sem problemas ou mágoas. Afinal de contas fomos casadas e eu não me arrependo de ter tido você na minha vida. -- olhou bem para ela -- É uma mulher e tanto.

 

Juliana olhou para o mar e cruzou os braços. Respirou fundo e confessou: -- Mentira, Ed, eu não tenho um relacionamento com Suzana. Disse isso pra ver como reagiria. -- olhou rapidamente para ela -- Estive com ela, mas nada aconteceu. -- abaixou a cabeça -- Ela sempre sai correndo e me deixa na mão. Tem medo de mim...

 

--Medo??? -- riu -- Não imagino uma mulher daquelas com medo de nada! -- olhou para a ex

 

--Pois é, mas ela tem medo de ter um relacionamento. Teve uma amante, há anos atrás, e como a mulher não gostou dela na cama, ao que me parece, ficou se sentindo um lixo... daí em diante nunca mais se relacionou... -- pausou -- Eu sei que ela quer viver alguma coisa comigo, mas tem medo de me decepcionar na hora H.

 

--E você, do jeito como te conheço, deve estar jogando pesado na sedução... -- olhou para ela que sorriu e abaixou a cabeça -- Pega leve com ela, Ju. É uma experiência diferente na sua vida. Vai mais devagar... Se ela tem receio, ensina a coisa pra ela. Também é legal dar uma de professora.

 

--Imagino que esteja vivendo essa fase de professora... -- arriscou

 

--E tô adorando! -- respondeu sorrindo

 

--É, eu tenho que mudar de abordagem... -- olhou para o mar -- Do jeito que está, não vai rolar é nada!

 

--E onde a delegada se encontra nesse momento? -- perguntou

 

--Na casa de um amigo do motoclube lá em Itaúnas. -- sorriu -- Ela acabou de me ligar pra desejar feliz ano novo...

 

--Legal... -- balançou a cabeça -- Sinal de que estava pensando em você.

 

--Ei, vocês duas!! -- Flávia veio chegando -- Ninguém tá a fim de dormir então vamos jogar Imagem e Ação. Quem topa? -- olhava para as amigas

 

--Tô dentro! -- Ed logo se animou

 

--Imagem e Ação, Flávia? -- Juliana riu -- Só você mesmo!

 

***

 

Silvio estava de pé excitado. Duas mulheres ajoelhadas o provocavam. “Cara, eu nunca vivi isso na vida. Bendita festa de réveillon!” -- pensou enquanto sorria

 

Ele havia chegado no apartamento às 23:00h, conforme Thiago o orientou, e passou o tempo bebendo e conversando com as pessoas na festa. Eram, no final das contas, duas mulheres e três homens, contando com Thiago.

 

Na virada do ano as pessoas continuavam muito bem comportadas e ele chegou a acreditar que a festa seria somente aquela bebedeira e conversa fiada. Porém, meia hora depois todos se despiram e a sacanagem começou a rolar. Ele foi abordado por aquelas duas louras e se sentia no céu. Os três fizeram sex* no carpete da sala. Após Silvio atingir o orgasmo, ficou assistindo as duas mulheres que continuavam se explorando.

 

Thiago veio por trás dele e o puxou pelo braço. -- Agora sou eu.

 

O mecânico ficou de pé. Outro homem se aproximou. “Agora é a vez dos viados...” -- pensou

 

***

 

“Ed avançou de encontro a Camille e abraçou-a pela cintura colando-se em seu corpo. Suas bocas se encontraram ávidas em um beijo que era puro desejo. A mecânica puxou o corpo da loura para cima até suspendê-la do chão. Camille enroscou a perna na cintura da amante e envolveu seu pescoço com os braços, enquanto sentia que mãos fortes deslizavam impacientes por seu corpo. Seyyed ajoelhou no chão e se reclinou para deitá-la sobre o carpete. Iniciou um caminho de beijos e mordidas pelo corpo da mulher mais jovem, que gemia alto e lhe arranhava os braços e costas.

 

Puxou as calças para baixo e Camille ajudou-a a tirá-las empurrando com o pé. Continuou beijando a loura, provocou-a o quanto pôde e parou para beijar e morder sua perna.

 

-- Oh, no , Ed, don’t... please, please, take me...

 

Começou a lambê-la desde o joelho até o queixo, e neste momento imobilizou seus pulsos com as mãos, erguendo seus braços acima de sua cabeça. Camille tentava se libertar, mas não conseguia, pois era mantida firme segurada pelos pulsos; Ed sentia que ela gostava disso. Quando percebeu que beiravam o clímax, rapidamente a soltou e explorou o corpo da loura.

 

-- Oh, oh, oh, Ed... -- curvou as costas se contorcendo e puxando o carpete -- Oh my... God, yes... Ah!!”

 

--Ah!!! -- Camille acordou suada e excitada. Olhou a sua volta e viu que todos dormiam em seus respectivos colchonetes

 

Levantou-se com dificuldades, pegou as muletas e foi até o banheiro. Olhou-se no espelho e pensou: “O que diabo tá acontecendo comigo?? Agora, vira e mexe, eu sonho com aquela maldita mecânica e eu dando uma de Samantha e Alexandra!” -- fechou os olhos -- “Maldita hora que gastei tempo precioso lendo aquela história pornô de final depressivo!” -- abriu os olhos -- “Foi uma leitura que me fez muito mal!” -- suspirou e saiu do banheiro

 

Camille havia perdido totalmente o sono e foi se dirigindo para a varanda da casa. Chegando lá, deu de cara com Seyyed deitada na rede. “Mas é muito azar!” -- pensou

 

--Sem sono também? -- perguntou -- Senta aí! -- apontou uma cadeira de vime -- Ou prefere a rede? Posso sair daqui, se quiser.

 

--Fique na rede! -- respondeu secamente -- A cadeira é suficiente pra mim. -- sentou-se com dificuldade -- Que horas são?

 

--Cinco e dez. -- cruzou os braços por detrás da cabeça

 

Ed vestia uma blusa branca de malha justinha no corpo e short jeans. Camille reparou em seus bíceps quando cruzou os braços, mas logo desviou o olhar.

 

--Seu tio disse que você tá fazendo natação. Tá gostando? -- não sabia porque mas não conseguia não puxar conversa com a loura

 

--É bom pra distrair... e eu acabo achando graça. É aleijado, cego, altista... dá de tudo naquela piscina. -- riu brevemente

 

--É bom. Acho isso legal. O show tem que continuar apesar de tudo. -- sorriu

 

--Cadê a bailarina? -- perguntou subitamente -- “Por que estou perguntando isso?” -- mentalmente se repreendeu

 

--Com a família do pai dela. Mas amanhã a gente se vê, se Deus quiser.

 

--E ela sabe que a japonesa tá aqui? -- perguntou ironicamente -- Entre nós, os normais, o desapego não é tão intenso assim.

 

--Normais? -- riu -- Ai garota, não entendo porque sempre que inicia uma conversa comigo você não perde tempo em querer me agredir. Qual o seu problema, que foi que te fiz? -- sentou-se na rede e olhou firmemente para ela

 

Aquele olhar tão direto deixou Camille corada. -- Eu... eu... -- olhava para todos os lados -- Ah, você... é irritante! -- não sabia o que dizer

 

--Tudo bem. -- levantou-se -- Reparei que eu fui a única pessoa a quem não desejou feliz ano novo. -- pausou -- Embora tenha feito isso mecanicamente quando falava com todos os outros... -- olhou para ela -- Até mesmo com seus parentes. -- pôs as mãos na cintura -- Eu não tenho nada contra você, mas já que me detesta tanto eu prometo que nunca mais falo contigo. Não vou mais te irritar! -- preparava-se para sair da varanda

 

--Não, espere! -- Camille olhou desesperada para a morena -- Eu... -- abaixou a cabeça -- me desculpe! -- pediu quase aos sussurros

 

Ed sentiu-se tomada por uma intensa vontade de abraçá-la, mas não o fez. Puxou outra cadeira e sentou-se em frente a loura.

 

--Tudo isso é por que sou homossexual? Escuta, garota, eu não vou te cantar, não vou abusar, querer intimidades... Nunca fui assim. Sei que não é a sua e além do mais eu tenho namorada. E a amo! -- olhava para Camille

 

A loura sentiu-se triste ao ouvir que Ed amava Isa e não teve coragem de encará-la. Também não entendia porque se incomodava com os sentimentos dela pela ruiva. “Eu tô carente, é isso! Preciso arrumar alguém o quanto antes!” -- pensou -- Tudo bem... eu... eu vou me esforçar para ter mais... paciência.

 

--Não precisa viver eternamente na defensiva por conta do que passou. -- segurou uma das mãos da jovem -- Tem um monte de gente que deseja ardentemente que você dê a volta por cima. -- continuava olhando para ela

 

--E você? Que te importa isso? -- levantou a cabeça e olhou-a receosa

 

--Não sei porque me importo mas também queria te ver bem.

 

Olhos verdes e azuis prenderam-se mutuamente e um silêncio cúmplice imperou no ambiente.

 

--Ah, vejo que estão se entendendo. Que bom! -- era Mariano que acabava de chegar-- Fico feliz com isso! -- cruzou os braços -- Afinal, estaremos na mesma família não demora muito. -- sorriu para ambas e voltou para dentro da casa

 

--Como assim, na mesma família?? -- Camille perguntou surpresa

 

Ed tinha um enorme ponto de interrogação na cabeça.

 

*****

 

O almoço de ano novo correu tranqüilo. As conversas foram amenas e Flávia contou várias piadas que levou o grupo às gargalhadas. Na hora da sobremesa, Mariano levantou-se e pediu a atenção de todos.

 

--Bem, meus amigos, Olga e eu conversamos muito e acreditamos que estamos certos do que queremos. E também acreditamos que o momento de anunciar é este! -- olhou para a amada -- Nós vamos nos casar!

 

Ed engasgou-se com a bebida.

 

--Casar??? -- Mariângela perguntou chocada -- Mas vocês mal se conhecem... e além do mais você se mudou lá pra casa agora, meu irmão. Ainda nem esquentou lugar e já vai casar e mudar??

 

--Isso é sério, mãe? -- Ed secava a boca babada

 

--Sim. Estamos mais que resolutos nessa idéia. -- Olga respondeu sorrindo

 

--Eu imaginava... depois daquela de ‘mesma família’... -- Camille revirou os olhos

 

--Pois eu apóio e desejo tudo de bom! -- Juliana levantou-se e foi abraçar Olga -- A senhora merece ser muito feliz, dona Olga. -- beijou-lhe a testa

 

--Obrigada querida! -- respondeu emocionada

 

--E o senhor! -- olhou para Mariano -- Cuide bem dela, mas muito bem mesmo, porque esta mulher é uma alma iluminada! Nunca conheci ninguém assim.

 

--Eu sei, Juliana. Fique tranqüila. -- ele sorriu

 

--Bem, eu... -- Ed levantou-se -- Também desejo tudo de bom. -- abraçou a mãe com carinho -- É mesmo o que quer? -- olhou para ela

 

--Sim, meu amor. -- respondeu sorrindo

 

--Então que seja! -- beijou-lhe a cabeça -- E quando vai ser? -- olhou para ambos

 

--Ainda tenho que acertar minha vida no Rio e na oficina... dizem que minha atual patroa é exigente... -- sorriu

 

--Pode crer! -- Ed respondeu bem humorada

 

--Mas queremos casar no final de abril. Até lá teremos tempo de nos organizar. -- Mariano continuou

 

Ed foi até ele e o abraçou. -- Tudo bem, Mariano. Desejo tudo de bom. -- olhou bem para o homem -- Mas no Rio a gente conversa melhor. -- complementou falando baixo. Deu dois tapinhas no ombro dele e voltou para se sentar

 

--Já que é o que querem... -- Mariângela se levantou também -- eu desejo tudo de bom! -- abraçou o irmão

 

--Que bom que está do nosso lado, querida! -- Mariano respondeu feliz -- Finalmente!

 

Mariângela aproximou-se relutante de Olga. -- Acho que também devo te abraçar, não é? -- perguntou sem graça

 

--Somente se quiser. -- Olga respondeu -- Mas eu adoraria se o fizesse.

 

As duas se abraçaram. -- Desculpe Olga... -- pediu com sinceridade -- Tenho pensado em minhas atitudes em relação a você e vejo que... é hora de passar uma borracha nesse assunto e recomeçar. Ano novo, tudo novo! -- riu

 

--E você, Camille? -- Mariano perguntou -- Não vem abraçar seu tio?

 

Camille respirou fundo e respondeu: -- Olha tio, isso aqui tá parecendo até final de novela, onde todo mundo supera as desavenças, fica amigo... mas eu continuo pensando do mesmo jeito. E se quer se casar, fazer o que? -- deu de ombros

 

--Ô loura Belzebu... -- Flávia reclinou-se para perto de Camille e falou bem baixo -- dá pelo menos um abraço no teu tio senão eu quintuplico tua carga de exercícios a partir de hoje! -- sorriu ameaçadora

 

Camille se levantou com pressa e deu um abraço sem sal em Mariano. Quanto a Olga, limitou-se a dar um leve aceno e um sorriso amarelo. Fabio ria da cena.

 

--Gente, agora é festa! Vamos comemorar esse casamento aí! -- Flávia gritou -- Amor, traz vinho!

 

--Que vinho, criatura? Tem não! -- Fabio respondeu achando graça

 

--Então vai de água tônica mesmo. -- foi mancando até a cozinha para buscar

 

--Minha mãe casando de novo, é mole? -- Ed comentou com Juliana

 

--Faz parte, meu bem. -- olhou para ela -- Como se você brevemente não fosse fazer o mesmo. -- comentou arriscando

 

Ed não respondeu ao comentário.

 

***

 

Olga voltou para o Rio no carro de Mariano junto com a família dele e Juliana seguiu junto, só que com seu carro. Ed permaneceu na casa para ajudar Fabio com o Renault dele e voltou sozinha por volta das cinco da tarde. Ele e Flávia voltariam no domingo.

 

Chegando perto de Niterói um acidente deixou o trânsito lento. Uma Picape cheia de jovens bateu na traseira de um caminhão. Depois de um tempo os carros moveram-se um pouco mais e Ed reconheceu um rosto dentre os envolvidos na batida. Abaixou o vidro e chamou: -- Sabrina?

 

A escaladora ouviu e se virou para descobrir quem a chamava. -- Ed! -- sorriu e encaminhou-se para seu carro -- Oi! Há quanto tempo!

 

--Pois é. E aí? Que houve? -- olhou para a Picape -- Alguém se machucou?

 

--O que houve foi que Guilherme, todo metido a bom motorista, meteu-se na traseira do caminhão. -- balançou a cabeça -- Maldita hora que aceitei a carona dele, viu? Se tivesse voltado de ônibus já estaria em casa. -- apontou para os colegas -- Todo mundo ali mora em Niterói. Eu ainda vou ter que descer na rodoviária de lá e catar ônibus pra minha casa. O bom é que ninguém se machucou, pelo menos isso!

 

--Se quiser uma carona, eu te levo. Onde mora?

 

--Flamengo.

 

--Tem problema, não. Quer vir? -- ofereceu

 

--Só se for agora! -- sorriu -- Um minuto! -- correu para perto dos colegas

 

***

 

--E aí? Como foi a escalada na Pirâmide Carstensz? -- Ed perguntou para passar o tempo. Outro acidente na entrada da ponte amarrou o trânsito ainda mais -- O nome é esse mesmo?

 

--É. -- sorriu -- Foi tudo muito bom, muito tranquilo dentro do que podia dar certo... A ilha da Nova Guiné é outro mundo, cara... -- comentou -- A altitude da Pirâmide é de 4884m. É a mais alta montanha em uma ilha.

 

--E essa ilha é uma província indonésia, não é?

 

--Sim, a província da Papua. -- pausou -- Eu não fui na melhor época do ano mas dei sorte com o tempo. O lugar é incrível. Consegue imaginar uma montanha exibindo glaciares em um paraíso tropical? -- olhou para Ed -- Tem paisagens lindas mas também tem cada coisa inacreditável. De dar pavor! -- pausou -- Mas eu vou ser sincera, não curti muito. A cabeça tava em outra, sabe?

 

--Imagino porque. -- silenciou brevemente -- Mas o importante é que tudo deu certo e você cumpriu sua meta. Qual será o próximo desafio?

 

--Esse vai custar bem mais caro: maçico Vinson, na Antártida. -- sorriu -- São 4892m de altitude! E de puro gelo. -- salientou

 

--Antárdida??? Caraca! -- riu -- Tem idéia de quanto vai precisar?

 

--Ainda não. Primeiro tenho que descobrir como chegar até lá, no extremo sul da península Antártica. Não manjo nada daquelas bandas, só sei que é onde se localiza o penúltimo cume que eu tenho de escalar para completar os sete picos.

 

--Aí vai ficar faltando só o Everest... -- afirmou e na mesma hora deu um tapa na própria testa -- Só o Everest, que burrice a minha. Como se fosse pouco! -- sorriu -- Tô igual as caipira de Pau d’Arco!

 

Sabrina sorriu e respondeu: -- Vai ficar faltando o Everest mesmo, mas eu mudei os planos. Este cume vai me esperar mais um pouco.

 

--Como assim? -- perguntou curiosa

 

--Depois dessa história toda de Patrícia minha vida mudou, sabe? Ganhei uma visibilidade que antes não tinha. Um status, ou sei lá o que, de alpinista lésbica, bonitinha, gostosinha... e tem muitas empresas querendo me patrocinar pra provar que são tolerantes e aquele blablablá todo. Mas a verdade é que são empresas querendo faturar esse nicho de mercado: o público homossexual. E pra isso, me parece que minha imagem lhes convêm. -- esfregou as mãos uma na outra pensativamente -- Patrícia interferiu na minha vida até depois de morta. -- deu um sorriso triste -- Sempre positivamente.

 

--Tem muita empresa, artistas sem sucesso, cantores falidos, que gostam de dar uma de simpatizantes pra lucrar às custas da gente. Mas se você acha que esse novo status não te prejudica, vá em frente. -- pausou -- Mas, enfim, qual foi a mudança de planos?

 

--Depois do Vinson eu vou iniciar o projeto dos quatorze cumes e o Everest será a última montanha. Fecharei o ciclo com louvor: dois projetos conclusos em uma mesma escalada.

 

--E qual é a desses quatorze cumes? -- perguntou curiosa -- Desculpe a ignorância, mas os sete cumes estão dentro dessa lista aí?

 

--Não, só o Everest. Os quatorze cumes são as montanhas com mais de oito mil metros de altitude. São todas localizadas nas cordilheiras do Himalaia e do Karakoram, na Ásia.

 

--Caraca, garota, isso é um projeto um bocado ousado! -- respondeu surpresa -- Tem que ter coragem, preparo físico, dinheiro e muita dedicação pra conquistar tanto cume!

 

--E dedicação e raça eu tenho de sobra. -- sorriu -- Ainda tô com vinte e três anos e já fiz coisas que outros escaladores só conseguiram bem mais velhos do que eu. O risco não me assusta, só me excita! Talvez eu seja a mulher mais jovem do mundo a fazer todas estas conquistas.

 

--Admirável!

 

--Não é o que meus pais pensam. Eles dizem que eu deveria fazer algo de mais útil pro mundo ao invés de viver escalando montanha. "Aquele que faz caso do dia, para o Senhor o faz"20, meu pai enche o saco repetindo isso toda vez que fala comigo... -- passou a mão nos cabelos -- Comecei a investir na carreira de escaladora com 19 anos, que foi quando saí de casa. Meu relacionamento com a família é uma merd*... Mas aposto que tudo vai mudar quando virem meu rosto em propagandas por aí.

 

--É uma situação delicada... Eles têm medo de te perder nas montanhas, releve isso. E quanto ao lance de ser útil, você não precisa ser alienada de tudo só porque é alpinista. Não quero dizer que você seja assim, mas pode ser útil a sociedade independentemente da profissão que tenha.

 

--Eu não tenho um espírito altruísta. Vivo pra mim mesma. -- olhou para Ed -- Você deve estranhar isso, mas sou assim. Não quero fazer barganhas com Deus e bancar a boa moça pra conquistar um bom lugar no céu.

 

--Eu não faço barganhas com Deus, mas entendo o que quer dizer. Sei que tem gente que pratica uma caridade por obrigação. -- pausou -- Mas, eu falei na boa...

 

--Eu sei, relaxa. -- sorriu -- É que eu não costumo a me envolver com as pessoas, sabe? Depois que Patrícia morreu fiquei um pouco pior.

 

--Você gostava muito dela? -- perguntou com jeito

 

--Esse é o problema... -- esfregou as mãos no rosto -- Eu gostava de trans*r com ela, como também gostava de trans*r com outras... E ela tava apaixonada... vivia me ligando, fazia tudo pra me agradar... mas eu nunca a vi como alguém especial... procurava por ela porque sabia que teria sex* garantido e alguém pra me bajular... -- suspirou -- Dá uma dor na consciência...

 

--Pelo menos você foi muito corajosa ao ter ido sozinha reconhecer o corpo. Não é qualquer uma que faria isso.

 

--Vou te confessar um segredo, e somente a você. -- respirou fundo -- Patrícia me ligou na noite do assassinato.

 

--Mas você disse isso a Tatiana e repetiu no seu depoimento... -- não entendia qual seria o segredo

 

--Mas eu não disse o conteúdo verdadeiro da nossa conversa. Menti... -- abaixou a cabeça -- Ela pediu pra me ver e eu não quis. E pediu mais de uma vez. Eu tava de bobeira em casa mas não quis vê-la porque já queria dar um fora nela de uma vez. -- pausou brevemente -- Tava de saco cheio, sabe? -- silenciou -- Ela poderia não ter morrido naquela noite...

 

--Pára com isso, Sabrina. -- Ed interrompeu -- Tatiana também se lamenta pela morte da amiga e eu digo com toda certeza: nenhuma das duas têm culpa!

 

--Eu não me sinto como se não tivesse.

 

--Mas não tem. -- olhou bem para ela

 

Sabrina secou uma lágrima que escapou de repente e mudou de assunto: -- E a sua Isa? Como está? -- sorriu

 

--Está bem, e eu louca pra revê-la. – sorriu

 

--Gosta muito dela? -- perguntou olhando para Ed

 

--Amo! -- respondeu resoluta

 

--A ponto de não pular a cerca? -- estava duvidando

 

Ed estranhou a pergunta e respondeu com seriedade: -- Não sou de pular cerca, muito menos namorando ela.

 

--Que pena... -- sorriu -- Porque eu adoraria passar uma noite bem quente com você... como hoje, por exemplo... -- virou-se de lado no banco do carro -- Tem um motel na avenida Brasil...

 

A mecânica olhou para ela e interrompeu sua fala: -- Eu me sinto lisonjeada mas não rola, Sabrina! -- voltou a olhar para frente

 

--Que pena mesmo... porque eu sou bem passiva e acho que você deve gostar disso... -- deslizou uma das mãos na coxa de Ed -- Adoro deixar minhas mulheres fazerem o que bem quiserem... -- aproximou-se do ouvido da outra

 

--Eu acho que essa conversa já foi longe demais! -- tirou a mão dela de sua coxa e empurrou-a de leve para que se afastasse -- Vamos continuar a viagem, eu te deixo em casa e é vida que segue, valeu? -- olhou para ela

 

--Se é o que quer... -- abriu a mochila, sacou um CD Player, colocou os fones nos ouvidos e ficou ouvindo música. Olhava para fora do carro

 

“Só faltava essa...” -- Ed pensou e balançou a cabeça

 

***

 

Suzana voltava dirigindo para casa com os amigos do motoclube. Dois colegas tiveram alguns problemas com suas motos antes de sair de Itaúnas e o grupo ainda estava em Casimiro de Abreu às 20:00h. O presidente do clube sugeriu que pernoitassem em alguma pousada barata e o grupo concordou. Tiveram de se dividir em dois locais diferentes. Eram, ao todo, onze pessoas.

 

A delegada estava sem sono e decidiu dar uma circulada pelas redondezas. Saiu sozinha e a pé. Após alguns minutos de caminhada avistou um bordel todo avacalhado. “Como alguém pode querer frequentar uma droga dessas? E coitadas das mulheres que trabalham aí!” -- pensou

 

De repente um homem careca sai de lá de dentro e sozinho. Caminhou poucos passos e parou na esquina para acender um cigarro. Suzana sentia que já havia visto aquele rosto em algum lugar. “Mas onde?” -- pensou intrigada

 

O homem não reparou nela e voltou a andar dirigindo-se para um carro estacionado em um posto de gasolina abandonado.

 

--Meu Deus, aquele é o homem que Tatiana descreveu como sendo Nilton! -- disse para si mesma -- Não posso perdê-lo de vista! -- olhou ao redor e viu que um homem saía de um boteco e se encaminhava para

um fusca velho. Correu até ele: -- Delegada Suzana Mello! -- apresentou o distintivo -- Preciso do teu carro!

 

--Calma delegada! -- o homem levantou as mãos para o alto -- Eu não tive culpa de nada. Quem matou o gato de Adelaide foi meu filho. Eu não tenho nada com isso! -- passou as chaves do carro para ela

 

--Volte pro bar que daqui a pouco eu devolvo esse Fusca! -- entrou apressada no carro

 

--Tá... -- foi só o que o homem disse

 

Nilton ligou o carro e dirigiu em direção a estrada Serra do Mar. Suzana manteve distância e foi seguindo seu encalço. Dez minutos depois o homem dobra a direita e entra em uma estrada de terra. Suzana segue adiante para não levantar suspeitas e pára o carro um pouco mais à frente. Espera um pouco, dá ré, e manobra para tomar a mesmo caminho que o suspeito. A estrada estava um breu, mas viu que o carro ia longe. Seguia devagar e com faróis baixos.

 

--Pra onde você vai, hein, seu miserável? -- perguntava para si mesma

 

De repente os faróis do carro da frente se apagaram. Suzana percebeu que o homem caminhava para dentro de uma casa. Na entrada, um poste com lâmpada de luz amarela.

 

Manobrou o carro e parou no meio do mato. Desceu e foi correndo na escuridão até alcançar a casa. Havia um cachorro no quintal e as luzes de um cômodo estavam acesas. Suzana se escondeu no mato, pegou o rádio e contatou Brito.

 

--Brito, escuta: caso Patrícia Feitosa. Localizei o suspeito identificado como Nilton. Ele está em Lumiar, numa casa próxima a estrada Serra Mar, quilômetro vinte e um. Estou parada de tocaia aqui fora. Parece que tá sozinho na casa. Câmbio.

 

--Meu Deus, delegada! Como o encontrou? Câmbio. -- perguntou surpreso

 

--Tivemos uns problemas na volta de Itaúnas e tivemos de parar em Casimiro. Foi pura sorte! Câmbio.

 

--Pra azar o dele. Tô em casa, mas pego a moto e vou praí em dois minutos. Câmbio.

 

--Quando chegar em Casimiro me contate. Desligo. -- contatou Macumba na sequência -- Macumba, pega minha moto e vem até onde estou. Copiou? Me rastreia pelo sinal do rádio.

 

--Copiado! -- o homem respondeu do outro lado

 

Macumba também era policial e fazia parte do motoclube de Suzana.

 

***

 

Nilton foi preso por Suzana e Macumba. Brito chegou quarenta minutos depois da prisão e ajudou a revistar a casa, encontrando material de conteúdo homofóbico. Suzana passou no bordel para perguntar às prostitutas se Nilton estivera lá sozinho, e descobriu que outro homem havia ido com ele, o qual estava caído de bêbado em um quarto podre. O homem, que se identificou como José, também foi detido como suspeito. Em seu celular, foram encontradas duas fotos de uma mulher amordaçada. Não era possível reconhecer se aquela mulher era Patrícia. José alegou que se tratava de um jogo sexual com uma prostituta.

 

***

 

Isa estava com Ed na oficina. Era noite. Vestia-se com um vestido vermelho curtíssimo, usava meias finas estilo arrastão e portava-se como prostituta. Ed estava vestida de marinheira e veio andando em sua direção.

 

--Oi, tesão! -- estava encostada na parede -- Quer provar das delícias da vida? -- sorriu insinuante

 

--Seria uma boa... -- olhou para a ruiva de cima a baixo com malícia -- e quanto essas delícias iriam me custar? -- parou e pôs as mãos na cintura

 

--Depende de você... -- desencostou da parede e segurou a gravata de Ed -- Se fizer direitinho fica de graça, e se não, eu cobro cem merréis por cada serviço... -- deslizou uma das mãos pelo corpo da morena -- Hum, você parece que já tá pronta...

 

--Eu saí pra caçar... Quero uma mulher quente pra noite toda! -- afirmou com voz gutural e se aproximou bastante da ruiva

 

--Então achou a garota certa... -- sorriu -- Mas... olha... eu não faço tudo. -- empurrou Ed um pouco para trás e se encostou na parede de novo

 

--Impondo condições? -- apoiou uma das mãos na parede e ficou cara a cara com Isa -- Eu não sou mulher de aceitar isso...

 

--Garanto que posso compensar de outras formas... -- empurrou Ed de novo -- Interessa ou não? -- levantou uma perna e apoiou-a na parede. A morena viu que não usava roupa íntima

 

Seyyed sorriu e se ajoelhou no chão, rasgando a meia da amante. O caxangá da marinheira caiu da cabeça.

 

--Ai, ai... -- gem*u -- ai garanhão, vem... -- pediu cheia de desejo

 

Ed seguiu beijando seu corpo ao mesmo tempo em que levantava o vestido da bailarina. Ergueu-a do chão e segurou-a pelas coxas. Isa enroscou as pernas em sua cintura. A mecânica caminhou até um carro e deitou a ruiva no capô. Como não conseguia tirar-lhe o vestido, rasgou-o.

 

--Hum, que animal... -- segurou o rosto da morena e beijou-a excitada

 

As duas fizeram amor com muito desejo e paixão. Isa fechou os olhos e agarrou-se firmemente nos braços de Ed, puxando o tecido da blusa que ainda cobria o dorso de sua amante.

 

A mecânica perguntou no ouvido da bailarina: -- Preciso pagar, gostosa?

 

--Hum... não... -- sorriu com os olhos fechados

 

--E se eu quiser mais? -- continuava sussurrando, mordendo-lhe a orelha

 

--Você vai ter... -- abriu os olhos -- ai, tô adorando isso... -- sorriu de novo

 

--Ainda não viu nada, gatinha...

 

***

 

Eram sete da manhã quando as duas acordaram.

 

--Bom dia... -- Isa virou-se para Ed e a cumprimentou sorrindo. As duas haviam dormido abraçadas encaixadas como duas colheres

 

--Bom dia, meu amor. -- beijou-a -- Adorei a noite. -- sorriu -- Gostei desse jogo que você inventou!

 

--Eu também! Nem sei quantas vezes fizemos... -- corou e sorriu

 

--Com vergonha, linda? -- beijou-a-- Fica não. Você é minha mulher, não deve se envergonhar de nada comigo. -- sorriu e olhou para o relógio -- Caraca! Deixa eu acelerar senão essa oficina vai abrir muito atrasada! -- beijou-a mais uma vez e se levantou com pressa

 

--Relaxa, Ed... hoje é domingo, esqueceu? -- riu

 

--Ih, é! -- riu e voltou para a cama deitando-se de barriga para cima -- Tá vendo o que faz comigo? Perco até a noção do tempo... -- sorriu

 

--Hum... -- reclinou-se e ficou debruçada sobre a namorada -- Você nem me contou como foi o seu réveillon... eu te contei tudo sobre o meu e você, nada... -- fez beicinho -- O máximo que fez foi contar que dona Olga vai casar... O que achei muito fofo! -- sorriu

 

--É que eu tava doida pra fazer amor contigo e decidi deixar isso pro final. A parte das narrativas... -- sorriu -- Mas prestei atenção a tudo que disse. -- sorriu

 

--Então agora que já me teve pode me contar tudo... -- sorriu -- Como foi lá?

 

--Foi bom, divertido... -- pausou um pouco -- Escuta Isa, tem umas coisas que preciso te contar... -- respirou fundo -- Juliana apareceu lá e passou a virada com a gente! -- olhou para a ruiva sem saber o que esperar

 

--O que???????? -- ela se sentou na cama e ficou olhando para Ed com cara feia -- Que história é essa, Seyyed???

 

--Nossa, você nunca me chamou de Seyyed. -- sorriu sem graça

 

--Estou esperando! -- cruzou os braços a manteve a cara feia

 

--Escuta primeiro... -- sentou-se também -- pra que não pense bobagens... -- pausou um pouco -- Eu não sabia que ela iria e nem minha mãe sabia. Ela chegou de tarde, depois de todo mundo, e na véspera do réveillon.

 

--E chegou assim, do nada? Ela simplesmente cismou e foi? -- seu olhar era cético

 

--Lembre-se de que foi através de Juliana que Flávia e eu nos conhecemos.

 

--Muito estranho isso, Ed, muito estranho...

 

--Nem o namorado de Flávia sabia que ela iria. Deve ter decidido de última hora.

 

--Muito oportuno ela ter decidido isso de última hora justo no momento em que eu não estava com você.

 

--O que você acha, Isa? -- Ed perguntou chateada -- Que eu peguei o telefone, liguei pra ela e disse: -- Corre aqui, Juliana, porque Isa não vem e a barra tá limpa? É o que acha? -- olhava bem para a namorada

 

Isa ficou calada por uns segundos e perguntou: -- Por que não me disse isso quando te liguei?

 

--Pra que? Pra que desde aquela ocasião você ficasse de cara feia, zangada e desconfiando de mim? -- encostou-se na cabeceira da cama e passou a mão nos cabelos -- Se quer saber, ela tá até saindo com outra mulher. Ninguém menos que Suzana Mello, a delegada do caso de Patrícia.

 

--Presumo que tenham conversado bastante a ponto de você saber com quem ela anda saindo. -- respondeu ironicamente

 

--Claro que conversamos um pouco. Sou uma pessoa civilizada, Isa. Não havia porque ignorá-la. E antes que pense bobagem, eu não fui pra cama com ela. E nem com nenhuma outra.

 

Isa respirou fundo, ajeitou os cabelos e olhou para os lençóis.

 

--Pára de ficar aborrecida comigo, vai? -- segurou a mão da namorada -- Eu te amo, não tem porque ficar pensando besteiras. -- Isa olhou para ela -- Vem aqui, minha gatinha... -- puxou-a para perto mas ela não se mexeu

 

--Você disse que tinha coisas pra me contar. Coisas, no plural. Mais alguma novidade além dessa aparição repentina da sua ex?

 

Ed soltou a mão de Isa e estalou o pescoço. -- É, tem... -- Isa fez um olhar inquisidor -- Houve um acidente na estrada perto de Niterói e Sabrina estava no meio da confusão. Dei uma carona pra ela...

 

--Não acredito, Ed!! Aquela maluca vivia dizendo que queria te levar pra cama e você ainda oferece carona a ela???

 

--Mas eu não sabia disso, você nunca me contou! Eu não podia imaginar... O lance foi que a gente conversava numa boa e de repente ela me convidou pra ir em um motel na Brasil.

 

--E???

 

--E, nada. Eu cortei o assunto, disse que não ia rolar, ela começou a ouvir música, eu a deixei em casa e vim embora. Ponto final.

 

--Aquela mulher é louca! Ela me disse que te queria e ainda me convidou pra participar da trans*! -- fez um bico

 

Ed ficou calada por alguns segundos até que acabou rindo com vontade. --Ai, meu Deus, ela é muito louca... -- balançou a cabeça -- Ai, ai... -- olhou para Isa que não resistiu e riu também -- Bem mais bonita rindo do que desconfiando de mim. -- puxou-a para perto novamente -- Vem aqui, meu amor, zanga comigo não... -- dessa vez ela veio e sentou-se no colo da outra

 

--Eu devia deixar você de castigo... -- envolveu o pescoço da morena com os braços

 

--Ah, não, sem isso de castigo. -- beijou-a nos lábios -- E você já tá me castigando o bastante enquanto pensa se casa ou não casa. Até minha mãe, que não namorava há anos, já sabe que vai casar e quando!

 

Isa entendeu o comentário e riu. -- Eu não te disse não... Apenas pedi um tempo! O que mais quer?

 

--Como prefere que eu responda? -- olhou maliciosa para Isa

 

--Hum... -- deslizou os dedos nos lábios da amante -- se eu não estivesse tão exausta...

 

Sem que a ruiva esperasse, Ed deitou a ambas na cama cobrindo-as com os lençóis. Começou a beijar seu pescoço enquanto lhe fazia cócegas. Isa ria e arranhava os braços da amante.

 

***

 

Tatiana e Renan já estavam no Rio quando receberam a notícia da prisão preventiva de Nilton, que na verdade chamava-se Clóvis, expedida pela Justiça do Rio de Janeiro. José foi indiciado como cúmplice.

 

A jovem foi a delegacia identificar Nilton e o reconheceu imediatamente. José, no entanto, ela nunca havia visto.

Os dois homens contataram seus respectivos advogados os quais entraram com um pedido de Habeas Corpus. Ambos haviam sido levados para Polinter do Andaraí e depois ao Complexo Penitenciário de Gericinó, em Bangu.

 

Apenas o pedido do advogado de José foi aceito e ele foi colocado em liberdade. Durante o tempo em que estiveram detidos, Clóvis permaneceu calado mas José não resistiu à pressão de Suzana e deixou escapar que Klauss na verdade se chamava Otávio Bueno, o qual deveria estar escondido em Ribeirão Preto.

 

--Deixa eu te perguntar, esse tal de José vai ficar solto, delegada? Ele deve estar envolvido também! E se esse maldito fugir? -- Tatiana perguntou decepcionada -- Chega dói, viu?

 

--Não vai fugir. Esse aí é medroso, ele fica.

 

--E o pedido de Habeas Corpus do advogado de Nilton/Clóvis? Pode ser aceito?

 

--Vamos ver o que vai acontecer. Os dois ainda serão submetidos a julgamento e essas coisas demoram... -- cruzou os braços -- Agora minha meta, além de colocar esses malditos na cadeia, é localizar Otávio Bueno.

 

--Tenho confiança que a senhora vai fazer isso! -- respondeu esperançosa

 

--Nem que seja a última coisa que eu faça, garota. Esse caso pra mim é uma questão de honra. -- olhou fundo nos olhos de Tatiana

 

***

 

Mariano estava às voltas com a contabilidade da oficina de Seyyed. O contador anterior tinha deixado a casa em completa desordem. Sua concentração foi interrompida com a chegada de três pessoas.

 

--Seyyed! -- sorriu para ela -- Silvio, Renan... -- sorriu para eles também -- Fiquem tranqüilos porque vou colocar as contas em ordem. Já vi coisa muito pior ao longo desses anos.

 

--Quanto a isso eu não tenho preocupações porque sinto firmeza em você, na sua competência. Mas nós queremos tratar de outro assunto. -- respondeu seriamente

 

--Outro assunto? -- perguntou desconfiado olhando para eles

 

--Dona Olga, cara! -- Silvio afirmou enfático

 

--É! -- Renan complementou

 

Mariano abaixou a cabeça, sorriu, olhou novamente para eles e perguntou: -- Sobre o que querem discutir, especificamente?

 

--Nesses anos todos eu nunca vi mamãe sequer olhar pra um homem com um pouco mais do que simpatia desinteressada. Meu pai sempre foi o único na vida dela. -- apoiou-se na mesa dele reclinando o corpo -- Ela não estaria disposta a se casar contigo se não estivesse verdadeiramente apaixonada.

 

--E eu também! Sou viúvo e nunca mais havia estado com outra mulher desde que perdi minha esposa. Não sou um aproveitador ou um aventureiro, pode ter certeza! -- afirmou com seriedade

 

Silvio e Renan olharam para ele com desconfiança.

 

--Se magoar minha mãe, vai se arrepender amargamente. -- Ed afirmou entre dentes -- Vai ter um motivo sério pra isso.

 

--Dois motivos! -- Silvio debruçou-se na mesa ameaçador

 

--Três motivos! -- Renan fez o mesmo

 

--Calma gente! -- Mariano levantou os braços -- Sou um homem sério, não tenho o menor desejo de magoar a mulher que amo!

 

--É bom! -- Ed ficou ereta novamente -- Mas vamos ficar de olho! -- sorriu e se despediu com um aceno

 

--Terá muitos olhos sobre você, irmão! -- Silvio disse antes de se retirar

 

--E põe olho nisso! -- Renan falou e seguiu atrás

 

Mariano ficou embasbacado vendo-os sair. Se fosse um homem desonesto teria o que temer, mas não era o caso. “E mais essa!” -- pensou

 

***

 

Juliana estava arrasada. Dona Tânia havia acabado de falecer. Morreu de parada respiratória após uma cirurgia mal sucedida.

 

Os dois filhos dela foram no hospital, depois de semanas de ausência, tomar as ações devidas. A enfermeira queria lhes dizer poucas e boas, mas não tinha palavras.

 

Seu plantão estava se encerrando às seis da tarde. Passou o serviço para a colega e desceu as escadas desanimadamente. Nem pensou em pegar o elevador.

 

A japonesa também andava triste com o sumiço de Suzana. Sabia que ela havia feito a prisão de dois suspeitos do assassinato de Patrícia, mas isso não justificava o seu sumiço. Queria desabafar com alguém mas não sabia a quem procurar. Olga estava vivendo aquela fase maravilhosa de quem encontra um amor e ela não queria quebrar o clima gostoso com seus problemas. Ivone estava na casa dos parentes em Belo Horizonte, não iria poder procurá-la. Seyyed era de outra mulher, há tempos não podia chorar nos seus braços. Nesse momento Juliana se conscientizou que durante o tempo que esteve com a mecânica abandonou todas as amizades que tinha antes de conhecê-la. Somente Flávia permaneceu, e isso porque também se tornou amiga da morena. E também não podia procurar a fisioterapeuta, pois sabia que deveria estar curtindo com o namorado em algum lugar ou treinando no ringue de boxe.

 

“Como fui idiota... abri mão de tudo por Ed e veja no que deu. Não tenho uma amiga que me valha agora!” -- pensou se lamentando

 

Pegou o carro e dirigiu para casa. Chegando lá, surpreendeu-se com o que viu ao passar pela portaria: Suzana estava sentada na poltrona do hall do prédio esperando por ela.

 

--Dona Juliana, essa senhora está lhe esperando tem uma meia hora. -- o porteiro anunciou

 

Suzana se levantou e pôs as mãos nos bolsos. -- Oi, Juliana... -- mordeu o lábio inferior -- Cheguei em um dia ruim, não foi? Está abatida...

 

A enfermeira olhou para ela, suspirou e disse: -- Vem Suzana, sobe comigo. -- apertou o botão do elevador

 

--Se quiser desabafar do problema que te entristece... -- disse

 

Ela se limitou a sorrir. O elevador chegou e as duas subiram. Entraram no apartamento e Juliana largou a bolsa no chão e se jogou pesadamente na poltrona.

 

--Está com fome? -- Suzana perguntou

 

--Na verdade não... sei lá. -- deitou na poltrona -- Sei lá...

 

Suzana pensou no que fazer e decidiu agir. Ajoelhou-se e levantou Juliana no colo.

 

--O que é isso? -- perguntou surpresa

 

--Nunca te vi triste assim e não quero continuar a ver. Vou cuidar de você a minha moda. Confie em mim.

 

A enfermeira sorriu e deixou rolar.

 

***

 

Estavam jantando. Suzana havia feito macarrão com molho de tomate, azeitonas e atum.

 

--Você escolheu o dia certo pra aparecer... -- sorriu -- Aliás, parece que tem esse dom. Pena que no final estraga tudo fugindo. -- deu uma garfada

 

--Não fugirei... -- sorriu sem graça -- E então? Sei que a dor da perda ainda permanece, mas está se sentindo melhor agora?

 

--Depois de ter me tratado como um bebê e até preparado comidinha? Sim... -- deu outra garfada --

Gostoso...

 

--Eu... posso dormir aqui se você não se incomodar... -- voltou a comer

 

--Só se for abraçada comigo... -- sorriu

 

--Sim... -- respondeu de cabeça baixa -- sim...

 

--Ai, Suzana... você é muito fofa, sabia?

 

--Fofa?? -- perguntou de boca cheia. Calou-se para mastigar e engolir -- Sou tudo, menos fofa! -- riu -- Você não me conhece. -- limpou a boca

 

--Você não deixa... -- olhou para ela -- E eu adoro mulheres que sabem cozinhar. -- deu mais uma garfada -- E cozinhar bem, como parece ser o seu caso.

 

--Quando é que você folga?

 

--Depois de amanhã, por que?

 

--Tô te devendo um jantar. Podia ir lá em casa amanhã à noite. Eu te busco no hospital se quiser... -- convidou receosamente -- E você confirma se eu sei cozinhar bem. -- sorriu

 

--Como recusar um convite de uma delegada? Deixa de ser convite pra ser intimação. -- brincou

 

Suzana sorriu. -- Mas... eu não prometo que... eu sei que você espera mais de mim... e não prometo que vai acontecer nada de mais... eu... eu...

 

--Tudo bem! -- Juliana interrompeu -- Eu não vou mais atacar você. -- sorriu -- Tudo a seu tempo.

 

Suzana balançou a cabeça. Estava começando a se sentir mais à vontade com Juliana.

 

--Tem uma outra coisa que eu acho que você... talvez nunca tenha pensado a respeito...

 

--Pensado a respeito do que? -- perguntou curiosa

 

--Alguém como eu... devido à natureza do meu trabalho e à minha postura... -- largou os talheres e cruzou os braços -- Eu sou um alvo, entende isso? E se alguém ficar comigo, ficar sério...

 

--Se tornará um alvo também. -- a enfermeira complementou

 

--Já havia pensado nisso? -- olhou bem para ela

 

--Não, mas nunca fui mulher de ter medo. Se vale a pena, eu corro todos os riscos. -- respondeu com muita firmeza

 

Suzana ficou olhando admirada para aquela mulher diante de si.

 

***

 

Camille nadava com vontade. Antes do acidente não era habituada a praticar natação mas estava se surpreendendo consigo mesma. Já conseguia percorrer 50m em nado livre sem cansar muito. Estava praticando há uma hora.

 

Parou na beira da piscina para fazer o exercício de recuperação do fôlego quando começou a reparar em Fátima. Ela era cega mas nadava como uma flecha. Tinha 21 anos e estava sendo preparada para disputar nas paraolimpíadas de 2004.

 

Era interessante ver os cegos nadarem, correrem... eles confiam nos guias e simplesmente vão. Camille se impressionava em como a relação de um deficiente visual com seu guia envolve uma confiança brutal.

 

Fátima saiu da piscina e sentou-se em uma cadeira. Pegou a bengala retrátil, desdobrou-a e serviu-se com um pouco de água. Camille queria puxar conversa com ela há um tempo, sempre prestava atenção naquela nadadora mas nunca teve oportunidade de abordá-la. Achou que aquele seria o momento certo e saiu da piscina para iniciar uma conversa. Um rapaz ajudou-a a se sentar perto de Fátima.

 

--Bem melhor quando se tem ajuda, não é? -- ela perguntou -- Mas deixe estar. Não demora muito e nem sentirá mais falta da sua perna. -- sorriu -- Eu nem sinto mais falta de olhos! Ás vezes é até bom não ver certas coisas. -- riu

 

--Como sabe que não tenho uma perna? -- perguntou desconfiada

 

--Porque o barulho dos passos de uma pessoa com um pé é bem peculiar. Na verdade ouvi barulhos de mais passos, mas certamente eram do rapaz que te ajudou, porque percebi que os sons destes tais passos se distanciaram quando ele saiu daqui. E era uma passada cadenciada. Se você é destra eu diria que deve ser a perna direita que está faltando. Você não se firma com muita confiança; é típico de quem está aprendendo a trabalhar o lado oposto ao dominante.

 

--Impressionante. -- balançou a cabeça -- Aliás o pessoal daqui não cansa de me impressionar. Sabia que tem um nadador que não tem braços e nem pernas? -- tirou a touca de natação da cabeça

 

--Cesar? E quem não conhece aquele maluquinho? Ele sacaneia todo mundo nesse ginásio. -- sorriu novamente -- Aliás, não fomos apresentadas: meu nome é Fátima e o seu? -- estendeu a mão, que a loura apertou

 

--Camille. É um prazer.

 

--Posso te ver? -- perguntou

 

--Hã??? -- não entendeu mas deixou -- Sim, eu acho.

 

Fátima largou o copo de água na mesinha e estendeu os braços. -- Deixa eu tocar seu rosto?

 

Camille inclinou o tronco para se aproximar dela que tocou seu rosto com as duas mãos.

 

--Você é jovem, tem cabelos curtos, é branca... de que cor são seus cabelos?

 

--Sou loura.

 

--E loura legítima. Se pintasse os cabelos a textura deles não seria tão fina e uniforme. -- recolheu as mãos

 

--E como sabe que sou branca? -- encostou na cadeira novamente

 

--Sua pele tem a tessitura caucasiana. Não saberia explicar com palavras.

 

--Nossa! -- exclamou surpreendida

 

--Qual a cor dos seus olhos?

 

--Verdes.

 

--Ih, já deve ter um monte de admiradores aqui. Você é simétrica, deve ser muito bonita.

 

--Não... Eu não sou uma pessoa gostável, se é que me entende.

 

--A gente nunca é quando se acidenta. Ficamos assim por um tempo que depende de cada um. Quando passa, voltamos a ser encantadores. -- sorriu

 

--Você se acidentou? -- perguntou com jeito

 

--Eu tinha uma namorada ciumenta que achava que eu a traía. Na época eu tinha quinze anos e ela vinte e um. -- bebeu um gole de água

 

“Que ótimo! Outra sapatão no meu caminho!” -- pensou revirando os olhos

 

--Rosângela era técnica em química e trabalhava em um laboratório cheio de todo tipo de compostos que possa imaginar. Um dia veio atrás de mim com um pote de plástico. Disse que havia uma coisa legal dentro dele e que eu deveria olhar bem pra ver o que era. Abriu o frasco e eu meti os olhos. -- contava -- Era ácido fluorídrico, produto altamente volátil; só o vapor dele já é suficiente para queimar continuamente. -- suspirou -- Fiquei cega dos dois olhos, e é por isso que eles são totalmente brancos, segundo me disseram que são. Minhas duas íris ficaram desfiguradas.

 

--Meu Deus! -- exclamou chocada -- Que mulher horrível! O que houve com ela?

 

--Foi presa e se matou na cadeia dois meses depois. Estava arrependida... -- comentou com pena

 

--Faz as merd*s, se arrepende e se mata! Muito bom! -- cruzou os braços revoltada

 

--Não tenho ódio dela por isso. Na verdade, tenho pena. Oro por ela todas as noites.

 

--Ora por ela??? No seu lugar eu encomendaria a alma dessa desgraçada pro diabo!

 

Fátima riu. -- Por dois anos eu também pensei assim... mas, sabe? A perda da visão me ensinou a ver coisas que antes estavam diante de mim e eu não conseguia perceber. Entendi a verdade da célebre sentença: “o essencial é invisível aos olhos.”21 Com toda certeza, sou uma pessoa muito melhor e mais feliz hoje.

 

--Você vai me perdoar, mas a maioria de vocês aqui têm essa conversa bonita de que a deficiência foi uma verdadeira bênção. Isso é realmente o modo como pensam? Acho que vocês tentam apenas anestesiar a mente e se conformar com o irremediável. Não é possível ser feliz do jeito que cada um de nós aqui é! -- afirmou descrente

 

--Por que acha que não? A vida é muito grande pra ser mediocrizada por limitações de um corpo que vai passar. Uma vez um colega me disse assim: “Valiosa é a escassez, porque traz a disciplina. Preciosa é a abundância, porque multiplica as formas do bem. Uma e outra, contudo, perecerão algum dia. Na esfera carnal, a glória e a miséria constituem molduras de temporária apresentação. Ambas passam.”22 -- pausou -- Isso vai passar, Camille. E se aconteceu com você, comigo e com todo mundo aqui não foi à toa.

 

--Ah não, esse papo espiritual, não! -- interrompeu a outra -- Eu sou atéia, materialista e cética de carteirinha. Acredito só no que posso ver ou tocar.

 

--Então não acredita na energia elétrica ou na magnética? -- perguntou sorrindo

 

--É diferente. Eu não as vejo mas noto seus efeitos e manifestações.

 

--Com Deus é igual: nós só podemos notar Seus efeitos e manifestações. Podemos senti-lO também, mas é necessário se permitir primeiro.

 

Camille balançou a cabeça contrariada. -- Você é lésbica, como pode acreditar nisso? Deus condena o que você é e faz. A Bíblia diz isso. Os homossexuais são todos amaldiçoados.

 

--Uma atéia dizendo isso? -- riu -- A interpretação cega das Escrituras pode concordar com o que diz, mas Deus não condena ou amaldiçoa. A gente simplesmente colhe o que semeia. Sou lésbica, ainda não me sinto preparada pra abrir mão de exercer essa sexualidade e sei que colherei conseqüências do que fizer de errado. Mas isso cabe pra todas as esferas de minha vida. Mesmo se fosse a mais hetero das mulheres.

 

--Então, não acha que Deus te condena?

 

--Não.

 

--É cômodo pensar assim.

 

--Se você acha... -- bebeu mais água -- Mas fale. Você se acidentou como?

 

--Uns desgraçados foram assaltar meu pai e eu na estação da Sé. Meu pai tentou reagir, mataram ele, eu tentei ajudá-lo e me jogaram em cima dos trilhos. O metrô veio e VAPT! Perdi a perna.

 

--E quando foi isso?

 

--Fez um ano nesse mês... -- respondeu pensativa -- Sou nova nisso de ser especial. -- falou com ironia

 

--Você é cheia de dor e mágoa no coração. Vai acabar adoecendo se não mudar esse panorama mental.

 

--Não sei fazer isso. E acho até que pra uma aleijadinha categoria júnior eu estou indo muito bem.

 

Fátima riu. --Você é uma figura, garota! Mas insisto que deve tentar mudar esse panorama mental.

 

--Não é fácil...

 

--E quem disse que é?

 

--Eu tentei até me matar, mas descobri a duras penas que não basta cortar os pulsos pra isso.

 

--Meu Deus, você tentou??? -- perguntou apavorada -- E como está hoje? Como ficaram as mãos?

 

--Não perdi o movimento delas por muito pouco. O médico usou até o termo milagre. -- riu brevemente -- Faço fisioterapia e me recuperei bastante, mas não ficou a mesma coisa. Não sei se um dia minhas mãos serão como eram. -- pausou -- E eu desisti de tentar me matar porque quando não dá certo a emenda fica pior que o soneto.

 

--Sábia decisão! -- afirmou enfática e depois silenciou -- Como era sua vida antes do acidente?

 

--Eu vivia em uma bela casa em São Paulo, fazia engenharia de produção na USP, aliás faltavam só dois períodos pra me formar, era noiva de um rapaz bonito que já estava com um bom emprego nas mãos... íamos nos casar... -- esfregou uma das mãos no braço da cadeira -- Meu pai e eu estávamos comprando coisinhas pra fazer os enfeites do casamento naquele dia fatídico, acredita?

 

--E o que você fez depois do acidente? O que aconteceu? -- embora perguntasse não parecia enxerida

 

--Augusto foi um viado sem vergonha que me deu um fora no dia do enterro do meu pai! -- desabafou -- Eu tranquei a matrícula na faculdade, não quis saber de mais nada ou ninguém... resumindo, larguei a porr* toda.

 

--A porr* toda quer dizer, sua própria vida.

 

--É... -- foi o que se limitou a responder

 

--E como você era antes do acidente?

 

--Ah, eu era poderosa, esperta, dinâmica... Era uma das melhores do curso, os rapazes me cobiçavam, as

garotas morriam de inveja...

 

--Ou seja, você devia ser bem esnobe... -- riu. Camille se revoltou mas não disse coisa alguma -- E você amava seu noivo?

 

--Claro! -- afirmou enfática

 

--Não acredito... -- fez cara de dúvida

 

--Como não? -- perguntou revoltada -- Você nem me conhecia...

 

--O jeito como falou dele, o jeito como respondeu... não tem emoção, somente mágoa. Quando se ama, mesmo se existe mágoa, há um algo mais no que a pessoa expressa quando fala.Você não tem esse algo mais.

 

--Hum, só faltava essa. Não é porque tem super sentidos que significa que ganhou um terceiro olho.

 

Fátima riu: -- Não preciso, meus super sentidos me bastam. -- riu novamente

 

--E você? -- perguntou em resposta -- Como era antes do acidente?

 

--Cega! Não enxergava o óbvio, acreditava em tudo que me diziam e via a realidade como me convinha.

 

--Não mudou muito nessa coisa de ver a realidade como lhe convém. Aliás, acho que os homossexuais são todos assim.

 

--Nem todos... alguns escondem-se o tempo todo. Uns vivem um eterno esforço de superar seus desejos, outros fingem que são heteros extremistas e perseguem os gays e outros ficam ateus e fazem duras críticas a quem vive o que eles não se permitem viver.

 

--Está querendo dizer que sou gay, meu?? -- perguntou revoltada

 

--Você disse assim, não eu. -- sorriu

 

--Mas eu não sou! -- ficou nervosa -- Tenho é nojo disso, Deus me livre! Ô louco!

 

--Talvez você não seja tão atéia quanto diz. Talvez negue Deus porque, além de se revoltar com o acidente, tem medo que Ele te castigue se você assumir o que é. E você sabe o que é, assumindo ou não.

 

--Ah, Fátima, passou dos limites! -- fez um esforço para pegar as muletas e se levantar -- Não vou ficar aqui aturando essa psicologia barata.

 

--Eu aturei a sua com muito mais facilidade. -- respondeu calmamente -- Para dizer a verdade, gostei de conversar com você apesar de tudo. Foi interessante.

 

Camille, já de pé, ficou parada olhando para a nadadora. Estava impassível bebendo os últimos goles de sua água. -- Estava sendo interessante... pelo menos até agora.

 

--Por que me abordou, Camille? Simplesmente porque acha interessante uma nadadora cega? Há outros aqui e você não foi conversar com eles.

 

--Você me admirou pela velocidade com que nada, foi isso. Nunca estive perto de uma atleta olímpica. -- tentou se justificar

 

--Você se sentiu atraída por mim e minha cegueira fez com que se sentisse segura pra vir conversar comigo sem ser percebida. Digo, sem correr o risco de ser ‘descoberta’, vamos dizer assim. Apenas não contava que muitas vezes um cego é o melhor observador que pode haver.

 

--Certamente dos mais presunçosos. -- preparou-se para ir embora

 

--Já pensou em fazer uma terapia? -- perguntou com delicadeza -- Não é só gente tachada por louca que precisa de ajuda profissional, como um psiquiatra, um psicólogo... Poderia te ajudar bastante a lidar com suas dores, angústias, dúvidas...

 

--Tchau!! -- respondeu com raiva

 

--Tchau... -- Fátima balançou a cabeça e percebeu pelos sons que ouvia que Camille estava se distanciando -- Ai, Fátima... sabe que as pessoas não gostam de ouvir a verdade e não perde essa mania... Vai ficar eternamente sem namorada por causa disso... -- desabafou consigo mesma

 

***

 

Camille estava deitada na cama. Sua mãe e o tio dormiam, mas ela não conseguia pregar o olho. Naquele dia havia pedido à Mariângela que fosse com ela para São Paulo pois desejava ir à USP destrancar a matrícula e solicitar transferência para a UFRJ. Queria voltar a estudar no segundo semestre do ano. Porém, sabia que não era por isso que não dormia. A viagem seria depois do carnaval e ainda estavam nos últimos dias de janeiro. Estava remoendo as coisas que Fátima lhe disse. Lembrou-se muito de si mesma antes do acidente e realmente constatou que era uma moça esnobe e muito petulante. Constatou também que começou a namorar Augusto simplesmente para provocar uma garota que chamava muito sua atenção e parecia se interessar por ele. Queria agredi-la, provar que era melhor do que ela. Seu pai nunca acreditou que amasse o noivo e agora reconhecia que ele estava certo. Mas não conseguia aceitar que era lésbica. Como poderia ser?

 

Rolou para um lado e outro da cama, lembrando de um monte de coisas e avaliando suas atitudes em várias ocasiões. Lembrou de mais umas três garotas que lhe interessaram, mas que ela acreditava que era por causa de uma admiração de amiga. Seria isso ou algo mais?

 

Pensou em como a leitura de um mero conto lésbico mexeu tanto com ela a ponto de se ver em sonhos como protagonista de algumas das cenas que leu, para dizer a verdade, mais de uma vez. Viu o rosto de Seyyed em seus pensamentos. Por que a morena mexia tanto com ela? Por que se incomodava com o fato de ela ter uma namorada?

 

E por fim, voltou a pensar em Fátima. Será que a mulher tinha razão? Não estaria ela realmente se sentindo atraída pela nadadora cega?

 

--Meu Deus, eu não acredito!! -- disse para si mesma -- Eu não posso ser lésbica! É muito pra eu administrar!!

 

Fez força para se lembrar de todos os rapazes pelos quais se interessou e constatou: nenhum. Antes de Augusto havia ficado com alguns em festinhas, mas apenas para se exibir para as outras moças. Não gostava ou valorizava nenhum deles. Todos achavam que ela jogava com os caras para conquistar, usar e abusar, e a própria Camille quis se convencer disso. Porém, agora se perguntava se a verdade seria que ela nutria um total desinteresse por homens.

 

“E que papo é esse de psiquiatra, psicólogo?? Eu é que não vou ficar falando de minha vida pra psi nenhum!” -- pensou revoltada

 

Fechou os olhos e chorou bastante. Não queria aceitar aquela realidade que se mostrava diante de si. Acabou adormecendo desse jeito.

 

***

 

Silvio cantava descaradamente a filha de um cliente da oficina enquanto o pai dela conversava com Seyyed. A mecânica percebeu o que estava acontecendo e ficou escandalizada ao reparar no volume que se formava entre as pernas do rapaz. “Não acredito que está ficando excitado!!” -- pensou. Fez sinal para Renan dar um jeito de cortar a onda do outro, no que ele obedeceu, inventando uma tarefa para Silvio fazer. Contrariado, o mecânico foi para o banheiro. Na certa para se masturbar. Depois de alguns minutos pai e filha foram embora.

 

Quando Silvio voltou Ed aproximou-se dele e reclamou: -- Quantas vezes já te disse pra não dar cantada nas clientes? E muito menos nas filhas dos clientes! Você enlouqueceu ou o quê? Estava ficando excitado aqui na frente de todo mundo?

 

--Qual é, Ed? -- ele sorriu -- Ela estava me olhando muito e eu cheguei junto. Quase peguei o telefone dela, não fosse Renan dar uma de empata. -- pausou -- E me excitei mesmo! Viu os peitinhos dela quase pulando do decote?

 

--Cara, aquela garota tem treze anos! -- exclamou horrorizada -- Não tem vergonha, não?

 

--Treze? -- perguntou contrariado -- Então tô fora. Se o cara come uma vadiazinha dessas ele vai preso por pedofilia e ela sai de santa na história. Fica fria que já abandonei.

 

Ed o olhava em estado de choque. -- Que está acontecendo contigo, Silvio? Você parece que perdeu todos os valores que um homem pode ter!

 

--Sem sermões, Ed, eu dispenso! -- respondeu irritado e preparou-se para sair. Ela o segurou pelo braço impedindo-o de se afastar

 

--Você é meu amigo, não só um funcionário que eu valorizo. Não tô dando uma de santa contigo, mas o homem que se tornou me assusta. Ouvi você descrever pros outros o bacanal que foi o seu réveillon. Não acreditei que deixou seu pai sozinho por causa de uma noite de sex* degradante. E você vive em bordéis, não se lembra do nome das garotas com quem dorme e agora não tem nem pudores pra tentar alguma coisa com uma menina de treze anos, se permitindo ficar excitado na frente de todo mundo.

 

Ele se libertou com um safanão. -- Eu sou homem, Ed. -- aproximou-se dela -- Homem, macho! Tenho um baita caralh* entre as pernas e meto ele em quem eu quero. Você pode fazer o que quiser, mas nunca será igual a mim. -- sorriu -- Pode usar os brinquedinhos que quiser, mas nunca vai saber o que é ser um homem com h maiúsculo!

 

--E nem quero saber. -- ela se aproximou uma vez mais -- Também não invejo alguém como você em nada. Está se prostituindo da pior forma como poderia ser!

 

--E você não tem nada com isso! -- falou mais alto

 

--Tenho a partir do momento em que se comporta como um tarado dentro da minha oficina. Isso eu não vou admitir!

 

--Quer saber? Eu cansei. -- jogou a estopa no chão -- A partir de hoje não faço mais parte dessa MERDA -- gritou -- de oficina aqui! -- empurrou Ed e saiu pisando firme. Ela não esperava por aquilo e não teve reação

 

Renan veio correndo e segurou-o pelos braços. -- Enlouqueceu?? Você trabalha aqui desde que se entende por profissional! Você deve muito a minha família, não pode simplesmente sair da equipe assim! E muito menos falar com ela desse jeito! Se não tivesse clientes aqui eu socava tua cara!

 

Silvio o empurrou a ponto de fazê-lo cair no chão. -- Sua família? -- riu -- Não seja ridículo, você não tem família... E eu cansei de receber ordens de uma sapatão frustrada com o sonho impossível de ser homem. -- olhou para trás e encarou com Ed -- Pode comer sua bailarina ruiva com seus brinquedinhos à vontade. -- falava aos berros -- Pode usar a lingüinha e todos os dedos que quiser, mas nunca, NUNCA, vai ser macho. E é isso que mulher quer: macho! -- deu um soco no capô de um carro, pegou a mochila e saiu da oficina

 

Renan se levantou abestalhado. Todos os demais funcionários e clientes presentes ficaram extremamente constrangidos.

 

--Vamos ao trabalho, gente. -- Ed pediu batendo palmas -- Deixem ele. O tempo urge e a gente tem data pra entregar os carros prontos, vambora! -- respirou fundo-- No mais, peço perdão a todos pelo vexame de Silvio...

 

--Ed, eu não entendi nada! -- Renan estava muito chateado-- Eu vou na casa dele e vou meter a porr*da! Ele não tinha o direito de te faltar ao respeito desse jeito!

 

--Não, Renan, esquece isso. Ele quer ir, que vá. Vou pedir a Mariano pra fazer as contas dele, pago o que devo e acabou. -- passou a mão nos cabelos -- Silvio mudou muito, eu não o reconheço mais...

 

--São as companhias. Vive trans*ndo com todo o tipo de gente. Vai ver até se viciou em alguma droga.

 

--Não... a droga dele é o sex*. Sexo quando mal conduzido, leva uma pessoa pro buraco. -- olhou bem para o irmão -- Não se esqueça disso e não enverede pelo mesmo caminho. ISSO não é ser homem.

 

--Eu sei... -- abriu os braços -- mas deixa eu te abraçar porque você é minha irmã e eu não gostei disso.

 

Ed sorriu e se abraçou com Renan. Derramou uma lágrima discreta.

 

***

 

--Estou simplesmente chocada com o que me contou sobre Silvio... -- Olga disse admirada -- As atitudes dele... Depois de tantos anos pedir demissão assim... A grosseria com você, com Renan... É triste...

 

--Ontem ele foi lá acertar as contas aproveitando que eu estava em São Paulo. Esqueceu uma carteira, que Renan achou. Liguei pra ele hoje e como não atendia tentei o fixo. Romeu não sabia dele e nem que tinha se demitido. Disse que não se falam mais.

 

--Por que???

 

--Chegou em casa e pegou o filho fazendo sex* com um travesti no sofá. Discutiram, segundo ele quase apanhou de Silvio, e desde então não se falam mais.

 

--Esse rapaz está sob más influências, Seyyed. Vive metido em tanta baixaria que deve ter atraído pra si a companhia de espíritos inferiores que estão ajudando a transformá-lo em um sujeito totalmente degradado e prostituído.

 

--Mas ele acha que está por cima. É homem, então pode fazer o que quiser. Daqui a pouco vai levantar um monumento ao próprio p*nis, pois vive de adorá-lo.

 

--Temos que orar por ele, filha. Do jeito que vai, não vai terminar bem... -- disse preocupada

 

--E com isso, eu arrumei um problemão com a Isa. -- passou a mão nos cabelos -- Não vou poder ir na estréia dela no Theatro Amazonas. E nem em dia nenhum das apresentações. -- esfregou as mãos no rosto -- Justamente agora que ela protagoniza um espetáculo pela primeira vez!

 

--Mas por que? As passagens estão até compradas! -- não entendia

 

--Porque a saída de Silvio me quebrou, mãe. -- olhou para ela -- Mariano tá dando conta da confusão contábil, mas a sacanagem do meu ex contador me forçou a mudar coisas que eu não queria, o que me fez ter de delegar atividades pra poder resolver esses problemas. Com um a menos na equipe eu fiquei totalmente sem flexibilidade. -- explicava -- Silvio era meu melhor mecânico e um braço direito! Contava com ele pra poder passar os três dias em Manaus. Agora, se eu me ausentar por um dia que seja não atendo os clientes no prazo e sei que vou perdê-los. Só fui pra São Paulo porque era inevitável, e mesmo assim foi uma viagem bate e volta. -- suspirou -- Não sabe como tive de fazer das tripas coração pra dar férias a Renan em dezembro. E Silvio ainda estava lá.

 

--Ela reagiu muito mal? -- perguntou receosa

 

--Mal??? -- riu -- Ela ficou possessa! -- passou a mão nos cabelos -- Acabo de voltar da casa dela. Eu fui lá pra me explicar pessoalmente. Descemos pro play, comecei a falar e fui sumariamente expulsa...

 

--Renan não pode assumir no seu lugar?

 

--Ele ainda não tá preparado pra isso, mãe. Precisa de mais experiência pra tocar o barco em um momento tão crítico quanto esse.

 

--Se realmente não pode ir, o que se há de fazer? -- acariciou o rosto da filha -- Eu mantenho minha ida. Claro que a pessoa que ela mais queria lá é você, mas estarei presente pra prestigiá-la. -- sorriu

 

--Em quem vai com a senhora no meu lugar? Perdoe, mas não posso deixar Mariano ir.

 

--Eu sei, nem pensei nisso. -- sorriu -- Na verdade, estava aqui pensando em outra pessoa...

 

***

 

Camille fazia a fisioterapia com Flávia. Mariângela costurava um macacão de linho que uma moça encomendou. Com a crise financeira no país havia sido demitida da confecção e agora só contava com a magra pensão de Antônio e com encomendas que lhe fizessem.

 

O telefone toca. Interrompeu o trabalho e foi atender.

 

--Alô?

 

--Alô, Mariângela. É Olga, tudo bem? Incomodo, querida?

 

--Não, é que... estou costurando. -- respondeu sem graça

 

--Posso ligar depois, não quero atrapalhá-la.

 

--Não... -- arrependeu-se -- Pode falar.

 

--Queria fazer um convite: quer assistir a estréia de Isa no espetáculo Romeu e Julieta? Ela será a Julieta.

 

--Nossa... Eu nunca fui em um balé. Antônio não tinha paciência pra essas coisas... ele só gostava de cinema. -- riu

 

--A estréia será no dia 15 de fevereiro. Tem tempo pra pensar, mas, me perdoe, não pode demorar muito. -- riu -- Será no Theatro Amazonas, em Manaus.

 

--Manaus??? -- perguntou surpresa -- Mas, Olga, eu não tenho dinheiro pra isso, eu...

 

--Calma, mulher... Seyyed comprou passagens pra mim e ela, só que não poderá ir. Se você quiser, ela vai transferir as passagens dela pro seu nome. Quanto a hotel, não se preocupe também. A idéia é passar três dias na cidade.

 

--Mas e Camille? Eu não posso...

 

--Camille também está convidada. É presente de minha filha. Pela decisão dela de voltar a estudar. Mariano me falou sobre isso e eu contei a ela.

 

--E por que ela quer dar esse presente?? -- perguntou desconfiada

 

Olga respirou fundo: -- Mariângela, Seyyed não está tentando seduzir Camille. Ela é assim mesmo, gosta de estimular as pessoas. Não precisa ficar desconfiada pensando coisas.

 

A costureira ficou desconcertada. Estava feliz por Olga não poder vê-la naquele momento. -- Eu não pensei isso é que... não estou habituada com generosidades de pessoas de fora...

 

--Pense direitinho e me fale. Se quiser ir, ficarei mais que satisfeita. E Isa precisa de público pra prestigiá-la. -- pausou -- Bem, vou deixá-la voltar ao trabalho. Beijo, querida.

 

--Pra você também. Desde já obrigada pela lembrança. -- desligou

 

Mariângela ficou parada sem acreditar no convite que recebeu. Decidiu contar a Camille. Estava surpresa e empolgada.

 

--Camille, adivinha quem ligou? Olga! Ela me convidou pra assistir a estréia de Isa no espetáculo Romeu e Julieta. Isa será a Julieta.

 

--Hum... -- fez um bico -- Que coisa, hein? Da próxima vez que eu encontrar com ela peço um autógrafo. -- respondeu com ironia

 

--Vai assistir, mulher! -- Flávia estimulou. Ela sorriu

 

--Ela também convidou você, filha. -- comentou cheia de dedos

 

--Eu?? E quando vai ser isso?

 

--Dia 15 de fevereiro. -- pausou -- Vai ser lá no Theatro Amazonas, em Manaus. Ela falou que era pra passar três dias na cidade.

 

--Manaus?? Essa mulher tem merd* na cabeça ou o quê? Desde que papai morreu a gente vive mal de grana a beça. Ela pensa que a gente caga dinheiro, é?? -- revoltou-se -- Por que não mandou ela tomar no rabo?

 

--Ei, loura Belzebu, acalma os ânimos aí! Deixa tua mãe falar! -- Flávia ralhou -- E respeito com dona Olga porque ela é sangue bom!

 

--Ela disse que se eu for, vou no lugar de Seyyed, que já comprou as passagens mas não pode ir. E o hotel já tá pago ao que pude entender.

 

--Ah, tá, mas e no meu caso? Eu vou no lugar de quem?

 

--De ninguém. Se quiser ir, é presente de Seyyed.

 

Camille estremeceu. “Por que ela quer me presentear? O que pretende?” -- pensou intrigada -- E por que essa bondade toda comigo? Por que a gente vai virar priminha? -- sorriu debochada

 

--Pela sua decisão de voltar a estudar. Souberam disso através de Mariano.

 

--Não há nada que eu odeie mais do que essa caridade de gente boazinha comigo. -- corou de raiva -- Eu não vou! Não mesmo! Não vou prestigiar a mulherzinha da Seyyed, não mesmo. -- olhou para a mãe -- E você também não vai! -- berrou -- E eu vou dar um esporro no tio porque não quero que ele fique contando tudo meu pra essa gente!

 

Mariângela ficou triste e respondeu em voz baixa: -- Eu sabia que você não ia querer ir...

 

Flávia assistia àquela conversa revoltada.

 

--Gente, olha só. Eu não tenho nada com isso, mas por favor, tá? -- olhou para Mariângela -- Não pode passar o resto da vida girando ao redor dela. -- apontou para Camille -- Se terminar tuas costuras a tempo, vai mesmo! Ela não quer ir, fica em casa. Seu irmão mora aqui ainda, a princesa não vai ficar sozinha.

 

--Flávia, você cale sua boca! -- a loura gritou com raiva -- Não é da família, não é nada da gente, apenas uma fisioterapeuta de merd* paga pra me tratar! Cuide de sua vida e deixe que da nossa, nós cuidamos. Vai tomar no cú porque não te pedimos opinião. Você se acha o máximo porque luta um boxe de merd*, mas não passa de uma aleijada ridícula!

 

--Camille! -- Mariângela repreendeu escandalizada

 

A fisioterapeuta olhou seriamente para a jovem e começou a falar rispidamente enquanto guardava suas coisas na maleta. -- Sabe, Camille, você é uma garota de muita sorte e eu me pergunto porque, já que não merece metade das coisas que recebe. Sua mãe trabalha pesado pra te dar conforto e te trata como deusa, girando ao seu redor e vivendo em função de você. Cada mínimo sinal de satisfação de sua parte é suficiente pra que ela ganhe o dia, mas você é insensível a tudo isso. Seu tio faz das tripas coração pra dar uma força, o homem vive feito doido pra te ver melhorar mas você nem sequer fica feliz com o casamento dele. -- olhava para a loura -- Os dois mudaram tudo por sua causa e fazem um sacrifício danado pra me pagar e pra que você possa nadar, voltar a estudar, voltar a viver de novo, mas você só sabe reclamar e ser grossa. Desde que te conheço nunca te vi ter um gesto sequer de delicadeza com tua mãe e nem com teu tio! Está sempre de mau humor, debochando, sendo sarcástica... Você parece ter prazer em ser desagradável, antipática, cruel... -- levantou-se -- Quer saber, pra mim chega!

 

--Como assim, Flávia? -- Mariângela estava atônita

 

--Camille não é mais tão carente de ajuda especializada como era quando a conheci. Qualquer fisioterapeuta com um mínimo de preparo pode continuar o trabalho que começamos aqui. Tô indo embora. -- caminhou até a porta

 

--Está se demitindo? -- a loura lutava para não chorar

 

--Com certeza! -- sorriu debochadamente -- Eu não costumo a me estressar com nada mas hoje cheguei no meu limite. -- abriu a porta

 

--Flávia, por favor... -- Mariângela correu até ela -- Não decida nada com a cabeça quente... Camille falou aquilo tudo em um momento de descontrole, ela... -- olhou para a filha -- Não é? Peça desculpas agora! -- ordenou

 

--E ela não tinha porque estar descontrolada. Sinto muito, mas eu cansei. -- olhou para a jovem -- Loura Belzebu... fui! -- partiu

 

Mariângela ficou abestalhada diante da porta aberta, até que decidiu fechá-la. Camille movimentou-se para seu quarto sem dizer uma palavra e se trancou lá dentro.

 

A costureira sentou-se diante da máquina de costura e fechou os olhos. -- Oh, meu Deus e agora? Como vai ser sem Flávia? -- estava quase chorando

 

***

 

--Ivone, estamos progredindo, viu? Suzana me convidou pra jantar em sua casa e me tratou como rainha. Conversamos, dançamos... Nada aconteceu, nem um beijinho sequer, mas ela não entrou em pânico. Confesso também que estou indo com menos sede ao pote. -- sorriu

 

--Que bom, querida. Talvez possam ficar juntas e se amar de verdade no futuro.

 

--Ivone, você que entende das coisas da vida, acha que pode haver amor verdadeiro entre pessoas do mesmo sex* ou isso só acontece em relacionamentos heterossexuais? -- perguntou intrigada

 

Ivone riu. -- Entendo das coisas da vida? Sou tão aprendiz quanto você e apenas mais velha nesse caminho. -- sorriu -- Respondendo sua pergunta, eu diria que dois espíritos que se amam, mesmo encarnados em polaridades iguais, podem se completar sob o ponto de vista energético e emocional. Ou seja, claro que pode haver amor verdadeiro.

 

--E acha que mereço isso? -- perguntou receosa -- Às vezes acho que não...

 

--Ei, mas de onde tirou essa idéia? Claro que merece! Todos os seres humanos precisam e devem amar. E todos merecem amor.

 

A japonesa permaneceu calada por uns instantes. -- Crise passageira de auto-estima, despreze! -- riu -- Sabe... acho que a gente tem tudo a ver! Suzana e eu... -- pausou -- Ontem fomos na praia.-- sorriu -- Na Barra.

 

--Bem que notei que está mais morena! E como foi?

 

--A gente tomou banho de mar, conversou, almoçou juntas... Houve uma hora em que estávamos pegando sol e uns caras que jogavam frescobol derrubaram a bolinha perto de mim umas três vezes. Tudo pra ir buscá-la e olhar minha bunda.

 

--E por que acha que era pra olhar sua bunda? -- perguntou desconfiada

 

--Por que Suzana não usa calcinha de biquíni, só short. E o meu biquíni é bem cavado! -- explicou

 

--Imagino! -- riu

 

--Aí na quarta vez que o cara foi buscar a bolinha, Suzana pegou ela e apertou de um jeito que a bicha explodiu.

 

--Nossa!

 

--O cara reclamou e ela tranquilamente se levantou e pegou ele pelo pescoço com uma classe! Ele caiu de joelhos e já estava até ficando roxo, quando o outro amigo veio pra cima e ela pegou esse aí também. E ele também caiu roxo e de joelhos no chão. -- sorriu

 

--Mas, Deus do céu, e aí?

 

--E aí que ela falou assim: “Nunca viram mulher bonita, não? Bando de babacas! Sumam daqui!” Pegou os dois ao mesmo tempo, chacoalhou e os soltou. Eles caíram no chão com falta de ar, se levantaram com dificuldade e sumiram. -- contava empolgada -- Ela tornou a se deitar pra pegar sol e nem comentou a respeito. Tinha que ver que classe, Ivone! -- comentou impressionada

 

--Mas e você? Não fez nada, só ficou vendo? -- perguntou surpresa

 

--É que eu fiquei tão surpresa, sabe? Só assisti e babei. -- sorriu -- Ela não é fofa?

 

--Fofíssima!

 

--E ontem eu bati boca com um fulano que tava pegando remédios pra um consultório particular na maior cara de pau e fiquei muito aborrecida. -- fez cara feia -- Liguei pra Suzana e contei tudo. Em pouco tempo ela estava lá segurando o homem pelas pernas. -- sorriu

 

--Como assim??

 

--De cabeça para baixo, pelas pernas. Aí na maior classe falou: “Devolve o que pegou.” E soltou ele. Foi o maior barulho quando ele caiu. Parecia até jaca podre! Ela ainda disse assim: “Pede desculpas a ela!” E me apontou. Em poucos minutos os remédios estavam nos seus devidos lugares e ele me pediu mil desculpas. -- contava orgulhosa

 

--Mas... ela pode fazer essas coisas? Não tem medo das conseqüências? -- perguntou intrigada

 

--Acho que não tem medo, não... Só tem medo é mim mesmo! -- riu -- Ela não é meiga?

 

--Meiguíssima!

 

--Ela disse que vai me levar pra passear de moto um dia desses com o pessoal do motoclube. Falou que vai me comprar um capacete!

 

Ivone riu. -- Meu filho é presidente de um motoclube. Qual o nome do que ela pertence?

 

--Sede de Sangue. -- respondeu orgulhosa -- Nome forte, né? É porque o pessoal é tudo do pavio curto!

 

--É, Juliana... acho que vocês têm tudo a ver... -- riu -- Será realmente uma relação explosiva...

 

***

 

Eram oito e meia da noite e Seyyed trabalhava sozinha na oficina. Ouviu a campanhia tocar. “Quem será?” -- pensou intrigada

 

Foi atender e viu que era Ana, mãe de Isa.

 

--Oi Seyyed! -- sorriu -- Desculpe a hora mas precisamos conversar. -- pausou -- Eu vim de táxi... Será que podia acertar com o motorista? É que não ando com dinheiro. Sabe como é... tem muitos ladrões por aí... -- sorriu novamente -- Deu trinta e dois e noventa!

 

“E mais essa!” -- pensou. --Entre, Ana. -- olhou para o taxista -- Irmão, vou pegar teu dinheiro!

 

Após pagar pela corrida ofereceu um café a mulher mais velha e foram conversar na sala. Estavam sentadas nas poltronas uma de frente para a outra.

 

--Percebi que estava trabalhando. Desculpe interrompê-la dessa maneira mas precisamos conversar sobre algumas coisas importantes. -- bebeu um gole de café

 

--Pois não? -- não sabia o que esperar

 

--Isa está realmente zangada com você.

 

--Nem me fale... -- abaixou a cabeça

 

--Mas eu fiquei do seu lado e entendi a situação. Deve zelar pela saúde financeira de seus negócios e está certa. -- cruzou as pernas -- Isa terá outros grandes espetáculos pela frente, com toda certeza. Eu disse a ela que deveria fazer as pazes com você.

 

--Obrigada. -- respondeu desconfiada

 

--Não me agradeça, estou apenas cumprindo com minha obrigação de mãe e zelando pelo futuro dela. Já

que pretendem se casar um dia...

 

--Hum... -- balançava a cabeça

 

--Aliás este é um assunto muito importante: o casamento. Vamos falar da questão financeira. Responda com sinceridade, esta oficina está à beira da falência?

 

--Não!! -- respondeu enfaticamente -- É só uma fase ruim que vai passar, tenha certeza. Mas tô bem longe de quebrar, graças a Deus!

 

--Uff! -- fez um gesto afetado -- Graças a Deus! Essa fase ruim vai passar logo, tenho fé!

 

--Vai sim!

 

--Agora vamos falar da questão familiar. Você tem praticamente só a sua mãe e seu irmão, é adulta, dona do próprio negócio... Faz o que bem entende e não deve satisfações a ninguém. Pode casar e descasar quando der na telha. -- gesticulava -- Isa é diferente... Ela é jovem, inexperiente, está começando a vida, depende de nós pra se manter... -- pôs a mão sobre o peito -- Nossa família é tradicional e pautada nos mais rígidos padrões morais. E o pai dela é muito conservador. Não vão aceitar essa união de vocês! -- bebeu mais um gole

 

--Hum...

 

--E tem também a faculdade. Esses resultados estão demorando a sair mas sabemos que ela vai passar. E uma universitária tem que ter dinheiro pra comprar livros, comida, se deslocar... A faculdade é pública mas dá despesas. E convenhamos, se casar com você ela vai sair de uma região central, que é a zona sul, e virá morar no subúrbio. -- fez uma careta discreta -- Sem metrô nas redondezas como irá pro Municipal? E pra faculdade, vai de que? Eu não quero minha filha pegando trem cheio ou ônibus lotado. Ela nunca nem entrou nesses coletivos...

 

--Onde a senhora está tentando chegar? -- perguntou desconfiada

 

--Se quer casar com minha filha, só conseguirá isso com meu apoio. Sozinha, ela não tem condições de se decidir e nem de enfrentar a barra que vai ser. Nossa família é muito rígida em seus padrões.

 

--E eu posso contar com o seu apoio? -- olhou bem para ela

 

--Depende. Vai sustentá-la como merece? Já lhe falei sobre os gastos de uma universitária. E Isa é acostumada com tudo do bom e do melhor!

 

--Nem pensei no contrário.

 

--Seria bom que sua conta no banco fosse conjunta com ela e que lhe desse um carro. A pobrezinha não tem um desde que voltou de Paris.

 

“Essa mulher é uma grandessíssima interesseira!” -- pensou. Conteve-se para não ser grosseira. -- Conversarei com ela a respeito. Afinal de contas, não podemos aqui decidir coisas que a envolvem sem que ela esteja presente, não acha? Isa poderia ficar ainda mais zangada comigo e nem querer se casar.

 

--Está certa... sei que ela é meio cabeça dura. -- pausou -- Mas não diga que conversamos isso. E, recomendo que lhe dê o carro como presente por passar na universidade. Se oferecer antes, ela não vai aceitar. Minha filha é como eu: totalmente desinteressada de coisas materiais.

 

--Certamente já percebi que herdou esta característica de você. -- respondeu ironicamente. Ana acreditou que falava sério

 

--Vi o anel de noivado que deu a ela. Muito bonito! Tem brilhantes... Deve ter sido caro!

 

--Digamos que não se compra um em qualquer lojinha. -- sorriu

 

--Gostei de sua classe. Os homens já não pedem as mulheres em casamento dessa maneira. Fica só no papo no mesmo... Ou então é anel da Avon!

 

Ed se limitou a rir. Estava achando aquilo tudo ridículo.

 

--Se quiser se reconciliar com Isa antes dela viajar... Anselmo está fora a serviço. -- terminou o café -- Posso dormir na casa de minha irmã. Se chegar amanhã por volta das sete você a terá em casa... sozinha. -- sorriu

 

--Agradeço a dica.

 

--Não me agradeça. Estou apenas cumprindo minhas obrigações de mãe. -- olhou para o relógio -- Poderia me chamar um táxi? Seria bom acertar com o motorista antes, pois como sabe... não ando com dinheiro. -- sorriu

 

***

 

--Isa, você foi maravilhosa! O espetáculo foi lindo! Adorei a proposta de vocês em interpretar Romeu e Julieta com todo este, nem sei dizer, caráter de Amazônia! -- Olga sorriu -- Muito original, o público foi ao delírio!

 

--É mesmo! Eram tantos aplausos que o teatro parecia que viria abaixo! -- Mariângela comentou -- Eu também adorei!

 

A bailarina sorriu de orelha a orelha. -- Nós ensaiamos arduamente ao longo destes últimos meses. A proposta era trazer ao público algo bem brasileiro, bem amazônico, sem perder a elegância do clássico!

 

--E conseguiram! Parabéns! -- Olga abraçou a moça que fechou os olhos sorrindo Mariângela deu beijos de comadre. -- Pena que Seyyed não pôde vir. Ela teria amado! -- Olga comentou espontaneamente. Isa nada respondeu e desmanchou o sorriso -- Desculpe filha, mas ela não exagerou ou mentiu pra você. Enfim, não vou me meter nisso.

 

--Querem vir conosco? -- Isa perguntou para mudar de assunto -- Vamos sair daqui a meia hora.

 

--Não... vá e divirta-se com seus amigos. Se nós formos você vai ficar empenhada em nos dar atenção e não vai curtir como deve. Nós vamos comer alguma coisinha aqui na praça e ficar conversando.

 

--Tem certeza? -- olhou para as duas mulheres mais velhas -- Meus pais e tia Leila estão aí e podem lhes fazer companhia.

 

--Olga tá certa. Vá com seus amigos e sua família. -- Mariângela afirmou -- Nós vamos ficar bem.

 

--Gente, eu só posso dizer que ser mãe de artista não é pra qualquer uma! E nós criamos essa menina pro mundo, sabe como é? Artista não tem paradeiro, vai pra onde o vento leva! -- Ana falava com umas pessoas e gesticulava como uma deputada -- Às vezes essa menina acorda e nem sabe em que cidade está. É assim!

 

Enquanto isso, Anselmo olhava o celular impacientemente.

 

--Sua tia disse que não iria sair e sua mãe -- olhou na direção de Ana -- está entretida com... seus fãs e tudo mais. -- olhou para a moça novamente -- Não queremos incomodá-la. Vá e divirta-se! -- Olga insistiu

 

--Isa... -- uma moça veio correndo -- Seu celular! -- mostrou o aparelho. Era Seyyed ligando

 

--Ah, obrigada! -- pegou o celular -- É sua filha. -- disse a Olga -- Com licença.

 

Olga e Mariângela acenaram um tchau e se encaminharam para sair. Isa atendeu o telefone. -- Alô... -- respondeu seriamente

 

--Alô, Isa. Tudo bem? Como foi o espetáculo? Assim que acabou mamãe me mandou um torpedo dizendo que foi lindo. -- estava animada

 

--O público recebeu muito bem, e sua mãe e dona Mariângela acabaram de me cumprimentar. Veio tanta gente falar comigo! Nem sei dizer quantos buquês recebi, mamãe que sabe! O público me assedia como se eu fosse uma estrela! -- estava se exibindo. Queria deixá-la enciumada

 

--E você é! -- riu -- Eu sabia que isso iria acontecer. E acontecerá em várias outras vezes no futuro, se Deus quiser.

 

A bailarina permaneceu calada por uns segundos. -- Você nem veio me ver antes da minha viagem... -- reclamou chateada -- Pensei que fosse aparecer...

 

--Ao que me lembre, você me expulsou de sua casa quando fui te dizer que não iria mais viajar. Eu te liguei, mandei e-mail, torpedo, tentei te explicar a situação de todas as formas e você não me deu a mínima. Por que eu iria te procurar depois daquilo? -- desabafou -- Outra pessoa no meu lugar nem te ligaria agora.

 

--Como não queria que eu ficasse chateada?? Foi a primeira vez que eu estréio como protagonista e você não está do meu lado! Tem idéia de quantas bailarinas disputaram esse papel? -- falou um pouco mais alto

 

--Isa, eu não desvalorizo suas conquistas, mas goste ou não, eu tenho responsabilidades. Eu não vou poder te acompanhar sempre. Você não precisa de mim pra chegar aí e mandar ver. A oficina e meus funcionários sim.

 

--Ah, eu gostei de saber que as prioridades de sua vida serão sempre sua oficina e seus funcionários. -- respondeu com deboche

 

--Eu não disse isso, está sendo infantil!

 

--Ah, então agora eu sou infantil? -- perguntou chateada -- Mas na hora de me levar pra cama eu sou mulher o suficiente, não é? -- falou mais baixo para que não ouvissem

 

--Está misturando coisas que não têm nada a ver! -- reclamou

 

--Nada a ver porque não te convém!

 

--Olha Isa... foi até bom que isso acontecesse, viu? Senão a gente ia acabar vivendo uma crise no casamento quando você fizesse a primeira viagem e eu não pudesse ir junto. -- pausou -- Foi bom que tivesse acontecido agora e não mais tarde.

 

--Que quer dizer com isso? -- perguntou preocupada

 

--Eu tenho raízes demais: mamãe, a oficina, os funcionários... Eu montei uma estrutura aqui e tenho de mantê-la. Gosto de mantê-la. Se me mudar, terei de fazer tudo de novo, e novamente criarei raízes. Você, ao contrário, não quer se prender a lugar algum. Sua profissão, sua vida, pedem mobilidade e eu não tenho essa mobilidade. Não vou poder te acompanhar sempre. Se entrarmos em crise por causa disso, se a gente brigar toda vez que eu não puder viajar contigo, nosso relacionamento vai acabar em um estalar de dedos.

 

--E pelo que estou entendendo você já está querendo estalar seus dedos, não é? -- estava tensa

 

--Não... Eu não quero ficar sem você. -- pausou -- Mas estou pensando se não fui muito precipitada quando te pedi em casamento. A gente devia ter discutido mais...

 

--Como é??? -- revoltou-se -- Quer que eu te devolva a aliança? Posso fazer isso a qualquer tempo! -- uma lágrima escorreu de seus olhos

 

--Quer saber, Isa? Chega! Tenha uma boa temporada, muito sucesso e tudo de bom!

 

--Estamos terminando, Seyyed? -- secou o rosto e respirou fundo

 

--Responda você, Isabela. -- pausou -- Tchau! -- desligou o telefone

 

A ruiva ficou pensativa e olhou para a aliança em seu dedo. Pensou em retirá-la mas não teve coragem.

 

Os colegas vieram chamá-la. A bailarina respirou profundamente e forjou seu melhor sorriso. “Show must go on...” -- pensou e seguiu com os outros.

 

 

Fim do capítulo


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Comentários para 5 - Primeira Temporada - MUDANÇAS V:
NovaAqui
NovaAqui

Em: 13/06/2024

Muitas coisas acontecendo nesse capítulo 

Por que eu acho que Silvio vai ter uma IST/aids? Ele vai ficar na pior

Fátima "explicou" direitinho para Camille tudo que ela precisava ouvir. Não vai no amor, vai na dor

Camille é uma mimadinha duzinferno! Hora dela tropeçar para ver se acorda! Eu hein! Chatinha demais


Solitudine

Solitudine Em: 14/06/2024 Autora da história
Olá querida,

Silvio terá o que ele está chamando para si. Vamos ver se você está correta.

Fátima tenta mostrar para Camille quem é a cega da história e Camille... bem, você verá.

Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 17/03/2024

Amore olha Maya dando uma nova turbinada nos comments ! Uhu!! Bjuss


Solitudine

Solitudine Em: 22/03/2024 Autora da história
kkkkkk Você é sempre antenada!

Sentirei falta disso! rs
Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 17/09/2023

Eu juro que queria entender que porra é essa nessesite que sempre vem uma pra apagar os comments! Sempre uma pra sacanear habibem mas não adianta apagar gentem. Eu reponhooo huahuahua 


Solitudine

Solitudine Em: 11/11/2023 Autora da história
Menina, mas você comentou com fé, Ave Maria!
Vou passar os das outras pessoas na frente, está bem? É muito trem para responder.
Mas vou responder e agarantho! rs
Beijos,
Sol


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Samirao
Samirao

Em: 23/03/2023

Demora mas vai. E você vai responder tudo de novo habibem! Huahuahua


Solitudine

Solitudine Em: 26/03/2023 Autora da história
Estou respondendo, uai! rs


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Seyyed
Seyyed

Em: 11/09/2022

Cararra como pode Isa dar um chilique por tão pouco? Barbaridade. Fátima foi no tiro certo! Gostei. SEM vicia puta merda!


Resposta do autor:

Isa era ainda muito imatura e mal acostumada. Ela não entendia que Seyyed (ou você) vivia uma outra realidade rs

Fátima é um capítulo a parte. Era cega, mas enxergava tudo muito claramente. Ao contrário de Camille, que vivia de negação.

Vicia? Que bom! rs

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 11/09/2022

Ju não dá um refresco e a delegada só nas butuca. Cami sonhando coisinha safada hehe Isa pensa que vai me levar de jeito será que eu dou mole? Mas 5ambem é foda difícil resistir... Sabrina eu não gosto! Só pensa em tirar onda escalando essa gosta de trepar ic!


Resposta do autor:

Juliana quando quer, vai em cima com fé! kkk

Camille vivia presa em dilemas interiores e de vez em quando flertava com o que vivia negando. Isabela e você "deram-se mole" mutuamente. rs

Sabrina gosta de trepar? A língua portuguesa é bem ampla, não? kkk

Beijos,

Sol

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Irina
Irina

Em: 09/09/2022

Kotinha!!

Cá estou eu me pondo a reler tua obra. Começo pela primeira que nos destes e não deixo de me emocionar e divertir e refletir com vossa mensagem. 

Se houvesse em mim um poder, o mundo conheceria esta: Solitudine!

Paz de Cristo e beijo carinhoso


Resposta do autor:

Olá querida Irina!

Fico feliz em vê-la relendo este conto e ainda assim gostando. Muito obrigada por ainda vir aqui me dizer isso. E pelos seus desejos de sucesso para esta autora.

O mais importante é isso, pessoas como você gostarem de ler e reler. 

Beijos,

Sol

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

Sabe que Suzana fujona me lembra alguém? uauaua


Resposta do autor:

Quem?

:P

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 15/04/2020

Viu como as coisas miudam? Isa Guedes é mimada demais, mas as bricadeirinhas eram interessantes... Kkkkkk... Várias ideias.

 

Produtividade baixa por aqui também, apesar das férias estou trabalhando, mas hoje fui uma negação, mas enrolei do que trabalhei.

 

Beijosss


Resposta do autor:

Enquanto vocês não gostavam da bailarina eu adoro!!!! Com ou sem brincadeiras! kkkk

A produtividade foi baixa porque era muita coisa para a caipira fazer ao mesmo tempo e Samira me confundindo.

Beijos,

Sol

 

Ps: se está de férias não trabalhe e descanse

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 15/04/2020

Olá!

E nesse capítulo fomos apresentada à Fatima, menina gente fina hein? 

Camille ainda insuportável, Suzaninha fofa e Isa... Bem a Isa deixa pra lá junto com a mãe.

 

Beijos


Resposta do autor:

O que dizer? kkkkkk Você era uma que não curtia muito a ruiva, só as brincadeirinhas dela.

Hoje revisamos até o Transformações II. Produtividade baixa do lado de cá.

Beijos,

Sol

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