Primeira Temporada - MUDANÇAS IV
16:50h. 25 de outubro de 2000, Cinelândia, Rio de Janeiro
Patrícia discursava para uma pequena multidão: -- Nós precisamos combater a segregação ocupacional, as diferenças salariais entre homens e mulheres e a informalidade! As mulheres ainda somos menos numerosas nos postos de trabalho formais, ainda temos renda inferior aos homens, ainda ficamos muito mais expostas às más condições de trabalho. Temos que lutar para levar uma pauta ao presidente, onde constem nossas reivindicações. Temos que combater a toda e qualquer política que contribua para a discriminação. E temos que lançar um olhar especial às afro descentes e às indígenas! Temos de lançar um olhar especial às lésbicas, que sofrem com atos de violência por sua opção sexual. Temos que lutar contra toda e qualquer violência contra a mulher. Em casa e no trabalho! -- aplausos interromperam sua fala -- Vamos apresentar a nossa proposta de pauta pra nos guiar nessa luta, e nós gostaríamos de contar com o apoio de vocês pra combater essas misérias que ainda nos oprimem. Esmagar as mulheres não é ruim apenas pra nós, mulheres, mas pros homens também. Homens, estou falando de mulheres nas quais se contam sua mãe, suas irmãs, sua esposa, suas filhas! Uma sociedade não pode ser saudável e forte se existe desigualdade e desqualificação de quem quer que seja! Termino com uma citação de um ilustre advogado: “No mundo, existe algum rei, presidente, ministro, general, chefe religioso, magistrado, parlamentar, filósofo, cientista, doutor, artista, professor, letrado ou analfabeto, em qualquer atividade terrena, que não tenha nascido do ventre da mãe e que não necessitou do seio, dos braços, dos cuidados, das lições e do amor dessa mulher?”16 -- pausou -- Obrigado! -- desceu do palanque e entregou o microfone ao próximo inscrito. Aplausos continuavam
--Você foi ótima! -- Tatiana disse empolgada -- Eu quero conhecer essa pauta que você falou.
--Vamos apresentá-la na plenária das seis. Ainda estará aqui? -- perguntou interessada
--Claro! Eu quero participar dessa luta!
Dois rapazes observavam Patrícia e depois vieram abordá-la.
--Boa tarde. Eu sou Klauss e esse é meu amigo Nilton. -- estendeu a mão para cumprimentá-la. Ela apertou -- Nós acompanhamos seu trabalho de mobilização popular não é de hoje e queríamos te convidar pra proferir uma palestra na nossa sede.
--Sede de que, desculpe?
--Klauss, você me envergonha. -- Nilton brincou com o colega -- Nós somos de uma ONG que luta contra a discriminação no trabalho e você é a pessoa que nós estávamos procurando!
--E qual o nome da ONG? Onde fica?
--Trabalho e Vida. A sede é aqui no Centro mesmo. -- Klauss respondeu
--Nunca ouvi falar dessa ONG. -- Tatiana comentou desconfiada -- Eu conheço quase todas as ONGs do Rio e nunca ouvi falar nessa!
--Olha, que grosseiros nós somos. Nem nos apresentamos a essa moça! -- Klauss apertou sua mão. Nilton na sequência
--Prazer, Tatiana. -- continuava desconfiada
--O Rio é grande demais Tatiana! Às vezes a gente pensa que conhece tudo e não conhece. -- olhou para Patrícia -- Que horas sairá daqui?
--Depois da plenária das seis. Deve acabar lá pelas oito.
--Você podia dar uma passada na sede conosco, só pra conhecer. Ficamos todos lá até quase às dez. Aí a gente já monta o esqueleto de como vai ser a sessão em que você vai palestrar pra nós.
--Quantos vocês são? -- ela perguntou
--Somos umas vinte, trinta pessoas.
--Está bem... -- balançou a cabeça
--Então lá por volta das oito nós te procuramos de novo. Estaremos na plenária também e não vai ser difícil te achar. -- piscou -- Até! -- disse Nilton
--Tchau! -- disse Klauss
--Até! -- Patrícia acenou
Eles se misturaram no meio das outras pessoas.
--Ô Patrícia, você vai sair com esses caras que ninguém nunca nem viu pra tal sede? E ainda à noite? -- Tatiana perguntou preocupada -- Eu nunca ouvi falar nessa ONG deles, não!
--Sem aperreio, Tati, que mal tem? Se for furada eu vou embora. Tô de moto e não preciso deles.
--Então eu vou com você, uai! -- exclamou enfática
--Ih, pára com isso! Você vai sair com seu mecânico, então não dá um cano no cara! Eu vou com a dupla seguindo na minha moto e, se for furada, dou no pé.
--Vai não Pat, você não conhece eles...
--Tati, chega! Eu sei me cuidar, valeu? -- piscou para a amiga, deu as costas e foi andando para conversar com outros colegas
***
Eram oito e vinte da noite e Patrícia tentava se comunicar com Sabrina, que não estava atendendo o celular. Quando ia desistir ouviu a voz do outro lado.
--Alô. -- respondeu sonolenta
--Oi, Sabrina, sou eu, Patrícia. Como vai? -- sorriu inconscientemente
--Eu sabia que era você. Estava no banho por isso demorei a atender. -- pausou -- Tô bem e você? O que manda?
--Eu também vou bem... -- passou a mão no pescoço nervosamente -- Então... que tal se a gente se visse hoje, hein? Eu podia passar aí na sua casa e de repente a gente saía, batia um papo... -- propôs receosa
--Ah, Pat, não dá. Tenho treinado bastante pra próxima escalada e ainda ando feito louca buscando patrocínio... Não dá...
--E se eu fosse aí na sua casa te fazer uma massagem? Dizem que tenho talento pra isso... -- insistiu mais um pouco
--Ah, fica pra outro dia. Hoje tô cansada demais pra dar atenção a alguém.
--Tudo bem... -- respondeu desapontada -- Fica pra próxima.
--Você não iria achar legal vir aqui só pra me ver dormir. -- riu brevemente -- E eu estou morta! -- pausou -- Bem... é isso... Deixa eu desligar. Beijo, tchau!
--Tchau! - ouviu o telefone ser desligado do outro lado. -- Eu não me importaria de chegar aí só pra ver você dormir... -- respondeu para si mesma e com uma certa tristeza
Patrícia desligou o celular e ficou pensando em Sabrina. Queria muito que a moça gostasse dela, mas sabia que estava forçando uma barra. Sabrina não estava nem aí.
--Ah, finalmente te encontramos! -- Klauss chegou sorrindo e com os braços abertos -- E aí, vamos lá?
--Vamos. -- respirou fundo -- Vamos sim! -- sorriu tentando disfarçar sua frustração
***
--Priscila, acorda! -- Tatiana sacudia a amiga -- Acorda!
--Mas o que foi, hein? -- Priscila acordava preguiçosa -- Logo hoje que eu só tenho aula de tarde?
--Patrícia não dormiu em casa! Tô preocupada que chega dói! -- sentou-se na cama da amiga
--Qual é, hein? -- deitou-se de lado e fechou os olhos -- Quantas e quantas vezes que isso aconteceu? Deve estar com Sabrina.
--Escuta, Priscila, deixa eu te contar! Ontem nós estávamos em uma assembléia lá na Cinelândia e uns caras desconhecidos vieram com um papo estranho de chamar Patrícia pra palestrar na ONG deles. -- Priscila respirou fundo e virou-se de frente para Tati -- É sério, me escuta!
Priscila sentou-se. -- Tô prestando atenção!
--Eles se apresentaram como sendo membros de uma ONG que eu nunca ouvi falar. Convidaram ela pra passar na sede da tal ONG depois da plenária das seis e ela foi. -- pausou -- Eu pedi pra ela não ir! Me deu um mau pressentimento tão grande que chega doeu! Eu disse que ia junto mas ela é custosa demais da conta e não quis saber. Ela não tinha encontro com Sabrina e até se lamentou por isso... não havia porque não voltar. -- estava aflita
--Você já ligou para ela? -- Priscila começava a ficar preocupada
--Não atende! -- começou a chorar
--Calma, Tati, de repente não é nada disso. Ela pode ter ficado bebendo e jogando conversa fora...
--Meu coração diz que aconteceu alguma coisa ruim... -- chorava
--Pára, garota, sem desespero. -- respirou fundo -- Só se pode dar queixa à polícia depois de 48 horas. Por enquanto o que podemos fazer é tentar ligar pra ela mais tarde. -- pausou -- Procura Sabrina!
Tatiana fechou os olhos e chorou.
***
Sabrina estava reunida com pessoas da equipe de uma revista esportiva. Queria levantar os trinta mil que precisava para encarar o desafio na Papua Nova Guiné. De repente o celular toca. Era o fixo de Patrícia.
“Que hora pra me ligar!” -- pensou contrariada
Não atendeu e colocou o aparelho para vibrar. Patrícia insistia. Depois de quase dez minutos de insistência, ela pediu licença e atendeu falando baixo.
--Patrícia, você não tem noção? Tô numa reunião, não posso ficar de papo! Tô com o pessoal que pode me dar a grana que me faltava!
--É... desculpe Sabrina, mas aqui é Tatiana. Deixa eu te falar, Patrícia não dormiu em casa e eu queria saber se ela esteve com você.
--Comigo não! -- respondeu impaciente -- Deve ter se arrumado com alguém por aí. Olha, Tatiana eu tô ocupada e...
--Por favor, Sabrina me ouve! Ontem uns homens estranhos convidaram ela pra passar na sede de uma ONG que não existe e ela foi. -- pausou -- Eu pedi pra ela não ir, mas não me ouviu! Não voltou para casa e meu coração me diz que algo ruim aconteceu! -- estava aflita
--Calma, Tatiana, eu não entendi nada! -- olhou para os homens -- Gente, mil perdões mas parece que tenho um probleminha aqui. Um segundinho, por favor!
Os homens assentiram com a cabeça.
--Você sabe que ontem houve plenária, não sabe? Ela discursou e ao final foi abordada por uns homens de conversa fiada, dizendo que a queriam pra uma palestra. Falaram de uma ONG que não existe e pediram pra que ela fosse na sede conhecer. Saiu com eles por volta das oito e meia da noite, segundo me disseram, e desde então sumiu. Não atende o celular de jeito nenhum. Eu nem tive cabeça pra ir na faculdade hoje!
--Ela me ligou por volta dessa hora, oito e meia. -- lembrou-se
--Falou alguma coisa sobre isso?
--Não, ela... ela só queria me dar um alô. – mentiu
--Priscila diz que só se pode ir à polícia depois de 48 horas...
--É verdade... -- começava a ficar preocupada -- Como sabe que a tal ONG não existe?
--Eu pesquisei na internet, liguei pra uns amigos perguntando... não existe mesmo!
--Que coisa!
--Eu não sei o que fazer... -- lutava para não chorar
--Vamos aguardar. Eu vou ficar atenta. -- pausou -- Mas agora... tenho que desligar, Tati.
--Tá... -- respirou fundo -- Desculpa incomodar...
--Nada... Qualquer coisa me avisa. Tchau.
--Pode deixar... Tchau!
A escaladora respirou fundo, se recompôs e retomou o assunto da reunião.
***
Tatiana ligou para Renan e falou do caso de Patrícia. Priscila ligou para Isa e fez o mesmo. Ed ficou sabendo através da namorada e contou para a mãe, a qual comentou com Juliana, que disse para Ivone. Olga também falou para Mariano, que disse para a irmã. Flávia soube por Juliana e perguntou a Camille se tinha ouvido a respeito. Em pouco tempo muitas pessoas estavam atentas e preocupadas com o bem estar da jovem.
Completadas 48 horas, Tatiana e Priscila foram para delegacia e prestaram queixa, mas não sentiram muita confiança no empenho do delegado. Priscila remexeu nas coisas de Patrícia e encontrou o contato de Pedro, seu irmão gêmeo, o qual era o único da família que mantinha um relacionamento com ela sem preconceitos e sem julgamentos. Tatiana ligou para ele e explicou a situação.
No dia seguinte ao telefonema, Pedro largou tudo e correu para o Rio. Queria desesperadamente ajudar a encontrar a irmã. O pai deles pagou um detetive de João Pessoa para descobrir o paradeiro da filha.
Olga e Juliana passaram a orar juntas pedindo a Deus que a garota fosse encontrada.
E a busca seguia sem resultados...
***
“Entramos na banheira e nos sentamos. Coloquei-a no meu colo, pernas entrelaçadas em minha cintura. Segurei seu rosto delicadamente com as duas mãos.
--Quero que saiba que eu a amo mais que tudo na minha vida! -- disse com o coração
--Eu também, meu amor. Eu te amo muito, muito. -- sorriu”
--Humpf... que coisa melosa... -- Camille resmungou
“Colamos nossos corpos, estreitando o contato ao máximo que poderia ser, gem*ndo juntas, atingindo o clímax simultaneamente, perdidas em sensações que nos tomavam de corpo e alma.
Agarrei-a em um firme abraço e permanecemos assim por alguns instantes. Atentei para o som que vinha da sala e senti-me traduzida pela música que me invadia.
"Vem me fazer feliz porque eu te amo,
Você deságua em mim, e eu, o oceano,
E esqueço que amar,
É quase uma dor...
Só,
sei,
viver,
se,
for,
por,
você"” [a]
Camille continuava lendo o conto Tudo Muda, Tudo Passa e ficou particularmente detida nesta cena de amor entre as duas personagens.
--Não acredito em coisas assim... -- disse para si mesma -- Tudo muito perfeito, muito bonitinho... Amor assim não existe na vida real e sex* nem é essa coisa toda! Esse povo de TV, de filme e de livro é que tem esses orgasmos alucinantes com queima de fogos, sinos tocando e o diabo!
Tão distraída que estava nem percebeu que Flávia estava ligando. Não a ouviu chamar lá fora, por isso a moça telefonava. Desligou o computador apressada e foi abrir a porta para a fisioterapeuta.
--Maluquete, veste um modelito aí que hoje vou te levar em um lugar que vai te dar inspiração! -- pôs as mãos na cintura -- Corre nêga, tá esperando o que?
--Agora é assim, é? Não tem nem bom dia? -- reclamou. Estava sem graça por estar lendo um conto lésbico minutos antes. Sentia medo de ser ‘descoberta’ -- E olha, Flávia, no way! Não vou sair pra lugar algum. Além do mais se está aqui agora é pra minha fisioterapia. -- respondeu mal humorada
--Sua fisioterapia hoje é outside! Aqui, escuta uma: ou você se arruma ou te pego no lombo e te levo do jeito como está!
--Hahaha, acha que vai me levar a força? -- cruzou os braços -- Nós pagamos seu salário, não é você que dá as ordens aqui!
--Não quer ir por bem... -- estalou os dedos e veio se aproximando
Camille sabia que Flávia era louca e bem podia jogá-la no lombo e levá-la à força, mesmo correndo o risco de ser dispensada. Decidiu que seria menos humilhante seguir por bem.
--Calma Flávia, eu vou! -- levantou as mãos -- Só me dê um tempinho, ao menos.
--Sábia decisão! -- sorriu e cruzou os braços vitoriosa
Camille guiou a cadeira até seu quarto com a maior eficiência possível.
***
Foram para um grande e destacado ginásio poliesportivo no bairro de Campo Grande. Chegando lá, Camille deparou-se com vários atletas especiais e ficou surpresa. Flávia apresentou-lhe a Luca, um homem de meia idade, cego de um olho, sem uma das mãos e coberto de cicatrizes. Ele era um dos grandes nomes por trás dos atletas da seleção paraolímpica do Brasil.
--E aí, Luca? Tudo bem? -- abraçou o amigo
--Flávia, oba! Já me disseram sobre o cinturão de ouro... -- piscou -- Parabéns! -- sorriu
--Tô me preparando pro brasileirão! -- disse entusiasmada
--É isso aí! -- respondeu animado
--Deixa eu te apresentar! -- olhou para Camille -- A bonitinha aí na cadeira é nova nessa coisa de perder pedaço e eu tô tentando mostrar a ela que a vida continua. Quando soube que você estaria aqui hoje não pensei duas vezes. Será que teria um tempinho pra Camille? -- sorriu
--Todo o tempo do mundo! -- dirigiu-se a Camille -- Só não aperto sua mão porque a minha ficou na pança de um tubarão. -- sorriu -- Mas é um prazer, quero que saiba.
--Igualmente. -- respondeu desconfiada
--Vamos fazer um tour, minha cara. -- sorriu -- Você tem muito o que ver aqui.
***
Camille ficou impressionada com o que testemunhou naquele lugar: cadeirantes que praticavam atletismo, natação ou basquete, cegos que jogavam futebol ou eram corredores, deficientes de toda a espécie envolvidos em modalidades esportivas de forma inacreditável. Soube que a Paraolimpíada de 2000, em Sidney, foi um marco muito importante para o Brasil, pois foi a melhor participação até então no quadro de medalhas: foram 29, sendo 6 de ouro, 10 de prata e 13 de bronze. Em relação aos outros países o Brasil foi bem e não esteve tão inferior aos EUA, que enviou três vezes mais atletas. Um dos maiores destaques foi a natação brasileira conseguindo muitas medalhas as quais foram conquistadas em 9 modalidades.
--Ô louco, tô sem palavras, Luca. Não imaginava que existia esse outro mundo onde as pessoas deficientes podem fazer tantas coisas inacreditáveis! -- comentou empolgada
--Não é um outro mundo, amiguinha. É o mundo em que você vive. -- olhou para ela -- Na vida, seja lá qual for a sua situação, você tem uma escolha: ser uma tola que perde seu precioso tempo reclamando ou ser alguém que age e busca o melhor em cada oportunidade que recebe. -- sorriu -- Não faça de uma fatalidade um motivo de martírio eterno. Tire proveito de cada mudança que se impuser sobre seu caminho!
--Eu vivo dizendo isso a ela. -- Flávia disse -- E posso falar sem medo de ser mentirosa: minha vida ficou bem melhor depois que perdi a perna. Virei lutadora, fisioterapeuta, tenho um namorado bom e companheiro, conheço gente especial de todo jeito... Sem dúvida, vivo melhor hoje do que quando tinha duas pernas.
--E eu digo o mesmo. Depois de quase ter virado chiclete de tubarão eu passei por um período depressivo que quase me matou. Depois eu dei a volta por cima, lutei e ralei muito e hoje posso te dizer: se ainda fosse inteirinho de repente teria uma vida medíocre. A gente se acostuma a se acomodar e vai levando tudo com a barriga. Às vezes é necessário que aconteça uma tragédia pra gente aprender a viver de verdade.
Camille silenciou pensando naquelas palavras e respondeu com muita sinceridade: --Acho que nunca vivi de verdade... Queria... queria aprender a fazer isso... como vocês... -- abaixou a cabeça
--Ei, abaixe a cabeça não! -- Luca pediu delicadamente -- Você está viva, jovem, bonita! Pode fazer muita coisa! Basta ter iniciativa para começar! -- sorriu -- E mesmo que fosse idosa, enquanto estiver viva é sinal de que não é pra ficar parada!
Camille ergueu a cabeça novamente.
--Você já melhorou muito, loura Belzebu! -- Flávia disse -- Mas precisa sair da concha onde se esconde e tentar encarar o mundo de novo! -- olhou bem nos olhos de Camille -- Volte a estudar, volte a ver gente, procure não ser tão dura com tudo, tão reclamona! Dê uma chance pra sua mãe, porque a coitada rala muito para manter a casa e te ajudar a se recuperar. -- segurou as mãos dela -- Dê uma chance a você mesma!
--Por que você não tenta começar a nadar? -- Luca sugeriu -- A natação é um esporte extremamente integrador e viável para pessoas em condições das mais diversas. Você viu isso.
Flávia olhou para Camille como se dissesse: “Tente, diga sim!”
--Mas... -- largou as mãos da fisioterapeuta -- pra começar é só querer? Eu não tenho que entrar em uma fila, pagar uma taxa, implorar uma vaga, é só querer?
Flávia e Luca riram.
--Claro que existem providências a serem tomadas, minha cara. -- Luca respondeu -- Mas Flávia pode te ajudar nisso. Assim como eu. -- sorriu -- Nada impossível.
--É... eu não sei... -- esfregava as mãos na perna nervosamente
--Não precisa responder agora, não, maluquete. Mas é bom pensar com carinho e partir pra uma atitude.
Um rapaz chegou procurando por Luca, pois alguém estava ao telefone esperando para falar com ele. O homem se despediu das duas e com muita gentileza beijou a cabeça de Camille.
--As portas estão abertas. Agora é com você! -- sorriu e saiu andando em passos apressados ao lado do rapaz
Camille ficou perdida em seus pensamentos, vagando seus olhos pelo ginásio, quando de repente foi desperta por uma voz conhecida.
--Ora, ora, ora, mas o mundo é realmente muito pequeno!! Como vão?
Camille logo reconheceu que era Ed e viu quando ela e Flávia se abraçaram animadamente.
--Que é que você faz aqui, mulher? -- Flávia perguntou sorrindo -- Trabalha mais não? -- deu um tapa no braço da outra -- A julgar pelo braço forte a tua vida é só malhação! -- riu
--Você sabe que trabalhar com carro e moto é serviço pesado, não é, Flávia? Tem que malhar. E olha só quem fala! -- apertou o braço da amiga. Riram -- E você, Camille, como vai? Nunca mais tivemos contato contigo e nem com sua mãe. -- sorriu
--Estou bem. -- foi o que se limitou a dizer
--Você não me disse até agora o que faz aqui. -- Flávia continuou perguntando
--Vê aquela mocinha ali com a mãe? -- Ed apontou uma jovem com síndrome de Down ao lado de uma senhora -- Ela é prima de um dos meus especiais lá da oficina. A mãe dela foi me ver um dia desses e perguntou sobre uma forma de integrar a filha pelo esporte. Como você já me trouxe aqui lembrei desse lugar e marquei de trazê-las hoje.
--Legal! -- Flávia sorriu -- Gosto de ver gente tentando se superar. E aquela garota parece bem entusiasmada. -- olhava para a moça
--Querem conhecê-las? -- Ed perguntou
--Claro! -- Flávia respondeu -- Chame elas!
Ed acenou para as duas que vieram sorridentes em direção ao grupo. Flávia curvou-se para perto de Camille e sussurrou: -- Comece a tentar a partir de agora e não seja desagradável com elas. Do contrário, aumento sua carga de exercícios em três vezes mais.
--Antes que eu me esqueça, vai se danar! -- sussurrou em resposta
--Dona Lina, Fernandinha, estas aqui são Flávia e Camille, duas amigas minhas. -- Ed apresentou-as
--Encantada. -- Lina respondeu olhando para ambas. A loura abaixou a cabeça
--Oi!!! -- Fernanda disse sorridentemente
--Querem ver mais desse ginásio? -- Flávia ofereceu -- Eu o conheço como a palma da mão. E conheço o pessoal daqui também.
--Adoraríamos! Não é, meu bem? -- Lina olhou para a filha, que apenas balançou a cabeça sorrindo
--Então vamos lá! -- Flávia estendeu a mão para Fernanda, que a segurou -- Ed, pode ficar com Camille por uns minutos?
--Claro!
--Não preciso de babá, pode ir com elas! -- Camille protestou
--De repente eu preciso. -- Ed olhou para ela e respondeu brincando. A loura encarou aqueles perturbadores olhos azuis e nada respondeu, apenas abaixando a cabeça
***
Ed e Camille estavam sentadas perto da cantina enquanto Flávia ainda circulava no ginásio com Lina e Fernanda.
--Flávia quando se empolga com uma coisa... -- Camille resmungou impaciente
--Veja pelo lado bom, você saiu de casa, está vendo gente, se distraindo... Se não estivesse aqui, o que estaria fazendo nesse momento? -- Ed perguntou enquanto bebia um chá gelado
--E você não deveria estar na oficina? -- respondeu secamente -- Pensei que seu tempo fosse mais precioso. -- estava ironizando
--E é! Mas eu tenho colegas de confiança trabalhando na oficina nesse momento e posso passar a noite mexendo nos carros se quiser. -- olhou para Camille -- Além do mais não considero perda de tempo ver a alegria da garota e da mãe diante das possibilidades que vêem aqui.
--Ah, é... eu esqueço que você e sua mãe gostam dessa coisa de bancar as boas samaritanas. -- continuava irônica
--Pois é, de repente a nossa onda é essa. -- bebeu um gole do chá -- Já você gosta de bancar a adolescente rebelde e revoltada... Deve ser mais legal, né? -- usou da mesma ironia
Camille se aborreceu mas permaneceu quieta.
--Escuta, Camille, já notei que você não vai com a minha cara. Mas também não precisa fazer desses poucos minutos de contato uma coisa tão difícil. -- a loura olhou para ela -- Eu não tenho nada contra você. E além do mais daqui a pouco cada uma de nós vai pra um lado e nem nos veremos mais.
Camille sentiu uma pontada de dor ao pensar no fato. “Por que?” Não entendia.
--Eu não gosto de gente como você, do seu tipo! -- sentia necessidade de agredi-la
--Do meu tipo? -- perguntou sem entender
--Lésbicas... -- respondeu como se a palavra lhe desse nojo
--Ah... -- riu -- então é isso? Na certa você e sua mãe se afastaram por causa disso. -- balançou a cabeça -- Fica tranqüila que não é contagioso, a menos que o “vírus” -- fez aspas com os dedos -- já esteja latente dentro de você.
--Não seja ridícula! Eu gosto de homem e tenho nojo de gente como você, que luta contra a própria natureza pra viver de mentiras.
--Na verdade Camille, você não gosta de homem e nem de ninguém. Nem de você mesma. -- levantou-se da cadeira
--Você é mais uma daquelas que acha que eu tinha que ser uma aleijadinha feliz, sorrindo na cadeira de rodas ou fazendo malabarismos com muletas, não é? Por que não cuida da sua vida? Não deve ser muito feliz no meio dessa sapatanice toda. -- respondeu furiosa
--Sinto muito lhe informar, mas sou feliz sim. “A alegria e a dor não vêm por si; respondem ao chamado dos homens”. 17 E das mulheres! -- complementou -- Vou chamar dona Lina e Fernanda e liberar Flávia pra você. -- jogou a lata de chá na lixeira -- Fique bem! -- deu as costas e partiu
Camille acompanhou-a com o olhar e viu quando abordou as mulheres, que se despediram de Flávia. Sentiu arrependimento por ter dito o que disse e uma tristeza inexplicável quando perdeu a morena de vista.
***
Priscila e Isabela jantavam no Shopping de Botafogo.
--Ai amiga, desde que Patrícia desapareceu eu não tive mais ânimo pra sair, me divertir... Tenho só dado uma de CDF e distraído a mente no estudo. E nessa brincadeira já são 23 dias de angústia... Esse convite pra jantar veio em boa hora.
--Imagino o que deve sentir... Patrícia dividia apartamento com vocês... -- pausou -- E quanto a Tatiana? Nunca mais estive com ela. -- deu uma garfada
--Ela gasta todo o tempo livre em busca de notícias. Pesquisa na internet, vai na delegacia, conversa com o irmão de Patrícia... Acho que se não fosse por Renan e pela faculdade a vida dela seria só isso agora.
--E o que a família de Patrícia tem feito em relação ao caso? -- perguntou curiosa
--Os pais dela acabaram voltando, você acredita? Eles, nessa coisa de unir forças em busca de encontrar a filha, acabaram se reconciliando. Tatiana sabe sempre de tudo por causa de Pedro e aí me conta. -- bebeu um gole de refrigerante -- Mas eu acho que Tatiana luta mais que todos eles. Não sei explicar. Agora ela anda eufórica porque o caso passou pras mãos de uma delegada linha dura que é conhecida por ser implacável no combate ao crime. Dizem até que a tal mulher é lésbica também. Sei lá! -- deu de ombros
--Tatiana tá nesse empenho todo porque ela se sente culpada. O que é uma pena... Ela não tem culpa de nada. -- deu uma garfada -- E o tal detetive de João Pessoa?
--Ele se desentendeu com Pedro e foi embora. Não descobriu foi nada!
--E Sabrina? Ela tem ajudado também?
--Aquela ali mudou da água pro vinho. Quando não está providenciando as coisas da viagem que vai fazer, ela ajuda no que pode. E não tem dado em cima de ninguém. -- pausou -- O lado bom dessa coisa toda é que ela acabou recebendo o patrocínio de que precisava da parte uma empresa que quis tirar uma onda de politicamente correta. Foi uma coisa do tipo “patrocínio para uma escaladora lésbica”, sabe como é?
--E quando ela vai viajar pra escalar a tal da pirâmide de não sei quem?
--Semana que vem. -- deu uma garfada -- Levará o retrato impresso de Patrícia pra deixar lá. Vai fazer uma espécie de homenagem. -- riu com sarcasmo -- Sacaneou a garota até dizer chega e agora vem com essa. No final, acabou lucrando com essa desgraceira toda.
--Não diga isso, Priscila. Eu também não achava legal a atitude dela, especialmente porque queria, inclusive, dormir com a minha namorada, mas não acho que ela se deu bem com isso. Ganhou o patrocínio sim, mas também ganhou algo pra se arrepender pela vida toda...
--O que? -- perguntou surpresa
--Ora... -- pausou -- Infelizmente Patrícia deve ter sido assassinada e Sabrina vai se arrepender pelo resto
da vida por não ter sido legal com ela...
--E quem disse que ela foi assassinada?? -- revoltou-se -- Deve ter sido seqüestrada! Está presa em algum cativeiro esperando que a polícia a resgate! Se tivesse morrido teria sido encontrada e ninguém achou corpo nenhum até agora!
--E se tivesse sido seqüestrada já teriam pedido resgate... eu não torço pelo pior, amiga. Estou deduzindo pelas evidências...
--Olha... -- terminou de comer -- vamos mudar de assunto e falar em algo mais leve... -- respirou fundo e passou a mão no rosto -- Fale de você. Preparada pra prova? Já posso te considerar uma universitária por antecipação? -- sorriu
--Ah, eu estudo todos os dias! Tenho certeza de que passarei. Eu já passei na prova de habilidades específicas, como você sabe, e só falta a parte teórica. Agora é continuar estudando e esperar dezembro chegar. -- respondeu animada -- Ed tem me dado a maior força! Eu fico estudando na casa dela e ainda sou tratada como rainha... -- sorriu -- Ai, Pri, eu acho que estou me apaixonando por aquela mecânica sem vergonha... -- continuou sorrindo
--Sem vergonha por quê? -- perguntou sorrindo maliciosamente
--Porque ela é muito safada na cama... -- corou após responder -- Eu adoro tudo com ela. -- terminou de comer -- Ela tem me despido de todos os meus pudores bobos, meus medos...
--Você tem coragem de realizar todas as suas fantasias com ela? -- perguntou curiosa
--Ela tem me estimulado a isso. Tenho algumas que ainda não tive coragem de... -- sorriu constrangida -- mas estou bem perto de me soltar completamente.
--Sabe, eu nunca imaginava que essa história de vocês fosse evoluir desse jeito. -- bebeu o último gole do refrigerante -- Até bem pouco tempo você parecia só estar curtindo um lance passageiro... Pensei que ela fosse ser apenas a primeira de muitas.
--Primeira de muitas, pois sim! Não estou pensando em partir pra outra experiência. Acho que ela acabou me enredando, sabe? -- Isa começou a brincar com cachos do próprio cabelo -- Mas ainda não tenho coragem de deixar o mundo saber que sou lésbica.
--Ela já foi casada, você é muito nova, muito ‘virgem’... -- fez aspas com os dedos -- Devia conhecer outras pessoas, viver novas experiências... Ela acabou te amarrando mesmo! E você não sabe nem o que quer direito...
--Eu não preciso de mais idade pra saber que não quero ficar pulando de cama em cama! -- respondeu enfática -- Ela gosta muito de mim, eu sei... Ed me trata como se eu fosse uma deusa... -- sorriu -- E não me falou sobre casamento, mas tenho certeza que pensa nisso comigo...
--E você?? -- perguntou surpresa -- Pensa em casar com ela?? -- estava em choque
--Às vezes acho que seria legal... sair de casa, viver com alguém, uma vida juntas... ao mesmo tempo eu não sei se teria coragem de encarar a barra que deve ser um casamento gay.
Priscila riu. -- Gente, tô passada! Queria ver a cara da tua mãe se isso acontecesse. -- continuou rindo
--Se Ed me desse um belo anel de casamento e uma viagem de lua de mel pra algum lugar caro e badalado acho que ela iria acabar nos apoiando. O problema é meu pai. E o resto da família toda...
--E ele não desconfia de nada até agora? -- perguntou incrédula -- Será que seu Anselmo realmente pensa que vocês são amiguinhas?
--Se ele desconfia não dá na pinta. Além do mais, vive mais na rua do que em casa...
--E ele tá tendo um caso mesmo?
--Tenho certeza que sim.
--Isso é foda, não é? Dá um ódio essa babaquice dos homens de viver com isso de ter casos extras conjugais... Se meu pai tivesse um caso eu faria um fuzuê que ele e a mulher jamais esqueceriam.
--Eu não, isso é entre meus pais... -- ajeitou os cabelos -- Eu cuido é da minha vida.
Depois de uns segundos de reflexão Priscila perguntou: -- Você não acha que se empolga tanto assim com Ed por causa do sex*? Você diz que gosta muito, sua vida sexual tá bombando... não estaria confundindo as coisas? Afinal, sex* é só uma coisa dentro do casamento.
--Nosso relacionamento não é só sex*! -- exclamou revoltada -- Nós temos uma vida sexual intensa mas também temos uma relação de muito conteúdo, e você bem sabe disso!
--Então quer dizer que você se casaria com a mecânica e se mudaria pra oficina? -- riu -- Louca!!! -- riu de novo -- Mas, enfim, não me meto. É sua vida! -- pausou -- E a japonesa doida, continua te perturbando?
--Graças a Deus aquele encosto sumiu. E que permaneça sumida. -- bateu três vezes na mesa -- Sei que freqüenta a casa de dona Olga, mas não nos incomoda. A gente nem a vê.
--Sabe... acho que você e Ed se casarão mesmo e isso não demora muito.-- riu de novo
***
Era tarde e Juliana voltava do grupo espírita. Adotou o costume de frequentar as palestras, muitas vezes contando com a companhia de Olga, e dedicava um dia inteiro de seu tempo ao trabalho comunitário duas vezes por mês. No hospital continuava com um comportamento exemplar, dedicando-se o mais que podia, e conquistou a amizade de muitas pessoas; antipatias também.
Já não mais procurava por Seyyed e pensava bem menos nela. Também não se incomodava mais com Isa. Seus objetivos estavam totalmente modificados. Estava interessada em fazer o bem, em ser uma pessoa melhor e sentia-se muito bem com a nova atitude diante da vida.
Continuava a mesma mulher de pavio curto, mas havia uma diferença. Mas, apesar de toda essa evolução, continuava a terapia com Ivone porque isso a ajudava a aliviar o estresse. Também não podia negar que gostava muito da terapeuta. Era uma grande amiga.
Entrou em casa e ligou a televisão. O repórter falava das investigações sobre o desaparecimento da jovem Patrícia Feitosa. De repente, apareceu na TV o rosto da delegada Suzana Mello. Juliana congelou.
A delegada deu uma entrevista sucinta e deixou bem claro que não teria descanso enquanto não resolvesse o caso. Sua postura firme, a voz bonita e o porte chamaram a atenção de Juliana como há muito tempo não acontecia.
--Gente, que mulher é essa? -- perguntou para si mesma -- Fiquei até arrepiada! -- sorriu
***
Suzana Mello, 40 anos, solteira, morena, cabelos e olhos negros, 1,79m de altura, era uma mulher de atitude e poucas palavras. Pavio curto, honestíssima e totalmente intolerante com a corrupção e o crime, representava aquele tipo de profissional policial que os seriados de TV norte americanos adoram retratar.
Filha de mãe índia e pai mulato, nasceu em uma tribo Ianomâmi do Roraima. Suzana era advogada e delegada, atuando na polícia há quinze anos. Vivia sozinha desde que saiu de sua terra.
--Quer mais café, doutora? -- o garçom perguntava insinuante -- Quer alguma coisa pra comer? Bolo, um sanduíche, pastéis? Se quiser posso sugerir... -- sorriu -- Posso agradá-la bastante se me permitir...
Suzana simplesmente respondeu: -- Não. Valeu!
O homem abaixou a cabeça e saiu.
“É incrível como esse cara não perde as esperanças de ter alguma coisa comigo!” -- riu sozinha
Aguardava por um telefonema. Queria saber se Gonçalves teria notícias interessantes.
Dentre os casos que tinha nas mãos o de Patrícia era o que mais mexia com ela. Aquilo lhe cheirava a homofobia e tinha certeza de que a jovem fora assassinada. Além de tudo andava tendo uns sonhos confusos onde uma mulher, cujo semblante não conseguia discernir, gritava e chorava, sendo brutalmente agredida por vários homens e depois jogada perto do porto.
Havia solicitado um levantamento sobre todos os corpos de mulheres encontrados na cidade desde a data do desaparecimento de Patrícia e recebeu uma lista imensa, porém a garota não se encaixava na descrição de nenhum cadáver.
Por um lampejo de intuição pediu uma lista sobre os corpos de homens. Era loucura, mas após anos de experiência sabia que podia esperar de tudo. Não deu muito e o telefone toca.
--Alô, Gonçalves? E então, o que me diz?
--Nada de muito interessante. O número de homens mortos foi três vezes maior que o de mulheres... Por isso que tem tanta solitária por aí... -- riu -- Não sei o que pretende concluir com isso, mas a lista é enorme...
--No dia do desaparecimento dela, quantos foram encontrados?
--Quatro homens: dois na Lapa, após uma briga, outro após um assalto no Humaitá e um espancado até a morte no Santo Cristo.
--Santo Cristo... -- lembrou-se de seus sonhos -- E onde ele está? Já foi enterrado?
--Está no necrotério ainda. Aliás, tem alguns presuntos mofando por lá até agora. Vai ver querem fazer um defumado... -- riu
--Que informações você tem sobre esse rapaz?
--O óbito foi presumido para entre onze e meia noite.
--Estou indo para o necrotério agora. -- levantou-se resoluta
***
--Doutora, vamos e venhamos... a senhora procura uma garota e esse aqui é homem. Vai ser enterrado amanhã como indigente.
--Eu quero vê-lo. -- foi o que se limitou a dizer
--Tudo bem... -- franziu o cenho -- Venha comigo.
O funcionário abriu a gaveta e Suzana deparou-se com um rapaz de rosto desfigurado. Parecia que tinha sido brutalmente surrado.
--Parece com ela... -- sussurrou
Continuou olhando e viu que um grosso pedaço de pau havia sido introduzido na vagin* da garota. Ficou horrorizada.
--Vocês vão de mal a pior, viu? Não sabem nem mais a diferença entre um homem e uma mulher? O legista veio aqui e fez nada?? -- rosnou com raiva -- Mande as digitais dela agora mesmo pro Instituto Félix Pacheco e vamos aguardar a resposta. Quero que confrontem com as digitais de Patrícia Feitosa.
--Mas, meu Deus... -- o homem reconheceu -- É uma mulher!!
Pegou o celular e telefonou para Brito. -- Alô, Brito? Entre em contato com a família de Patrícia Feitosa. Alguém vai ter que vir reconhecer o cadáver.
--Você a encontrou, chefe??? -- estava surpreso
--Não vai acreditar...
***
A única pessoa que Brito conseguiu localizar foi Sabrina. Tatiana e Pedro não atenderam os respectivos telefones.
A escaladora corajosamente decidiu reconhecer o cadáver da ex amante. Fez isso sozinha, acreditando que estava em dívida com Patrícia. Não derramou nem uma lágrima, não por indiferença, mas por revolta. Recebeu os pertences da jovem e foi informada de que teria de prestar depoimento em breve.
Arrasada, chocada e profundamente triste, a escaladora decidiu ir ao apartamento onde Patrícia vivia com as amigas. Chegou à noite.
--Sabrina!! -- Tatiana exclamou -- Entra mulher! -- puxou-a para dentro -- O que foi? -- estranhou a aparência da outra
Priscila veio correndo: -- Nossa, que cara é essa?
A escaladora não respondeu.
--Você está me assustando... -- Tatiana disse -- Desembucha, mulher, o que aconteceu??
--Pedro tá aí? -- perguntou indiferente
--Não, ele voltou pra casa... Pelo amor de Deus, o que aconteceu?? O que você sabe?? -- Tatiana perguntou
--Acabo de voltar do necrotério... -- seu olhar parecia perdido em algum lugar
Priscila e Tatiana deduziram tudo.
--Não, não, não pode ser, aqueles desgraçados... -- pôs as mãos sobre os lábios e começou a chorar -- Nããããããoooo!!! -- berrou desesperada
--Calma, Tati, a gente nem deixou ela terminar de falar... -- Priscila não queria aceitar -- Como está Patrícia, hein? -- chorava -- Como está? Ela volta ainda hoje? -- correu até Sabrina e agarrou-lhe pelos braços sacolejando -- Fala, responde! Ela volta ainda hoje?? -- perguntava coisas sem sentido
--Ela morreu, porr*! -- berrou e empurrou Priscila -- Foi assassinada! -- continuou berrando -- Foi estuprada e surrada até a morte! -- começou a chorar -- Ela estava... -- não conseguia falar -- tão destruída, tão violada que eu mal pude reconhecer o rosto... -- pausou -- Eu a reconheci por cicatrizes e o Félix Pacheco confirmou as digitais... -- chorava -- Eles enfiaram um pedaço de pau... -- estava muito nervosa -- meu Pai, que cena horrível, eu nunca vou esquecer isso... -- desabou sentada no chão -- Que crueldade, que crueldade!! -- berrava e chorada copiosamente
Tatiana e Priscila sentaram-se do seu lado, abraçaram-se com ela e choraram com muita dor.
***
--Ah, então foi por isso que Mariângela se afastou de mim? -- perguntou -- E é por isso que o senhor Mariano sempre fica sem graça quando pergunto por mãe e filha... Elas têm preconceito porque descobriram que você é homossexual... -- Olga concluiu
--Eu deduzo. A julgar pelo modo como Camille me tratou... -- pausou -- Eita garota amarga, viu, mãe?
--Releve a condição dela, minha filha. Aquela menina ficou muito amarga depois do que passou. Ela agride as pessoas, mas o que faz mesmo é se agredir a todo o momento.
--Ah, mãe, eu não tenho a grandeza espiritual da senhora. -- lavava a louça do jantar -- Ei, gostou da comida que fiz? -- virou-se para olhar a mãe e perguntou sorridente
--Adorei. Estava tudo ótimo. -- sorriu
--Foi receita da Isa... -- voltou a se concentrar na louça
--Depois quero que você me passe.
--Claro!
--Falando nela, como vão os ensaios?
--Mal começaram e já são intensos. -- sorriu -- Eu assisto sempre que posso e fico impressionada! A senhora não sabe quanta gente se envolve pra fazer acontecer um espetáculo! E a minha ruiva tem participação fortíssima no desenvolvimento da coreografia. -- olhou para a mãe -- Ela é muito boa bailarina, mãe. Acredita que sabe dançar de tudo? -- virou-se de frente para a pia -- Essa menina ainda vai ser conhecida mundo afora, pode crer!
--Eu também tenho este sentimento. -- pausou -- Está preparada pra isso, filha?
--Entendo a pergunta e acho que sim... se não estiver, Deus vai me ajudar a ficar.
Depois de uns segundos de silêncio, Olga perguntou: -- Escute filha, você ainda está sem contador? -- olhava para as próprias mãos
--E isso é uma droga, se a senhora quer saber. Fiquei danada com a safadeza. Aquele salafrário me roubando... ainda bem que descobri a tempo. E graças a Julinho. Esses jovens especiais só me dão orgulho... -- pausou -- Mas, por que a pergunta?
--Sabe, o senhor Mariano... você sabe que ele é contador. Acredita que a empresa em que trabalhava teve coragem de demitir um monte de funcionários na semana passada? E com o natal tão próximo... Daqui a pouco é dezembro! -- pausou -- Ele foi um dos que dispensaram... -- pausou -- Eu pensei se... de repente... talvez ele pudesse substituir o rapaz que você mandou embora por roubo...
Ed riu com vontade. -- Ai, mãe... a senhora cheia de jeito para me pedir emprego pro seu namorado... -- largou a louça, virou-se e olhou para a mãe
--Seyyed, ele não é meu namorado. -- ajeitou-se na cadeira -- O senhor Mariano e eu somos apenas bons amigos...
--Bons amigos? Sei... O cara tá até disposto a largar a cidade dele e trabalhar no Rio... -- riu de novo
--Porque ele tem irmã e sobrinha morando aqui e lá ele não tem mais ninguém.
--E aqui também tem a senhora, não é, mãe? -- riu -- E depois que ele vier trabalhar comigo não sei por quanto tempo essa amizade vai durar... -- voltou a se concentrar na louça -- Peça pra ele me mandar o currículo por e-mail. Muito provavelmente o emprego será dele, a menos que não queira.
--Ele não sabe que eu ia falar com você. Nem sabe que você está sem contador. É que eu fiquei pensando... Veja como Deus faz as coisas acontecerem no momento certo.
--Ai, ai, dona Olga... -- balançou a cabeça -- Vejo que tudo está colaborando pro ‘senhor Mariano’ entrar de vez pra esta família... -- riu. Sentiu o pano de prato sendo arremessado contra ela
***
O assassinato de Patrícia teve grande repercussão, principalmente devido a atuação de Tatiana, que mobilizou muita gente. Os amigos de Patrícia, colegas do partido, do diretório acadêmico e do movimento gay estavam inconsoláveis. A família da moça veio em peso, bem como outros conhecidos de Campina Grande.
Desde que procurou a polícia pela primeira vez Tatiana havia fornecido retratos falados dos homens que se apresentaram como Klauss e Nilton. Continuavam as buscas dos suspeitos.
Os parentes de Patrícia estavam inconsoláveis e arrependidos pelo tempo que perderam em condená-la. O pai chegou ter um infarto. É incrível como nós, seres humanos, podemos desenvolver a triste capacidade de apenas reconhecer o valor das pessoas depois que elas partem. Esquecemos de que precisamos de amor e de que fatalmente “quem julga as pessoas não tem tempo para amá-las.”18
Por razões práticas o enterro aconteceu no Rio e, com a notoriedade que o caso recebeu da imprensa, muitos compareceram para prestar solidariedade. Algumas emissoras de TV cobriram a cerimônia.
Mesmo sofrendo muito, Pedro encontrou forças para proferir um discurso consciente e emocionado:
--Não me lembro de ter vivido um dia tão triste quanto esse... realmente, não me lembro... E o que mais me aperreia, é que não estamos aqui porque minha irmã ficou doente, ou porque se acidentou... estamos aqui por causa de uma doença moral que se chama preconceito. -- respirou fundo -- O preconceito nos torna medíocres e irracionais, além de desenvolver em nosso comportamento um vício triste de desqualificar, rotular, julgar, agredir... um vício podre que tem custado a vida de muita gente inocente! E parece que esse padrão de comportamento pequeno tem sido seguido pela imensa maioria dos homens em relação às mulheres ao longo dos séculos; especialmente com as lésbicas. A sociedade é tão machista que transformou a imagem das lésbicas em uma fantasia sexual masculina. É só espiar pras bancas de jornal... Muitos homens absolutamente não respeitam o direito de uma mulher não nos desejar; acham que é algo que tem de ser corrigido sob violência! -- secou algumas lágrimas teimosas -- Na sociedade brasileira os homossexuais ainda são excluídos, mesmo que não pareça. Muitos homens e mulheres não assumem sua identidade sexual apenas pra se defender dos preconceituosos, que na verdade podem ser gays enrustidos, gente que se reprime e não se permite viver o que gostaria, exteriorizando, como fuga, uma violência descabida contra quem tem a coragem que lhes falta. E minha irmã... -- emocionou-se -- não tinha nada a esconder. Ela não tinha medo, não fingia, não se escondia... -- respirou fundo para se controlar -- Patrícia queria viver a própria vida, sem ter de pedir licença, sem esperar aprovações. Ela lutava por respeito; pra ela e pra todas as mulheres! Ela lutava pra construir um sociedade mais justa, pautada no bem estar social e na verdadeira democracia. Ela era livre, como nunca vi ninguém ser, e isso incomodava... -- fechou os olhos -- Eu lembro de uma passagem de um dos livros de Clarice Lispector que ela gostava muito, e me atrevo a substituir a palavra ‘presa’ por ‘morta’. Acho que vocês vão entender... -- iniciou a citação:
"Ela é tão livre que um dia será morta.
Morta por quê?
Por excesso de liberdade.
Mas essa liberdade é inocente?
É. Até mesmo ingênua.
Então por quê?
Porque a liberdade ofende”.
***
Ed vinha dirigindo. Olga e Isa estavam no carro com ela. Um silêncio chato as acompanhava desde que saíram do cemitério. Isa resolveu conversar um pouco: -- Gente que coisa triste, não? Quando Priscila me ligou aos prantos eu não assimilei... agora caiu a ficha e eu me sinto tão triste... Acho que no fundo, antes que o corpo seja encontrado, a gente sempre alimenta uma esperança de que tudo pode terminar bem...
--Pois é, eu fiquei chocada! -- Ed respondeu -- A gente vê atrocidades nos jornais todos os dias mas quando acontece aqui do nosso lado... Deus, eu... nem sei o que dizer!
--Foi uma brutalidade muito grande e covarde. -- Olga comentou -- Nós temos de orar muito por ela, porque desencarnar assim não deve ser nada fácil. E pedir a Deus pra que ela não fique aqui obsidiando os assassinos...
--Isso acontece dona Olga? -- Isa perguntou com espanto
--Freqüentemente. Temos de orar muito por ela e pela família também. Estão muito desequilibrados.
--Essas famílias, viu? Desequilibrados agora, mas quando ela tava viva eles só sabiam condenar! -- Ed reclamou
--Nem sempre fazem por mal, filha. Muitas vezes os pais são duros assim por temer exatamente o que aconteceu com ela. Eu sempre morri de medo que fizessem você sofrer... e quantas vezes fizeram! Mãe ou pai nenhum que se preze suporta isso! Deus livre que façam qualquer maldade com vocês... eu não agüentaria... Entendo a dor deles.
--Mas a senhora aceita a Ed e eles nunca aceitaram a Pat. -- Isa respondeu -- Veja mamãe, por exemplo. Ela aceita meu relacionamento, mas só porque vê em Ed um bom partido.
--No entendimento dela está te protegendo, querida. De repente os pais de Patrícia acreditaram que sendo tão duros a filha se ‘emendaria’ mais cedo ou mais tarde. As pessoas são diferentes, reagem de formas distintas a uma mesma situação. -- suspirou -- E o rapaz irmão dela falou muito bem. Emocionei!
--Concordei com cada palavra. -- disse Isa
--Eu também! E ainda fechou com Lispector na maior categoria. Tudo a ver a citação. -- Ed comentou
--Outras pessoas que precisam de oração e apoio são Tatiana, Priscila e Sabrina. Pobres meninas...
--Ai, dona Olga, nem me fale... Tatiana tá obcecada com esse caso desde o sumiço de Patrícia... Graças a Deus ela tem Renan pra dar uma força!
--Mas com todo sofrimento ela foi muito mulher pra lutar, insistir, levar esse caso ao conhecimento da opinião pública e mobilizar tanta gente. Disse que fará o possível pra ajudar a encontrar os assassinos. -- olhou para a namorada -- Sabrina não foi no enterro... Está em choque por ter reconhecido o corpo?
--Não até onde eu saiba. Ela viajou pra fazer a escalada que queria. Foi uma trabalheira tão grande pra família conseguir liberação pra enterrar o corpo que a data da viagem chegou primeiro que o enterro.
--E também, vou te contar... os caras registrarem que a garota era um rapaz, que sacanagem! Parece até coisa de filme! É muito surreal...
--A delegada Suzana teve um insight fenomenal ao associar o tal rapaz com Patrícia. É de tirar o chapéu! -- pausou -- Tatiana acha que ela é alguma índia xamã com poderes mediúnicos...
--De repente... -- Ed respondeu
--E vocês meninas, pelo amor de Deus tenham muito cuidado! -- Olga recomendou preocupada -- Há muita gente louca por aí.
--Relaxa, mãe... a gente tem cuidado sim. -- olhou para Isa, que lhe sorriu triste
***
--Que bom que você veio morar conosco, Mariano! -- Mariângela abraçou o irmão carinhosamente -- Nem acredito! -- olhou para ele -- Você trouxe tão poucas coisas... o que fez com o resto?
--Vendi. Uma pessoa não precisa de muito pra viver. -- sorriu
--A pena, a única pena, é que você vai trabalhar na oficina daquela uma.
--Ah, Mari, mas você não aprende mesmo, não é? -- afastou-se da irmã -- Se não fosse por aquela uma eu estaria em São Paulo batendo cabeça, procurando emprego e competindo com jovens que aceitariam ganhar metade do que eu recebia antes.
--Tudo bem, querido, não vamos brigar por causa disso. -- tentou apaziguar a situação -- E eu tô muito feliz pra perder tempo com desavenças, ainda mais a dois dias do natal. -- sorriu -- Camille tá fazendo natação, tá se virando muito bem no uso das muletas e fala em destrancar a matrícula na USP e pedir transferência pra UFRJ. O ano não poderia estar acabando melhor! -- estava empolgada -- E no meio de tanta coisa boa, você vem pra morar conosco.
--E tudo isso, graças a Deus e a certas pessoas que Ele pôs em nossas vidas: a senhora Olga, Seyyed, Juliana e Flávia. -- sorriu para ela -- Natal é tempo de reflexão, minha irmã. Queria que parasse pra pensar sobre isso. -- olhou firme em seus olhos
Mariângela sabia que ele tinha razão, mas não queria dar o braço a torcer.
***
--Então, Renan? Animado pra conhecer a família da namorada? -- Ed perguntou sorrindo
--Tô tão nervoso... -- ele arrumava a mala com cuidado -- Quero passar a melhor impressão possível. Já pensou se eles não gostarem de mim? Deus me livre!
--Vão gostar sim. Impossível que aconteça o contrário. -- sorriu para ele
--Vai ser a primeira vez que passo o natal e o réveillon longe de você e da mamãe desde que as conheço. -- parou e olhou para ela com tristeza -- Sentirei saudades.
--Mas o mês mal começou e você já pensa no final dele, criatura? -- perguntou para descontrair
--Vou passar as férias inteiras com eles em Goiás. Foi o convite que fizeram. Então estarei lá durante as festas.
--Ligue quando der meia noite. -- pediu sorrindo
--Claro. -- sorriu e voltou a arrumar a mala -- E vocês? O que farão?
--Vamos passar o natal com o pessoal do grupo espírita. Montaremos uma festa pra algumas famílias carentes e acho que vai ser legal. Isa vai ficar com a família na casa de uma das tias dela, lá em Copacabana. No ano novo, não sei... ainda estamos pensando. Tem tempo. -- riu -- Eu acho!
--Eu ligarei à meia noite no natal e na virada do ano.
--Acho bom... senão tá demitido... -- brincou. Ele riu -- Aproveite e dê uma sondada em Goiânia. Quem sabe se um dia a gente não abre uma filial da oficina por lá?
Renan olhou para Seyyed com os olhos cheios de esperança.
***
Suzana tomava café no boteco habitual quando de repente uma gritaria do lado de fora a desperta de seus pensamentos. Saindo do bar viu que um rapaz corria a toda velocidade com uma bolsa de mulher nas mãos. Sem pensar partiu para cima dele e o alcançou com facilidade.
--Solta a bolsa! -- agarrou-o pelo pescoço e ordenou com voz firme. O garoto largou sem pestanejar
--Eu sou di menor, vai dar em nada! -- protestou
--Veremos. -- virou o garoto de costas e algemou os pulsos dele
Uma mulher que vinha correndo se aproxima dos dois. Pára ao lado deles esbaforida.
--Ai, ainda bem... que você pegou esse safado... -- respirou fundo -- Tenho dinheiro e... documentos aí... -- olhou para a delegada e congelou -- “Meu Deus, é ela!” -- Juliana pensou
Suzana olhou para a mulher de feições orientais e também ficou balançada.
--É, eu... peguei... -- tentou se recompor -- É... -- pigarreou -- mas a parte chata disso tudo é que iremos todos pra delegacia. -- desviou o olhar
--E será um prazer! -- Juliana sorriu entusiasmada
“Nunca vi ninguém ficar tão feliz porque sabe que vai depor.” -- Suzana pensou
***
--Ivone, você tinha que ver que mulher! Ela agarrou aquele cara com uma destreza, uma habilidade... Eu me senti naqueles seriados policiais norte americanos, sabe? -- sorriu -- E ela é tão bonita, parece uma índia. Até usa um colar indígena e um brinco com penas; combina perfeitamente com ela. A voz é encorpada, forte, marcante...
--Hum... é a primeira vez que a ouço falando desse jeito de alguém que não seja Seyyed. Que bom! -- sorriu -- Agora me conte o que aconteceu depois de prestar o depoimento e passar por aquela chateação toda de delegacia.
--Eu enchi os pulmões de ar e com toda a cara que pau que Deus me deu a convidei pra jantar no meu
apartamento neste sábado. Disse que queria agradecer por tudo. Aí ela falou que não era necessário e blábláblá. -- passou a mão nos cabelos -- Deixei meu telefone com ela e disse que o convite ainda estaria de pé mesmo que ela me ligasse em pleno sábado de manhã pra dizer que iria.
--E ela ligou?
--Ainda não. -- suspirou -- Mas tenho esperanças, afinal hoje ainda é quarta! -- riu brevemente -- Notei que ela não se sentiu indiferente em relação a mim. -- piscou -- Acho que mexi um pouquinho com a delegada dos nervos de aço.
--Tomara que ela ligue. Se for para o bem de ambas, que as coisas aconteçam naturalmente.
--Ah, mas eu sou do tipo que dá uma forcinha pra que as coisas aconteçam ‘naturalmente’. -- fez aspas com os dedos
Ivone riu brevemente. -- Eu sei... -- pausou -- no entanto não seria bom pra você acelerar as etapas do processo de conhecer uma pessoa nova em sua vida. “Primeiro a erva, depois a espiga e, por último, o grão cheio na espiga."19
--Sou muito ansiosa, Ivone. Por mim a espiga já nascia cozida e com sal.
Ivone riu de novo. -- Juliana, Juliana... Ansiedade e depressão andam de mãos dadas, e é muito comum que pessoas muito ansiosas desenvolvam depressão, como você bem sabe. Por isso é muito importante que cuidemos de nossas ansiedades a tempo.
--Estou tentando trabalhar isso... -- pausou -- É mais uma coisa pra escrever naquela lista de promessas de final de ano. -- sorriu
--Mas, me conte, o que fará no natal? Já estamos no dia sete.
--Eu aceitei trocar meu plantão com uma colega e vou trabalhar no natal. Além do mais há uma senhora na ortopedia que me encantou muito e gostaria de passar a data com ela.
--Que atitude linda, Juliana! Aliás você ultimamente tem me surpreendido bastante. E sempre de formas muito positivas. -- sorriu
--Ah, mas não se empolgue muito, não. Ontem mesmo fiz uma daquelas...
--E o que seria? -- perguntou desconfiada
--Apareceu um playboyzinho babaca no hospital. Ele era neto de um senhor que quebrou o cóccix e chegou cheio de marra pra cima do avô. Aliás ele só foi visitar o velho porque a mãe obrigou, isso era nítido.
--E então?
--E então que ele faltava ao respeito com o avô a todo o momento. Além de ser um boca suja dos diabos. Tive até de repreender dizendo: “Puta que pariu, como você xinga palavrão, caralh*! Olha essa boca que isso aqui é lugar de respeito, que merd*! É foda, viu? Só sabe xingar, porr*! Não quero mais ouvir palavrão aqui dentro!” Botei moral na coisa, sabe?
--Sei... sua repreensão foi muito... oportuna. -- Ivone achou graça mas não riu
--Eu continuei a fazer o meu trabalho e cuidar da vida. No final do meu plantão, quando estava entrando no carro, dei de cara com o playboy e outros rapazes na maior zoeira perto do trailler onde o pessoal compra pizza. Aí não conversei. Tinha uma poça de esgoto perto de onde eles estavam. Entrei no carro, passei na toda e molhei aqueles aprendizes de marginais da cabeça aos pés. Mentalmente gritei: “Isso foi pelo teu avô, viadinho de merd*!” -- pausou -- Chegando em casa me arrependi. Não deveria ter feito aquilo.
--Não mesmo.
--Eu devia ter esperado mais e dado um jeito de ter molhado ele sozinho. Os colegas não tinham culpa. -- balançou a cabeça -- Ou então podia ter passado com o carro em cima do pé dele pra que fosse parar na ortopedia também. Eu ia fazer questão de cuidar do palhacinho quando conseguisse atendimento.
Ivone não agüentou e riu. -- Ai, Juliana, você acaba me divertindo, sabia? -- balançou a cabeça
*****
Era sexta-feira à noite e Juliana acabava de chegar em casa. Mal fecha a porta e o celular toca. Não conhecia o número e atendeu desconfiada: -- Alô?
--É... Juliana?
--Delegada Suzana?? -- respondeu empolgada -- Nossa, a que devo a honra? -- largou as bolsas sobre a mesinha -- Não me diga que vai finalmente aceitar o meu convite pra jantar aqui em casa amanhã? -- sorriu
--Se a oferta ainda valer... -- respondeu titubeante
--Claro que vale! -- jogou-se sobre a poltrona -- Diga-me, o que gosta de comer: massa, carne, peixe, salada, frango... -- sorria
--Ah, eu... qualquer coisa. Escolha você, eu não tenho frescura pra comer nada. E uma delegada fresca não combina, não é? -- tentou fazer uma graça
--E você gosta de vinho?
--Eu raramente bebo, mas... se tem aí, pode ser. -- pausou -- E se não tem, eu me contento com água, não
tem isso, não...
--Eu acho que já sei o que vou fazer. Confie em mim. -- continuava sorrindo
--Está certo, então... é... chego a que horas?
--Pode ser às oito?
--Claro. Por mim, é um ótimo horário.
--E no mais? Tudo bem? -- Juliana queria prolongar a conversa
--É, tudo... e você? -- Suzana não sabia o que dizer
--Também. Melhor agora que sei que você vem. -- respondeu sensualmente
--É, eu... eu... eu vou... -- Suzana estava completamente sem graça -- É, eu... vou desligar.
--Tchau. Até amanhã. Beijinho.
A delegada não respondeu e desligou o telefone. --Suzana, como você é caipira! -- chutou a cadeira -- Como é que você desliga na cara dela desse jeito sem nem dizer um tchau? -- passou a mão nos cabelos-- Caipira não, você é uma troglodita, isso sim. -- começou a circular pela sala -- E uma mulher daquela... não é todo dia que uma gata maravilhosa daquele tipo te convida pra um jantar. -- parou de andar-- Mas eu visto o que? -- preocupou-se -- E faz tantos anos que eu não saio com alguém que nem sei o que fazer... Eu sou uma escrota, mesmo. -- socou a mesa
--Falando sozinha, chefe? -- Brito perguntou -- E aqui até essa hora?
Brito era um grande amigo e colega de trabalho de Suzana. Trabalhavam juntos há oito anos.
--Brito, escuta. -- caminhou até ele e olhou para todos os lados -- Eu vou jantar na casa de uma mulher maravilhosa amanhã. Não sei o que vestir e nem como me comportar. -- falava aos sussurros -- Que você me diz?
--A mulher seria aquela japonesa que veio aqui depor um dia desses? -- perguntou aos sussurros também
--A própria! -- continuavam aos cochichos
--Veste uma roupa bonita, como se fosse pra uma audiência no STF. E leva flores pra ela.
--Flores? É, flores... -- pensou -- Quais? Rosas? -- perguntou receosa
--É melhor. Vermelhas, de preferência.
--Não acha isso uma abordagem muito ousada, não? E se ela achar que tô indo cheia de maldade?
--Então compra um urso de pelúcia branco também. Daqueles pequeninhos, sabe como é?
--Acho que sei. -- pausou -- Mas por que branco?
--Porque é a cor da pureza.
--Ah, sei... -- balançou a cabeça -- Sabe, Brito... apesar de sermos bons no que fazemos, acho que você e eu somos as maiores negações do mundo no que diz respeito a mulher. -- riu -- Urso branco, faça-me o favor!
--Não diga isso. Não é porque estou há dez anos sem uma mulher que significa que perdi a noção das coisas. Pouco mudou nesse meio tempo. -- endireitou o colarinho da camisa -- E mulheres continuam a gostar de rosas e ursos de pelúcia...
--Vou comprar um urso preto. Não quero que ela pense que sou racista ou coisa do gênero.
--Então compre um castanho. Não é bom iniciar um encontro com conversas fortes sobre ideologia.
--Não... vou comprar um rosa. Pra combinar com as flores...
--Ela pode achar que é um sexismo barato. Sabe como é... rosa para mulheres, azul para homens...
--Então eu vou comprar é outro bicho! Esse negócio de urso é muito complicado!
***
Juliana estava usando um vestido lilás estampado com flores brancas. Não era curto nem longo, terminando um pouco acima dos joelhos. Os cabelos continuavam curtos. Usava seu melhor perfume e estava delicadamente maquiada.
Havia preparado um peixe grelhado, recheado com farofa de banana. Para acompanhar, vinho tinto. Como sobremesa, preparou pudim de leite seguindo a lendária receita de Olga.
A casa estava impecavelmente arrumada, mas a enfermeira não sabia o que fazer com um jarro que decorava a mesa da sala.
--Esse jarro vazio tá queimando o filme da minha mesa de jantar... -- pôs as mãos na cintura -- Ô merd*!
De repente, o interfone toca.
--Será ela? -- correu para atender -- Oi, seu João. Sim, pode deixá-la subir. -- colocou o interfone no gancho -- Ai meu Deus, ela chegou mais cedo... -- estava nervosa
A campanhia toca. Juliana corre para atender. Pára diante da porta, respira fundo e ajeita os cabelos.
“É agora!” -- pensou
Ao abrir a porta deu de cara com Suzana segurando um buquê de rosas vermelhas e um porco cinza de pelúcia. O bicho tinha uma enorme fita roxa amarrada na cabeça.
--Oi. -- Suzana disse timidamente -- Pra você. -- estendeu as flores e o porco
Juliana riu da cara do porco. Estava engraçado. -- Ai, Suzana, você me surpreendeu. -- pegou seus presentes e beijou-lhe o rosto -- Venha, entre.
Suzana ficou sem graça com o beijo e entrou receosa. Olhava discretamente para todos os lados. Vício de profissão.
--Espero que tenha gostado. -- pôs as mãos nos bolsos. Não sabia o que fazer com elas
--Gostei sim. Esse meu jarro estava pedindo por flores e eu estava a ponto de tirá-lo da mesa.-- preparava as flores para colocar no jarro -- São belas rosas. -- olhou para ela e sorriu. Suzana retribuiu o sorriso -- E o porquinho... eu achei muito engraçado.
--É, eu... achei que fosse gostar. Não que eu queira dizer que os porcos me lembrem você, não é isso, mas eu pensei que... -- calou-se -- “Pelo amor de Deus, Suzana, cala essa maldita boca!” -- pensou
--Nem pensei isso. -- riu -- Olha só. Ficou lindo! -- apontou para o jarro
--Pois é. -- sorriu sem graça
Juliana reparou na delegada. Vestia calça preta de linho, blusa branca de mangas compridas e um blazer preto. Estava muito bem vestida mas parecia que ia depor em algum tribunal.
--Não está com calor? Vestindo blazer e blusa de mangas em uma noite quente como essa? -- sorriu -- Está tão séria, parece até que vai trabalhar...
--É, eu... eu tô com calor... -- abaixou a cabeça -- “Veste uma roupa bonita, como se fosse para uma audiência no STF. Ah, Brito, eu te mato!” -- pensou
--Vem cá, deixa eu te ajudar. -- caminhou até ela e começou a tirar seu blazer -- Nossa, como você é forte. -- apertou os ombros da delegada. Suzana morreu de vergonha.
--Eu... acho que o calor já passou. -- quase gaguejou no meio da frase
Juliana dobrou o blazer e o colocou sobre a poltrona.
--Agora vamos dobrar as mangas dessa camisa. -- sorriu -- Você não precisa ser tão formal aqui na minha casa, viu, delegada? -- piscou para ela
Suzana sentia tudo em seu corpo queimar com aquela proximidade inesperada. --É que eu... eu sou assim mesmo. -- tentou sorrir
--E eu acho isso muito fofo. -- terminou de dobrar as mangas da blusa -- Vem, vamos jantar que a comida tá no ponto.
--Precisa de ajuda?
--Não, pode se sentar. -- foi para a cozinha
Suzana sentou-se enquanto Juliana foi buscar a comida.
“Que corpo lindo que ela tem...” -- a delegada pensou
***
Durante o jantar, Juliana conseguiu que Suzana conversasse com ela sobre vários assuntos. Ao final da refeição, a delegada estava impressionada.
--Você é uma cozinheira e tanto. Adorei o jantar! O peixe, a sobremesa, tudo. -- sorriu -- E esse vinho é muito bom. -- bebeu mais um gole
--Foi presente do filho de uma paciente do hospital onde trabalho. Vinho gaúcho da melhor qualidade. -- sorriu também
--Se é. -- bebeu mais um gole -- Você trabalha no Silva Avelar, não é isso?
--Hum, você se lembra... -- apoiou os cotovelos sobre a mesa e reclinou-se levemente
--Eu peguei seu depoimento.
“Podia pegar muito mais se quisesse...” -- a enfermeira pensou
Juliana estava sentada de frente para Suzana. Reparava em seus traços com atenção.
--Você parece uma índia...
--Mas eu sou. -- sorriu -- Nasci em Roraima, em uma tribo Ianomâmi, perto da fronteira com a Venezuela.
--Ah é? Nossa, que interessante. -- sorriu -- E como é isso? Quando deixou a tribo? E seus pais, como vivem lá?
--Meus pais estão mortos. Aliás, minha comunidade inteira. -- respondeu serenamente
--Meu Deus, eu... -- ficou sem graça -- Perdoe-me eu não sabia, eu...
--Ei, tudo bem. -- interrompeu-a gentilmente -- Você só fez uma pergunta e não tinha como saber. Está tudo bem.
--Talvez você queira mudar de assunto, não é? -- cobriu o rosto com as mãos -- Tudo o que eu não queria era ser inconveniente desse jeito. -- olhou receosamente para a delegada
--Não está sendo inconveniente. -- pausou -- Vou te explicar o que houve. As terras dos índios Ianomâmis, assim como outras terras indígenas, têm sido foco de inúmeros conflitos, sobretudo com garimpeiros. Meu pai era garimpeiro mas ele mudou de lado depois que se apaixonou pela minha mãe. Ele se submeteu a rituais da tribo e tudo pra ser aceito como um de nós. -- pausou -- Eu vivi lá na tribo até meus quinze anos, que foi quando uma chacina dizimou nossa comunidade inteira. Não morri porque consegui escapar. Fui a única. -- ficou brincando com a taça de vinho -- Fui tentar a vida em Manaus, me virei como pude, e ralei muito. Estudei, fiz direito na UFPE, e decidi me enveredar pela carreira policial pra fazer justiça. -- narrava sua história -- Investiguei o massacre da minha tribo até a exaustão, e consegui que o STJ o considerasse como genocídio. -- pausou e olhou para ela -- Consegui meter todos os miseráveis envolvidos nisso na cadeia; os que ainda estavam vivos, logicamente.
Juliana estava admirada. -- Nossa, sua história é... fascinante e admirável. Outras pessoas no seu lugar teriam pirado, se prostituído, virado gente do mal. -- estendeu uma das mãos e tocou levemente a mão direita de Suzana -- É fascinante que tenha chegado onde chegou.
--Não me admire. -- recolheu a mão que japonesa tocava -- Sou uma mulher violenta demais. Não sabe nada sobre mim... -- continuava a brincar com a taça de vinho para não encará-la
--Então me deixe saber, -- pediu delicadamente -- porque eu quero saber.
Suzana sorriu e balançou a cabeça. Bebeu o último gole do vinho e levantou-se da mesa. Caminhou um pouco na sala e parou com as mãos na cintura.
--Não sou aquele tipo de delegada que senta de pernas arreganhadas, vive xingando palavrão e palita os dentes na mesa, mas não sou fina e elegante como as policiais de filme. -- pausou -- Sou uma grossa da pior espécie.
--Hum, você também não sabe de mim. -- levantou-se da mesa -- Sou uma pessoa muito pé na porta e nada fofinha. -- sorriu
Suzana abaixou a cabeça e respirou fundo. -- Quando você me convidou pra jantar, uma parte de mim não queria vir. E a outra parte queria sim, desesperadamente. -- olhou para ela -- Faz muitos anos, muitos mesmo, que eu não... que eu não... saio com uma mulher.
Juliana caminhou lentamente até ela. Parou bem pertinho e começou a brincar com alguns botões de sua blusa. -- E por que isso, hein? -- olhou para o outra com carinho -- Não acredito que tenha sido por falta de oportunidades.
--Eu não sou uma boa amante. -- respondeu sem pensar -- “Ai, Suzana, por que você tem que falar tanta besteira?” -- pensou
--E quem disse isso pra você? -- continuava olhando em seus olhos e brincando com os botões
--Eu tive uma mulher há muito tempo... foi a única pessoa com quem estive. -- olhou para o teto -- Ela achava que eu era bruta e... sem jeito.
--E há quanto tempo foi isso? -- segurou o rosto dela com as mãos -- Não fica com vergonha, não. Olha para mim...-- pediu delicadamente
--Há vinte anos... -- seus olhos estavam úmidos, mas não chorava
--Tempo demais... -- puxou seu rosto delicadamente para beijá-la, mas Suzana se esquivou e não deixou que acontecesse
--Escuta, Juliana... -- olhou para ela -- você é linda, atraente, provocante, interessante... Você é demais! -- respirou fundo -- Mas eu não tenho competência pra... pra... satisfazer alguém assim...
--E por que diz isso? -- aproximou-se novamente -- Olha, Suzana, não é porque alguém te disse um monte de grosserias no passado que você tem que se matar como mulher por causa disso. -- segurou-a pelos bolsos da calça -- Por que não me deixa ter a chance de te dar minha opinião? -- aproximou seus lábios dos dela -- Queria te dar muito mais que minha opinião... -- sorria sensualmente
--Olha eu... -- ela se esquivou de novo -- acho que essa coisa de comer e ir embora é a maior falta de educação mas... -- pegou o blazer que estava sobre o sofá -- eu tenho que ir porque amanhã acordo cedo pra resolver umas coisas. -- foi até a porta
--Ah, não, não vai... -- Juliana foi até ela -- Amanhã é domingo e ainda temos tanto o que conversar...
--É melhor eu ir. -- abriu a porta desajeitadamente
--Não faz isso. -- Juliana agarrou-a pela blusa e colou seu corpo no dela -- Eu quero muito que essa noite termine de um modo todo especial... -- puxou para que voltasse para dentro de casa -- Tenho certeza de que podemos nos entender muito bem... -- falava sensualmente
--Eu tenho mesmo que ir. -- desvencilhou-se de novo -- Eu... -- ficou olhando para ela -- Tchau. -- saiu correndo pelas escadas
Juliana permaneceu olhando para as escadas por alguns segundos até que decidiu fechar a porta. Encostou-se na parede e olhou para o alto. -- Oh, meu Deus, por que ela tinha que ser tão complicada, hein? -- suspirou -- Mas se bem que... é até engraçado ver uma mulher tão forte e poderosa correr com medo de mim assim desse jeito. -- foi até o sofá, sentou-se e pegou o porco de pelúcia -- É até fofo que ela seja assim... nunca tive uma mulher insegura dessa forma... -- abraçou o porco -- Eu vou ter paciência com você, delegada Suzana Mello, e quando menos esperar vou te jogar na minha cama... -- sorriu -- Ah, se vou...
***
Ed e Isa namoravam escondidas dentro do carro perto do prédio da tia da bailarina.
--Queria tanto passar o natal com você... -- Isa fez beicinho
--Eu também... -- beijou-a
--O tempo passou tão rápido... dormi e acordei e quando vi já era véspera de natal... e eu vou ficar sem você, e pensando em você o tempo todo...
--Sabe? Tenho pensando muito sobre nós...
--Pensado no que? -- deslizou o dedo sobre a sobrancelha da namorada
--Eu não sei se sou louca ou precitada o suficiente pra não ter medo de tentar de novo... mas eu... eu penso muito em casar com você...
Isa sorriu e olhou bem nos olhos da mecânica. -- Eu também... também tenho pensado nisso... mas não sei se estou preparada pra encarar as conseqüências do que seria este casamento...
--Pense com calma. Não precisamos agir com desespero. -- beijou-a -- Aliás, ainda não entreguei o seu presente. -- tirou uma caixinha preta do bolso
Isa recebeu a caixinha e abriu com cuidado. Dentro havia uma bela aliança adornada com pequenos brilhantes. Era nitidamente uma jóia cara.
--Meu Deus, Ed. -- olhou surpresa para ela -- Deve ter sido tão caro! Não devia...
--Por que não? Quando se pede uma mulher em casamento tem que se fazer a coisa na categoria, não acha? -- sorriu
--Está me pedindo...? -- não acreditava. Estava emocionada
--Claro! Depois de ter arrepiado nas provas da UFRJ não vou te deixar solta por aí. Vai ter muita gente lá dando sopa pra te fisgar. Tenho que segurar o que é meu... -- brincou
--Boba! Eu não quero ninguém mais...-- sorriu -- E quanto ao seu pedido, eu... preciso de um tempo...
--Não responda agora. Pense. E use a aliança na mão que quiser. Eu aceito o que quer que você decida.
Isa puxou Ed para um beijo longo e apaixonado.
***
--Que aliança é essa?? -- Ana veio correndo olhar a jóia na mão da filha assim que a viu entrar de volta na casa -- Ela te pediu em noivado?? -- estava curiosa -- Nossa, parece caro isso aqui. E é bonito! -- avaliava o anel
--Ela me pediu em casamento, mãe. Mas eu pedi um tempo pra pensar. -- recolheu a mão
--Ah, valorizando o passe, fez muito bem! Quem sabe ela te dê outro anel ainda mais caro? -- sorriu -- Vá enrolando bastante. Há! -- riu -- Ela tá gamada e no papo!
--Mãe, será possível que nem no natal você desapega de pensar em dinheiro? -- fez cara feia -- Eu não tô jogando, tô realmente pensando em casar com ela, mas tenho medo de assumir isso. -- olhou para os lados para ver se alguém prestava atenção -- Queria seu apoio... Ficaria do meu lado se eu dissesse sim a ela? -- perguntou preocupada
--Bem, temos que conversar mais detalhadamente sobre isso. Mas não agora. -- olhou para os lados também. Viu o marido conversando com alguém ao celular -- Olha lá seu pai! Na certa, de conversinha com a amante.
--Por que diz que ele conversa com ela?
--Repare no sorriso imbecil! Boca aberta, cheia de dentes... Aquela cara típica de piranha velha que os homens maduros fazem quando estão com amantes mais jovens... -- balançou a cabeça com desgosto -- Os homens são ridículos, viu? Não me admira que não goste deles... Se eu não tivesse tantas restrições arranjava uma sapatona rica também!
Isa olhou espantada para a mãe.
***
A festa de natal com o grupo espírita foi muito tocante e bonita. Ed e Olga se emocionaram bastante e sentiram imenso bem estar por proporcionar instantes de alegria a pessoas muito carentes de tudo.
Às três da manhã, a morena deixou a mãe em casa e foi embora ver o mar. Ela fazia isso sempre desde que se tornou adulta. Era sua maneira de desejar feliz natal ao pai.
Olga se aprontava para dormir quando o celular toca. Era Mariano.
--Senhora Olga, desculpe-me... eu liguei a noite toda mas não consegui encontrá-la...
--Não se desculpe. Eu esqueci o celular em casa e quando percebi era tarde. -- sorriu -- Gostei que tenha ligado de novo. Eu acabei de chegar, não estava dormindo.
--Eu sei... -- pausou -- Devo estar mesmo louco... -- respirou fundo -- porque estou esperando pela senhora, parado aqui dentro do carro desde às uma e meia da manhã.
Olga estarreceu. -- Está me dizendo que o senhor tá parado aqui perto, dentro do carro?
--Eu a vi chegar... fiquei pensando se deveria ligar ou não... -- riu nervosamente -- Acho que estou ficando louco...
--Então enlouquecemos os dois. -- fechou os olhos -- Venha pra cá. Pode subir. Estou esperando. -- desligou o telefone
Mariano veio correndo, mas nem precisou bater na porta. Olga já o esperava. Os dois se olharam com os olhos cheios de emoção, receios e promessas silenciosas.
--Senhora Olga, não sabe como minha vida mudou desde que meus olhos se perderam nos seus... A senhora trouxe luz em meu caminho e possibilitou que um monte de mudanças positivas e bem vindas acontecessem em uma família que estava abatida por dor e tragédia... -- estava nervoso e emocionado
--E o senhor não sabe há quanto tempo meu coração não batia como bate sempre que o vejo ou que simplesmente ouço sua voz. -- segurou suas mãos -- Venha.
Ele entrou e ela fechou a porta.
--Eu... devo lhe dizer a verdade... -- baixou os olhos, tomou coragem e disse: -- Depois de tantos anos de solidão, estou completamente apaixonado! -- olhou para ela
Olga nada respondeu. Simplesmente tocou seu rosto e os dois se beijaram com paixão e ternura.
***
Eram seis da manhã e Juliana se preparava para ir embora do hospital. O plantão foi tranqüilo e ela conversou animadamente com os pacientes da ortopedia. Em especial com dona Tânia, uma doce velhinha que conquistou seu coração.
Naquele momento pensava em Suzana. Não a tinha visto desde o jantar em sua casa. Ela não telefonou mais e nem retornou as suas ligações. Estava prestes a pegar o elevador quando o celular tocou. Era a delegada.
--Alô? -- não sabia o que esperar daquela ligação
--É, sou eu... Suzana... Ainda tá no hospital?
--Estou saindo nesse momento, por que?
--Tô te esperando aqui na portaria. -- pausou -- Sei que tem carro, mas pensei em te dar uma carona...
--Eu não vim de carro trabalhar. Ele deu um problema e eu o deixei na garagem... -- sorriu -- Nossa, você parece que adivinha...
--Tô te esperando, então. Até daqui a alguns segundos... -- riu brevemente
--Até! -- desligou o telefone e olhou para o alto: --Adorei o presente de natal, viu?
***
Suzana parou o carro na porta do prédio de Juliana. Desligou o motor e olhou para ela.
--Eu queria me desculpar com você por aquela noite. -- não conseguiu manter o olhar no dela e virou-se de frente para o volante -- Fui uma idiota por ter saído correndo daquela maneira. Eu não queria ir... -- começou a esfregar as mãos nas pernas -- mas também não tinha condições de ficar... -- respirou fundo e olhou para ela novamente -- Sou uma mulher muito complicada, Juliana. E não levo o menor jeito pra relacionamentos.
--Por que se aproximou de mim, então? -- sentou-se de lado e acariciou o rosto dela com uma das mãos -- Não acredito que eu tenha sido a única mulher que se interessou por você nesses anos todos. -- sorriu
--Eu não costumo a dar aberturas pra ninguém se aproximar... -- sentia-se bem com as carícias que a enfermeira fazia em seu rosto -- Não sei responder a essa pergunta...
--Por que não sobe comigo e dorme aqui, hein? Tô com sono, cansada... Adoraria tomar um banho e depois dormir bem aconchegada em você... -- acariciou seus cabelos -- Imagino que esteja cansada também e um cochilo não te faria mal algum...
A voz de Juliana parecia hipnótica para Suzana.
--Juliana, eu não sei se... -- a japonesa pôs um dedo diante de seus lábios para lhe calar delicadamente
--É só pra dormir... nada de mais...
A delegada se perdeu naqueles olhos e não conseguiu dizer mais nada.
***
Juliana tomou banho primeiro e vestiu uma camisola. Depois foi Suzana, que vestiu uma blusa e um short de Seyyed.
--Espero que não fique constrangida em usar as roupas da minha ex. Trouxe por engano junto com minhas coisas, lavei, mas não as entreguei de volta. -- arrumava a cama
--Porque certamente significam uma lembrança da qual você não quer se desfazer... -- olhava para o chão. Evitava olhar para Juliana vestida com aquela camisola provocante
--Até um tempo atrás você estaria coberta de razão. -- olhou para ela -- Hoje em dia não mais. -- respirou fundo e cruzou os braços -- Tô lutando muito pra deixá-la sair de mim e tenho conseguido mais e mais a cada dia que passa.
--Que bom. -- sorriu sem graça
--Vem? -- estendeu as mãos
Suzana se aproximou relutante e segurou as mãos dela. Ficaram se olhando e se abraçaram. A japonesa interrompeu o abraço e deitou-se na cama. A delegada titubeou um pouco mas deitou-se ao seu lado, de barriga para cima. Juliana repousou a cabeça em seu ombro, abraçou-a pela cintura e jogou uma perna em cima das dela. Fechou os olhos e disse: -- Quero acordar com você ainda aqui. -- sorriu
--Não vou fugir de novo. Prometo. -- sorriu também
A enfermeira não demorou a pegar no sono e Suzana sentia-se nas nuvens com aquela bela mulher em seus braços.
***
“-- Adorei essa lingerie. -- Seyyed falou tomada de desejo
--Sabia que iria gostar. -- Camille ficou de costas para ela fingindo não perceber a excitação crescente da parte da outra
Ed ajoelhou no chão e começou a beijá-la a partir da batata da perna. Suas mãos seguiam seus lábios.
--Ai, o que você vai fazer comigo, Ed? -- a voz era bem sensual
--Você vai ver minha delícia. Hum... tem lacinhos. -- reparou os laços na calcinha da loura e começou a desatá-los com os dentes. Colocou a mão esquerda por dentro da calcinha de Camille e apoiou suas costas com a direita enquanto os dentes desatavam os laços que a separavam do que mais queria. Ela sorria e sua pele se arrepiava sob o toque da mecânica
--Oh, my love you are the best...
--Adoro sutiã com abertura na frente!
Camille riu. Ed desatou o laço com os dentes e explorou os seios da outra com a língua, dentes e lábios.
-- Oh, oh, honey... yes, take me, yes, yes -- seus olhos estavam fechados
Ed seguiu por seu pescoço e encontrou sua boca ávida por beijos. Mordeu seu lábio inferior demoradamente.
-- Please, please, please, take me honey! I need you now! -- Camille fechou os olhos e curvou a cabeça para trás
Não demorou muito para que as duas explodissem em um clímax intenso.”
--Ah!! -- Camille acordou excitada e nervosa -- Ah! -- respirou fundo e olhou ao redor. Constatou que sonhava
Passou as mãos nos cabelos e sentou-se na cama. Sentiu que estava toda molhada.
“Eu não acredito que sonhei com aquela sapatona e eu protagonizando uma das cenas de Tudo Muda, Tudo Passa!” -- pensou -- “Vou parar de ler essa história maldita porque tá me fazendo mal...” -- sacudiu a cabeça como se quisesse tirar alguma coisa de dentro dela -- “Deus me livre de ter aquela Ed me tocando daquele jeito.”
Mal conseguia se recompor quando Mariângela entra correndo no seu quarto. -- Camille, pelo amor de Deus! Alguma coisa aconteceu de muito grave! -- ajoelhou-se em frente a ela com os olhos esbugalhados
--Cruzes, mãe, isso é jeito de entrar no quarto de alguém? -- perguntou mal humorada e constrangida
--Seu tio não dormiu em casa. E não voltou até agora! -- segurou as mãos da filha
Camille se desvencilhou e se preparou para levantar.
--Mãe, acorda! Ele deve ter ido atrás de dona Olga. -- posicionava-se para pegar as muletas
--De madrugada?? Não pode ser!
--Humpf! Deve ter ido lá dar feliz natal e ela acabou tenho uma ceia com peru. -- levantou-se com dificuldade
--Isso são modos de falar do seu próprio tio, menina? Tenha respeito! -- levantou-se revoltada -- Além do mais Mariano é um homem sério! -- cruzou os braços
--Sério, mas é um homem. Portanto gosta de uma sacanagem. -- pausou -- E aquela dona Olga também deve gostar, haja visto a filha que tem. -- encaminhou-se para o banheiro
--Ele não atende o celular...
--Deve estar dormindo ainda, mãe. Todo homem que se preze dorme após uma boa trans*. -- entrava no banheiro
--Falou a voz da experiência! -- Mariângela não estava gostando daquela conversa
Camille não gostou da resposta da mãe, porém não respondeu. Ainda estava abobalhada por conta do sonho que teve.
--Mãe, vai cuidar da vida. Daqui a pouco o tio aparece aí com um sorriso de orelha a orelha. Ainda são nove e pouca da manhã. Tá cedo demais. -- começou a escovar os dentes
Mariângela saiu do quarto da filha desejando que ela não tivesse razão. Não queria que nada de mal tivesse acontecido ao irmão, porém também não queria que ele se envolvesse de verdade com Olga.
(Nota da autora: adaptação de uma cena da história Tudo Mudo, Tudo Passa, de Raydon Donovan no sonho de Camille)
***
Ana já estava acordada e beliscava umas frutas esquecidas no arranjo da mesa. Isa veio para perto da mãe. --Bom dia, mãe. -- sentou-se a mesa -- Tem mais alguém acordado nessa casa? -- falava baixo
--Não. Mas como este apartamento é pequeno se você respirar mais profundamente alguém vai ouvir e acordar.
As duas riram tampando a boca.
--Queria conversar sobre o que lhe disse ontem. Preciso saber o que faria se eu me casasse com Ed. -- pegou um cacho de uvas
Ana respirou fundo, olhou para o alto e depois para a filha. --Tem que pensar muito antes de aceitar isso, porque quando se mudar pra casa dela vai ficar evidente que é lésbica e daí em diante você será reduzida a isso. Vai deixar de ser a Isa, aquela moça bailarina, pra ser uma sapatão. E é isso que as pessoas dirão sempre que comentarem qualquer coisa sobre você: Isa, aquela ruivinha sapatão. -- pausou -- Está preparada pra suportar estas coisas?
--Acho que já me escondi por tempo demais e não queria passar a vida inteira assim. -- comeu uma uva -- Se eu disser sim a Ed queria poder contar com seu apoio. Se ficar do meu lado eu encaro o que vier. -- olhou esperançosa para mãe
--Se tiver de dizer sim, não diga a ela logo de cara. Espere pelo menos o carnaval passar. Depois peça para Ed uma boa viagem de lua de mel.
Isa sorriu. “Eu sabia!” -- pensou
--Nossa família fica muito junta e se vendo muito até o carnaval. Depois disso todos se afastam e a gente só vai se vendo nos aniversários e datas festivas. Se for morar com ela depois do carnaval a repercussão da fofoca será bem mais branda e menos impactante. -- sorriu para a filha -- E nesse meio tempo ela vai ficando mais interessada em você. Sem contar de que vai ficar na dúvida se você a ama ou não e isso é bom. Excesso de segurança da parte da outra pessoa não dá em boa coisa. -- mordeu um pêssego -- Veja o caso de seu pai.
--Tudo bem... -- comeu outra uva -- Mas e quanto ao papai?
--Eu cuido dele. Deixe comigo.
--Deixo, com toda certeza. -- sorriu
--E não seja idiota de dizer a Ed o que estou lhe aconselhando. Aprenda uma coisa: não é tudo que se diz pra quem você se casa.
Isa ficou calada e pensativa balançando a cabeça.
***
Mariano chegou em casa feliz e sorridente às dez da manhã. Não deu satisfação sobre o que fez e Mariângela não quis perguntar. Teve medo de confirmar que a filha estava certa.
Ele pôs um CD de Frank Sinatra no rádio e preparou um almoço natalino especial.
--É... parece que a noite na casa de dona Olga foi daquelas... -- Camille comentou com a mãe, que preferiu não responder
Flávia ligou para perguntar sobre o natal deles. Convidou a família para passar a virada do ano na casa de veraneio do namorado dela, em Búzios. Camille agradeceu e disse que iria pensar, mas já sabia que a resposta era não. Apenas não queria que a fisioterapeuta ficasse insistindo se ela negasse logo de pronto.
Na hora do almoço ela comentou sobre o convite.
--Ah, filha, poderia ser uma boa. Búzios é um lugar bonito e praia é sempre uma boa pedida no ano novo. -- Mariângela respondeu -- Nossa, Mariano! Esse macarrão está divino!
--Que bom que gostou! -- ele sorriu -- Camille, sua mãe está certa. Poderia ser interessante. -- pausou -- Vou ver o que Olga acha.
--Ué, deixou de ser ‘senhora Olga’? -- Camille perguntou com deboche
--Vai ver o que Olga acha?? -- Mariângela perguntou revoltada -- E o que ela tem a ver com o que nós fazemos no nosso réveillon??
--Tudo, uma vez que vai passar a data conosco.
--Quem disse?? -- a irmã respondeu chateada
Mariano largou os talheres e olhou para mãe e filha. --Eu pretendo passar o réveillon com Olga e Seyyed e gostaria que vocês estivessem conosco. Mas se não quiserem, por causa dos preconceitos que têm, não tem problema. Eu vou sozinho. -- voltou a comer
--Teria coragem de nos deixar sozinhas pra passar o final do ano com aquelas... -- pensou no que iria dizer -- mulheres??
--Mari, se vocês não quiserem ficar conosco é simplesmente por motivos pequenos e mesquinhos. Não vou me abalar em deixá-las por sua própria conta uma vez que estão se isolando porque querem. -- deu uma garfada -- Gostei do convite de Flávia e se Olga aceitar, eu topo.
Camille riu. -- É mãe... o tio tá enfeitiçado...
--Como você pode convidar Olga e a filha pra casa dos outros? Flávia nos convidou, não mandou incluí-las na lista!
--Mariângela, lembre-se que Flávia é amiga delas desde antes de sonharmos em conhecê-la.
Mariângela ficou de mau humor ao longo do dia.
***
Juliana acordou e estava sozinha na cama. Olhou para todos os lados e não viu vestígios de Suzana.
“Poxa... e ela me prometeu que não iria embora...” -- pensou chateada
Não demora muito e ouve barulhos na cozinha. Um cheiro bom invadia o ambiente. Levantou-se e foi ver o que era. Surpreendeu-se com Suzana que chegava trazendo comida.
--Deu trabalho mas consegui encontrar comida legal. Comprei peru, arroz com lentilhas, salada e bolo de cenoura. -- sorriu -- Achei que iria gostar.
--Adorei. -- caminhou até ela e abraçou-a pela cintura -- Pensei que tivesse fugido de novo. -- sorriu
--Eu prometi que não iria, não foi? -- continuava sorrindo
--Foi... -- beijou-lhe o queixo provocantemente
--É... -- Suzana se desvencilhou dela -- É melhor você se preparar pra almoçar. -- começou a andar sem rumo pela cozinha -- Se me disser onde guarda os talheres e tudo mais eu arrumo a mesa.
Juliana riu e segurou a morena pelo braço. -- Deixe que eu faço isso. Pode ir pra sala e se sentar. -- piscou para ela
Suzana ficou envergonhada e foi quase correndo para a sala. A japonesa continuava achando graça.
As duas almoçaram, arrumaram a cozinha e ficaram sentadas na sala conversando sobre amenidades. Juliana esfregava sua perna na da delegada.
--Você não facilita, não é? -- Suzana perguntou sem graça
--Não?? -- riu -- Eu acho que só faço isso...
--Você entendeu o que quero dizer. -- levantou-se nervosa e olhou para o relógio -- São quase três da tarde, é melhor eu ir.
--Hum... não! -- ajoelhou-se no sofá e puxou Suzana de volta pelas presilhas do jeans -- Você não vai a lugar algum agora, delegada Suzana Mello. -- sorriu
A morena perdeu o equilíbrio e caiu sentada na poltrona.
--Se quiser se levantar de novo... -- a japonesa sentou-se no colo dela -- vai ter mais trabalho. -- envolveu seu pescoço com os braços
--Juliana, espera... -- continuava tensa -- você não sabe o que faz comigo quando age assim.
--Assim como? -- olhava para seus olhos e lábios
--Assim... desse jeito... -- estava a ponto de perder o controle, mas conseguiu se conter -- Eu... eu vou indo... -- levantou-se e desvencilhou-se da outra com movimentos de ninja
--Suzana! -- reclamou
--Não dá, Juliana. -- pegou a pochete que estava sobre a mesa -- Eu tenho que ir. -- correu para a porta -- Deixei seu presente de natal na sua mesinha de cabeceira. -- disse sem olhar para trás e correu para fora
Juliana levantou-se revoltada e foi para o quarto. Quando acordou não havia reparado em nada sobre a mesinha. Chegando lá viu uma caixinha metálica. Abriu e deparou-se com uma bela pulseira de pedrinhas azuis.
--Bonita... -- falou desanimada -- Mas eu preferia que tivesse ficado aqui e feito amor comigo, ao invés de sair correndo como uma doida. -- suspirou -- Ai, Deus, dai-me forças...
***
Silvio fazia sex* com um homem. Estavam nus, no meio de um matagal no Recreio, do lado de fora do carro.
--Gem* viado! -- Silvio rosnava
--Devagar, ai, ai, ah... -- fechou os olhos e mordeu os lábios
--E você gosta é disso, seu viado! -- riu e puxou-o mais de encontro a seu corpo. Começou a ir mais devagar -- Vou te dar o mole de te deixar me sentir bem gostoso...
--Ai, que delícia! Hum...ai, que gostoso...
Silvio riu e voltou a se movimentar com fúria. -- Eu vou goz*r! -- rosnou
--Eu também! -- o parceiro respondeu
Ao fim, o mecânico riu e afirmou orgulhoso: -- Mais um que nunca vai me esquecer!
O rapaz virou-se de frente para ele e sentou-se no capô com dificuldade. -- Que vai fazer no ano novo, garanhão? -- sorriu
--Ainda não sei, por que? -- começava a catar as roupas para se vestir
--Eu tenho uns amigos, umas amigas... somos dez. Vamos fazer uma festa daquelas em um apê no Leblon. Acho que você podia ir... e curtir com a gente... -- sorriu
--É putaria, o negócio? -- perguntou interessado. Jogou roupas sobre o rapaz para que se vestisse
--Total! -- começou a se arrumar
--Tô dentro. -- sorriu -- É só me dizer onde e a que horas.
--Vou te passar tudo. É só dizer ao porteiro que é amigo do Thiago que você entra sem problemas.
--E quem é Thiago?
--Eu! -- sorriu -- Ainda não tínhamos nos apresentado direito.
--Silvio.
--Silvio... você é gostoso, viu? -- sorriu
O mecânico ficou todo vaidoso.
--Minhas amigas vão te amar. E os amigos também. Se tiver fôlego, pode curtir com a festa inteira.
--E eu tenho. -- abriu a porta do carro -- Mas espera aí! -- ficou sério -- Quantos anos você e esses teus amigos têm? -- perguntou preocupado
--O mais novo é Lucio, que tem 23. Por que? -- perguntou sem entender
--Porque não quero problemas. -- fez sinal com a cabeça e entrou no carro -- Entra!
***
Seyyed e Isabela acabavam de jantar em um restaurante romântico. Um músico tocava a música Fugas ao saxofone.
--Adorei o dia de hoje! Foi tão romântico... -- segurou a mão da mecânica -- E esse jantar estava divino! -- sorriu -- Adorei o restaurante. -- olhou ao redor
--Que bom que gostou. -- beijou-lhe a mão -- Eu queria muito que fosse especial.
--Hum... Você sempre querendo me agradar... Tudo com você é especial, meu amor. -- sorriu novamente
--Então me dá um mole, vai? -- brincou
--Como assim? -- não entendeu
--C-a-s-a c-o-m-i-g-o! -- pediu sorrindo e baixinho
--Boba! -- riu -- Estou pensando ainda, não me pressione... -- respondeu fazendo dengo
--Eu sei que precisa de um tempo... -- soltou a mão da outra -- É que fico ansiosa...
--Hum, tadinha... -- fez um beicinho -- Você mesma disse que não precisamos fazer nada com pressa.
--Eu sei... -- respirou fundo -- Mas, me diga outra coisa então: -- mudou de assunto -- Onde vai passar o ano novo? Já decidiu se vai conosco pra casa de Flávia ou se vai ficar em Botafogo com seus parentes?
--Ainda não. Preciso conversar com mamãe de novo. Só passei as datas festivas de final de ano longe da família quando fui pra França estudar, mas aí era diferente. Eu não quero gerar fofocas.
--Está certa... -- Ed respondeu meio contrariada -- está certa... Querida, me dê um segundo por favor, vou no banheiro. -- levantou-se e pôs o guardanapo sobre a mesa
Isa acompanhou a amante com o olhar. Lembrou-se de que a mãe disse que era bom que Seyyed ficasse sempre com uma certa insegurança quanto aos seus sentimentos. Não queria perdê-la, mas não deixava isso claro; talvez fosse um bom truque para manter a morena em suas mãos. Sorriu e pensou: “Seyyed Khazni eu vou te levar do meu jeito e você vai ficar sempre comendo na minha mão...” -- bebeu o último gole do suco
***
--Deixa eu te falar, mas eu gostei desse seu namorado, filha! -- disse Claudio ao final do almoço -- Rapaz sério, trabalhador, que veio de baixo e cresceu na vida... Gostei mesmo, demais da conta! -- sorriu para Renan -- Ao longo dos dias prestei atenção em cada gesto seu. -- apontou para Renan -- Não teve nada que te desabonasse, não deu rata!
--Fico lisonjeado, seu Claudio. Também gostei muito da família! -- sorriu e olhou para todos
--Eu também gostei de você. Então não nos decepcione, viu? -- Clarice levantou-se e começou a recolher os pratos
--Fique tranqüila, senhora. Quer ajuda? -- Renan se preparou para levantar
--Não! -- ela fez sinal com a mão -- Fique sentado aí.
--A gente ajuda ela, amor. -- Tatiana se levantou -- Tamires, Tânia, vamos lá. -- dirigiu-se as irmãs
As mulheres recolheram as louças e foram para a cozinha.
--É, rapaz, vamos bater um papo de homem pra homem. -- levantou-se e pegou uma garrafa de cachaça no bar da sala -- Vamos pra varanda. -- pegou dois copinhos e caminhou para fora, sendo seguido por Renan
Os dois se sentaram em cadeiras de vime.
--Então? Gostou de Goiânia? -- olhou para o rapaz enquanto despejava cachaça no interior dos copos
--Sim. Não é uma cidade grande como Rio ou São Paulo, mas também não é pequena. Está na medida certa. E tem boas casas, como a do senhor.
--É, aqui é bom de viver. -- estendeu um copo para Renan -- Essa cachaça é das melhores. Paguei quinhentos reais nessa garrafa!
--Nossa! -- Renan pega o copo e olha para a bebida desconfiado -- Eu não tenho hábito de beber mas depois de saber disso não vou lhe fazer desfeita.
--É bão! E cachaça é bebida de macho, você sabe! -- bebeu o conteúdo do copinho de uma vez só -- Deixa eu te perguntar, Tatiana já lhe disse que pretende morar aqui quando se formar?
--Sim senhor, e eu vou lhe dizer: minha irmã, que é minha patroa, pediu pra eu sondar a cidade porque de repente a gente abre uma filial da oficina aqui. -- falou empolgado e na sequência bebeu a cachaça do mesmo modo como fez o futuro sogro -- “Ave Maria, que cachaça braba!” -- pensou
--Ah, muito bão. Então você não tem essa coisa de não querer sair do Rio? -- perguntou desconfiado -- Pergunto porque carioca não quer saber de arredar pé daquela cidade!
--Eu não sou assim, não. Além do mais se Tatiana quer morar aqui, é aqui que a gente vai morar quando casar.
--E você tem intenções reais de casar com minha filha? -- pegou o copo da mão dele e encheu novamente com mais cachaça para os dois
--Claro! -- ajeitou-se na cadeira -- Nem duvide disso. -- respondeu sério
--Muito bão... -- balançou a cabeça e devolveu o copo a Renan -- Tenho amigos meio excêntricos que têm bons carros e reclamam do trabalho das oficinas daqui. Se montasse um negócio na cidade eu poderia te arrumar bons clientes. -- bebeu a cachaça
--E nós não iremos decepcionar seus amigos, com toda certeza.
--Minha filha disse que na sua oficina é tudo arrumado, não tem foto de mulher nua...
--Ed faz questão. Ela não gosta de baixaria. -- bebeu a cachaça -- “Eita!” -- pensou
--Ed? -- perguntou curioso
--Seyyed, minha irmã, lembra? É o apelido.
--Ah, sim. E ela tá certa. Ficaria até feio uma mulher gerenciando oficina onde tem um monte de mulher nua pelas paredes. Só se ela fosse sapatão pra gostar disso, não é mesmo? -- sorriu -- Dá teu copo aqui de novo! -- Renan entregou receoso, e mais uma vez Claudio enche os copinhos -- Escute... Eu ando preocupado com minha filha. -- devolveu o copo cheio
--Por que?
--Ela tá obcecada com essa história de descobrir os assassinos daquela sapatãozinha que morreu. -- bebeu a cachaça -- Não acha que ela tá passando dos limites? Já fez muito! Deveria deixar de lado. -- esfregou as mãos nas pernas -- Aliás, nunca aprovei a idéia de minha filha dividir apartamento com sapatão. Vai que a tal resolve querer agarrar ela de noite? Ou então vir tirar um sarro...
Renan ficou sem graça. A conversa começava a ficar delicada.
--Sabe, seu Claudio, eu entendo mas... a coisa não é bem assim. Patrícia era uma moça muito bacana e Tatiana não tinha preconceito com a condição dela. E a Pat nunca faltou ao respeito com minha namorada e nem com a outra moça, Priscila. Elas viviam bem. -- pausou -- Tatiana tá muito dedicada em resolver o caso sim, mas ela é desse jeito mesmo: perseverante. Eu admiro a força que tem. -- bebeu a cachaça -- E o assassinato de Patrícia... foi uma tragédia... que aconteceu... inesperadamente. -- Renan começava a se sentir meio zonzo
--Ah, tudo bem, aquilo foi uma coisa triste mas... o que uma sapatão daquelas podia esperar? Eu vi uma foto da garota: era um machinho! -- riu brevemente -- Ela esperava o que? Que ia sair por aí, vestida de homem, caçando umas menininhas e ia ficar por isso mesmo? Claro que não, uai! Alguém foi lá e acabou com a pose dela. -- pausou -- Dá teu copo! -- estendeu a mão
Renan estava em choque. -- O senhor apóia... isso? Que alguém mate... uma mulher só por ser... lésbica??
--Não, que é isso? -- fez cara séria -- Só tô dizendo que não era imprevisível que um dia fosse acontecer. Dá teu copo, garoto! -- pediu novamente
Renan entregou o copo novamente receoso. “Esse homem vai me matar com essa cachaça!” -- pensou -- Olha, seu Claudio... já que... tô me preparando pra me casar... com a Tati... quando ela se formar, é bom que o senhor saiba... Seyyed é lés...bica! E eu tenho muito...orgulho da pessoa que ela... é. -- bebeu a cachaça -- Ah!!! Essa desceu mais queimando que todas! -- desabafou. Sentia que estava ficando lerdo
Claudio bebeu a cachaça também e fez careta. -- Como é??
--Isso mesmo! Eu devo... tudo... tudo a mamãe e a Sey... yed. E aceito ela... do jeito que... é.
“Por essa eu não esperava...” -- pensou. -- Dá teu copo! Vou caprichar na dose agora.
“Ô meu Deus...” -- Renan pensou apavorado -- Espero... que isso não... mude nada... entre nós. -- Renan entregou o copo e olhou receoso para o homem mais velho. Agora via dois deles
--Anêim, não muda... -- pegou o copo e serviu mais cachaça -- É! Cada um cuida de sua vida como melhor lhe convém, não é? O que importa é que minha filha não é sapatão e nem você é viado! -- olhou desconfiado para Renan ao estender o copo de volta -- Ou é??
--Claro... que não!! -- pegou o copo com decisão -- Disso... tenha cer...teza! -- bebeu tudo de uma vez
--Então é o que interessa! -- bebeu a cachaça e fechou os olhos -- Ai, mas eu adoro essa branquinha...
Buff!! Um barulho se fez ouvir. Claudio abre os olhos surpreso. -- Renan?? -- levantou-se depressa
--Que barulho foi esse? -- Clarice chega na varanda correndo -- Mas Claudio, o que você fez com ele?
Tatiana e as irmãs vêm correndo logo atrás da mãe.
--Pai, o que você fez com meu pretinho?? -- ajoelhou-se ao lado de Renan, que estava estatelado no chão
--A gente tava conversando e eu dei umas cachacinhas pra ele... -- respondeu se justificando -- Quando é fé ele cai desse jeito!
--Papai e essa mania de encher os namorados da gente com esses trem brabo! -- Tamires reclamou -- Não tem um que saia daqui sem trocar as pernas depois da sua cachaçada!
--Ele não é acostumado a beber, viu? -- Tatiana olhou chateada para o pai e depois passou a mão no rosto do namorado -- Amor, você está bem? Machucou?? Fala comigo, lindinho...
--Tá tuuuudo bem, Tati... -- Renan respondeu -- Cachaça... é bebida de ma...cho... -- via tudo rodando
Fim do capítulo
Música do Capítulo:
[a] Oceano. Intérprete e compositor: Djavan. In: Djavan (Oceano). Intérprete: Djavan. Columbia Records, 1989. 1 disco vinil, lado A, faixa 2 (4min56)
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jake
Em: 12/03/2024
Olá autora mto triste oque houve com a Pat. Rsrs a delegata leva flores tdo bem ,mas porquinho ainda por cima com lacinhos rsrsr e no final fugindo da Ju kkkkk. Não tô gostando da Isa de ir enrolando a Ed pior ainda seguindo os conselhos da mãe interesseira aff...Ainda acho q Camile vai ficar com Ed...
Solitudine
Em: 15/03/2024
Autora da história
Olá querida!
Patrícia foi vítima de homofobia junto com outras coisas que a história vai te mostrar.
Gostou do porco de pelúcia que Suzana arrumou? A delegada é brava mas a japonesa a deixa de pernas bambas! kkkk
Isa é insegura e está seguindo os conselhos da mãe. Será que Camille vai conseguir conquistar o coração da mecânica? Vamos ver!
Beijos,
Sol
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Samirao
Em: 03/05/2023
Capaz de vir mais um habibem fica atenta! Huahuahua
Solitudine
Em: 04/05/2023
Autora da história
Kkkkk Para arredondar? Sabia! Kkk
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Cristina
Em: 26/04/2020
Olá Sol!
Neste capítulo sua abordagem sobre preconceito sexual vivenciado pelas personagens é ótima!!!
O discurso feito pelo irmão de Patrícia me levou a uma reflexão profunda de como nos comporamos diante da homofobia!
Hoje minha releitura são com novos olhos!
Bjs.
Resposta do autor:
Olá amiguinha!!!!
Este preconceito, infelizmente, anda até mesmo em nosso meio.
Fico feliz em ver como você gosta de Maya, pois já releu várias vezes. Obrigada!!!
Beijos,
Sol
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Samira Haddad
Em: 23/04/2020
Só na torcida e na constelação. Você sabe a forma como gosto de comentar seus contos! uauauaua
Resposta do autor:
Conitnue mantendo os bons hábitos. :P
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 15/04/2020
Sol,
Você é toda natureza, queria ser assim, massss... Não dá.
Ana passado vi a história de uma mulher de Alagoas que tinha câncer no estômago em estágio muito avançado, ela fez um tratamento natural com ervas e chás, enfim, o câncêr que ela tinha estava regredindo. Acredito em tratamentos naturais. Se te contar que curei um início de câncer de pele com babosa, você acredita? Foi isso e as orações da minha mãe, pois tive isso numa época bem complicada da minha vida e hoje estou aqui bela e feliz (o bela é por minha conta... Kkkkkk)
Beijos
Resposta do autor:
Mas é claro que eu acredito! Se até José de Arimatéia levou babosa para amainar as chagas de Cristo quem sou eu para duvidar dessa planta poderosa! Tenho até! Babosa Miller.
Você é bela mesmo que eu atesto e dou fé.
E Samira nada de ter ciúmes disso! Ai, ai, ai.
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 15/04/2020
Eita agora vai!! Kkkkk...
Sim gosto das duronas, mas amo as sensíveis... Kkkkk... Ju se você ler é pra você.
Nada que um antialérgico não resolva, o problema é o tempo seco, tem dias que não chove.
Beijosss e obrigada
Resposta do autor:
Agora vai não porque não termino hoje.
Eu não tomo remédio de alopatia, sabe? Só trem natureba. Até minha quimioterapia era fora dos padrões. kkk
Minha vida está marcada por uma fusão de Isa com Jamila e Mariah. E 'elas' vão ler! kkk
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 15/04/2020
Solzinha!
Ainda procurando ratas? Samira ainda tá cismada?
Suzaninha é fofa... Toda durona com os bandidos, mas na vida pessoal.. Ai ai...
Camille nessa fase merecia levar uns chacoalhões, era chata por demais!! Mas felizmente evoluiu.
Hoje estou com a alergia atacada, então o processo de leitura está em câmera lenta.
Beijos
Resposta do autor:
Olá Gabinha!
Sim, especificamente agora armei a ratoeira! kkk
Hum, você gosta das duronas sensíveis, entendi...
Camille levou chacoalhões, mas da vida. E aprendeu.
Eu não tenho problema de alergia, maama é que tem. E ela sofre, sei como é. Melhoras!
Beijos,
Sol
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Gabi2020
Em: 14/04/2020
Sol!
Capítulo tenso esse, lembro que quando li, fiquei muito pensativa com a história da Patrícia, triste demais!
Gente essa Suzana é uma fofa, adorooooo
Camille ainda está na fase mimada e chatinha... Rsrsrsrs
Beijosss
Resposta do autor:
Gabinha!
Quem nunca perdeu alguém para a homofobia, não?
Eu não me lembrava que você era tão fã da delegada. rs
Camille tomou o tempo dela e não foi pouco. Foi o dela.
Beijos querida!
Sol
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Solitudine Em: 14/06/2024 Autora da história
Olá querida,
Maya tem muita emoção mas também muita loucura. Espero que se divirta.
Patrícia foi vítima de homofobia e fanatismo. Essa história vai longe!
Beijos,
Sol