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  • Primeira Temporada - MUDANÇAS III

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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

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Palavras: 16815
Acessos: 10838   |  Postado em: 12/04/2020

Primeira Temporada - MUDANÇAS III

 

 

--Ai, dona Olga, dona Olga... esse seu namorado é cheio das mesuras... Vocês dois estavam igual a dona Florinda e professor Girafalis. -- sentiu o beliscão na perna -- Ei,isso dói. -- riu

 

--Pra deixar de ser safada! -- riu também

 

--Que pena que ele volta pra Sampa...

 

--Seyyed, quer parar de me encarnar? -- Olga ralhou

 

Ed riu. -- Tá bom... -- pausou -- Que achou da Camille, mãe?

 

--Uma mocinha linda que precisa de ajuda. Ela tem muita vergonha de ser deficiente! Mas Flávia vai ajudá-la. E nós também, na medida do possível. -- pausou -- Mas e você? O que sentiu?

 

--Por que pergunta ‘o que sentiu’?

 

--Porque vi o jeito como se olharam quando você a levou para o quarto. Parecia que vocês tinham... havia uma coisa no ar... não sei, não entendi.-- Olga respondeu

 

--Caraca, mãe a senhora percebe tudo! -- pausou -- Não sei... Quando eu fui buscá-la no quarto e a vi, foi como se encontrasse uma conhecida de longa data. Nada a ver com desejo, nada disso... Apenas uma familiaridade que me deixou até desconfortável no primeiro momento.

 

--Mariângela e o senhor Mariano ficaram pasmos em como Camille deixou você carregá-la, ajudar a se levantar... Ela deixou até você trazer a cadeira!

 

--Pois é... mas diga porque a senhora o chama de senhor Mariano... não entendo isso...

 

--Porque ele me chama de senhora Olga.

 

--Sei... -- sentiu um tapa na perna -- Ai, mãe. Essas mãozinhas são bonitinhas mas batem forte!

 

--Pra deixar de ser safada!

 

***

 

Camille estava deitada na cama pensando na estranha sensação que sentiu ao conhecer Ed. Parecia que estava reencontrando alguém perdido em um passado muito distante.

 

“Que coisa estranha!”

 

Estranhou o modo como se deixou carregar no colo e a invasão daquela estranha em seu quarto. Era diferente de Flávia que, sendo abusada por natureza, entrava sem pedir licença. Sentiu bem estar na

presença de mãe e filha, mas em Ed havia algo mais...

 

“Vou cortar isso, não estou gostando e nem entendendo!” -- pensou

 

Também reparou que aquela mulher tinha algo diferente. Não era malandrona como Flávia, mas havia algo... lésbico, talvez. Apesar de tudo Flávia não tinha esse ‘diferencial’.

 

“Será que ela é? Mas a mãe sabe e não liga, não tem vergonha, não briga?” -- pensou -- “Vai saber. O mundo tá todo mudado, ô louco!”

 

--E aí figurinha? -- Flávia perguntou ao entrar -- Cadê o tio gato?

 

--Voltou para casa. -- assustou-se com a chegada repentina da fisioterapeuta -- "Meu, eu tava tão entretida em pensamentos que nem ouvi essa doida chegando!" -- pensou

 

--Mas por que não deixou pra ir no domingo? Podia ir me assistir amanhã! -- respondeu -- Que pena! É bom ter uma coisa bonita pra olhar. -- sorriu -- Você é bonita, mas não faz minha cabeça. -- riu -- Como vão as mãos?

 

--Melhorando. Já consigo abrir e fechar as duas sem sentir muita dor.

 

--Muito bom. Dê as duas aqui.

 

Camille estendeu as mãos. --A sua amiga, dona Olga, e a filha dela vieram aqui jantar. -- disse sem nem saber porque dizia

 

--Ah, então rolou uma boca livre e vocês nem me convidaram, não é? -- riu -- Muito bonito! -- ligou o aparelho de ultra-som

 

--Você conhece a filha dela? -- perguntou curiosa

 

--Ed? Claro! Eu cuidei do braço dela quando se acidentou. -- riu -- Gente fina! Dona Olga também é show. Uma mulher iluminada! -- começou a massagear as mãos de Camille

 

--Eu... é, elas são legais. Mas achei Ed uma mulher... diferente.

 

--Como assim, diferente? -- perguntou desconfiada

 

--Sei lá.

 

--Eu, hein? -- pausou -- Aqui, tu vai me ver lutar, maluquete? -- olhou para ela -- Estou na final, como previ.

 

Camille riu. -- Você é doida!

 

--Isso não responde a pergunta. Vai ou não vai?

 

--Como pode disputar a final amanhã e estar trabalhando aqui hoje?

 

--Responde logo, vai ou não vai? -- já estava impaciente

 

--Faz diferença pra você? Já vai ter gente o suficiente.

 

--Faz sim. -- disse com seriedade -- Escuta, Camille, ouve uma coisa: volta a viver?

 

--Ir te ver lutar quer dizer isso? -- perguntou com deboche

 

--É um começo. -- olhou bem para ela -- Se você se esforçar, lutar, aprender a usar muletas, voltar a sair... vai evoluir, aprender a ser feliz novamente e com muita sorte... -- pausou -- ficar igual a mim! -- riu com vontade

***

 

--Ô louco, viu? Eu devia estar dopada quando aceitei vir nisso aqui! -- Camille reclamava enquanto a mãe empurrava sua cadeira -- Isso é coisa de maluco!!

 

--Pare de reclamar, menina! Acabamos de chegar. -- Mariângela respondeu -- Ai meu Deus, e agora? -- deparou-se com um lance de escadas -- Santa Maria Madalena...

 

--Maravilha! -- Camille revirou os olhos

 

--E agora que vocês precisam de uma mãozinha. -- Ed apareceu repentinamente -- Silvio, vem! -- chamou pelo amigo

 

--Só se for agora!! -- ele respondeu

 

--Olá Mariângela! Que bom que veio! -- Olga cumprimentou -- E você também Camille. Que maravilha vê-la aqui!

 

--Nossa, vocês... -- Mariângela riu -- chegaram na hora certa.

 

--Posso te ajudar, mocinha? -- Ed perguntou para Camille

 

Ela ficou sem graça e não respondeu. Em dois segundos estava no colo da morena. Silvio pegou a cadeira.

 

--Isa, vai na frente com elas e acha uns lugares legais por favor?

 

--Tá bem. Vamos? -- dirigiu-se a Olga e Mariângela

 

Isa foi na frente seguida por Mariângela e Olga enquanto que Ed vinha logo atrás com Camille no colo e Silvio por último com a cadeira.

 

--Agora toda vez que eu te ver você vai me pegar no colo? -- a jovem perguntou impaciente

 

--Veja como você é uma mulher de sorte. -- piscou para ela brincando

 

Isa encontrou uma fileira inteira vaga. Mariângela sentou-se na ponta, seguida por Olga, Isa, Seyyed, Camille e Silvio.

 

--E aí, gata? Já esteve em uma luta? -- Silvio abordou Camille cheio de charme

 

--Não... -- respondeu desconfiada

 

--Oi gente!!! -- uma voz conhecida saúda o grupo

 

--Não acredito! -- Isa reclamou baixinho

 

--Oi querida! -- Olga levantou-se e foi abraçar Juliana -- Não sabia que viria!

 

--Decidi de última hora. -- disse olhando para Seyyed de soslaio

 

--Por que será? -- Isa perguntou baixinho a namorada

 

--Oi Juliana. -- a mecânica levantou-se e deu beijinhos de comadre

 

--Oi, Ed. -- sorriu -- Oi, vocêzinha! -- acenou para a ruiva -- Silvio!

 

Ambos responderam com movimentos com a cabeça.

 

--Mariângela, Camille, essa é Juliana. Ela foi quem nos apresentou a Flávia quando Seyyed precisou de tratamento. -- Olga disse

 

--Tudo bem? -- acenou para as duas

 

--Nós nos conhecemos! Ela nos ajudou no hospital com Camille! -- Mariângela respondeu animada -- Você e Flávia foram presentes do céu! -- disse para a enfermeira

 

--Não diga isso de mim... -- respondeu envergonhada -- Flávia sim é o presente! Ela é muito boa no que faz e não é nada convencional. -- pausou -- Posso ficar aqui com vocês?

 

A bailarina revirou os olhos.

 

--Claro! -- Olga e Mariângela responderam

 

--Juliana, -- Silvio chamou -- senta aqui do meu lado. Que acha?

 

--Ótimo. -- sentou-se

 

Camille percebeu o clima e já havia desconfiado de haver algo entre Seyyed e Isabela.

 

--Tomara que ela não faça cenas... -- a bailarina cochichou

 

--Não vai, querida. Relaxa. -- a morena respondeu

 

 

***

 

A luta começou e as adversárias ganhavam pontos equilibradamente. Flávia batia mais, porém cometeu duas faltas sendo penalizada por isso.

 

Camille percebeu que a adversária da fisioterapeuta não tinha uma das mãos, que um árbitro usava muletas, outro não tinha uma perna e o terceiro era caolho. Com mais atenção notou que a maioria das pessoas presentes eram todas deficientes.

 

“Existe um mundo paralelo onde os deficientes fazem tudo que os normais fazem?” -- pensou

 

De quando em vez Silvio a abordava com comentários tolos e percebeu que ele a paquerava.

 

“Será possível que se interessa por mim??” -- parecia impossível. Logo ele, um homem normal.

 

Reparou que havia uma frase em destaque no ringue: “As oportunidades geralmente se apresentam disfarçadas de trabalho árduo, e é por isso que muitos não as reconhecem.”

 

Camille sentia-se como se estivesse sendo apresentada a um mundo novo em cuja existência ela nunca se detivera antes.

 

De repente, em uma sucessão de golpes, Flávia desarma a adversária e a derruba no chão. A mulher não conseguiu se levantar. Nocaute! Flávia foi declarada campeã.

 

Juliana vibrava com vontade, assim como Silvio, Seyyed e a mãe. Até Mariângela se empolgou. Somente Isabela e Camille foram contidas.

 

Um homem alto e forte pulou para dentro do ringue e levantou Flávia no colo. Os dois se beijaram.

 

Camille deduziu que era o namorado da fisioterapeuta. “Gente, o namorado dela é um homem normal!” -- estava pasma

 

***

 

Estavam todos sentados em uma mesa enorme no La Mole, no Norte Shopping. Flávia contava as histórias das lutas que travou até chegar ao título. Camille ouvia com muita atenção.

 

--E aí deu no que deu: ganhei o cinturão de ouro carioca! Que venha o brasileirão! Vai ser porr*da em todo mundo! -- riu sonoramente

 

--É... gata? Você tem programa pra amanhã? -- Silvio perguntou a Camille -- Tava pensando da gente

pegar um cineminha...

 

Camille continuava em choque com o assédio dele. -- Eu acho melhor não!

 

--E que tal na semana que vem?

 

--Silvio deixa a garota! -- Ed pediu ao amigo -- Liga não. -- olhou para a loura -- Ele não pode ver mulher bonita que vai logo dando mole... -- comentou

 

--Se quiser ou mudar de idéia, -- estendeu um cartão -- tá aqui. -- Camille pegou desconfiada

 

--Flávia, tô orgulhosa de você! -- Juliana disse -- Você disse que ia vencer e venceu. Também não é só isso. Você luta todos os dias de sua vida nos últimos anos, e vem ganhando sempre. -- pausou -- Um brinde a isso!

 

--Tintim! -- todos disseram levantando os copos

 

--Amor, pra onde vamos depois que deixarmos sua mãe em casa? -- Isa perguntou -- É que tô meio cansada... Hoje treinei exaustivamente...

 

--Podemos ir lá pra casa e aí eu cuido de você. Que acha? -- perguntou sorrindo

 

--Tentador... -- respondeu sensualmente

 

Juliana devorava as duas com os olhos. Olga reparou.

 

--Filha?

 

--Sim? -- respondeu

 

--Não fique aí filmando todos os gestos de Seyyed. -- Olga pediu -- Não é só Flávia que tem que travar uma luta todos os dias. Você também tem. -- disse suavemente

 

Juliana abaixou a cabeça. --Dona Olga, acho que vou embora. -- suspirou -- Já vi a luta, cumprimentei minha amiga... É hora de ir... Do contrário vou ficar aqui vigiando Ed e a boneca Moranguinho que ela arrumou. -- decidiu com tristeza

 

--E vai pra onde?

 

--Por aí... Não sei...

 

--Quer ir dormir lá em casa? -- ofereceu -- Estou lendo um livro sobre medicina da alma e preciso de uma ajuda com os termos técnicos. Ou então podemos simplesmente jogar conversa fora. -- sorriu

 

--Não serei inconveniente?

 

--Em minha casa você jamais será. -- sorriu

 

As duas se despediram de todos e se arrumaram para sair. --Já vai mãe? -- Seyyed se espantou

 

--Juliana me leva. Ela vai dormir lá em casa. -- beijou a filha

 

--Cuidem-se. -- beijou a cabeça da mãe

 

--Tchau, Isa. -- Olga beijou a moça, que retribuiu o beijo, e se despediu

 

--Tchau, Ed. -- Juliana disse dando beijinhos

 

--Cuide bem de mamãe! -- brincou

 

--Eu cuido de pessoas, esqueceu? -- olhou para a ruiva -- Tchau coisinha. E aproveita pra comer agora que tem oportunidade, viu?

 

A bailarina não perdeu tempo respondendo e acompanhou a partida das duas com o olhar. --Essa Juliana não perde a chance de querer me provocar. -- deu uma garfada

 

--E fica mordida porque você nem liga. Continue assim. -- Ed respondeu

 

--E ela tem um entrosamento tão grande com sua mãe! -- comentou incomodada

 

--Amor, ela teve dois anos e meio de convívio intenso...

 

--Que bom que já foi. Eu sempre fico na expectativa de que vai fazer alguma coisa bem desagradável.

 

--Nada... ela mudou! -- bebeu um gole de suco -- No máximo, joga as piadinhas bobas de sempre. É só não ligar...

 

Camille prestava atenção a tudo.

 

***

 

--Filha, aquele rapaz, o Silvio, ficou de olho em você. É um rapagão e tanto! -- Mariângela falou animada -- Por que não dá uma chance a ele?

 

--Humpf! Um homem daqueles é um biscate da pior espécie. Pode até me passar doença venérea; ou AIDS. -- respondeu mal humorada

 

--Não precisa dormir com ele. Pode só passear.

 

--Mãe, se liga, meu! Um cara daqueles só passeia pra motel.

 

--Ele te convidou pra um cinema.

 

--E depois do cinema? Se eu não quiser como é que vai ser? Vai dar treta! -- pausou -- Ai, não. Esqueça isso!

 

--Tudo bem. -- respondeu tranquilamente -- Já estou feliz o suficiente por ter ido a luta. Viu quanta gente especial?

 

--Especial é um eufemismo que os politicamente corretos usam pra designar os ferrados assim como eu.

 

--Deixe de ser sempre tão ácida em seus comentários, Camille. Parece que gosta de ser desagradável!

 

--Minha vida é desagradável! -- respondeu rudemente

 

--Porque quer! Hoje você viu um monte de gente igual ou pior que você e estão todos vivendo! Flávia é um bom exemplo disso! -- Mariângela respondeu com firmeza

 

Camille calou-se.

 

--Olga e Mariano me disseram que na oficina de Seyyed existem jovens com Síndrome de Down fazendo pequenos serviços e que eles trabalham muito bem! Se eles podem viver e trabalhar por que você não pode?

 

--Você tá tão impressionada com esse pessoal... ainda não sacou que Ed é a maior sapatão??

 

--Como é?? -- Mariângela perguntou assustada

 

--Ed, mãe, acorda! É sapatérrima!!-- Camille disse enfaticamente -- Aquela Isa é a mulherzinha dela e a japonesa, a Juliana, é a ex!

 

--Como sabe de tudo isso???

 

--Prestei atenção a tudo! Enquanto você tagarelava com dona Olga eu saquei tudo porque fiquei calada ouvindo. -- balançou a cabeça -- Juliana prestava atenção a tudo que Ed e Isa faziam, aí dona Olga cochichou com ela e foram embora. Deve ter levado a japa pra longe para poder consolá-la.

 

--Mas... meu Deus, isso é... -- cobriu a boca com as mãos -- Será que Olga sabe disso?

 

--Claro, não é mãe? Se eu sei, faz idéia ela...

 

--Que pouca vergonha! -- afirmou com desgosto -- De hoje em diante não quero nenhuma delas aqui de novo. Quando Olga ligar eu não atendo mais, ou então despacho logo.

 

--Dona Olga não tem culpa da filha ser assim, mãe.

 

--Mas é conivente com a safadeza! -- respondeu -- Não as quero mais aqui. Vou até dizer isso pra Mariano.

 

--No que vai perder tempo! O tio anda com os quatro pneus arriados por dona Olga. Ele é até capaz de achar que ser sapatão é bonito.

 

--Isso é... Tudo bem eu não digo. Ele vai descobrir sozinho.

 

--Se é que já não sabe...

 

--E você ainda deixou ela te carregar no colo mesmo sabendo disso tudo?? -- pôs as mãos na cintura

 

--E quem faria isso? Silvio?? -- riu com deboche -- Esse aí ia me aborrecer se me carregasse. Ed tem a mulherzinha dela pra se distrair, ela não iria querer nada comigo de jeito nenhum! -- parecia se incomodar com este fato

 

--Seja como for. Aqui em casa, não pisam mais!

 

***

 

Isabela acordou preguiçosa nos braços da namorada, que já estava desperta e pensativa. Esfregou os olhos como uma gatinha.

 

--Acordou, minha gata? Ou ainda quer dormir mais um pouco? -- beijou a cabeça da bailarina

 

--Ai, eu quero acordar. -- levantou a cabeça e olhou para Ed -- É que eu acordo com essa preguicinha quando a gente faz amor. -- sorriu

 

--É... você é toda dengosinha e eu gosto disso. Como, aliás, gosto de praticamente tudo em você. -- beijou-a nos lábios

 

--Sério? -- sorriu feliz -- Eu sempre achei que você me achava uma patricinha... -- beliscou o ombro da morena

 

--E acho. Mas não é defeito. Se achasse assim não teria ficado contigo.

 

--Ah... só para trans*r... -- mexia no cordão da mecânica

 

--Eu não procuro mulheres só pra trans*r... -- buscou seus lábios e a beijou -- Querer alguém como você só pra isso seria uma grande burrice.

 

--É mesmo? -- sorriu e mordeu o lábio inferior da morena

 

--É, minha gostosa, pode acreditar... -- pausou -- Pena que você não pense o mesmo a meu respeito, não é? -- olhou para a ruiva

 

--O que quer dizer? -- perguntou desconfiada

 

--Quero dizer que, -- ajeitou-se para se sentar enquanto Isa virou-se de barriga para cima e se cobriu mais com o lençol -- eu queria construir alguma coisa aqui. -- permanecia olhando para a amante -- Eu não estava naquela de conhecer uma garota legal, bonitinha, gostosinha, ir pra cama com ela, ir curtindo e um dia terminar e procurar a próxima. -- passou a mão nos cabelos e ficou mexendo no lençol -- Você me interessa, me prende, eu gosto de você... -- pausou e abaixou a cabeça olhando para as próprias mãos -- Mas não quero ficar me envolvendo mais e mais se você não tá a fim de tentar...

 

--Ed... -- sentou-se também -- eu fui bem sincera. Relacionamentos nunca foram o meu foco...

 

--E quando você me disse que queria um relacionamento adulto, na verdade queria dizer um relacionamento com sex*. -- olhou para ela -- Não é?

 

--Você é uma mulher adulta, experiente, já foi casada... não imaginei que quisesse se envolver a sério de novo. Eu achava que você tinha medo de me magoar porque se grila com a minha idade e me acha um bebê, coisa que eu não sou.

 

--Nunca achei que fosse... se achasse, não teria ficado contigo nem naquela festa. -- balançou a cabeça e se levantou -- Desde que voltamos de Penedo e você me disse aquelas coisas no carro eu tenho pensado muito... -- pôs as mãos na cintura -- É melhor a gente parar de se ver... -- olhou para ela

 

--O que??? -- perguntou revoltada -- Então você me leva pra cama, faz o que bem entende comigo e depois me dispensa com essa conversa?

 

--Não é nada disso, não inverta a situação! -- sorriu revoltada -- Eu não quero sofrer, isso sim! -- andou um pouco pelo quarto -- Eu tô a fim, e muito a fim de você! Eu queria um relacionamento sério contigo! A partir do momento que você deixa claro que não quer se envolver, pra que a gente vai continuar juntas? Só pra ter uma pessoa certa pra trans*r? Alguém pra passear, bater uns papos cabeça? -- olhou para ela -- Isso é muito pouco! Sexo não é coisa pra se brincar, Isa!

 

--Tudo bem! -- levantou-se e se enrolou com o lençol -- Se quer terminar, -- caminhou até ela -- a gente termina! -- foi para o banheiro e fechou a porta

 

Seyyed deu um soco na parede e se machucou. --Droga! -- sacudiu a mão dolorida

 

***

 

Patrícia estava em uma loja no Norte Shopping escolhendo um perfume para presentear Sabrina. Não desistia de tentar conquistá-la. Reparou que algumas vendedoras cochichavam olhando para ela e rindo. Certamente estavam zombando.

 

Pouco depois um rapaz alto, forte e careca entra na loja. As zombeteiras pararam com os cochichos e foram atendê-lo cheias de segundas intenções.

 

Escolheu um Armani e foi pagar no caixa. Quando estava saindo ouviu um comentário: --Que escrota, não é? Pensa que é homem...

 

Olhou na direção da voz e viu que era uma das zombeteiras. Reparou que a moça tinha uma barriga enorme que sobressaía na blusa apertada. Usava também uma calça de cintura baixa. As gorduras laterais caíam por cima do cós do jeans.

 

--Que escrota, não é? -- olhou para a barriga da vendedora -- Pensa que é gostosa... -- saiu rindo. A vendedora ficou revoltada -- Babaca! -- disse para si mesma

 

O rapaz careca saiu da loja e veio correndo atrás dela.

 

--Ei! -- emparelhou-se com Patrícia e caminhava a seu lado -- Mandou ver! -- sorriu -- Meu nome é Silvio!

 

--Patrícia. -- respondeu desconfiada -- Qual é a sua, hein? -- não estava entendendo aquela aproximação -- Já deu pra notar que não curto homem.

 

--Eu sei, a gente gosta da mesma coisa...

 

--Pois é, mas minha concorrência não chegará a te deixar mal na fita. -- respondeu ainda desconfiada

 

--Sério... eu vim falar contigo porque gostei da sua atitude na loja, achei engraçado o fora que você deu na maluca.

 

--Devia ter ficado lá. Ela e a colega se interessaram por você. -- olhou para ele

 

--Eu sou galinha confesso; 100% prostituto. Mas tenho uma ética: não saio com mulheres que fazem certas coisas, como não respeitar as lésbicas.

 

--Sei...

 

--Olha só... -- caprichou na voz -- Que tal a gente sair daqui e procurar uma gatinha? Você podia dividir a garota comigo... -- sorriu novamente -- Eu acho que tenho muito a aprender com as lésbicas. É incrível como enlouquecem as mulheres...

 

Patrícia parou de andar e olhou bem para Silvio. Ele parou também.

 

--Vixi!! Você tem merd* na cabeça ou o que, seu cabra? -- pausou -- Ei, eu sei quem você é! Minha amiga saiu contigo. Eu te vi com ela uma vez lá no apartamento, mas vocês estavam indo embora e não me viram. É a Priscila.

 

--Priscila?? -- ficou pensando

 

--Uma morena que parece índia. -- esclareceu

 

--Ah, eu sei. A futura dentista! -- sorriu -- É, a gente teve um lance.

 

--Bem fez ela que te rebolou no mato!

 

--Rebolou aonde? -- perguntou sem entender o significado da expressão

 

--Oi! -- uma moça jovem e bonita se aproximou dos dois -- Lembra de mim, Silvio?

 

Ele olhou para a garota e nitidamente não lembrava. -- Claro! -- sorriu -- Só esqueci seu nome, desculpa, porque não é muito comum... -- mentiu

 

--Ana Paula! -- pôs as mãos na cintura

 

--Nome raríssimo... -- Patrícia comentou com ironia

 

--Ah, sim! Ana Paula... -- olhou para ela de cima a baixo -- Está mais linda do que nunca... É... vamos fazer um lanche e conversar um pouco? -- convidou fazendo voz de sedutor

 

--Você sumiu, nunca mais me procurou... -- cruzou os braços

 

--Ah, é o trabalho. Muita coisa pra fazer, sabe? -- segurou a mão dela -- Mas... vamos conversar um pouco e recuperar o tempo perdido. -- semi cerrou os olhos -- Minha boca sentiu saudades dos seus beijos...

 

--Jura? -- perguntou sorrindo

 

--Claro! Quem pode te esquecer? Você é uma mulher e tanto! -- olhou para Patrícia -- Desculpe, mas tenho que ir...

 

--Vai lá! -- Patrícia fez sinal para que fossem. Estava achando aquilo tudo patético

 

--Vamos, gatinha?

 

Os dois foram caminhando. Silvio falava um monte de mentiras e a garota se derretia em sorrisos e gestos estudados.

 

--Tem mulher que gosta de fazer papel de otária, viu? -- balançou a cabeça e seguiu seu rumo

 

***

 

Silvio acordou na cama de Ana Paula e já não lembrava mais do nome dela. A garota dormia profundamente. Lembrou-se da noite que tiveram. Ela fez tudo o que ele queria e ainda fez um sex* oral inesquecível. Olhou no relógio, eram 7:30h.

 

“Ih, tenho que vazar senão chego atrasadão na oficina!” -- pensou

 

Levantou-se pé ante pé, vestiu-se e foi embora. Não estava disposto a encontrar aquela garota novamente.

 

Silvio não valorizava mulher alguma. Para ele, qualquer garota que se rendesse aos seus encantos era só mais uma para adicionar na lista de conquistas. Ou figurinha repetida para goz*r mais uma vez se ela aparecesse no momento certo.

 

Dentro do carro ele sorria lembrando-se do modo ingênuo como Ana Paula acreditava em tudo o que lhe dizia. Achava que as mulheres eram pretensiosas por sempre levar a sério as juras de amor de um homem. “Como podem se julgar tão apaixonantes?” perguntava a si mesmo. Também pensava que, na ânsia de fisgar um marido, as garotas desde cedo faziam de tudo para ter um namorado: aturavam os vacilos dos caras, bajulavam, abriam mão das coisas que gostavam, da companhia das amigas... E conforme chegavam na casa dos trinta, entravam em desespero e topavam qualquer coisa, inclusive na cama. Depois dos quarenta, o desespero era total para as solitárias. “Um homem que dê um mínimo de atenção consegue qualquer coisa de uma mulher com mais de trinta anos.” -- pensou -- “É por isso que eu adoro essa faixa etária...”

 

As mulheres eram como um produto que se deprecia com o tempo, filosofava, e sabem disso, porque se comportam exatamente assim. Com os homens era diferente. Não importa a idade que tenham são sempre valorizados. Principalmente se têm dinheiro. E não importa que sejam galinhas, ninguém acha que isso seja condenável. Tem até cientista que justifica a infidelidade apostando na fúria da testosterona. “Conversa pra boi dormir!” -- discordava que os hormônios fossem os culpados por tudo. Para um homem, sexualmente, nada pegava mal; só não podia ser gay. “Mas comer viado pode!” -- sorriu. Ele já havia feito sex* com vários gays, mas sendo ativo julgava-se totalmente macho e hetero. O papel feio era deles, dos passivos.

 

O mundo mudou, as mulheres conquistaram muitas coisas e seu status cresceu na sociedade, mas em termos de comportamento sexual a evolução foi mínima. Elas fazem abertamente coisas que antes não eram aceitas para uma moça de família, porém continuam se criticando mutuamente, chamando as outras de piranha por qualquer coisa e sendo as mesmas machistas que sempre foram. Os homens ainda são tratados como reis, sendo servidos por suas companheiras naquilo que desejarem. E quando trocam de parceira ou traem, a culpa é sempre da outra mulher. “E enquanto isso, a gente deita e rola...” -- pensou -- “Enquanto as mulheres forem assim, nós sempre seremos os donos do mundo!” -- sorria

 

Para Silvio, ser homem era ser superior. Mulheres existiam para servir e serem usadas. Ele não tinha entendimento de que, ao contrário do que a ignorância da sociedade pudesse dizer, colocava-se em profundo endividamento diante da vida. Pensava que usava as mulheres, mas não percebia que se desvalorizava a cada dia.

 

***

 

--Silvio, isso são horas? -- Ed o abordou contrariada -- Nove e meia da manhã? Esqueceu que aqui se começa às oito?

 

 

--Peguei um engarrafamento brabo, Ed. Mas saí do Cachambi às 7:30h mais ou menos. Foi a linha Amarela que me ferrou. -- pausou -- Vou ter que trabalhar com essa roupa mesmo porque o macacão ficou em casa...

 

--Cachambi? -- perguntou desconfiada -- Humpf! Pega um jaleco lá no armário.

 

--É que eu encontrei uma gata das antigas, a gente se entendeu e dormi na casa dela. -- foi buscar o jaleco

 

--E por isso acha que pode ficar se atrasando desse jeito? -- perguntou -- Toda vez que sai com alguém no meio da semana você se atrasa. Sabe que eu vou descontar isso, não sabe?

 

--Como sempre... -- respondeu contrariado -- Mas foi um atraso pequeno. A garotinha lá não me cansou muito.

 

--A garotinha lá... Ela não tem nome, não?

 

-- Esqueci. Eu acho que é... Ana Maria, sei lá. -- vestia o jaleco

 

--Você devia mudar de comportamento, cara. Vai acabar pegando uma doença braba.

 

--Ah, qual é? -- perguntou -- Eu gosto de mulher. -- sorriu e pegou a caixa de ferramentas

 

--Você gosta de orifícios, Silvio. Vagina, ânus... Não gosta de mulher. Conheço bem sua filosofia machista. Mas, enfim, é a sua vida e eu não me meto. -- voltou ao trabalho -- E vê se termina o conserto desse Tempra hoje. -- apontou para o carro -- Tem até uma da tarde pra isso!

 

--Pode deixar, patroa. -- respondeu seriamente

 

Renan estava consertando um Palio. Silvio se aproximou.

 

--E aí, Renan? -- perguntou para ele -- Pensou no que te falei? Vai comigo no puteiro novo que abriu em Madureira? A galera falou que é beleza pura. Só filé!

 

--E quando você me viu em puteiro, Silvio? -- olhou para ele -- Além do mais eu namoro.

 

--Otário! -- provocou

 

--Otário é você, que não se dá ao respeito. -- respondeu seriamente

 

--Sabe? -- aproximou-se ainda mais do colega -- Sempre tão comportado, tão sério... Às vezes eu acho que você é viado, sabia?

 

Renan saltou no pescoço de Silvio enfurecido, que sem esperar por isso caiu no chão. Ed veio correndo com mais outro funcionário.

 

--Mas que diabo é isso? -- tirou Silvio das mãos de Renan -- Vocês enlouqueceram ou o que? Isso aqui é lugar de trabalho!

 

--Qual é rapaz? Calma! -- Rubens imobilizou Renan

 

--Ele me chamou de viado! Só porque eu não quero ir em puteiro!

 

--Ah, qual é, cara? Eu tava brincando! -- reclamou

 

--Silvio, qual é o seu problema, hein? -- Ed virou-o de frente para ele -- Chegou atrasado, causou confusão... Agora deu pra ficar convocando os colegas pra excursão sexual, é? Acho bom que tenha parado por hoje. -- encarou com ele -- Mais um pouco e quem vai cair no braço contigo serei eu!

 

--Tudo bem! -- levantou os braços e desvencilhou-se da patroa -- Não está mais aqui quem falou. Vocês todos são muito sensíveis. -- respondeu com deboche

 

--Vai fazer teu trabalho se não quiser ficar sem pagamento no final do mês. -- Ed falou rispidamente -- E você também, Renan. -- olhou para ele -- Deixa de cair em pilha. Você não sabe que não é gay? Então chega! Também quer ficar sem pagamento?

 

Os dois voltaram ao trabalho silenciosamente.

 

***

 

--E então, Isa? Como vai esse processo de descoberta da sexualidade? Novos sabores... -- Priscila perguntou com curiosidade

 

Estavam deitadas na cama de Priscila, uma de frente para a outra.

 

--Eu finalmente conheci o lado bom do sex*... -- suspirou -- E tenho que te dizer: ela é muuito boa na cama! -- calou-se -- Mas acabou!

 

--Já?! -- perguntou surpresa -- Se ficou naquela de namorinho de criança por tanto tempo podia ao menos ter esperado mais antes de terminar.

 

--Não fui eu quem terminou... -- olhou bem para a amiga -- Ela ficou chateada comigo porque falei que meu foco não está em relacionamentos e que não penso em ter compromisso e me casar... Aí quis terminar... Disse que estava se envolvendo e não queria se magoar.

 

--Que papo fiado, hein? -- Priscila fez um bico -- Pra uma mulher experiente ela é muito cheia de coisa! -- riu -- Se fosse um homem estaria adorando essa situação: ter um caso com uma garota jovem, bonita e totalmente out of love! -- riu novamente

 

--Eu acho que ela quer mais que isso... -- respondeu pensativa

 

--Você goz*va mesmo?? -- perguntou baixinho. Queria mesmo era falar de sex*

 

--Ai, você não imagina! -- suspirou

 

--Mas que graça tem? Uma lingüinha, uns dedinhos... Ter um pau dentro não é muito melhor?

 

--Priscila, sex* não é só penetração de p*nis! Tem toque, carícias, estímulos... E era muito bom com ela, eu goz*va de verdade.

 

--Mas ela te metia os dedos e você achava bom? -- franziu o cenho -- Desculpe, mas é uma curiosidade que não posso satisfazer com Patrícia! Não tenho intimidades pra isso, sem contar que ela poderia me convidar pra sair... -- brincou

 

Isa corou. -- Eu gostava do jeito como Ed me pegava, como me despia, me beijava, explorava meu corpo inteiro... -- sorriu -- A exploração com a língua é uma coisa muito gostosa e a penetração com os dedos é boa sim, e muito. Às vezes desconfortável, mas gostosa ainda assim.

 

--Mas, não é verdade que lésbicas usam um pau de borracha, silicone, sei lá?

 

A ruiva corou de novo. -- Não necessariamente e nem sempre...

 

--Não seria melhor um de verdade?

 

--Você está dando valor demais ao p*nis. Não é só ele, mas tudo. É o conjunto que faz a diferença e não um p*nis somente. Meu ex namorado nunca chegou nem perto comigo do prazer que sentia com ela. -- sorriu -- E Ed é forte, tem pegada boa, sabe se movimentar, sabe o que fazer... Ela sabe tratar uma mulher, por assim dizer.

 

--Mas e você? Não te imagino comendo ela.

 

--É diferente... e do que eu fazia ela gostava muito.

 

--Como sabia o que fazer?

 

--A gente nunca sabe, Pri, na hora acontece. Como você sabia o que fazer na sua primeira vez?

 

--É verdade... -- pausou -- Mas você parece meio triste porque terminaram... Não era só pra ter a experiência?

 

--Não sei... ela é muito envolvente... -- virou-se de barriga para cima

 

--Isa, não queria ser eu a dizer isso mas pensa! Ed é suburbana, separada, filhinha da mamãe, mecânica... você é zona sul, patricinha, quer ser bailarina com carreira internacional, quer rodar o mundo... não combina!

 

--Priscila, como você é preconceituosa!! Não acredito que me disse isso! -- virou o rosto na direção da amiga e respondeu revoltada

 

--Calma, foi só uma observação...

 

--Inconveniente, diga-se de passagem. E ela não é uma boçal e nem filhinha da mamãe. Você tá sendo muito arrogante! -- pausou -- Eu mudei vários conceitos desde que a conheci. Hoje percebo que eu era preconceituosa também, mas essa fase passou.

 

--Tudo bem, esqueça o que eu falei. Mas, seja como for... você tá triste porque ela terminou?

 

--Ela me tratava de um jeito, sabe? -- olhou para o teto -- Como se eu fosse uma rainha... Ela era carinhosa, divertida, atenciosa... -- sorriu

 

--Hum... já vi tudo! -- revirou os olhos

 

A campanhia tocou com insistência.

 

--Eu hein, quem será? -- Priscila se levantou para atender. Olha pelo olho mágico e vê a escaladora --Sabrina? -- abriu a porta surpresa -- Patrícia ainda não chegou.

 

--Será que eu poderia esperar aqui? -- sorriu

 

--Pode. -- deu de ombros. Ouviu o celular tocando -- Ih, meu celular. Dá licença! -- saiu da sala

 

Nisso, Isa aparece. -- Quem é? -- viu Sabrina -- Ah... oi! -- sorriu por educação

 

--Oi, que surpresa! Como vai? E a Ed?

 

Isa riu. -- Parece que você tem tido muito interesse em saber dela nos últimos tempos não é?

 

--Hum... Pat te contou? -- riu -- Então não serei eu a negar. -- pausou -- Eu... quero provar um pouco daquilo tudo lá. Se é do tipo possessiva acho bom que você segure sua mulher bem segura porque até hoje ninguém disse não a Sabrina Magalhães.

 

--Ah, tá. -- cruzou os braços -- Mas, se quer tentar com ela, vá em frente. Eu não sou dona de Seyyed.

 

--Nossa, você é das minhas: ciúme zero!

 

--Não é isso. Eu não vou ficar disputando ela com outras e nem com medo do assédio de outras. Eu também sou assediada... Pode cair rachando à vontade. -- não quis dizer que haviam terminado

 

--Nossa, uma mulher de decisão! -- deu uma volta ao redor de Isa -- Eu não tinha reparado em você ainda... -- passou a mão no queixo -- Que acha de um ménage?

 

--Você é doente! -- a bailarina balançou a cabeça e saiu da sala. Nesse momento a porta se abre. Era Patrícia

 

--Sabrina? -- sorriu alegremente -- Chegou há muito tempo?

 

--Não. Escute, estava a fim de sair pra jantar fora hoje. Tá a fim também? -- usava um vestido preto, curto e decotado. Estava muito atraente

 

Patrícia não acreditava no que ouvia. -- Espera só o tempo pra eu tomar um banho? -- beijou-a nos lábios -- Queria trocar de roupa...

 

--Fique à vontade. -- sorriu

 

Patrícia correu para o banheiro.

 

***

 

--Gostou do restaurante? -- Patrícia perguntou

 

--Adorei sua sugestão! O peito de avestruz estava delicioso. Nunca tinha comido essa ave. -- deu uma garfada -- E esse doce aqui, viu?

 

--Percebo que está usando o perfume que te dei. -- sorriu

 

--Adoro Armani! Você acertou. -- sorriu

 

--Sinal de que presto atenção em você... -- disse sedutoramente

 

Sabrina riu. --Ai, Pat, pára, vai? -- segurou a mão dela -- Eu não vou me apaixonar por você, não importa o que faça. Nem por você e nem por ninguém. -- soltou a mão da outra e deu a última garfada na sobremesa

 

Patrícia sentiu uma pontada de dor. -- Por que, hein? -- olhava para ela

 

--Eu não ligo pra ninguém, garota. Minha vida é dedicada a mim, e só a mim. Estou sendo sincera com você. Devia parar de acreditar que vai me conquistar, porque não vai!

 

Na mesa ao lado, um casal olhava para elas e ria discretamente.

 

--Queria saber do que esse povo tanto acha graça! -- Patrícia reclamou e bebeu um gole de vinho

 

--De você. Veste-se e comporta-se como homem, as pessoas reparam mais. Pode ter os seios pequenos, ser alta e ter a voz grossa mas o rosto denuncia que é mulher. Tem traços delicados demais. -- sorriu -- Não se importe com essa gente! Eu te acho gatinha, gosto de mulheres... duronas.

 

--É melhor a gente ir... -- havia perdido o clima totalmente -- Posso pedir a conta?

 

--À vontade! -- abriu a bolsa -- Mas eu quero dividir a conta!

 

--Eu sugeri o restaurante, eu pago. -- recusou -- Garçom, por favor! -- chamou -- A conta!

 

***

 

Patrícia parou o carro em frente ao apartamento de Sabrina.

 

--Esse carro é seu? -- a escaladora perguntou subitamente

 

--É da Priscila. Ela empresta quando a gente pede.

 

--Quando eu voltar da Guiné vou comprar um carro. Cansei de depender de condução.

 

--Vai me convidar pra subir? -- Patrícia mudou de assunto e perguntou esperançosa

 

--Estou menstruada. Não dá. -- foi direta

 

--E só pode me convidar se for pra trans*r? Eu também sirvo pra conversar...

 

--Não... Eu já fui legal e te convidei pra jantar, não foi? -- sorriu -- É melhor que converse com aquelas mulheres que você ajuda na sua brincadeirinha de ‘futura advogada solidária’. -- fez aspas com os dedos

 

--Fala do projeto como se fosse uma bobagem. -- respondeu chateada -- Aquelas mulheres são pobres, não entendem de direito e não têm quem as esclareça. Quando vão em um fórum mal conseguem alguém que lhes dê cinco minutos de atenção!

 

--Calma, tá? Foi só uma piadinha infame, esquece! -- passou a mão nos cabelos e olhou para ela -- É que eu sou totalmente má samaritana. -- riu brevemente -- Ainda bem que na faculdade de turismo não tem isso. Viajar é pra quem pode pagar...

 

--E você tem estudado? Nunca te vi pegar em um livro sequer!

 

--Minha faculdade é a típica pagou passou. Eu não quero ter trabalho, só um diploma pra impressionar as pessoas que valorizam alguém por causa de um pedaço de papel. -- sorriu -- Meu negócio é escalar montanhas e eu quero estar em cada pico que chamar por mim. Por agora, são os sete cumes.

 

--Você só se importa com isso, não é? Às vezes acho que a única coisa que você ama são as montanhas.

 

--Talvez esteja certa! -- olhou para o rádio do carro -- Liga o rádio e volta pra casa se distraindo! -- ligou o som e abriu a porta -- Valeu pelo jantar! -- beijou-a rapidamente -- E dá bobeira aqui não, porque tem dado muito roubo de carro! -- advertiu e foi embora

 

https://www.youtube.com/watch?v=cSmZmfQh8po

“Você me vira a cabeça, Me tira do sério,

Destróis os planos que eu um dia eu fiz pra mim,

Me faz pensar porque a vida é assim...”

 

Patrícia ficou olhando a outra entrar no prédio e pensava na pessoa que ela se mostrava progressivamente. Sabrina era a mulher mais estranha que ela já havia conhecido. Era uma linda morena atlética, de 1,70m, e olhos verdes maravilhosos, mas seu coração era de pedra. Ela parecia quase não ter valores.

 

“Você não me quer de verdade,

No fundo eu sou,

Tua vaidade,

Eu vivo seguindo teus passos,

Eu sempre estou presa em teus laços,

É só você chamar, que eu vou...”

 

--Por que você foi se apaixonar justo por ela, hein, idiota? -- ligou o carro e foi embora

 

“Por que você não vai embora de vez?

Por que não me liberta dessa paixão?

Por que?...”

 

Patrícia chorava.

 

“Mas tem que me prender,

Tem que seduzir,

Só pra me deixar, louca por você,

Só pra ter alguém,

Que vive sempre a teu dispor,

Por um segundo de amor...”

Você me Vira a Cabeça - Alcione [a]

 

***

 

--Então quer dizer que Camille tá começando a tentar usar muletas?? Meu Deus, Mari, isso é um avanço absurdamente grande!! -- Mariano ria -- Estou tão feliz que nem sei o que dizer!!

 

--Nem eu! Quis te contar correndo! Hoje foi o primeiro dia de tentativas. Modestas, mas é melhor que nada! -- estava excitada -- Flávia saiu daqui animada! As mãos de Camille também se recuperam bem. Não estão cem por cento, mas quase lá

 

--A senhora Olga tem que saber disso, vou dizer a ela! -- riu -- Aliás, ela me disse que não tem conseguido falar com você. O que houve?

 

Mariângela pensou bem antes de falar mas decidiu ser franca. --Eu a estou evitando.

 

--Por que???

 

--A filha dela, a Seyyed, é lésbica e ela sabe. Não quero este tipo de gente na minha casa. E aquela moça aproveitou logo da situação para ir pegando Camille no colo. Sabe-se lá o que tem em mente. Juliana, a japonesa do hospital, também é lésbica. E tem até uma tal de Isa que é namorada de Seyyed. Juliana é ex... É a maior pouca vergonha aquilo lá!

 

--Mariângela, eu não acredito no que tô ouvindo. Aquele tipo de gente é o responsável por tudo o que acabou de me contar sobre Camille e por tudo de bom que aconteceu até agora!

 

--Mariano você, como todo homem, está pensando com a parte errada do corpo porque se interessa por Olga. Aquela mulher não é a santa que você imagina porque ela sabe da safadeza da filha e acoberta...

 

--Mariângela, respeito pela senhora Olga!! -- ralhou com ela -- Que acha que ela vai fazer, escorraçar a própria filha? Fingir que não sabe?? Além do mais, quem foi que nos trouxe Flávia? Quem nos ajudou no hospital quando Camille cortou os pulsos? Pois eu digo: a senhora Olga e Juliana! Além do mais Seyyed não carregou Camille no colo por maldade, mas pra que jantasse conosco!

 

--Ela também a carregou na luta de Flávia!

 

--A troco de nada? Fale a verdade!

 

--É... haviam alguns degraus no meio do nosso caminho... -- confessou sem graça

 

--Eu não vou deixar de ter amizade com a senhora Olga por conta de seus preconceitos. Se não quer mais ser amiga delas é problema seu, não meu.

 

--Mariano você se passou todo pro lado daquela gente!

 

--Sabe, Mari? Não me admira que Camille seja tão dura e preconceituosa com sua própria condição. Ela aprendeu com você o exemplo da intolerância com o que é diferente!

 

--Mariano, Seyyed é lésbica, sapatão, machona, em quantas línguas eu tenho que falar?

 

--E o que temos com isso? Ela dorme com a gente?

 

--Eu não sabia que você era tão liberal assim! -- disse com sarcasmo

 

--E nem eu sabia que você era tão retrógrada. -- suspirou -- Tudo bem, Mari. Estou feliz com as novidades, torço pra que Camille se recupere e repito: minha amizade com a senhora Olga continua. Você reclama que sua filha é ingrata, pois vejo que ela aprendeu com você! Passar bem! -- desligou o telefone

 

--E mais essa? -- reclamou -- Mariano fica contra mim e a favor da safadeza!

 

***

 

Desde que as mãos começaram a melhorar Camille começou a usar a internet para pesquisar sobre deficientes físicos e prática de esportes. Flávia vinha tentando convencê-la a praticar algum esporte para tornar-se mais independente e sociável. Tentava também convencê-la a voltar a estudar, destrancar a matrícula na USP e pedir transferência para a UFRJ. Às vezes Camille se empolgava com tais possibilidades e depois voltava atrás. Ainda se sentia muito inferiorizada e humilhada por sua situação.

 

Um dia, pesquisando sobre próteses ortopédicas, aborreceu-se com a lentidão do computador e pensou em quebrar a máquina em pedaços. Lembrou-se de que Flávia dizia que ela deveria aprender a exercitar a paciência e que sempre costumava a dizer que tudo muda e tudo passa; não havia porque se consumir com o imediato. Viajando em seus pensamentos, sem razão específica, lançou na busca do Google exatamente a frase “tudo muda, tudo passa” e o primeiro resultado foi a localização de uma história que chamavam de fanfic. Ficou curiosa e decidiu ver o que seria.

 

“Hum... história de lésbicas!” -- pensou -- “E ainda com base em personagens de seriado de TV, que coisa ridícula!” -- revirou os olhos

 

Pensou em sair daquele site mas deixou-se vencer pela curiosidade e começou a leitura. “Saudade é solidão acompanhada. É quando o amor não foi embora, mas o amado já.” -- leu --Gosto de Neruda... -- disse para si mesma

 

***

 

Isabela começava um projeto de dar aulas de balé para adultos. Sua turma se iniciava com 14 alunas.

 

--Bom dia a todas! -- sorriu -- Meu nome é Isabela Guedes, mas vocês podem me chamar de Isa. Sou formada em balé aqui pela Escola Estadual de Dança do Theatro Municipal e passei uma temporada de um ano dançando com o corpo de balé da Academia Giffé em Paris. -- pausou -- A primeira coisa que eu queria esclarecer pra todas vocês é que acreditar que somente crianças podem fazer aulas de balé é um mito! A criança tem o corpo mais elástico e um rápido aprendizado, mas não possui a maturidade de um adulto. -- olhou para todas as alunas -- Nosso objetivo aqui não é formar profissionais e sim apresentar a vocês uma forma saudável de lidar com o estresse do dia a dia, de conhecer o próprio corpo e buscar o equilíbrio no meio dessa loucura que nos cerca. Para se profissionalizar a pessoa deve começar a dançar por volta dos seis anos e praticar continuamente a vida inteira. No nosso caso aqui, tudo deve ser encarado como um hobby. Um hobby cativante que trará benefícios pra mente e pro corpo.

 

--O que a gente pode esperar, professora? -- uma das alunas perguntou -- Eu digo em relação as melhoras para o corpo? Minhas celulites vão sumir? -- perguntou esperançosa

 

Isa riu brevemente. -- Celulites são uma praga complicada de eliminar, mas eu te diria que vocês notarão ao longo do tempo um fortalecimento nos músculos, sem encurtamento, uma melhora no alongamento e na postura, um incremento na capacidade de memorização e concentração além de um maior desenvolvimento da coordenação motora, do equilíbrio e da consciência corporal.

 

--Pra mim já é lucro! -- uma senhora de 60 anos respondeu -- E dos grandes!

 

--Agora, deixem-me saber de vocês. Quem são e o que esperam. Vamos começar por você! -- apontou para uma jovem

 

--Bem... -- sorriu encabulada -- meu nome é Anita, tenho 32 anos, sou veterinária e estou aqui pra buscar uma fuga. -- pausou -- Minha mãe morreu há um mês e eu quero algo pra me fazer esquecer disso e ter um pouco de paz. Estou tendo muita dificuldade em lidar com a perda dela.

 

--Eu acho que você vai se sentir melhor, sim. -- a ruiva respondeu -- Seja muito bem vinda! -- sorriu

 

--Meu nome é Joana, tenho 60 anos, sou dona de casa e quero satisfazer um sonho de menina! Adoro a dança, o teatro, a leveza da bailarina... passei a vida toda trabalhando, cuidando dos outros, sempre cheia de obrigações com os pais, com marido, filhos, netos... agora quero correr atrás dos meus sonhos, e a dança é o primeiro item da minha lista de ‘coisas a fazer antes de morrer’. -- riu

 

--Que bom poder participar disso com você! -- a bailarina respondeu feliz -- Muito bom tê-la aqui!

 

--Oi gente, meu nome é Vanessa! -- acenou para todas -- Estou aqui porque tô amando! -- sorriu. As outras deram um gritinho -- Tenho 48 anos, sou esteticista, separada, mãe de duas filhas lindas e há poucos meses conheci o amor da minha vida! Ele está me fazendo muito bem e me incentivou a correr atrás de tudo que eu sempre quis e deixava esperando. Eu sempre quis aprender balé e sempre adiava isso. Meu ex achava uma palhaçada minha, mas Andrei pensa que tudo vale a pena se não faz mal a você ou aos outros! E aqui estou eu! -- abriu os braços

 

--Gente, mas que homem é esse? Onde você comprou, minha filha? Eu quero um do tipo! -- uma das alunas perguntou animada

 

--Sabe quando você encontra aquela pessoa que te dá valor, te trata como uma deusa, se importa contigo e te incentiva a concretizar seus sonhos? Aquela pessoa que te olha com carinho, respeito, desejo e amor? -- Vanessa continuava

 

--Sei... -- Isa respondeu pensativa

 

--Quisera eu! -- Anita pensou em voz alta -- E quando se encontra alguém assim você tem que agarrar com todas as forças!

 

--Às vezes a gente deixa passar... -- a ruiva respondeu pensativa -- Vamos à próxima! -- queria encerrar aquele assunto -- Você, pode se apresentar! -- apontou para outra mulher

 

***

 

Seyyed estava na academia. Havia acabado de fazer um exercício e deixou os pesos baterem com força. O professor olhou espantando e ela pediu desculpas. Foi para o bebedouro e bebeu muita água. Renan se aproximou. -- Que há com você? -- perguntou preocupado

 

--Nada. -- respondeu secamente -- Deixa eu voltar a malhar.

 

--Ed! -- segurou no braço dela -- Se abre comigo, vai? Você anda estranha, o que houve? Precisa de ajuda? -- largou-lhe o braço

 

A morena ficou olhando para o rapaz. Renan era um jovem negro, pouco mais baixo do que ela, cabeça raspada e feições delicadas. Seu olhar era sempre firme e ao mesmo tempo meigo.

 

Ela respirou profundamente e respondeu: -- Eu sou uma babaca, é só isso!

 

--Por que?! -- não entendeu

 

--Eu tô amarradona na Isa mas ela não tá nem aí! -- pausou -- Sabe quando você conhece alguém que te deixa presa logo no começo?

 

--Você fica assim com todas as suas namoradas... -- sorriu

 

--Com ela é diferente... é mais forte, mais intenso... -- pôs as mãos na cintura -- Eu me envolvi muito logo de cara... e ela não! Terminei tudo e... sinto uma falta danada dela!

 

--Ed... -- cruzou os braços e se encostou na parede -- Isa é muito nova, muito patricinha, ela não tem nada a ver contigo!

 

--Tatiana é praticamente da idade dela! -- retrucou

 

--Mas a Tati é diferente dela e da tal da Priscila! Tati é mais madura, mais politizada, mais simples... Ela tem outros valores, outras expectativas... -- argumentou -- Foi melhor assim! Mais tarde poderia te machucar ainda mais, você não acha?

 

--É... -- coçou a cabeça -- Deixa eu voltar a malhar... -- foi para perto de um equipamento

 

Renan ficou olhando para ela preocupado e depois voltou com sua ginástica.

 

***

 

Seyyed voltava da academia e encontrou com Isa parada na porta de sua casa. O coração disparou. A bailarina vestia uma blusa comprida de gola bem larga, mostrando um pouco de um dos ombros, calça bem justa e botas. Estava maquiada e linda como sempre.

 

--Oi, Isa... -- cumprimentou desconfiada

 

--Oi, Ed! -- sorriu

 

--Está aí há muito tempo? -- parou perto dela

 

--Uns quinze minutos. Vim em um dia ruim? -- olhava fixamente para a morena

 

--Não... -- desviou o olhar -- Eu... nem te cumprimentei direito porque tô toda suada, nojenta...

 

--Eu não me importo com isso. -- beijou-lhe no rosto, bem perto da boca

 

--Ah... -- ficou sem graça -- Deixa eu abrir a porta! -- abriu -- Entra, por favor! -- pediu

 

As duas entraram e a bailarina colocou a bolsa em cima da poltrona. -- Comecei hoje com minha aula pra adultos. Foi bem legal! Tenho 14 alunas e elas estão super motivadas! -- pausou -- Você tinha razão, a dança pode fazer a diferença na vida de muita gente... -- sorriu

 

--Você pode fazer a diferença! A dança é uma de suas ferramentas. -- pausou -- Fico feliz que esteja animada com esse projeto! -- não sabia onde colocar as mãos

 

--Foi você quem me incentivou a começá-lo... -- sorriu e pausou -- Tenho pensado em você... na gente... -- caminhou sedutoramente na direção dela e ficou parada bem perto da morena -- Estou com saudades... -- fez um olhar insinuante

 

--Saudades eu também tenho... -- afastou-se um pouco -- Mas foi melhor assim... Você tem que arrumar alguém mais dentro das suas expectativas.

 

--Eu nunca esperei por nada, Ed. -- aproximou-se dela novamente -- E quando você chegou na minha vida eu não estava preparada pra alguém assim... -- olhou bem nos olhos da mecânica

 

--Assim como? -- sentia-se hipnotizada

 

--Interessante... -- deslizou as mãos pelos braços da outra -- sensível, inteligente... -- segurou seu rosto -- carinhosa, amorosa, intensa... -- deixou as mãos deslizarem do pescoço da morena até a cintura dela -- quente, sensual... -- envolveu seu pescoço com os braços -- a melhor amante que eu poderia ter... -- caprichou no tom de voz e no olhar mais sexy que poderia lançar

 

--Isa, não faz isso... -- pediu enquanto olhava alternadamente para a boca e os olhos da ruiva. Estava ficando excitada

 

--Isso o que? Hum? -- aproximou-se ainda mais e sussurrou no ouvido da mulher mais velha -- Eu estou morrendo de vontade de... -- mordeu sua orelha

 

--Pára com isso! -- afastou-se dela -- Olha, não venha me seduzir porque eu não quero entrar nesse jogo. -- tentava se recompor -- Eu não quero ir pra cama com você e voltar pra mesma situação. Relacionamento pra mim é uma coisa séria! -- estava nervosa -- É melhor você ir embora...

 

--Quer que eu vá embora? -- perguntou insinuante -- Tudo bem, eu vou! -- foi até ela e beijou-a bem perto dos lábios -- Mas adoraria passar a noite inteira fazendo amor com você... -- sussurrou

 

Ed não se conteve e agarrou a ruiva beijando-a com paixão. Começou a despi-la com ansiedade.

 

--Isso, vem, vem, meu amor, vem... -- Isa pedia de olhos fechados enquanto Ed beijava seu pescoço com fúria -- Eu quero você, vem... Ah, ah...

 

A mecânica jogou a ruiva na poltrona e começou a tirar seus sapatos e calças. A bailarina tirou o próprio top e ficou completamente nua. Totalmente excitada Seyyed tirou as próprias roupas e deitou-se sobre a amante.

 

--Ah, ah, ah... -- sorria -- Isso, vem, ah...

 

***

 

Estavam deitadas na cama e abraçadas. Ed de barriga para cima e Isa com a cabeça em seu ombro. Acariciavam-se mutuamente.

 

--Eu pensei que fosse morrer de prazer naquele chuveiro... -- a bailarina afirmou sorrindo -- Você é o máximo...

 

--Você me deixa louca e sabe se aproveitar disso! Mal tive tempo de pensar em qualquer coisa...

 

--E no que está pensando agora? -- apoiou a cabeça com a mão e ficou olhando para a amante -- Me conta? -- deslizou o dedo na sobrancelha da outra

 

--Que eu tô ferrada com você... -- olhou para a ruiva -- Eu não vou mentir e nem fazer tipos. Não faço isso e nunca fui de jogar... -- pausou -- Estou apaixonada por você... -- disse com seriedade

 

--Já pensou que... de repente... -- brincava com o cordão da mecânica -- eu também posso estar me envolvendo com você? Mesmo com todas as minhas barreiras?

 

--O que você quer de mim, garota? -- perguntou querendo uma resposta sincera -- Seu negócio comigo é só o sex*, porque é bom?

 

Isa deitou-se sobre ela. -- E se for maior do que isso? -- mordeu-lhe o lábio inferior -- Talvez eu esteja disposta a algo mais...

 

Seyyed rapidamente mudou as posições e ficou deitada sobre a garota. Segurou-lhe pelos pulsos acima da cabeça. -- Fala o que você quer de mim? -- perguntou com voz rouca

 

--Hum... -- sorriu e enroscou as pernas ao redor da cintura dela -- Tudo que quiser... -- respondeu sensualmente

 

A mecânica soltou seus braços e começou a beijar seu pescoço enquanto deslizava as mãos por seu corpo. -- Eu quero você... -- sussurrou no ouvido da ruiva -- eu quero você... na cama e fora dela...

 

--Hum, meu amor... -- fechou os olhos e começou a arranhar as costas da amante -- eu quero tudo que você quiser... -- sorriu sentindo muito prazer com as mãos e lábios da morena tomando seu corpo inteiro

 

 

12:50h. 04 de outubro de 2000, Cinelândia, Rio de Janeiro

 

Juliana caminhava em direção ao restaurante Vulcão das Massas, próximo ao Theatro Municipal. Era sua folga e ela havia ido ao Centro da cidade comprar algumas coisas, dentre elas, um colchão casca de ovo para ajudar a curar as escaras de uma senhora que inspirava cuidados no hospital.

 

Aproximando-se do restaurante percebeu que algumas moças deixavam o Theatro e pôde reconhecer Isa no meio delas, graças aos cabelos ruivos.

 

“Hum, que interessante... Vamos cumprimentar a moça!” -- pensou e sorriu com deboche

 

Isabela conversava com algumas colegas e nem notou quem se aproximava.

 

--Oi, meu bem! -- cumprimentou se fingindo amistosa -- Que mundo pequeno, não? Te reconheci de longe...

 

A ruiva revirou os olhos e respondeu calmamente: -- Ah é, mundo pequeno...

 

As outras bailarinas se despediram e partiram. Juliana as acompanhou com o olhar.

 

--Bailarina tem que ser esquelética assim mesmo? Vocês assinam algum tipo de contrato garantindo que não vão ter corpo de mulher, só estas formas assexuadas? -- sorriu

 

--Mais alguma coisa, Juliana? -- perguntou ironicamente -- Não tenho tempo pra esse tipo de conversa.

 

--Esperando por Ed? Ela vem te buscar? -- olhou para os lados -- Aposto que está prestes a ir atrás dela na oficina!

 

--Não! Minha vida não gira ao redor dela.

 

--Fica esperta, viu? Aproveite o quanto pode. É só uma questão de tempo.

 

--O que é uma questão de tempo? -- cruzou os braços

 

--Ela te deixar... Ed nunca foi de gostar de menininhas e me admiro que ainda esteja contigo. -- olhou a outra de cima abaixo -- Às vezes me pergunto... magra e fraca desse jeito, você agüenta quando ela deita em cima e te come? -- riu

 

Isa respirou fundo antes de responder: -- Você não se cansa de ser ridícula, não? -- perguntou seriamente -- Olhe pra você: sempre inconveniente, sempre fazendo papel de idiota por causa de uma mulher que não te quer mais... Será que não nota que quando você chega todo mundo perde a graça já esperando qual será sua próxima pagação de mico? Você me desqualifica a todo momento, mas não nota que se desvaloriza ainda mais com estas atitudes. -- riu -- Ed é importante na minha vida mas ela não é a minha vida. Se quiser me deixar por outra eu não vou me tornar uma mulher amarga e desagradável como você se tornou. Por quanto tempo vai ainda continuar nessa? -- viu que a mãe se aproximava de carro -- Tomara que um dia você crie um mínimo de vergonha na cara. E não me interessa se me acha feia, seca, sem graça ou o que for! Tem gente que adora. -- deu as costas e caminhou até o carro. Segundos depois parou, virou-se para a japonesa e disse: -- E, à propósito, quando ela fica sobre mim e me come eu quase não agüento mesmo... só que de prazer. -- sorriu -- Passar bem!

 

Juliana ficou enfurecida com o que acabava de ouvir, jogou suas bolsas no chão e correu até o carro. Isa havia entrado mas a japonesa impediu que fechasse a porte segurando na maçaneta.

 

--Sua piranha, vagabunda, puta desgraçada! -- berrava

 

--Mas o que é isso? Quem é essa louca?? -- Ana, mãe de Isa, perguntou apavorada

 

A ruiva ficou vermelha e prendeu a respiração.

 

--Esse esqueleto de piranha aí tá dando pra minha mulher! -- bateu no peito -- Sabia que essa aí é uma vagabunda da pior espécie, hein? -- olhou para a bailarina -- Pois eu te digo, putinha, ela vai te comer até encher o saco e te jogar fora. E vai voltar pra mim, você vai ver. E eu vou rir da tua cara esnobe! -- falava aos berros

 

Isabela empurrou a porta com muita força e conseguiu fechá-la. Juliana ficou do lado de fora xingando palavrão. Ana estava em choque e parecia que havia desaprendido a dirigir.

 

--Mãe vamos sair daqui! -- pediu desconfortável

 

--Eu quero entender isso! -- respondeu contrariada

 

--É... a gente precisa conversar... -- fechou os olhos e encostou a cabeça no recosto do assento.

 

***

 

Isabela e a mãe almoçavam em um restaurante do shopping de Botafogo.

 

--Então... você é... lésbica? -- Ana disse a palavra com dificuldade -- Desde quando?

 

--Desde sempre... só não tinha coragem de viver isso.

 

--Meu Deus... -- fechou os olhos, respirou fundo e olhou para a filha depois de alguns segundos -- Onde foi que errei com você? Fui muito ausente? Ou foi o seu pai? Não pode ser...

 

--Eu sou o que sou, mãe. Não é culpa de ninguém... -- respondeu calmamente

 

--Mas... deve haver algum engano... Você é tão delicada, bonitinha... faz balé, usa vestido, se pinta, não cospe no chão, não arrota na mesa, não se senta arreganhada...

 

Isa teve que rir. -- Mãe, por favor... Acha que uma lésbica tem que ser uma ogra? Eu sou mulher, sou delicada, sou feminina mas gosto de mulher, é isso!

 

--Mas por que??

 

--Tenho lido sobre isso, os livros que Ed me empresta, mas não creio que as explicações kardecistas lhe interessem agora. -- pausou -- Só queria que me aceitasse, da mesma forma como a mãe dela a aceita.

 

--Humpf! -- fez um bico -- E essa tal de Ed era cacho daquela japonesa doida que fez escândalo com a gente?

 

--Elas eram casadas mas já estavam separadas quando nos conhecemos.

 

--Meu Deus, isso não pode estar acontecendo... -- passou as mãos pelo rosto -- E eu que nunca nem te deixei brincar de carrinho! Te criei com tudo rosa, dei boneca, ensinei a brincar de casinha, meu Pai... -- balançou a cabeça desgostosa -- Você usou vestidinho de renda... Você foi a menina flor da quarta série...

 

--Não são estas bobagens que definem a orientação sexual de alguém. Gênero é uma construção social que varia no tempo e no espaço. A sexualidade é algo bem além disso, e não necessariamente se afina ao sex* biológico. Está tudo na mente, na psique do indivíduo, no que traz consigo de outras vivências passadas.

 

--Isa, pare de filosofar... -- reclamou -- E qual é o nome dessa sua... namorada? -- teve dificuldade em dizer isso -- Ela não pode se chamar Ed.

 

--Seyyed Khazni.

 

--É estrangeira?

 

--Não, mas o pai era libanês.

 

--Meu Deus! Então ela... é terrorista, mulher bomba, xiita, essas coisas?

 

--Mãe, por favor, tá parecendo uma mulher desinformada. Ela é uma pessoa normal e muito bacana se quer saber.

 

--É sapatona típica? Coça o saco, tem sovaco cabeludo e coisas assim? -- pausou brevemente -- Isa, pelo amor de Deus, ela tem cabelo no peito??? -- perguntou apavorada

 

A ruiva riu de novo. Sua mãe perguntava cada coisa...

 

--Ela é uma mulher bonita, charmosa, feminina; apenas não gosta de se maquiar e não tem hábito de andar de vestido, salto alto... Mas se precisar ela usa e tira de letra.

 

--Ela te seduziu não foi? Te desencaminhou, não é? Você fica indo nesses inferninhos com Priscila e aí conhece essas sapatonas aproveitadoras! Quantos anos ela tem? Aposto que é mais velha que eu.

 

--Não, ela tem trinta e um. E não me seduziu ou corrompeu. Eu fiquei com ela porque a achei incrivelmente interessante! -- sorriu -- Ela é culta, inteligente, tem boa conversa, é divertida... E uma pessoa muito humana, muito bacana.

 

--Fuma charuto ou cachimbo?? Masca rapé???

 

--Ela fuma é nada! -- respondeu rindo -- E não masca nem chiclete. Ai, meu Pai, que perguntas são essas? -- riu

 

--E trabalha?

 

--Claro! Ela é mecânica de automóveis e tem uma oficina. Sabe até restaurar carros antigos! -- disse orgulhosa -- Sabia que ela tem um projeto de integração social que emprega jovens com Síndrome de Down na oficina?

 

--Imagino a figura que não deve ser esta mulher... E imagino como devem ser os concertos que ela faz... empregando retardado! Isso deve ser pra pagar salário baixo!

 

Isa balançou a cabeça abismada com o que ouviu. -- Eu fiquei surpresa quando soube dos jovens especiais mas eles são espertos. A oficina dela é muito bem freqüentada e ela tem clientes a beça. Tem gente que sai de Niterói, Caxias, Nilópolis, Cabo Frio só para que ela dê um jeito no carro. E tem que ver que oficina! É grande, cheia de recursos... Ocupa o espaço de umas quatro ou cinco casas grandes.

 

--Você freqüenta a oficina dela???? -- perguntou chocada -- Não acredito que anda nesses ambientes!!

 

--Ih, mãe a oficina é diferente de tudo que você já viu! É limpa, organizada, não tem retrato de mulher nua nas paredes, os funcionários têm boa apresentação... É bem legal. -- pausou -- E o segundo andar de lá é a casa dela.

 

Ana abriu a boca mas não emitiu som. Bebeu um gole do refrigerante, deu umas garfadas e teve coragem de perguntar: -- Faz sex* com ela?

 

Isa corou, respirou fundo e respondeu: -- Sim.

 

--Há quanto tempo?

 

--Pouco tempo.

 

Ana franziu o cenho: -- E gosta disso? Não se sente fazendo uma coisa... ora, sex* entre mulheres é brincadeira. Cadê o... negócio?

 

--Sexo é muito mais que uma penetração com p*nis, mãe. E posso lhe dizer: é muito bom, eu gosto, me satisfaz... Meu ex namorado não chegava nem perto do que sinto com ela...

 

--Você trans*va com Alex??

 

--Mãe, por favor, não acredito que nunca tenha desconfiado... -- balançou a cabeça sorrindo

 

--Mas... há algo mais sobre você que eu não saiba, Isa?? Você fuma maconha, cheira cocaína, é assaltante, se prostitui ou qualquer coisa do gênero??

 

--Mãe, que perguntas são essas??? -- respondeu chocada -- Acha que porque sou lésbica tenho que ser uma pessoa descompensada? Eu hein! -- calou-se contrariada

 

Ana silenciou e depois de uns segundos disse: -- Eu não vou falar sobre isso com seu pai, não agora. Será que podia ser discreta? -- olhou para ela -- Você anda fazendo alarde disso por aí?

 

--Não, eu apenas vivo a minha vida.

 

--Essa mulher... essa oficina dela aí dá dinheiro? Ela não é uma dessas endividadas que vendem o almoço pra comprar a janta?

 

--Ed? -- a ruiva riu -- Definitivamente, embora não seja ricaça, Ed não tem problema de falta de dinheiro... Do contrário...

 

--Ela te dá presentes? -- perguntou interessada

 

--Dá. Só não dá mais porque não deixo. -- pausou -- E o que tem a ver isso?

 

--E onde ela mora afinal?

 

--No Meyer.

 

--Tinha que ser no subúrbio! -- revirou os olhos

 

--E mora bem melhor que a gente. Nosso apartamento é pequeno e a casa dela é enorme. Nenhum de nossos parentes e amigos mora tão bem quanto Ed, embora estejam todos aqui na zona sul! A mãe dela mora no Jardim Guanabara, na Ilha, em um baita apartamento.

 

--Você já foi lá?

 

--Umas três vezes.

 

--E se dá bem com a velha?

 

--Velha? -- riu -- Ela não é velha, tem 50 anos. E é um doce. Consegue se dar bem até com a maluca da Juliana.

 

--E quem é essa??

 

--A japonesa, mãe. A de hoje.

 

--Ah... é que tem tanta mulher que eu me perco... -- respirou fundo -- Anselmo viaja hoje e volta no domingo, por isso estou com o carro dele e pude vir te buscar no Theatro. Quero conhecer essa tal de Ed, e você vai levá-la na nossa casa aproveitando a ausência de seu pai.

 

--Tudo bem. Já era hora. -- pausou -- Mas por favor, seja educada com ela porque dona Olga sempre me tratou muito bem.

 

--E essa é quem? -- perguntou impaciente

 

--A mãe dela.

 

--Hum... -- calou-se, pensou em algo e depois perguntou à queima roupa: -- Isa, você não dormia com Priscila, não é? Ela é sapatona também ou ainda é aspirante?

 

--Ai, mãe, pelo amor de Deus! -- Isa colocou as mãos na cintura

 

***

 

--Você precisa ter mais confiança, mulher! Força na peruca! -- Flávia dizia para Camille

 

--É fácil dizer, mas minhas mãos ainda doem e é difícil se equilibrar. -- tentou dar mais um passo -- Que merd*!

 

--Olha a boca, menina! Palavrão é coisa feia, ai, ai, ai! -- riu -- Mas você está indo até bem. Em pouco tempo vai deixar de ser Zé Ruela. -- riu de novo

 

--Muito engraçado! -- reclamou -- Quero me sentar...

 

Flávia pegou a cadeira e colocou para que a loura se sentasse.

 

--Nós deveríamos ir pra rua andar. Quintal de casa, por maior que seja, não é muito legal.

 

--Nada de rua! Não quero ver o pessoal rindo de mim. -- Camille secava o suor do rosto com as mãos

 

--Deixe de ser besta, mulher. Se viver com medo do que outros vão pensar, não vai viver. -- pausou -- Aliás, você não vive...

 

Camille ficou calada.

 

--Ei, por que não saiu com aquele gato moreno que estava te dando o maior mole no dia da minha luta? -- piscou -- Podia ter curtido, hein? -- piscou de novo

 

--Eu hein! -- Camille protestou -- Aquilo ali é homem vadio, não quero nada com esses tipos.

 

--Pois são os melhores quando a gente precisa levantar o astral. -- deu um tapa de leve na cabeça de Camille -- E você já deve até ter virado virgem de novo! -- riu -- Não era pra casar, bobinha, era só pra curtir, sair, se sentir bem de novo...

 

--Me deixe em paz, Flávia. Você tem o seu namorado então deixe a vida sexual dos outros em paz.

 

--E meu namorado gosta bem de fazer um canguru perneta comigo. -- riu

 

--Figura... -- acabou rindo também. Voltaram a tentar com as muletas.

 

--Flávia... -- Camille pensou antes de dizer -- você falou que não tinha nada de diferente naquela Ed e no entanto ela é a maior sapata!

Flávia encarou com ela. -- E qual o problema?

 

--Você devia ter nos dito pra gente não se misturar. Não gostamos desse pessoal alternativo. -- seu tom era irônico -- Ed, Juliana... tudo sapata braba!

 

Flávia parou.

 

--Tem noção de que estaria aleijada das mãos se não fosse por Juliana? -- respondeu com seriedade. Camille chegou a se arrepender do que disse.

 

--Você ficou mordida porque elas são suas amigas... -- disse constrangida

 

--Não pode desqualificar uma pessoa por causa da opção sexual dela!

 

--Chega, Flávia, esquece! Não está mais aqui quem falou... -- respondeu com raiva

 

Voltaram a andar. Minutos depois Flávia pergunta: -- Antes do acidente você já era assim? Tão dura, tão crítica?

 

--Antes que eu me esqueça, vai tomar no rabo, vai? -- respondeu mal humorada

 

--Você vive dentro de uma casca, pequena rebelde... -- Flávia olhou-a com certa tristeza -- Ninguém consegue entrar aí. Talvez sua súbita implicância com Ed deva-se ao fato de que talvez ela conseguisse... Sua mãe me contou, surpresa e feliz, que ela te levou no colo pra jantar e você aceitou que o fizesse. -- suspirou -- Eu também tento romper essa tua barreira, mas é barra, viu? E me dói ver tanta vida desperdiçada!

 

Após longo silêncio Camille resolveu falar um pouco. -- Eu... acho que... eu não sabia quem realmente era... Ainda não sei... -- respirou fundo -- Ainda mais nessa situação em que estou... Eu não sei o que esperar do dia de amanhã. -- pausou -- Acho que sempre fui dura; talvez tenha ficado ainda pior. Eu sempre... sempre fiz as coisas seguindo o fluxo. Aquilo que em economia se chama de ‘efeito boiada’. -- pausou -- Nessa situação de hoje, nem o fluxo eu sigo mais.

 

--Segundo Clarice Lispector, “o mais importante da vida não é a situação em que estamos, mas a direção para a qual nos movemos”. -- Camille olhou para ela -- Você não está sozinha, maluquete! Mova-se que a gente vai junto. Se cair, vai todo mundo pro mesmo buraco. E se não cair, é só alegria... -- pausou -- E aí de repente você fica descolada e maneira que nem eu! -- riu

 

--Eu sabia que essa seriedade não ia durar por muito tempo... -- revirou os olhos

 

Após segundos de silêncio, Flávia disse: -- Não fique falando tanta coisa, Camille. Você não sabe do dia de amanhã. Pode ter uma filha ou outra parenta homossexual. -- pausou -- Você mesma pode vir a se apaixonar por uma mulher um dia.

 

Camille envergonhou-se e corou como se fosse uma criança surpreendida fazendo coisa errada. --Eu hein, Deus me livre!! Você me vem com cada uma... -- respondeu constrangida

 

***

 

Ed estava nervosa andando de um lado a outro. --Olha eu de novo, mãe. -- abriu os braços -- Estou bem?

 

Vestia uma bela calça preta de linho, uma blusa frente única estampada com pequenas flores azuis e usava sapatos de salto alto muito elegantes. Cabelos soltos, argolas, unhas pintadas, estava muito bonita.

 

--Está ótima, não tem do que se preocupar no que diz respeito a aparência. -- beijou-lhe o rosto -- Quanto ao resto, não se preocupe também. Vá orando no caminho para a mãe de Isa lhe receber bem. -- sorriu

 

--Eu vou é orar muito pra Deus e tudo que é espírito bom amansar essa mulher... -- esfregou as mãos -- É sempre tão angustiante essa parte de conhecer mãe de namorada... pelo menos quando se é lésbica...

 

--Fique tranqüila. Pelo que Isa lhe disse, apesar de ter perguntado cada coisa do arco da velha, a reação da mãe dela não foi tão ruim.

 

--É... -- riu -- Eu achei graça na hora que ela perguntou se eu coçava o saco... -- riu de novo -- Fala sério!

 

--As pessoas têm muitos estereótipos na cabeça e acham que todos têm que se comportar exatamente de acordo com eles. Qualquer desvio de conduta é motivo de pânico. Um dia desses ouvi uma moça dizendo uma frase muito interessante: “reagimos a tudo o que possa envenenar a ordem com a suspeita do caos”14.

 

--Pois é... -- olhou o relógio -- Daqui a quinze minutos vou embora. -- pensou em uma coisa e perguntou: -- Mãe, e aquele pessoal do ‘senhor Mariano’? -- sorriu

 

--Lá vem você me encarnar de novo... -- revirou os olhos

 

--Não, eu falo sério.

 

--Nunca mais consegui falar com Mariângela. O senhor Mariano é que me disse que a sobrinha está cada vez melhor das mãos e finalmente aceitou tentar aprender a usar muletas.

 

--Que bom! -- sorriu -- Mas elas sumiram?

 

--Sim.

 

De repente ouve-se um barulho de torpedo. -- Mãe, é o seu celular. Recebeu torpedo.

 

Correu até o aparelho. -- Ah, é o senhor Mariano contando novidades.

 

--Como é?? -- Ed colocou as mãos na cintura -- E a senhora e ele vivem de conversa por torpedo??

 

--É mais barato que conversar por telefone. Às vezes usamos o MSN também.

 

--Mas agora veja... -- riu -- Quem diria, mamãe no MSN!! -- riu divertida -- Ai, mas esse namoro vai dar em casório, viu?

 

Olga arremessou uma almofada contra a filha, que correu para escapar.

 

--Vai embora pra casa da sua namorada! -- riu -- Safada!

***

 

Ana, Isa e Ed estavam sentadas tomando chá com bolo. Já haviam conversado sobre o balé na vida de Isa. Ana contou algumas histórias da infância da filha e Ed falou um pouco dos pais. Tudo parecia estar indo bem.

 

--Esse bolo de cenoura da senhora é ótimo! -- elogiou com sinceridade

 

--Obrigada! -- agradeceu e silenciou por uns instantes -- Você sabe que Isa é moça de família, não é... Ed?

 

--Claro.

 

--Não é moça de ficar de safadeza por aí!

 

--Mãe... -- fez cara feia

 

--Eu sei. -- respondeu e depois pensou -- “Onde será que ela quer chegar com essa conversa?”

 

--O que pensava quando se aproximou dela? Sabe que ainda é muito jovem...

 

--Nós nos conhecemos em uma danceteria e eu a achei muito bonita e interessante. Conversamos bastante e me pareceu uma moça cabeça feita, madura... Quis conhecê-la melhor, ficamos namorando e aqui estamos. -- pausou -- Ela é jovem mas sabe o que quer.

 

--O que eu sei é que, como mãe, devo zelar por ela.

 

--Certamente.

 

--Mamãe, pare falar de mim como se eu não estivesse aqui, por favor? -- pediu contrariada

 

Ana olhou para Isa sem dar resposta e continuou: -- Diga... minha filha falou que você é dona de uma oficina mecânica, não é isso?

 

--Sim. E já são nove anos.

 

--Você tinha vinte e dois quando começou? -- perguntou surpresa

 

--Sim. Mas era um espaço bem menor... O crescimento foi um processo gradual.

 

--Isa disse que você fatura bem.

 

--Mamãe! -- ralhou envergonhada

 

A morena riu. -- Bem, não posso reclamar.

 

--Você tem muitos clientes?

 

--Graças a Deus, sim.

 

--Algum famoso? -- perguntou curiosa. Isa cobriu o rosto com uma das mãos

 

--Sim. Alguns artistas, mas não muitos. A maioria dos meus clientes são pessoas que a grande imprensa não conhece.

 

--Isa disse que você conserta carros antigos. Isso dá dinheiro a beça.

 

--Ai... -- Isa suspirou e pensou: “Que vergonha...”

 

--Como disse, não posso reclamar. -- cruzou as pernas

 

--Veja, não pergunto essas coisas por fofoca, mas se namora com minha filha tenho que saber a vida que vai proporcionar a ela. -- bebeu um gole de chá -- Eu perguntaria o mesmo para um namorado homem.

 

--Mãe, pelo amor de Deus... -- Isa estava mais vermelha que um pimentão -- E como assim, vida que vai me proporcionar?

 

--Quando vocês casarem, ora!

 

Ed quase se engasgou com o chá. -- Dona Ana, eu... nós ainda não conversamos sobre isso. Até casar temos que nos conhecer um pouco melhor...

 

--Eu não estou pensando em me casar por agora. -- Isa respondeu resoluta -- E não foi você que me disse pra ser discreta, como fala em casamento?

 

--Ah, mas eu penso no futuro... Futuro...

 

--Então vamos deixar o futuro esperando um pouco. -- a ruiva rebateu

 

--Olha, dona Ana, eu não estou me aproveitando dela, se é o que pensa. Pode ficar tranqüila porque estamos namorando numa boa.

 

--Ai, não me chame de dona! -- pediu afetadamente -- E escute bem... Ed. -- bebeu outro gole de chá -- Eu não vou dizer pra Anselmo. Também não vou me meter nesse relacionamento porque vejo que, menos mal, Isa escolheu alguém que pode lhe dar um bom futuro. E você não é aquele tipo de sapatona brocoió que eu vejo por aí. Tem umas que parece que vem escrito na testa: PERIGO, SAPATÃO!

 

--Pelo amor de Deus, mãe, não me mata de vergonha... -- Isa cobriu o rosto

 

Ed teve vontade de rir daquilo tudo mas se conteve.

 

--Sejam discretas e terão sempre meu apoio. -- pausou -- Seja generosa com minha filha e poderá contar comigo. -- olhou seriamente para a mecânica

 

--Tudo bem. -- respondeu simplesmente -- E se quiser levar seu carro lá na ESSALAAM quando der problema, deixa comigo.

 

--É por conta? -- perguntou

 

--Mãe! -- Isa já não sabia onde enfiar a cara

 

--Por conta. -- sorriu -- Só não conta pra ninguém. -- brincou

 

Ana balançou a cabeça e comeu seu último pedaço de bolo.

 

***

 

Seyyed estava nua ajoelhada na cama admirando o corpo de sua amante. Seu olhar a percorria por inteiro. Isabela corou.

 

--Do que tem vergonha, hein? Pensei que já tivesse se acostumado comigo. -- sorriu

 

--Eu ainda fico envergonhada em ficar assim nua sem que o quarto esteja bem escuro... -- sorriu também

 

--Não deveria. -- pegou o pé da ruiva -- Porque eu sou sua admiradora... -- beijou-o -- Adoro contemplar sem pressa o corpo da minha mulher... -- seguiu beijando a perna da amante

 

--Ai, Ed, você... -- fechou os olhos -- Deixa eu sentir seu corpo pesando sobre o meu... -- Isa pediu aos sussurros, delicadamente arranhando os braços da morena. Abriu as pernas para acomodar sua amante entre elas

 

--Ainda não... -- saboreava os seios da ruiva

 

--Eu quero você... – pediu

 

--Calma, gatinha... Eu quero você sem pressa... -- beijava e mordia o pescoço da bailarina. Sexos em contato

 

--Você adora me deixar excitada, não é Ed? – sussurrava

 

--Adoro... -- beijou-a

 

--Deixa... eu... sentir seu peso... -- pediu entre beijos -- Quero te sentir...

 

Ed continuava apoiando-se firmemente sem deixar seu corpo pesar sobre a namorada.

 

--Ainda não... Quero ver até onde posso te levar... -- disse sorrindo sensualmente. A bailarina tremia de desejo ao toque da mecânica

 

--Não faz isso... -- implorou dengosamente

 

--Eu sou má, gatinha, ainda não percebeu? -- perguntou com um jeito maroto e continuou a provocá-la sem pressa

 

A bailarina contorcia-se na cama enlouquecida. Sentiu mãos fortes lhe agarrarem. --Ai, Ed... -- respirava sofregamente

 

A morena agarrou as duas coxas de Isa com força, pressionando seu corpo vorazmente contra o dela. Os movimentos eram cada vez mais acelerados.

 

--Ah... -- Isa fechou os olhos e abriu os braços relaxando -- Você... -- sorriu -- nossa, isso foi demais...

 

--E não é sempre? -- esperou recuperar o fôlego -- Você e eu sempre somos... assim. -- sorriu

 

Isa abriu os olhos e fitou sorridente o rosto de sua amante. Envolveu-lhe o pescoço com os braços.

 

--Você acaba comigo... -- mordeu-lhe o lábio inferior

 

--Estamos apenas começando... -- prometeu

 

***

 

--Que horas são, amor? -- Isa estava deitada com a cabeça no ombro da namorada, abraçada à cintura dela e com uma das pernas sobre as pernas da amante. A morena estava de barriga para cima

 

--Duas da manhã... -- beijou-lhe a testa -- Muito tarde pra uma moça de família ficar de safadeza por aí... – brincou -- Ai! -- sentiu um beliscão

 

--Pára... -- pediu fazendo dengo

 

--Ué, eu só fiz um comentário...

 

--E eu sei bem porque... -- suspirou -- Ai, eu morri de vergonha com as coisas que mamãe disse.

 

--Relaxa, Isa... Ela só quer o seu bem, e eu entendi perfeitamente o raciocínio. Ela não queria que você fosse lésbica, mas já que é, não queria que tivesse se pegado com uma mulher masculinizada e sem grana. Por que? Pra não ficar evidente que você é lésbica e pra não ter problema com dinheiro. Na cabeça dela, está cuidando de você.

 

--Ai, mas fica parecendo que somos interesseiras... Eu não tô de olho nas coisas que você tem...

 

--Eu sei, mas relaxa. E eu nem tenho tanta coisa, só uma oficina! -- riu -- O mais importante aconteceu: sua mãe já sabe de nós e nos apóia.

 

--Porque acha que você é bom partido.

 

--Ah, mas eu sou mesmo. Veja bem que tipão: gata, sensual, boa de cama e cheia da grana. -- riu

 

Isa apoiou-se com o cotovelo para olhar o rosto de sua amante. -- E que se acrescente: muito esnobe. -- sorriu

 

--Mas foi exatamente isso que te conquistou. -- beijou-a

 

--Ai, mas eu não deixo de sentir vergonha daquela conversa! Fica parecendo até que nós somos as caipira de Pau d’Arco! -- revirou os olhos

 

--Caipira de que?! -- Ed perguntou achando graça

 

--Coisas de Tatiana... -- riu e beijou-a novamente

 

--Caipira ou não, eu só não sei se estou preparada pra ser namorada de moça de família... -- Isa mordeu-lhe o lábio inferior -- Ai... -- sorriu

 

--Você não faz amor comigo como deveria fazer com uma moça de família... -- a ruiva disse sensualmente

 

--Ah, é?

 

--Você me pega de um jeito... -- mordeu-lhe o lábio novamente -- que eu adoro... -- sorriu

 

--Olha, mas que safadinha essa bailarina, gente... -- beijou-a novamente -- Escuta aqui... -- reverteu as posições e ficou sobre a jovem -- quero saber de todas as suas fantasias... as mais íntimas... -- beijou-a mais demoradamente

 

--Eu tenho algumas... -- sorriu

 

--Deixa eu saber? -- Ed pediu mordendo sua orelha

 

--Você vai saber... -- sorriu -- mas não hoje, porque estou arrasada... -- mordeu-lhe o queixo -- e quero dormir... -- lambeu os lábios da morena

 

--Sério, quer mesmo? -- beijava e mordia os lábios da ruiva

 

--Hum... -- empurrou a mecânica gentilmente para que se deitasse de lado -- Quero dormir, sim... -- sorriu -- Sossegue! -- virou-se para o lado oposto

 

Ed se encaixou em Isa. -- Pode ser... dormir abraçadinha? -- abraçou-a pela cintura

 

--Pode... -- sorriu e fechou os olhos

 

***

 

Juliana aplicava-se cada vez mais no trabalho. Sentia-se bem e útil agindo assim. Seus colegas estranharam a mudança gradual, e vários deles aos poucos se afastavam dela, considerando-a irritantemente dedicada. A japonesa passou a ter mais afinidade com aqueles que também se importavam.

 

Um dia, sem que esperasse, levou um susto ao ler os nomes das pacientes da ortopedia feminina. Sua mãe estava entre elas. Sofreu um acidente e precisava implantar uma prótese no joelho.

 

Juliana estava muito nervosa, mas sabia que tinha de passar naquela enfermaria para administrar medicações e fazer curativos. Eram muitos anos sem ver a mãe. Como seria o reencontro?

 

Chegando lá, reparou que sua mãe estava na maca do canto, à direita, olhando para a janela e não a tinha visto entrar. Decidiu que iria deixá-la por último. Porém, depois de algum tempo, veio o inevitável.

 

--Bom dia dona Tamiko. Como vai? Hora de tomar remédios. -- sorriu receosa

 

--Você??? Não me dirija a palavra! -- virou o rosto

 

A enfermeira sentiu uma pontada de dor por causa dessa reação, mas não esperava nada melhor.

 

--Tome seus remédios. -- estendeu o copinho com dois comprimidos dentro. Na outra mão segurava um copo com água

 

Tamiko olhou para ela novamente e deu-lhe um brusco e violento safanão. As pílulas caíram no chão e a água molhou o rosto de Juliana.

 

--Não quero nada que tenha sido tocado por suas mãos impuras, sua maldita! -- disse rispidamente -- Preferiria morrer a receber seus cuidados!

 

As outras pacientes testemunharam a cena em choque.

 

--Mas o que é isso, meu Deus? -- uma senhora perguntou

 

Juliana respirou fundo e se controlou para não chorar. Pegou um pedaço de papel toalha e começou a enxugar o rosto.

 

--Acontece, mãe, que a senhora veio parar neste hospital e no meu andar. Querendo ou não, terá de ser atendida por mim, pelo menos nos meus horários de plantão. -- tirou o excesso de água dos cabelos

 

--Ih, é mãe dela... -- alguém sussurrou

 

--Mãe?? Minha filha, minha única filha mulher, está morta há dezoito anos! Não sou sua mãe! Deus me livre de ser! Maldita e infeliz seria eu!

 

Juliana não agüentou e explodiu: --Vocês podem ter feito a droga de um enterro simbólico mas eu não morri!! Estou aqui, e serei sua filha sempre, mesmo que não queira!! -- não conteve as lágrimas

 

--Você não é minha filha, é uma amaldiçoada!! -- berrou -- Mulher que se deita com mulheres, você é uma abominação! Impura! Maldita!! Não quero nada que tenha sido tocado por você, maldita! -- berrava -- Me deixe em paz, saia daqui! Não quero você aqui, maldita!! Peste!!

 

--Eu não sou, eu não sou!! -- respondeu emocionada

 

--É sim!! Você manchou o nome da família!! Por isso nós te enterramos!

 

--Vocês fizeram isso porque são ignorantes, intolerantes!! Eu não fiz nada!! Só queria viver a minha vida!! -- bateu no peito

 

--Você é doente!! Tem que se tratar! Quer me dar remédios? Tome remédios, você, que é doente!!

 

--Eu não sou doente, eu sou lésbica, é isso! Não é doença!!

 

--Na nossa família, não existe isso!! Não existe mulher assim, doente!! Não existe!! Não existe!! Não existe!! -- berrava

 

--Cale a boca!! -- gritou chorando -- Pára... pára de dizer isso...-- respirou fundo -- Às vezes tudo o que uma pessoa quer é simplesmente existir... -- disse dolorosamente

 

--Ninguém em sã consciência quer ser atendida por mulher imunda como você!! -- Tamiko disse em voz alta -- Saia daqui!!

 

Juliana estava com alma destroçada e arrasada. Preparou-se para sair e caminhou pesadamente até a porta. Quando ia sair ouve uma senhora dizer: -- Eu não ligo, filha! -- a japonesa olha para trás -- Eu não ligo! Você não é maldita e nem amaldiçoada. Nunca conheci enfermeira igual. Eu não ligo... -- sua voz era emocionada

 

--Eu também não! -- outra falou -- Você é uma pessoa boa! Você cuida da gente... Tem paciência conosco, que somos velhas...

 

--Você é boa, filha! Liga pra essa mulher amarga, não. Ela é que é amaldiçoada! -- outra senhora disse

 

--Jesus te ama, filha! -- outra paciente gritou levantando a Bíblia -- E eu também. Você se importa com a gente... Você nos dá esperanças...

 

Juliana ainda chorava, só que de emoção. Não esperava por aquilo. Agora sabia que era querida pelos pacientes. Podia ouvir Ivone dizendo: “Você não resolverá os problemas do hospital, mas pode fazer a diferença na vida de muitas pessoas. Juliana, não tem preço ajudar alguém a recuperar sua saúde. Não tem preço dar carinho, atenção, um tratamento digno...”

 

Tamiko também não esperava por aquelas reações emocionadas e fraternas e ficou sem saber o que fazer. Calou a boca e fechou os olhos.

 

Juliana saiu da enfermaria emocionada e quase esbarrou em uma paciente que vinha de muletas. Era uma jovem que caiu de moto e tinha que operar a perna.

 

--Olha só... -- a moça disse caprichando em olhares sexys -- eu não queria, mas ouvi a conversa aí, então... eu também não vejo maldição nenhuma e na verdade te acho a maior gata. -- olhou-a de cima a baixo -- Se quiser sair comigo depois que eu levar alta, tô dentro! -- piscou

 

Juliana riu, balançou a cabeça e caminhou para sua baia.

 

***

 

--Foi assim, sabe, Ivone? Tão lindo! Elas falaram coisas bonitas pra mim. Elas ficaram do meu lado! -- sorriu empolgada -- Nunca vou esquecer...

 

--Você entrou nos corações delas. Você as viu, deu atenção... elas lhe são gratas. -- Ivone disse delicadamente -- É realmente um relato muito tocante.

 

--Eu tô combinando com uma colega. Ela passa lá só pra medicar minha mãe. Das outras cuido eu.

 

--Melhor assim. -- olhou para ela atentamente

 

--Por que algumas pessoas ainda acreditam que ser homossexual é manifestação de alguma doença? A homossexualidade não é enquadrada como doença. O Conselho Federal de Medicina retirou-a do seu catálogo de patologias médicas em 1995, enquanto a Organização Mundial de Saúde fez o mesmo em 1993. Será que as pessoas não sabem disso?

 

--Acho que esta informação não foi devidamente veiculada, minha querida. E pessoas como sua mãe, perdoe, não devem se ligar muito nesses fatos. -- pausou -- Mas e você? Já conseguiu perdoá-la? Já conseguiu perdoar sua família por tudo que aconteceu?

 

--Não... tenho muitas mágoas e rancores... -- disse em voz bem baixa

 

--Sei que é difícil não ter, mas precisa perdoá-los. Mágoas e rancores são como lixo guardado dentro de casa. O que acontece depois de um tempo?

 

--Começa a dar bicho...

 

--Isso mesmo. Você precisa jogar esse lixo fora. Limpar-se por dentro, ficar mais leve.

 

--Eu não sei fazer isso.

 

--Peça orientação a Deus. Todos os dias! Ele vai lhe ajudar. Quando você perceber, já aconteceu. Um dia você nota que despertou e está livre.

 

--Deus vai ficar de saco cheio de mim e eu não vou resolver é nada! -- cruzou os braços impacientemente

 

--Claro que vai. É só perseverar.

 

--Fala como se fosse tão fácil...

 

--Do contrário, reconheço a dificuldade. Por isso lhe digo para orar e perseverar.

 

--Ivone, olha! -- cruzou as pernas -- Eu não consigo ser essa pessoa boazinha que você é. Eu não sou fofa, não sou meiguinha... Eu sou pé na porta, entende? Você é cheia dos por favor, por gentileza, por obséquio... Eu sou do tipo ‘anda logo, porr*!’ -- suspirou -- Não queria ser, mas... tá no sangue!

 

--Claro que não tá! Ninguém é imutável! -- Ivone riu -- Pé na porta... -- balançou a cabeça -- Você é intensa, passional, vigorosa... Isso não é ruim. Precisa apenas dosar as coisas e escolher o momento certo pra cada abordagem.

 

--Mas é aí que eu me ferro! Nunca sei. Eu estouro e quando vejo... já fiz besteira!

 

--Será que não poderia reconhecer que você mudou um tanto? Nunca mais te ouvi dizendo que mandou geral tomar aqui ou ali no hospital.

 

--Bem... de fato, tenho tido mais paciência no hospital mesmo. Mas eu mandei o segurança tomar... lá, um dia desses!

 

--Por que?

 

--Porque veio implicar com a acompanhante de um senhor do meu andar. Acredita que ele foi lá em cima só para se meter com a garota? Aí eu não agüentei e rodei uma baiana de respeito!

 

--Bem, foi uma medida drástica na hora necessária. -- riu -- Deve ter resolvido o problema...

 

--Resolveu! Ele nunca mais foi lá encher.

 

--Da próxima vez poderia usar palavras melhores. Algo do tipo: vá se danar!

 

--É... vou tentar tornar meu vocabulário mais elegante... -- disse com ironia -- Teve também o episódio com um homem na feira.

 

--O que houve? -- perguntou desconfiada

 

--Eu tava escolhendo peixe quando veio um gaiato e meteu a mão na minha bunda. Disse que eu tava no caminho dele. Aí, minha filha, não conversei. Peguei um Robalo que tava diante de mim e dei tanta peixada na cara do safado que ele ficou até besta!

 

--Minha nossa!

 

--O feirante veio reclamar e dei peixada nele também. No final, aceitei pagar pelo peixe, porque sobrou pouco dele pra contar história.

 

--Juliana do céu! -- acabou rindo -- Você precisa aprender a se controlar. Pode se meter em situações muito delicadas por conta desse pavio curtíssimo!

 

A japonesa pensou se deveria contar sobre o episódio com Isa.

 

--O que está escondendo? -- perguntou desconfiada -- Diga, você não está em um tribunal.

 

--Eu... encontrei a ruiva sem sal na Cinelândia há poucos dias...

 

--E? -- estava muito curiosa

 

--Provoquei ela, que me disse coisas que não gostei, e daí fiz um escândalo com ela na frente da mãe. Agora a família do esqueleto de piranha já sabe que a filha é entendida!

 

--Não deveria ter feito isso... foi um desgaste desnecessário e expôs a moça. Já pensou se a mãe dela a pusesse na rua? Você seria responsável!

 

--Eu sei... -- abaixou a cabeça -- Ela me disse algumas coisas que ficaram martelando na minha cabeça. -- suspirou -- E o pior é que tem razão.

 

--Nós precisamos aprender a trabalhar seu temperamento. O pavio curto não é de todo um defeito, às vezes é necessário. Mas temos de aprender a ampliar seu limite de tolerância.

 

--Como? Só me matando e esperando eu nascer de novo!

 

--Nada disso. Vamos progredindo passo a passo. “A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau.”15 Você verá. -- pausou -- Mas antes mesmo disso, você precisa se trabalhar pra tirar Seyyed do seu pensamento. Deixa-a ir, deixe o passado onde deve ficar.

 

--Não sei se um dia conseguirei isso. -- silenciou -- Ai, se eu não tivesse sido tão ciumenta, tão idiota... -- lamentou-se

 

--Você se apega demasiadamente ao passado, ao ‘se’. Se eu tivesse feito isso, se não tivesse feito aquilo... Você fica frustrada devido a correlação com a culpa, pois se não agiu de uma determinada maneira, e acha que deveria ter agido, sente culpa. Precisa aprender a se libertar disso. Deixe Seyyed passar!

 

--É difícil... Acredita que nunca mais saí com ninguém?

 

--E nem deve se for somente uma fuga. Permita-se ver as pessoas. Se tiver de sair com alguém, que seja porque se interessou e não porque quer uma válvula de escape.

 

--Eu não consigo me interessar por mais ninguém. Comparo as mulheres com Ed e ela sempre ganha.

 

--Com Ed ou com uma idealização que você fez dela? Ed não é perfeita. Mulher alguma é. Ninguém é.

 

--Eu sei... mas só com a cabeça e não com o coração.

 

--Você vai despertar, meu bem. Acredite e tenha fé! Liberte-se a começar pelo pensamento. É pelo pensamento que o ser humano goz* de uma liberdade ilimitada, porque o pensamento não conhece barreiras!

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Música do Capítulo:

 

[a] Você me Vira a Cabeça. Intérprete: Alcione. Compositores: Chico Roque/Paulo Sérgio Valle. In: Faz Uma Loucura Por Mim. Intérprete: Alcione. Indie, 2004. 1 CD, faixa 8 (4min49)

 


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Comentários para 3 - Primeira Temporada - MUDANÇAS III:
Bebereborn
Bebereborn

Em: 05/12/2025

Não abandonei! Ainda volto para comentar melhor esta maravilhosa história!


Solitudine

Solitudine Em: 07/12/2025 Autora da história
Olá querida!

No seu tempo. Muito obrigada!

Beijos,
Sol


Responder

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Bebereborn
Bebereborn

Em: 01/06/2025

Esse capítulo foi um abraço no coração. Adorei como você mostrou o carinho entre Ed e Olga, tudo com uma leveza que dá gosto de ler. A chegada da Camille e o jeitinho dela, cheia de dúvidas, sendo acolhida sem julgamento, foi super tocante. Você conseguiu mostrar que é nas pequenas atitudes que a gente constrói laços de verdade. Sua escrita tem uma sensibilidade que emociona. Tá lindo demais, parabéns!

 


Solitudine

Solitudine Em: 02/06/2025 Autora da história
Olá querida!

Seus comentários são muito românticos. Ainda estou curiosa querendo saber se você escreve também. rs

Sim, considero que as coisas pequenas constroem as grandes.

Beijos,
Sol


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NovaAqui
NovaAqui

Em: 13/06/2024

Eu sou a Juliana: pé na porta kkkkk também me meto em situações que depois me arrependo kkkk

Ser pavio curto é complicado 


Solitudine

Solitudine Em: 14/06/2024 Autora da história
Kkkkk É mesmo, surgiu uma identidade? rs

Acho que Juliana ainda vai te surpreender muito!

Beijos,
Sol


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jake
jake

Em: 11/03/2024

Olá autora me decepcionei com Camile e Mariangela.Aff super preconceituosa....Já a mãe da Isa mega interesseira...próximo....


Solitudine

Solitudine Em: 15/03/2024 Autora da história
Olá querida!

Camille e Mariângela ainda têm muito chão pela frente. E Ana, mãe Isa, bem... você vai ver. rs

Beijos,
Sol


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Seyyed
Seyyed

Em: 11/09/2022

Que sogra é essa que eu tenho?? Hahaha me diverte! Puta merda... Sabrina pode até ser gostosona mas Patrícia tem que passar pra outra né? Mulher cachorrona. Tô amarradona nisso aqui... quase o feijão queimou hehe


Resposta do autor:

Sua sogra era uma figurinha! rs

Patrícia se apaixonou perdidamente por Sabrina e não conseguia se desligar dela.

Queimou o feijão?? Eita, lasqueira! Pode não, viu, fi? Cuidado aí! rs

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 11/09/2022

Eu abalo geral PQP só mulher boa me querendo! Ju, Isa, Camila... hehe gosto da Flávia ela me diverte. Querendo ver o que a Ju vai arrumar 


Resposta do autor:

É verdade, Seyyed arrancava suspiros! rs

Flávia é uma graça de pessoa e de profissional!

Juliana vai arrumar mil e uma! Você verá (ou já viu) rs

Beijos,

Sol

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

Essa Ivone tem vezes que está aqui falando comigo


Resposta do autor:

De repente... :P

Beijos,

Sol

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Cristina
Cristina

Em: 21/04/2020

Olá Sol!!

Tudo bem?

Neste capítulo achei muito interessante sua abordagem sobre  comportamento machista q nos rodeia através do personagem Silvio. Como ele se comporta e pensa e também como as mulhees que com ele se relacionam agem  nos faz refletir sobre como determiandos comportamentos estão tão enraizads em nossa sociedade que achamos normais.

Muito opórtuno as reflexões que este personagem nos traz!!!

Beijos!!


Resposta do autor:

Cristina,

Você voltou! Está re relendo? :)

Vejo esse machismo de Silvio até hoje no meu dia a dia. E como incomoda!!! Não dava para não colocar aí.

Beijos,

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Suzana Mello, adorooooo!!!

Ju pede desculpas, ela ainda não conseguiu parar pra ler e comentar, está com a cabeça à mil por conta dessa pandemia. Houve redução salarial de 70%.

Mas já deixei essa missão pra ela, confia em mim!

 

Beijos


Resposta do autor:

Estas reduções salariais são terríveis! E 70% é um valor indecente demais. Aliás, acho qualquer valor inadmissível, sem compensação de qualquer parte.

Ela não precisa se desculpar.

Revisamos até Buscas III

Beijos!

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Best sim! E não venha dizer o contrário. 

Seller com o tempo e tenho dito!!

 

Beijos 


Resposta do autor:

Está finalizando como Suzana Mello. kkk

Eu agradeço sua gentileza. É o amor! :P

Beijos,

Sol

 

PS:Cadê a Ju Jujuba que não apareceu até agora?

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Mulher quando cisma, sai de perto! Eu que o diga... Kklkkll... Sofro com a Ju.

Do que li até agora, não achei nada, mas estou de olho!

 

No outro site teve bastante acessos né? Ah se pudesse usar...

 

Beijos 


Resposta do autor:

Gabinha, Samira cismou porque cismou que me quer "best seller" e eu já disse a ela que aqui não tem "seller". Tampouco o best. kkkk

 

Mas deixa que pelo menos as ratas eu vou matar. Não gosto de trem com erro. Imagine, uma bicha chata e perfeccionista como eu! kkk

Beijos,

Sol

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Olá meninas!

440... Bom então cada uma é ligada no 220!! Misericórdia... Kkkkkk...

Boa sorte aí!

 

Beijos

 

Ps. Se teve algum erro foi mínimo do mínimo.

 


Resposta do autor:

Samira é mais devagar do que eu, sem dúvida. Mas ela quando cisma com um trem, não me deixa sossegada! kkkk

Tem um monte de rata, Gabinha. Estamos procurando e corrigindo. Qualquer um que encontrar, me mostre, viu fi?

Beijos,

Sol

 

PS: Samira está aqui reclamando que as leituras e os comentários do tempo do abcLés se perderam porque ela queria contabilizar retroativo! É bem advogada mesmo! kkkkkkk

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Fica em paz, a que escreve demais sou eu! Kkkkk...

Mas o que revisam tanto? Tá tudo certinho. 

Sossega caipira, parece que nasceu ligada no 220!!! Samira dê uma folga à caipira....Kkkkkk

 

Beijos meninas!

 


Resposta do autor:

Agora sou eu que respondo (Samira). Ela não me dá folga numas cositas e não dou folga a ela em outras! uahuahuahuahuah

Tem uns errinhos. E pode acreditar que ela é 440 e não sossega!

Bjss

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Sol!

Todas as suas histórias são excelentes, sua escrita tem um padrão acima da média.  Mas essa foi a primeira, é especial e foi nessa que nossa amizade se estreitou.

 

Beijos querida!


Resposta do autor:

Só você mesmo, Gabinha!

Obrigada!

Beijos, Sol

 

PS: E continuamos Samira e eu revisando as ratas. kkk

Mandei email, mas foi curto porque a mulher aqui me cobrando esse trabalho. E eu ainda devo concluir tanta coisa que nem sei! Trabalhos, artigos, teses, ahahahahah... A caipira ainda morre disso! kkkk

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 14/04/2020

Solzinha!!

 

Gente a CVamille era chata demais!!

 

E Juliana, barraqueira de marca maior!

 

Essa história nos faz refletir a cada capítulo, amooooo

 

Beijos


Resposta do autor:

Gabinha!!

Samira e eu estamos aqui revisando o conto e consertando minhas ratas! Se encontrar alguma, me fale!

Camille tomou um bom tempo para se encontrar, mas eu não a condeno. Ela teve coragem, apesar de tudo.

Sim, Juliana rodava cada baiana. Lembra uma pessoa que tenho aqui pertinho! kkk

Fico feliz que goste do conto! Não sabia que era o seu preferido dentre estas três historietas que escrivinhei.

Beijos,

Sol

Responder

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