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  • Primeira Temporada - MUDANÇAS II

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Sob o Encanto de Maya por Solitudine

Ver comentários: 11

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Palavras: 16243
Acessos: 10719   |  Postado em: 12/04/2020

Primeira Temporada - MUDANÇAS II

--Camille, que achou da missa? Foi bonita não foi? -- Mariângela riscava um molde de vestido -- Fiquei feliz que finalmente tenha aceitado ir comigo.

 

--Humpf! Achei a mesma coisa de sempre. Quem assistiu uma missa, assistiu todas. -- respondeu no mau humor habitual -- E eu só fui porque hoje você me encheu mais que nunca com sua insistência.

 

--Ah, não diga isso. E o sermão do padre foi muito bonito. Parecia que havia pensado em nós. Falou da força de vontade, da vontade de viver, recomeçar...

 

--Mãe, não me venha com essa baboseira! É um papo muito bonito pra quem tem uma vida normal e duas perninhas pra andar. Senta nessa merd* dessa cadeira e vive o que eu vivo pra ver se é tão fácil?

 

--E quem disse que era? Mas recomeçar não é impossível.

 

--Recomeçar o que? O que você espera que eu faça, mãe? Que eu persevere na fé e lute com a Bíblia debaixo do braço e vire uma perneta amorosa e feliz? -- riu debochadamente -- Isso não vai acontecer.

 

--Você prefere ficar trancada no quarto vivendo de passado, é uma sábia decisão. -- respondeu com tristeza

 

--Qual é a sua mãe? Pode mudar de cidade, pode me levar em missa e fazer promessa uma pá de vezes! Que acha que conseguirá com isso? Não vai limpar sua barra com tais bobagens.

 

--Limpar minha barra? -- interrompeu o que fazia e olhou para a filha -- Como assim?

 

--Se você não fosse a sem palavra que sempre foi teria ido comigo às compras. Papai e eu não teríamos de estar lá, naquele dia e naquela hora a mercê daqueles dois desgraçados. Ele estaria vivo e eu saudável e feliz. -- encarou bem com ela -- Por sua culpa eu sou uma aleijada inútil e papai está morto!

 

Lágrimas vieram aos olhos de Mariângela: -- Não acredito que pensa assim! -- cobriu os lábios com a mão

 

--Você é a culpada! Nunca a perdoarei! NUNCA. -- moveu a cadeira para trás, virou-a e seguiu para o quarto

 

Mariângela fechou os olhos e chorou tomada por imensa tristeza. Ela não sabia mais o que fazer. Além da saudade que tinha do passado e das perdas financeiras, suportava as agressões constantes da filha, mas não sabia que eram devidas ao fato de Camille a considerar culpada pelo que houve. Buscou o telefone e ligou para Mariano.

 

--Alô?

 

--Mariano... ela acha que eu sou a culpada... -- disse aos prantos

 

--Irmãzinha? Culpada de que? Quem acha? -- perguntou sem entender

 

--Camille... ela acha que sou a culpada pelo acidente dela e pela morte do pai... -- chorava

 

--Mas por que??? -- estava chocado

 

--Porque eu disse que iria com ela fazer as compras e desmarquei. -- limpou os olhos -- Aí Antônio pediu uma folga que ele tinha direito no trabalho e foi lá com ela no dia seguinte... -- chorava -- Se eu não tivesse feito isso...

 

--Não faça isso com você mesma, querida! -- Mariano interrompeu -- Camille está magoada, sofrendo e deprimida. Ela busca um Cristo pra culpar, e escolheu você. Não entre nesse jogo dela, que é destrutivo e depressivo demais. -- pausou -- Vocês não podem viver assim! Ela precisa de tratamento!

 

--Mas ela não quer! Que adianta eu levá-la a força? -- respirou fundo tentando se acalmar-- Eu não sei mais o que fazer...

 

 

--Eu entro de férias semana que vem. Quer que eu vá ficar com vocês aí?

 

--Se você pudesse... Eu me sinto tão sozinha... Trabalho tanto, rezo tanto, mas eu não sei... não sei...--continuava chorando

 

--Vai dar tudo certo, querida, fique calma... Vai dar tudo certo...

 

***

 

Patrícia e Sabrina faziam sex*.

 

--Eu esperei tanto pra te ter assim... que nem rapariga... -- Patrícia disse com voz gutural

 

--Ah, ah, ah... -- mordeu os lábios

 

--Tá gostando assim, hum?

 

 

--Aaaah!! -- virou a cabeça para trás e gritou

 

Patrícia sentiu o prazer tomar seu corpo. -- Você é muito gostosa! -- sussurrou

 

--Ah! -- respirou fundo e sorriu -- Pára!

 

Patrícia interrompeu o que fazia e se sentou. Sabrina levantou-se da cama e foi até o banheiro. A outra ficou admirando seu corpo com desejo. -- Dá vontade de ter você a noite inteira. -- sorriu maliciosamente

 

--Hum... não... Você já teve o bastante por hoje. -- respondeu do banheiro -- Escuta, -- voltou para o quarto -- sua amiga Isa ainda tá com a Ed? -- sentou-se na cama ao lado da outra

 

--Por que pergunta isso? -- Patrícia perguntou contrariada -- Eu não acredito que você trans* comigo e pergunta por outra mulher em seguida! -- disse revoltada

 

--Eu achei Ed interessante. -- deu de ombros -- Gosto de mulheres atléticas, altas...

 

--Vixi, que eu não acredito, é um descaramento da porr*! -- Patrícia levantou-se da cama revoltada e pôs as mãos na cintura olhando para Sabrina de cara feia -- Ô mulher, você tá querendo ficar com ela também? É muita fuleiragem!!

 

--Por que não? A gente tem que conhecer gente. Eu não disse que estava te namorando e nem te jurei fidelidade. -- respondeu desafiadora

 

--Quer saber? -- disse com raiva -- Você é uma grandessíssima piranha escaladora! Vai se ferrar! -- começou a catar as roupas para ir embora

 

--E você é uma andrógina que pensa que é muito boa de cama, mas não tá com essa bola toda! Sem esse seu brinquedinho você não é de nada! -- levantou-se e vestiu um roupão que estava sobre uma cadeira -- Quando sair bate a porta. -- foi para a cozinha

 

--Desgraçada... -- lutava para não chorar enquanto se vestia -- Rapariga sem vergonha...

 

***

 

--Deixa eu te falar, o vestido novo que dona Mariângela fez ficou lindo demais da conta, Pri! Renan disse que eu fiquei maravilhosa... -- Tatiana comentou animada

 

--Você é doida de ir tão longe só para fazer um vestido! Agora só vive encomendando roupa a essa costureira paulistana. Eu hein, podendo comprar no shopping!

 

--Ah, mas a costureira faz a roupa sob medida, do jeito que a gente quer. Shopping só vende porcaria e trem caro!

 

--Humpf! Eu que não vou ficar excursionando pelo subúrbio! Aliás, você e Isa agora só querem saber do subúrbio! -- riu

 

--Porque nossos namorados moram lá, fi! -- deitou-se na cama abraçada ao travesseiro --Renan é um doce, sabia?

 

--É bom de cama? -- deitou-se perto dela

 

--A gente não fez ainda não, uai! -- disse -- Eu não me entrego assim tão rápido e ele não me pressiona. -- sorriu -- Estou adorando o jeito dele... Sabia que ela era menino de rua?

 

--É mesmo? -- perguntou surpresa -- Pensei que fosse irmão de Ed, embora não se pareçam... Mas foi o que me disseram!

 

--É! A mãe dela o criou desde que tinha 13anos e Ed fez dele mecânico. Meu pretinho as adora!

 

--Hum... -- pausou -- Assim como o seu mecânico, Ed também não levou Isa pra cama até agora. -- riu -- Deve ser alguma tática donjuanesca da família pra deixar uma mulher de quatro. -- comentou divertida -- Mas com Isa não tá dando muito certo, porque ela não é tão apaixonável quanto você! -- pausou -- Você é muito bobinha... -- provocou a outra

 

--Fala como se eu fosse uma das caipira de Pau d’Arco! -- protestou

 

--Caipira da onde?! -- perguntou rindo

 

--Ah, isso é coisa nossa... -- riu -- É que papai tem umas primas que moram na cidade de Pau d’Arco e quando elas vão na Goiânia é só pra fazer a gente passar vergonha! As mulheres dão cada rata, que só vendo! E tem que ver as roupas que elas usam! Só uns trem com base nenhuma. Aí por causa disso, minhas irmãs e eu inventamos essa de falar assim, das caipira de Pau d’Arco.

 

--E onde é esse lugar? Nunca ouvi falar!

 

--É lá no norte, hoje em dia pertence a Tocantins. Faz fronteira com o Pará. Mas as pessoas de lá são normais, só as primas de papai é que são tudo descompensadas! -- riu -- Mas deixa eu te perguntar, e você e Silvio? Não o vi mais contigo e isso faz tempo... -- sorriu -- Não deu em namoro?

 

--Que nada! -- riu -- A gente saiu umas vezes, ele é legal na cama, é engraçado, se acha... Mas eu não quis nada sério com ele, não. Aliás já saí com vários carinhas depois dele. -- piscou

 

--Nossa, você me deixa tonta com tanto homem... -- balançou a cabeça -- Pensei que aqueles caras que eu

via contigo eram colegas de faculdade...

 

--Ainda bem que ainda estão acordadas! Gente, eu preciso desabafar! -- Patrícia entra repentinamente no quarto e se joga na cama de Tatiana, quase caindo em cima dela -- Vocês não sabem o que aconteceu!! -- cobriu o rosto com as mãos

 

--Criatura nem te ouvi entrar! -- Priscila se ajeitou na cama para acomodar a amiga -- Que houve?

 

--Eu saí com Sabrina... -- descobriu o rosto -- Acabei de voltar da casa dela. -- cruzou os braços por detrás

da cabeça -- Por duas horas nos amamos como dois animais, como diria Alceu Valença...

 

--E por que você fala isso como se fosse ruim? Logo você que tava doida atrás dela? -- Tati olhava intrigada para a outra

 

--Porque a miserável tinha acabado de trans*r comigo e vem me perguntar se Ed e Isa ainda estavam saindo juntas. Acredita que ela tá querendo a maluca? É uma fuleiragem da porr*!

 

--Está querendo qual delas? -- Priscila perguntou

 

--Ed, porr*! -- suspirou -- E ainda me disse que gosta de mulheres atléticas, altas... E que eu era uma andrógina de meia tigela... -- falava com mágoa

 

--Gente, que garota grossa! -- Priscila disse ao se levantar -- Olha Pat, alivia a pressão! Essa garota é uma safada que não merece que você esquente a cabeça por ela. Passa pra próxima!

 

--Cruzes, Priscila, que coisa horrível pra se dizer! -- Tatiana disse chocada

 

--Ah, Tati, a fila tem que andar. Já bastou ver você sofrendo horrores por causa daquele babaca do Marcelo!

 

--É, mas eu tava gostando dela... -- Patrícia respondeu com tristeza -- Queria que a gente tivesse ficado namorando... -- fechou os olhos -- Droga!

 

--Ai, mas eu acho que a gente vai precisar ir naquela danceteria de novo... -- Priscila revirou os olhos

 

***

 

Mariano veio dirigindo angustiado de São Paulo para o Rio. Estava muito preocupado com a irmã, que ele tanto amava. Camille havia se transformado em uma moça amarga e cruel, e Mariângela sofria muito com isso. Não bastava ter perdido o marido, a casa e as últimas economias, ainda tinha de passar por isso.

 

Fazia muito tempo que Mariano não vinha para o Rio, especialmente dirigindo, e estava encontrando

dificuldades em achar a rua. A sinalização precária não ajudava muito...

 

--Ih, agora, tô perdido. Que bairro é esse? -- perguntou para si mesmo

 

Rodou por ruas vazias e não via a quem perguntar. “Eu devia ter trazido mapa...” -- pensou

 

Passou pela garagem de uma empresa de ônibus e resolveu perguntar: -- Senhor, sabe como eu chego na rua Arquias Cordeiro?

 

--Ih, meu querido, eu sou novo aqui. Moro em Realengo, não conheço essa rua, não. Foi mal!

 

--Imagina. Obrigado ainda assim. -- suspirou -- Ai, meu Pai...

 

--O senhor precisa de ajuda? -- uma voz doce se fez ouvir

 

Olhou na direção da pessoa e se surpreendeu com uma mulher de meia idade, charmosos cabelos curtos e olhos azuis. Por instantes perdeu a fala.

 

--Eu, eu...-- pigarreou -- Eu estou procurando a casa da minha irmã na rua Arquias Cordeiro... Sou de São Paulo, faz tempo não venho aqui e... estou perdido.

 

--Estamos só um pouquinho longe, mas posso lhe ajudar. Por coincidência tenho que ir lá visitar uma amiga. Acabo de vir da casa dela mas soube que está na casa do pai, que fica na Arquias.

 

--Eu levo a senhora, como não? -- saiu do carro e deu a volta correndo para abrir a porta -- Meu nome é Mariano, e é um prazer. -- fez uma reverência para que entrasse no carro

 

--Obrigada! Meu nome é Olga. Com licença. -- entrou

 

--Agora a senhora me guia pois tô mais perdido do que cego em tiroteio.

 

--Entre aqui, na Dias da Cruz. -- apontou

 

***

 

--Mas mamãe, o que a senhora tem na cabeça?? -- Ed andava de um lado a outro da sala da mãe -- Entrar no carro de um completo desconhecido e guiá-lo pra um endereço que supostamente era da irmã dele??? -- pôs as mãos na cintura -- E se fosse um tarado? Um assassino? Um maluco desses que gosta de matar e esquartejar e fazer empada com os pedaços? Que coisa!

 

--Ah, mas eu senti que era uma pessoa distinta. Não sei explicar. Além do mais Clotilde está sofrendo muito de depressão e ela estava na casa do pai, que fica na mesma rua pra onde ele ia. -- tricotava pacientemente sem olhar para a filha

 

--Eu, hein, a senhora se arriscou muito! Não faça mais isso. -- passou a mão nos cabelos -- Eu não quero que nenhum mal lhe aconteça. -- silenciou -- Eu não agüentaria perdê-la. -- disse baixinho

 

Olga interrompeu o que fazia e levantou-se abraçando a filha por trás. -- Prometo que não faço mais isso. -- encostou a cabeça em suas costas -- Afinal, -- mudou de assunto -- é amanhã que Isa vem jantar aqui?

 

--Sim. -- sorriu -- A senhora vai gostar dela. É uma garota educada, culta... -- disse com empolgação

 

--Querida, -- soltou a filha e ficou de frente para ela -- os pais dela sabem que vocês estão namorando? -- perguntou intrigada

 

--Não... -- respondeu sem graça -- Quando ela sai comigo diz que está com as amigas. -- estava de cabeça baixa

 

--Isso não é correto, Seyyed...

 

--Eu sei mãe, mas o que vamos fazer? Eles não sabem que ela é lésbica e não aceitariam...

 

--Não vão conseguir esconder isso todo o tempo. “Não há segredo da alma que o comportamento não revele.”9

 

--A senhora sempre toca nos pontos mais delicados, não é?

 

--As mães têm essa obrigação compulsória, filha. -- sorriu cruzando os braços -- É o trabalho chato mas alguém tem que fazer.

 

--Eu sei, e a senhora tem razão... -- afastou-se pensativa -- como sempre. Mas eu não sei o que fazer. -- pausou. Andava pela casa -- Tô gostando muito dela, não queria deixá-la, mas também não queria incentivá-la a comprar uma briga feia com os pais... -- suspirou -- Eu não sei o que fazer! E tá sendo difícil não levá-la pra cama mas tô me segurando porque respeito a inexperiência dela e eu sou a mais velha, tenho que ter mais responsabilidade. Continuar namorando escondido me pareceu o mais cômodo, mas ao mesmo tempo incomoda...

 

--Eu não sei o que dizer, filha. É uma situação complicada... -- suspirou -- Peça orientação a Deus. Eu tenho orado pra que os pais dela e ela não se desentendam por sua causa.

 

--Eu também. Acho que a gente vai ter que conversar sobre isso porque é um assunto que nós duas evitamos. -- pausou -- Mas... eu ainda posso trazê-la pra jantar aqui? -- perguntou receosa

 

--Claro que sim! Eu quero conhecê-la.

 

***

 

--Camille ainda não saiu do quarto? -- Mariano perguntou

 

--Você chegou há pouco tempo e já tá agoniado... Eu passo dias sem vê-la.

 

--Ela não come?

 

--Às vezes sim, às vezes não. Eu coloco o prato na porta e bato. Ela abre depois de muito tempo, outras vezes nem abre. Aí eu dou a comida pros pobres pedintes que vêm aqui. -- suspirou -- Tenho trabalhado como louca, na confecção e em casa... tenho ido na igreja religiosamente. Acho que estou a beira da depressão também... -- falava tristemente segurando a xícara de chá

 

--Não, minha irmã, não fique. -- ajoelhou-se diante dela -- Eu ficarei aqui por vinte dias, que foi o que consegui negociar no trabalho, e farei o meu possível pra ajudar. Pelo menos pra te distrair. -- beijou-lhe a testa -- Não quero vê-las assim.

 

--Você é tão bom... -- acariciou seu rosto -- Acho que nossa sina é sofrer com o desprezo dos filhos... -- seu olhar era triste

 

--Ricardinho não me procura desde que se foi pra viver em Nova York, mas eu sei que ele está bem. Sinto muitas saudades, mas ele tá bem e é por isso que não lembra que tem pai. Mas Camille... ela não tá nada bem. E essa depressão terrível dela tá te contaminando.

 

--O padre disse que eu tenho que perseverar na minha fé. Mas, não sei... acho que não tenho fé o suficiente. -- abaixou a cabeça

 

--Tem sim. Só precisa de uma forcinha. E eu estou aqui por você. -- beijou-lhe a testa e se sentou novamente

 

--Bem, vamos mudar de assunto. -- sorriu tentando disfarçar a tristeza -- Como foi a viagem? Não deveria

ter dirigido por horas a fio.

 

--Foi boa. Acordei bem cedo e saí de São Paulo até rápido. -- sorriu -- Só me perdi nas proximidades mas fui ajudado por uma senhora muito distinta que me guiou até aqui.

 

--Senhora distinta? -- perguntou com estranheza

 

--É, ela ia visitar uma amiga... -- pausou -- Sabia que a filha dela tem uma oficina mecânica aqui perto, na

Joaquina Méier? Eu acho que vou dar uma passada lá porque esse carro veio com o motor rateando...

 

--Hum, sei... -- olhou bem para o irmão -- E qual é o nome dessa senhora distinta?

 

--Olga. Você precisa ver que olhos azuis que ela tem... -- comentou

 

Mariângela riu.

 

--O que? -- perguntou sorrindo

 

--Ai... tô achando engraçado. -- pausou -- Desde que ficou viúvo nunca mais tinha visto você reparar em

uma mulher...

 

--Ah, não é isso. -- levantou-se constrangido -- É que nós conversamos um pouquinho e ela me pareceu uma pessoa tão doce, tão cheia de paz. -- olhou para a irmã -- Não pense bobagens, é uma senhora respeitável.

 

--Você também é um senhor respeitável. Um belo e interessante senhor respeitável. -- sorriu

 

--Não seja boba, Mari. -- pigarreou -- Meu carro anda estranho mesmo.

 

 

--Hum... -- balançava a cabeça sorrindo

 

***

https://www.youtube.com/watch?v=J507sLelq9A

“Uma voz no tempo, chama azul do dia, Doce perfume, canção,

 

Uma voz no tempo, resiste na noite, E as lágrimas fogem de ti...”

 

Camille ouvia a voz de Leila Pinheiro ecoando baixinho e se deixava invadir pela tristeza da canção. Sabia que seu tio Mariano havia chegado, mas não queria vê-lo. Na certa tinha vindo para tentar fazer dela uma aleijadinha feliz, exatamente como sua mãe tentava tanto. Não queira ter de aturar mais um.

 

“Se quem chegou, partiu, Se quem virá já foi,

Só para quem fica os dias, são todos iguais,

 

Mil sonhos para enterrar,

Ventos e vendavais,

Corpo e alma vergam,

Se os anos pesam demais,

No coração...”

Uma voz no tempo -- Leila Pinheiro [a]

 

Camille não agüentava mais aquela vida. Não tinha sentido continuar. Sabia que era tarde da noite e que todos dormiam. Abriu a porta com cuidado e deslizou a cadeira até a cozinha. Sabia que a mãe deixava as facas de carne enterradas no faqueiro sobre a pia.

 

 

“Vamos, acabe com isso! Que acha que lhe sobra daqui pra frente? Sua vida já acabou faz tempo...” -- parecia ouvir uma voz a lhe sugerir dentro da mente

 

Pegou a faca e sem pensar, cortou os pulsos.

 

***

 

--Ai, por favor, eu preciso de notícias!!! Como ela está??? -- Mariângela perguntava aflita para o médico

 

--Calma senhora, procure se acalmar! -- o médico respondeu contrariado

 

--Por favor, senhor, nós estamos aflitos. Precisamos entrar, saber o que houve. -- Mariano disse nervosamente

 

--Aguarde mais um pouco. -- afastou-se sem dar maiores satisfações

 

Juliana presenciou a chegada da moça deficiente que havia tentado se matar. Não sabia porque, mas sentiu imensa pena daquela garota e se esforçou para atendê-la, embora seu plantão estivesse quase por terminar.

 

--Senhora, -- abordou Mariângela -- ela não vai morrer. Eu não deveria lhe dizer isso, mas... Ela passa bem, mas precisa se submeter a uma cirurgia para religar os tendões e nervos que cortou. Ninguém morre porque cortou os pulsos, mas pode perder a sensibilidade das mãos ou os movimentos, dependendo da extensão do dano.

 

--Ah, meu Deus, e ela que já não suportava ter perdido a perna ainda ficar sem poder usar as mãos... -- disse aos prantos

 

--Calma senhora, eu não disse que isso vai acontecer mas que pode acontecer.

 

--E ela vai ser operada aqui? -- Mariano perguntou chorando

 

--Olha, senhor, o atendimento de emergência ela já recebeu mas eu não a deixaria esperando aqui pra operar.

 

--E agora, meu irmão? O que vamos fazer? -- abraçou-se ao irmão

 

--Temos que levá-la a algum hospital pra que opere. E com urgência.

 

 

Juliana observava-os penalizada.

 

***

 

--Eu tenho feito um esforço pra ser uma enfermeira melhor, sabe? Mas é muito difícil... Falta tudo... as condições são precárias, as colegas são desestimuladas... E tem também o pessoal contratado, muitos sem a menor competência técnica... -- suspirou -- E na rede privada não é melhor em grande coisa. Existe dificuldade pra marcar consultas com especialistas, os profissionais também são mal pagos, os convênios não cobrem um monte de procedimentos... E a gente vê tanto roubo, sabe? Em tudo que é hospital! É colega que rouba gaze, algodão, instrumentos cirúrgicos... E os médicos que têm consultório particular? Muitos fazem do serviço público o dinheiro certo no fim do mês e mal dão as caras no hospital em que trabalham. Ou melhor, no hospital onde teoricamente trabalham... -- pausou -- O Rio é uma cidade tão grande e a gente só tem atendimento de emergência em poucos hospitais, como o Silva Avelar. Imagina o que é trabalhar ali! Eu saio de lá estressada! -- cruzou os braços -- Pensa que hospital particular tá preparado pra atendimento de emergência? É ruim!

 

--Imagino como deve ser. Quem nunca esteve em um Silva Avelar da vida? -- pausou -- Mas aquele hospital tem uma história antiga e muito bonita.

 

--Eu sei. Tem muita gente boa lá. Mas não dão conta.

 

--Eles precisam de mais gente boa. Como você, por exemplo.

 

--Eu não nasci pra ser heroína... -- balançou a cabeça negativamente

 

--Você já é. -- sorriu -- Todos vocês que encaram essa rotina de trabalho todos os dias e com dignidade são heróis e heroínas. Tenha certeza disso. Juliana, nada acontece por acaso. Você não é enfermeira à toa, sem uma razão maior pra isso. E sua profissão é linda!

 

--E desvalorizada! -- desabafou -- As pessoas só consideram os médicos e eles não nos respeitam.

 

--E quem cuida dos pacientes? Enfermeiras e enfermeiros.

 

 

--Cite o nome de uma enfermeira. Talvez lembre-se somente de Ana Nery. Se pensar em médicos certamente lembrará de vários nomes.

 

--“Uma raiz é a flor que despreza a fama”10. Vocês são raízes. E que planta vive sem elas?

 

Riu. --Acho engraçado... Você, dona Olga e Ed têm essa mania de fazer citações... no começo eu achava um saco, não vou negar. Mas o convívio com Ed me fez gostar. São sempre citações muito oportunas. -- pausou -- Mas eu não tenho talento pra dar uma de Joanna D’Arc.

 

--Você não resolverá os problemas do hospital, mas pode fazer a diferença na vida de muitas pessoas. -- olhou bem para ela -- Juliana, não tem preço ajudar alguém a recuperar sua saúde. Não tem preço dar carinho, atenção, um tratamento digno...

 

--Eu tô tentando ser melhor... Ed falava que é triste ver uma pessoa de tanto conhecimento como eu trabalhando com deboche e desleixo. Eu até tentei me esforçar mais quando estava com ela, mas depois larguei de mão. -- pausou por uns instantes -- Uma moça que perdeu a perna em um acidente tentou se matar cortando os pulsos. -- riu -- As pessoas acreditam nesse mito de que veias de calibre tão fino conseguem levar alguém a morte. O máximo que conseguem é ter problemas com as mãos.

 

--E o que aconteceu com essa moça?

 

--Eu tô tentando ser melhor, como disse. Não sei porque, mas tive pena dela e dei uma atenção. Eles são de São Paulo e conhecem pouco daqui. Eu ajudei pra que ela fosse removida pra operar as mãos em outro lugar. Meu plantão já havia se encerrado mas fiquei lá até que a ambulância chegasse.

 

--Muito bem, estou orgulhosa -- cruzou os braços e sorriu animada

 

--Eles foram pra rede privada, não têm plano de saúde e eu sei que vão gastar uma baba. -- pausou -- Também se tivessem plano eles não iriam cobrir, com toda certeza!

 

--Já foi um grande passo, Juliana. Certamente essa família não vai esquecer isso.

 

--Também dei uma força pra uma velhinha que quebrou o colo do fêmur. Estavam sem paciência pra dar banho nela e eu me ofereci.

 

--Muito bom. Como se sente depois de fazer coisas assim?

 

--Fico puta, porque tem que ter paciência e esse povo não é mole... Mas depois me sinto bem.

 

--Fazer o bem faz bem, mesmo que se tenham aborrecimentos.

 

--Aborrecimento maior tive na quinta à noite. -- fez uma cara péssima

 

--Por que?

 

--Dei uma passada na casa da dona Olga pra visitá-la e o que eu vejo? Dou de cara com Ed e o filé de borboleta jantando lá.

 

--Nossa, que situação! -- pausou -- Mas você não deveria ter ido sem avisar, não acha?

 

--É... isso é meio óbvio, não? Mas eu tenho o péssimo hábito de não me ligar no óbvio até que coisas assim me aconteçam. Só pago mico, Deus do céu! -- esfregou as mãos no rosto

 

--E o que você fez?

 

--Eu respirei fundo, cumprimentei todo mundo civilizadamente e me sentei na mesa.

 

--Você ficou pra jantar com elas??

 

--Já estavam indo pra sobremesa. Eu aproveitei e comi um pedaço de pudim. Adoro o pudim de leite de dona Olga.

 

Ivone riu gostosamente: -- Mas você é demais, Juliana! Por que não foi embora logo? Tinha que ficar e comer?

 

--Ah, eu já tava lá... E comigo é assim: tá no inferno abraça o capeta!

 

--Sim, mas e então? Fico feliz que sua primeira reação não tenha sido exacerbada.

 

--Ah, elas ficaram tentando ser naturais. Quando cheguei parece que discutiam sobre a obra de Fritjof Capra. -- revirou os olhos -- Ed e dona Olga adoram esses papos cabeça. Eu nunca gostei muito.

 

--E você?

 

--Mudei o assunto. Falei sobre a ameaça de dengue que vem por aí e dei uma aula sobre o assunto. Eu disse assim: “Essa gente muito magra, se pega uma doença dessas... sei não...”

 

--Tinha que provocar a moça, Juliana?

 

--Ah, ela é metida a fina. Fingiu que não percebeu. Aliás, ela é muito metidinha. Duvido que dona Olga venha a gostar dela como gosta de mim. E digo mais: é uma pirralha! Não sei o que deu em Ed que agora deu pra brincar de boneca. Teve uma hora que eu disse assim: “Se eu soubesse que gostava disso tinha te presenteado com uma boneca Moranguinho, que também é ruiva, seca e cabeçuda.”

 

--Meu Deus, Juliana...

 

--Mas eu não disse isso na frente da passa fome, não.

 

--Você ficou lá por muito tempo?

 

--Não... depois da sobremesa eu ajudei com a louça, pra não dizer que sou mal educada, e fui embora. -- pausou -- Ed estava linda! Vestia um macacão azul decotado na frente, muito bonito. A caveirinha usava um vestido rosa tão sem graça... Ô garota feia!

 

--Mas, apesar de tudo você não fez nenhum escândalo, não é?

 

--Não, eu fui extremamente contida... tive vontade de pegar a cabeça daquela ruiva sem sal e enfiar na travessa de pudim... mas tava tão gostoso que tive pena de estragar o doce.

 

Ivone riu e perguntou: --Sentiu da parte da moça ou de Ed alguma atitude agressiva ou hostil em relação a você?

 

--Ed não é agressiva e nem hostil. Ela só parecia receosa, com medo de mim. Mesmo quando eu falei da boneca Moranguinho ela não foi grossa comigo. Apenas disse: “Você não precisa passar por isso, Juliana.” -- pausou -- Mas eu passo por isso por causa dela.

 

--Por SUA causa! Sabe disso. Você não deveria ter ido sem avisar. Até parecia que queria encontrar com

Ed, assim, sem querer... Só que não contava em vê-la com a namorada também...

 

--A bailarina esquelética também parecia ter medo de mim. E uma certa insegurança, sabe? -- sorriu -- Eu notei que ela me achou bonita. Ela não é cega, sabe que isso tudo aqui -- deslizou as mãos pela própria cintura -- é mulher de verdade e ela não passa de uma pirralha sequinha e sem graça mal saída dos cueiros.

 

--Juliana, não seria bom que você começasse uma atitude de provocação e disputa com ela. Não vai conseguir o que quer, e pode até afastar a Olga de você.

 

--Ai, isso não! Dona Olga é como se fosse minha mãe.

 

--Bem... estou orgulhosa o suficiente por você ter passado por isso sem cometer desatinos. Sinal de que fizemos um progresso aqui. Fico também feliz com sua atitude no hospital. -- pausou -- Você está tomando a medicação que lhe prescrevi?

 

--Sim, estou sim. Eu até pesquisei um pouco sobre os remédios e me surpreendi com o que estou descobrindo. É interessante entender um pouco sobre os fenômenos eletroquímicos do cérebro.

 

--Que bom! E que maravilha que tem gasto um pouco do seu tempo no estudo. Ah, Juliana, você está progredindo a olhos vistos! -- exclamou animada

 

 

--Dona Olga também acha! -- pausou -- Ed falou que eu tava bonita... Não foi do mesmo jeito que dizia antes, com aquele sorriso safado doida pra me comer... mas eu gostei de ouvir.

 

--Quem não gosta de ouvir elogio? -- estendeu as mãos -- Venha, vamos fazer nossa oração.

 

--Tenho orado antes de dormir. Ontem pedi forças no hospital, pra ter paciência e não socar um playboyzinho que caiu da moto. -- segurou as mãos de Ivone

 

--Deve ter dado certo... -- riu

 

--Eu nunca bati nos pacientes, não sou doida... mas antes eu costumava a xingar um monte de palavrões. Mandava geral tomar no cú.

 

--“As palavras são as roupas dos pensamentos que, da mesma forma que a sua pessoa, não devem ser apresentadas em farrapos, descompostos e sujos.”11

 

--É... meus pensamentos têm se vestido melhor... -- sorriu e fechou os olhos

 

***

 

Juliana voltava do hospital, eram oito e meia da manhã. Radio ligado, viajava ao som de Maria Bethânia.

https://www.youtube.com/watch?v=FmrSLWgxq6g

“Hoje eu ouço as canções que você fez pra mim,

Não sei por que razão tudo mudou assim,

Ficaram as canções e você não ficou...

Esqueceu de tanta coisa que um dia me falou,

Tanta coisa que somente entre nós dois ficou,

Eu acho que você já nem se lembra mais...

É tão difícil olhar o mundo e ver, O que ainda existe,

Pois sem você meu mundo é diferente, Minha alegria é triste...”

 

Lembrou-se de momentos com Seyyed.

 

“--Você não deveria estar no Salão do Automóvel? -- perguntou surpresa ao ver a morena entrando em casa

 

--Vi o que me interessava, agora voltei. -- olhava para ela sedutoramente -- Foi a primeira vez que viajei a 200km/h quase o tempo inteiro mas valeu a pena. -- puxou Juliana pela cintura beijando-a com desejo

 

Sentia o contato gelado do couro da jaqueta da morena e a aspereza do jeans de suas calças. Juliana vestia apenas uma camisola leve.

 

--Por que esse fogo todo, hein? -- perguntou enquanto Ed mordia seu pescoço e arrancava sua camisola

 

--Impossível não ter...

 

Ed deitou Juliana no sofá enquanto beijava seu corpo inteiro e explorava cada parte com as mãos. Ficou de pé e arrancou a própria roupa.

 

--Eu volto em segundos. -- sorriu maliciosamente. Voltou após alguns minutos com um acessório -- Gosto de ter liberdade com as mãos. -- sorriu de novo e pegou o pé direito da japonesa, beijando-o

 

--Viajou pensando em fazer isso com alguém? – brincou

 

--Eu tinha planos pra VOCÊ quando voltasse. -- seguiu beijando-a -- Você é linda! -- olhou para ela enquanto acariciava seu corpo -- É gostoso ter você. -- seguiu beijando seu pescoço -- Você é uma delícia... e eu quero você agora!

 

--Ah!!!! -- Juliana gem*u alto

 

Ed largou seu peso sobre a japonesa. Aquilo era gostoso, quente... Não conseguia pensar em nada porque era bom, muito bom.

 

--Não pára, ai, ah... -- gemia de olhos fechados

 

--Diz se você gosta assim... -- a morena perguntava -- Gosta assim, gatinha?

 

Juliana não conseguiu responder. Cravou as unhas na cintura de Ed e fechou os olhos gostando muito.

 

--Eu te amo, Ju... -- disse olhando nos seus olhos

 

--Também te amo... -- sorria feliz”

 

Chorava.

 

“É tão difícil olhar o mundo e ver, O que ainda existe,

 

Pois sem você meu mundo é diferente, Minha alegria é triste...

 

Quantas vezes você disse que me amava tanto, Quantas vezes eu enxuguei o seu pranto,

E agora eu choro só sem ter você aqui...”

As Canções que Você Fez para Mim -- Maria Bethânia [b]

 

Desviou bruscamente a rota e decidiu ir para a ESSALAAM.

 

***

 

--Ih, olha quem vem lá toda esbaforida. -- Renan apontou

 

--Ai, meu Deus... -- Silvio passou a mão na cabeça

 

 

Ed e Murilo conversavam sobre o estoque de peças.

 

 

--Tá faltando isso! -- Murilo mostrou uma lista de pendências para a mecânica

 

--Tudo bem, eu vou providenciar. -- beijou a cabeça do menino -- Você é muito eficiente.

 

--Brigado! -- respondeu encabulado

 

Nesse momento Juliana se aproxima. Estava chorando.

 

--Juliana?? -- Ed perguntou surpresa. Sem que esperasse a japonesa acerta-lhe um tapa em cheio no rosto

 

--Ei, não pode bater... -- Murilo disse apavorado

 

A morena levou a mão ao rosto e olhou profundamente para sua ex mulher. --Deixa Murilo. -- segurou a enfermeira pelo braço -- E você vem comigo! -- saiu puxando a outra em direção ao segundo andar

 

--Meu Deus, já vi que hoje a cobra vai fumar... -- Silvio cochichou para Renan

 

--É melhor a gente voltar a cuidar do trabalho. -- Renan voltou a atenção para o carro que tinha diante de si

 

Dentro da sala, Ed arremessa a japonesa sobre a poltrona. -- Você é maluca ou que? Minha paciência tem limites, Juliana, você tá me provocando muito!

 

--Ah, eu tô?? E você vai fazer o que? Me bater?? -- levantou-se e perguntou desafiadora

 

--Por que eu tenho um sentimento de que você gostaria disso? -- respondeu ironicamente

 

--Você não vale nada, Seyyed. Nada!! -- gritou

 

 

--O que eu te fiz, garota? Até quando vai ficar obcecada atrás de mim e se humilhando desse jeito? Hein? -- estava bem próxima a ela

 

--O que você fez? -- perguntou enquanto chorava -- Você fez a pior coisa que se pode fazer a uma mulher: você me fez te amar, me apaixonar, acreditar que você também me amava e que a gente ficaria juntas... -- pausou -- Você me fez me sentir a mulher mais feliz do mundo, e depois me largou como se eu fosse um lixo, uma coisa que você não queria mais... -- continuava chorando -- Eu queria te esquecer, mas eu não consigo. Faço terapia, faço oração, faço o diabo mas você não sai de mim. -- cobriu o rosto com as mãos -- Você, você... eu passei e você não sente nem um nada de saudade. Já tem até outra mulher! -- socou o braço dela -- Por que? Por que fez isso? Por que? Por que? -- socava os braços de Ed, que se limitava a se proteger sem revidar

 

A mecânica sofria muito ouvindo aquilo. Sentia-se culpada, mentirosa, suja, cruel. Nunca havia traído Juliana, nunca fora agressiva com ela, mas sabia que deixou de amá-la e isso aconteceu aos poucos. Não queria que ela ainda sofresse tanto. Ed realmente sentia muito por isso.

 

Juliana afastou-se dela e ficou de costas chorando pesadamente.

 

--Me perdoa, Ju. Me perdoa. -- Ed envolveu-a em seus braços -- Eu não queria te fazer mal, nunca quis. -- ela tentava se desvencilhar -- Eu te amava, nunca te traí, nunca menti pra você. Me perdoa! -- chorava também. A japonesa se rendeu e se permitiu abraçar -- Me perdoa... -- abraçou-lhe carinhosamente -- Se eu pudesse... Ju, eu... me perdoa, querida, me perdoa. -- Juliana abraçou Ed pela cintura e chorou com muita tristeza

 

******

 

--Como ela está, doutor? -- Mariângela perguntou

 

--Está bem. Levará alta ainda hoje. Mas veja, terá de fazer fisioterapia por muito tempo. Foi por muito pouco que não perdeu os movimentos das mãos. Quase um milagre.

 

--Graças a Deus! -- Mariângela e seu irmão disseram ao mesmo tempo -- Se ela ficasse com as mãos paralisadas eu nem sei o que seria! -- ela complementou

 

--Essa moça precisa de tratamento psiquiátrico, senhora.

 

--Mas ela não quer. Que adianta obrigá-la?

 

--É, a decisão é da família...Mas a fisioterapia, pelo menos...

 

--Eu creio que ela não se recusará a este tratamento. Não a este. -- Mariano afirmou

 

O médico disse mais algumas coisas, pediu licença e se retirou.

 

--E quanto à conta deste hospital, Mari? Sabe em quanto vai ficar? -- estava preocupado

 

--Vai sair bem caro... -- suspirou

 

--Temos que pensar no que fazer com essa menina... coisas como essa não podem se repetir.

 

--Eu sei, como acha que me sinto? -- começou a chorar

 

--Ah, vem aqui... -- abraçou-a carinhosamente

 

Sozinha no quarto do hospital Camille estava frustrada. Pensou que conseguiria se matar, porém acabou criando mais um problema: tinha que cuidar das mãos. Não suportaria mais uma deficiência.

 

“Que droga! Nem para me matar eu sirvo!” -- pensava revoltada

 

***

 

Mariano estava na igreja ajoelhado e orando com muita emoção. Tinha muita pena da sobrinha e da irmã e não sabia o que fazer.

 

--Virgem Santa, por favor, escuta a minha prece. -- lágrimas escorriam dos olhos -- Mariângela e Camille estão sofrendo muito, e eu não sei o que fazer. A conta no hospital acabou com o dinheiro que eu tinha no banco e elas não têm mais nada desde que apareceram as dívidas de meu cunhado. Estamos todos agora sem reservas em caso de imprevistos... -- respirou fundo -- Muito pior que isso é a depressão que tomou conta das duas, porque, sim, minha irmã também está sofrendo dessa doença terrível. Eu não sei como ajudar, o que fazer... Mãe amada, Mãe Santíssima, eu imploro, ouve a súplica deste pecador, intercedei junto a teu Filho Iluminado para que alguma coisa aconteça. Alguma coisa, alguém apareça e nos dê inspiração quanto ao melhor caminho. Eu lhe suplico Mãe amada, eu lhe imploro, ajuda esta família que se desmorona... -- chorava -- Eu sei o que é sofrer por um filho, não queria nunca que minha irmã também soubesse...

 

Após alguns minutos de recolhimento Mariano se levanta, faz o sinal da cruz e se prepara para sair. A poucos passos da porta, do lado de fora, encontra com Olga, que também estava saindo da igreja com uma amiga.

 

--Senhora Olga! -- cumprimentou com um sorriso

 

--Olá senhor Mariano. Que prazer revê-lo! -- olhou para a mulher ao lado -- Esta é a amiga que visitei naquele dia. -- comentou -- Clotilde, conheça o senhor Mariano. -- apresentou

 

--Prazer! -- estendeu a mão

 

--Encantado! -- cumprimentou cavalheiresco

 

--Eu já vou indo. -- olhou para a amiga -- Olga, obrigada por me fazer companhia. Tem me ajudado muito. -- abraçou-a

 

--Conte comigo sempre, minha querida.

 

--Tchau. -- despediu-se de Mariano com um aceno

 

--Tchau, vá com Deus! -- ele retribuiu

 

Quando Clotilde se foi, Olga olhou para Mariano e perguntou preocupada: -- Como vai? Não me parece

nada bem...

 

--Eu... -- abaixou a cabeça -- De fato não estou.

 

--Quer conversar? Sou aposentada, tenho tempo. -- sorriu

 

--Eu estou de férias. -- sorriu também -- Tenho tempo...

 

--Então vamos. Conheço uma padaria onde podemos tomar um café.

 

***

 

--E a situação é essa, senhora Olga. Eu não sei o que fazer! -- suspirou -- Mari quis vir pra cá acreditando que longe das lembranças a menina iria melhorar. E que nada! Agora tem mais esse problema com as mãos de Camille. As duas estão se deprimindo dia a dia e eu sou impotente diante do fato. Daqui a pouco tenho de voltar pra casa e as duas ficarão sozinhas... Não sabe como tenho sofrido com isso!

 

Olga observava Mariano. Era um homem bonito, alto, claro, barba grisalha e calvo. Os olhos verdes pareciam salientar uma alma de garoto em um corpo de um homem. Ele aparentava ter a mesma idade que ela, uns cinqüenta anos.

 

--Vamos tentar pensar no problema a partir do mais imediato: a fisioterapia. Vocês precisam de alguém competente e ao mesmo tempo com preparo pra lidar com uma paciente que não será fácil. Espere um minuto por gentileza. -- tirou o celular da bolsa -- Alô, Juliana, bom dia? Como vai meu amor, tudo bem? -- pausou -- Eu preciso de sua ajuda, meu bem. Poderia me dar o contato da Flávia, aquela sua amiga que fez fisioterapia em Seyyed quando ela machucou o braço? -- pausou novamente -- Espero seu torpedo. -- pausou -- Nosso passeio na sexta, está de pé? Você vai folgar mesmo? -- pausou -- Ah, que bom, espero por vê-la logo. Fica com Deus, meu bem. Tchau.

 

Mariano olhava-a curioso.

 

--Bem, vamos aguardar ela me enviar o torpedo. Flávia é tudo que vocês precisam na vida da Camille. Ela é muito especial e vai fazer algo importantíssimo: colocar a menina em contato com outras pessoas que se tornaram deficientes. Ela precisa deixar de ter pena de si mesma e parar de se comparar com pessoas como nós. Ela precisa ter outras referências para ver que é sempre possível ser feliz e útil. E aí, quando ela for melhorando, tudo virá por acréscimo.

 

Mariano estava admirado. Em poucos minutos Olga parecia ter sido capaz de acalmar seu coração.

 

--No mais, recomendo que o senhor e sua irmã comecem o culto do Evangelho no lar. Estudem a Bíblia, de acordo com o entendimento de sua fé católica, e criem um clima de luz dentro de casa. Mesmo que Camille não participe, será como abrir o frasco de um perfume. Ela sentirá o ‘cheiro’ dos efeitos da palavra de Deus. -- uma lágrima rolou dos olhos dele, ela se aproximou e secou com os dedos -- Tudo vai dar certo. Tenha fé. Não existem ruas sem saída.

 

“Mãe amada, minha Virgem Santa, eu pedi alguma coisa ou alguém; a Senhora me enviou alguém. Bendita seja!” -- agradeceu mentalmente

 

 

15:30h, final de julho, Rua Arquias Cordeiro, casa 6, Engenho, Rio de Janeiro

 

A campanhia toca.

 

--Deve ser a moça. -- Mariano se levanta para atender -- Olá! -- sorri ao ver Flávia -- Entre, por favor! -- deu licença

 

--Valeu, tô entrando! -- deu um tapão no braço de Mariano. Ele se assustou

 

--É... -- esfregou o braço -- meu nome é Mariano, eu sou tio de Camille. A mãe dela tá no trabalho. -- estendeu a mão -- Como vai?

 

Ela apertou com força. -- Beleza! Eu sou Flávia. Cadê a maluca?

 

--Maluca??? -- perguntou cismado

 

--A garota. -- sorriu

 

--Ah... No quarto. -- apontou desconfiado -- A porta está aberta.

 

--Relaxa que estará tudo sob controle. -- seguiu mancando

 

Flávia era uma mulher de uns quarenta anos, branca, cabelos ondulados e alvoroçados que lhe chegavam aos ombros e olhos negros. Não era bonita nem feia, tinha o corpo forte e era muito perfumada.

 

--Fala garota! -- bateu na porta semi cerrada -- Tô entrando! -- Camille olhou-a surpresa. Estava deitada na cama -- Vai ficar aí deitada? -- perguntou sorrindo -- Vambora mulher, move criatura!

 

Camille se irritou. --Olha só, -- apoiou-se para sentar -- não vem com esse estilo tipo motivador pra cima de mim que não convence. E nem venha naquela onda de boazinha compreensiva que eu não suporto. Não quero que tenha pena de mim.

 

--Pena?? -- colocou a maleta sobre uma cadeira que se encontrava no quarto -- Qual é, baby? Por que eu teria pena de uma garota saudável, linda, jovem, que tem uma mãe bacana e um tio gato pra cuidar dela? -- sorriu

 

--Saudável? Você tá me tirando? -- olhou-a com cara feia

 

--Nunca vi falta de perna ser doença. -- abriu a maleta -- Se fosse assim eu era doente. -- retirou um estimulador ultra sônico

 

--Como assim? -- perguntou intrigada enquanto se ajeitava na cama

 

--Ih, mas você é desavisada, hein, filha? -- bateu na perna direita -- Também não tenho perna. Só que eu sou mais descolada que você. -- levantou a perna da calça -- À propósito -- pegou uma bolinha macia -- aperta aí! -- colocou-a nas mãos dela -- Consegue?

 

Camille reparou que Flávia tinha uma perna mecânica. -- Meu Deus! Eu não tinha notado! -- tentava apertar a bolinha

 

--E acha que eu manco por que? Charme? -- riu -- Essa perna aqui é nova e eu ainda não fiz amizade com ela. Só o tempo... -- começou a preparar o aparelho

 

--E... você nasceu assim? -- perguntou curiosa

 

--Eu não! Tinha duas pernas e muito bonitas, diga-se de passagem. Eu dançava tango. Cheguei a me apresentar em várias cidades, até em Buenos Aires. Meu noivo era um gato: 1,95m, moreno, cabelos negros em um rabo de cavalo... Bem Antônio Bandeiras, sabe como é? Eu estudava química, estava no sexto período.

 

--E aí? -- continuava curiosa

 

--E daí que um belo dia eu dirigia meu carro, ouvindo Janis Joplin cantar Piece of My Heart, comendo uma tangerina maravilhosa de doce, quando um maldito gominho cai no chão carro. -- desenrolava fios -- Eu, que era maníaca de limpeza com aquele carro, achei de me abaixar pra pegar o gominho, mas esqueci de um pequeno detalhe: estava na Dutra. -- sorriu -- Lembro como se fosse hoje. Um segundo pra abaixar e pegar a fruta e em um segundo havia um enorme caminhão na minha frente. Foi uma cacetada e tanto! -- balançou a cabeça

 

--E por isso perdeu a perna?

 

--Ela ficou imprensada nas ferragens. Tiveram que cortar, não tinha jeito.

 

Camille engoliu em seco. Apertava a bolinha devagar.

 

--Meu namorado foi o primeiro a dar no pé. O tango perdeu o sentido pra mim e a faculdade eu deixei. Achei que cursar fisioterapia tinha mais a ver com minha nova realidade. -- abriu os braços -- E aqui estou pra bagunçar o seu penteado! -- riu

 

--Mas... -- Camille estava surpresa -- como foi que conseguiu continuar estudando?

 

--Filha, ei, -- estalou os dedos -- acorda! Eu perdi a perna e não o cérebro. Além do mais nunca precisei de perna pra fazer prova.

 

--Não ficava com vergonha de ir pra faculdade assim? -- apontou para Flávia -- Cercada de gente jovem, bonita e saudável!

 

--Vergonha de que? -- olhou ao redor -- Tem tomada aqui não? Ah, achei. -- plugou o aparelho na tomada -- Vergonha é roubar. -- o telefone toca. Ela pega para ver quem é e desliga -- Meu namorado vai ficar uma fera mas eu não atendo telefone trabalhando. Agora largue a bolinha e estique as duas mãos. -- pegou uma almofada -- Apóie aqui que eu vou usar o transdutor. -- sentou-se na cama a seu lado

 

--Você namora????? -- perguntou em choque

 

--Eu hein, nêga, se liga. Claro que sim.

 

--Como pode?

 

 

--Eu perdi a perna e não a periquita. -- riu -- E essa aqui continua mais voadora que nunca. -- riu de novo

 

--Eu... acho incrível isso. Você não pode gostar de viver assim, é muito triste. -- suspirou -- Eu daria tudo pra morrer!

 

--Ei! -- Flávia parou e olhou bem para ela -- Garota, escuta uma coisa: não se desperdiça vida! Se você está viva, é porque tem muito chão pela frente. Não pode caminhar? Pula. Não pode pular? Rasteja. Não pode rastejar? Imagina o caminho e segue com o pensamento. Mas parar?? NUNCA! -- voltou a usar o ultra som -- E outra coisa, esse lance de tentar se matar é bobeira pura. -- olhou para Camille -- Acha que suicida termina bem? Seria muito pior do outro lado.

 

--Ah, não! Parou, parou. Não me venha com esse lance de vida após a morte. Eu sou cética. -- pausou -- Na verdade sou atéia. “A religião é o ópio do povo.”12 Já ouviu essa citação?

 

 

--“O ceticismo é o barateamento de uma certa filosofia. O cético não vive, desconfia. Não participa, espia. Não faz, assiste.”13 Já ouviu essa? Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

 

Camille calou-se. A história daquela mulher, uma figura, diga-se de passagem, deixou-a surpresa. Achava incrível como podia estar tão bem apesar de tudo.

 

--Você não come bem não, nêga? Não pega sol, não sai, não vê gente, não namora, não trans*? -- rompeu o silêncio repentinamente com estas perguntas

 

--Como pouco, nem sempre tenho fome. -- pausou -- E o resto das perguntas... não.

 

--Está dando mole. Se eu fosse bonita como você não teria um namorado.

 

-- Por que?? O que quer dizer??

 

 

--Teria uns três ou cinco. Pra que perder tempo com um se você pode pegar mais?

 

Camille balançou a cabeça.

 

--Escuta, se não tiver programa pra 03 de setembro, anota aí no teu caderninho, 03 de setembro, queria te convidar pra uma coisa maneira.

 

--O que?

 

--Será minha luta final pela disputa do cinturão de ouro carioca; campeonato amador. Tenho certeza que estou dentro da final. As minhas adversárias não me chegam aos pés. -- riu -- Quer dizer, ao pé.

 

--Luta final??

 

--Eu luto boxe, peso médio.

 

--Como??

 

--Ô mulher, você é lesadinha viu? Boxe!! Eu luto boxe.

 

Camille tinha um ponto de interrogação na cabeça.

 

--Depois do acidente eu me envolvi nesse lance de esporte. Aí adotei o boxe. Eu sempre gostei de uma pancadaria boa e agora até me pagam pra acertar umas e outras. -- pausou -- Os dentistas é que devem gostar porque já arranquei uns 50 dentes por aí.

 

Camille não agüentou e riu. “Nossa, fazia tempo que eu não ria...” -- pensou

 

Mariano prestava atenção a tudo do lado de fora. Correu e ligou para o celular de Mariângela.

 

--Mari, sou eu. Escuta, escuta, -- estava excitado -- a tal da Flávia é totalmente maluca mas ela fez um milagre: fez Camille rir!! -- pausou -- Isso, ela riu. Estão conversando! A mulher é deficiente física do mesmo jeito que Camille. -- pausou -- É, ela servirá de bom exemplo pra menina, tenho certeza. -- emocionou-se -- Eu acho que vai dar certo, irmã. Pode demorar mas vai... -- sorriu

 

***

 

--Moça, filha... você, japonesa... ei! -- uma senhora deitada na maca chamava por Juliana

 

--Que foi, hein? -- aproximou-se respondendo com impaciência

 

--Queria lhe agradecer. -- tomou a mão de Juliana -- Queria muito lhe agradecer. -- sorriu

 

--Por que? -- perguntou desconfiada

 

--Pelo seu trabalho. Você tem sido muito atenciosa comigo e fazia muitos anos que ninguém ligava para esta pobre velha... -- continuava sorrindo

 

--Mas eu... -- ficou sem graça -- nada faço além da obrigação...

 

--Trabalho feito por fazer é obrigação, trabalho feito com dedicação é um ato de amor. -- colocou um cordãozinho na mão dela -- Tome, é seu. Jesus vai lhe proteger.

 

Juliana olhou o cordão dourado com um pequeno crucifixo. -- Eu não posso aceitar, dona Sonia...

 

--Deve aceitar. É meu presente. É a única coisa que posso lhe dar.

 

--Eu... -- aquilo a pegou de surpresa. Estava emocionada -- Eu não fiz nada pra merecer isso...

 

--Fez sim. Cuidou de mim com atenção. Você me olhou e me viu. -- sorriu -- Bendita seja, que Deus ilumine seus caminhos para sempre. -- fechou os dedos de Juliana para que apertasse o cordão entre eles

 

A japonesa agradeceu com a cabeça e se afastou. Seu plantão já estava se encerrando. Ela cumpriu suas últimas obrigações, passou o serviço para a colega substituta e partiu.

 

***

 

Juliana chegou no hospital e começou a visitar as enfermarias para administrar os remédios dos pacientes. Depois de umas horas notou a ausência de dona Sonia.

 

--Rosângela, cadê dona Sonia? Decidiram operar a coitada hoje? -- fazia anotações

 

--Não, Ju. Ela morreu ontem de madrugada. -- respondeu friamente

 

--O que?? -- Juliana estremeceu

 

--Ela morreu. As meninas disseram que parecia até que a velha sorria.

 

--Mas, por que morreu??

 

--Parada cardíaca. Também, se não fosse isso seria de infecção. Tinha uma escara enorme nas costas.

 

Juliana não conseguiu conter as lágrimas e chorou silenciosamente. Horas mais tarde, estava com o cordão no pescoço.

 

***

 

--Tenho duas coisas interessantes pra contar.

 

--Estou ouvindo. -- disse Ivone

 

--Eu fui na oficina de Ed. Estava muito mal, sofrendo com saudades da gente. Cheguei lá e meti-lhe um tapa nas fuças.

 

--Minha nossa!! Por que fez isso??

 

--Eu tava com ódio dela. Desabafei tudo o que estava entalado na garganta.

 

--E ela, como reagiu?

 

--Ela chorou comigo, me abraçou, me deu carinho e pediu perdão. -- emocionou-se -- Ela disse que queria meu bem e que realmente me amou um dia.

 

--Como se sentiu?

 

--Foi como se um peso me saísse das costas, sabe? -- pausou -- Ainda não gosto do esqueleto de piranha mas até isso... parece que o ódio virou antipatia.

 

--Você não é obrigada a gostar dela, mas precisa aprender a respeitá-la.

 

--Talvez um dia... -- passou a mão nos cabelos -- A outra coisa foi uma senhora que me agradeceu pelo meu trabalho, me deu este cordão e horas depois foi a óbito. Eu fiquei muito emocionada, sabe? Ela disse

assim: “Você me olhou e me viu. Bendita seja, que Deus ilumine seus caminhos para sempre.” -- repetiu as palavras da outra -- A colega disse que ela parecia ter morrido feliz. Será que fiz a diferença pra ela? -- perguntou esperançosa

 

--Tem dúvidas? Toda a diferença. -- sorriu -- Qual foi a sensação que sentiu?

 

--Orgulho de ser enfermeira. -- lágrimas furtivas rolaram-lhe pelas faces -- Depois de tempos de absoluta indiferença.

 

--Você ainda é jovem, Juliana. Pode sentir isso muitas vezes mais, por muito tempo.

 

--Agora eu entendi, acho que entendi, tudo que me disse sobre meu trabalho. Eu quero fazer a diferença!

 

Ivone segurou as mãos dela. -- Então faça! Você pode! Pode tudo que quiser, inclusive ser feliz. Só depende de você.

 

***

 

Ed e Isa caminhavam de mãos dadas na praia do Recreio. Ed usava biquíni e short jeans. Isa vestia uma saída de praia branca, estilo camisão.

 

--Esse domingo tá sendo um dia gostoso, não é? -- a morena perguntou -- Tempo bom, sol na medida certa... Ótimo pra uma praia.

 

--Também achei. -- pensou e perguntou -- Ed, por que tá me evitando?

 

--Acha isso? Você tá se preparando pra entrar pra faculdade e eu tenho três carros que um colecionador deixou com a gente pra restaurar. Somos só quatro pessoas especializadas nisso na oficina. Toma tempo.

 

--Não é isso... desde que a maluca da Juliana foi lá atrás de você fazer escândalo eu te sinto diferente.

 

--Isa, não a chame de maluca, eu não gosto. -- suspirou -- Sabe? -- parou de caminhar e olhou para ela -- Juliana não foi lá fazer escândalo, chantagem ou tentar voltar. Ela desabafou. E o que eu vi ali foi sofrimento. Sofrimento real. Eu fiquei mal, me senti péssima. -- olhou para o mar -- Eu me sinto muito culpada pelo mal que lhe causei.

 

--Ed, você não fez nada. -- virou o rosto da morena para si -- Ela foi quem estragou tudo com os ciúmes...

 

--Isa, eu notei que ela tava mudando e deixei rolar por vaidade. Vaidade em ter uma mulher bonita e interessante aos meus pés.

 

--Como se isso fosse novidade pra você...

 

Ed riu brevemente. -- Pare com isso, não sou esse sucesso todo. -- pausou -- Eu deixei acontecer, e quando a coisa ficou feia eu a abandonei.

 

--E o que poderia fazer? Aturar situações absurdas até o fim? -- largou a mão de Ed -- Se está arrependida e quer voltar para ela...

 

--Não! -- interrompeu-lhe com delicadeza -- Eu quero você. -- tirou os óculos escuros e olhou-a diretamente -- Eu quero você! E não quero te magoar como fiz com ela.

 

--Pare de se condenar tanto. -- Isa tirou os óculos também -- E pare de me tratar como se eu fosse de cristal porque não sou, eu não vou quebrar. -- suspirou -- Acho que já era a hora de você me tratar como uma mulher, não é?

 

--É... -- passou a mão nos cabelos -- Mas as coisas entre nós... Fico incomodada em te namorar escondido... -- pausou -- Seus pais nem sabem que eu existo.

 

--Não é o melhor momento. Desde que voltei de viagem noto que eles estão vivendo uma crise conjugal que só se aprofunda. Às vezes acho que papai tem um caso. -- suspirou -- Tenho certeza de que graças a esta crise eles ainda não desconfiaram de nada.

 

--Eles nunca estarão preparados para saber de você. De nós. -- colocou os óculos de volta -- Ao mesmo tempo tenho medo de como ficaria o clima na sua casa se eles soubessem. É uma situação difícil...

 

--Se é, mas vai ter que acontecer... -- suspirou -- Mas que não seja agora.

 

--Vem querida. -- voltaram a andar de mãos dadas -- Você deve me achar uma babaca...

 

--Não... -- olhou para ela -- Eu gosto dos programas que fazemos juntas, do modo como se interessa pelas minhas coisas... Adoro quando você vai me ver no Municipal, quando me explica sobre a doutrina... Gosto quando me dá verdadeiras aulas sobre carros, quando me fala das coisas que gosta... me encanto com você a cada dia. -- sorriu

 

--E eu também com você. -- pausou -- Se estou indo devagar é porque não quero te magoar.

 

--Eu sei, mas repito, não sou tão frágil quanto pensa. Eu... -- parou de andar novamente. As duas ficaram paradas frente a frente -- eu quero um relacionamento mais adulto. Não sou mais uma adolescente bobinha!

 

Seyyed tocou o rosto da namorada com muito carinho e sorriu.

 

***

 

Seyyed estava deitada debaixo de um Renault Dauphine, macacão de trabalho e cabelos presos em um rabo de cavalo. Eram seis da tarde. De repente ouve passos e sente um cheiro bom de perfume. Deslizou a prancha saindo de sob o carro e sentou-se. Viu que Isa se aproximava.

 

--Sabia que era você. -- levantou-se -- Só não sabia que viria aqui hoje. -- admirou-a de cima a baixo -- Maravilhosa surpresa. -- sorriu -- Está deliciosa. -- disse com desejo

 

--Como sabia que era eu? -- aproximou-se charmosamente

 

--A minha mulher eu conheço pelo andar e pelo cheiro. -- disse com voz rouca

 

Isa arrepiou-se. -- Mas acontece... -- começou a brincar com um botão do macacão -- que não sou sua mulher... ainda. -- encarou-a timidamente mordendo os lábios

 

--Que acha de viajar comigo na sexta à noite e só voltar no domingo? Vamos ficar em um chalezinho em Penedo?

 

--Tentador... Se Tati e Renan fossem conosco, eu poderia dizer que vou viajar com amigos...

 

--Não deixa de ser verdade... falo com Renan. -- sorriu

 

***

 

Ed, Isa, Tatiana e Renan foram para Penedo na sexta. Ed em seu carro e Renan no dele.

 

O hotel era composto por chalés harmoniosamente distribuídos em um belo trecho de mata situado no final da rua principal, oferecendo muita privacidade, e, no entanto, ainda possibilitando que os hóspedes circulassem pela cidade sem precisar de carro.

 

--Graças a Deus só pegamos um engarrafamento na saída do Rio e nada mais. -- Isa entrou no quarto -- Ai, Ed que chalezinho aconchegante... -- sorriu

 

--E o melhor de tudo: -- colocou as malas sobre a bancada de madeira -- privacidade total. -- agarrou-a pela cintura e beijou-lhe os lábios

 

--E o que você pensa em fazer comigo pra desejar tanta privacidade? -- envolveu o pescoço da morena com os braços e perguntou sensualmente

 

--Tudo que você quiser. -- começou a explorar seu pescoço e percorrer o corpo da ruiva com as mãos

 

--Ai, Ed... -- gem*u

 

--Toma um banho comigo? -- sussurrou ao seu ouvido -- Quero conhecer cada pedacinho desse seu corpo

gostoso...

 

Isa arrepiou e desvencilhou-se dela. -- Quer? -- sorriu sensualmente

 

Ed tirou a blusa e a calça jeans, ficando apenas de roupas íntimas. -- Muito! -- respondeu com voz gutural

 

--Vem me despir, então... -- correu para o banheiro

 

Ed sorriu, tirou calcinha e sutiã e foi para o banheiro. Isa tirou os sapatos e apagou a luz.

 

A luminosidade vinda de fora deixou o quarto banhado por uma meia luz dourada. A morena aproximou-se lentamente, como uma leoa cercando sua presa, e ajoelhou-se no chão. Desabotoou a calça jeans da namorada e puxou-a para baixo seguindo uma trilha de beijos ao longo de suas pernas. Isa gem*u excitada. Mãos fortes tatearam até a cintura e foram abrindo botão a botão de sua blusa. Os lábios ansiosos seguiram beijando a barriga até encontrar o bojo do sutiã. Ed levantou-se e puxou Isa pela cintura para colar seu corpo no dela.

 

--Adoro quando você me puxa assim. -- sorriu -- Sempre quis ser tomada com ardor.

 

--E vai ser... -- mordeu a orelha da ruiva, desceu pela linha do pescoço e arriou as duas alças de sutiã, desabotoando-o nas costas

 

As mãos seguiram pela cintura até encontrar o cós da calcinha. Deslizou a peça para baixo e esta caiu naturalmente até o chão. Sem que Isa esperasse, Ed mordeu o bico do seio provocantemente.

 

--Ai... -- gem*u excitada

 

Ed esticou o braço e girou o registro abrindo o chuveiro. Entrou no box conduzindo a namorada.

 

Começaram a se beijar, acariciando-se e desvendando o corpo uma da outra a medida que a água umedecia a pele. Isa pegou um gel de banho do hotel e derramou sobre Ed, esfregando e arranhando delicadamente a trilha que o gel fazia. A mecânica pressionou-a contra a parede e ergueu-a segurando pelas coxas.

 

-Aaaahh!! -- Isa gem*u e fechou os olhos. Sentia a excitação crescente

 

Ed amava a ruiva com intensidade e Isa sentia um prazer como ainda não havia experimentado.

 

***

 

Ed envolveu Isa com uma toalha felpuda, levantou-lhe no colo e levou-a para a cama.

 

 

--Eu queria dançar pra você. -- Isa disse sensualmente

 

--Fique à vontade. -- respondeu sentando-se na cama e deixando-a se levantar

 

Mesmo sem qualquer música ao fundo, o quarto a meia luz, Isa levantou-se e deixou a toalha cair livremente. Iniciou a dança lentamente, começando com leves movimentos do corpo que foram evoluindo progressivamente em uma expressão suave de desejo, como se estivesse contando a história de seus sentimentos ao longo do tempo. Sensualmente continuou bailando de um jeito que seu corpo inteiro parecia falar de paixão.

 

Ed se viu totalmente excitada e quando Isa começou a rebol*r de costas para ela, puxou-a para junto de si e tomou seu pescoço com beijos vorazes enquanto suas mãos percorriam o corpo da bailarina com urgência.

 

--Eu te quero, Isa. -- sussurrou no seu ouvido

 

--Então me tome pra você -- respondeu languidamente de olhos fechados

 

A morena virou a jovem de frente para si e ergueu-a até que as pernas da bailarina enroscassem sua cintura. Olhou fixamente em seus olhos, caminhou até a cama e deitou-a no leito.

 

--Ah!!!! -- Isa gem*u alto e reclinou a cabeça para trás. Ed explorava seu corpo completamente

 

Isa sentiu o peso da outra sobre seu corpo e puxou-a para si, envolvendo-a com uma das pernas enquanto começou a arranhar-lhe as costas. Isso deixou a mecânica ainda mais excitada.

 

Os gemidos pareciam vir de todos os lugares daquele quarto.

 

***

 

Começaram o sábado com um passeio pelo centro, andaram a cavalo e tomaram banho de cachoeira. Em um dado momento, Ed e Renan estavam na água e as outras garotas pegavam sol.

 

--Menina, deixa eu te falar! Alguém andou fumando uns trem brabo no nosso chalé e eu tive uma crise de espirros que durou quase a noite toda. Renan deixou as janelas abertas e quem disse que adiantou? Foi até pior porque entrou um vento frio...

 

--Como alguém andou fumando, criatura? -- riu -- Devia ser poeira. Vai ver a camareira não limpou bem.

 

--Pode ser. A droga é que minha noite foi péssima. Não consegui dormir direito e ainda perturbei o sono de Renan.

 

--Graças a Deus não tivemos esses problemas... -- Isa sorriu e fechou os olhos -- Foi uma noite MARAVILHOSA!!

 

--Ih! -- Tatiana olhou para os dois lados -- Aconteceu? -- perguntou curiosa

 

Isa mordeu os lábios e balançou a cabeça sorridente.

 

--Deixa eu te perguntar, e é bom mesmo? Não te pareceu que estava, como diria Djavan, faltando um pedaço?

 

Isa riu. -- Não faltou pedaço de nada, posso garantir.

 

--Nossa... -- Tatiana balançou a cabeça -- eu não entendo como pode ser, mas... que bom. Espero que seja sempre assim.

 

--E vocês dois? -- perguntou também -- Até bem pouco tempo também não tinham feito nada...

 

--Ah... aconteceu mas não hoje. Foi há uns dias atrás lá em casa. E foi do jeito como eu queria: delicado, carinhoso, terno... Renan é um rapaz maravilhoso. -- sorriu -- Eu não deixo de agradecer por aquela ida na danceteria. Não fosse aquilo não teria conhecido Renan e talvez ainda chorasse por Marcelo.

 

--É, aquela danceteria mudou algumas coisas... -- olhou para Ed e Renan brincando na água

 

--E Priscila, quando será que vai se aquietar com alguém? Eu perco as contas de quantos namorados teve desde que a conheço. Acredita que um dia eu cheguei da faculdade e dei de cara com um homem de 2m de altura, por 1m largura e meio de espessura sentado na poltrona? -- pausou -- Fechei a porta correndo acreditando estar na casa errada. Depois abri de novo e perguntei quem ele era e não deu outra: ficante de Priscila. E tem base?

 

--Eu hein. E aí?

 

--E aí que quando é fé ela me aparece produzida demais da conta e eles se foram. No dia seguinte, já era um outro. -- riu -- Eu fico perdida e sempre acho que entrei na casa errada.

 

--Priscila é assim mesmo. Mas daqui a pouco ela se prende a alguém. -- pausou -- E Patrícia? Como anda? Nunca mais a vi.

 

--Ah, aquela ali tá sofrendo demais da conta, fi. Se apaixonou pela escaladora Sabrina e só vive caçando ela. Mas a garota não quer saber de namorar nossa amiga. Só quer mesmo é sacanagem!

 

--Pensei que namorassem! Lembro de Patrícia toda animada com ela naquela festinha...

 

--Ah, mas você não sabe da missa a metade! Sabrina disse a nossa amiga que quer sair com Ed também. E

isso depois de terem feito amor! Pat chegou em casa arrasada...

 

--Como é que é isso?? -- Isa tirou os óculos e se sentou surpresa -- Ela quer sair com Seyyed??

 

--Ih, eu e minha boca grande... -- Tatiana tampou a boca com as mãos

 

***

 

Isa, Ed, Tatiana e Renan jantavam juntos no Rei da Truta.

 

--Amor, que carrão lindo era aquele que você consertava quando eu fui lá? -- Isa perguntou

 

--Era um Renault Dauphine 1963. Um dos três carros que um colecionador deixou pra a gente restaurar. Aliás ele só apareceu com carro estiloso: tem mais um Gordini 1964 e uma Willys Interlagos Berlinette de 1966.

 

--Qualquer oficina sabe fazer isso? -- Tatiana perguntou curiosa -- Restaurar estes carros antigos?

 

--Não. -- Ed respondeu orgulhosa -- Restaurar carros antigos é um trabalho altamente especializado; não é muito diferente das restaurações de monumentos históricos. Você precisa saber como trabalhar pra recuperar de forma idêntica o modelo que tá diante de você. Temos uma parceria com uma oficina tradicional de São Paulo e compartilhamos um acervo de dados sobre modelos antigos, daí é como se fosse uma verdadeira biblioteca pra gente obter informações preciosas de cada detalhe dos veículos. O mais raro é mais difícil é a informação sobre a tonalidade das cores da época do carro. Gasta-se tempo nisso...

 

 

--A gente também tem uma parceria com uma marcenaria onde tem profissionais especializados. São dois marceneiros e um vidraceiro. -- Renan complementou -- Ah, e com uma funilaria também.

 

--E como você aprendeu isso, Ed? -- Isa perguntou curiosa e orgulhosa ao mesmo tempo

 

--Pesquiso sobre carros antigos desde meus onze anos. No curso técnico tive um professor que era colecionador e ele me levava pra oficina, que era a única do Rio que fazia este tipo de serviço. Depois também fiz um curso sobre isso em São Paulo, conheço um monte de gente da Associação Clube do Carro Antigo no Brasil e vou nos eventos deles sempre que posso. Ano passado fiz um curso em Dallas.

 

--Sério?? Você nunca me disse que esteve nos Estados Unidos -- Isa riu -- Estou sempre me surpreendendo com você...

 

--Você também sabe isso, amor? -- Tatiana perguntou a Renan

 

--Sei! Eu também fiz curso e um estágio de um mês em São Paulo. -- disse orgulhoso

 

--Por que tem gente que coleciona carro antigo? -- Tatiana perguntou

 

--Hobby, paixão por carros... É um verdadeiro patrimônio paralelo que a pessoa vai construindo. E eles ainda alugam pras novelas e tiram uma boa grana.

 

--Interessante isso. -- Isa disse -- Já pensou em expandir mais sua atuação nesse ramo?

 

--Eu quero expandir muito mais nossa atuação e o conceito: a idéia de integração do jovem com síndrome de Down. Penso também em integrar o jovem de rua e por aí vai.

 

--Ah, já que o assunto é integração, deixa eu falar: que acham de irem no evento que estou organizando pra quarta que vem? Será o início de um ciclo de palestras sobre os negros que marcaram a história do Brasil. Começaremos debatendo sobre Machado de Assis e Mercedes Baptista. Vai ser lá na Concha Acústica da UERJ.

 

--Machado de Assis era negro? Igual a gente?? -- perguntou Renan

 

--Mulato, na verdade. Nasceu no morro e prosperou muito devido a sua capacidade intelectual. Escreveu em praticamente todos os gêneros literários e é comparado a clássicos como Dante, Shakespeare... -- Tatiana explicou

 

--Eu conheço a história de Mercedes Baptista. Ela foi a primeira bailarina clássica negra do Brasil e a primeira que passou no concurso pro corpo do balé do Municipal. Ai, eu quero ir... -- olhou para Ed -- Vamos?

 

--Com certeza. Tatiana, posso chamar minha mãe? Ela vai gostar.

 

--Claro, uai!! Eu quero ver gente lá prestigiando. -- olhou para Renan -- E você, amor?

 

--Eu não tenho cultura pra ir nessas coisas... -- respondeu timidamente

 

--Ah, não... -- segurou a mão dele -- Não pense assim. Você é tão culto e inteligente que sabe até restaurar carro antigo!

 

Ele sorriu animado e disse: -- Acha isso? Então eu vou.

 

***

 

Por volta das 22:00h Ed e Isa estavam no quarto. Ed usava uma blusinha justa e short curto e Isa uma camisola sensual. Ela escovava os cabelos no banheiro. A morena veio por trás e abraçou-lhe pela cintura.

 

--Será que eu teria hoje de novo a honra de provar a mais gostosa bailarina que já vi na vida? -- mordiscava-lhe a orelha

 

--Hum... -- soltou a escova e fechou os olhos -- Como eu poderia resistir a isso? -- sorriu -- “Meu Deus, ela me deixa louca...” -- Isa pensou

 

A mecânica saiu do banheiro, tirou a roupa e deitou na cama.

 

--Vem, minha gostosa. -- chamou imperativa, mas sem agressividade -- Vem aqui.

 

Isa não veio. Ed levantou-se e foi até o banheiro novamente. Agarrou a ruiva por trás e disse ao seu ouvido: -- Por que você não veio? Eu te quero agora!

 

Isa ficou ao mesmo tempo com medo e arrepiada de desejo.

 

--Vem aqui. -- segurou sua mão e caminharam até a cama. Deitou-se de barriga para cima e ficou olhando para ela -- Fica nua pra mim, vai?

 

--Tô com vergonha... -- corou e abaixou os olhos -- Ontem estávamos a meia luz e hoje estas luzes estão acesas... o quarto tá muito claro...

 

--Vergonha de que? De ser gostosa? De ser desejada? De me deixar maluca? -- sua voz era sensual -- Para com isso, gatinha... Tira essa camisola e deixa eu ver o corpo da minha mulher, vai?

 

Isa respirou fundo e deixou a camisola cair, ficando nua diante de sua amante, que se sentou. Lembrou-se da música Luxúria, interpretada por Isabella Taviani [c].

 

https://www.youtube.com/watch?v=o47TlqRdP0E

“Dobro os joelhos,

Quando você, me pega,

Me amassa, me quebra,

Me usa demais...”

 

--Perfeita! -- disse com muito desejo -- Vem aqui! -- estendeu os braços

 

E ela veio, ainda receosa, e segurou as mãos de Ed, que a puxou para mais perto de si. Em segundos estavam abraçadas.

 

--Tem medo de que, minha gata? -- olhava fixamente para Isa -- Você é minha mulher, eu não vou te fazer mal. -- deslizou a mão pela coxa da outra -- Eu só quero fazer amor com você, -- roçava os dedos no sex* da jovem -- te dar prazer e te fazer minha. -- continuava provocando -- Minha!

 

--Ah, ah, ah-- cravou as unhas nos ombros da morena e fechou os olhos

 

“Perco as rédeas,

Quando você,

Demora, devora, implora,

E sempre por mais...”

 

--Senta aqui, vem. -- a ruiva obedeceu -- Isso... -- movimentava-se lentamente -- agora rebol* gostoso aqui comigo. Você dá o ritmo. Vai...

 

A bailarina continuava de olhos fechados e rebol*va como se dançasse.

 

--Isso, gata... Agora abre os olhos e olha para mim! -- segurava-a pela cintura

 

“Eu sou navalha cortando na carne,

Eu sou a boca,

Que a língua invade,

Sou o desejo,

Maldito e bendito,

Profano e covarde...”

 

A bailarina criou coragem e encarou sua amante. O que viu foi um olhar de desejo intenso misturado com carinho e admiração.

 

--Eu quero ver você goz*r. -- deslizou uma das mãos até os seios -- Sem vergonha nenhuma, isso...

 

Isa se soltou mais e levantou os braços por sobre a cabeça rebol*ndo sensualmente.

 

--Hum, mas que mulher deliciosa, gostosa, sensual... Vai gatinha, rebol* assim, vai...

 

A bailarina sorriu, se sentindo a mulher mais desejada do mundo. Estava adorando aquilo tudo.

 

***

 

Isa estava deitada de bruços e Ed começou a beijar suas costas.

 

--Vamos de novo?

 

--De novo? Já fizemos duas vezes... -- sorriu de olhos fechados

 

--Sim, mas a gente ainda não variou muito de posição... Eu quero você assim, de costas pra mim. -- seguiu beijando até o pescoço -- Está a fim?

 

Isa ficou com medo e disse desconcertada: -- Eu... eu... não tenho muita coragem de fazer este tipo de sex*...

 

--Qual tipo? -- perguntou enquanto ainda beijava e acariciava seu corpo

 

--Anal... -- respondeu tão baixo que quase não foi ouvida

 

--Relaxa... Eu não vou fazer isso contigo. Confia em mim...

 

--O que você vai fazer? -- permaneceu de costas e desconfiada

 

--Amor com você. -- deitou-se sobre ela -- Confia em mim.

 

Lembrou da música novamente:

 

“Desfaça assim de mim,

Que eu gosto e desgosto,

Me dobro, nem lhe cobro...”

 

Seyyed começou a explorar seu corpo.

 

“Ordene, não peça,

Muito me interessa,

A sua potência,

Seu calibre, seu gás...”

 

A sensação era gostosa, boa, excitante... Isa espontaneamente fechou os olhos, levantou o braço esquerdo e agarrou a morena pelos cabelos da nuca, puxando-a mais para si.

 

“Sou o encaixe,

O lacre violado,

E tantas pernas,

Por todos os lados,

Eu sou o preço,

Cobrado e bem pago,

Eu sou,

O pecado capital...”

 

Quando estava perto de goz*r Ed pediu: -- Me diz quando estiver quase goz*ndo.

 

--Eu tô! Ah, ah...

 

A morena puxou a ruiva para que ficasse de joelhos e permaneceu posicionada atrás dela.

 

“Eu quero é derrapar nas curvas do seu corpo,

Surpreender seus movimentos,

Virar o jogo,

Quero beber o que dele escorre pela pele,

E nunca mais esfriar,

Minha febre...”

 

Isa sentiu os joelhos ficarem bambos e desabou na cama. Ed beijava suas costas devagar.

 

“Eu quero é derrapar nas curvas do seu corpo,

Surpreender seus movimentos,

Virar o jogo,

Quero beber o que dele escorre pela pele,

E nunca mais esfriar,

E nunca mais esfriar, E nunca mais esfriar, Minha febre...”

 

***

 

Seyyed vinha dirigindo enquanto Isa apreciava a paisagem e se lembrava das noites anteriores. Somente a lembrança era suficiente para deixá-la excitada.

 

--Ed? -- olhou para ela

 

--Sim, querida.

 

--Você gostou de mim? -- perguntou receosa -- Eu digo, na cama...

 

--Tem dúvidas? -- sorriu olhando para ela

 

--Você não disse...

 

--Minhas atitudes disseram por mim. Você que gosta de Locke não lembra que ele escreveu que “nossas ações são as melhores interpretações de nossos pensamentos”?

 

Sorriu. -- Eu sempre tive a maior curiosidade em saber como seria com uma mulher... É muito bom... Pelo menos com você é! -- falou sem pensar

 

--Fez amor comigo somente por curiosidade, Isa? -- perguntou decepcionada

 

--Claro que não! -- respondeu resoluta

 

Após alguns instantes de silêncio a mecânica perguntou: --Você me ama? -- olhou para a outra

 

--Não acha que é muito cedo pra falar de amor? -- perguntou sem graça. Não sabia o que dizer

 

Seyyed ficou calada e prestando atenção no trânsito. Depois de um tempo disse: -- Eu tô te namorando sério, Isa. Não é apenas pra passar o tempo!

 

--Ed, escuta... -- respirou fundo -- Eu gosto de você, te admiro, me encanto com você a cada dia, mas não estou pensando em compromisso sério, entendeu? -- olhou para a morena. Falava com delicadeza -- Eu vivo um dia de cada vez, e se você quer saber, nunca nem passou pela minha cabeça a idéia de casar. Meu foco sempre foi minha carreira.

 

A mecânica não disse mais nada e voltou dirigindo pensativa e triste. “Ela não me ama, isso é claro...” -- lamentou

 

***

 

Estavam de pé. Patrícia e Sabrina faziam sex* com ansiedade. Patrícia beijava e mordia pescoço e orelha da amante. Falava mil bobagens baixinho, fazendo-a sorrir várias vezes. Era bom, Sabrina pensava.

 

A escaladora sentiu que seu prazer se aproximava e deixou isso bem claro. Patrícia intensificou seus movimentos e ao final as duas chegaram ao orgasmo juntas.

 

--Prefiro esse do que aquele que usou da primeira vez. -- Sabrina buscou o roupão e vestiu

 

--Ainda acha que sou fraca? -- Patrícia perguntou receosa

 

--Falei na hora da raiva. Você tava me estressando.

 

--Oxente, você trans* comigo e fala em sair com outras pessoas!

 

--Eu saio com quem eu quero... -- sentou-se na cama -- Você é que é muito machista!

 

--Machista? Cadê o macho aqui, mulher?

 

--Não precisa! Você acha que porque fica dentro de mim está por cima. Machista como um homem. Mas comigo não cola! Saio com quem quero e faço o que quero. Se sou vadia, sou tanto quanto você!

 

--Tem saído com alguém?

 

--Que acha? -- sorriu e pegou o controle remoto -- Não sou mulher pra uma só.

 

--Rapariga! -- reclamou enciumada

 

Sabrina olhou para a amante e respondeu com raiva: --Você luta tanto pelos direitos das mulheres, e é tão machista quanto os homens que critica. Se me acha tão vagabunda assim, e se minha liberdade te incomoda, o que ainda faz me procurando e me ligando a todo momento?

 

Patrícia sentou-se a seu lado. -- Desculpa, eu falei sem pensar... Tenho ciúmes de você... meu coração fica num aperreio só... Desculpe... -- pediu gentilmente -- A gente podia tentar... um lance legal. Quem sabe?

 

--Não... -- ligou a TV -- Estou fora. -- pausou -- E quero que não guarde ressentimentos, nem mesmo quando eu sair com alguma amiga sua.

 

--Ed! -- revirou os olhos -- Mas você cismou com isso, Ave Maria! -- levantou-se com raiva -- Você nem encontra com ela, nem a vê. E ela namora Isa!

 

--E vai continuar namorando... -- sorriu maliciosa -- Eu só quero experimentar...

 

--Por que você tem tanto medo de ter um relacionamento verdadeiro e só quer viver pulando de cama em cama? -- Patrícia perguntou chateada

 

--Eu não quero saber de amor, Pat. Nunca mais! -- respondeu resoluta

 

--Quem te magoou tanto a ponto de não querer tentar com mais ninguém? Eu não vou te magoar, Sabrina! Dá uma chance para mim! -- pediu

 

--Então eu acho que sou eu quem vai te magoar... -- desligou a TV e foi para o banheiro

 

***

 

Seyyed e a mãe jantavam juntas.

 

--Então mãe, vai mesmo com a gente no evento da Tatiana?

 

--É amanhã, não é? Vou sim. Vocês vêm me buscar aqui em casa?

 

--Claro! Eu venho te buscar e depois a gente vai buscar a Isa.

 

--Como vai ela, à propósito?

 

--Bem, graças a Deus. -- pausou -- Mãe, eu tenho uma coisa pra te dizer. -- pausou de novo -- A gente fez amor durante a viagem em Penedo.

 

--Imaginei que fosse acontecer. -- pausou -- Está certa de que você quer se envolver com ela ou se deixou apenas levar pelo desejo?

 

--Na verdade eu tô gostando dela como ainda não gostei de ninguém. É forte, é intenso, é... não sei dizer.

 

--Seja correta com ela sempre, filha. Se Deus quiser, e se for para o bem das duas, dará tudo certo.

 

--Eu sou correta com ela, pode ter certeza.

 

--Os pais dela já sabem?

 

--Ainda não. Ela disse que eles estão em crise e não quer falar sobre o assunto agora. Sabe que mais cedo ou mais tarde vai ter de acontecer, mas não quer falar agora.

 

--Esse é o único ponto desse namoro que me desagrada, mas enfim. Espero que termine bem...

 

--Na verdade... -- pensou antes de falar -- Ela não tá envolvida comigo da mesma forma como tô envolvida com ela. -- falou com um pouco de tristeza -- Às vezes eu acho que ela está apenas se conhecendo comigo, sabe? É nítido que não me ama...

 

--Por que não conversa com ela a respeito?

 

--Não quero me mostrar tão insegura dessa forma... Mas, ela já me disse que não tá pensando em compromisso e que nunca nem pensou em se casar. Disse isso quando voltávamos da viagem.

 

--Bem que notei que você não parece feliz... -- olhou para a filha preocupada -- Se percebe que ela só está passando o tempo com você não se deixe colocar em uma posição vulnerável. -- pausou -- Não deveria ter tido intimidade com ela...

 

--Eu achei que ela ficaria mais envolvida... E ela me cobrava por um relacionamento adulto!

 

--Adulto? -- balançou a cabeça -- Será que você também não queria saciar uma vontade? -- sorriu

 

--Não apenas a vontade de sex*, mãe... -- passou a mão nos cabelos -- Eu realmente estou gostando dela.

 

--Cuidado, Seyyed... cuidado... -- pausou -- Você não deve magoar as pessoas mas também não deve se deixar magoar se pode evitar...

 

Após segundos de silêncio a mecânica perguntou: -- E Juliana? Como anda?

 

--Ah, ela melhora dia a dia. Está mais animada, mais disposta... Ela viveu uma experiência emocionante no hospital e desde então tem trabalhado com um empenho que eu nunca vi desde que a conheço!

 

--Muito bom. Tomara que ela seja feliz e não guarde rancor de mim.

 

--Isso vai passar, filha.

 

--E aquela moça que perdeu a perna? Como Flávia tem se saído com ela?

 

--Ah, boa lembrança! Ela tá progredindo, lentamente, mas está. Apesar de malucona, o exemplo de Flávia tem feito Camille reconsiderar alguns aspectos. O senhor Mariano está muito feliz. -- pausou -- Ele até nos convidou pra jantar na casa da família na quinta. Você quer ir comigo?

 

Ed ficou analisando o rosto da mãe. -- Apesar de estranhamente a senhora sempre se referir a ele como ‘senhor Mariano’ por que será que eu noto um brilhinho nesses olhos quando fala nele? -- perguntou sorrindo

 

--Que brilhinho, menina? O senhor Mariano é um homem muito distinto e nós somos bons amigos.

 

--Bons amigos? -- perguntou desconfiada e sorrindo -- Mãe, a senhora entrou no carro dele, sem nunca tê-lo visto, só pra dar informações...

 

--Porque praticamente estava indo pro mesmo lugar que ele...

 

--Sei... -- riu -- E agora esse convite pra jantar?

 

--Fique sabendo que foi um convite da irmã dele! Ele só fez transmitir.

 

--Provavelmente todo alegrinho...

 

--Seyyed, não seja maldosa. Nós somos amigos e só.

 

Ed riu e balançou a cabeça. -- Como ele é? Esse cara aí? Faz o que da vida?

 

--Ele é alto, calvo, barba branca muito bem cuidada, magro, bonito. Tem olhos verdes... -- pausou -- E trabalha como contador. É contador dos bons!

 

--Como sabe que é dos bons, mamãe? -- riu -- A senhora nunca trabalhou com ele, mal o conhece!

 

--Pelo jeito pode-se notar...

 

--Hum, sei... É vamos nesse jantar aí porque eu preciso olhar nos olhos desse cara que corre risco de virar meu padrasto. -- riu

 

--Seyyed! -- jogou o guardanapo nela e sorriu -- Você é muito cheia de fogo, viu? Só pensa naquilo! -- brincou

 

 

19:20h. 01 de setembro de 2000, Edifício Andre Luis, Ilha do Governador, Rio de Janeiro

 

--Caraca, mãe, que produção é essa? -- Ed perguntou sorrindo e com espanto

 

--Que produção que nada, menina. Só estou usando um vestidinho básico. -- foi para o banheiro se maquiar

 

--E a maquiagem, é básica também? -- riu -- Eu raramente a vejo se maquiando!

 

--Porque faz mal a minha pele... Mas já que vamos passear...

 

--Sei o passeio... -- ficou admirando a mãe pelo espelho -- Está a maior gataça! -- beijou-lhe a cabeça

 

Olhou para a filha. -- Daqui a pouco termino. Quer parar de ficar aí espionando? -- sorriu

 

***

 

--E então, Mari, estou bem? -- Mariano apresentou-se a irmã

 

--Meu Deus, homem do céu, que granfinagem é essa pra um jantar aqui em casa? -- perguntou sorrindo e desconfiada

 

--Ora, já que receberemos visitas devemos nos apresentar bem pra que não fiquem com má impressão de nós. -- esticou os pulsos -- Cheire este perfume e me diga o que acha!

 

--Perfume? -- sentiu a fragrância -- Bom... estou morrendo de curiosidade pra conhecer esta tal de Olga que te deixa com essa vaidade toda! -- riu

 

--Meu, mas você vê maldade em tudo, viu? -- a campanhia toca -- Meu Deus, Mari! -- ficou nervoso -- Como estou? Olha aqui!

 

--Calma, criatura, ela vai te achar lindo!-- riu

 

Mariano sorriu e correu para abrir a porta. Quando o fez deu de cara com Olga e sorriu extasiado. Olga retribuiu o sorriso.

 

--Senhora Olga... -- beijou-lhe a mão -- está divina!

 

--O senhor também está... fabuloso. -- respondeu timidamente

 

“Ih, caramba, olha o clima rolando... “ -- Ed pensou e achou graça

 

--Você deve ser Seyyed. -- beijou-lhe a mão também -- É um prazer. Sou Mariano. -- sorriu

 

--Igualmente. Mas pode me chamar de Ed. -- sorriu

 

--Mariano, você não as convida a entrar? -- Mariângela perguntou sorridente

 

--Claro, que cabeça a minha... Entrem. -- deu passagem

 

Ed e Olga entraram.

 

--Por aqui senhora. -- estendeu-lhe o braço, que Olga tomou e foi entrando

 

Ed achou graça e se conteve para não rir.

 

***

 

A mesa estava posta e Camille não havia sequer aberto a porta ainda.

 

--Ela está envergonhada porque a cadeira tá com problemas. -- Mariângela explicou -- Foi ontem que um parafuso quebrou e a roda saiu. Não sabemos como aconteceu.

 

--Ela se machucou? -- Ed perguntou

 

--Não, Flávia estava com ela. -- pausou -- Está tentando convencer minha filha a testar usar muletas mas sem sucesso. Se usasse não dependeria só de cadeira... -- pausou novamente -- Bem, eu vou chamá-la de novo.

 

Pouco tempo depois retorna desanimada.

 

--Ela não quer vir. Disse que não virá se arrastando para a mesa. -- sentou-se pensativa

 

--Eu... posso tentar? -- Seyyed pediu

 

Os irmãos se entreolharam surpresos.

 

--Eu não sei se ela vai reagir bem... -- Mariângela tinha medo que Camille fosse rude

 

--Fica tranqüila que eu não ligo se ela me der um fora. -- Ed respondeu ao se levantar.

 

--Não se preocupem. Seyyed tem muito jeito em abordar as pessoas e lidar com elas.

 

 

--Na certa puxou a mãe. -- Mariano comentou sorrindo. Olga olhou para ele e sorriu também

 

Chegando perto do quarto, Seyyed ouviu que Camille escutava música. O volume estava baixo.

 

https://www.youtube.com/watch?v=ZkMcoDwV-y4

“As coisas não precisam de você,

Quem disse que eu, tinha que precisar?...”

 

--Camille, você não me conhece mas aqui é Seyyed. Tô com minha mãe, Olga, mas ela ficou lá na mesa com seus parentes. Eu sou mecânica e posso ver sua cadeira. -- silenciou -- Relaxa garota, não pode ser pior que as latas velhas que aparecem lá na oficina. -- brincou

 

Camille permaneceu em silêncio.

 

“Os Dois Irmãos, também não,

Precisam.

O Hotel Marina quando acende,

Não é por nós dois,

Nem lembra o nosso amor...”

 

Ed não insistiu e se preparou para sair quando a porta se destrancou. Entrou devagar. A loura estava sentada na cama igual a uma menininha assustada. Cobriu a perna com o lençol.

 

“Outros olhos, e armadilhas,

Outros olhos, e armadilhas,

Eu disse...

Outros olhos,

E armadilhas...”

 

Olhos verdes e azuis se encontram. Ed sentiu uma familiaridade estranha e desconcertante; Camille também.

 

--É um prazer. -- sorriu -- Finalmente conheço a famosa Camille...

 

A loura abaixou a cabeça.

 

“O hotel Marina quando acende,

Não é por nós dois,

Nem lembra o nosso amor,

Os inocentes do Leblon...”

 

--Deixa eu ver o que rola com esta cadeira. -- olhou rapidamente -- Ah, moleza, basta um parafuso. Mas também a coroa tá torta. -- olhou para Camille -- O que você e Flávia andam aprontando? Não me diga que já tá lutando boxe também? -- brincou

 

--Eu?? -- sorriu -- Que nada! Se eu entrasse nesse esporte seria o equivalente humano ao saco de areia.

 

--Prometo que se você deixar eu levar a cadeira hoje, amanhã te entrego novinha em folha. Pode ser?

 

--Pode. -- estava ainda de cabeça baixa

 

--Por que não vem e janta conosco? Você é a presença mais esperada neste jantar. Sem você, nem tem sentido que estejamos aqui.

 

--Mas... -- levantou a cabeça e olhou para ela -- Como eu vou sem cadeira? Vou me arrastando? -- falou chateada, mas sem aspereza

 

Ed ajoelhou-se perto dela e disse: -- Eu te carrego.

 

“Outros olhos e armadilhas,

Eu disse...

Outros olhos,

Outros olhos...”

 

Azuis e verdes se encontram de novo. Camille consentiu sem palavras.

Ed segurou-a e levantou-lhe com facilidade. Camille abraçou seu pescoço. Não saberia explicar, mas sentia-se à vontade.

 

“As coisas não precisam de você...”

Virgem - Marina Lima [d]

 

--É uma verdadeira pluma. -- comentou sorrindo

 

***

 

O jantar correu animado e descontraído. Camille permaneceu calada por todo tempo, mas somente sua presença era suficiente para que sua mãe e tio estivessem radiantes.

 

--Então, vocês vão na luta de Flávia? -- Ed perguntou -- Ela vai ficar sentida se faltarem. -- olhou para Camille, que nada respondeu

 

--Se Camille for eu vou. Sou fã daquela moça. Ela tá trazendo vida de volta a esta família! -- Mariângela disse animada

 

--Eu não poderei, infelizmente. -- Mariano respondeu -- Amanhã volto pra casa. -- olhou para Olga

 

--Que pena... -- ela respondeu decepcionada

 

Ed e Mariângela se entreolharam com cumplicidade.

 

--Mas e você, Camille? Vamos lá. Garanto que vai se divertir e ver coisas do arco da velha! -- Ed puxou por ela

 

--Não sei. Vou ver. -- foi o que se limitou a responder

 

--Meus amores, tudo foi maravilhoso mas já são onze horas... Hora de ir -- olhou para a filha

 

--Verdade. Amanhã ainda tem trabalho e vocês devem estar cansados. -- Ed complementou

 

--É uma pena. As horas passaram voando. -- Mariano disse -- Foi tão agradável... -- olhou para Olga derretidamente

 

--Muito agradável... -- ela respondeu

 

“Ai, ai...” -- Ed pensou

 

Todos levantaram-se da mesa. Camille permaneceu sentada e de cabeça baixa.

 

--Vamos lá, querida. -- Ed foi até ela -- Finge que eu sou Flávia. -- segurou-a pela cintura. Camille levantou-se sem problemas

 

Mariângela e Mariano ficaram pasmos. Camille facilmente permitia que uma completa estranha como Seyyed fizesse coisas que ninguém, nem Flávia, conseguia sem antes insistir e ouvir muita reclamação e desaforo como resposta.

 

--Investe no que Flávia te propõe de usar as muletas. Você ficará mais versátil e independente. Cadeira ocupa muito espaço e as calçadas são sempre muito ruins pra circular. Uma vez eu quebrei a perna e tive de usar muleta. Depois que se acostuma é mole.

 

--Queria ir para o quarto. -- ela pediu timidamente

 

--Tudo bem. -- colocou-a no colo de novo. Os irmãos continuavam abestalhados

 

--Deixa eu me despedir dela. -- Olga beijou-lhe a cabeça -- Que Deus te abençoe, minha querida, hoje e sempre.

 

Ed levou-a para o quarto e a deitou na cama. -- Eu... fiquei feliz de você ter encarado e jantado com a gente. -- olhava nos seus olhos -- Pensa no lance das muletas e pensa também em ir assistir a luta de Flávia. Garanto que vai se surpreender. -- beijou-lhe a testa -- Tchau. -- afastou-se devagar e saiu

 

--Tchau...

 

 

Fim do capítulo

Notas finais:

Músicas do Capítulo:

 

[a] Uma Voz no Tempo. Intérprete: Leila Pinheiro. Compositor: Marcus Vianna. In: A Casa das Sete Mulheres. Intérprete: Leila Pinheiro. Som Livre, 2003. 1 CD, faixa 12 (4min39)

[b] As Canções que Você Fez Pra Mim. Intérprete: Maria Bethânia. Compositores: Roberto e Erasmo Carlos. In: As Canções que Você Fez Pra Mim. Intérprete: Maria Bethânia. Polygram/Philips, 1993. 1 disco vinil, lado A, faixa 1 (3min44)

[c] Luxúria. Intérprete e compositora: Isabella Taviani. In: Diga Sim. Intérprete: Isabella Taviani. Universal Music, 2007. 1 CD, faixa 13 (4min38)

[d] Virgem. Intérprete: Marina Lima. Compositores: Marina Lima e Antônio Cícero. In: Virgem. Intérprete: Marina Lima. Philips/Universal Music, 1987. 1 disco vinil, lado B, faixa 1 (4min01)

 


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Comentários para 2 - Primeira Temporada - MUDANÇAS II:
Bebereborn
Bebereborn

Em: 31/05/2025

Gostei muito de como você conduziu esse capítuloequilibrando a dor da Camille com os conflitos afetivos das outras personagens. A tensão entre Patrícia e Sabrina ficou especialmente bem construída, mostrando fragilidades reais sem exageros. E a relação da Isa com  Ed tem um ritmo delicado e humano, que dá vontade de acompanhar de perto. Parabéns por amarrar tantas emoções diferentes com leveza e sensibilidade!

 


Solitudine

Solitudine Em: 01/06/2025 Autora da história
Olá querida,

Sim, eu costumo equilibrar os momentos mais densos com outros mais leves para fazer tipo uma montanha russas e não sobrecarregar vocês (e nem a mim! rs).

Seu comentário foi super sucinto e bem estruturado. Você também escreve? Chamou a atenção.

Beijos,
Sol


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NovaAqui
NovaAqui

Em: 13/06/2024

Muitas informações nesse capítulo 

D. Olga e seu Mariano vai rolar, né?

Abraços 


Solitudine

Solitudine Em: 14/06/2024 Autora da história
Olá querida!

Sim, capítulos grandes e muitas vidas de personagens a detalhar. Muita informação! rs

Olga e Mariano assim como vários outros aqui, terão uma longa história. Acompanhe comigo! ;) ????

Beijos,
Sol


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jake
jake

Em: 11/03/2024

Sol tô gostando da evolução da Ju,as conversas com a  Ivone tem ajudado bastante, acho que Ed n vão ficar com a Isa,acho q rolou uma troca de olhares bem interessantes entre ela e Camile ...correndo pra ler o próximo rsrs


Solitudine

Solitudine Em: 11/03/2024 Autora da história
Você verá tanta coisa nesse conto... vai se surpreender com muitas delas, creio eu. Juliana por exemplo.

Seyyed, Isa, Camille... aguarde. Não leia os comentários das outras para não adiantar as novidades. rs

Some não! E obrigada por tudo!

Beijos,
Sol

PS: você está me deixando muito feliz nestes tempos difíceis! Obrigada mesmo!


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Femines666
Femines666

Em: 09/03/2023

Tô adorando! Vou acompanhar até o final! Cara você leu Adrienne Rich? Me ganhou. Vou favoritar!!


Resposta do autor:

Olá querida!

Sim, li. Muito bom trabalho o dela, não acha?

Que bom que te "ganhei". Obrigada por favoritar.

Volte sempre!

Beijos,

Sol

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Samirao
Samirao

Em: 12/02/2023

Depois eu vou acertando a referência das músicas. Nem me agradeça huahuahua 


Resposta do autor:

kkkkk Obrigada!

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 10/09/2022

Pra quem falou em um comentário por dia né? A ansiedade não tá me deixando parar de ler mas tenho que trampar olha isso! O que vc é? Tô adorando isso aqui!!!!


Resposta do autor:

Que bom que você se viu assim, tão sob o encanto de Maya!rs

Bom trabalho sempre. Mesmo atrasado, este desejo para você permanece.

O que eu sou? Caipira! rs

Beijos,

Sol

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Seyyed
Seyyed

Em: 10/09/2022

Não tô resistindo... Camilla é dose e Juliana com a terapeuta é demais! hehe Essa Isa é meio chatinha sei lá mas eu Seyyed vou botar ela no jeito!!!! INCORPOREI hehe


Resposta do autor:

Olá querida!

Camille começou complicada, com muitas questões interiores e preconceitos. Juliana estava se tratando para aprender a amar com segurança e sem apego e Isabela ainda era muito imatura, muito menina. De fato, você a colocou no "jeito"! kk

Beijos,

Sol

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Samira Haddad
Samira Haddad

Em: 23/04/2020

Habibi, passando aqui só para constelar. Amei a divisão e a revisão das ratas.  O problema era só espaçamento como cansei de te dizer. Bjs


Resposta do autor:

Aí junta você e Irina e eu não tive escolha! kkk Mas não me arrependo.

Beijos,

Sol

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Cristina
Cristina

Em: 19/04/2020

Olá Sol!

Depois de ver que vc fez algumas alterações resolvi reler o conto!

Este conto é o meu preferido! Seu conteúdo é cheio de situações que me fazem refletir e me identifico muito com suas lições. Sempre que releio percebo alguma coisa que passou batido ou que faz um novo sentido! 

Desta vez estou abrindo os links das músicas que não tinha ouvido ainda! Linda música da Leila Pinheiro!

Tem sempre algo novo que ainda não havia percebido!!!!

Bjs.


Resposta do autor:

Olá Cristina!

Não, eu não alterei, apenas quebrei os capítulos em partes. rs

Fico feliz em saber que Maya é seu conto preferido e que mais uma vez esteja disposta a reler.

Beijos e tudo de bom!

Sol

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 13/04/2020

Oieeee...

 

Explicando o vaca sincera, a Sabrina de fato é uma vaca, nojenta e se acha a última coca do deserto, porém, ela nunca prometeu nada para Patricia, sempre foi muito honesta e fala o que pensa.

Patricia que precisa ter amor próprio.

 

Adoro todas as personagens, mas  tem aquelas que são mais especias.

 

Beijos querida!


Resposta do autor:

Agora entendi! É, Sabrina teve um início meio malvada! rs

Beijos!!

Sol

 

 

 

Responder

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Gabi2020
Gabi2020

Em: 13/04/2020

Solzinha!!

Relendo essa obra prima com o maior prazer!!

Que responsabilidade hein? Não tem caiprice nehuma , tudo perfeito.

 

De fato, sempre gostei da Juliana, e não lembro o porquê... Kkkkk... Gosto das conversas dela com a Ivone, acho as confusões que ela arruma hilárias, ao mesmo tempo em que ela é um demônio com a Ed, ela é um doce com as pessoas que gosta, essa transformação dela, passa pela  dona Sônia, que enxergou a Juliana de verdade.

 

Camille... Essa aí é complexa... Adoro o desenvolvimento dela na história. Esse encontro com a Ed foi lindo!

 

Isa é a moranguinho... Kkkkkk... Muita gente pode até criticá-la por não se assumir, mas não é tão fácil como as pessoas pensam.

 

Dona Olga e Mariano, muito fofos.

 

Sabrina é uma vaca sincera.

 

Patrícia é uma romântica , idealiza o amor com a nojentinha e por isso se submete a várias humilhações. Mas quem nunca ?

 

E para terminar, o que é a Flávia? Kkkkkkk... Mulher sem fitro, que põe a Camille no seu devido lugar, adooroooo!

 

Beijos

 

Ps. Vou lendo aos poucos tá?

 

 


Resposta do autor:

Gabinha!!!

Amiga, leia na velocidade que quiser. Eu só te agradeço.

Acho que já terminei de dividir tudo. Se eu fizer qualquer caipirice, deixe-me saber, por favor.

Sabe que eu tenho um carinho especialíssimo por estas personagens? Longa história, tão longa quanto Maya em si.

"Vaca sincera" foi ótimo! kkk

Beijos!

Sol

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