Me devolva o Diário
Entrei em casa e vi dona Amanda sentada na sala, a televisão estava ligada, mas seus pensamentos estavam longe que nem me notou minha aproximação.
-Tudo bem Dona Amanda ?
- Hã ? Sim sim estou bem, Clara só pensando em umas coisas. Ela dedilhava o controle remoto procurando por algum canal, mesmo sem deixar transparecer caminhei até a cozinha e fui preparar a janta, aquele olhar perdido e o seu sorriso bobo não me enganavam.
-O jantar está muito gostoso, Clara só que algo está diferente.
Ela saboreava a macarronada e cada garfada notava alguma coisa no ar.
-E só um tempero novo que comprei no mercado.
-Ficou melhor ainda.
Depois do jantar dona Amanda subiu e se isolou em seu quarto, há dias que dormia cedo devido ao esforço físico.
Era estranho não ter mais o meu carro, andar de bike pela cidade seria até divertido, olhei pra porta da varanda e ela estava aberta, detestava quando Clara a deixava aberta por causa dos mosquitos, ao me aproximar notei a luz fraca da varanda ao lado, agora com tantos quartos extras na casa a Cecília ainda usa o mesmo, avistei sua sombra e me escondi atrás da porta, me senti uma completa adolescente, mas não queria que ela pensasse que estivesse espiando-a, olhei por entre o tecido da cortina e a vi sentada na cama, a luz do abajur era fraca e tentei ler a capa do seu livro, mas não consegui.
Estou na minha casa no meu quarto, poderia fazer o que quisesse, no fundo era verdade, mas adimira-la de onde estava era melhor para meu deleite, acompanhei seus passos até o banheiro e na volta meus olhos percorreram suas pernas subindo para suas coxas em um conjuntinho vermelho e curto, a deixando totalmente exposta, com os cabelos escovados e soltos, deitou e por fim e apagou a luz. Aquela foi a deixa para me deitar e tomar vergonha na cara. No dia seguinte acordei ouvindo um barulho, olhei pela janela e havia um caminhão, com homens descarregando alguns móveis, apenas caminhei até o banheiro para tomar um banho e escovar os dentes, como estava cansada coloquei uma roupa confortável e calsei minhas havaianas, e desci para tomar café. A movimentação na casa ao lado era grande, e isso me incomodou um pouco, aproveitei para sair e regar as plantas, no demorou muito e Cecília surgiu, e ao me ver se aproximou.
- Bom dia, Amanda.
- Bom dia Cecília.
Aquele sorriso cativava todos ao redor, será que ela estaria mesmo mudando pra valer.
-Parece que uns dias aqui e é outra pessoa.
Comentei e ela voltou a atenção para mim, e para as rosas.
-Acho que Londres estava me deixando muito esnobe.
-Ah você acha, só faltava tomar chá das cinco com a rainha.
Ela riu com o seu jeitinho descontraída.
Os homens terminaram de colocar os móveis dentro da casa, e um deles pediu para ela assinar o papel, muito gentil assinou e entregou a prancheta ao homem. E voltou a me fazer companhia ao lado do muro, só que agora com outro semblante.
-Está tudo bem ?
- Sim sim, estava só pensando em minhas fotos.
- Não se preocupe ainda hoje as entrego.
- Estava pensando em outras fotos.
Cecília apoiou as mãos no murinho e me olhou divertida.
-Sou uma profissional não se preocupe.
Disse convicta dos meus aperfeiçoamentos.
-E se disser que quero que tire fotos minhas, nua.
Fiquei sem reação por alguns minutos, não era real o que tinha escutado, voltei a regar as rosas sem necessidade.
-Vamos Amanda, me fotografa Nua, prometo não mostra pra ninguém.
Sua gargalhada se tornou presente e aproveitei o seu momento de distração para molha-la todinha com a mangueira, ela se esquivava da água, mas não durou muito tempo ao vê-la completamente ensopada e irritada, Cecília partiu pra cima de mim e nos embolamos em meio a borracha e acabamos caindo, amorteci sua queda a deixando por cima de mim.
-Você fez isso de propósito!
- Pra ver se apaga o seu fogo, que isso fotos nuas!
Segurava o seu pulso e nada parecia importar mais, como duas mulheres molhadas e uma deitada por cima da outra em frente a casa.
-Você faz isso com a sua namorada ? Ou esse pequeno bônus e só comigo.
-Cecília...
-Me responda Amanda Barretos. Ela elevou minhas mãos até o topo da cabeça e me olhou intensamente.
- Ela é mais centrada quando quer.
Seu sorriso apareceu e se levantou, aproveitei para me levantar e desligar a torneira.
- Bom ela que perde.
Ainda teve o desplante de sair quase rebol*ndo e me deixando molhada e com uma mente muito suja, mais suja que minhas próprias roupas no momento.
A tarde aproveitei para passar restaurante, e ver como as coisas estavam. Ao entrar na sala da Ester a mesma não me parecia bem.
-Essas rosquinhas de Coco está uma delícia, quer ?
Ela me olhou e negou, nada disse apenas puxei uma cadeira e me sentei.
- Está diferente Amanda, me parece mais alegre.
-Deve ser o tempo, ou as coisas que estão fluindo, como uma água em um rio em movimento.
-E mas nessas águas há pedras, e pedras enormes.
Suspirei e olhei para Ester sabia que as coisas não estavam bem.
-O quê está acontecendo, agora ?
- A Cecília veio conversar comigo, e me ameaçou, iseriu que queimaria o diário da Erika e que a tragédia dela não ficaria mais entre vocês.
- Ela disse isso!
Me levantei e Ester também.
- Sim, olha não me importa que ela me ameaçe, mas não tenho medo dela ou das pessoas que estão ao lado dela, mas essa decisão não pertence a ela.
-Tem razão, não pertence.
Deixei o restaurante e peda-lei até em casa, ao chegar a vi saindo do carro com algumas bolsas.
-Amanda estou tendo umas ideias para a festa da Clara e...
-Deixa de ser cínica, e me entrega o diário da Erika.
Cecília pareceu ficar ressentida com minhas palavras e colocou as sacolas de volta no carro.
-Quer dizer que a Ester já foi fofocar com você.
-Eu tinha até me esquecido disso, passa o diário.
- Não, sei que foi horrível o que aconteceu, mas não pode se culpar para sempre.
Dei mais alguns passos pra frente e a encarei.
-Quem sabe da minha vida sou eu! Agora me faça o favor de ir pegar o diário se não eu mesmo entro e pego.
Fiz menção em entrar, mas Cecília me segurou, e me dizia pra esquecer o que passou, que agora não podia fazer mais nada.
Segurei em seus braços estávamos num embate arriscado, via em seus olhos o drama de toda aquela confusão, mas nem eu nem ela tínhamos esse direito.
-Você não entende, que não é pra mim!
Senti mãos me derrubando e bati com a cabeça na cerca, ainda Ouvi sua voz me chamando, senti o sangue escorrer e olhei para a mulher que havia feito isso, era sua chefe Magnólia.
- Se encosta na Cecília assim novamente, farei mais que um empurram.
Cecília a puxou pelo braço e gritou com a mulher.
-Ficou maluca!
-Eu maluca? Essa mulher estava te machucando.
Me levantei com cuidado Cecília até tentou me ajudar, mas a sua chefe namorada sei lá a impediu, estava com muita raiva por ser tocada por ela.
-Fique sabendo que não tem o direito de sair ameaçando as pessoas como bem entende, se quer ser uma mulher de respeito não precisa disso, e me devolva o diário da Erika.
O diário em si não era mais tão importante quanto nós, o que vivemos e o que passamos até horas trás, me lembrei das palavras da Luana e saber analisar quando esse sentimento voltar novamente, e ele voltou, desde o dia da sua volta, palpitando ainda mais forte , mas o sangue ainda corria quente em minhas veias, nunca a machucaria, mas foi na certeza de seus olhos que vi a verdade, até o momento que aquela mulher chegou, o que ela estaria fazendo aqui, minha cabeça doía muito e ambas não paravam de falar.
- Que merd* está fazendo aqui!
- Eu te liguei e você não atendeu, deixei as malas no hotel e vim pra cá.
Me afastei e ainda pude ouvir a voz da Cecília atrás de mim.
-Amanda... Me desculpe.
Fechei a porta e Clara que ao me ver veio correndo da cozinha, dei uns pequenos passos antes de sentir meu corpo todo pesar sobre seus braços.
Entrei em casa nervosa Magnólia entrou e tentou se aproximar, mas não deixei.
- Eu te defendo, e é assim que você age.
-Pro inferno o seu cuidado!
Gritei e Magnólia se assustou, e acuou-se num canto perto da porta.
Andava de um lado pro outro na cozinha, precisava me acalmar, estava com as mãos apoiadas na pia e de costas, não podia olhar-la ainda mais depois do que fez.
- Eu fui legal com você, e é assim que me retribui, machucando a mulher que amo!
Virei-me para encara-la, Magnólia se aproximou, mas parou ao olhar-me nos olhos.
-E se eu machuca-se a Yumi iria gostar ?
- Não, mas as circunstâncias...
-Foda-se as circunstâncias!
Caminhei até ela é ficamos uma de frente pra outra, minha raiva era maior que tudo.
-Saia da minha casa, agora! E não venha mais aqui.
Magnólia assentiu e deixou minha casa, soltei o ar dos pulmões ao vê-la fechar a porta, me apoiei na mesa devido ao nível máximo do estresse, ouvi uma ambulância estacionando na casa da Amanda, e meu coração deu batidas mais fortes, deixei minha casa e corri até a sua, a porta estava encostada e sai entrando, Clara ao me ver se aproximou.
-O quê aconteceu com ela, Clara ?
- Ela desmaiou e a coloquei no sofá, a médica está examinando.
Fiquei ao longe olhando Amanda deitada, meu foco estava totalmente nela, e nem notei a moça ao lado da médica.
-A Amanda vai levar uns pontos na testa, e o seu desmaio foi uma queda de pressão.
A médica se retirou depois nos deixando com a estagiária, Luana dava os pontos com tanto cuidado, enquanti me sentia culpada.
- Eu já terminei, Clara pode levar e jogar fora pra mim.
-Sim.
Luana se levantou e eu também, olhamos para Amanda e depois uma pra outra.
- A Amanda me mandou embora por sua causa, e agora acontece isso, sinceramente não sei em que acreditar.
A Amanda mandou ela ir embora... será que elas terminaram ?
-E eu pensando que teria trabalho com você.
Luana riu - O que vivemos e tivemos não será apagada assim, há Amanda que eu tive jamais você terá, Cecília.
- Por favor vocês não briguem aqui.
Clara tentou apaziguar a situação, mas não iria piorar mais o quadro da Amanda, e a deixei ir.
- Essa Luana e abusa hein Clara, quero ver quando ela encontrar alguém ao seu nível.
Fim do capítulo
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