Capítulo 17

Capítulo 17

de Luana: as várias faces da Lua, por Ana Pizani

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Eu tive vontade de rir, primeiramente (“cair na minha rede”, de que época é isso?).

          Depois tive vontade de estar num palco e ver os olhinhos do povo da cidade. Todos chocados.

          Só que o fato de estar ali e estar brigada com a minha namorada não significavam que eu ficaria com ela.

          Eu senti uma saudade enorme de Lisa, da minha mãe e cheguei a sentir medo da doutora em questão.

          _ Não vai rolar. A senhora é muito bonita, mas não dá. Eu gosto da Lisa, estou namorando ela e não acho certo trai-la.

 _ Não faz assim, meu bem, vem cá...

         Ela pulou no meu colo e eu a empurrei. Fui grossa de propósito ao pedir que me levasse embora naquele momento mesmo.

          Que nojo senti dela por todo o caminho até a minha casa!

          Eu e milhares de gays lutando para se assumir, enfrentando até risco de morte (skinheads ainda existem) e ela se achando a tal por viver numa mentira.

         A única rede que existia ali era uma rede de mentiras. E eu não iria participar daquilo.

          Eu desci do carro num bairro próximo do centro e enquanto caminhava em direção para casa notei que um carro me seguia. Era Lisa.

         Dei sinal e ela encostou o carro.

         _ Deu pra me seguir, meu amor?

          _ Eu não sou o seu amor.

          _ Ainda está com raiva de mim? Está com ciúmes da doutora? Fica tranqüila, pois ela não me interessa. Ao contrário de você, né, que a conhece bem...

          _ O que aquela vaca te falou, em? 

          _ Tudo o que eu precisava ter ouvido da sua boca.

          _ Entra no carro.

          _ Não, obrigada, eu vou caminhando mesmo.

          _ Entra logo!

          _ Não, obrigada. Mas se você quiser me seguir, fique a vontade já que você não confia mesmo em mim.     Vai que eu trombo com outra “coroa incubada” que você pegou, né?

          _ Você está com ciúmes, é?_ Lisa gargalhou_ Você pensou que eu ia te esperar a vida inteira ou a sua boa vontade de me ligar para ao menos perguntar como estou?

          _ Já chega... Eu não quero discutir com você. Eu amo você do jeito que você é.

         Ela pareceu chocada com a minha declaração que saiu assim, naturalmente. Nunca havia dito aquilo para mulher alguma e estava surpresa com a minha coragem.

          Eu entrei no carro e pedi para ela me levar para casa. Chegamos e subimos para o meu quarto. Não havia ninguém em casa.

         Lisa sentou na cadeira do meu quarto e eu deitei na cama. Ela começou a DR ainda com a voz trêmula após a minha declaração. Não havíamos nos falado no carro.

          _ O que ela te falou? Ela tentou te agarrar? Você ficou com ela? Você...

          _ Calma. Hoje eu fui para a última sessão de fisioterapia e ela me veio com uma história de comemorar minha recuperação. Aí entramos no carro dela para darmos uma volta.

          _ Como você vai entrando no carro dela assim?

          _ Talvez se você tivesse contado que ela curtia mulheres eu não teria entrado.

 Lisa ficou caladinha. Eu continuei:

          _ Entramos no carro e ela me levou para um bar, depois para a porta do motel aqui da cidade, lá na estrada. No caminho ela foi me contando o péssimo relacionamento dela com o marido e coisa e tal.

          _ Sei.

          _ Aí ela veio pra cima e eu saí fora. Eu não curto traição e ainda mais traição dupla. Eu pedi pra ela me trazer para a cidade e pronto. Você me seguiu, Lisa, e deve ter pensado as piores coisas de mim até ver o carro voltar para o lugar de onde não deveria ter saído. Não me importo com isso, mas confesso que odeio ser vigiada. Isso é falta de privacidade e se você não consegue superar o nosso relacionamento que tivemos quando adolescentes, acho melhor terminarmos agora mesmo.

          Lisa abaixou a cabeça e seus olhos se encheram de lágrimas. Por que as mulheres têm sempre que chorar? Ela falou:

         _ Eu sei que não deveria ter te seguido, mas quando vi o carro dela na rua, passando com você no banco do passageiro logo imaginei...

          _ ... Que eu estava te traindo.

          _ Não, juro que não, imaginei que ela iria fazer com você o mesmo que fez comigo!

          Lisa sentou ao meu lado na cama. Continuou:

          _ Eu confiei em você, e não nela. Eu sei que deveria ter te contado só que pra mim é vergonhoso falar dessa história. Sou muito orgulhosa, você sabe.

         _ Então houve uma história.

         _ Sim, houve. E basta eu falar que terminou quando o ciúme dela a fez beber todas quando terminamos e a fez ir para a porta da minha casa e gritar meu nome até eu a deixar entrar.

          _ Então seus avós...

          _ Sim, sabem de mim, e não falam nada sobre.

         _ Nossa!

         Ficamos em silêncio, deitadas a aquela altura, lado a lado, olhando para o teto.

          Eu quebro o silêncio. Ou melhor, meu corpo quebra.

          _ Ao invés de ficarmos discutindo sobre aquela chata que é passado seu e que me mata de ciúmes por isso, pois eu te desejava enquanto ela te tinha, porque não... Nos beijamos?

          Ela sorriu e eu senti seu hálito. Adorava seu hálito. Adorava sentir seu cheiro assim, tão perto de mim.

         Eu a beijei. E ela retribuiu...

           As mãos dela não eram mais as mãos de uma menininha, eram mãos de mulher que denunciavam uma fome que eu também sentia. Nos amamos, nos separamos e agora nossos corpos pareciam se completar após tantos anos, após tantas pessoas ( no meu caso e pelo jeito, no dela também).

         Eu tirei sua roupa, peça por peça e beijava, parte por parte, aquele corpo que tanto conhecia apesar de tanto haver mudado.

         Ela também tirou minha roupa e beijou a minha barriga até chegar...

         Eu também não fiquei para trás e a beijei o corpo inteiro.

         Nos amamos como a primeira vez. Nos amamos inesquecivelmente.

Fim do capítulo

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Conversa

Comentários

1
E

Endless

11/01/2019 às 00:29

Só love, só love!! Massa. Boa sorte.

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