Capítulo 7
Ouço uma batida na porta. E reconheço uma voz conhecida:
_Filha, sou eu, posso entrar?
Luana senta lentamente na cama e lentamente se levanta, vai até a porta e a destranca.
_ Te atrapalho filha?
_Não pai, entre.
Papai senta na beira da minha cama e eu sento na cadeira próxima a mesa que costumava fazer minhas tarefas escolares.
_ Luana, você está há duas semanas sem sair de casa. Eu entendo o fato de você não ter querido ir ao velório do Lucas há uma semana e meia atrás; também entendo não ter querer ido a BH pegar algumas peças de roupa para você acompanhada por mim. Você também não quis comprar roupas e sua mãe teve que ir às compras pra você não ficar nua. Você não sai para ir à fisioterapeuta e ela vem aqui em casa por ser nossa amiga e gostar muito de você. Só que eu pensei que isso iria no máximo uma semana, mas...
_Você não sabe o quanto dói continuar viva e ainda espera que eu fique por ai desfilando meu corpo machucado e inchado pela cidade para que seus amigos sorriam sem graça para mim por pensarem que eu sou fruto de um milagre?
_Você é um milagre. E o que meus amigos pensam não representa nada pra mim. Eu mudei muito desde o momento em que vi você entre a vida e a morte naquele hospital. E hoje sei que se tenho você aqui é graças a um rapaz que todos chamavam de ‘viado’ inclusive eu. Porém duvido que algum filho de amigo meu, faria o que esse menino fez por você.
Luana olhou nos olhos de seu pai. Ele chorava. Ela também.
_ Você não sabe o quanto me doeu abraçar o pai dele e agradecer caladamente pelo ato de heroísmo do Lucas. Eu vim aqui porque estou preocupado e porque tenho vergonha de dizer que até você sair de casa eu mal conhecia seu quarto e que hoje sei cada detalhe dele, seja os chicletes embaixo da cama ou as cartas de amor que você recebia e guardava num buraco na parede atrás de seu guarda roupa. Você se foi, mas deixou aqui dois pais que te amam e que sentiram a sua falta a ponto de chorarem toda vez que cruzavam a porta de seu quarto. Juro que esperava sentir alívio por uma filha tão complicada ter ido embora, mas o vazio que você deixou nessa casa afetou a todos nós. Nunca tive coragem o suficiente o bastante para procurá-la, esperava que você algum dia ligasse. Estava no seu quarto, sentado onde você está sentada agora, quando o telefone tocou e sua mãe atendeu e depois me gritou desesperada. Eu sabia que algo acontecera a você. Estava com pressentimento desde que acordara naquele dia. Você estava com hemorragia interna, passou dois dias na UTI e eu mal dormi desde aquele dia. Eu só queria aquela velha garota de volta: batendo a porta quando saía do quarto, descendo correndo a escada, chegando tarde, urinando bêbada na roda do meu carro. Eu quero que você saia um pouco desse quarto ou ao menos receba as visitas das várias pessoas que vêem aqui para te ver.
_Pai, tente entender que não estou com cabeça para visitas.
_Tenho certeza que o Lucas desejava que você vivesse quando se atirou contra seu corpo te salvando assim da morte. Por favor, faça valer o amor dele por você.
E me beijou a testa saindo do meu quarto para poder voltar ao trabalho.
Fim do capítulo
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