A Tradutora por Satinne
Capítulo 3 - Quem é você?
Listou os possíveis Francis, de ex-namorados a colegas de profissão, mas nenhum encaixava-se no perfil delicado que traçara. Havia outra possibilidade... Que mudaria globalmente sua perspectiva, mas temia inclusive pensar nisso. Certos assuntos guardava apenas em pensamentos. Então, quem?
Focou no trecho codificado da última carta: “...e quando não compareceste ao meu encontro, senti-me longe demais para tocá-la, mas perto o bastante para contemplá-la. Sua proximidade causa-me tal efeito: quanto mais te aproximas, mais preencho-me de mim. Em sua melhor fase, ficamos presos nos olhares, mas, nos pés, as pedras ainda nos separam. Sou seu espelho e estou sempre lá, a olhar-te, mesmo à sombra da tua sombra...”. Precisava decifrar tais palavras. Sentia que Francis havia deixado ali um enigma e, desvendando-o, encontraria a chave para saber onde e quando encontrá-lo. Pesquisou em livros, internet, procurou pela cidade, mas não conseguia concluir o significado completo do trecho.
Estava bebendo água de coco em um quiosque na praia, quando reparou no brilho alaranjado do pôr-do-sol sobre o mar.
- Bonito, né? O Sol refletido na água - o atendente do quiosque comentou.
Concordou com a cabeça observando o mar. Como um espelho, percebeu.
Olhou mais de perto, refletindo. O mar era para o Sol um espelho permanente, mas o astro não enquadrava-se no enigma. As fases, os efeitos… Precisava ser a lua. Além de refletir-se nele, mudava as marés conforme suas fases, entre alta e baixa, preenchendo ou esvaziando o mar de si mesmo. Era isso, mar e lua eram os protagonistas do enigma. O mar representava Francis e a lua só poderia ser Chérie. E a melhor fase deveria ser a lua cheia, sua favorita e que tornava as marés mais altas, seria quando encontraria Francis. Mas precisava saber exatamente onde, a praia era vasta e passou a frequentá-la mais.
Certa noite, dirigindo pela orla, chegou a um ponto da rua que subia fazendo curva. Nesse nível, era possível observar que a lua estava tão grande que parecia mais próxima do mar. Avistou, metros adiante, o píer de pedra recém reformado, formando um limiar entre a água e os céus…
- As pedras que os separam... - estacionou.
Só chegaria lá caminhando. Daquele ângulo, o píer formava uma linha que parecia separar o astro lunar das águas.
Foi assim que descobriu onde o encontraria: no píer de pedra, em noite de lua cheia. Respirou fundo.
Na primeira noite de lua cheia seguinte, arrumou-se para o encontro. A ansiedade tomava conta do seu corpo. Chegou ao local nervosa. Um barzinho ao final do píer tornava o ambiente movimentado. Decidiu esperar por ali, na metade do píer. Apoiou os cotovelos observando a água. Minutos depois, chegou a pensar em ir embora. Como ele saberia a noite em que apareceria? Mas não conseguiu mover um músculo para fora dali, sua intuição estava forte, Francis apareceria. Foi quando ouviu…
- Então você veio...
Sabrina reconheceu a voz de imediato. E gelou. Virou de frente com a expressão fechada.
- O que faz aqui?
- Minha querida, eu…
- Susan - cortou - o que faz aqui?! - a inquietação subia pela garganta e já sentia a pulsação acelerando.
- Bri… Eu sou a pessoa que você aguarda… Eu sou… Francis - estava pálida, mas tentou sorrir.
- Está brincando comigo? - quase gritou, avançando - Contei a você sobre Francis, por isso sabia que eu estaria aqui.
- Precisamente, fazia parte do enigma... Sabia a noite exata porque você me contaria, ao descobrir o enigma e aqui estou. Lembra? Estou sempre por perto… - Tentou tocá-la, suas mãos tremiam.
- Não encoste em mim!! Não pode ser você!
- Faz anos que tento dizer o que sinto… Não está sendo fácil para mim - sua voz estava embargada.
- Você está louca?! Sabe que nunca me relacionei com mulheres! Acha engraçado envolver meus sentimentos dessa maneira e ainda afetar minha profissão?
- Sempre temi sua reação… - As lágrimas escorriam por seu rosto - Por isso escrevi todas as cartas em francês, para dificultar a leitura se caíssem em mãos erradas. Aprendi o idioma com a minha mãe... Nunca imaginei que dariam um livro, mas vi nessa oportunidade uma forma de...
- CHEGA!! Não quero ouvir! - Caminhou para ir embora apressada.
- Espera, Bri, me deixa falar... - chorou mais, tentando alcançá-la.
- Pensou que se escrevesse um monte de cartas idiotas eu deixaria de ser hetero para ficar com você?!
- Idiotas? Pensei que tivesse gostado… - soluçava.
- Pois eu detestei - sua voz falhou - Não é isso que quero para a minha vida! - Sentiu os olhos arderem - Faça-me um favor: NÃO ME PROCURE MAIS!
Partiu quase correndo, entregando suas lágrimas para a noite.
Chegou em casa batendo a porta. Susan foi até seu apartamento, mas não a deixou subir e recusou todas as suas ligações. Naquela noite, chorou tanto que não conseguiu dormir. Sua mente misturava trechos das cartas com seus sentimentos por Francis e só então percebeu que Susan encaixava-se perfeitamente no papel. Estava com raiva, sentia-se enganada, como se tivesse feito parte de um jogo.
Evitou Susan por dias, semanas, apesar de sua insistência. Quase cedeu para saber notícias de Lucca, mas resistiu. Susan tentou de tudo para vê-la, mas Sabrina não atendia.
As ligações diárias tornaram-se semanais; os recados, viraram e-mails. Após seis meses, houve silêncio, Susan parou de tentar contato e Sabrina permaneceu reclusa. Chorava todos os dias, questionando como seus sentimentos definiam-se nessa realidade e, simultaneamente, perdendo-se em memórias que tentava desprezar.
Certo dia, perguntou ao porteiro:
- Alguém me procurou, Sr. Arnaldo?
- O senhor Christian, ele…
- Não quero saber dele.
- Ah… Dona Susan não aparece há dois meses, dona Sabrina.
Assentiu com a cabeça, seguindo seu caminho.
Em uma ligação com a mãe, escutou:
- Filha, Susan retomou o casamento?
- Quê?
- Eu a vi esses dias com o marido...
- Ex-marido - corrigiu - E eles não reataram.
- Certeza? Eu pensei que...
- Certeza - algo a incomodou e logo encerrou a ligação.
Saiu de carro e passou em frente ao condomínio de casas em que Susan morava. Estava adquirindo esse hábito. Não que eu queira vê-la ou sinta saudades, apenas gosto desse bairro, dizia a si mesma. Ficou do outro lado da rua encarando o portão. Viu quando uma moto chegou, parando em frente à entrada e uma moça retirou o capacete. Arregalou os olhos ao ver Susan sair do condomínio e cumprimentar a jovem com um abraço. Apertou as mãos no volante observando a cena. Em seguida, a moça entregou um segundo capacete a Susan, que subiu em sua garupa. Não pensou mais, ligou o carro e as seguiu.
Elas pararam em uma cafeteria famosa e Sabrina entrou atrás, disfarçando. Pôde vê-las acomodando-se a uma espaçosa mesa de canto. Sentou a certa distância, em um ângulo que não pudesse ser vista. Desconhecia a outra mulher, então passou a analisá-la. Jovem, bonita… Longos cabelos… Quanta intimidade para a Susan simplesmente ir subindo na moto dessa garota, tamborilou os dedos na mesa, conjecturando. Pediu uma água. Quem será essa garota? Pediu outra água.
Quando elas levantaram para ir embora, escondeu o rosto com o cardápio. Acompanhou-as discretamente com o olhar até a saída e pediu a conta. Levantou para sair e então notou que Susan havia esquecido sua echarpe no encosto do banco. Foi até lá e a pegou rapidamente, indo embora também.
No carro, ficou olhando a echarpe de Susan no assento ao lado. Esticou a mão para a echarpe, tocando-a com dedos trêmulos. Deslizou-os suavemente pelo tecido, então agarrou a echarpe e a trouxe junto ao peito. Subiu lentamente a mão e quando chegou ao nariz, fechou os olhos inspirando profundamente aquele perfume. Repetiu o ato, tocando o tecido na pele do rosto, até ouvir fortes batidas na janela do carro, forçando-a a soltar a peça e abrir os olhos assustada. Baixou o vidro.
- Moça, você estacionou na vaga dos idosos - o guarda a avisou.
- Desculpe, já estou saindo - estava tremendo, ligou o carro e saiu em disparada.
Fim do capítulo
Desculpem o atraso na postagem, era para ter saído na semana anterior, mas precisei cortar algumas coisas para enquadrar melhor no limite de palavras do desafio e não consegui revisar a tempo.
Comentar este capítulo:
Nay Rosario
Em: 16/09/2018
Cara Madame Satinne,
Decerto, eu deveria fazer esse comentário no último desafio, porém não sou das pessoas mais organizadas cronologicamente, logo vai ser nesse mesmo.
Sou das pessoas que tem certa afinidade com o mistério e as cartas e seus enigmas aguçaram-me a curiosidade. A estória foi bem construida, e se puder me conceder um desejo, gostaria de ler a versão estendida deste texto.
Atenciosamente
NR
Resposta do autor:
Fico lisonjeada, rsrs
Eu te mando, sim. Só precisarei dar uma revisada primeiro, rsrsrs
Mas eu mando.
Eu adoooro mistérios, enigmas, charadas, desafios... Dos enredos que tenho em mente, quase todos envolvem algo nesse sentido. Acho que podes gostar das próximas que publicarei... Assim espero!
Manda-me um e-mail para fazermos contato a respeito da versão estendida?
satinne.san@xxx
Muito feliz que tenhas gostado a tal ponto!
Photographer_SP
Em: 11/09/2018
Susan conseguiu finalmente se declarar!!! Encontrou coragem, se mateve firme...Sofri muito com a rejeição de Sabrina. Nunca podemos prever a reação das pessoas. O amor não escolhe qual coração vai habitar.
Sabrina nem sabe, mas já está caidinha pela amiga espero que ela se dê conta que o amor de "FranciSusan" não mudou. Hahahahahahaha
Torcendo muitooooo por este amor. :)
Satinne, mais uma vez, parabéns!!!
Adorei o enigma :) "Sua proximidade causa-me tal efeito: quanto mais te aproximas, mais preencho-me de mim. Em sua melhor fase, ficamos presos nos olhares, mas, nos pés, as pedras ainda nos separam. Sou seu espelho e estou sempre lá, a olhar-te, mesmo à sombra da tua sombra..."
Aguardando ansiosa pelo próximo capítulo desta belíssima história.
Continue a escrever. Obrigada!
Beijos
PS: "Desculpas, aceitas"
Resposta do autor:
Posso dizer que também adorei sua frase:
"O amor não escolhe qual coração vai habitar".
Susan fez sua parte, mas foi rejeitada de maneira contundente.
E agora, como vai ser...?
Bom demais saber que gostou do enigma!
Eu que agradeço por acompanhar e comentar sempre, é muito bom ter um feedback.
Logo teremos o último capítulo, viu?
Beijos, obrigada!
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NovaAqui
Em: 10/09/2018
Susan! Que ideia genial dela. Pena que Bri fosse gostar.
Agora é esperar ela gastar todo cheiro da echarpe e depois procurar Susan
Espero que Susan esteja sozinha
Abraços fraternos procês aí!
Resposta do autor:
Siiimm! Susan!! Sabrina não olhou para essa possibilidade...
Mas havia indícios, como bem notastes no capítulo anterior.
Que bom saber que gostou da ideia de Susan.
Obrigada por estar acompanhando, fico muito feliz que esteja gostando.
Grande abraço!!
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