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Arranjo por Nay Rosario

Ver comentários: 9

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Palavras: 810
Acessos: 1777   |  Postado em: 20/08/2018

Notas iniciais:

 

Introspecção é o que move Helena desde o dia da assinatura de seu divórcio. Enquanto tenta encontrar a peça fundamental para seu Compasso, vê o mundo por outro ângulo.

Samba Decadência

 

 

Tac.

Tum tac.

Tum tic tac.

Tum tac.

Tac.

 

Enquanto esperava, tentava criar a batida que mais tarde se tornaria o arranjo musical da letra que estava a compor; o samba da sua vida. O Compasso, sua casa noturna, estava lotada. Clientes fiéis e visitantes prestigiavam As Audições, um concurso pensado e criado para a escolha de uma cantora fixa para o estabelecimento.

Além dela, na mesa também estava seu sócio que nas horas vagas desempenhava o papel de irmão, um amigo deles que era produtor musical e sua inseparável carteira de cigarro; Hollywood. Estava tentando parar de fumar na base de pequenas substituições. Experimentou os alternativos e sentiu efeitos piores do que uma ressaca no corpo. Optou por trocar uma das carteiras por café, a segunda por chicletes e assim adquiriu mais três vícios. Não tão nocivos quanto a nicotina e companhia limitada.

A conversa da mesa girava entre arranjos e afinações ou a falta delas. Era a terceira semana de votação e até aquele momento de classificadas, apenas três. Um número relativamente baixo se considerar que a cidade em si respira música. Em seus pensamentos, um mundo de situações descortinava-se em imagens das últimas semanas.

Um divórcio sentido após meses em agonizante dor por causa de um apartamento em bairro nobre, as críticas familiares com relação à índole e ao caráter duvidoso de sua, agora, ex-esposa; os amigos do casal, as fofocas e toda uma lista de intempéries desagradáveis.  

Beirando os quarenta anos, Helena ainda se perguntava o que fez uma relação de quase doze anos desandar. As únicas alternativas que lhe vinham era interesses distintos e traição. Havia perguntado diversas vezes, mas a outra jamais havia respondido.

Bebeu mais um gole da sua água com gás enquanto olhava, de uma das mesas do primeiro andar, em direção ao palco. A segunda candidata finalizava sua apresentação sob fortes aplausos e gritos das torcidas que se formavam ali, durante o show. Dava graças aos deuses musicais por seu público ter um gosto refinado quando se tratava de música.

E foi pela sua necessidade de criar algo que pudesse propagar um dos seus dons, compor melodias, que nasceu o Compasso. Lembrou-se que Elton, seu irmão, foi completamente contra. Alegando que já haviam bares suficientes na cidade e sua réplica foi bem sucinta. Não como o meu.

O lugar tinha que ser ideal para a estrutura que idealizou, construção, organização, ornamentação e, por fim, a inauguração com show de uma grande e querida amiga que fez em uma das imensas viagens pelo mundo. Se muito ela veio aqui, foram duas ou três vezes. Em pouco mais de um ano, transformou a casa em referência de música boa, qualidade e ambientação segura.

Tinha shows dos mais variados, karaokê para quem gostava, eletrônica e, muito raramente, ela fazia voz e violão em uma noite intimista. Por incrível que possa parecer, era o segundo motivo de lotação da casa. Estava prestes a se levantar quando sentiu a mão gélida de Elton em seu braço. Olhou na direção que o outro lhe indicava e teve a impressão de ser um viajante do deserto pensando ver um oásis. Era ela atravessando o frontal do estabelecimento.

Estava bem diferente do que recordava. O corpo miúdo tinha perdido um pouco daquela atratividade, mas a elegância permanecia. A beleza era inquestionável e, seu coração agitado, incorrigível. Desistiu de mover-se da mesa e passou a seguí-la com os olhos. Viu quando ela sentou na mesa de amigos. Conversaram tão acaloradamente que era possível a percepção do tempo que passaram afastados.

Reparou também que volta e meia ela buscava algo com o olhar. Talvez um ou uma pretensa pretendente. Um acesso de raiva emergiu e se viu obrigada a engolí-la, uma vez que nada mais tinham. Seu coração parou por instantes ao ver uma bela moça oferecer-lhe uma bebida qualquer. Ciúmes em sua mais pura essência transbordava de seus olhos.

Se obrigou a dar atenção a última candidata da noite que a todos encantava com seu timbre e a letra da música ajustada em seu tom. Aplausos e gritos ecoavam. Votação encerrada e Elton já estava ao palco para anunciar a vencedora da noite. Nem sequer considerou ouví-lo. Ao voltar seu olhar para a pista, avelãs os capturaram. Minutos duraram uma eternidade naquele duelo e então ela sorriu. Uma brecha em meio aquele céu cinzento se abriu.

Devolveu-lhe um sorriso sem graça e voltou a concentrar-se na água. Absorta em um mundo paralelo, não sentiu a aproximação até que estivessem frente a frente. A outra puxou a cadeira e sentou-se, olhou em seus olhos desnudando-a e segurou em sua mão. Ao fundo, na voz grave de uma cantora qualquer jazia as reações de Helena.

 

"Bate outra vez com esperanças o meu coração, pois já vai terminando o verão enfim."

Cartola - As rosas não falam

 

Fim do capítulo

Notas finais:

 

Crédito musical: Cartola - As Rosas Não Falam.


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Comentários para 1 - Samba Decadência :
Mohine Yamir
Mohine Yamir

Em: 23/08/2018

Volto ao jardim, com a certeza que devo chorar...

Opa, chorar não, Helena. A não ser que sejam lagrimas de alegria. Que essa esperança que pulsou em conjunto com o seu coração não seja vã. 

 

Minha cara, Dama da Noite... por favor, dê segmento ao enredo. Helena merece e eu preciso saber o que vai acontecer. 

Beijos.


Resposta do autor:

...pois não queres voltar para mim.

Chorar alivia, lava e limpa a alma. Talvez seja disso que elas precisem.

Minha cara, Mohine. Helena terá seu desfecho.

Besitos.

Responder

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NovaAqui
NovaAqui

Em: 22/08/2018

As flores vão voltar ao jardim...

Abraços fraternos procês aí!


Resposta do autor:

Esse jardim está na UTI. Necessita cuidados especiais.

Responder

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Manamundi
Manamundi

Em: 22/08/2018

Volto ao jardim Com a certeza que devo chorar Pois bem sei que não queres voltar Para mim
Poético!! gostei. :-)
Resposta do autor:

Queixo-me as rosas...

A poesia está nos olhos de quem lê. 

Responder

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Rose SaintClair
Rose SaintClair

Em: 21/08/2018

Acho que tem que rolar heheheheh só acho!

besos


Resposta do autor:

Shiu!
Besitos.

Responder

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EdyTavares
EdyTavares

Em: 21/08/2018

Puxa vida... envolvente!!! Muito gostoso de ler... faz viajar...

Parabéns!!!


Resposta do autor:

Gracias!

Responder

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EriOli
EriOli

Em: 21/08/2018

Hm.
Introspectivo. Melancólico. Com um toque poético. E o final foi tipo aquela canção: "E aí vc sorriu e já era..." Será? Ficou a pergunta...rsrs.
 Como já disse... Serviu muito bem ao seu propósito, "minha" Dama!
Há braços


Resposta do autor:


Será que essa pergunta terá uma resposta?!
Merci, "minha" flor.

Responder

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EriOli
EriOli

Em: 21/08/2018

No Review

Responder

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Cristiane Schwinden
Cristiane Schwinden

Em: 21/08/2018

Taí uma coisa que gosto no seu texto: o ritmo. A atenção fica presa do início ao fim, e combinou perfeitamente por se tratar de uma moça que é música. 

Vc vai interligar os contos?


Resposta do autor:


Aaaaahh! A Poderosa Chefona nos dando alegria.
Helena e música muitas vezes se confundem.
Vai depender de uma certa pessoa, aí que lançou o desafio, sabe?!

XD :)

Responder

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mcassolwriter
mcassolwriter

Em: 20/08/2018

 "Optou por trocar uma carteira por café, a segunda por chicletes e assim adquiriu mais três vicios. Não tão nocivos quanto a nicotina e companhia limitada." 

Ótima! E o vício nas mulheres erradas hein... quem não sofreu? Bate outra vez ... :)


Resposta do autor:

 

Então...
Três vicios, rsrs.
Ela é um amor de pessoa, só... Sofreu.
Um pouco mais, talvés.

...Com esperanças o meu coração...

Responder

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Rose SaintClair
Rose SaintClair

Em: 20/08/2018

E ai? Rolou ou não rolou um revival?

Tô no aguardo! Continua esse conto please! Ficou fueda!


Resposta do autor:

 

Nos próximos capitulos descobriremos.
Vai depender da chefia, a continuação.

Besitos.

Responder

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