Diálogos em itálico significam estarem falando em inglês, ou seja, nos momentos que a história está se passando em Nova Iorque.
Capítulo 23
Esther
Despertei com a claridade do ambiente. A madrugada foi longa. O meu corpo ainda estava tenso, precisei tomar um calmante para poder dormir. Espreguicei, aspirando um delicioso cheiro de café.
"7:00 horas, Maria como sempre, pontual!" Pensei, bocejando.
- Hmmm - apoiei em meus braços - Ué, cadê? - estranhei a sua ausência.
Vesti um robe e sai a sua procura. O som de suas risadas atraíram a minha atenção.
- O QUE QUE HÁ VELHINHO? - voz animada.
Encostei na parede vendo a felicidade da pequena rindo com as palhaçadas do coelho. Seus cachinhos claros estavam levemente bagunçados, a sua face estava corada pelas gargalhadas, os olhinhos verdes brilhavam em contentamento por assistir o seu desenho favorito. Sentindo o meu olhar, virou a cabecinha em minha direção, recebi o melhor presente de todos, o seu sorriso. Aproximei fazendo-lhe cócegas e beijando o seu rostinho.
- BOM DIA, PRINCESA!
- Para mamãe! - ria - Tô vendo o pelilonga. - apontou com o dedinho a tela.
- Pernalonga, é? - corrigi sutilmente - Então, eu fui trocada por um coelho? - coloquei as mão na cintura, fingindo indignação.
Júlia olhou para tela e depois para mim, esticou os bracinhos pedindo colo.
- Não! - tocou o meu rosto.
- Não? - repeti divertida, ela assentiu - Mereço um beijo de bom dia? - sorri travessa.
Suas mãozinhas seguraram o meu rosto, enchendo-me de beijos molhados, dei um cheiro em seu pescoço fazendo-lhe cócegas, retribuindo o carinho.
- Acordamos de bem com a vida! Que algazarra! - Maria sorria, segurando uma xícara em uma mão e um copo infantil na outra.
- Bom dia, Maria! - beijei o seu rosto, pegando a xícara de café.
- Bom dia, Esther! - esperou a pequena deitar a cabeça em meu colo antes de entregar o leite - Beba devagar! - alertou a mulher mais velha.
Beberiquei o líquido quente enquanto fazia cafuné em Júlia.
- Hmmm... que delícia! Só o seu café para me despertar. - confessei.
- Não dormiu bem? - questionou olhando em direção ao meu quarto.
- Dormi sozinha! - entendi o seu olhar - Tive insônia. - suspirei.
- Que bom que hoje é sábado, poderá descansar.
- Descansar? - ri - Em que universo paralelo? - ironizei, apontando a pequena em meu colo.
- Você entendeu! - sorriu - Tem trabalhado demais. - comentou preocupada.
- Eu sei! Preciso de férias! - falei sonhadora.
- Somos duas! - riu.
- Ai, Maria! Prometo que assim que acalmar o escritório vou te recompensar!
- Ihh, esse papo é velho. - fingia lamentar.
- Poxa, Mah! Não somos tão ruins assim, né? - brinquei.
Os olhinhos atentos de Júlia acompanhavam o nosso diálogo.
- Nem me olhem com essa carinha de cachorro sem dono! - ria - Ta bom, vocês são até que boazinhas! - desdenhou divertida.
- Até, ela diz - balancei a cabeça - Está vendo Jú? Não estamos valendo mais nada! - fingi indignação.
- Boba! Amo vocês, minhas meninas levadas! - aproximou, beijando a minha testa - Já sabe para onde vai levar a mocinha ai?
Júlia levantou atenta, sabíamos a sua resposta.
- Vó Lú? - seus olhinhos brilharam em expectativa.
- Vó Lú! - repetimos sorrindo.
Há cinco anos...
- Nada, ela não atende! - Lúcia disse resignada.
Estávamos em sua casa, passamos a noite lá. Manuela tentava de alguma forma me animar. Suspirei. "Era isso? Tudo termina assim?" Procurei afastar esses pensamentos que angustiavam a minha alma.
- Não fique assim, querida. Mais tarde tento novamente... - interrompi.
- Preciso retornar a Nova Iorque. - decidi.
- Achei que fosse voltar semana que vem? - Lúcia indagou.
- Iria, mas como você mesma disse, preciso dar um tempo para Mia pensar a respeito e quem sabe finalmente poderemos ficar juntas. - sorri confiante.
Manu tocou o meu rosto limpando a lágrima que escorria, não tinha percebido. Respirei fundo, os olhares delas não ajudavam.
- Por favor meninas, não me olhem assim. Dizem que o amor sempre vence, então? Preciso estar confiante no nosso amor! - falei convicta.
"Ela vai pensar melhor, sei que vai!" assustamos com o toque de celular.
- É o meu! - olhamos em expectativa - Igor? Oi! Hã? Sair? - olhou-me - Hoje não! - antes dela falar toquei a sua mão, ela tampou o celular - Fala?
- Manu, tudo bem, pode ir se divertir!
- E deixar a minha amiga assim? Com cara de velório? NUNCA!! - falou indignada.
- Sério! Se não se importam, eu só quero ficar sozinha. - levantei.
- Mas Esther... - interrompi.
- Sem mas, por favor. - pedi.
Se entreolharam e acabaram concordando. Nos despedimos de Lúcia e fomos para o apartamento de Manu. Ajudei escolher uma roupa contra a vontade dela, até fiz uma maquiagem para destacar os seus olhos verdes. Procurei distrair a minha mente.
- Tem certeza que não quer ir conosco? - insistiu - É sábado! O que vai ficar fazendo sozinha em pleno sabadão encafuada no apartamento? Vamos sair e aproveitar! - Disse com os olhinhos brilhantes, sorri.
- Obrigada Manu, mas não! Aproveitem o dia. Talvez eu saía para espairecer um pouco, só preciso de um tempo.
Ela abaixo os ombros triste, parecia uma criança quando o pai dizia não. Aproximei e beijei a sua face.
- Eu te amo! Obrigada pela sua amizade! - abraçou-me forte.
- Também te amo, Estherzinha! - falou emotiva.
- Vai lá e se divirta por mim! - afastei, não queria chorar na frente dela - Igor? - chamei.
- Oi! - estava impaciente com a indecisão da namorada.
- Faça a minha amiga feliz, e divirtam-se! - ordenei.
- Sim senhora! - bateu continência brincando - Vamos amor? - envolveu a cintura de Manu.
A pequena olhou-me mais uma vez antes de sair. Soltei o ar presos em meus pulmões. Sentei no sofá deixando o meu olhar passear pela estante cheia de fotografias nossas. Levantei as minhas pernas, abraçando-as. "Quando foi que eu me perdi?" Nos anos que passaram, pensava mesmo estar indo pelo caminho certo. Tantas coisas boas haviam acontecido. Fiz o curso que amo, sendo uma oportunidade única que conquistei. Estava em um emprego ótimo, a minha vida profissional só estava começando. Os meus olhos pararam na foto de nós quatro, sorri saudosa. Era a foto que havíamos tirado no meu último dia de aula com elas. Estávamos na pracinha tomando sorvete até Manu começar uma guerrinha. Ficamos todas lambuzadas, porém felizes. Naquele dia não houve brechas para tristezas, todas faziam de tudo para alegrar o dia. Os rebeldes cabelos avermelhados de Manu, faziam contraste com seus grandes olhos verdes e sorriso maroto, a ponta do nariz toda suja, nossos rostos estavam colados, sorrindo. O meu cabelo tava todo bagunçado e minha bochecha melada. Dani e Mia estavam atrás fazendo careta. Um aperto no coração ao lembrar de como eu e a loira nos dávamos tão bem, era a minha maior conselheira, hoje em dia lugar ocupado por Miriam. Mia mesmo que discretamente segurava firme a minha cintura, a minha mão sobre a dela. "Minhas meninas!" Fechei os meus olhos. "Queria que o tempo volta-se!" Desejei.
Foi quando o meu estômago deu os primeiros sinais de vida que percebi as horas passando. De repente notei o quanto aquele lugar parecia sufocante, tomei um ducha rápida e decidi sair um pouco. Estava pegando a bolsa quando o pequeno cartão apareceu. "Por que não?" disquei o número.
- Alô, Bruna? - precisava distrair.
***
A conversa fluía enquanto bebíamos e comíamos. Bruna havia se tornado uma pessoa de sorriso fácil com leveza na alma, nada se parecia com aquela menina mal encarada do tempo de colégio. Combinamos de nos encontrar no quiosque perto do trabalho dela. Bruna transmitia uma paz e segurança que me fizeram abrir com ela a respeito de Mia.
- Mia sempre foi uma pessoa difícil de entender - comentou - Para mim, sempre foi muito claro o amor dela por você.
- Bom, naquela época eu ainda não sabia, apesar de você sempre estar esfregando isso na minha cara. - sorri.
Ela ficou séria, por um momento uma sombra de tristeza apareceu em seu olhar. Abaixou a cabeça erguendo em seguida pegando a minha mão, olhando-me profundamente.
- Sei que já pedi mil vezes perdão, mas, sinto muito por tudo o que fiz naquela época contigo, Esther! - falou sincera.
- Esquece, já te perdoei faz tempo! O que está no passado fica no passado! - acariciei a sua mão com o meu polegar - Sabemos os motivos que levaram você a agir daquele jeito - pensei - Se bem que você poderia ser atriz, o seu jeito era muito convincente! - falei pra descontrair.
- Hahahaha... olha eu preciso confessar! - levantou as mãos em rendição - Apesar das circunstâncias, Mia sempre foi muito atraente, o que acabava "facilitando o assédio" - sorriu marota.
- Ei! - ri, jogando uma bolinha de papel nela - Ás vezes acho que Lúcia comeu muito mel na gravidez dela, morena pra atrair mulherada! - resmunguei enciumada.
- Mia tem uma sensualidade natural. - estreitei os olhos - O que era mais difícil naquela situação, era tentar seduzi-lá sentindo atração por outra. - olhou intensamente.
Senti as minhas faces arderem, desviei do seu olhar, bebendo um longo golé de suco de acerola com laranja. Ouvi o riso dela e seu olhar suavizando, ficando risonho novamente.
- Ora, ora, o que temos aqui? Duas lindas beldades! Aceitam a minha humilde companhia, senhoritas? - a beleza negra tinha um sorriso galanteador.
- Oi amor! - recebeu um selinho demorado - Rô, lembra da Esther? - apresentou - Esther, essa é a Roberta, a minha esposa! - falou com orgulho.
- Prazer em revê-la! - me deu dois beijinhos no rosto.
- Oi! Desculpe mas já não vimos antes? - sorri sem graça.
- Pelo visto estava mesmo distraída! - riu - Trabalho com a Bruna na clínica. Devo ter passado por você umas três vezes. - sentou ao lado da outra.
- Nossa, desculpa! Eu estava mesmo com o pensamento longe... - interrompeu.
- Relaxa, menina! Seja o que for que tenha te deixado daquele jeito, espero que se resolva - piscou - Até porquê, mulheres temos aos montes por ai! - bebeu a cerveja do copo de Bruna.
- Eu não falei nada! - a morena respondeu rápido quando olhei surpresa para ela.
- E precisa? Conheço aquele olhar. Somente o amor de uma mulher para deixá-la assim! - olhou-me com cumplicidade.
Descobri em Roberta uma pessoa despojada, alegre, e que com certeza não levava desaforo para casa. Não precisou mais de meia hora de conversa para criarmos um laço sincero de amizade. A troca de olhar delas dizia tudo, era ali que estava a paz de Bruna.
***
- Faça uma ótima viagem querida - Lúcia abraçava-me forte - Me liga assim que chegar, okay? - beijou a minha testa.
- Uhum, obrigada por tudo! - sorrimos.
- Assim que a minha filha desnaturada der sinal de vida, pode ter certeza que vai levar uma chamada! - tentando confortar-me - Vocês ficarão bem, tenho certeza! - ouvimos a chamada.
- Não brigue com ela! - pedi - Eu quero ela de volta, mas por vontade dela, eu a amo demais!
- Nós também te amamos Estherzinha! - Manu abraçou-me forte - Fique bem, minha amiga!
Nos separamos, olhei pela última vez para elas antes entrar naquele corredor, era impossível deixar de sentir que estava deixando algo muito importante para trás.
***
Fechei a porta do apartamento, deixei as minhas malas ali na entrada. O clima está meio frio, liguei o aquecedor e retirei o meu sobretudo e cachecol. Normalmente gostava daquele época do ano em Nova Iorque. "Tudo fica muito mais intenso quando sofremos por amor" Lamentei sentindo a falta do calor humano das minhas amigas e família.
- Mia... eu preciso de você! - toquei o pingente.
Após arrumar as minhas coisas e tomar um banho quente, liguei para Lorraine avisando que havia chegado. Ela era uma das poucas amizades que tinha naquela cidade. Nos conhecemos na faculdade, tivemos algumas aulas juntas, apesar dela seguir a carreira de Designer de interior. Mesmo nos conhecendo em tão pouco tempo havia um forte laço de amizade entre nós, e como éramos um pouco parecidas fisicamente o pessoal pensava que fôssemos irmãs. Combinamos de tomar café da manhã juntas, eu estava exausta e sabia que iria encarar no mínimo um interrogatório dela. "Eu quero saber de todos os detalhes" ela dizia, será uma longa conversa, pensei antes de adormecer.
"Respiração ofegante. Corri o máximo que eu podia. Ouvia os gritos, as vozes alteradas, tampei por um instante o meu nariz por causa do cheiro forte. Nenhuma imagem era muito clara, vi tudo acontecendo rapidamente pegando pequenos fragmentos de conversas. As mãos fortes envolveram o meu braço fazendo-me olhá-lo. Aqueles olhos negros tão profundos, sentia angústia ao mesmo tempo desejo, não resisti em beijá-lo. A barba bem feita roçava em meu rosto, a boca firme envolvia a minha. Pressionava o meu corpo contra a parede, as suas mãos grandes e fortes tocavam-me de maneira possessiva. Ao longe ouvimos a voz feminina chamando-o, tentou parar o beijo, envolvi o seu pescoço trocando de posição. Tínhamos a mesma altura, usei de minha força para mantê-lo ali em meus braços.
- Samuel? - a voz se aproximava - Samuel?
A sua mão tocava o meu rosto fazendo-me parar aos poucos. Nossas respirações estavam ofegantes. Suspirei com o carinho em meu rosto, fechei os meus olhos beijando a palma de sua mão. Novamente o chamado, abri os meus olhos encontrando o seu sorriso, sentia uma paz que nunca havia sentindo antes. A necessidade de estar junto a ele, ficar ao seu lado sempre, mas infelizmente sabia que era impossível. A sua boca apossou novamente da minha em um beijo terno fazendo-me esquecer os pensamentos ruins.
- Eu te procuro! - falou entre os meus lábios.
Afastou suavemente, ajeitando suas vestes e saindo do estábulo. Pude ouvir a conversa:
- Por Deus! Por onde andou? A nossa mãe está te chamando! - voz irritada.
- Ora, Margareth! Uma jovem mulher não deveria estar gritando em plenos pulmões... ah não ser que esteja gritando de prazer - zombou.
- Deselegante como sempre, Samuel! Vamos, hoje ela acordou um pouco melhor.
- Estou indo. - percebi a preocupação em sua voz.
O meu corpo estava em brasas, encostei na parede de olhos fechados levando a minha mão até a minha boca. Com a ponta dos dedos pude sentir a pelugem curta em volta, desci a mão pelo o meu corpo sentindo-o. Abri os olhos assustado ao tocar o membro excitado, gemi de prazer ao pressionar levemente.
- Samuel... - sorri, repetindo o seu nome.
O som do choro baixinho chamou a minha atenção. Abri devagar a porta, tampei a vista por um instante a claridade machucava os meus olhos. Pisquei diversas vezes tentando localizar de onde vinha o choro, adentrei em um ambiente totalmente diferente. Um quarto simples com poucas mobílias, no canto uma cama onde repousava o pequeno corpo. Aproximei.
- Tudo bem querido, o Doutor vai te examinar, fique quietinho. - ouvi a voz atrás de mim.
Respirei fundo, esvaziei a minha mente e agi por instinto.
- O antibiótico deve agir rapidamente, agora ele precisa de repouso.
- Obrigada! - entregou o pagamento - Sei que não é muito, mas tem a minha palavra que quitarei a dívida. - falou envergonhada.
Sorri, pegando-lhe a mão devolvendo o pagamento, olhou-me sem entender, expliquei:
- Quitará a sua dívida cuidando bem dele. Não se preocupe, a conta já foi paga pelo o seu marido. - menti.
Limpou rapidamente as lágrimas que teimavam em cair, pegou as minhas mãos beijando-as.
- O senhor é um homem bom, bendita será a sua união com a senhorita Elizabeth.
Engoli seco, sentindo opressão em meu peito. Soltei de suas mãos, sentindo uma tontura, fechei os meus olhos massageando as minhas têmporas. Ouvia a sua voz ficar longe aos poucos. Ajoelhei, não conseguiu respirar direito. A minha mente estava confusa, novamente os gritos, abri devagar os olhos vendo as minhas mãos ensaguentadas. Estava ofegante, as cenas passavam rápido demais. Concentrei em sua voz, ouvindo os fragmentos das conversas:
- Não me pergunte como, mas o sentimento que sinto por você está enraizado tão profudamente em meu peito que temo...
- O que você teme?
- Temo não saber demonstrar em vida o quanto eu te amo! - falou emocionado.
- Preciso de saiba de algo sobre mim... - voz estava entrecortada.
- Depois... Não aguento mais esperar! - voz excitada.
- SALVE-OS! - exasperou.
- Por que, Gael? Tudo isso é culpa sua! - voz enraivecida.
Som estrondoso, a dor em meu coração e angústia, implorei para aguentar:
- Não me deixe! Resista, você é forte! - tentava estancar o sangue.
A minha vista estava embaçada pelas lágrimas, percebi que mexia os lábios mas não conseguia ouvi-lo. Desesperei-me quando deu um meio sorriso fechando os olhos para sempre."
- Esther? - acariciava o meu rosto - Acorde, querida! - chamou.
- Não... não... - chorei.
- Psiu, estou aqui! Calma, acorde querida... - abraçava-me forte.
Despertei devagar encontrando o olhar preocupado de Lorraine. Olhei perdida, o meu corpo tremia, sentia-me sensível demais, deixei ser acolhida por seu abraço protetor.
- Shhh...vai passar, respira fundo! - falou carinhosa.
- Foi tão real... - murmurei.
- Estou contigo, tenha calma.
***
Bebi devagar o chocolate quente, olhei distraída para expressão preocupada de Lorraine que estava de braços cruzados mordiscando a ponta do dedão, tinha essa mania quando refletia sobre algo importante. Assim que consegui me acalmar, ela providenciou o café da manhã para nós, enquanto eu tomava um banho para relaxar. Agradeci mentalmente o dia que entreguei uma cópia da chave para ela, também tinha do seu apartamento. Pacientemente ela ouvia sobre o pesadelo que havia tido a poucas horas, pelo menos os trechos que eu conseguia lembrar, também contei o que eu tive na casa de Lúcia. Enquanto comíamos narrei os encontros com Mia, ela questionava uma coisa ou outra, mas permanecia em silêncio absorvendo tudo.
- “Não há nada de escondido que não venha a ser revelado, e não existe nada de oculto que não venha a ser conhecido” Disse Jesus (Matheus 10, 26) - refleti suas palavras - Percebe que os seus "pesadelos" sempre ficam mais intensos quando está próxima a ela? Quando vivem uma situação forte demais? Já conversamos a respeito disso, e se bem me lembro cometou que algumas vezes quando vocês eram crianças tiveram sonhos semelhantes.
- Sim, apesar de Mia levar sempre ignorá-los. - comentei.
- Acredita na possibilidade dela também ter tido uma memória como essa?
- Acha mesmo que isso foi uma memória? - olhei surpresa.
- Olha, eu não sou especialista nisso, mas já li inúmeros relatos a respeito e tudo indica que sim, principalmente o jeito que você fica abalada quando os têm! - cruzou os dedos, apoiando seu queixo - Isso é fascinante, sabia? Eu mesma já tive algumas revelações, mas nada se compara ao que você vivência! É quase um quebra-cabeças surreal! - falou excitada - Não vejo a hora de conhecer Mia!
- Está louca?! Mia nem sonha que eu te contei algo a respeito dela, ainda mais algo íntimo!
- Que bobagem, Esther! - sorriu - Óbvio que não contarei nada, mas com certeza vocês têm um laço poderoso que vai além dessa existência.
***
Estava em reunião com o meu chefe, colocando-me a par de tudo. Já havia adiantado muitas coisas. Durante a semana conversava constantemente com Manuela por skype, afim de ter notícias da morena, já que a mesma não havia me procurado. Infelizmente, Manu teve que viajar e pouco sabia o que estava acontecendo. Lúcia por outro lado, percebia o seu desconforto, o que me deixava temorosa em perguntar. "De hoje não passa!" Respirei fundo, concentrando-me.
- Estou impressionado como está desenvolvendo o seu projeto. - fazia observações - Mas tenha sempre uma segunda opção, esse cliente é exigente, geralmente adora palpitar apenas para ter o prazer de tirar-me do sério. - Martyn resmungou.
- Imagino, e já estou preparada! - sorri - Estudei as plantas anteriores dos projetos encomendados por ele, então tenho uma boa noção aonde estou pisando.
- Bonita, inteligente e criativa! Ah, se eu estivesse disponível! - sorriu galanteador.
- Ah, se eu tivesse sem opções! - retruquei divertida, estava acostumada com o papinho dele.
- Menina, quanto mais maltrata, mais eu me apaixono! - colocou a mão sobre o coração.
- Martyn, se puder me dar licença, eu tenho mais o que fazer! - levantei e abri a porta.
- Com esse seu jeito abusado, você vai longe.
- Já não digo o mesmo para você, com esse seu "assédio". - desafiei.
Sorriu, levantando as mãos em rendição e saindo.
- Homens! - resmunguei, finalizando a planta.
***
- Você tem certeza? - sentia o meu coração parar.
- Absoluta. Eu sinto muito, querida! - Lúcia tentou dizer alguma coisa para confortar-me, porém eu não ouvia mais nada.
"Mia, não pode casar! Não com ela!" sentei, levando a mão ao pescoço, havia um nó se formando "Mia, você não percebe que só eu posso te fazer feliz? Eu que sou o seu amor! Você é a minha alma gêmea!" Pensei com a certeza em meu coração.
***
- Esther! Minha amiga, pare! - olhava desnorteada.
- Eu não tenho tempo a perde, Lorraine! - enfiav* as minhas roupas de qualquer jeito na mala - Mia, vai perceber que somos uma, ela é a minha outra metade! - repetia isso como mantra.
- Nem sempre almas gêmeas estão destinadas a ficar juntas! - segurou-me pelos ombros.
- O quê?? Enlouqueceu?
- Só assim para fazer você me ouvir! - respirou fundo - Querida, preste atenção! Não é sempre que almas gêmeas estão destinadas a viver uma história de amor. Ás vezes elas vem como pai e filho, irmãos... - interrompi.
- ISSO NÃO SE APLICA A NÓS!
- E existe o livre-arbítrio. - pausa - Ela fez a escolha dela!
- Está dizendo para eu desistir dela? - falei em um fio de voz.
- Estou dizendo para você respeitar à vontade dela.
- Mia, é o meu amor! - sentia as minhas forças irem embora.
- Eu sei, eu sei. - acariciou a minha face.
- O que eu farei sem ela?
- Viva o hoje, o agora! - abraçou-me forte.
***
Lorraine se deliciava com um saboroso Fettuccine Carbonara, servido no pequeno bistrô Le Grainne Café, o seu restaurante favorito. Eu, por outro lado, me contentei com um crepe de banana e nutella, acompanhado de um capuccino cremoso. Os meus dias estavam amargos, então resolvi seguir o conselho de Manuela, tentando adoçar a minha vida.
- Ainda não me disse se irá ou não para a festa. Afinal, aquela mulher teve todo o cuidado para te enviar um convite. - ironizou.
Duas semanas após a notícia, soube que elas haviam oficializado a união. Desejei ter encontrado com elas e impedido aquela loucura.
- Elena... - sentia o gosto amargo em minha boca - Ela só quer me afrontar, esfregar em meu rosto quem foi a escolhida.
- Espero que não pense em rejeitar o convite. Afinal, é descortês não aceitar tal oferta de paz! - sorria sarcástica.
***
"Vá e demonstre a ela que você continua em pé, seguindo em frente mais forte do que nunca!" As palavras de Lorraine ainda soavam em meus ouvidos enquanto eu observava o movimento daquele lugar. Reconheci alguns colegas de Mia, e antigas amizades. Vi ao longe Lúcia conversando com Daniele e Manuela. Ninguém sabia que eu viria, decidi de última hora. Um suave arrepio percorreu o meu corpo, suspirei baixinho apreciando a sua presença. Mia estava linda, o tempo todo sorridente, ás vezes um sorriso um pouco sacana, acompanhei o seu olhar percebendo o flerte. Tocou suavemente a nuca e olhou para o salão como se procura-se alguém, foi quando os nossos olhares se encontraram. Fui em sua direção, Elena já estava ao seu lado envolvendo firme a sua cintura.
- Será que eu posso dançar com a noiva? - perguntei a Elena.
- Se assim ela desejar, por mim tudo bem. - sorriu - Dance com a sua irmã, amor. - ironizou.
A morena ficou sem graça sorrindo discretamente, pegou-me pela mão e fomos até o centro do salão. Mia estava desconfortável, aproximei questionando:
- Está com medo que a sua "irmã" faça algo escandaloso?
Respirou fundo, pegando a minha mão e envolvendo a minha cintura.
- Não, por que eu sei que você não irá mais me magoar. - falou suavemente.
Abaixei a cabeça tentando controlar os meus sentimentos, ergui decidida a cumprir a minha promessa, sorri respondendo:
- Nunca mais! - "Eu sempre vou te amar!"
Ouvimos a música mudar e percebemos que havia o dedo de Manuela nisso, sorri com o que disse:
- Vamos mostrar do que as "irmãs" são capazes. - piscou sedutora.
Fechei os meus olhos eternizando aqueles momentos em seus braços. Éramos uma só novamente. Em um determinado momento a presença de Elena nos despertou. Percebi que falavam entre si, olhei sem saber o que fazer. O meu coração estava acelerado, senti o olhar de Mia, a dança havia se transformado de algo íntimo para uma disputa que infelizmente Elena estava levando a melhor. O calor de suas mãos em minha cintura fizeram-me olhar para o seu rosto próximo ao meu, a loira possuía uma postura impecável, foi fácil acompanhá-la.
- Acho que vocês esqueceram aonde estão - falou baixinho - Outra mulher no lugar de Elena teria feito um escândalo. - recriminou.
Não disse nada, estava me recuperando dos toques de Mia, deixei que Daniele guiasse a dança. Os convidados aos poucos entraram no pista do salão puxando os seus pares, perdi elas de vista. Sentia os olhos azuis observando-me, retribui o favor. Era primeira que estava tão próxima de Daniele, não podia negar que ela sempre foi bonita, mas a maturidade realçava ainda mais os seus traços. A sobrancelha sempre bem feita em harmonia com atento olhos azuis, nariz reto com pequenas sardas camufladas pela maquiagem, os lábios cheios e queixo redondo, completavam o belo conjunto.
- Gosta do que vê?
- Até que sim, não é de se jogar fora! - fingi falso désdem.
Sorriu discreta. Finalizamos a dança e fomos para um canto do salão. Aceitamos a bebida.
- Pensei que não viesse.
- Certamente não foi a única. - percebi o olhar de Elena para nós.
- Por que faz isso? Nunca imaginei que fosse masoquista.
Voltei a minha atenção para ela refleti as suas palavras.
- O amor é uma dor que desatina sem doer! (Luís de Camões) - São em momentos assim que sentimos o verdadeiro significado de certas frases e músicas. - sorri triste - Você não entenderia os motivos que me fizeram vir aqui e para dizer a verdade acho que eu ainda estou descobrindo.
- Como sempre, diminuindo o que eu sinto! Até onde vai o seu egoísmo, Esther?
- Desculpe! Eu não quis menosprezar os seus sentimentos! - falei sincera - Tudo isso é tão difícil para mim, pensei que talvez algo pudesse acontecer, sei lá... - suspirei - Parece tão simples entregar-se a outra mulher... - falei sufocada.
- Você nunca ficou com outra mulher? - olhou-me surpresa.
- Não... Nunca senti vontade! Só existe a Mia para mim! Sempre foi ela, sempre! - observei a sua reação.
- Hmmm - bebericou o champagne - E agora? Diante da nova realidade - indicou o casal - Ainda acho que vale a pena esperar por ela? - ironizou.
- Até depois da minha morte! - respondi sincera.
Sorriu suavemente sem esconder o olhar divertido, prosseguiu:
- Sabe... de certo modo, eu sei como você se sente - virei para ela - Hoje nós duas perdemos a única pessoa que realmente importa. - percebi a tristeza em sua voz.
- Você a ama? - engoli seco.
- Amar? - repetiu como se desvendasse a palavra - Eu a amo... - sussurrou, dando um leve sorriso - Compartilhamos os mesmos sentimentos, mas com diferentes intensidades. - deu de ombros.
- Por que nunca lutou por ela? - indaguei surpresa.
- Porque era você que ela queria! Jamais tive alguma chance e não entro em uma briga sem ter a certeza que posso ganhar! Não costumo perder, e essa disputa era arriscada demais.
- Não posso pedir desculpas pelas vezes que pedi para ela ficar comigo. - ela sabia exatamente do que eu dizia - Porém, se eu soubesse que você sentia algo além do carnal por ela, teria feito diferente.
- Sempre fomos muito sinceras uma com a outra, independente da relação que vocês tinham. - suspirou - Na época pode ter mexido um pouco comigo, mas vendo a felicidade delas agora, não posso negar que no fundo eu me sinto vingada.
Daniele sorriu para o casal que nos observavá, olhei para loira percebendo o estrago que havia feito em nossa relação. "Até que ponto o meu ciúmes me cegou?" Na época que havia terminado com Mia e por pressão de Beatriz, acabei me envolvendo com o filho de um empresário amigo de meu pai. Procurei me esforçar ao máximo para suportar aquela situação, mesmo tendo noção do sofrimento que estava causando a Mia, o que acabou reaproximando elas novamente. Quase um ano depois, tudo ficou insuportável, foi quando percebi que a relação delas havia avançado mais do que deveria. Fiquei possessa quando descobri que Mia tinha se entregado a ela. Tomada pela raiva quase me entreguei a Diego, a crise de choro acabou com todo o clima. A mágoa, o ódio do que eu fiz e pela fraqueza dela, tudo se acumulou de um jeito que me atingiu fisicamente. O meu pai quase surtou acreditando ser sintomas da doença que levou a minha mãe embora. Não demorou muito e a notícia espalhou, Lúcia e Mia vieram, porém apenas Lúcia eu aceitei ver. Ninguém entendia os meus motivos, somente a morena. Queria que sentisse a minha dor atráves da rejeição de vê-la. Durante a noite enquanto todos estavam dormindo ela invadiu o meu quarto. Tive que controlar a ira de vê-la e imaginar as mãos de Daniele naquele corpo que era só meu. Mia não reagiu em momento algum quando soquei o seu corpo, ou quando bati em seu rosto. Mesmo ela recebendo o tapa, sentia como se fosse em mim. Havia um grito preso em minha garganta que foi silenciado pelo beijo dela. O beijo foi carinhoso, não mais que um roçar de lábios, o suficiente para despertar o desejo adormecido. Não deixei que pensasse, calei suas frases entrecortadas com os meus beijos, me entreguei a ela assim como a fiz ser minha.
- Você está certa! Tudo o que estou vivendo ainda é pouco diante de todo o sofrimento que causei a vocês! Aqui se faz, aqui se paga! - murmurei - Daniele? Eu sinto muito de verdade! - não esperei que falasse algo, sai.
Lúcia olhou-me surpresa, cumprimentei ela e algumas pessoas, perguntei se havia visto Mia. Indicou o caminho, sentia o olhar de Daniele. As risadas e o som peculiar me fizeram parar, respirei fundo e aguardei. Perdi a noção do tempo repassando mentalmente as conversas com Lorraine. Havia certo constragimento em sua voz quando me chamou:
- Esther?
Olhei para elas engolindo seco, ignorando a face relaxada e zombeteira de Elena diferente da morena que estava sem graça.
- Não quis interromper. - respirei fundo - Eu vim desejar felicidades a vocês! - sorri - Desejo de coração que sejam felizes! - olhei para Elena - Você é uma mulher de sorte, nunca se esqueça. - Mia olhava-me surpresa - As duas são! Parabéns!
Pressionei minhas mandíbulas, sentindo o meu queixo tremer, virei antes que percebessem. "Preciso sair daqui!" Passei direito pelos fundos indo até a entrada, não queria que ninguém me visse. As minhas mãos tremiam, a minha vista estava embaçada enquanto eu tentava discar o número do táxi, o calor de sua mão envolveu o meu braço. O último fio de esperança se esvaiu quando deparei com os olhos azuis preocupados.
- O meu carro está logo ali, eu te levo!
Não tive forças para negar, estava fragilizada por abrir mão de toda esperança que pudesse ter em recuperar o meu amor. "Eu te fiz mais mal do que bem, não serei mais egoísta com seus sentimentos Mia!" O calor de sua mão sobre a minha me fez olhá-la.
- Onde você está hospedada? - perguntou gentil.
O percurso foi feito em total silêncio, cada uma perdida em seus sentimentos. Assim que chegamos agradeci a carona, mas não conseguia sair do carro. Mesmo em silêncio estar em sua presença era melhor que ficar sozinha, a loira percebeu e arrumou uma desculpa qualquer para subir, sorri em agradecimento. Estávamos lado a lado no elevador, acionei o andar e encostei na parede de vidro fechando os meus olhos um momento, aspirei o agradável aroma de seu perfume adocicado. Sentia o olhar dela sobre mim.
- Compartilhamos o mesmo sentimento com diferentes intensidades - repeti baixinho.
Abri a porta do apartamento e caminhei até o centro da sala, Daniele fechou a porta encostando nela.
- Amamos ela! - encarei o seu olhar.
A loira se aproximou, li em seu olhar a verdade em minhas palavras.
- Você não é indiferente a outras mulheres, Esther! Vejo isso quando olha para mim - falou entre meus lábios - Apenas se permita ser tocada enquanto espera. - beijando-me com intensidade.
A minha mão envolveu o seu pescoço, indo até a nuca, aprofundando o beijo. "Mia" A língua experiente de Daniele deixava-me excitada como a muito tempo não ficava, as suas mãos passeavam sem pudor em meu corpo. Arrepiei inteira sentindo o seu toque em contato com a minha pele, enquanto abaixava as alças do meu vestido. Minha mão desfez o seu coque bem feito, sentindo a maciez do tom trigo.
- Ahhhh... - gemi ao sentir seus lábios abocanhando o meu seio.
Abracei a sua cabeça dando mais contato, as suas mãos subiram a lateral do meu vestido fazendo-me sentir a sua pegada. Fechei os meus olhos, pude ouvir os gemidos de Elena pelos toques de Mia. A lágrima solitária desceu, não deixei que Daniele visse, peguei o seu rosto e devorei a sua boca. A minha boca desceu por seu pescoço ch*pando-o e mordendo-o, percebi que ficou surpresa pela minha reação. Retirei o seu vestido e admirei a sua boa forma física. Senti o peso de seus seios antes de substituir por minha boca. A loira suspirou dando-me um sorriso safado, os seus olhos haviam escurecidos. Seus dedos longos passearam pela lateral do meu corpo, levantando o meu vestido fazendo-me sentir o contato de suas mãos quentes em minha pele. Os nossos corpos trombaram contra a parede, as suas pernas entre as minhas, excitando-me cada vez mais. Arfeei com a penetração, minhas unhas cravaram em seus ombros, o seu hálito quente em meu pescoço intercalando com a sua língua. O movimento começou lento e fundo, aumentando ao mesmo tempo que sua boca marcava a minha pele. Daniele não deixou que eu goz*sse ali, levantou-me abracei a sua cintura com minhas pernas, fomos até o pequeno sofá. Ela me fez sentar abrindo as minhas pernas, admirando-me. As minhas unhas arranharam as suas costas quando senti o contato de sua língua envolvendo o meu clit*ris. Levantou a minha perna colocando-a sobre o seu ombro, aumentando mais o contato. Estava quase goz*ndo quando parou e me fez virar, pondo-me de quatro. Mordi minha mão para abafar o grito de prazer quando estocou fundo com dois dedos. A sua boca em minha nuca, lambendo-a. Não aguentei mais entregando-me a gozo forte. Seus lábios roçaram em meu ouvido, a sua risada abafada e rouca, mordiscou o meu lóbulo antes de dizer:
- Você é tão doce... eu só estou começando. - foi tudo o que disse durante toda a madrugada que ficamos juntas.
Naquela noite compartilhamos muito mais que sentimentos em comum, aquilo havia se tornado um perdão mútuo.
***
Sorri para o casal de idosos que pararam para tirar foto diante da Untermyer Fountain/Three Dancing Maidens, certamente o Conservatory Garden era o meu lugar favorito em Nova Iorque.
- Feliz dia dos namorados! - Lorraine entregou-me uma rosa - Só para não passar em branco! - piscou.
- Obrigada! - sorri em agradecimento - Mas eu sou uma péssima namorada, não tenho nada para você! - brinquei.
- O dia está só começando, querida! Aposto que você providência algo! - sentou ao meu lado - Erick fará uma festa e eu quero você vá! - exigiu.
- Pedindo assim tão carinhosamente, como irei recusar? - debochei do seu jeito delicado.
- Acho bom mesmo! - sorriu de lado.
- O que você aprontou? - estreitei os olhos - Eu conheço esse sorriso!
- Venha a festa e descubra, é simples!
***
O pessoal estava animado, sabiam comemorar o dia dos namorados ou o dia de São Valentim, como é conhecido por aqui. Como imaginei, fazia parte de algum plano mirabolante de Lorraine, a casamenteira.
- Aceita uma cerveja? - Erick ofereceu.
- Sim, obrigada. - bebi um golé - Cadê a doida da sua namorada? - olhei em volta.
- Lorraine está na cozinha conversando com Claire. - percebi o seu olhar.
- Okay, quem é Claire? - desconfiei.
- Acredito que irá descobrir! - indicou com o queixo, sorrindo.
Acompanhei o seu olhar, elas estavam a poucos metros de nós. Ás vezes desconfiava se Lorraine era realmente hétero, tamanho bom gosto e dedo para selecionar mulheres. Seis meses haviam se passado desde que estive naquela festa e com Daniele. Não houve mais nada entre nós, o que havíamos compartilhado foi totalmente saciado naquela noite. Não posso afirmar que voltamos a antiga amizade, ela se perdeu a muito tempo, porém aos poucos construíamos um novo relacionamento, o que causou alvoroço em Manuela afirmando o quarteto estava de volta. Mia nunca comentou nada a respeito, mas sentia o olhar curioso dela sobre nós.
- Esther? - Lorraine sorriu - Quero te apresentar Claire Lewis, lembra que te mostrei o trabalho dela, o interior daquele apartamento amplo da revista "New arts, interior and landscaping".
- Lembro sim, achei maravilhoso e inovador o seu estilo. - sorri - Esther Dietze - cumprimentei - Prazer em conhecê-la!
- O prazer é todo meu! Obrigada! Conheço o seu trabalho também, e posso confessar que o aprecio muito! - sorria sedutora.
- Deixarei vocês a sós... aposto que descobrirão muitas coisas em comum. - piscou, sem esconder o sorriso malicioso.
***
- Como você está, amor? - Lúcia questionou.
- Levando na medida do possível. - respondi sincera.
- Sabe que pode contar comigo sempre, só quero que seja feliz!
- Eu serei sim! - tentei de me convencer disso - Tem coisas que só o tempo cura, pelo menos é o que dizem.
Silêncio. Queria perguntar sobre a morena ao mesmo tempo que sabia que era melhor manter-me afastada. Lúcia percebeu e saciou a minha dúvida.
- Ela está bem.
- Imagino que sim. - suspirei, mudando de assunto.
***
- Meu Deus! Cuidado Lorraine! - estava apreensiva, olhando-a patinar.
- Vamos garota, não seja medrosa! - sorriu divertida.
- O que você chama de medo, eu chamo de cuidado! - meu coração pulou com o gracejo dela, rodopiando por aquela pista.
- Querido, traga essa minha amiga "cuidadosa" para o cá! - cruzou os braços.
- Nem vem, Erick! Não espera! - era tarde, envolveu a minha cintura tirando-me da segurança da parede de proteção.
- Relaxa, Esther! Estou te segurando. - o rapaz respondeu zeloso.
Lorraine piscou confiante esticando a mão para mim, enquanto Erick mantinha-se atrás segurando a minha cintura.
- Viu, não tem o que temer! - falou de frente para mim, patinando de costas.
- Fácil você dizer que parece ter nascido com patins nos pés! - sentia-me tensa.
- Quanto drama! - zombou.
- LORRAINE! - era tarde, trombou com outra patinadora que estava distraída.
A minha sorte era que Erick estava atrás me segurando ou seríamos as duas com a bunda no gelo. Procurei manter o equilíbrio indo em direção a parede de segurança enquanto Erick ajudava Lorraine e a moça a se levantar. Não consegui esconder o riso pelo constrangimento daquela sabichona que pedia desculpas, fechou a cara olhando-me séria.
- É, você tem razão, patinar é muitooo divertido! - zombei dela o resto do dia.
***
- Como ele está lindo! - sorri - Que saudades do pessoal! As crianças estão crescendo tão rápido.
- Eté... - Pablo chamava-me apontando o dedinho para a tela.
Estava conversando com Lúcia pelo Skype, os seus netos estavam todos em sua casa.
- O tempo está voando! - Lúcia ria com a tentativas de fala do pequeno - Lembrou-me de quando Mia era tão pequena toda bochechudinha. - falou saudosa - Estou me sentindo tão velha. - beijou a cabeça do japonesinho.
- Velha não! - corrigiu - Experiente! - Mia surgiu atrás de Lúcia, beijando-a - Olá mamãe! - sorriu para o pequeno - Oi coisinha... - olhou-me - Olá Esther! Como vai?
"Com saudades!" Pensei
- Olá Mia, estou bem, obrigada! E você?
- Muito bem! - sorrimos.
- Filha?
- Oi? - respondeu sem desviar o olhar da tela.
- Fique com o Pablo um pouquinho, por favor? - entregando o bebê - Vou ver se Eduardo não está pondo fogo na minha cozinha.
- O quê?? - segurava ele um pouco desajeitada - Perai, não me deixa com essa bu... - não teve tempo de dizer, Lúcia havia saído.
Mordi o meu lábio segurando o riso, a morena estava totalmente desconfortável sem saber o que fazer com o bebê que só sorria.
- Ora, Mia! Segure ele direito! - ela mantinha os braços esticados, mantendo ele longe do seu corpo.
Ela olhava-me assustada, tentei ficar séria e orientá-la.
- Vamos, você já segurou Victor quando era recém nascido.
- Sim, mas você estava ao meu lado! - retrucou, percebi a aflição em sua voz.
- Ele não vai te morder... - passei tranquilidade - Pode babar, mas morder não! - sorri - Estou aqui, contigo.
Devagar e com cuidado ela envolveu o corpo menor em um abraço protetor. Sentou onde Lúcia estava percebi que o seu corpo ainda estava tenso.
- Viu, ele não vai arrancar um pedaço de você - brinquei - Relaxa morena, estou aqui. Eu te protejo! - pisquei divertida.
A morena estreitou os olhos e aos poucos foi relaxando. Pablo tocava o seu rosto e tentava mexer no notebook. Vê-la depois de tanto tempo mesmo que virtual ainda mais naquela situação, fez com que o meu coração se aquecesse. Não contive o sorriso imaginando por um momento nós duas juntas com um filho nosso.
- Que foi? - olhou confusa - Ele babou em mim? - procurou alguma sujeira.
- Não... - sorri.
- Então por está com esse sorriso bobo? - arqueou a sobrancelha.
- Imaginando aqui...
- O quê? - desconfiou.
- Como seria um filho seu! - omiti.
Ri alto diante da expressão de espanto dela, fazia tanto tempo que não tinhamos um diálogo tão leve. A conversa fluía naturalmente. Conversamos sobre tudo, evitando apenas entrar muito no pessoal. Depois desse dia os nossos papos virtuais tornaram-se frequentes.
***
- Nunca tinha percebido o medo que Mia tem toda vez que pedem para ela segurar uma criança - comentei com Lorraine.
- Nem todo mundo gosta de crianças. - respondeu sem deixar de ler o livro.
- Sim, mas ela entra em pânico mesmo!
Lorraine abaixo os óculos e pensando a respeito.
- Talvez seja algo que trouxe com ela de outra vida, possivelmente algum trauma.
- Mia se da bem com os sobrinhos dela, claro que depois que eles saem da fase da fralda. - pensei - Mas se isso for verdade o que será que houve?
- Seja o que for, só ela poderá superar isso fazendo parte do seu processo de evolução.
***
"Me vi sentada em um campo florido. O calor gostoso do sol banhava o meu corpo, o agradável cheiro das flores envolvia-me. O risinho infantil chamou a minha atenção, sorri e fui até ela. Tentava se esconder atrás da árvore, reconheci aquele sorriso sapeca. A moreninha olhava-me divertida. Estiquei a minha mão que foi aceita por ela. Agachei e limpei o seu rostinho que estava sujo. Sorrimos. Ela me entregou uma pequena florzinha, e beijou o meu rosto antes de sair correndo. Aspirei o cheiro daquele jasmin branco tocando-o com carinho. Coloquei preso em minha orelha antes de levantar e ir atrás da pequena. Aproximei de um pequeno chalé, a moreninha estava parada apontando para ele, caminhei até a entrada procurando a porta, mas não tinha. Dei a volta nele e nada. Olhei para ela que se mantinha no lugar apontando para uma janela que não estava ali antes. Havia uma menininha sentada no chão abraçando suas perninhas no centro da pequena sala, tinha sensação de já tê-la visto antes. Olhei em direção a moreninha, porém já não estava mais lá. Voltei a minha atenção para o interior daquele chalé e havia um bebê no lugar da menininha de cabelos claros. Afastei olhando novamente em volta para ver se havia alguma forma de entrar lá. Percebi que o céu começou a escurecer e uma brisa forte envolveu o meu corpo. Voltei a minha atenção para a janela e fiquei surpresa, uma mulher grávida estava sentada se balançando enquanto tocava com carinho a barriga que deveria ter uns setes meses. Uma angústia tomou conta do meu peito quando aos poucos o movimento do corpo daquela mulher foi parando. Vi a sua mão escorrendo pela lateral da barriga e um líquido descendo entre suas pernas, bati no vidro tentando quebrá-lo ou chamar a sua atenção, nada, nenhuma trinca. Estava desesperada quando senti algo me puxando, olhei para baixo e a moreninha sorria entregando-me uma pedra que deveria ter o tamanho de meu punho fechado. Sorri em agradecimento, usei toda a minha força e estourei aquele vidro com o impacto ouvi um grito de dor."
Despertei na hora, o cheiro de jasmin estava impregnado em meus cabelos.
***
Não houve tempo para conversas, não era isso que buscávamos. As suas mãos invadiram a minha blusa em busca dos meus seios, a minha boca ch*pava o seu pescoço. Abaixou com o pé a tampa da privada sentando-se e puxando-me para o seu colo. O som da música alta abafava os nossos suspiros. Busquei a sua boca quando senti os seus dedos penetrando fundo. A sua mão livre passeava por meu corpo, indo até a minha bunda puxando-me para dar mais contato. A bebida, a carência, o lugar, tudo contribuía para excitação do momento. Rebolei em seus dedos a fim de saciar o meu desejo. Não recordo do seu nome e nem de seu rosto, a única coisa que prestei atenção foram em seus olhos negros.
***
- Ora Lorraine, eu namoro sim! - respondi um tanto aborrecida.
- Tirando o fato que os seus "namoros" não duram mais que três meses, é pode se dizer que é alguma coisa. - desdenhou.
- O que você quer afinal?
- Que você se permita sentir algo verdadeiro novamente, tudo para você se tornou trabalho excessivo ou sex* sem compromisso! - falou séria.
- Acha mesmo que eu não tento?? Já se passaram dois anos! E todos os dias que eu acordo e sinto aquele sentimento mais vivo do que nunca! - respondi sufocada - Eu sei que tenho muito amor para dar, então me diz a fórmula mágica para eu poder esquecê-la de vez e me entregar de verdade a alguém!
Essas discussões sempre aconteciam quando eu dava um basta no meu atual relacionamento. Lorraine queria o meu bem, mas era desgastante demais sempre debater o mesmo assunto.
- Você procura incansavelmente uma válvula de escape, algo que supra a necessidade de tentar amar alguém. Esther você está só se machucando cada vez mais e machucando as pessoas que não conseguem tocar aqui - apontou o meu coração.
***
Olhei para o meu relógio assim que finalizei o desenho. Era o meu último projeto naquela filial. Os sócios de Martyn, Ethan (britânico) e Isabella (portuguesa) já tinham aberto um escritório no Rio de Janeiro, sendo o mais recente, já que a sede principal ficava em Lisboa. Dos três, o que eu tinha mais contato era Martyn, o americano que possuía o seu charme com seus grisalhos, apesar de me simpatizar com Isabella que apreciou muito saber da minha vontade em retornar em definitivo para o Brasil. Estava com tudo preparado ainda naquela semana estaria curtindo o solzinho carioca, sorri e fechei a porta. Assustei quando o pequeno grupo de colegas se aproximaram abraçando-me, desejando boa sorte e sucesso. Fizemos uma festinha com direito a um bolo. Martyn como de costume soltava as suas frases de "efeito" para cima de mim, apesar disso sentiria falta de todos ali.
***
- Vou sentir tanto a sua falta, querida! - Lorraine abraçava-me forte.
- Não mais que eu a sua! - retribui - Vou esperar pela sua visita em minha casa, no Rio de Janeiro.
- Hmmm... praias e feijoada! Assim eu me apaixono pelo Brasil! - sorrimos.
- Será só o começo! - confidenciei.
***
- Star! - gritou animado, correndo em minha direção.
- Oi meu ruivinho lindo! - abaixei para abraçá-lo - Como eu senti a sua falta! - acariciei a sua face cheia de sardas.
- Trouxe presentes? - sorri, lembrando de Manu.
- Hmmm... deixa eu pensar? - coloquei a mão no queixo, observando seus olhos cheios de expectativas - Eu acredito que perdido em alguma mala minha está um certo boneco de ação que alguém pediu muito.
- Ebaaa! - olhou para cada uma delas tentando adivinhar em qual.
- Vermelha - sussurrei, piscando.
Não pensou duas vezes, indo até ela e procurando o seu presente.
- Será que esse velho pai pode receber um abraço apertado da sua filha? - brincou.
- Todos!! - fui envolvida pelos seus braços fortes, abraçando-me apertado - Como senti falta desse seu abraço papai. - fechei os olhos curtindo aquele aconchego.
- Deveria ter avisado que trocou de voo, teria ido te buscar.
- E chegar aqui com outro jantar de noivado para mim? Ahhh, não!
- Beatriz está no spa - respirou fundo - Sinta a paz nesse lar! - Miriam comentou divertida.
- Olha, bem que eu senti assim que passei por aquela porta! - sorrimos, abracei a ruiva.
- Meninas! - ralhou - Está vendo amigão? Essas mulheres quando se juntam são terríveis! - balançou a cabeça em negação.
- Apenas unidas por um bem maior! - Miriam brincou.
Victor estava alheio a conversa, divertindo-se com o seu novo brinquedo.
***
De banho tomado após uma refeição leve, estava deitada em meu antigo quarto, relaxando. Prometi sair com os meus pais e Victor, queria curtir a minha família como a muito tempo não fazia. "Família" sorri, estiquei a mão alcançando o meu celular.
- Alô?
- Oi, mãe! - não resisti à vontade de chamá-la assim.
- Esther! Meu amor! Que saudades de ouvir a sua voz! - Lúcia falou com alegria.
- Só da voz? - fiz manha.
- De você toda, querida! - ouvi a sua risada.
- Isso eu posso resolver... - fiz suspense - Voltei pra ficar! - sorri.
***
Os meses passaram rápido, assim como minha vontade de crescer naquele escritório aumentava. A princípio senti um pouco a mudança tanto do ambiente de trabalho quanto dos colegas. Lorraine fazia muito falta, porém os cariocas não ficavam pra menos, aos poucos aquele calor brasileiro foi me conquistando novamente.
***
Não sabia o que dizer diante daquele homem que sempre esteve presente em minha vida, sendo o meu exemplo de pai. Eu visitava Lúcia sempre que podia e em pouco tempo ele entrou em contato comigo, pedindo a minha ajuda.
- Eu sei que errei muito! Desde do meu último encontro com Amélia algo aqui dentro - tocou o seu coração - mudou... - seus olhos estavam tristes - Que pai eu me tornei? Penso nisso todos os dias. - engoliu seco - O que eu fiz da minha vida? O que eu fiz com a minha família? - passou a mão no cavanhaque - Não posso voltar atrás de refazer as minhas escolhas - tocou a minha mão - Mas posso tentar ao menos corrigir os meus erros! - encarou-me - Eu preciso recuperar a minha filha, a minha garotinha. Eu preciso de sua ajuda! - implorou - Entre todas as pessoas, eu sei que a você ela irá ouvir, por favor.
Sabia prefeitamente o que estava se passando com ele, também havia feito escolhas infelizes que por muito tempo afastaram ela de mim.
- Como eu posso ajudar? - decidi.
***
- Jamais imaginei receber uma ligação de você. - estávamos em seu escritório, sentadas frente à frente - Ainda mais para fazer um pedido assim tão... delicado.
- Tenha certeza que não é algo fácil para mim. - encarei - Faço por ela!
Notei que pressionou o maxilar, analisava tudo o que eu dizia.
- Não me agrada o que pede, Amélia deixou claro que não quer a presença desse homem... - interrompi.
- Elena, por Deus! Eles são pai e filha! Olhe em meus olhos e diga que essa situação deles não te afeta também??
Suspirou, sustentando o olhar, sabia que aquilo a incomodava.
- Só dê a chance para eles conversarem. - pedi novamente.
- A cada ano está cada vez mais difícil convencê-la a comemorar o seu aniversário. - confessou - Se as coisas sairem de controle...
- Eu assumo a responsabilidade!
Silêncio.
- Do que precisa? - decidiu.
Conversamos uma meia hora acertando tudo, antes de eu sair ela chamou:
- Esther? - virei em sua direção - Essa conversa nunca aconteceu! - assenti.
***
Elena organizou a festa em sua estância apenas para parentes e amigos próximos. Foi montado um pequeno palco com telão atrás a pedido das crianças que queriam se divertir com karaokê, a loira adorava os sobrinhos e acaba cedendo algum capricho. Prepararam um típico churrasco gaúcho. Cheguei com Lúcia que estava ciente do pedido de Henrique e agradeceu a colaboração de Elena.
- Feliz aniversário, Mia! - abracei forte.
- Obrigada! Obrigada por vir - sorrimos, entreguei o seu presente - Posso?
- Por favor.
- Uau! - admirando o presente - Ela é linda! - sorriu feliz.
Demorei para escolher um presente ideal para ela e que não fizesse Elena pirar e arrumar um jeito de se livrar. Optei por uma caneta de luxo tinteiro de prata toda detalhada em ouro, pedi para gravar "Montenegro" em sua extensão.
- Espero que traga sorte nos contratos que irá assinar com ela.
- Tenho certeza que sim! Obrigada! - sorrimos.
Afastei deixando outras pessoas parabenizarem ela. Aproximei de Lúcia e questionei a ausência de Henrique, mas descobri que chegaria com Eduardo e família.
- Tomara que ela não pire. - confessei.
- Mia é cabeça dura. É notório a falta que sente de Henrique, mas é orgulhosa demais para admitir! - lamentou.
- É desse orgulho que tenho medo.
- Então vamos rezar para que aquela cabecinha dura dela seja iluminada e afaste a mágoa de seu coração.
Concordei fazendo uma pequena prece para que tudo desse certo.
Quando Henrique chegou, Lúcia teve o cuidado de ficar próxima a morena que fechou a cara quando percebeu a presença do homem. Houve um constragimento quando Henrique cumprimentou Mia, mas em momento algum ela foi grosseira com ele. Rodrigo, o pai de Elena, gostou de conhecer finalmente o restante da família da morena (ou seja o seu pai), a conversa entre eles fluía como se fossem amigos de longa data. Observei que Mia agora dava sorrisos contidos, era evidente o seu desconforto, imaginei que Elena deveria ter se arrependido de nos ajudar nessa reconciliação.
- Confesso que em momentos assim que mais sinto falta de Manuela, ela saberia como quebrar todo esse clima! - comentei com Clara e Lúcia.
- Bom eu não sou uma Manu da vida, mas... - pensou - acho que tenho uma ideia! - Clara chamou os seus filhos e comentou algo com eles - Trato feito?
- Sim! - Marcos e David responderam juntos.
Os gêmeos foram para perto da morena e procuraram distraí-la fazendo palhaçadas ou sendo carinhosos, aos poucos o seu corpo relaxou e conversava como se nada tivesse acontecido, ignorando completamente a presença do homem.
- O que prometeu a eles? - perguntei curiosa.
- Nada! - sorriu - Digamos que aliviei algumas coisas em relação ao castigo deles. Hoje em dia é dizer que vai tirar o celular ou cortar a internet que eles viram uns anjinhos! - sorrimos.
A comemoração seguia tranquila, o pessoal estava se divertindo demais ouvindo as histórias de Rodrigo Mertens. Em um determinado momento a música parou e indo para o pequeno palco Henrique e Eduardo se posicionaram com os violões. Tio Rique pediu atenção:
- Boa noite a todos! - pequeno murmúrio - Desculpe interromper, mas venho perante a todos exclusivamente para você minha filha e pedir humildamente que ouça o que há anos tento lhe dizer.
Mia estava tensa, sabia que sairia sem ao menos dar um chance de ouvi-lo. Aproximei de Lúcia que pedia calma para ela. Olhou-me percebi quanto isso mexera com ela.
- O que significa isso?
- Mia apenas ouça o que ele tem a dizer! - pedi com carinho, tocando a sua mão.
Respirou fundo e ouvimos as primeiras melodias do violão. Henrique não desviava o olhar, deixando a sua voz demonstrar tudo o que sentia.
Hoje eu parei pra escrever
Alguma coisa assim sobre você
E simplesmente me deixei levar
Pela emoção de poder lhe falar
Atrás deles no telão, fotos de Lúcia grávida e Henrique beijando a sua barriga. Mia mantinha-se ereta pressionando as mandíbulas.
No dia em que você nasceu
Vinda do amor de sua mãe e eu
Um lindo presente que o senhor nos deu
A realidade de um sonho meu
Eduardo acompanhou Henrique no vocal. A primeira foto de Mia recém nascida, tão pequena e vermelhinha. Nela Lúcia sorria para ela, e Henrique beijava a sua testa. Olhei para elas, Lúcia estava emocionada segurando a mão de Mia.
E quando você chorou
Deus me ensinou uma nova canção
Seus olhos de um anjo pequeno
Iam se fazendo a minha religião
Cenas de vídeos caseiros mudos. Mia com 1 ano de idade dando os primeiros passos e tio Rique agachado sorrindo incentivando.
Coisas que de mim não saem
A primeira vez que me chamou de pai
Vou lhe confessar agora minha filha
Com você eu aprendi que um homem tem
que ter família
Houve um leve tremor no corpo da morena ao ouvir o trecho da música ao mesmo tempo que se emocionava com as recordações que passavam atrás deles.
28 anos faz agora
É de alegria que meus olhos choram
Meu pequeno anjo que agora fascina
Para mim para sempre será a minha menina
Foto dela aos 15 anos de idade levantando um trófeu com sorriso maroto, e aos poucos a foto ia alterando-se para uma da formatura da faculdade. A morena estava linda de vestido vermelho e um sorriso sedutor.
Filha eu sei que errei
E demorei muito para perceber
Mas tenha certeza que farei o impossível para me redimir
Perto de você é onde eu quero estar
Não é que eu vá te vigiar
Só quero ter novamente em meus braços
a minha garotinha
Filha me perdoa?
O corpo de Mia tremia mesmo se mantendo firme, a sinceridade nas palavras de Henrique estavam chegando a ela. Elena mantinha-se em silêncio, observando-me.
E quando você chorou
Deus me ensinou uma nova canção
Seus olhos de um anjo pequeno
Iam se fazendo a minha religião
A voz de Henrique começou a falhar diante da emoção.
Coisas que de mim não saem
A primeira vez que me chamou de pai
Vou lhe confessar agora minha filha
Com você eu aprendi que um homem tem
que ter família
Olhei surpresa para o telão quando uma foto onde eu estava com eles apareceu. A morena envolvia a minha cintura de maneira possessiva, enquanto Henrique nos abraçava por trás, Lúcia ao lado, beijando o rosto de Edu. Voltei a minha atenção para Eduardo que piscou travesso.
28 anos faz agora
É de alegria que meus olhos choram
Meu pequeno anjo que agora fascina
Para mim para sempre será a minha menina
Engoli seco, sentindo o olhar severo de Elena. Ouvi Mia suspirando suavemente. Era uma foto de nós duas abraçadas sorrindo para a câmera com os rostos colados, ainda quando estávamos juntas. Manuela que havia tirado.
Filha onde você vai
Pode não sobrar um lugar pro seu pai
Mas tenha certeza que eu vou sempre estar
Perto de você onde quer que vá
Aquelas recordações não mexeram somente com Mia, não esperava por aquelas cenas do filme. Respirei fundo tentando controlar as minhas emoções.
Não é que eu vá te vigiar
Não é que eu queria ser o seu dono
Isso é só um cuidado de pai
Filha eu te amo (2x)
Finalizou a música e todos aplaudiram, Henrique não teve tempo de sair do palco e ir falar com ela, Mia soltou a mão de Lúcia e saiu. Rodrigo percebendo o clima interveio pedindo músicas para evitar o constrangimento do outro, iniciando assim o karaokê.
Senti a mão firme em meu braço levando-me para longe dos convidados. Elena estava furiosa, entendia o motivo mas não deixaria que me maltratasse.
- Solte o meu braço, Elena! - olhei séria.
- Escuta aqui o que irei dizer, garotinha! Nunca mais ouse me procurar e fazer toda aquela encenação para me comover - soltou o meu braço - Eles são pai e filha, Eu faço isso por ela! - ironizou - Deveria ter seguido os meus instintos, você é uma excelente mentirosa! Só pensou em você, e na melhor maneira de reconquistar a minha mulher! - exasperou.
- Está enganada! Fiz com a única intenção de aproximá-los novamente, não tive nada a ver com aquele filme. - respirei fundo - Sei exatamente como deve estar se sentindo e eu sinto muito, de verdade!
- Não se atreva a se aproximar dela novamente, pois eu não serei tão boazinha da próxima vez! - ameaçou.
- Está tudo bem por aqui? - a voz rouca se fez presente atrás de mim, Elena ficou sem reação.
- Está sim, Mia! - virei para a morena - Só estávamos conversando.
Os olhos negros nos observavá atentamente, aproximou de Elena tocando o seu rosto.
- Nos dê um minuto, por favor, Elena.
Elena beijou a morena de forma possessiva, aquilo me atingiu como um tapa, desviei o olhar. Saiu sem olhar para mim.
- Desculpe, foi desnecessário. - respirou fundo - Por que Esther?
- Ele é o seu pai, Mia! Eu acredito no arrependimento dele e você também deveria. Dê uma chance a ele! - aproximei - Vocês eram tudo um para o outro. - senti vontade de tocá-la, mas não o fiz - O seu coração possuí tanto amor, não deixe que ele escureça. - pedi.
Em seu rosto era visível a fragilidade que sentia, podia ler cada sentimento em seu olhar, sabia que Henrique finalmente havia tocado o seu coração ferido, mas levaria tempo até que ela cedesse. Por mais que eu sentisse vontade em ficar ao seu lado, ela precisava de tempo, estava saindo quando a ouvir chamar.
- Esther... - virei para ela - Não envolva mais a minha esposa nessas situações.
Não foi um pedido, concordei e sai. A cada passo que eu dava em sua direção era um passo que ela dava para longe de mim.
***
Estava em minha sala concluindo um projeto quando ouvi a batida na porta.
- Pode entrar! - autorizei sem desviar o olhar da prancheta.
- Oi! Vim chamá-la para almoçarmos juntas. - convidou.
- Oi Paula! - pressionei suavamente a minha nuca - Nem vi as horas passando. Estou faminta!
- Que bom! Conheço o lugar certo para irmos. - sorriu.
***
Estava recuperando do gozo quando a loira levantou indo até a sua bolsa, sorriu mostrando o brinquedo que havia trazido.
- Está cheia de surpresinhas hoje - sorri.
- Digamos que seja uma ocasião especial. Hoje fazem quatro meses que estamos juntas e até onde eu sei, para você isso é um recorde! - brincou.
Olhei surpresa, não estava contando o tempo, apenas curtindo os bons momentos que compartilhávamos. Trabalhávamos juntas e foi em um evento do escritório que descobrimos muito mais que interesses em comum.
Despertei com a sua boca em minha virilha, a sua língua passeava por toda região, excitando-me. Busquei pela sua boca, mordendo forte o seu lábio virando nossos corpos na cama. Tomei o brinquedo de sua mão, iniciando uma exploração por seu corpo com a minha boca. As suas unhas arranhavam os meus braços, gemia sentindo a minha língua a penetrando fundo. Devorei o seu clit*ris inchado metendo fundo o brinquedo, iniciando uma vai e vem rápido, diminuindo as estocas quando estava prestes a goz*r. Paula estava enlouquecida de desejo, falando palavrões e soltando pequenos gritos, afim de aumentar o meu tesão, o que na verdade causou outra reação, fazendo com que eu terminasse aquela tortura e deixando que ela alcançasse o gozo.
***
- Eu não posso me ausentar um pouco que você aparece praticamente casada! - Manuela sorriu.
- Que exagero, Manu! - respondi abraçando-a forte - Feliz aniversário querida! Manuela, essa é Paula! - apresentei - Paula, conheça a doidinha mais amável do mundo! - brinquei.
- Parabéns! - entregou o presente.
- Obrigada. Obaa presentes! Adoro!
Manuela organizou uma festinha para poucos amigos, algo mais íntimo. Fez questão que eu trouxesse Paula junto, queria conhecer atual ficante? Namorada? Namorida como ela mesmo dizia? Afastei esses pensamentos olhando o pessoal que já estava presente.
- Ela ainda não chegou. - ouvi a sua voz próxima de mim.
- Dani! Que surpresa boa! - nos abraçamos - Achei que não viria, afinal tem estado tão ocupada.
- Depois de receber meia dúzia de ameaças de sequestro por parte da pessoa ali - indicou Manu - Eu tive que dar um jeitinho! - sorrimos - Tudo bem com você?
- Sim.
- Tem certeza? - observou as minhas feições.
- Por que não estaria?
- Me diga você! - sua voz soou mais baixa.
Encarei o seu olhar, pensando no que havia dito. Olhei em direção a Paula que conversava animada com os amigos de Manuela. Lorraine faltou soltar fogos de artifício quando comentei sobre o tempo que estava com Paula, percebi que algum tempo não sentia mais necessidade de ficar procurando outras mulheres, mas para ser sincera, tinha pensamentos conflitantes sobre estar gostando dela ou seria apenas comodismo de ter alguém nas noites solitárias. Aquele arrepio gostoso percorreu o meu corpo inteiro quando encontrei com o seu olhar. Paula sorria para mim, mas os meus olhos olhavam atráves dela, para a morena que havia acabado de chegar e olhava em minha direção. Suspirei baixinho acompanhando cada movimento seu, cumprimentava as pessoas ali presente, ainda assim seus olhos sempre buscavam os meus.
- Acho que já tem a sua resposta. - Daniele sorriu discreta.
***
- Olá Sarah! - beijei o seu rosto - Tudo bem?
- Tudo sim, e contigo? - fechou a porta.
- Morrendo de vontade de comer aqueles docinhos que você faz. - falei manhosa.
- Hehehe... Então chegou bem na hora! Dona Miriam está tomando chá com a Dra. Vivian na varanda.
- Hmmm... vou lá então! - pisquei indo encontrá-las.
Pelo horário Victor deveria estar tendo aula de natação, adorava aquele furacão era estranho o silêncio naquela casa.
- Bom dia meninas! - cumprimentei beijando-as.
Vivian era advogada e lésbica assumida, casada um pouco mais de dez anos com Joan. Elas se conheceram na embaixada Brasil/Canadá. Vivian fazia consultória e JJ como gostava de ser chamada, era intérprete. Acredito que pelo fato das irmãs sempre serem muito unidas e jeito que tratavam abertamente sobre a sexualidade de Vivian desde muito cedo, foi o fator mais importante para eu ser aceita por Miriam e papai. Vivian era cinco anos mais velha que Miriam, seus cabelos tinham um tom cobre mais escuro e seus olhos eram azuis claros.
- E como está a pequena Lívia? - agachei ao lado de Vivian - Posso?
- Claro! - sorriu - Ela é uma mocinha bem comportada.
Toquei a sua barriga, tinha entrado no sexto mês de gravidez.
- Como é sentir que está gerando esse pequeno milagre?
Vivian refletiu as minhas palavras, sorri com a sua resposta.
- Antes eu apenas existia como qualquer pessoa. Eu estudei, trabalhei e casei. No momento que ela passou a existir dentro de mim, foi o momento em que me redescobri. Eu como por ela, respiro por ela, eu vivo por ela! Deixei de ser apenas mulher e me tornei mãe.
***
- Paula parecia ser tão comprometida com você, confesso ficar surpresa quando falou que vocês haviam terminado. - Lúcia comentou.
- Gosto dela. É uma pessoa alegre e divertida, só que ela sabia que não haveria futuro para nós.
Estacionei de frente para o prédio de assistência social. Após incidente com Bruna e ter ajudado a sua família, Lúcia envolveu-se mais e ajudava sempre que podia pessoas mais necessitadas, entrando de cabeças em projetos assistênciais, arrecadando fundos ou simplesmente passando um tempo com idosos e crianças.
- Olá Lúcia! Hoje a turminha está um pouco agitada, espero que não causem problemas. - comentou preocupada, a velha senhora.
- Paciência e amor, é tudo o que elas precisam! - piscou confiante.
Passar um tempo com aquelas crianças parecia ter renovado as minhas energias com seus risos inocentes e suas visões únicas do mundo.
Estava retornando do banheiro após lavar as minhas mãos que estavam sujas de tinta quando o cheiro de jasmin se fez presente. Olhei em volta e não havia flores, caminhei em direção oposta de onde estávamos. Ouvi uma vozinha infantil, aproximei observando o monólogo da menininha com a boneca.
- Oi. - olhou-me curiosa.
- Olá! Que boneca linda que você tem! - abaixei ao seu lado - Ela tem nome?
- Luna! - sorriu tímida - Mamãe que me deu... é minha princesa.
- E qual é o seu nome rainha? - sorri carinhosa, seus olhinhos transmitiam uma doçura fazendo-me sentir uma emoção familiar.
- Júlia.
***
- Você tem certeza filha?
- Absoluta pai! Quando eu a vi senti o meu coração bater mais forte e mais rápido... - sorri - O tempo que passamos juntas, a necessidade que sinto em protegê-la e amá-la só me deram mais certeza! - sentia a emoção em pensar naquela pequena - Eu quero a Júlia, papai. Quero ser a mãe dela!
- Então pode contar com a minha ajuda! - abraçou-me - Serei vovô! - sorrimos.
***
A conversa com Vivian foi muito produtiva, estava esperando o elevador fazendo nota mental de tudo o que eu precisaria fazer. Quando a porta abriu, assustei com a presença de Daniele.
- Esther? - A loira olhou-me surpresa.
- Dani! Ah, oi!
- Está tudo bem?
- Sim, e contigo? - sorri simpática.
- Quero dizer se você está com algum problema. - ignorou a minha pergunta.
- Por que estaria? - falei confusa.
Sorriu, abrindo os braços indicando aonde estávamos.
- Ah! - sorri sem jeito - Apenas tendo uma reunião com a Vivian.
- Schneider? - olhou-me séria - Repito: Está com algum problema? - falou preocupada.
- Como eu já disse, foi uma reunião com ela. - tranquilizei.
- Reunião com uma advogada criminalista? - cruzou os braços - Trocavam receitas de bolo? - ironizou.
- Não, Daniele! - suspirei - Ela é irmã de Miriam, vim conversar com ela a respeito de adoção.
Os olhos da loira brilharam perigosamente diante da informação de parentesco, estreitando-os em seguida. Achei estranho a sua reação, e segui o seu olhar por sobre o meu ombro ao avistar a ruiva saindo de sua sala e indo conversar com outro advogado.
- Adoção, é? - olhou o relógio no pulso - Podemos conversar em um almoço? - sugeriu.
- Claro... - não estava entendendo nada.
- Um minuto, por favor! - adentrou o corredor, levando alguma documentação, retornando em seguida - Vamos?
- Sim!
Antes da porta do elevador fechar, percebi a troca de olhares.
***
Daniele ouvia em silêncio sobre a minha conversa com Vivian.
- É o melhor a ser feito. - comentou assim que conclui - Quem a dra. Schneider indicou?
- Bom, ela ficou de me ligar assim que conversar com a dra. Carmem Bonjardini para pegar o meu caso.
- É uma excelente advogada. - bebericou o suco - Mas permita-me dizer algo?
- Claro!
- Deixe-me assumir o seu caso, eu quero ser a sua advogada!
Olhei surpresa, ela havia mudado de postura e os seus olhos estavam determinados.
- Por quê?
- Por que eu posso te garantir que a sua filha estará em seus braços o quanto antes! - percebi o sorriso discreto.
***
- Calma querida, elas já devem estar chegando! - Lúcia tentava tranquilizar-me.
- Eu sei, é que mal dormi essa noite. - estava ansiosa demais.
- Imagino! - sorriu - Mas precisa aproveitar e dormir sempre que puder, vai por mim, dica valiosa!
Como prometido, Daniele assumiu o meu caso tendo assistência de Vivian, ganhando assim a minha guarda provisória. O interfone tocou e liberei a entrada. Lúcia segurou a minha mão e sorriu passando-me tranquilidade. Abri a porta esperando elas chegarem ao andar. Daniele estava acompanhando a assistente social com Júlia segurando a sua mão. Agachei e a recebi em um abraço acolhedor.
***
A cada dia minha convivência com Júlia fazia me sentir mais viva do que nunca. No ínicio ela ficou ressabiada principalmente pela mudança de estado, mas aos poucos o seu jeitinho todo tagarela e curioso foram ganhando espaço. Não demorou mais que cinco minutos para Lúcia se apaixonar por ela também, a interação entre elas era outro nível, não sentia ciúmes delas, estava amando ela cada vez mais.
***
- Você está bem? - Maria tocou em meu braço.
Olhei para ela meio perdida não sabia o que responder, desde que acordei sentia uma sensação ruim que piorará com o passar do dia.
- Minha cabeça dói um pouco, acho que deve ser por causa do calor. - disfarcei.
Maria olhou-me preocupada tocando em meu rosto. Na verdade aquilo era culpa do meu pai, assustou tanto ela por causa da doença da minha mãe que qualquer resfriado que eu pegasse era motivo para ela pirar.
- Você está um pouco quente. Deve estar com febre, vou buscar um antitérmico. - segurei a sua mão.
- Calma, Maria! Não é para tanto! É o calor, já estou me hidratando. - indiquei a água de coco que eu bebia - Onde está Daniele? - desconversei.
- A dra. foi atender uma ligação enquanto você comprava as bebidas. - observou - Júlia está muito quietinha hoje, tô achando que vocês estão gripando, isso sim!
Olhei preocupada em direção a pequena que estava sentadinha no sofá com a mãozinha apoiando o rostinho, parecia pensativa. Júlia havia insistido tanto em ter a companhia de Daniele que a loira não viu outro jeito, organizou a sua agenda e tirou o dia de folga para curtir a minha pequena. Levantei para ir até ela quando Daniele retornou, a sua expressão deixou claro que algo havia acontecido.
- O que houve?? - sentia o meu coração parando.
***
Caminhamos rapidamente por aquele corredor, Daniele parava para pedir informações na maternidade, seguimos as instruções. Assim que contou da ligação de Lúcia não pensei duas vezes, levei Maria e Júlia para a casa dos meus pais e eu e Daniele pegamos o primeiro voo para São Paulo. Não tive tempo para processar o que estava acontecendo, precisava estar lá para ajudar no que fosse preciso. Ao longe vi os pais de Elena conversando entre si, percebi que Heloísa chorava. A cada passo que eu dava, parecia haver um punhal em meu coração perfurando mais e mais. Aproximamos de Lúcia que conversava com a governanta de Elena, assim que me viu, abraçou-me forte fazendo o mesmo com a loira. Procurei Mia, mas sem sinal dela. Lúcia explicou que houve um deslocamento da placeta que acabou levando a um parto prematuro, fizeram o possível, porém o bebê havia nascido morto. Fechei os meus olhos com pesar, sabia o quanto elas queriam essa criança. Os meus pensamentos foram até Júlia, toquei o meu pingente. Lúcia avisou que Mia teve um queda de pressão e que Franscica estava com ela enquanto ia comprar algo para a morena comer. Daniele acompanhou Lúcia e eu fui ver Mia. Encontrei elas sentadas na varanda, Francisca foi a única que percebeu a minha presença, a morena tinha o olhar fixo em um ponto qualquer na parede. Ajoelhei a sua frente, chamando-a.
- Não adianta, ela parece ter se desligado da realidade. - Francisca tinha os olhos vermelhos.
Segurei a sua mão e com a outra fiz carinho em seu rosto, fiquei assim por alguns instantes até chamá-la novamente:
- Mia? - suas lágrimas caíram e seu olhar encontrou com o meu.
Sentei ao seu lado, automaticamente ela tomou posse do meu colo entregando-se a um choro sofrido. Fiz cafuné e disse palavras carinhosas até que adormecesse, Franscisca assistia em silêncio.
***
Assim que retornamos me despedi de Daniele, só queria ter a minha filha em meus braços. Maria estava com a pequena em meu antigo quarto, ela dormia profundamente. Fiquei um tempo velando o seu soninho, o meu corpo dava sinais de exaustão. Peguei uma muda de roupa e fui tomar um banho demorado. Fechei os meus olhos e deixei vir o pranto, sentia como se um pedaço de meu tivesse sido mutilado. Agradeci a Deus por ter conseguido a guarda total da minha pequena. A minha cabeça latej*v*, deixei o quarto com cuidado e fui até a cozinha comer algo. Era madrugada e as únicas pessoas que conseguiram dormir foram as crianças. Bebia um chá de camomila enquanto contava o que havia acontecido. O meu pai só soube assim que chegou de viagem, Miriam resolveu ficar por conta das crianças, achei melhor.
- Foram rápidos em enterrar a criança. Convenhamos que foi melhor assim! - ouvi a voz atrás de mim - Que futuro teria dentro de um lar de anormalidade? Se é que posso chamar aquilo de lar - falou com desdém - Você deveria tomar isso como um sinal, Esther! Tome vergonha na cara e arrume um pai para aquela mulatinha bastarda que você arrumou... - interrompi.
- CALA ESSA BOCA IMUNDA BEATRIZ!! - todos olharam assustados - NÃO OUSE SEQUER ARTICULAR ALGUMA PALAVRA OFENSIVA PARA A MINHA FILHA OU PARA AQUELE BEBÊ INOCENTE!
- Como ousa levantar a voz para mim! - percebi o tremor em sua voz.
- COMO OUSA VOCÊ QUE TENTA MACULAR UM AMOR TÃO PURO QUANTO O AMOR DE UMA MÃE, USANDO ESSA LÍNGUA PARA DESFERIR OFENSAS E TERMOS RACISTAS PARA SERES LINDOS E INOCENTES!
- Julga-me por dizer a verdade? - falou ofendida.
- Julgá-la?? Não! A única pessoa que julga Deus e o mundo é você! Nunca imaginei até onde pode chegar a sua crueldade. - pressionei o meu maxilar - Não tenho palavras para descrever a minha repulsa pela sua ignorância e sua falta de amor próprio e para os demais.
- Ora sua... - seu rosto estava transformado pelo ódio.
- Já basta mãe! - papai interveio.
- O sobrenome que preza tanto fique com ele, não quero nada seu! - chamei Maria para irmos embora - Aliás tem uma coisa sim, quero distância de você!
Depois daquele dia não pisei mais naquela casa, os meus pais viam me ver e até Victor pedia para dormir em minha casa, Beatriz como o passar dos anos ficava cada vez mais insuportável.
***
O ano passou rápido trazendo mudanças. Com o crescimento do escritório surgiu a oportunidade de abrir outro em São Paulo. Isabella a muito tempo havia comentado comigo a possibilidade de escolher pelo menos três arquitetos para tomar a frente nessa nova filial. Não foi surpresa para muitos quando eu estava entre os escolhidos por conta da minha dedicação com a firma. Ícaro e Agatha acompanharam-me nessa nova fase. Estava na festa de inauguração de uma nova clínica médica, um dos primeiros trabalhos que peguei assim que assumi a frente do escritório.
Olhei aquelas pessoas que conversavam entre si, sorriam simpáticas com conversas banais. Caminhei distraída pelo jardim sentindo o frescor da natureza. Fechei os olhos aspirando um perfume marcante que me deixou embavecida. O som da sua voz levemente rouca me fez ir até ela. Estava de costa conversando com outra convidada. Sentia o meu coração acelerando. "Mia?" Os cabelos negros estavam ondulados nas pontas, mas a postura, os gestos. "Será?"
- Mia? - chamei baixinho, o suficiente para ela ouvir e se virar.
Os olhos azuis encaravam-me com curiosidade e interesse.
- Quase! - sorriu de lado - Dra. Micaela Arantes! - estendeu a mão - Com quem tenho o prazer de falar?
- Esther Dietze! - retribui o gesto.
- A arquiteta. - olhou-me com certo interesse.
- Desculpe, pensei que fosse outra pessoa. - percebi que a moça com quem ela conversava havia saído - Novamente desculpe interromper, foi um prazer em conhecê-la.
- Tenho certeza que o prazer será todo nosso. - sorriu sedutora.
Algo em seu olhar me atraiu.
Dias Atuais...
- Resolveu aceitar o convite de Micaela? - Lúcia perguntava enquanto escolhia com cuidado as frutas.
- Sim! Vamos em um barzinho, a banda do amigo dela vai se apresentar. - comentei pondo de volta os legumes que Júlia colocava no carrinho.
- Ela me parece ser uma boa moça. - sorria para travessuras da pequena.
- Ela é... - falei distraída.
- Só que não é Mia. - concluiu, suspirei assentindo.
- Moa! - Júlia adorava chamá-la assim.
- Até você? - sorri.
- Precisa se dar uma chance para ser feliz. - olhou-me.
- A mesma chance que está dando a Norah? - retruquei divertida.
O rosto de Lúcia ficou levemente corado, levantando a sobrancelha em um gesto peculiar das Montenegro.
- Norah é somente uma amiga, okay? - fingia contrariedade.
- Uma amiga muito especial eu diria! - sorri, provocando-a.
- Esther! - ralhou - Não seja abusada mocinha. - riu.
Assim que Lúcia estacionou, a SUV preta do outro lado da rua chamou a minha atenção. "Será?" Olhei em direção a Lúcia que havia percebido para onde a minha atenção estava. Enquanto eu retirava Júlia da cadeirinha, Lúcia entrou na casa. Entrei com a pequena em meu colo, sentindo fraqueza em minhas pernas a cada passo dado. Silêncio. Encontrei Lúcia agachada fazendo carinho em Mia que estava em um sono profundo no sofá. Fiz sinal para Júlia ficar quietinha, mesmo com a pouca idade ela entendia bem as coisas. Os meus olhos vagaram saudosos pelo corpo adormecido, entendi a expressão preocupada de Lúcia, Mia estava muito magra e era evidente o cansaço em seu rosto. "O que será que houve?" Saímos sem fazer barulho, chegamos a cozinha fechando a porta de acesso aos outros cômodos. Coloquei Júlia na cadeirinha ligando o tablet para ela ver os desenhos.
- Mia não me parece nada bem! - comentei preocupada.
- E não está! Conheço a minha filha e ela tem me evitado, agora estou percebendo o porquê.
- O que será que houve? Será que Elena teve outra crise?
- A única coisa que eu sei, é que a minha filha não tem cuidado de si mesma, nunca a vi tão magra. - lavou as mãos - Enquanto ela estive sob o meu teto irei cuidar dela. - começou a retirar os mantimentos das sacolas para preparar o almoço.
- Eu te ajudo! - falei decidida.
Estávamos tão concentradas em preparar algo para Mia comer que não notamos quando Júlia saiu.
- Jú? - chamei, silêncio, virei para onde ela estava.
Lúcia estava sorrindo próxima a porta, aproximei. O meu coração acelerou, os nossos olhares se encontraram.
“Aquilo que está escrito no coração não necessita de agendas porque a gente não esquece. O que a memória ama fica eterno.”
Rubem Alves
Continua...
Fim do capítulo
Adaptação da música (Filha - Rick e Renner) para o capítulo, espero que tenham gostado :)
Link da música original: https://www.youtube.com/watch?v=5UddrdLNy-Q
Tema de Esther: https://www.youtube.com/watch?v=gJwV3Lt5AEg#t=212.95
Comentar este capítulo:
lis
Em: 05/03/2016
autora má kkkkkk, mais vindo de vc sei que vai valer a pena a leitura pois vc escreve muito bem
Resposta do autor em 05/03/2016:
Hahaha má é? Ainda não viu nada muahahahaha ;*
Resposta do autor em 05/03/2016:
Hahaha má é? Ainda não viu nada muahahahaha ;*
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lis
Em: 04/03/2016
Boa noite autora, tudo bem? Uau que capitulo hein, lindo a Esther ter adotado a Julia e gostei mais ainda dela enfrentando a avó para defender a Mia e a Julia, nossa ela ama muito a Mia né ainda não conseguiu seguir em frente com outra pessoa e agora que ela resolveu dar uma chance e sair com a médica tudo indica que a Mia vai precisar muito dela pelo que está passando com a esposa, maravilhosa sua história parabéns.
Resposta do autor em 04/03/2016:
Boa noite querida, tudo sim e contigo?
Esther e Mia precisaram ter jogo de cintura pelo o que está por vir rs
#falomaisnada! ;x hahahaha... Obrigada! ;)
Resposta do autor em 04/03/2016:
precisarão*
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Ana_Clara
Em: 03/03/2016
Espero que essas duas comecem a se entender logo, já são muitos anos nesse sofrimento. A Esther errou feio com a Mia, porém ela já pagou por tudo. Agora elas merecem a chance da felicidade ao lado da Julia.
Resposta do autor em 04/03/2016:
Merecem né? Rsrs Veremos o desenrolar da história, até a próxima ;)
Resposta do autor em 04/03/2016:
Merecem né? Rsrs Veremos o desenrolar da história, até a próxima ;)
Resposta do autor em 04/03/2016:
Merecem né? Rsrs Veremos o desenrolar da história, até a próxima ;)
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lia-andrade
Em: 03/03/2016
Simplesmente mais um capítulo maravilhoso.. amei. Super ansiosa para o próximo.
Beijos..
Resposta do autor em 04/03/2016:
Obrigada querida! ;)
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Mille
Em: 03/03/2016
Que capitulo enorme, e muito bom.
Adoro sua história que ela nos prende, e o amor da Ester e Mia já vem de muitos tempos.
Bjus
Resposta do autor em 03/03/2016:
Kkkkk Pois é, não foi nada fácil resumir 5 anos da vida delas! Foi bem exaustivo, mas gratificante! Acho q tamanho dele deu pra compensar o atraso na postagem rss
Obrigada! :)
Resposta do autor em 03/03/2016:
Kkkkk Pois é, não foi nada fácil resumir 5 anos da vida delas! Foi bem exaustivo, mas gratificante! Acho q tamanho dele deu pra compensar o atraso na postagem rss
Obrigada! :)
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