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A ESCRAVA ISAURA por Natasha Romanova

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Palavras: 2218
Acessos: 2638   |  Postado em: 00/00/0000

Capítulo 5 Nós

Malvina rapidamente montou em Trovo, estendo a mo para que mais uma vez eu ficasse a merc de desejos profanos. No sei onde busquei foras para conseguir guiar-nos at a senzala, no entanto, "levei-a" por entre a mata a beira do rio, passando por um verdadeiro bosque onde podamos ouvir diversos sons de animais. O rio era curvilneo, estreito, rodeado por pedras, rvores e arbustos, onde apenas pequenos feixes de luz chegavam. Ao longo do bosque, a mata densa ia tornando-se menos "fechada", possibilitando uma viso mais ampla do que estava mais a nossa frente. Chegamos em um determinado ponto, onde o rio fazia uma curva mais fechada cortando a nossa frente, estvamos num ponto onde era possvel ter uma viso de "cima" da senzala mais adiante. Na outra margem do rio a nossa frente, havia uma pequena roda d'gua cercada por pequenas pedras emersas. Malvina desmontou do cavalo ajudando-me a fazer o mesmo, para logo em seguida prend-lo em uma rvore qualquer. Fiquei ali observando-a, enquanto ela alguns passos a minha frente, parecia estarrecida com o que via. A grande construo de dois andares conhecida como senzala, no passava de um alojamento velho, abraado por rvores trepadeiras e musgo, dando um ar triste e sombrio ao lugar, as grandes janelas no possuam vidros e sim, madeiras grossas e firmes pregadas pelo lado exterior, certamente para impedir que os escravos tentassem fugir durante a noite. O local parecia deserto, afinal neste horrio a maior parte dos escravos se encontravam nas lavouras, enquanto outros estavam no poro da casa grande fazendo servios domsticos. --Ento...isso uma senzala? Malvina voltou-se em minha direo, fixando seus olhos intensos em mim, no consegui definir o misto de sentimentos expressos em seus o olhos. --Sim senhora. Respondi de imediato, no gostava de estar ali, no queria estar ali, no me agradava em nada aquele lugar, muito pelo contrrio. Saber que minha me vivera num local como aquele at o dia de sua morte, no era uma das melhores sensaes para se sentir. Queria ir embora dali o mais rpido possvel, no entanto, no podia simplesmente dizer isso a minha senhora e sair arrastando-a dali. --Como chegamos at l? Engoli em seco, no bastava ver? ela tinha que ir at l? Suspirei angustiada, antes de andar at onde minha senhora estava, se ela realmente queria ir at l, ento eu a levaria. --H uma trilha de pedras logo ali... Mencionei apontando na direo onde havia algumas pedras entre o rio. --Ento vamos! Ela nem esperou que me pronunciasse, simplesmente apanhou minha mo entrelaando nossos dedos, e saiu andando praticamente me arrastando na direo do rio. Eu poderia ter protestado, dito o quo incmodo era pra mim estar ali, dito que ela poderia encontrar coisas que no gostaria de ver se atravessasse o rio, mas tudo parece ter evaporado do meu crebro, no momento que senti sua mo macia e ao mesmo tempo firme, em contato com a minha, causando-me uma dorzinha desconhecida e incmoda no ventre. Atravessamos o rio, e em silncio de mos dadas andamos at ficarmos de frente a senzala, e foi neste instante que pela primeira vez Malvina o vio, mas infelizmente no seria a ltima. Era uma espcie de altar, que possua um tronco que com correntes atreladas a si, ele estava fixado bem no centro daquele espao. Senti sua mo apertar a minha, enquanto seu corpo retesava diante do desconhecido. Ficamos longos minutos diante do tronco, eu relembrando as inmeras vezes que vi homens, mulheres e at mesmo crianas sendo castigadas naquele local, enquanto Malvina tentada digerir o que aquilo representava. --Isso...isso o que eu estou pensando? --Uhum... Nesse instante ouvimos um barulho vindo de dentro da senzala, ambas atradas pelo som, encaramo-nos antes de andarmos na direo da grande porta de ferro que dava acesso ao interior do alojamento. Mais um barulho se fez presente, porm desta vez fora uma espcie de gemido, o que fez com que estancssemos no meio do caminho. Eu j imaginava o que ali se passava, e no estava nenhum pouco interessada em presenciar, sem mencionar que tambm no queria que Malvina visse algo do gnero. --Minha senhora?...acho que devemos voltar... Malvina olhou-me por alguns segundos, como se ponderasse minha proposta, logo aps olhou para a porta de ferro, e sentenciou. --Algum pode estar precisando de ajuda...no podemos ignorar... Senti uma espcie de vazio tomando conta de mim, e uma angstia crescente no instante que minha senhora desprendeu-se de minha mo, andando decidida na direo da porta. Resignada, assustada e temerosa, acabei seguindo-a a passos largos. A porta estava destrancada, no entanto, no momento que Malvina a forara para entrar um barulho estridente de metal se fez presente, revelando nossa chegada e assustando os responsveis pelos sons ouvidos por ns, pouco antes. O homem bruto de calas baixadas na altura dos joelhos, que estava sobre o corpo magro de um jovem escrava, levantou-se num rompante, claramente irritado pela interrupo. Ainda pudemos perceber o constrangimento e as lgrimas no rosto da menina, enquanto o homem recompunha suas vestimentas, e vinha raivoso em nossa direo. --Mas que diabos pensam que esto fazendo? Ele avanou ferozmente em minha direo, at porque eu conhecia muito bem o feitor Juvncio, e certamente ele no conhecia a nova senhora da fazenda, tanto que agiu feito o ogro que era. --Sua escrava infeliz! Veio fazer o que aqui? T querendo que eu trace voc tambm ? Ele segurava-me violentamente pelo brao, no entanto, Malvina ps-se entre ns empurrando-o fortemente, afastando-o de mim, sem dar chances de revide. --No ouse toc-la! Sequer dirija-se a ela dessa forma! --E quem voc pensa que pra me dizer isso sua vadia? --Eu sou Malvina Almeida! Sua senhora! Juvncio calou-se imediatamente, sabia da chegada dos novos senhores, mas no imaginara que a esposa do Sr. Lencio se daria ao trabalho de ir at a senzala, surpreend-lo com uma de suas escravas. Malvina percebendo o quo acuado o homem ficara com sua postura, atacou novamente deixando claro quem mandava ali. --No quero nem saber que diabos voc pensava estar fazendo com aquela menina, mas que fique claro que foi a ltima vez que algo assim aconteceu. Do contrrio, voc ser aoitado com um escravo! Certamente aquela fora a maior afronta que o feitor j sofrera em sua vida, tanto que no conseguiu manter-se no lugar de empregado. Ousou retrucar sua senhora. --No sou um desses negros pra ser aoitado! No pode fazer isso. --Pois experimente repetir o que acabo de presenciar, e descobrir que no s posso mandar aoita-lo, como mat-lo e jog-lo no rio! Malvina aproximou-se ainda mais do homem, e sentenciou. --Ningum sentir sua falta! Toro tremendamente para que pague pra ver! Juvncio engoliu os diversos xingamentos que estava para proferir, ajeitando o chapu na cabea, antes de deixar a senzala a passos largos. Foi nesse instante que Malvina finalmente fixou seus olhos na escrava, que se encolhia no cho frio e ftido da senzala. Minha senhora aproximou-se lentamente, agachando-se prximo a garota, que soluava baixinho com medo das consequncias. --Voc est bem? A escrava no respondeu, apenas chorou um pouco mais. --Est tudo bem agora, ele no vai maltrata-la de novo. Malvina levantou-se, deixando a garota onde estava vindo em minha direo. --Vamos embora Isaura! No esperei que repetisse, acompanhei-a a passos largos para fora da senzala, mas no sem antes olhar piedosa mais uma vez para a pobre escrava que encontrava-se na mesma posio. Malvina andava rpido em minha frente, e assim foi at que chegssemos na outra margem do rio, onde havamos deixado Trovo. Minha senhora respirava com dificuldade, parecia nervosa, angustiada, parou ao lado do cavalo, com ambas as mos apertando firme parte da cela do animal. Mantive-me em silncio pouco atrs dela, no sabia o que falar, e tambm no sabia se deveria falar. De repente Malvina virou-se em minha direo, seus olhos aparentavam uma fria desconhecida, misturada com...medo ou receio, no sei ao certo. --Eu, eu...eu j no sei se agi corretamente interrompendo-os. Como assim? Lgico que ela estivera correta em sua atitude, porqu a dvida? Ela viu que a escrava no passava de uma garota. --Ela...estava chorando, parecia com medo de mim! Com medo do que eu poderia fazer com ela, ou com medo de ficar sem seu homem... Como? Ela estava brincando comigo n? Era s uma menina. --No creio que seja esse o motivo minha senhora. O feitor Juvncio acostumado a tomar as escravas para si, contra vontade delas. --Foi exatamente isso que pensei quando os surpreendemos, mas a...eu no entendi o desespero dela quando falei que aquilo no iria se repetir...era como se ela quisesse tudo aquilo de novo... --No acredito nisso! Ela estava aliviada com sua interveno...o choro fora uma forma de expressar seu alvio... --E se no for isso? E se ela quisesse estar com o feitor? --Nenhuma escrava quer estar com seu feitor! Houve um breve silncio, nossos olhos duelavam, ambos imersos nos prprias verdades. --Sua me quis! Aquilo foi um tapa na cara, mais que isso, um soco no estmago. No podia acreditar que Malvina estava comparando aquela menina com minha me, menos ainda que estivesse comparando meu pai com aquele monstro. Meu pai jamais maltratara os escravos, menos ainda minha me, era uma situao completamente diferente. No revidei seu insulto, certamente iria para o tronco se o fizesse. Abaixei os olhos, desviando de suas esmeraldas raivosas. At ouvir mais um insulto vindo dela. --E voc Isaura? Costuma se deitar com os feitores? Lgrimas involuntrias marejaram meus olhos, encarei-a mesmo assim. Eu era pura, fui criada pela minha antiga senhora na casa grande, as poucas vezes que estive nas senzalas, estava acompanhada de meu pai. Jamais havia sido cortejada, no permitira que homem algum me tocasse, primeiro porque um homem s deveria tocar uma mulher depois do casamento, e segundo, porque jamais tivera vontade de estar com um. Senti o peso do meu olhar incomod-la, era como se atravs do meu olhar ela percebesse que havia sido injusta, maldosa, precipitada. A raiva abrandou, seus olhos antes turvos de dio transformaram-se em constrangidos, arrependidos, seu rosto antes rgido, agora estava tenso. Permiti que seus dedos enxugassem pela segunda vez desde que nos conhecamos, lgrimas que desprendiam dos meus olhos, fechei-os engolindo meu orgulho, e abrandando a mgoa que despontava no meu interior. Ela estava errada e sabia disso, era o suficiente para mim, para que pudesse perdo-la e permitir maior contato. Meu corpo estava tenso, sentia a proximidade do seu, enquanto minha pele sentia o toque suave de suas mos. Um calor gostoso e certamente pecaminoso, invadia meu corpo o balanando, almejando desavergonhadamente um contato maior, mais...ntimo. Senti quando seus lbios tocaram minha pele, mais especificamente o meu rosto, por onde as lgrimas molharam. Era como se ela estivesse "beijando onde bateu", reprimi a vontade insana de pux-la de encontro a mim, apertei fortemente as pernas na tentativa de impedir que a pulsao jamais sentida naquele local, insistisse em enfraquecer-me. Malvina era mais alta do que eu, e estava com ambas as mos segurando firme o meu rosto, enquanto sua testa permanecia encostada na minha, e sua respirao pesada vinha de encontro ao meu rosto. --Ah Isaura... Sua voz fora um sussurro, rouco, sensual, eu sequer sabia o significado da palavra sensual, mas gostava da forma como a pronncia soava, e naquele momento parecia se encaixar perfeitamente com ela. Estremeci dos ps a cabea, para logo em seguida prender a respirao, pois o que veio derrubou todas as barreiras que a "igreja" havia levantado, pois eu estava cometendo um grande pecado, e estava adorando. Seus lbios desceram sobre os meus, quentes, midos, delicados. Fora s um toque, um toque terno, carinhoso, uma prova de que havia sentimento naquele ato, e no a depravao que a igreja pregava. Malvina deixou sua boca sobre a minha por uns segundos, para em seguida prender meu lbio inferior entre os seus, e toc-lo com a lngua. No foi um beijo, hoje eu sei que no fora um beijo pois algum tempo depois eu descobriria o que era beijar de verdade, mas fora o suficiente para que minha senhora tomasse para si a minha alma.

Fim do capítulo


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Comentários para 5 - Capítulo 5 Nós :
Fanatica
Fanatica

Em: 29/12/2015

Oi autora! 

Estou chegando agora para comentar, confesso que achei a estória muito interessante e de todos esse capítulo foi o mais incrível que li, gostei da emoção que você passou, parabéns!

Malvina é uma mulher e tanto, pegou pesado com Isaura, mas nem dar para julgar, esse era o pensamneto da época, mas é muito bonito ver Isaura cheia dos desejos sem os entender, se é difícil hoje, imagina antes...

Bjs e Feliz ano Novo pra ti e os ama!


Resposta do autor em 31/12/2015: Oi sua linda! Uma imensa honra ter uma grande autora como tu, comentando minha humilde fic, fico imensamente feliz com isso. Um maravilhoso 2016 pra ti. Beijos.

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bia05
bia05

Em: 28/12/2015

Amei esse capitulo *-*
Malvina deveria pensar em suas palavras antes de dizê-las.
Feitor com certeza, não vai deixar barato.

Beijo linda *-* até o próximo hein.
Resposta do autor em 31/12/2015: Próximo Cap: ON KKKKK feliz 2016 sua linda.

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tamaracae
tamaracae

Em: 27/12/2015

Muita criativa sua versão, você manteve os.personagens principais, mas sem abrir mão do seu olhar, parabéns! Espero que a Malvinas se livre do.mala do Leôncio logo, beijo!


Resposta do autor em 31/12/2015: Sério que uma autora do seu calibre está lendo meu humilde conto? Assim eu começo o ano muito bem. Imensamente feliz viu? Beijos e ótimo ano novo.

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Nik
Nik

Em: 27/12/2015

Aii mdss, nem preciso dizer q amei esse capítulo amo a maneira como VC escreve da pra sentir nitidamente td o q leio adoro suas personagens 😍nao demore tanto pra postar pfvr ....anciosa por mais rsrs..


Resposta do autor em 27/12/2015: Não irei demorar, obrigada pelo carinho e por estar acompanhando! Beijos sua linda

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