Capítulo 13
Esther
- Não pode fazer isso! - não estava acreditando no pedido dele.
- Eu não estou pedindo, estou comunicando. - suspirou - Esther, dê uma chance para nós. Somos a sua família, sei que fui ausente por muito tempo, mas agora estarei mais presente... estaremos. Por favor Esther, nos dê essa chance.
"Mia, tia Lú, e as meninas" Pensei triste, como viverei sem elas constantemente em minha vida. Mas era o meu pai. Ele sempre fez as minhas vontades e desejos, e estava apenas pedindo uma chance para sermos uma família de verdade. "Mia" Respirei fundo.
- Será difícil no começo, mas fará novas amizades. - abraçou-me forte - Não estou pedindo para cortar relações, somente que aceite a minha decisão de nos tornar uma família completa.
- Mas e Mia? - sussurrei.
- Vocês poderão ser ver em suas férias. Filha, não é para já. Ainda estou terminando de acertar tudo, antes de nos mudarmos para o Rio de Janeiro. Assim que estiver tudo pronto, irei transferir a sua matrícula.
- Vovó já sabe?
- Ela que está me ajudando.
- Ela vai junto?
- Vai sim. A casa já está sendo avaliada para venda. - acaríciou meu rosto - Você e Miriam se deram tão bem nessa viagem, para mim, era o mais importante.
- Gostei dela.
- E ela de você! Miriam não irá substituir a sua mãe, ou Lúcia, elas são inestimáveis.
Deixei-me envolver em seu abraço acolhedor, concordando. "Como irei contar à ela?".
***
Tentei prestar atenção no que era dito, tão difícil. A visita ao Rijksmuseum havia perdido o sentido.
- Acho que você gostou mais do museu Van Gogh. - comentou - Está ignorando completamente, A Batalha de Waterloo, de Jan Willem Pieneman.
Olhei para a pintura a minha frente, voltando a minha atenção para Miriam.
- Desculpe, mas não me sinto muito bem.
- Imagino. Ainda está absorvendo a notícia.
- Sim.
- Um momento.
Afastou indo até Stuart, o guia local. Conversaram rapidamente, ele apenas assentiu. Sorriu, chamando-me.
- Vamos?
Fomos para cafeteria Starbucks coffee. O dia estava um pouco frio, pedimos um chocolate quente.
- Pedi para Fernando, deixarmos à sós, para conversarmos melhor. - pensou - Sabe, demorei para aceitar o pedido dele. - bebericou - Estamos juntos um pouco mais de três anos.
Olhei surpresa. Ela sorria.
- Beatriz não é uma mulher fácil de se lidar. Conheci ela pelas revistas na época, uma socialite que gostava de atenção.
- Ela não gosta muito de mim. - confessei.
- Não sei se posso discordar. - refletiu - Mas não é sua culpa. Você se parece muito com Diana, e ela batia de frente com Beatriz. Pelo menos foi o que eu soube. Uma antipatia antiga.
- Conheceu a minha mãe?
- Sim, e Lúcia também. Apesar dela não ter se lembrado de mim.
- Como não? - fiquei curiosa.
- Eu era mais nova, e nunca fomos amigas. Diferente delas. Eram unha e carne, como dizem popularmente.
- Achei que você fosse canadense.
- Eu sou. Sua mãe passou uma temporada Quebec. Eu ajudava o meu pai, na hospedaria. - tocou o meu pingente - Eu me lembro de você.
- Meu pai que deu à ela! - falei orgulhosa.
- Eles eram vendidos sobre encomenda aos pares. Para jovens amantes apaixonados. E sinceramente, não me lembro de ter visto Fernando naquela temporada. - tentou lembrar-se. - Eu sou muito boa para lembrar de fisionomias.
- Então como o conheceu? - fiquei confusa.
- Pergunta interessante. Eu havia saído de um jantar de negócios, e fui participar de uma confraternização de um sócio. Estavam expondo obras de artistas não reconhecidos, quando a assinatura de Diana Dietze, chamou a minha atenção. Achei que era apenas coincidência, quando vi a fotografia dela.
- E me lembro disso. Fizeram homenagem a ela, um ano após sua morte. - comentei triste.
- Sim. Foi quando eu soube. Alexander nos apresentou. - refletiu - Não sei se acredito em destino, mas dizem que Deus escreve certo por linhas tortas, talvez seja o caso, ou não.
Tomei um gole da bebida, refletindo.
- Então de quem ela ganhou o colar?
- Sinceramente, eu não sei. Perguntou à Lúcia?
- Sempre achei que fosse o meu pai que havia dado.
- Perguntou para eles? - insistiu.
- Mamãe disse que ganhou do amor da vida dela... - falei decepcionada.
- Normal acharmos que nossos pais foram feitos um para outro - sorriu amigável.
Conversamos bastante, e depois fomos encontrar com o meu pai no cruzeiro que faziam pelos canais, almoçaríamos por lá. Por diversas vezes quis perguntar ao meu pai sobre a história desse colar, mas ao vê-lo tão feliz para trazer uma lembrança dolorosa, achei melhor esquecer. "O que passou, passou".
***
Estava tão cansada no dia que retornamos de viagem, que meu pai deixou faltar. Nunca passam nada interessante nos primeiros dias de aulas. "No caso, os meus últimos com as meninas" Sentia as lágrimas formando. Peguei o meu caderno, e resolvi utilizar o presente que Miriam deu. Bateram na porta.
- Pode entrar. - estava terminando o desenho.
- Achei que tivesse dormindo menina. Vim chamá-la para o jantar. - entrou.
- Estava agitada demais Sarah. - continuei concentrada.
- Nossa! Se você fosse loira e tivesse olhos verdes, diria que estou na presença da dona Diana. - olhando para os desenhos - Sem dúvida herdou o dom dela. Estão lindos!
Sorri triste. Voltando a minha atenção para ela.
- Ela não teve muito tempo para ensinar-me tudo.
- Mas ô só, não precisa. Está no seu sangue, parece até uma fotografia da menina Amélia. Lembra muito com a mãe dela, quando era mais jovem.
- Você era amiga de mamãe, não era? - comentei.
- Dona Diana era um amor de pessoa. Que Deus a tenha. Menina, olha a hora, a sua vó vai brigar comigo. - apressou em sair.
Pensei, toquei o meu pingente.
- Sarah?
- Sim?
- Você lembra como minha mãe ganhou esse pingente? Quero dizer... de quem ela ganhou?
Ficou pensativa.
- Olha, eu não sei... - lembrando-se - Mas a Dona Lúcia, tinha um igualzinho também. - saiu.
***
- Já chegamos. - Gaspar, avisou.
- Obrigada. - peguei minha mochila, e sai.
O pessoal estava todo para fora, esperando os portões serem abertos. Tentei localizar as meninas. Chamei por Mia. "Cadê você?" Precisava do seu abraço. Subi no banco, encontrei com o seu sorriso. "Como vou sentir falta dele!" Desci e fui ao seu encontro. Ri quando levantou-me do chão rodopiando em um abraço apertado.
- Minha estrelinha! - ainda abraçada a mim.
- Gatinha manhosa. - sufoquei um soluço.
- O que foi? Te machuquei? - olhou-me preocupada, tocou meu rosto com carinho.
- Não. Estava com saudades. - segurei a sua mão, beijando-lhe a palma.
Olhei para as meninas, Manu estava com os olhinhos cheios de lágrimas, sorri, chamando para um abraço apertado.
- Estherzinha, que saudades! - choramingou - Essa morena que fica monopolizando os seus abraços. - ralhou fingindo de brava.
- Também estava. - chorei junto, pela saudades antecipadas.
Abracei Dani, Mia observava-me. "Eu sei que você me sente" Tentei disfarçar as minhas emoções, queria curtir as minhas meninas.
- Então, trouxe presentes? - Manu, olhou em expectativas.
- Eterna criança - falamos juntas, rindo.
***
- O QUÊ? - exasperou - ELE NÃO PODE FAZER ISSO!
Quando acabou a aula, nos reunimos na casa de Mia. Tio Rique não foi almoçar. Tia Lúcia, Dani e Manuela, assistiam a tudo.
- Claro que pode, ele é o meu pai. - já imaginava essa explosão.
- E você aceitou isso, assim numa boa? - falou irritada.
- Acha que está sendo fácil para mim? - "Será que não entende?"
- Mas nós somos a sua família. - falou resignada.
- Eles também. - encarei o seu olhar.
- Licença. - levantou e foi para o quarto.
- Mia!? - pedi desculpas e segui ela.
***
Amélia
Chutei a primeira coisa na minha frente, assim que entrei no quarto. "Ótimo! Vou ter que comprar outro espelho!" Fechei meus olhos, esfregando as minhas têmporas. Ouvi a porta abrindo, e fechando em seguida. Suas mãos envolveram a minha cintura, abraçando-me forte.
- Por favor, não torna mais difícil para mim. - pediu.
- As coisas estão bem, por que ele precisa mudar tudo?
- Ele só quer uma chance.
- Depois que você foi praticamente criada por minha mãe? - ironizei.
Soltou-me, virei para ela.
- Fui um peso para vocês? - perguntou sentida.
- Claro que não! - corrigi depressa - Só não é justo, agora ele querer exercer o seu papel de pai, e tirar você de nós!
- Justo ou não, é o direito dele. - abaixou a cabeça - E eu vou respeitar.
- Mas não é o que você quer, é? - levantei seu rosto. - Você quer isso? - senti que a minha própria barreira iria romper.
- Se eu quero afastar-me de você? Não! - respirou fundo - Se eu quero ter uma família como a sua? ... Sim! - vi a verdade em seu olhar.
Pressionei minha mandíbulas. "Droga, droga, droga!" Esther ás vezes chorava no meio da noite, sonhando com Diana, pedindo para voltar. Eu, mas que ninguém sei o quanto família significa para ela.
- E o que eu vou fazer sem a minha estrelinha guia? - murmurei.
- Talvez Dani, ou Bruna te consolem. - sua voz soou fria.
***
Esther
Minhas emoções estavam a flor da pele. Comentário de Sarah, foi como uma bomba para mim. Ver Mia explodindo e saber que ficarei sem ela, mas que Dani, e Bruna estariam por perto, falei sem pensar.
- Do que você está falando? - percebi o receio em sua voz.
- Nada, falei sem pensar. - tentei fugir.
- Não diria isso sem um motivo.
- Falei sem pensar. - tentei sair, mas ela bloqueou a porta.
- O que você sabe? - cruzou os braços.
Afastei. Ficar no mesmo quarto que ela, aquele beijo que nunca saiu da minha cabeça.
- Não acho certo...
- O quê? - insistia.
- Que você se deixe influenciar por pessoas como Bruna, e Daniele! - um sentimento cegou os meus sentidos.
Olhou-me surpresa, entendeu do que se tratava. Ela tentou me tocar, equivei, pois não queria chorar na frente dela. Porém fui mal interpretada.
***
Amélia
"Ela sabe!" Tentei tocá-la, mas fui repelida.
- Eu não sou contagiosa. - falei sentida.
Ela parece despertar, tentando corrigir.
- Nunca achei que você fosse... - interrompi.
- Como pode pensar assim? - sentia as lágrimas caindo, era dolorido saber que quem eu mais amo, tem nojo de mim.
- Mia, para... me ouve. - tentou segurar-me.
- Não! Você foi bem clara. Demonstrou muito bem o que pessoas como eu e Bruna somos para você.
- Não falei de você - parecia confusa - Só não acho certo... eu... eu não sei o que sinto em relação a isso tudo.
- Sim, você sabe... só não quer admitir... - passei as mãos em meus cabelos - Fala, Esther!
***
Esther
- Anda, Fala! - insistiu.
- Mia... - não importei que visse o quanto eu estava sofrendo também.
- Você me odeia, não é? Assim como Beatriz odeia "degenerados"? - sua voz estava embargada.
Amélia já não dizia coisa com coisa, estava expondo toda a dor que causei a ela. Não aguentei mais e segurei seu rosto, fazendo sua testa encostar na minha.
- Eu jamais poderia te odiar Mia... - ela tentou recuar, segurei firme - Olha para mim! - acariciei sua face - Olha... - pedi com carinho.
Beijei o caminho de suas lágrimas, sentindo a minhas próprias. Aqueles olhos negros que tanto transmitiam alegria, agora estavam opacos, e magoados.
- Eu te amo.
- Não... - murmurou.
Toquei os seus lábios com os meus dedos, calando-a. Deixei de sentir; de pensar. Aproximei o meu rosto, esfregando o meu nariz no dela, numa carícia. Rocei meus lábios nos seus, demonstrando a verdade em minhas palavras. Fechei meus olhos entregando-me. O calor de sua boca, suas mãos segurando firme a minha cintura. Meu coração disparou, enquanto eu sentia sua boca envolvendo a minha. Sua mão tocou meu rosto, indo até a minha nuca, aprofundando o beijo. Passou suavemente a ponta da língua em meus lábios, pedindo passagem. Seu beijo era delicado, ao mesmo tempo selvagem. Arrepiei inteira com o contato de sua língua acariciando a minha. Suspirei em sua boca, permitindo um desejo que jamais pensei em sentir.
“O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”
Fernando Pessoa
Continua...
Fim do capítulo
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paulaOliveira
Em: 05/12/2015
Arrasou.....
Resposta do autor em 08/12/2015:
Que bom que gostou! ;)
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Krikadreammy
Em: 05/12/2015
Oi Autora,
Como vc é má!!!! Como pode parar justamente agora???
Este capítulo está muuuito bom.
Estou ansiosa com o q está por vir...
Bjs.
Resposta do autor em 08/12/2015:
Hahaha
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rafamachado
Em: 05/12/2015
Até que enfim Esther!! Já estava ficando agoniada com essas duass kkkkk
Diana e Lúcia, será?? Tô louca pra saber mais sobre isto.!!
Não demore autoraaa :***
Resposta do autor em 08/12/2015:
Demorou né? rsrs Mas foi boa a espera, ein? rsrs
Esse beijo foi totalmente inspirado no meu casal favorito, amo demais Tibette ♥
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Mika
Em: 05/12/2015
Caracaaaaaa...
muito Fo*** esse capítulo...
ai meu coração...
como vc para justamente ai autora?!!!
isso é maldade, que que isso!!!
Esse romance é lindo!
Não demore postar, please! Não maltrate nosso coração autora!
beijo
Resposta do autor em 08/12/2015:
OI, desculpe a demora em responder! Rs
Obrigada. A cada comentário de vcs, m inspira cada vez mais ;)
Continuem hahaha
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